# A Cidade e as Serras

## Part 15

Book page: https://www.cyberlibrary.org/pt/books/a-cidade-e-as-serras-18220/index.md

Eu ria da tragica ameaça do excellente homem. E Jacintho, muito docemente, para conciliar o Silverio:

--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de réis! Digamos dez, por que eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa.

Então o Silverio teve um brado de terror:

--Mas então, Ex.^{mo} Senhor, é uma revolução!

E como nós, irresistivelmente, riamos dos seus olhos esgazeados de horror, dos seus immensos braços abertos para traz, como se visse o mundo desabar,--o bom Silverio encavacou:

--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, mobilias, pratas, bragal, dez contos de réis! Então tambem eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bella chalaça!... Está bôa a risota!

E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a responsabilidade n'aquelle disparate magnifico:

--Emfim, V. Ex.^a é quem manda!

--Está mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que paga essa gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito que melhorar. Venha vossê almoçar comnosco. E conversamos.

Tão saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu mais espanto com essa «melhoria de rendas». Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia licença a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e estava em seguida ás ordens de S. Ex.^a.

Metteu a corta matto, saltando um cancello. E nós seguimos, com passos que eram ligeiros, pela hora do almoço que se retardára, pello azul alegre que reapparecia, e por toda aquella justiça feita á pobresa da serra.

--Não perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo, com uma ternura que não disfarcei, no hombro do meu amigo.

--Que miseria, Zé Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por ahi, á vista da minha casa, outras casas, onde creanças teem fome! É horrivel...

Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casarão, ao fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um fremito alegre e doce.

--Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella lenda de Santo Ambrosio... Não, não era Santo Ambrosio... Não me lembra o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavalleiro peccador, que se enamorára d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa mulher, só por a avistar a distancia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de repente, ergueu o veu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavalleiro o seio roido por uma chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua belleza de verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a sua grande ulcera... É talvez a tua preparação para S. Jacintho.

Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete:

---É verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja Deus, é das que eu posso curar!

Não desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a escadaria do casarão.

XI

No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guiães. E, desde então, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas entre a nossa e a velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a desviava d'essa estrada familiar, conduzindo a uma cavallariça familiar, (onde ella privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. Até a tia Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella Tormes, para onde eu sempre corria, d'aquelle Principe de quem incessantemente celebrava o rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e as chimeras agricolas. Já um dia com um grão de sal e ironia,--o unico que cabia n'um coração todo cheio d'innocencia,--ella me dissera, movendo com mais vivacidade as agulhas da sua meia:

--Olha que te podes gabar! Até me tens feito curiosidade de conhecer esse Jacintho... Traze cá essa maravilha, menino!

Eu rira:

--Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos, a jantar... Damos uma festa, haverá um bailarico no pateo, e vem ahi toda essa senhorama dos arredores. Talvez até se arranje uma noiva para o Jacintho.

Eu, com effeito, já convidára o meu Principe para este «natalicio». E de resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aquelles senhores das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma solidão muito monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se enrudece e ganha uma casca aspera como a das arvores, na solidão.

--E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconciliação com a Natureza, e o renunciamento ás mentiras da Civilisação é uma linda historia... Mas, caramba, faltam mulheres!

Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:

--Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas senhoras ahi das casas dos arredores... Não sei, estou pensando que se devem parecer com legumes. Sans, nutritivas, excellentes para a panella--mas, emfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam ás Flores são sempre as mulheres das Côrtes, das Capitaes, ás quaes, invariavelmente, desde Hesiodo e de Horacio, se rendem os poetas... E evidentemente não ha perfume, nem graça, nem elegancia, nem requinte, n'uma cenoura ou n'uma couve... Não devem ser interessantes as senhoras da minha serra.

--Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, com effeito, salvo o respeito que se deve á casa illustre dos Barbedos, é um mostrengo! A irmã dos Albergarias, da quinta da Loja, tambem não tentaria nem mesmo o precisado Santo Antão. Sobretudo se se despisse, por que é um espinafre infernal! Essa realmente é legume, e não dos nutritivos.

--Tu o disseste: espinafre!

--Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa é bonita... Mas, menino, que horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do Camillo. Tu nunca leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te não sei descrever, o tom com que se falla em D. Maria, em peças de sentimento. Tu tambem nunca viste o Theatro de D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas pavorosas. «V. Ex.^a. Snr. Doutor, não se delicia com Lamartine?» Já me disse esta, a indecente!

--E tu?

--Eu! Arregalei os olhos... «Oh Lamartine!». Mas, coitada, é uma excellente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojões, as filhas de João Rojão, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicencia morre por ellas. Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que é uma belleza. Oh! uma creatura esplendida! Mas, emfim, é a mulher do Dr. Alypio, e tu renunciaste aos deveres da Civilisação... Além disso, mulher muito séria, toda absorvida nos seus dous pequenos, que parecem dous anjinhos de Murillo... E quem mais? Já agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a Mello Rebello, de Sandofim, muito engraçada, com cabello lindo... Borda na perfeição, faz doces como uma freira do antigo Regimen... Havia tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora não me lembro mais. Mas falta a flôr da Serra, que é a minha prima Joanninha, da Flôr da Malva! Essa é uma perfeição de rapariga.

--E tu, primo Zé, como tens tu resistido?

--Somos como irmãos, creados de pequeninos, mais acostumados e familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A mãe d'ella era a unica irmã da tia Vicencia, e morreu muito nova. A Joanninha, quasi desde o berço que se creou em nossa casa, em Guiães. O pae é bom homem, o tio Adrião. Erudito, antiquario, colleccionador... Collecciona toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, sinetes, fivellas... Tem uma collecção curiosa. Elle ha muito que deseja vir a Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre da bexiga, não póde montar a cavallo. E a estrada da Flôr da Malva aqui é impossivel para carruagens...

O meu Principe espreguiçára longamente os braços:

--Não, está claro! eu é que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicencia... Desejo conhecer os meus visinhos. Mas mais tarde, quando socegar. Agora ando todo occupado com o meu povo.

E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheiraes.

Na taberna do Pedro, á entrada da freguezia, ia um desusado movimento, de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;--e o Pedro, com as mangas arregaçadas, por traz do balcão, não cessava de encher os decilitros com uma vasta enfusa.

Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manhãs cedo percorria as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper no meu Principe o seu velho, maniaco furor d'accumular Civilisação! O plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeiçoado. Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume da serra, decidira pôr vidraças, apezar do mestre d'obras lhe dizer honradamente, que depois d'habitadas um mez, não haveria casa com um só vidro. Para substituir as traves classicas queria estucar os tectos;--e eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do Bom-senso, para não dotar cada casa com campainhas electricas. Nem sequer me espantei, quando elle uma manhã me declarou que a porcaria da gente do campo provinha de elles não terem onde commodamente se lavar, pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desciamos n'esse momento, com os cavallos á redea, por uma azinhaga precipitada e escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato saltava ruidosamente entre as pedras. Eu não me espantei--mas realmente me pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam alegremente do meu Principe. E além d'estes confortos, a que o João, mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados chamava «as grandezas», Jacintho meditava o bem das almas. Já encommendára ao seu architecto, em Paris, o plano perfeito d'uma escola, que elle queria erguer, n'aquelle campo da Carriça, junto á capellinha que abrigava «os ossos». Pouco a pouco, ahi crearia tambem uma bibliotheca, com livros d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem já não era possivel ensinar a lêr. Eu vergava os hombros, pensando:--«Ahi vem a terrivel accumulação das Noções! Eis o livro invadindo a Serra!» Mas outras idéas de Jacintho eram tocantes,--e eu mesmo me enthusiasmei, e excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano d'uma Creche, onde elle esperava ter manhãs muito divertidas vendo as creancinhas a gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De resto, o nosso boticario de Guiães estava já apalavrado para estabelecer uma pequena pharmacia em Tormes, sob a direcção do seu praticante, um afilhado da tia Vicencia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do Douro no _Almanach de Lembranças_. E já fôra offerecido o partido medico de Tormes, com ordenado de 600$000 réis.

--Não te falta senão um Theatro! dizia eu, rindo.

--Um theatro não. Mas tenho a idéa d'uma sala, com projecções de lanterna magica, para ensinar a esta pobre gente as cidades d'esse mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado de Historia.

E tambem me ensoberbeci com esta innovação!--E quando a contei ao tio Adrião, o digno antiquario bateu, apezar do seu rheumatismo, uma palmada tremenda na côxa. «Sim, senhor! Bella idéa! Assim se podia ensinar áquella gente illetrada, vivamente, por imagens, a Historia Santa, a Historia Romana, até a Historia de Portugal!...» E voltado para a prima Joanninha, o tio Adrião declarou Jacintho um «homem de coração!»

E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe. N'aquelle, «guarde-o Deus, meu senhor!» com que as mulheres ao passar o saudavam, se voltavam para o vêr ainda, havia uma seriedade d'oração, o bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As creanças a quem elle distribuia tostões, farejavam de longe a sua passagem,--e era em torno d'elle um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, já não tinham medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se chapára, ao desembocar da alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a estrada, logo ao outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o ordenasse, veio por dedicação ensaibrar e alisar aquelle pedaço perigoso de caminho, aterrados com o risco que correra o bom senhor. Já pela serra se espalhava esse nome de «bom senhor». Os mais edosos da freguezia não o encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos desdentados:--_Este é o nosso bemfeitor_! Por vezes, alguma velha corria do fundo do eido, ou vinha á porta do casebre, ao avistal-o no caminho, para gritar, com grandes gestos dos braços magros: «Ai que Deus o cubra de bençãos! Que Deus o cubra de bençãos!»

Aos domingos, o padre José Maria, (bom amigo meu e grande caçador) vinha de Sandofim, na sua egoa ruça, a Tormes, para celebrar a missa na Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como os Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o não suppuzessem estranho a Deus. Quasi sempre então elle recebia presentes, que as filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe á varanda, e eram vasos de manjaricão, ou um grosso ramalhete de cravos, e por vezes um gordo pato. Havia então uma distribuição de cavacas e merengues de Guiães, ás raparigas e ás creanças,--e, no pateo, para os homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silverio já sustentava com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em breve disporia de mais votos nas eleições que o Dr. Alypio. E eu proprio me impressionei, quando o Melchior me contou que o João Torrado, um velho singular d'aquelles sitios, de grandes barbas brancas, hervanario, vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador mysterioso d'uma cova no alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D. Sebastião, que voltára!

XII

Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um Domingo. Toda essa semana a passára eu em Guiães, nos preparos da vindima,--e de manhã cedo, n'esse Domingo illustre, me fui debruçar da varanda do quarto do saudoso tio Affonso, vigiando a estrada, por onde devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a casa do seu Zé Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava atarefada pela cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Principe «o pessoal» da serra, convidára para jantar algumas familias amigas, dos arredores, as que tinham carruagens ou carroções, e podiam, pelas estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um bailarico campestre, no pateo, já enfeitado para esse effeito de lanternas chinezas. Mas logo ás dez horas me desesperei, ao receber, por um moço da Flôr da Malva, uma carta da prima Joanninha, em que dizia «a pena de não poder vir porque o Papá estava desde a vespera com um leicenço, e ella não o queria abandonar.» Corri indignado á cosinha, onde a tia Vicencia presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro d'uma immensa terrina.

--A Joanninha não vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um leicenço... Aquelle tio Adrião escolhe sempre os grandes dias para ter leicenços, ou para ter a pontada...

A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se.

--Coitado! será em sitio que não se pudesse sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrosinho de folhas d'alecrim. É com que teu tio se dava bem.

Eu gritei simplesmente para o moço, que dava de beber ao burro no pateo:

--Dize á Snr.^a D. Joanninha que sentimos muito... Que talvez eu lá appareça ámanhã.

E voltei á janella, impaciente, por que o relogio do corredor, muito atrazado, já cantára a meia hora depois das dez e o Principe tardava para o almoço. Mas, mal eu me chegára á varanda, appareceu justamente na volta da estrada Jacintho, de grande chapeu de palha, no seu cavallo, seguido do Grillo que, tambem de chapeu de palha, e abrigado sob um immenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardão da velha egoa do Melchior. Atraz, um moço com uma maleta á cabeça. E eu, na alegria de avistar emfim o meu Principe trotando para a minha casa d'aldeia, no dia dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, em Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilização, nós bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos!

--_Salvè_! gritei da varanda. _Salvè, domine Jacinthi_!

E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta!

--Isto por aqui tambem é lindo!--gritou elle de baixo. E o teu palacio tem um soberbo ar... Por onde é a porta?

Mas eu já me precipitava para o pateo--onde Jacintho, apeando, contou alegremente os tormentos do Grillo, que nunca montára a cavallo, e não cessára de berrar ante os perigos d'aquella aventura.

E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor da sua negrura, exclamava, apontando com a mão tremula para a pobre egoa, que solta, de cabeça pensativa, parecia de pedra, sobre as patas mais immoveis que marcos:

--Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu quieta. Sempre para a esquerda, sempre para a direita, pé aqui, pé além! Só para me sacudir! Só para me sacudir!

E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa contra a egoa, sobre o albardão.

Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a commoda, e adornára a cama com uma das nossas colxas da India mais ricas, côr de canario, com grandes aves d'ouro. Eu sorria, enternecido. Então estreitamos os ossos n'um grande abraço, pelo natalicio... «Trinta e oito, hein, Zé Fernandes?»--«Trinta e quatro, animal!» E o meu Principe abrindo a mala, sobria maleta de philosopho, offereceu os «nobres presentes, que são devidos», como diz sempre o astuto Ulysses na Odyssea. Era um alfinete de gravata, com uma saphira, uma cigarreira de aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte, e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a prodigalidade.

--É tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem á noite. E tomei a liberdade de trazer esta lembrança á tua tia Vicencia. Não vale nada... É só por ter pertencido á princeza de Lamballe.

Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido e quasi galante.

--A tia Vicencia não sabe quem é a princeza de Lamballe, mas ficará encantada! E é uma garantia, por que ella suspeita da tua religião, como homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao almoço!

A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, escarpado e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um delicado pedido «para se lembrar d'elle nas suas orações», duas largas rosas, mais roseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces redondas da boa senhora, que nunca recebera tão piedoso presente, com tão linda palavra. Mas o que sobretudo a captivou foi o tremendo appetite de Jacintho, a enthusiasmada convicção com que elle, accumulando no prato montes de cabidella, depois altas serras d'arroz de forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha, jurava nunca ter provado nada tão sublime. Ella resplandecia:

--Até faz gosto, até faz gosto!... Ora mais uma d'estas batatinhas recheadas...

--Com certesa, minha senhora! até duas! As minhas rações, em mesas d'estas, tão perfeitas, são sempre as de Gargantua.

--Não cites Rabelais, que a tia Vicencia não conhece os auctores profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova esse vinho branco cá da nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.

E o almoço foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, sobre as obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia Vicencia, e as esperanças da vindima, e a minha prima Joanninha, que tinha o papá doente, e o pessimo estado dos caminhos. Mas o enternecimento maior foi quando, ao servir o café, o creado poz ao lado de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho e costumado pau de canella. Não o esquecera a tia Vicencia! Ali tinha o seu pausinho de canella!--Queria que elle, em Guiães, continuasse os seus habitos como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de adopção do meu Principe como novo sobrinho da tia Vicencia.

Ella em breve recolheu á cosinha, aos preparativos do banquete. Nós fumamos um preguiçoso charuto no jardim, ao pé do repuxo, sob a recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietario, mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com desapiedada minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma arvore, um pé de vinha. Só quando a sua face começou a opar e a empallidecer, de cançaço, e que do entendimento totalmente atordoado só lhe escorria um vago--«muito bonito! bella terra!»--é que voltei os passos para casa, tornejando ainda n'uma volta larga para lhe mostrar o lagar, uma plantação d'espargos, e o sitio onde existira a ruina d'um velho castro romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom tio Affonso, para lhe mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. João I por Fernão Lopes, a primeira edição do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com a assignatura de Voltaire, foraes d'El-Rei D. Manoel, e outras maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o arrastei á adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. Cravando n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a ferocidade, declarei «que iriamos agora vêr a tulha.» Mas então, com as mãos nos rins, elle murmurou, humildemente, n'um murmurio de creança:

--Não se me dava de me sentar um poucochinho!

Tive então piedade, abri as garras, deixei que elle se arrastasse, atraz de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalçou as botas, se atirou para um fresco canapé forrado de ganga, murmurando n'um abatimento profundo:--«Bella propriedade!»

Consenti generosamente que elle adormecesse,--e eu mesmo desci a verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mãos, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha ruça. Espreitando da janella descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob o guarda-pó, sem a horrendissima filha. Corri alegremente ao quarto da tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava á pressa as suas pulseiras ricas de topazios.

--Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... Não se demore, os outros não tardam. O Manoel que esteja bem penteado, de gravata bem teza!... Vamos a vêr como corre a festa!

XIII

Ai de mim! a festa no meu anniversario não se passou com brilho, nem com alegria!

