# A Cidade e as Serras

## Part 11

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Voltamos á varanda. O meu Principe, mais conciliado com o destino inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa, de rigissimas hombreiras, mergulhamos n'uma sala, alastrada de caliça, sem tecto, coberta apenas de grossas vigas, d'onde s'ergueu uma revoada de pardaes.

--Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado.

E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas, capazes de guardar todo o grão d'uma provincia. Ao fundo a cozinha, immensa, era uma massa de fórmas negras, madeira negra, pedra negra, densas negruras de felugem secular. E n'este negrume refulgia a um canto, sobre o chão de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira, onde se aqueciam e assavam as suas grossas peças de porco e boi os Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros, negrejava um poeirento montão de cestas e ferramentas; e a claridade toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em roda do lume um bando alvoroçado de mulheres depennava frangos, remexia as caçarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas emmudeceram quando apparecemos--e d'entre ellas o pobre Melchior, estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d'abbade, correu para nós, jurando «que o jantarinho de suas Incellencias não demorava um credo»...

--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?

O digno homem ciciou uma desculpa encolhida «sobre enxergasinhas no chão...»

--É o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lençoes frescos...

--Ah, lá pelos lençoesinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu senhor! A gente apanhada sem um colxãosinho de lã, sem um lombosinho de vacca... Que eu já pensei, até lembrei á minha comadre, V. Inc.^{as} podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silverio. Tinham lá camas de ferro, lavatorios... Elle sempre é uma legoasita e mau caminho...

Jacintho, bondoso, accudiu:

--Não, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... Até gósto mais de dormir em Tormes, na minha casa da serra!

Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da fonte, regaladamente, com os beiços na bica; appeteceu a alface rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d'uma copada cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a que um bando de pombas branqueava o telhado, deslisámos até ao carreiro, cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Principe pasmava para os milheiraes, para os vetustos carvalhos plantados por vetustos Jacinthos, para os casebres espalhados sobre os cabeços á orla negra dos pinheiraes.

De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o portão senhorial entre o latir dos cães, mais mansos, farejando um dono. Jacintho reconheceu «certa nobreza» na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traçada para n'ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pagens. Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capella, louvou o Silverio, «esse ralaço», por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus.

--E esta varanda tambem é agradavel, murmurou elle mergulhando a face no aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divans de verga...

Dentro, na «nossa sala», ambos nos sentamos nos poiaes da janella, contemplando o doce socego crepuscular que lentamente se estabelecia sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma estrellinha, a Venus diamantina, languida annunciadora da noite e dos seus contentamentos. Jacintho nunca considerára demoradamente aquella estrella, de amorosa refulgencia, que perpetua no nosso Céo catholico a memoria da Deusa incomparavel:--nem assistira jámais, com a alma attenta, ao magestoso adormecer da Natureza. E este ennegrecimento dos montes que se embuçam em sombra; os arvoredos emmudecendo, cançados de susurrar; o rebrilho dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se acama e agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino que rola pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas escuras--eram para elle como iniciações. D'aquella janella, aberta sobre as serras, entrevia uma outra vida, que não anda sómente cheia do Homem e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem emfim descança.

D'este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do «jantarinho de suas Incellencias». Era n'outra sala, mais núa, mais abandonada:--e ahi logo á porta o meu super-civilisado Principe estacou, estarrecido pelo desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa, duas velas de sêbo em castiçaes de lata alumiavam grossos pratos de louça amarella, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro. Os copos, d'um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que n'elles passára em fartos annos de fartas vindimas. A malga de barro, atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado na côdea d'um immenso pão reluzia um immenso facalhão. E na cadeira senhoreal reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos velhos Jacinthos, de hirto espaldar de couro, com a madeira roída de caruncho, a clina fugia em melenas pelos rasgões do assento poido.

Uma formidavel moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbrazeada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe perdoassem porque faltára tempo para o caldinho apurar... Jacintho occupou a séde ancestral--e, durante momentos (de esgazeada anciedade para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colhér de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou--e levantou para mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam, surprehendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto:--«Está bom!»

Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia: tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo.

--Tambem lá volto! exclamava Jacintho com uma convicção immensa. É que estou com uma fome... Santo Deus! Ha annos que não sinto esta fome.

Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos piteus, a rija moça de peitos trementes, que emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacintho, em Paris, sempre abominára favas!... Tentou todavia uma garfada timida--e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo ennovoára, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:

--Optimo!... Ah, d'estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia!

E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao brodio...

--D'este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!

O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado:

--Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até suas Incellencias se riam... Mas agora, aqui, o Snr. D. Jacintho, tambem vae engordar e enrijar!

O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n'esses remotos Parizes, o Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava... E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos labios de Platão, terminou por bradar:--«É divino!» Mas nada o enthusiasmava como o vinho de Tormes, cahindo d'alto, da bojuda infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, á vela de sèbo, o copo grosso que elle orlava de leve espuma rosea, o meu Principe, com um resplendôr d'optimismo na face, citou Virgilio:

--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantará, vinho amavel d'estas serras?

Eu, que não gosto que me avantagem em saber classico, espanejei logo tambem o meu Virgilio, louvando as doçuras da vida rural:

--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a valente Etruria. Assim Roma se tornou a maravilha do mundo!

E immovel, com a mão agarrada á infusa, o Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia.

* * * * *

Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior--que ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante nós se alongava uma noite de monte, voltamos para as janellas desvidraçadas, na sala immensa, a contemplar o sumptuoso céo de verão. Philosophámos então com pachorra e facundia.

Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os astros--por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n'essa communhão com o Universo que é a unica gloria e unica consolação da Vida. Mas na serra, sem predios disformes de seis andares, sem a fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaços de chumbo puxam a alma para o pó rasteiro--um Jacintho, um Zé Fernandes, livres, bem jantados, fumando nos poiaes d'uma janella, olham para os astros e os astros olham para elles. Uns, certamente, com olhos de sublime immobilidade ou de subllime indifferença. Mas outros curiosamente, anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se tentassem, de tão longe, revelar os seus segredos, ou de tão longe comprehender os nossos...

--Oh Jacintho, que estrella é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?

--Não sei... E aquella, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?

--Não sei.

Não sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia com que sahi do ventre de Coimbra, minha Mãe espiritual. Elle, porque na sua Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim accumulado, fórma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquelle astro além se chamasse Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles que um de nós fosse Jacintho, outro Zé? Elles tão immensos, nós tão pequeninos, somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande, constituimos modos diversos d'um Sêr unico, e as nossas diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade. Molleculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do astro ao homem, do homem á flôr do trevo, da flôr do trevo ao mar sonoro--tudo é o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n'uma fibra d'esse sublime Corpo, que se não repercuta em todas, até ás mais humildes, até ás que parecem inertes e invitaes. Quando um Sol que não avisto, nunca avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e, quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacintho abateu rijamente a mão no rebordo da janella. Eu gritei:

--Acredita!... O sol tremeu.

E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d'esses grãos de pó luminoso, existia uma creação, que incessantemente nasce, perece, renasce. N'este instante, outros Jacinthos, outros Zés Fernandes, sentados ás janellas d'outras Tormes, contemplam o céo nocturno, e n'elle um pequenininho ponto de luz, que é a nossa possante Terra por nós tanto sublimada. Não terão todos esta nossa fórma, bem fragil, bem desconfortavel, e (a não ser no Apollo do Vaticano, na Venus de Milo e talvez na Princeza, de Carman) singularmente feia e burlesca. Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d'uma carne mais dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles são sêres pensantes e teem consciencia da Vida--porque decerto cada Mundo possue o seu Descartes, ou já o nosso Descartes os percorreu a todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante, formulando a unica certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_. Portanto todos nós, Habitantes dos Mundos, ás janellas dos nossos casarões, além nos Saturnos, ou aqui na nossa Terricula, constantemente perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra e nos funde--que é sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas modalidades, e portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia, a Unidade do Universo!--Hein, Jacintho?...

O meu amigo rosnou:

--Talvez... Estou a cahir com somno.

--Tambem eu. «Remontamos muito, Ex.^{mo} Snr.!» como dizia o Pestaninha em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais vão, que uma cavaqueira, no alto das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre vaes amanhã?

--Com certeza, Zé Fernandes! Com a certeza de Descartes. «Penso _logo fujo_!» Como queres tu, n'este pardieiro, sem uma cama, sem uma poltrona, sem um livro?... Nem só de arroz com fava vive o Homem! Mas demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu Administrador. E tambem á espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladação...

--É verdade, os ossos...

--Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andará esse perdido?

Então, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sêbo já derretida no castiçal de lata era como um lume de cigarro n'um descampado, meditámos na sorte do Grillo. O estimado negro ou fôra despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos gritos--ou, regaladamente adormecido, rolára com o Anatole no comboio para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe como irremediavelmente destruidores do seu conforto...

--Não, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina, dormiu na Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando ámanhã desceres á Estação, ás quatro horas, encontras o teu precioso homem, com as tuas preciosas malas, mettido n'esse comboio que te leva ao Porto e á Capital...

Jacintho saccudiu os braços como quem se debate nas malhas d'uma rede:

--E se seguiu para Madrid?

--Então, por esta semana, cá apparece em Tormes, onde encontra ordem para regressar a Lisboa e reentrar no teu sequito... Resta o interessante caso das minhas bagagens. Se ámanhã encontrares na Estação o Grillo, separa a minha mala negra, e o sacco de lona, e a chapelleira. O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para Guiães. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu ámanhã fallo ao Melchior.

Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho:

--Mas como posso eu partir para Lisboa, ámanhã, com esta camisa de dous dias, que já me faz uma comichão horrenda? E sem um lenço... Nem ao menos uma escova de dentes!

Fertil em idéas, estendi as mãos, n'um bello gesto tutelar:

--Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d'aqui cedo, pelas seis horas, chego a Guiães ás dez, ainda sem calor. E, mesmo antes do almoço e da cavaqueira com a tia Vicencia, immediatamente te mando por um moço um sacco de roupa branca. As minhas camisas e as minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu não tem direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O moço, n'um bom trote, entra aqui ás duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a Estação... Posso metter na mala uma escova de dentes.

--Oh Zé Fernandes! Então mette tambem uma esponja... E um frasco d'agoa de colonia!

--Agoa d'alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia...

O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e esta dadiva de roupas:

--Bem, então vamos dormir, que estou esfalfado de emoções e d'astros...

Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que «estavam preparadinhas as camas de suas Incellencias.» E seguindo o bom caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos nós, o meu Principe e eu, ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o soalho. Junto á cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de Tormes, um castiçal de latão sobre um alqueire; aos pés, como lavatorio, um alguidar vidrado em cima duma tripeça. Para mim, serrano d'aquellas serras, nem alguidar nem alqueire.

Lentamente, com o pé, o meu super-civilisado amigo palpou a enxerga. E decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.

--E o peior não é ainda a enxerga, murmurou emfim com um suspiro. É que não tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E não me posso deitar de camisa engommada.

Por inspiração minha reccorremos ao Melchior. De novo, esse benemerito providenciou, trazendo a Jacintho, para elle desafogar os pés, uns tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de estopa, áspera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Principe lembrei que Platão quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o Cabo, não dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas fortes, oh Jacintho!... E é só vestido de estamenha que se penetra no Paraiso.

--Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia? Não posso adormecer sem um livro.

Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do _Jornal do Commercio_, que escapára á dispersão dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo meio, partilhei com Jacintho fraternalmente. Elle tomou a sua metade, que era a dos annuncios... E quem não viu então Jacintho, senhor de Tormes, acaçapado á borda da enxerga, rente da vela de sêbo que se derretia no alqueire, com os pés encafuados nos sócos, perdido dentro das ásperas pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo n'um pedaço velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos Paquetes--não póde saber o que é uma intensa e veridica imagem do Desalento.

Recolhido á minha alcova espartana, desabotoava o collete, n'um delicioso cansaço, quando o meu Principe ainda me reclamou:

--Zé Fernandes...

--Dize.

--Manda tambem no sacco um abotoador de botas.

Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao penetrar no Somno, que é um primo da Morte, «Deus seja louvado!» Depois tomei a metade do _Jornal do Commercio_ que me pertencia.

--Zé Fernandes...

--Que é?

--Tambem podias metter no sacco pós dos dentes... E uma lima das unhas... E um romance!

Já a meia Gazeta me escapava das mãos dormentes. Mas da sua alcova, depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um bocejo:

--Zé Fernandes...

--Hein?

--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os lençoes ao menos são frescos, cheiram bem, a sadio!

IX

Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar o meu Jacintho, que, com as mãos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga de granito--parti para Guiães.

Ao cabo d'uma semana, recolhendo uma manhã para o almoço, encontrei no corredor as minhas malas tão desejadas, que um moço do casal da Giesta trouxera n'um carro com «recados do Snr. Pimentinha». O meu pensamento pulou para o meu Principe. E lancei pelo telegrapho, para Lisboa, para o Hotel Bragança, este brado alegre:--«Estás lá? Sei recuperaste Grillo e Civilisação! Hurrah! Abraço!»--Só depois de sete dias, occupados n'uma delicada apanha de aspargos com que outr'ora civilisára a horta da tia Vicencia, notei o silencio de Jacintho. N'um bilhete postal renovei, desenvolvi o grito amigo:--«Estás lá? São os prazeres da Baixa que assim te tornam desattento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas? Tempo delicioso! 23^o á sombra. E os ossos?...»--Veio depois a devota romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei n'um córte de matto, na minha terra das Corcas. A tia Vicencia vomitou, com uma indigestão de murcellas. E o silencio do meu Principe era ingrato e ferrenho.

Emfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima Joanninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.

Defronte, á porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado n'um banco. Mandei encher outro quartilho: elle acariciou o pescoço da minha egua que já salvára d'um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso Melchior, o Severo contou que na véspera jantára com elle em Tormes, e se abeirára tambem do fidalgo...

--Ora essa! Então o snr. D. Jacintho está em Tormes?

O meu espanto divertiu o Severo:

--Então v. exc.^a... Pois em Tormes é que elle está, ha mais de cinco semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai lá uma grandeza!

Santissimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me assustar com a calma que carregava, trotei alvoroçadamente para Tormes. Ao latir dos rafeiros, quando transpuz o portal solarengo, a comadre do Melchior accudio dos lados do curral, com um alguidar de lavagem encostado á cintura.--Então o snr. D. Jacintho?... O snr. D. Jacintho andava lá para baixo, com o Silverio e com o Melchior, nos campos de Freixomil...

--E o Snr. Grillo, o preto?

--Ha bocadinho tambem o enxerguei no pomar, com o francez, a apanhar limões doces...

Todas as janellas do solar rebrilhavam, com vidraças novas, bem polidas. A um canto do páteo notei baldes de cal e tijellas de tintas. Uma escada de pedreiro descançára durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E, rente ao muro da capella, dois gatos dormiam sobre montões de palha desempacotada de caixotes consideraveis.

--Bem, pensei eu. Eis a Civilisação!

Recolhi a egua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas, reluzia n'um raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas e núas, refrigeravam como as d'um convento. Um quarto, a que me levaram tres portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de Jacintho: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com coberta de fustão, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um canto, entre o muro e a banquinha onde um castiçal de latão resplandecia sobre um volume do _D. Quichote_; no lavatorio pintado de amarello, imitando bambú, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabão; e uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da thesoura, do pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de agua de alfazema que eu mandára de Guiães. As tres janellas, sem cortinas, contemplavam a belleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava nas resinas dos pinheiraes, depois nas roseiras da horta. Em frente, no corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a previdencia do meu Principe o destinára ao seu Zé Fernandes. Pendurei logo dentro, no cabide, o meu guarda-pó de lustrina.

