Part 9
Ás vezes concentrava-se, e de mãos atraz das costas seguia-me sem rumor. Era de uma timidez exagerada e susceptivel, não querendo nunca incommodar, pedindo desculpa a cada passo, incapaz de pesar, dar ordens, ou fazer-se valer. E no hotel, aos creados que o serviam:
—Muito agradecido ao senhor.
E a pedir qualquer coisa:
—Faz-me o obsequio...
As mulheres envergonhavam-no, faziam-no triste, ia-se embora. Fugia dos grupos, evitava-me diante de gente, seguindo de cabeça baixa. Essa organisação bondosa, tinha o instincto da sua inferioridade provinciana, no mundo refinado que rodopiava em torno. E como eu teimava em lhe mostrar o club, quasi se zangou comigo, e desappareceu por dois dias.
* * * * *
Entre as familias a banhos, farrapos de aristocracia pobre, banqueiros absolvidos, camarilhas que se enrodilhavam comidas de hypotheca, infantes, diplomatas e mais appendices de côrte em villegiatura, andava um elegante _ménage_, fresco e jovial, sempre em evidencia, entrando em toda a parte e dando tu a toda a gente, que era para assim dizer, a impudencia da praia n’essa estação.
Todas as manhãs de braço dado os condes, marido e mulher, iam ao banho em _toilettes_ claros, cochichando e rindo unidinhos, muito amigos, muito noivos, dando a mão aos rapazes e olhando um pouco desdenhosamente as senhoras. O herdeiro presumptivo fazia saltar o _lorgnon_ em os vendo chegar, sorria o grande condestavel por baixo de um nariz em promontorio; a côrte rumorejava... E os dois muito frescos, jasmins na lapella, polaina escarlate sobre sapatos crus, debaixo de um guardasol japonez, direito e bordado de cegonhas brancas, pecegueiros e papoilas em flôr, deitavam o binoculo ao mar incendido na reverberação do sol, contra a espuma pulverisando nas rochas, ou espanejando-se pelas areias pallidas com felina indolencia, de envolta com a renda das algas, e o desenho glauco e singular dos caranguejos.
Aqui e além, havia pequeninas cidades de barracas, senhoras de claro, chapeus de palha, gente em trajos de banho, guigas embalando no vai-vem da maré, marujinhos de unhas côr de rosa—e aos pedaços, na franja das rochas, fortes desguarnecidos, bandos de cabeças palreiras, corpos vogando á flôr d’agua, os que sahiam do banho aos guinchos, os que iam de costas sobre a arfagem da onda...
E aquella vida de praia luzia ao sol alegremente, carros de palha á espera, _chalets_ emboscados no fundo das quintas e jardins, a fluctuação dos stores listrados sobre as sacadas abertas, heras trepando por torrelas de ardozia, e rapazes com raparigas fazendo o seu cricket antes de almoço, pelas aleas ensaibradas de fresco. E os jornaes que chegavam de Lisboa, os japonezes do Domingo, á mistura com gelados de encommenda vindos na barafunda do mesmo carro, em grandes caixas de folha...
Na sua cadeira da ilha, isolada da colonia feminina, altas maneiras de andaluza petulante, a condessa libertava então os cabellos do bonezito de palha atufado n’uma blonde diaphana, e accendia um cigarro no charuto do conde, que na areia aos pés d’ella, como um Terra-Nova favorito, a fitava com os seus olhos de gato bravo, amarellos e inquietos. A espaços estendia a condessa o abanico para o mar, seguindo algum paquete fumegante já na ultima linha d’agua,—e tão graciosa a fumar, que até as velhas perdoavam!
Deitava-se para traz ao expellir fumo, n’um quasi espreguiçamento amoroso, esticando as pernas sob o vestido apertado, de cuja orla escarlate os pés sahiam batendo compasso na areia.
Ás vezes trazia na escarcella, cahindo á cinta por um cordão de oiro fosco, alguma edição _bijou_. E em quanto o conde lia, descahida, as mãos pendentes, uma ondulação por toda ella, a condessa sentia-se viver, rolando n’um torpor a sua sombrinha japoneza bordada de cegonhas brancas.
Paquerettes des prés, vos couleurs assorties Ne brillent pas toujours pour egayer les yeux...
Iam-se chegando então surrateiramente os gulosos da boa femea, os estouvados, e o resto. Ella distribuia cigarros toda rosea do calor, com uma sombra azulada por baixo das palpebras, feliz de ser o alvo, de attrahir e deslumbrar as que lhe roubavam o córte dos corpetes muito acertados nas costas, sem costura nos seios, modelando em graça hellenica a provocante expansão das pomas, e a curva divina do ventre que tinha sob o estofo, a lascivia escandente d’uma nudez de harem.
Conde e condessa de que? Um nome qualquer. Ninguem verifica titulos n’uma terra onde elles cahem sobre quem passa, como antigamente as aguas suspeitas. Elle um hespanhol da Andaluzia, trigueiro, nervoso, de olhos allucinados, e parecendo-se diabolicamente com um marcador de bilhar que eu conhecera em rapaz. E tinha os modos francos d’um senhor, ditos de graça pícara, essa originalidade dos paizes do sol, brusca, deslocada e jovial, onde parece retinir o turbilhão dos guizos e pandeiretas, de quando escoicinham fandangos.
O Alvares que tudo sabia, pouco me disse do conde.
—Tinha apparecido em Lisboa ia em quatro annos, montado n’um cavallo inglez e seguido d’um creado de farda e calção d’anta. Depois do cavallo, deitára carro; vendera o carro um dia, e disparou dois tiros n’uma casa de jogo. Pouco mais ou menos, percebes a coisa? Em seguida—o Alvares não se lembrava bem—bordoadas no Marrare, um entrudo; em resumo appareceu de condessa. Agora sério, trata de vendel-a por ahi, como vendeu o carro. E ella, uma real zorra, filho!...
Rebolava os olhos por traz dos oculos fixos, e com certo suspiro canalha, profundo e vicioso:
—Derrete-se a gente todo, só de pensar n’isso. Que fará... percebes a coisa?—E abalou muito atarefado, limpando o suor do cachaço apopletico.
Demoravam-se os frios em chegar, dias lindos, o mar um delicioso lago. No club, walsavam a toda a hora. Sob toldos e decorações, havia festas de côrte na esplanada; uns navios de guerra ancorados na bahia, simulavam defronte, no escuro das noites, bombardeamentos em regra, a fogos de bengala—e toda a gente se divertia, gabando o serviço da marinha nacional.
E todos os dias regatas, cavalhadas, o tiro constitucional ás gaivotas, um bazar de creches, o demonio! Nos primeiros logares, o conde e a condessa, ajoujados, os melhores amigos do mundo, appareciam aos commentarios da multidão—ella em _pompadour_ de sêda crua, bonnézito á banda envolto n’uma gaze ligeira; elle premindo na orbita petulantemente o monoculo, e impertigando o seu estomago alto de mundano. Faziam-se loucuras em volta d’essa mulher disputada, conhecedora do que valia, e pondo ao serviço do seu temperamento frio, as maneiras distinctas d’uma senhora de raça. Era d’estas _cocottes_ severissimas em publico, artistas por intuição, com predilecções requintadas e nervos irritantes, amando a conversa, sabendo rir, excitando e fingindo não dar por isso. Nos seus beiços havia um reflorir de romeira brava, humido e vivo, contrastando com a pallidez mate das feições ovaes, e um _tic_ voluptuoso de narinas, que no riso lhe bordava _scherzos_ de aristocratica finura.
Chegaram a apresentar-me o conde, que se convidou a jantar comigo n’esse dia, e me pediu para lhe trocar não sei quantas notas de ouro.
De resto adoravel, sua pontinha de obscenidade temperada em cynismos elegantes. Fallámos em rapaziadas, amores faceis, predilecções de vicios, as regiões da femea que mais nos agradavam. Elle bebia excellentemente, e a cada passo fazia revelações libertinas, de rapaz solteiro. Derivámos d’ahi na hieraldica, quanto era distincto ter brazão na carruagem, um ou dois castellos nas sierras, pomares em Andaluzia, e descender de wisigothicos monarchas. E a paginas tantas, perguntei que opiniões politicas tinha elle. Encolheu os hombros, gostava de reis, e de rainhas ainda mais. Nada como as côrtes historicas, para a fermentação do luxo artistico e do amor como prazer de gente fina. As monarchias não serviam sómente, segundo pensava, para tornar os Estados felizes, mas a requintar o gosto, fornecer ás artes assumptos nobres, e apurar a belleza patricia das mulheres.
E virando-se para o creado:
—Eh, passa-me essas ervilhas da decadencia.
Bebia sem conta, copos sobre copos, batendo murros na mesa. Perguntou de repente:
—Não haverá ahi com quem se walse?
—As senhoras estão todas no club, respondi eu.
Elle considerando a amphora de Estremoz cheia d’agua, que gottejava toda pelos poros:
—São um poucochinho como os vasos rachados, as damas, fez notar. Muito indiscretas pelas fendas.
Então cantarolando, bateu-me palmadas nos hombros, puxou fogo a um charuto, e pouco mais de bebedo, erguendo-se, disse-me assim;
—Não adivinha o que vou fazer agora?
Confessei que não adivinhava.
Elle ajuntou:
—Trahir o amante de minha mulher, que diabo!... É a missão social dos maridos.
—Oh, disse eu rindo, encantador!
* * * * *
Mas fui atraz d’elle rangendo os dentes de raiva, ganindo como um cão esfaimado, ganas de lhe encher a cara de bofetadas, de o arrastar pelos cabellos na immundicia das regueiras, de o deixar morto á pancada para alli vilmente, como a sua torpeza merecia. Esta intenção exaltava-me perante ella talvez—e o meu desejo crescia em tumulto com ideias aventureiras, fugir com ella, tel-a comigo noite e dia, chupar-lhe o sangue por uma punhalada, ou rolar agonisante de amor nos seus braços, entre os cachões de uma torrente. O vinho exagerava-me tudo, a fórma das casas, a buracaria das janellas, os rumores do mar, os echos da rua, e os sons dos pianos.
Lá ao deante seguia elle a cambalear, cantarolando, e a sombra esguia do seu corpo era como um reptil enorme que ondula, escorregando sem ruido.
Umas poucas de vezes, perdida a cabeça, desatei a correr atraz d’elle, chave do bahu na mão, para lhe esmurrar as ventas. E de repente parava, que era isto, que tinha eu com elles?... Rasgava-me o peito a certeza de que os dois iam dormir, beijar-se, trocar juras, fazer promessas e escarnecer de mim talvez, inda por cima. E como se ella fosse minha, um ciume feroz golfava amarguras dentro de mim, bramindo vinganças desordenadas. Afinal dobrou a rua, não o vi mais. Começou então um desespero surdo, pela absoluta impotencia da desforra. Onde tinha elle entrado, quaes as janellas do seu quarto, como surprehendel-os, fazer escandalo, chamar-lhe a ella nomes infames?
A rua voltava bruscamente, havia uma rotundidade de largo, á esquerda a fachada de uma igreja, depois ruellas tortas convergindo. E eu ia e vinha escutando os passos, que ora soavam n’uma rua, ora na opposta, ora morriam, ora pareciam ir-se aproximando. E a sombra que oscillava cosida com as casas, uma vez se me afigurava á direita, outra á esquerda, e assim.
Então precipitava-me contra ella, suando em bica, cabellos ao vento, gravata ao lado—dava com um escuro de portal, sombras de arvores, algum cão vagabundo roendo lixos. Um pescador que passava abalroou comigo, dei-lhe um encontrão furibundo, quiz agarral-o tomando-o pelo outro.
—Desculpe, desculpe.
E corrido, atordoado, comecei a andar de cabeça baixa. Havia baile no club. Que tinha isso?
Era fechar os olhos, via-a dentro de mim côr de fogo, côr de rosa, de todas as côres. E cabellos turbulentos nas espaduas, pés nús, braços nús, hombros nús, seios nús, toda ella núa.
Essa nudez, eloquencia victoriosa da carne, fulminava-me, imbecilisava-me, fazia-me calafrios pela medulla abaixo. Nunca vira bocca mais vermelha, nem dentes mais lascivos, nem expansão de ventre mais deshonesta e divina. A tentação do asceta lendario evocada entre privações, nas febres nervosas da loucura, não tinha concentração mais calida, que o delirio em que eu fervia! E pela côr da sua face e das mãos, pela esculptura dos hombros, dedos afilados e cabellinhos espiralando no tom fulvo da nuca, eu reconstruia esse corpo de um jacto—seria alta, cinta elastica, uma expansão de tulipa invertida, dos quadris aos joelhos, rotulas macias, redondinhas, côr de rosa esvaído, e tornozêlos finos, um pé estreito e alto... Então sacudiria a camisa, friorenta, atirando os cabellos para as costas n’um geito colombino de cabeça—e sobre uma pelle de urso branco, ante o espelho cingido em lilaz e rosas pallidas, de Sèvres, sorriria namorando a propria belleza o pondo riz nos hombros, de mão na cintura, como as bellas estatuas delphicas.
Passos na escada, empurravam a porta da alcova, apparecia um homem aos tombos, chapeu para a nuca.
—_Buenas noches!_
E ahi despertava eu de novo, e me punha a correr pelas ruas, atraz do primeiro homem que via, e á cata da primeira janella alumiada, qualquer porta aberta, do menor rumor que despertasse os echos.
Umas poucas de horas andei n’essa vagabundagem furiosa, tropeçando, fallando alto, querendo investir com tudo. Mas a fadiga vencia-me, tinha os cabellos empastados de suor, vinha-me embriagando uma tristeza estupida, desopilante e brutal. Então sentindo ar fresco, penetrado dos cheiros acres do mar, ergui a cabeça para vêr á roda.
Estava na praia, deante das janellas do morgado, ainda alumiadas áquella hora da noite.
Subi as escadas a correr, dei com elle em mangas de camisa, cabeça amarrada n’um lenço da India, chinelos de mouro, um arquejar de soluços.
—Que é, velhote? disse eu surprehendido de o vêr afflicto. Alguma coisa de cuidado, más noticias?...
Elle rompeu a chorar, agarrado a mim n’um desalento profundo.
—Não sei do pequeno, desde esta manhã que o meu filho desappareceu.
—Descance, não ha perigo. Perdeu-se, procura-se. Está ahi a brincar n’alguma casa, com petizes da sua idade. Naturalissimo! Quando o largou o amigo?
Referiu atabalhoadamente que tinha ido ao banho muito cedo, mais gente na praia que o costume, uma algazarra do inferno, senhoras e homens em confusão. Foi a fallar com um amigo, largou a mão da creança quando ia por entre os grupos—o caso foi que o não viu mais.
Inda andou a procurar por todos os cantos, expediu banheiros pela praia fóra, foi perguntando a uns e outros se o tinham visto, correu á policia, ninguem soube dar-lhe razão de tal creatura.
Passeava desesperado pelo quarto, com suspiros oppressos, um peso no peito, forjando destinos tragicos do pequenito—podiam tel-o roubado os barqueiros, talvez morresse afogado, alguem lhe queria mal.
—Quem ha de querer-lhe aqui mal, homem de Deus? Nem o conhecem, descance. Foi passar o dia a uma quinta, é o que foi. Familia que o levou, creanças que o tomaram para amigo, e o não deixaram vir. Qualquer coisa natural, emfim. Ámanhã vem trazer-lh’o a casa. Succede todos os dias!
Mas elle não attendia, torcendo as duas mãos cruzadas, indo furiosamente de um lado para outro com o ar hirsuto d’um lobo, e gestos phreneticos de quem debate algum problema interior.
—Eu morro, morro sem o meu filho!... dizia com o olhar extincto, parando bruscamente na casa—E como eu o abraçava compungido de o vêr penar assim, forçando-o a que descançasse no sophá, pretendendo distrahil-o com palestras de acaso, sobre a praia, as boas mulheres abandonadas no banho, noticias de jornaes, preços de gado ou qualquer coisa—de olhos no chão, elle remordia febrilmente o beiço, e em estribilho fazia de quando em quando:
—Valha-me Deus! Tive uma cruz bem pesada!
Eu fingia não ouvir os seus lamentos, e ia contando a scena do conde, o seu cynismo de bebedo, e dos meus appetites sobre a bella condessa da sombrinha japoneza. Que mulher, amigo morgado, que magnifica mulher! Uma cantharida! E livre do vinho abria-me com elle, tinha andado atraz do marido havia pouco, perdera-me d’elle sem saber, e que ciumes no meio da noite negra! Relembrando o talhe opulento d’essa mulher, a pallidez real da sua face, meneios estouvados, elegancia da cinta e dentes frescos, outra vez sentia renascer-me o phrenesi voluptuoso; insensivelmente a minha voz cahia, dizendo coisas libertinas ao ouvido do morgado. E a cada passo consultava-o:
—Vossê não acha? Eu cá fazia isto e aquillo, e vossê, morgado?...
Quando porem o pensava interessado no que eu dizia, esquecido do pequeno, e em repouso da aspera tormenta intima que havia tanto o minava, eil-o a chorar outra vez, um chôro amarissimo e fundo, que mettia dó. E da sua cabeça resignada, cahiam falripas algentes, n’uma aureola veneravel.
—Vê-se que é o filho unico, dizia-lhe eu contemplando-o. Tivesse o amigo outro, já não seria tão susceptivel. Mas admiravel, morgado! Imagine que é tudo atraz d’ella. Dizem-me até que um da familia real lhe fez propostas de archi-millionario. Aqui sabe-se tudo. Mas console-se, seja homem, aqui tem cigarros, distráia-se...
Que diabo, já se não roubam creanças para oleo! Estamos em paiz culto, e n’uma pequena terra onde fallamos todos. Póde tranquillisar-se, afianço-lh’o.
—E essa mulher, esse diabo, disse elle de repente, com uma especie de angustia, é esposa d’esse homem, talvez?
—Ah, bom maganão; já toma calor! De resto, uma _cocotte_.
Mas esplendida, não imagina!
Esteve a olhar para mim, e furioso, como fallando para dentro de si proprio:
—Horas em que tenho mesmo vontade de arrebentar p’ra ahi!...—E n’um rir patibular que o transtornava: então é mesmo boa? Isto é lá vida, nem o inferno!
Eu encarava-o já surprehendido,—e as lagrimas cahiam-lhe pelas barbas, tocavam-se de luz um momento, e vinham rolando algumas pelo peitilho, grossas e limpidas. Como encostava a cabeça á mão, vi-lhe na origem do annular uma alliança fina, muito apertada, brilhando a espaços sob a rosca carnuda do dedo. E aquillo recordou-me a esposa d’elle, morta, viva, sei lá!...
—Meu amigo, disse eu impudentemente, o seu caso é triste, adivinho-o. Mas tenha animo!
Vi-o pôr-se de pé subitamente, arquejante, moido do esforço, quasi sem me poder fallar. Mas alguem vinha na escada fallando devagarinho, uma voz disse muitas vezes:
—Pae! Pae!
—Ora ahi tem o Luizito. Não lhe dizia, piegas?
Veio abraçar-me pelas costas, quasi risonho, esquecido do mais, furioso por abrir a porta, e enxugando lagrimas á pressa. Agarrei no candieiro para alumiar, e elle como estava, de chinelos, em mangas de camisa, poz-se a descer a escada ingreme, frouxamente esclarecida de cima para mim.
O pequeno subia custosamente, carregado de bonito e bolos.
—Olhe, dizia com vozita espapada, um cavallo tão bonito! E estes soldados Espere ahi! E uma caixa de musica, toque lá, ande.
Sem responder, o velho estacára de braços cahidos, cachaço sem collarinho, os ignobeis chinelos mettidos nos pézorros de camponio, mangas arregaçadas como um taberneiro. Olhava á porta da escada um vulto de mulher embuçado n’uma _sortie-de-bal_, alto, fino e flexivel de _silhouette_, derrubando sobre a frente o capuz da cobertura, excentricamente talhada em dominó, de cujo bico cahia, sobre damasco e rendas, um laço de pontas fluctuantes.
Apenas appareci com a luz, a mulher recuára para a rua, e no meio da escada, irresoluto e tremulo, com um meio ar idiota, o morgado olhava para mim, para o pequeno, e para tudo, sem saber o que fazia.
—Sobe, filho, sobe...
Veio atraz da creança de cabeça baixa, pisando os degraus com dificuldade e todo pallido da apparição. Entrou a vestir á pressa o collete, pôz collarinho e gravata, calçou as botas dando gemidos dos callos magoados. E deante do espelho, coisa rara! olhava-se, mirava-se todo, passando n’um geito febril pelos cabellos e barba, o pente de vulcanite.
E tremulo, tacteando as coisas, dizendo:
—Já venho, o senhor desculpe, eu venho n’um instantinho, desculpe...—Chegou á escada amparado nos moveis, fechou a porta cuidadosamente, e sem phosphoros, desceu a cambalear.
Ouvi o portão de baixo cahir, atirado com estrondo, vozes que se afastavam cautelosas... E fiquei a sós com o pequenito. Então vieram-me á lembrança as vacillações do morgado n’aquella viagem para Lisboa, quando nos tinhamos visto pela primeira vez, o rigoroso lucto guardado por elle em tres annos, a sua indole fugidia, a submissão que a todos mostrava, a sua vergonha entre as mulheres, e do que a lingua do Alvares insinuára.
E ligando aquelles dados ao pequenino annel que lhe vira no dedo, á graciosa _silhouette_ da dama embuçada, e singulares desalentos em que o via mergulhar, adivinhei a coisa toda. Nada mais simples! E para o patetinha que em silencio tasquinhava _bon-bons_:
—Então Luizito, grande passeio hoje?
Elle disse que sim com a cabeça.
—Gostas d’aquella senhora, gostas?
Mesma resposta.
—É a tia. Como se chama?
—É mamã, mamã, disse elle vivamente.
—É verdade, mamã. Não a vias ha muito tempo, hein?
—Não a via, repetiu elle, e a testinha comprimida, fugindo para traz, sem esphericidade e sem bossas, fazia sahir aguçado o focinhito de bruto, meudinho e pallido, com os buracos das ventas ranhosas, esmagadas a murro, e a bocca fria, inexpressiva e inerte, que tinha a brevidade d’um golpe.
D’alli a uma hora appareceu o morgado.
—Saiba o senhor que abalo ámanhã, exclamou elle com modos sacudidos, um tremor nas mãos. E em ar de explicação: Vou viver de todo nos mattos. Outro socego nas herdades! Queres, hein, Luiz?
Agarrei no chapeu para sahir, e apertando-o nos braços:
—Se precisar de mim escreva, adeus.
Elle abraçou-me convulsivamente, com angustia.
—E ahi está para que um homem é honrado sessenta annos! Olhe, palavra de honra. Queria antes que o senhor não soubesse. Perdão. É a minha vergonha! Não quiz crêr...
—É desgraça, vergonha não, disse eu gravemente. Que culpa póde ter o senhor d’essa...
O velho apontou-me o camisote de lucto, e duramente, em resposta:
—Que morreu, faz tres annos! Ai! o que eu tenho soffrido, o que eu tenho passado em quatro annos para cá!... Caramba, não esmigalho a cabeça por olhar á creança. Quem cuidaria d’ella n’este mundo, desinteressadamente? Diz que o dinheiro dá tudo; mentira! Talvez elle me roubasse a mulher. E não haver leis para degolar as adulteras, que deixam os maridos, os filhos, e debandam por esse mundo com miseraveis aventureiros! Ai, nenhuma foi mais amada que a minha, todas as vontadinhas, todas as creancices, todos os caprichos, até vinha doce de Lisboa em condeças, aos sabbados de tarde. Pois enganava-me, para se vingar do amor que eu lhe tinha! Vestidos todos os dias a chegarem, um _rôr_ de libras só em musicas: e quando foi da exposição em Paris, e jornadas a Hespanha, mezes inteiros por Lisboa, os verões nas melhores praias de banhos... E eu sempre com uma boa vontade, uns cuidados, menina isto, menina aquillo, e a perder noites no theatro, a ir com ella ás regatas, a arriscar-me no mar, capaz de se virar o barco... Gostava d’ella, então, nunca se viu alguem gostar d’uma mulher? Que sou um rustico bem o sei, filho d’um triste creado, um reles homem de trabalho; ninguem me deu principios, não tinha obrigação de adivinhar certas delicadezas. Mas ella podia bem esperar que eu fechasse os olhos; para a não estorvar, até acharia meio de morrer mais cedo. Uma esmola que fazia. Pois nem isso, infeliz de mim! E inda aquillo vem reclamar o pequeno, que é muito meu! Pago-lhe as lettras, pago tudo, esse traste que descance. Mas o meu filho, nunca! Capaz de m’o envenenar, aquella perdida!