Part 8
Foi de vêr a lucta que se travou então, apostas que se originaram do caso, duellos a murro, a pontapé, marrada e tiro que tiveram logar. Em Oxford e Cambridge, por todos os grandes collegios e clubs, a mocidade esqueceu o _cricket_ e largou o remo, para se partir em facções—uma que arvorava a camisa, e outra que fazia fluctuar a ceroula na ponta de um chuço.
Nos claustros gothicos das universidades e embocadura das ruellas medievaes, entenebrecidas a deshoras, de cada vez que um vulto affrontava outro, de logo bramia n’um inglez furibundo:
—Quem vive? camisa ou ceroula?
E sendo contrarios os que altercavam, estabelecia-se de prompto o combate e corria sangue a golfões, de vencidos e vencedores.
Os que expiravam, diziam no estupor da ultima hora:
—Morro pela ceroula!
E narrando o caso, o _Times_ escrevia:
—Mais uma victima da roupa branca de Sua Graciosa Magestade...
Ora, estavam as coisas n’estes termos, quando uma commissão de sabios e philosophos, de mistura com alguns dos melhores camiseiros de Londres, foi pelo governo da rainha encarregada de precisar a questão, e restituir ao publico a tranquillidade para desejar, em tão tormentosas circumstancias. A camara dos lords votou milhares de libras ao trabalho pujante da sciencia e rouparia inglezas. Os jornaes publicaram retratos e biographias dos commissionados, animando-os com apostrophes estridentes; os clubs de nomeada abriam ao grupo eleito as suas salas de conferencia e de jantar; e em toda a linha as apostas repetiam-se e os duellos multiplicavam-se.
Ao mesmo tempo, choviam dos prelos as pesadas brochuras ricas de argumentação, inultrapassaveis de logica e até ricamente providas de certos promenores. Segundo o doutor Kater, a peça de roupa guardada no cofre era um par de ceroulas, attendendo á malha negra que demarcava a bifurcação das mangas,—maneira de vêr que mereceu uma sessão solemne ao _Collegio dos Cirurgiões_, de Londres. Conforme se inferiu das actas e boletins d’esta preciosa sociedade, a malha trahia a ceroula, por quanto a sciencia confirma a relaxação de certos musculos pela decapitação. Mas a alta chimica ingleza que tinha assistido em silencio ao debate, interveio pedindo um resquicio, infinitesimo que fosse da substancia, afim que os modernos processos de analyse lançassem o _ultimatum_ que o caso urgia. O publico inglez porém não consentiu, tal o respeito dos saxões pelos monumentos historicos! E n’uma solemne protestação, duzentos _meetings_ fizeram sentir ao governo a sua vontade sobre a malha do bom rei Carlos Stuart.
Sir Bell, o tribuno, fez um discurso genial, clamando reprobo e criminoso aquelle que tocasse, com a ponta do nariz que fosse, no medalhão negro da reliquia.
«... Pois que é unico no genero, e o Martyr não poderá brindar os museus do Reino-Unido com outro de egual formato!» resumia elle no meio de um trovão de applausos.
Photographos e pintores vieram piedosamente com suas machinas e cavalletes ao castello de Clifton, reproduzir o singular endurecimento, que tamanhas duvidas provocava.
E vendendo cópias a dois _schillings_, enriqueciam-se em dia e meio, victoriados nas praças e ruas da grande cidade.
Lord Clifton abria com fidalga generosidade as suas portas, a romeiros e sabios. Fizera emmoldurar um vidro na tampa do cofre de oiro em que se conservava a santa roupa, orgulho de sua casa e alvo das attenções de um grande povo.
—Assim vos curvaes ante o precioso documento do bom rei, dizia o duque do seu _fauteuil_ do parlamento. Que farieis então, se como a sempre chorada mão de meu illustre avô o houvesseis palpado fresco, n’um extasi, chegando-o aos labios para o oscular reverentemente!...
E pelas suas barbas veneraveis e brancas, fios de lagrimas corriam.
Ao fim de um anno de disputas, conferencias grandiloquas, e as mais cathedralescas hypotheses, a grande commissão de sabios recapitulou, que uma de duas:
1.º—Ou no tempo do rei Carlos, reinava como refinada elegancia o fazer-se das pernas braços, e em tal caso o farrapo de Clifton era sem duvida, camisa confeccionada para um decapitado, por não apresentar abertura entre as mangas, podendo-se a malha classificar de sanguinolenta... 2.º—... Ou caso contrario, era um par de ceroulas, e conseguintemente a malha...
Seguia-se um latinorio pudico, para explicar a composição da historica argamassa.
Alarme em toda a linha! Nas bibliothecas choviam archeologos e eruditos, a investigar se de facto constituira prodigio de galanteria europêa no tempo de Carlos, o trazer-se as mãos pelo chão.
As _ladies_ de tez purissima e olhos de saphira córavam, de pensar na renovação do requinte. Republicanos moderados, jacobinos de meia força ou vermelhos puros, berravam em conclaves secretos contra a devassidão e embrutecimento das realezas e aristocracias, jurando que a Convenção Franceza e a Usurpação de Cromwell tinham sido providenciaes, no extirpar de collectividades que se esforçavam em trazer a humanidade aos habitos de locomoção dos verdadeiros brutos.
Novos discursos, novas sessões, novos duellos e novas brochuras. Do gabinete inglez radiou uma nota ás potencias, pedindo confrontações e parallelos minuciosos de costumes, no cyclo historico proposto.
A França declarou entre risos, que Luiz XVI era um primate da melhor especie, e só das mãos fizera uso para assignar decretos que não lia, levar á bocca magnificas pastilhas de chocholate, ou pedir clemencia n’uma attitude de poltrão, em todo o seu doloroso captiveiro.
Italia e Hespanha viram no problema uma differença de raças, e encolheram desdenhosamente os hombros, orgulhosas do seu berço latino. A Allemanha pôz-se a meditar. E só Portugal n’um impulso de sympathia pela _fiel alliada_, respondeu que desde Ourique, sendo vivos Tareja e o gallego Transtamara seu amante, era uso separar-se a nobreza do povo, invertendo aquella os locomotores, e pondo-se deredor dos principes, de cabeça para a terra e pés para o firmamento, nos grandes saraus e recepções.
Inda sobre a questão pesaram annos, que ao mesmo tempo faziam curvar para a terra a espinha dorsal e a cabeça branca do lord de Clifton.
O duque não tinha descendentes directos. Era um velho austero e secco, solitario no seu ducado e possuidor da melhor fortuna rural da Gran-Bretanha.
Tinha uma governante velha que muito amava, e fôra ama da loira Ellen,—futura duquesa, se um garrotilho a não estrangula aos dezeseis, pobre bichaninha gata! Repetidas vezes o governo propuzera ao duque por sommas fabulosas, a venda da peça de roupa de Carlos Stuart. A rainha escrevera-lhe do seu punho uma longa carta de familiaridade affectuosa, sobre a reliquia de familia que seria crime deixar fóra dos archivos do paiz, perdida talvez nas mãos dos collecionadores particulares, e nos _bric-à-brac_ dos estrangeiros maniacos. Mas Clifton recusára todas as propostas, allegando que o despojo era penhor de familia, a que andavam ligadas grandes recordações e legendas.
Sentindo-se alfim pender para o tumulo e já de oitenta e tantos, lord Clifton fez saber ao governo em certa manhã de gotta tenaz que a camisa, ceroulas ou quer que fosse, entrariam no _South Kensington Museum_ no proprio dia em que elle, lord Clifton, fechasse os olhos ao mundo, para no craneiro do castello habitar o seu sarcophago de lapis-lazzuli, que dez leopardos sustentavam e dezenas de escudos revestiam. A nobre intenção do lord commoveu a orgulhosa e grande Inglaterra. Todos os clubs revotaram homenagens ao benemerito, o parlamento e a rainha encheram-no de honras, e por seu turno o povo fez-lhe ovações formidaveis, sob as janellas do palacio.
E d’alli por deante, a ideia de todos era:
—Quando cerrará para sempre os olhos esse bom lord duque de Clifton?
No salão de honra de _Kensington_, o director tinha já marcado logar á reliquia inestimavel, ao fundo da peça, sobre um estrado gothico, entre as estatuas exhumadas no Peloponeso e bandeiras tomadas aos francezes nas grandes batalhas do Imperio.
E uma tarde de inverno, os jornaes noticiaram a morte do lord.
Emquanto todas as classes sociaes vinham, luctuosas e graves, desfilar no enterro, uma deputação de sabios presidida pelo principe de Galles, subia as escadarias do solar para conduzir ao Museu a offerta do duque morto.
Ah, pobre gente!...
Desapparecera do estojo a peça de roupa de Carlos Stuart, camisa, ceroulas ou quer que fosse, que a governante, aceada mulher do paiz dos _highlands_, vendo para alli o lastimavel farrapo, atirára honestamente com elle á barrela da lavadeira!
O MORGADO
Na Casa Branca, quando o trem parou, despertei ao ruido da portinhola que se abria, e entrou um homem com uma creança de lucto.
—Tenha o senhor boas noites! disse elle, erguendo o chapeirão desabado. E desembaraçando-se da capa hespanhola, bandada de roxo, com alamares de corrente, poz-se a empurrar para baixo do banco a mala de tapete que trouxera. Gordo de mais talvez, barriga importante onde um grilhão de oiro escorria, ar compostamente sereno, barba toda. Depois de se sentar resfolegou do esforço que fizera a empurrar a mala, ergueu a gola do gabão ao pequenito, dizendo-lhe se tinha frio, se tinha somno, ou se tinha fome—não me lembro já. A creança estava para um canto, e de dentro do gabão pardo, os seus grandes olhos tristes erravam curiosamente por mim, pensativos e humidos.
O homem correu-lhe a enorme mão pela carita fina, com uma ternura bondosa, e voltado para mim sorria-se, como a pedir desculpa de ser tão expansivo.
—É seu filho, hein? disse eu.
—Saberá que sim, tornou elle.
—Filho unico, talvez?
—Não tenho mais, infelizmente.
—É novito ainda.
—A fazer oito, pelo S. Miguel.
—Então padece?
Pareceu surprehendido do que eu dissera. Padece, o filho d’elle? Nunca tomára remedio de botica, nem soffrera de molestia. Em todas as creanças, os dentes põem abalo a romper, como o senhor sabe. Pois n’este vieram, sem _ai_ nem _ui_! Padece, qual!...
Via-se um orgulho de progenitor n’essa maneira de dizer, distillando idolatria sobre a pequenina larva enroscada ao canto da carruagem, branca, magra, feita d’esse tecido molle que é senilidade na infancia, e faz de ordinario os filhos dos velhos ou dos debochados.
Era verão, viajavamos de noite.
Tudo negro ao largo. Apenas de longe em longe, ardiam moutas em plena charneca, com labareda que ás fumaradas davam tons rhembrandtescos e baços. Nas ribanceiras da via, conforme se iam complicando os declives do terreno e os amontoados do arvoredo e do matto, as lanternas do trem alumiavam de imprevisto estranhas fórmas com todos os aspectos, troncos hirtos, cannaviaes em borborinho, grandes pinheiros abrindo parasol, estevas ondulando pelas escarpas da rocha a pique, e a terra esboroada verberando os calores accumulados durante o dia. De passagem pelo areal, poeiradas finas enchiam os ares, enfiando pelas janellas e cahindo ao de manso no fato. E continuamente, como aldraba gigantesca soando por um vasto corredor, o _trac-trac_ do trem ensurdecia na noite, subindo em formidavel algazarra se os _rails_ afundavam rasgando outeiro ou penhasco, ou apagando-se mais e mais, se iamos francamente correndo em planura.
De bocado a bocado casinholas rompiam da sombra, e debruçando-nos viamos o guarda postado de lanterna á banda, chapeirão cahido, immovel e negro, solvendo-se rapido no turbilhão de fórmas que desfilavam. Succediam-se estações contra estações, vastas savanas implacaveis como desertos, pinhaes cerrados, ou trunfas de mattagal hirsutas pelos cabeços. Ás vezes o homem erguia-se deitando a cabeça fóra da carruagem, e ficava nas trevas sorvendo o rumor das boiadas adormecidas na pastagem, os gritos dos ralos e grillos á bocca das regueiras mais providas de frescura. N’estas distracções podia então olhal-o melhor, vêr-lhe o fato, fixar-lhe a edade e estabelecer-lhe posição. Trazia jaqueta escura, calças muito chatas de fundilhos dizendo os habitos sedentarios da provincia. Nas botas cruas muito largas de tromba, havia saltos de prateleira com esporas, e todo o vasto abdomen coberto por uma cinta, com cadilhos profusos cahindo á banda.
No Poceirão, o pequeno que despertára do canto, quiz agua; e como eu tinha o frasco cheio, puzlh’o á bocca logo.
—É dormir outro somno, seu morgado! disse-lhe a rir. E elle sempre exprimindo-se pelos olhos penetrantes, com o seu narizinho afilado e a bocca fria, muito breve, encarava-me sem dar palavra. O pai disse então:
—Cansado da jornada, não falla. Maroto!...
Achegava-lhe o gabão com um geito meudinho de ama secca, endireitando-lhe as pernas, e pondo-lhe a capa enrolada em cochim por baixo do corpo. E aberta a bolsa do tabaco, preparou uma cigarrada desconforme. Estendeu-me as mortalhas depois de se ter servido.
—Fuma?
—Só depois de comer, obrigado, respondi.
—Como eu tal e qual, em rapaz. Agora fumo a toda a hora. Não incommodo, não?
—Á vontade! Essa é boa.
A charneca era rasa e nua; algum grupo de pinheiros erguia em preto a figura consternada, sobre o nascente esmaecido na commoção da antemanhã, onde a estrella d’alva dizia como um girasol de saphira, gottejando estames de luar.
—O senhor é alemtejano, disse eu, a vêr se entabolava palestra.
—Vivo ha muitos annos lá.
—Casado?
Elle apontou-me o camisote escuro em que eu ainda não tinha reparado, e tornou baixo:
—Casado?...
E de mansinho:
—Viuvo, ando de preto pela mulher, não vê? E respirou com força.
A sua voz era branda, sem os tons ingratos, intimativos e duros, do ricaço afeito a mandar ganhões e cavadores, a fazer contas á noite, a dar palestra nas abegoarias e nas eiras, e a pesar todos os homens na balança egoista dos contos de reis. Então encarando-o em cheio, vi que era pallido, com olheiras papudas, sobr’olho hirsuto, e a testa fugindo em dois fios de calva sobre as temporas luzidias.
—Ficou-lhe o pequenito, prosegui eu. É o que tem casar de certa edade; faz-se tarde para educar os filhos depois.
Elle abanou a sua grande cabeça com ar grave, e a olhar distrahido para fóra, quebrando a cinza do cigarro:
—Esse é um dos perigos, disse. Ha outros, se a mulher é nova...
—Ah, sim, tornei eu. Nova e leviana!—E olhei-o a rir. Vi-o pôr-se em pé sob o impulso de uma mola interior, escarrar com ruido, dizer palavras incertas:
—Felizmente não tenho razão de queixa... Levava as mãos ao ventre, procurando o que fosse com gestos errantes.
—... sim, não tenho razão.
E pregava o camisote de lucto, ia ao pequeno, voltava á janella. Mas como eu olhava para elle fez-se branco, e affirmou com força:
—Palavra de homem de bem!
—Mas juro que acredito! disse eu admirado da singular insistencia. Na confusão tinha lançado fóra o cigarro, e buscava mortalhas pelos bolsos:
—Este mundo é uma comedia, olhe que é! Tenho-as soffrido boas, não ha que vêr.
—Nunca se é completamente feliz, opinei do meu lado, e elle fez que sim com a cabeça.
—O senhor está novo. N’essa edade os desastres não deixam mossa, vê a gente tudo côr de rosa. Mas em velho, creia, a coisa é outra.—Estendeu o braço para os campos que sahiam vagos da noite e da nebrina, sob o pallor do ceu matinal. E com intervallos absortos:
—Tudo isto é meu!—Riscava com o braço o horisonte—Além fica a herdade das Donas, além São Brissos que foi do Moira de Arrayollos, lá longe ainda se vê a Martineta, terra guapa para sementeira! Vida, vida!...
E mais longe:
—Podia metter-me a arrotear descampados por ahi, tudo terras gordas, virgens de colheita, aguas da mãe... Milhões em pouco tempo!
Riu-se com aspecto triste.
—Por ahi invejam-me a lavoira, gente feliz! Mette sempre cubiça aquillo que é dos outros. Olhe que é assim!
—E porque não tenta essa agricultura em grande? inquiri.
—Ora, deixal-a! fez elle com um gesto desalentado. Quem vier atraz de mim, fará o que entender.—E voltando-se:
—Cá o petiz... se chegar a homem, algum dia.
—Ha de chegar, porque não? tornei eu, e em resposta o velho disse-me:
—Muito obrigado ao senhor.
No Pinhal Novo, entrou gente de Setubal, encheram-se as carruagens, a familia de um coronel sentou-se entre nós, e não fallámos mais. Ás vezes olhava-o do meu canto, via-o espreitar o pequenito que dormia, com uma sollicitude terna, filtrada de passivas tristezas. E os cabellos brancos faziam-lhe corôa, abaixo das abas do chapeu. O coronel, enorme como um cyclope, todo feito a crista de gallo, o cabello já branco muito encarapinhado, rompia como uma torre sobre os mais passageiros, na fanfarrona postura dos hercules de chafariz. E o morgado mirava-o com humildades paisanas, de soslaio, sem se atrever a fital-o em frente, n’uma admiração pelas lunetas azues e rutilante coloração d’aquella magestosa senhoria, toda sonidos de esporas e espalhafatos de oiro nos canhões da vestimenta. De tamanho esqualo exsudavam aspeitos de sopeada bravura, fragores de carga e bramidos de commando. N’essa mão fechada sentia-se o nervosismo de quem marcialmente comprime punhos de durindana invencivel, na vanguarda dos esquadrões a toda a brida, e sob fumaças de canhões ululantes. Um respeito vergava a obesa corpulencia do morgado, quando um prior sacou farnel da mala, dizendo não ter almoçado capazmente. Perguntou á volta se alguns dos senhores ou madamas eram servidos. E patenteára um desconforme cabaz de provisões, fiambre, doze ovos cozidos, um gordo frangão de recheio, tangerinas, e marmelada para desenfastiar. O rubro coronel, que era um amigo pelos modos, não recusou a sua golada de Porto.
—Está bello! dizia o prior. Sirva-se de laranjas, snr D. Emma, são das nossas.—E a D. Emma, filha do coronel e zarolha, com plumachos brancos n’um chapeu de telha escarlate, volveu com mimicas fastientas que agradecia muito, mas não. O coronel pôz-se então a fallar. Era uma vozita de incomparavel meiguice, toda pastosa nos _RR_, sollicita, mansa, escorrendo falsetes de menino do côro. E com grandissima surpreza, o morgado ouviu esse guerreiro côr de lacre, tão babylonico de construcção, discreteando em tramas de cozinha, mal-o prior. Confessou-nos elle que daria tudo por um legitimo recheio, mas o que se chama tudo!
Só dava verdadeiro merecimento a recheios, quem os sabia preparar. A receita do _Cozinheiro dos Cozinheiros_ era uma burundanga de tasca. E com soberbia, alevantando as charlateiras flammantes n’um pavoroso jogo de omoplatas, desafiou alli quem lhe désse leis sobre a materia. E no mais! geleias, podins, cremes, toda a qualidade de molhos, e umas tripinhas do _Poôrto_, seu prior?
—Oh, isso é famosissimo! disse o reverendo, a mastigar fiambre com dentes de fradalhão. E investindo os circumstantes por cada vez, em cata de adversario, o famigero coronel gabava-se de ter lido tudo que andava escripto sobre o assumpto, até calhamaços vindo de França! Contava mesmo artigos seus no _Almanach Taborda_, provando os inconvenientes do cidrão no podim d’ovos... o que lhe mereceu cumprimentos do prior, que não sabia estar fallando _com o illustre litterato_. Tambem apreciava d’alma as invenções da pastelaria, os bons podins, as ricas geleias, o cremesinho de fructa alli na mesma da hora.
Bebericava com ruido de sorvos. E declarou ter em Azeitão uma moça, que sabia temperar isso celestialmente, o que fez abaixar os tortos olhos da D. Emma.
—Oh, disse uma azeitonada da familia, que estava de verde a um canto, com dentes sahidos—como o papá não póde haver, faz lá ideia!
—Com effeito, affirmou o guerreiro rejubilado, a cozinha é o meu fraco.
Retorcia os bigodes de Fritz, e referiu como abichára a _Torre e Espada_ nas manobras de Tancos, por ter regalado sua excellencia o ministro da guerra, n’um jantar subscripto entre a officialidade, onde elle fizera tudo, desde uma certa sopinha de rabo de boi, que estava...—e com basofia, beijou as pontas dos dedos a encarecer—até ás compotas, que ficaram de estucha!
—Pois não lhe sabia, não lhe sabia da balda, snr. coronel Pureza! dizia o prior com deslumbramentos na grossa faceira de glotão. E o guerreiro deu receitas, como era a galantine, o sorvete de ananaz, e grande numero de geleias singulares. Explicou as fôrmas, e dos feitios que melhor serviam á boa apparencia dos preparados.
—Ora! ora! argumentava o prior, pasmado de tanta sabedoria.
—Inda não sabe o melhor, disse a de verde, com dentes rompendo um focinhito de lebre. Faz gaiolas mais lindas!
—Ah! fez o reverendo cahido de surpreza em surpreza. E que lhes mettem?
Ao darmos em Lisboa, eu e o morgado apertámos as mãos, creio que lhe disse alguma coisa affectuosa, e com a mesma voz funda e espaçada, tornou elle:
—José Maria Cardenes, conhecido em todo o districto. E querendo, a casa lá está.
Foi-se; já longe cumprimentou o Alvares, o amigo Alvares do Credito Predial, que eu conhecia tambem. Fui-me logo a elle.
—Como está vossê, bem, obrigado, disse eu. E sem delongas:
—Olha cá, quem é aquelle velhote, hein?
O Alvares poz os oculos, esteve a vêr um pedaço:
—Ah, o morgado das Olhalvas. Bom velho, meu rapaz, mas que corno!...
E passado um momento:
—A mulher bem boa, c’os diabos!...
—Conhecel-a tu?
—Dizem. Póde ser verdade.
* * * * *
Dois annos depois n’uma estação de banhos, já por outubro, fumava na praia uma tarde, quando um homem de lucto me veio cumprimentar, com um arenque de rapaz pela mão.
—Como vae indo o senhor?
Fallava-lhe sem me recordar de o ter visto alguma vez—bem, obrigado, como está? É seu filho, este pequeno? Doentinho, segundo parece...
—Nada, não senhor. Fraco. De maneira, que vim aos banhos. Diz o medico que é bom, para a frouxidão de nervos.
—Sim, sim, dizia eu bocejando.
Elle puxou o pequeno para mim, fêl-o fallar, fêl-o andar—estava mais crescido, não estava? mas pouco appetite... E afagava-o de leve, enlevado n’aquella sujidade amarellenta, molle, sem reacção, somnambula e ephemera como uma esponja do mar. A espaços, quando uma vela corria ao largo, o macaquinho alongava a mão chata, desengonçada, lembrando pelos deditos curtos um pé de ganso com palmouras, e gania:
—Oh pae! pae!
—Que é, Luiz?
—Olhe além uma embarcação.
Ficava a rir descóradamente o seu riso de esqueleto, em que jámais luzia a emoção desordenada e viva das creanças rijas. Por vezes mesmo, querendo fallar não sabia exprimir, esquecia as palavras, varriam-se-lhe as ideias, e engasgado punha-se a olhar feito parvo, de redor. O pae então ia-o ajudando, e vibravam na sua voz meiguices entretecidas com lagrimas.
Voltado para mim, resumia:
—Uma desconsolação, o que vê!
Animava-o cheio de sympathia por aquella dôr grave de velho, resignada e muda, e punha-me a dizer:
—Que o mettesse n’um collegio, longe dos mimos da familia. Já se desenvolvia! Os rapazes precisam encetar vida, pela dureza e pela lucta, entre alguem que os hostilise e alguem que os guie. Dão sempre resultado os habitos viris, ensaie isso—gymnastica gradual todas as manhãs, passear a cavallo uma ou duas horas, corridas pela quinta, sobriedade na comida, cama dura, habitos madrugadores. Verá como faz d’elle um rapagão. Os rapazes, creia isto, só enrijam, torcendo-se como quem torce calabres.
Elle não se convencia, mostrava-me o corpinho do seu pequeno mollusco, que se alongava de mez para mez, e tinha de manhã os tons velhos do azebre, funestos e miseraveis.
—Se não tem mesmo síria p’ra nada! O senhor falla bem. E vamos que lhe rebentava uma veia...
Baixo, pondo-me na espadua a sua mão pelluda:
—Ataques, aos dois e tres por dia.
Fazia voz rude para dizer:
—Filho de má semente nunca vem a ser boa arvore.
—Tem mãe? disse eu por acaso.
Esteve sem responder; por fim:
—Morreu, coitada! Inda trazemos lucto, como vê.—E mostrava-me o camisote. Eu então reconheci o morgado do caminho de ferro, pobre homem! Estava mais velho, barba toda branca, a face cahida e sulcada. E d’alli por diante, ás tardes, davamos o giro da beira-mar, fumando cigarros na melhor camaradagem. Elle fallava-me chãmente da sua lavoura e da vida de provincia, quanto lhe rendia a cortiça, e como era mais barato pôr bacello de charrua.