Part 6
A cada vez que esbotava nas nuvens alguma d’essas glorias ephemeras côr de bronze tonkin, esboçadas de acaso como em fins de tela impressionista, deixando filtrar no erradio da perspectiva lentamente, uns filamentos mais noctivagos de sombra, sahia d’essas gargantas um côro funebre modulado em tremulos de pranto, absorvencias de elegia, rythmos de ballada, e todo convulso ás vezes na afflicção dos mudos, que ao expirar do amigo ou do irmão, querem blasphemar e têem a lingua impotente! Esse côro dizia a tristeza de captivos, longe da patria, erguendo braços supplices, entre vagalhões de sombra tragica e membros flagelladores de espectros. E ás vezes de mansinho, como se fosse em segredo, fazia palavras articuladas de queixa, e ia-se apagando, apagando... Correndo a vista, poder-se-hia contar por corpos, esse exercito armado de chifres e todo ruidoso dos chocalhos. Iam na frente os guias barbados, chibatos enormes de pello fulvo e andar solemne, cornos altos, os grandes chocalhos badalando. E de pescoço erguido, um ar mephistophelico de barbas, toda a lanugem fluctuante no ventre, esses grandes bodes corriam na pastagem adeante das mais cabeças, farejando, retouçando, trepando pelos troncos baixos, subindo aos penedos e fazendo para assim dizer no seu giro, o quadro graphico do acampamento a occupar. Após seguia a grande massa das ovelhas, carneiros e cabritas, toda a pacifica e fecunda legião das femeas e procreadores do rebanho, de cabeças rasteiras, a lã negra, encarriçada e fofa, e a cornadura transversalmente estriada... Tinha já soffrido tosquia a maior parte; de fórma que sob a pelle vincada de tesouradas, os ossos de cada um saltavam na magreza angulosa, ao menor solavanco dos corpos. E por entre a turba furavam os pequenos mais velhos, brincalhões e vivos, cabriolando e cahindo, apoiados nas ancas das mães, ou sugando as tetas com furia de esfomeados. Muitas ovelhas, enfraquecidas de parto, seguiam devagar, parando a dar mama ás crias novas, ou cortando gramineas n’um abatimento triste. E atraz de tudo era a pequenada de meio dia, de um dia e de dois, pequeninos informes cambaleando esmagados sobre altas pernas vestidas de pellugem fina e longa, e abanando ao vento as orelhas espalmadas, sem curvatura e sem meneios. Na vanguarda então, como a luz cahia mais, os bodes erguiam o focinho parando de comer, viam de lado os ares embaciados, e as ultimas franjas de oiro das nuvens acertadas ás tiras, sobre um ceu côr de perola, palpitando nas ultimas radiações do sol. Para baixo, nas chapadas, era uma confusão sombria de laivos que se deslocavam e fundiam, tornando a espessura lobrega. E esbatiam-se as ramadas, perdida a noção das distancias; um diluvio de treva vinha dos valles lento e sem rumor, submergindo as aldeias, as florestas e as montanhas. Vendo a noite cerrada, Desiderio Jacintho poz-se a ajuntar colmos, palhoças esquecidas, fenos que estavam hirsutos á beira de uma alverca ou outra. Depois cortou ramadas nos zambujeiros que havia, esteve a cardar nos dedos nodosos o seu pedaço de isca, chapeu de borla para a nuca, a volta do cajado apoiando o sovaco, um lenço amarello enrolado na cabeça e alforges ao hombro.
Poz a isca no gume da pederneira desconforme, com o fuzil feriu fogo... Os cães percebendo, vinham mansamente para elle de olhos doces, ondulando as caudas alvadias. Desiderio Jacintho ajoelhára ao pé dos pastos em monte, que tinham por cima a lenha cortada das arvores. Metteu pacientemente a isca accesa por baixo de tudo, esteve assoprando até apparecer labareda. Restolhos fóra, o rebanho estramalhava-se a fazer cama, escolhendo para dormir os terrenos declivosos e desamparados, onde a aragem désse de chapa. E como para além do lume tudo se perdia em escuro, e a flamma da fogueira encandeava o pastor, ninguem viu uma pobre ovelha, que extraviada do rebanho conseguia alfim encontral-o, extenuada e esqueletica, trazendo de rastos com os dentes, o borreguinho parido de manhã.
* * * * *
No campo e de verão, rompe o dia ás tres e meia, quando a cotovia faz a primeira ascensão nos ceus, para dar do alto, aos volateis emboscados nas folhas, nas hervas seccas das barreiras, nas tocas, nos cannaviaes e nas balsas, rumor para a grande pastoral beethovnica da manhã. Accesa na pallidez do horisonte, a estrella d’alva tem fremitos de palpebra somnolenta.
Vae-se rasgando a nevoa das alturas, de envolta com exhalações silvestres dos valles—e cardumes de nuvemzinhas brancas ondulam as barbatanas de renda, por toda essa piscina cerula, que é desconforme como uma ambição de rapaz. Foi quando Desiderio Jacintho, retomando os alforges e a manta, assobiou aos rafeiros e fez partir o rebanho pela encosta da montanha. Mesmo no cabeço, alastrava-se uma clareira redonda, entre pedregulhos e restos de um moinho abandonado. E deitada n’uma attitude indifferente, cabeça no chão, o focinho coberto de mucos, a pobre ovelha viu partir as companheiras e deixou-se ficar de guarda ao cadaver do pequenino borrego, das suas entranhas nascido. Prolongou-se a manhã, acordaram os arvoredos e os passaros, passaram n’um vôo pesado, bandos de perdizes a matar a sede lá baixo, nos raros pégos da ribeira... Veio o sol, abelhas zumbindo, bandos de borboletas fulvas, gafanhotos e sardonicas nervosas, tudo o que começava o seu dia alegremente, luctando, trabalhando, cantando.
E o rebanho já longe, fazia no toque dos chocalhos plangente, uma poesia rustica, simples e penetrada de melancolias.
Quando de repente, dois corvos pousaram nos alicerces do moinho. Eram enormes esses corvos, com pennas azuladas luzindo de cerumen, crespas e afiadas como cutelos de bom aço. E impertigavam-se um para o outro, chegando os bicos n’um quasi beijo de alliança, aos saltinhos nas pedras, firmando patas, balanceando os rabos, com olhos obliquos sobre a mãi e sobre o filho. E estendendo os bicos corneos, dentados meudamente no bordo, longos e negros, quedavam-se n’uma especie de consulta, sem grasnar, sem mexer, como planeando campanha. O maior então atreveu-se a olhar de perto os dorminhocos do rebanho, e veio marchando clareira fóra contra o borreguinho morto, com sobrecenhos de inquisidor, sinistro e fero—em quanto o outro ficava á espera, todo inquieto, voejando, consultando as visinhanças, mais cobarde talvez! A ovelha nem dera rumor.
Conservava a cabeça inerte para a terra, as pernas dobrando sob o peso do corpo, orelha cahida e molle, e sem movimento a cauda, parecendo morta. Aquella postura extincta animou o carnivoro, que veio mesmo ao pé do grupo, se poz a andar deredor mansamente, assentando a pata com uma especie de precaução, geitos desdenhosos de cabeça e surdos ruidos de serra no bico poderoso. Mas nos alicerces afastados do moinho, dois corvos mais acabavam de pousar, inda maiores e mais negros.
Já o sol causticava nos saibros e vinha secco um chiar de cigarras nas arvores. Attrahidos uns pelos outros agora, os malditos abatiam-se aos bandos, depois de voejar em ellipsoides muito alto, por cima da presa. E ás duzias, as cabeças funebres surgiam por traz das rochas, armando conclaves de momento, debandando como _fantoches_, vindo de novo remoinhar aos saltinhos, ondulando, subindo, descendo e quebrando circuito, como n’uma dança selvagem.
O ataque parecia ordenar-se, á medida que se espessavam fileiras. Havia já um chefe, velho corvo sem cauda, ferozmente faminto e audaz, que afinal com um grande pulo, cahiu no cadaver ás bicadas. Os mais cerraram-se, apertando circulo, cingindo os dois corpos immoveis, batendo o chão compassadamente, com rythmos de marcha guerreira. E mal um d’elles grasnou não sei que ordem de batalha, grasnaram tambem os mais, n’um côro estridente e lugubre, que abria em risada, terminando em uma especie de uivo, guttural e rouco. N’esse momento, a ovelha ergueu a cabeça devagar, firmou meio corpo nas patas dianteiras, e esteve a olhar de narinas altas, sanguinolentas pela mordedura dos moscardos gangrenosos.
* * * * *
Aquelle movimento fez uma hesitação no exercito de grasnadores fatidicos cujo circulo se alargou, vergando em receios de castigo. Viam-se os bicos alinhados, convergindo sobre a ovelha e cria examine em ar de pontaria, e fazendo para dentro do circulo uma golilha negra de punhaes. E se ao mesmo tempo as cabeças voltavam, d’esses olhos chammejantes, inquietos e febris, fuzilava um sardonismo feroz, uma como certeza de victoria e provocações mudas, em que havia intelligencia. Quando a ovelha fitava um grupo, esse grupo immobilisava-se com attitudes marciaes, as pernas em fila, caudas em fila, e azas pendentes como abas de casaca, n’um enterro. Mas o resto convergia por detraz da mãi afflicta, de mansinho, aos encontrões, com fremitos de impaciencia já, mas preferindo cansal-a pelo cêrco, deixal-a agonisar para alli de impotencia, junto do filho coberto de moscardos verdes. E como se sentiam fortes pelo numero, longe das vistas de homem, senhores do campo e espicaçados de calma, entravam já de escaramuça, armando sortida, aos pulos no mesmo sitio, enfunando as azas como para aligeirar os corpos, e promptos ao primeiro signal. O corvo velho estava na frente, contemplando o cadaver de cabeça reflexiva, com idéas talvez na presa do leão. E muitos picavam o terreno ao acaso, como a disfarçar os intentos, em quanto a ovelha se levantava custosamente, e com o corpo mirrado, pernas oscillantes e narina afflicta, vinha cobrir os restos do seu pequeno defunto.
Chovia fogo do ceu embaciado e calmo, como d’um capacete em braza. Fumos sujos de queimadas, subiam direitos d’onde a onde; e era a hora terrivel em que a paizagem não tem sombras, nem correntes o ar, e vem scintillas cruas de todos os angulos e superficies.
O borreguito morto estava de olho esbugalhado, n’uma especie de extasi á luz, meios risos na bocca entreaberta, onde já havia larvas de insectos. E a ovelha guardava-o entre as patas, girando com a cabeça por um e outro lado, á medida que a petulancia dos corvos recrudescia. Os seus balidos frouxos, vindos do fundo do peito, tinham modulações de desespero mortal, e umas vezes imploravam graça debalde, vibrando em lagrimas de sangue, referindo que era aquelle o seu filho, contando a vida do rebanho, querendo abalar pela commoção: outras vezes perdida a esperança, eram uma imprecação á insensibilidade de Deus e do ceu, e rouquejavam de angustia. O corvo velho por fim saltou de vez, e com uma bicada gulosa arrancou um olho ao cadaver. Então os mais vieram em turbilhão, esbofeteando a mãi com as azas metallicas, grasnando de voluptuosidade na disputa de algum bocado. Com esforços desesperados, a ovelha resistia, marrando nos algozes com a sua fronte sem cornos,—e recuava, punha em rotação a anca e os membros posteriores, saltava bruscamente espicaçada, n’essa grande lucta desegual. Apenas, esses bicos todos lacerando a pelle do cordeiro, lhe desnudaram a vermelhidão da carne, não houve mais resistencia possivel, tamanho o impeto da investida! Agonisando então, por todo o corpo ferida e escorrendo sangue em borbotões, a ovelha já não sabia que fazer. Balava rijo, erguendo o focinho coberto de mucos rutilantes, perdera um olho na peleja—mas investindo sempre, a desgraçada!
Quando era já tudo impossivel, e o borrego pelos rasgões do ventre, bolsou os intestinos n’um começo de podridão, nada póde dar ideia da alegria selvagem e pantagruelico appetite, d’essa canalha sem freio. Disputavam-se os bocados de bico para bico; e os mais atrevidos alojavam-se por baixo da ovelha, no intuito de se banquetearem melhor.
N’um derradeiro balido, em que se exhalava tambem o esforço derradeiro, deixou-se a mãe cahir para cima do filho, aniquilada, resignada, sem queixa—e até á ultima convulsão defendeu o cadaver, offerecendo o triste corpo da mumia em resgate por aquelles queridos despojos. Já se não sentia ao largo o rebanho, e no silencio adusto do calvario, por todo o dia á vontade, os corvos tiveram festa.
MEPHISTOPHELES E MARGARIDA
Domingo de entrudo. Alguma chuva, lama, poucas mascaras nas ruas.
A Clara vendera poucas flores, não por falta de canceiras, que a viram onde circulava a turba, á porta da Trindade, pelas tabacarias e pasteleiros, ao Passeio Publico, na Alta, na Baixa... Pouca sorte! Não era bonita, não era gaiata, nem tinha fatos garridos; e pobre!... Era o peor, palavra.
Quem ia agora fazer caso de similhante diabo, e comprar as violetas fanadas e as tristes rosinhas murchas, dos _bouquets_ do seu açafatinho de vimes?
Embalde baixou ella os preços, mettia o seu commercio ás ventas de quem passava, apregoou, gemeu, supplicou, tentando dizer as miserias da sua vida negra, dias sem comer, renda da casinhola a pagar, os filhos, frio, doença... Mas encolhiam os hombros. Antes de tudo, os importunados olhavam-lhe p’ra cara. E viam um estafermo amarellento e picado de variola, covas nas faces, olhos mortos, sem brincos nem meias, o lenço da cabeça amarrado adeante, um casibeque com remendos nos cotovêlos, a saia desbotada, e gasnete com essa côr de burel, carcomida e velha, que deixa adivinhar um corpo de arenque, chupado e ossoso.
E vendendo flores tão servidas como ella, inda por cima!
Um marujo que ia tocando com outros em guitarras, ferros velhos e caçarolas arrombadas, n’esse carnaval de tabernas e bairros lugubres, atirou-lhe um encontrão, dizendo:
—Vossê enrica com o estabelecimento. Oh laré!
E matulões em chinellos, cobertos de trapos, luzindo de papeis doirados, todos sujos de vermelhão, dançando ao som das castanholas n’uma alegria ignobil, gallegos, cabos de policia, vegetes de facalhão em riste e dedos immundos, ao passar por ella beliscavam-na, dizendo-lhe ao ouvido recados torpes, fufia, rainha das iscas e fandangueira de escada, convidando-a para dormir em hospedarias de má nota. Quanto a vender flores, nem uma! Um dia triste, esse domingo de carnaval. E passando pelos armazens de comida, mercearias, pastelarias e restaurantes, á hora em que accendiam o gaz, ella sentia um surdo desespero da sua penuria, ante esses rumores de gente que apressava, comprava e comia, dizendo—não póde ser!—aos que esmolavam na rua. Em todas as lojas ia um movimento de festa, sahia gente com embrulhos de doces, cabazes de provisões festivas. Através os vidros embaciados das casas de pasto, passavam _silhouettes_ de moços servindo as mesas, ouvia-se o tinir dos talheres e das louças, vozes dizendo:
—Salta isto! salta aquillo!
As montras provocavam pela ostentação das peças frias, perús de recheio, salchichas enroladas n’um leito de salsa e rodellas de limão, pinhas de fructa afogadas em flores, os camarões, lagostas de patas hirsutas, e as cabeças de vitella crúa, escanhoadas e tenras, que fazem pensar na risonha Herodiade, mostrando em prato de oiro, a cabeça livida de João Baptista.
—Flores baratas, oh freguezes, aqui estão ricas flores, muito baratas!...
Cahiu a noite, cada qual gosava. Iam bebedos caracollando na rua. E o ceu tinha serenidades no alto, sob o frio luar de fevereiro... Clara foi para casa doente.
—Ámanhã veremos, dizia ella esperançada ainda, borrifando com agua fresca o cabazinho de ramilhetes já murchos. O filho mais novo estava em prantos no berço, grunhindo talvez de fome. Clara deu-lhe a teta, mas a creança recusou-se a pegar-lhe, sentindo o leite ruim, da febre, da caminhada, da debilidade e má alimentação.
Ás quatro horas do dia seguinte é que Gabriel, o mais velho dos garotos, appareceu em casa todo empoado, amarellento da noite perdida, e com uns ares de pandego, que deixaram a pobre mãe boquiaberta. Nem uma unica cautela vendera, das cinco com que abalára de casa, um dia antes. E a situação carregou-se!
Visinhas, não as havia alli tão perto. O antro em que viviam, dava de uma banda sobre quintalorios alagadios, emquanto da outra ia abrir n’um desvão de muralha aluida, entre cocheiras fétidas, onde a toda a hora moços esqualidos diziam maroteiras, ou repicavam fadinhos langorosos. Aquella solidão punha incommunicaveis com o resto do mundo, os farrapos e as fomes d’esses despreziveis.
Mesmo de dia, fazia noite na caverna, e gottejava do muro um pranto deleterio, que Clara nunca conseguia estancar.
Esta existencia de privação e sobresalto, subterranea, quasi proscripta, era de continuo sob a ameaça de tentações singulares, companheiras da miseria e do abandono. Mesmo estruida e esqualida, a pobre era ambicionada, espiada, accommettida. Em volta da sua toca, girava esperando o instante critico, a cambada immunda das cocheiras perto, homens sem edade, corcovados, rotos, batendo tamancos e batendo fados, n’um asco de estrume que os degenerava em ratazanas de esgoto. Essa gente cahida na ultima torpeza, serenos de noite guiando trens suspeitos, moços de estrebaria limpando o gado e as immundicias do estabulo, sabendo crimes, conhecendo os vagabundos, ladrões, assassinos e meretrizes, tinha na cara em sulcos terrosos um attestado lugubre de infamia. Dois ou tres tinham a Clara de olho, e se a viam recolher da venda, diziam-lhe maroteiras, roncando de luxuria bestial. Nem se imagina a teimosia d’essa canalha narcotisada para toda a especie de brio! Pela noite, sentindo a viella deserta, vinham bater-lhe surdamente na porta, ou cantar-lhe fados de alcouce, n’uma aravia baixa, onde esguichavam os erotismos do degredo e sardanapalicas com pretos. E d’uma vez acordando a deshoras, Clara sentiu-se abraçada pelas costas; e uma voz trescalando a podridão, dizia-lhe em jactos de ancia—volta-te! volta-te! Havia entre todos um corcunda que lhe inspirava terror. Era talvez um velho, ossudo e luzidio, com voz guttural, o vinho carniceiro, typo de impudencia que nada teme e nada respeita. Na cocheira chamavam-lhe o _Tromba_, pela montanhosa constructura do nariz leproso e uma dentuça obliqua, asquerosa de carie. Para bem dizer, era a ultima phase do homem degenerado em besta, especie de gorilla sem força nem agilidade, conservando todavia nos meneios cambados e nos traços physicos, evidente a herança do quadrumano-rei. Os outros da cocheira inda conservavam algumas regalias de homem, guiavam de noite _coupés_ fechados, podiam transportar-se uma vez ou outra na almofada dos trens á laia de trintanarios, ou dormir fóra e guardar-se de certos serviços. O _Tromba_ não. Era um pedaço da cocheira, uma dependencia do estrume em que dia e noite se atascava o empedramento do casebre, não podendo sahir mais que para dar agua ás cavalgaduras, dormindo na palha pôdre pelas bestas esfocinhada das manjadouras, sob os cheiros da urina, entre guinchos e pulos das argamassas, cuja voracidade por vezes lhe espetava dentes na pelle sarnosa das canellas. O alcool, as doenças obscenas e esse rachitismo larvado tão frequente no sopé das cordilheiras altivolas, tinham-no imbecilisado a ponto de lhe fazerem esquecer a maior parte dos termos, irracionalisando-o de um modo assustador. No fundo das suas orbitas lugubres, uns olhos aguados, mortos, cheios de uma especie de gomma de amido, jámais boliam para vêr. Fallava por gritos, imprecações e monosyllabos, a homens e a bestas, n’uma toada sorna, que apenas sifflava forte nos vortilhões de cólera. Incapaz de commoções intermedias, era terrivel e extraordinario nas tempestades interiores, que difficeis em salteal-o eram difficilimas de esvaír, convulsionando-o assim por horas, n’um fluxo e refluxo de doido furioso. Serviam-se d’elle os moços da cocheira como d’um macaco de recreio ou d’um urso habilidoso; e em circulo no pateo á hora do almoço, muitas vezes a Clara os surprehendeu embebedando o _Tromba_ para rirem depois, vendo-o cabriolar entre farrapos, com uivos de animal feroz. O _Tromba_ tinha uma paixão pela Clara, fez-lh’o entender umas poucas de vezes, explicava-o a quem queria ouvir. Essa paixão repellente e sordida permittia á risota soez dos malandrões de cavallariça, uma serie de partidas da mais original obscenidade.
O subterraneo de Clara tinha fresta sobre o pateo da cocheira, abertura oblonga, estreita, sem postigo nem vidraça, onde a horrivel focinhada do _Tromba_ se collava atrozmente, nos dias vorazes de satyriase. E a pobre não era senhora de andar na casa, arregaçar as mangas, pentear os cabellos, curvar-se, dizer alto qualquer palavra, que essa voz mecanica do idiota, feita de sopros de folle sobre uma palheta relaxada, não uivasse de amor deshonesto, subindo e arquejando, conforme a sobrexcitação despertada. Clara buscava furtar-se quanto era possivel ao campo de visão da fresta. Arrumára as camas a um canto, fazia a comida n’outro, tinha a louça no reconcavo de outro canto. E se fugia das palavras d’elle, dos seus olhares chammejantes e propostas desavergonhadas, era vêr a raiva do idiota impotente para a chamar a si, como batia nas paredes murros de possesso, como enfiava os braços pela setteira do covil, agitando as longas mãos de sapo á busca de coisa que esfarrapasse e destruisse. Outras vezes mais quebrado, limitava-se a ficar de sentinella ao buraco, a rondar a porta da rua com sollicitudes de cão faminto. E Clara sentia os tamancos d’elle batendo as pedras, via-lhe a face unida á hombreira com humildade sombria, risos de pergaminho, uma magreza hoffmanica, e pela camisola em rasgões, a cabellugem amarellenta do peito, empastada e fria, como pêllos de cão morto ao relento. Os pequenos tinham um medo funebre de vêl-o, choravam em o sentindo vir, recusando tudo o que elle, nos seus momentos generosos de dinheiro comprava para lhes dar. Uma noite, o _Tromba_ enfiou bruscamente pelo subterraneo antes que Clara tivesse tempo de gritar, descalço, cansado, mais livido que de costume—e sem palavra estendeu-lhe na mão aberta, umas poucas de libras. Ella ia talvez tocar-lhe, deslumbrada, sem mesmo dar por isso. Mas o _Tromba_ recuára, e em convulsos sobresaltos onde estralejava a dentuça com ruidos algidos de ossadas, n’um turbilhão de walsa macabra:
—Se queres, vem-te deitar.
E como ella não dizia nada:
—Furtei ao patrão, não digas a ninguem. Tem lá muito, eu sei onde está.
Clara estremeceu de horror.
Elle disse:
—Anda dormir.
E do seu queixo em cornucopia, áquella ideia de prazer, uma baba hydrophoba pingava-lhe em grandes gottas turvas. Em lagrimas, voltada para um passado melhor, a pobre mulher recordava então o homem tão forte e moço, a quem se entregára confiante, cheia de ventura e varrida de quaesquer receios, e que depois de a beijar, de a gozar, cansar, infamar e servir, tornado em fera se aborrecera um dia, fementindo quanto de leal e socegado lhe promettera.
Ia em dois annos que elle abalára de casa, um dia de festa, no verão, cantando rua abaixo de a ouvir chorar abraçada aos pequenos, véstia ao hombro, n’uns fumos de bebedeira da vespera. Aquelle convivio de homem vicioso que a opprimira tanto vendo-a fraca e dedicada, e a deshoras arrastava para casa os rufiões e bebedos da sua laia, transformando em prostibulo o antro em que os filhos viviam, exigindo baixezas da mulher, explorando-lhe os cobres da labuta cruel que a derruia, pondo-a muitas vezes pelos cabellos fóra da porta e para o meio da lama, mumificára em pouco a mocidade d’ella, tornando-lhe carantonha o riso, fallindo-lhe as carnes, esburgando-lhe as mãos, chuchando-lhe os seios, e pondo-a para alli estupida, supersticiosa e megera. E por isso talvez ella o amava ainda, e receberia se voltasse—ai quem dera!—o pae dos seus pequenos, que partilhára do seu leito, e lhe tinha communicado na primeira scentelha do desejo, o primeiro impulso da maternidade.
* * * * *