A cidade do vicio

Part 5

Chapter 53,561 wordsPublic domain

Já a saloia ia á porta, dizendo ao marido adeus com a sua mão nodosa, muitas vezes, e ao descer parou, esteve a olhar saudosamente ainda, e foi-se. O velho enternecido, ria já tranquillo, recolhendo de sobre a cama do esfaqueado, os presentes da companheira. Ia repartir a sua fruta mal-o queijo, com o amiguito de Santa Comba. Laranjas quatro; eram seis molhitos de cerejas; e o rico queijo sem sal, muito branco, vinha embrulhado n’uma folha de couve. Ia mettendo tudo nos grandes bolsos do capotão de briche. O ultimo molhito de cerejas era magnifico e rubro, inda humido das parras em que viera envolto; e de braço erguido, cerejas contra a luz, o de Chellas mirava-as muito—eram da cerejeira de ao pé do tanque, não se enganava. Os olhos riam-lhe de felicidade para os fructos, como para queridos filhos. Plantára elle a boa arvore, ha dez annos, n’um dia de orago, estando a mulher de parto. Tão graudas e vermelhas!... Trincava-as uma por uma, mascando vagarosamente, de olho pisco. De estalo, meu homem! Cuspia os caroços com orgulho, saboreando a sua fructa, que viera da sua horta, colhida pelo seu rapaz e trazida pela sua mulher! N’aquella embriaguez esquecera-se do pé da meia, em que o dinheiro vinha. Estendeu a mão para a cama, machinalmente, á procura. O pé de meia! O pé de meia! E não dando por elle, affirmava-se, mas não o via, o rico pé de meia das economias... Baixou-se custosamente então, a vêr debaixo da cama, e aos lados da banquinha, nas dobras da coberta, em toda a parte—nada! Os seus olhos erravam por uma banda e por outra, exprimindo um pasmo afflictivo agora, e o ar oppresso de quem quer gritar e não póde. Fez para o marçano:

—Vossê viu por aqui, o pé de meia da companheira?

O outro fez não, com a cabeça. Não tinha visto! Que era? O pé de meia da companheira? Por seu lado, o velho reflectia, olhando á roda. Ninguem podia ter-lh’o assim furtado, não se salvasse! Entre a cama do esfaqueado e as mais, abriam amplos intervallos—da direita era a janella, da esquerda o canto. E o amigo das facadas nem se movera!... Diabo! Surpreso, o marçano encarava-o de face, á espera, sem saber.

—É que o levou por engano, tornou o velho afinal.

—Levou quem?

—A companheira, homem! Aquillo é que se esqueceu, a cabecinha de vento, e guardou o pé de meia. Pega cerejas. Deixal-a!

* * * * *

Pelo cahir da tarde, tinha-lhe voltado abruptamente o accesso de febre, trazendo comsigo o desvario. Jactitante e curta, a respiração vinha sifflante na guela, cornea de seccura. Acrescia a difficuldade de estar deitado, parecendo que uma gargalheira de bronze o afogava, pondo-lhe zumbidos no pavilhão, e deslocando-lhe as coisas aos circulos por deante dos olhos, n’uma walsa lenta, em que os contornos e as côres, se apagavam e fundiam. A espaços, despertando dos lethargos profundos em que amodorrava horas e horas, ouvia o entrevado prégando mortes, que já nas sombras da egreja velha, o riso das corujas tinha predicto noites e noites. Com seculos de intervallo batiam horas no cuco da enfermaria, alargando n’uma tortura livida, sem fim, as dôres e as insomnias, e moendo os corpos pela vida morta em que os agitava. Por vezes o enfermeiro de quarto, de varino, capuz derrubado e lanterna á cinta, sahia ao guarda-vento para gritar—Dez horas! Duas horas! Seis horas!—Seguia-se o barulho de passadas somnolentas, vozes que trocavam ordens, pontos vermelhos de cigarro scintillando na treva do corredor—eram os moços que se rendiam nos quartos, gente que batia custosamente o lagedo, e outros levando em padiolas cobertas de negro, quentes ainda, para o deposito, os miseraveis que vinham de expirar nas enfermarias. Outra noite então começava, eterna, sem guarida, sob a calma densa do ambito, que a bassa luz dos lampeões enchia de oscillações mortiças, que docemente, em franjas vagas, vinham quebrar-se na sombra tremula dos oito pilares da abobada.

Aqui e além, dois ou tres sonhavam co’a vida livre dos seus mesteres, nas ruas, nos campos, nas fabricas e no lar, recompondo as scenas quotidianas, dialogos de atelier, as pequenas birras de familia—e d’alli para cima entrava um fervor afflictivo, subindo, descendo, intercalado de haustos fundos, de suspiros oppressos, spasmos de asphyxia momentanea, cansaços, impaciencias, raivas—depois era ainda a série dos que não podiam dormir, e para todos os lados rolavam n’um esbrazeamento de sêde, deitando os braços de fóra, pedindo agua, n’uma irritabilidade de sentidos que os punha fulos ao menor ruido, ao attrito mais debil, ao leve ondular de uma luz. E as respirações fundidas com esses movimentos desordenados davam um concerto informe, alguma coisa como fervores de cratera activa, ralos que em espira fugiam do rumor geral para morrer em silvo, n’uma especie de sopro apagado, por vezes n’um ronco até.

—Carne fresca para esta noite! Carne para esta noite!—Que as maganas estão-se a rir...

Uivo de besta-fera que alarmava de lugubre, a deshoras, zangando uns, mortificando outros. Sómente desprezando a sucia, indifferente aos gritos e aos terrores, o enfermeiro estava na cadeira de braços para o quarto da madrugada, _Rocambole_ na mesa, lanterna ao lado, cachimbo acceso para matar o somno, e certa idéa gulosa em dois dedos de carne, feminina e sadia.

A sua sensação dominante, era um odio da vida negra eivada de miserias, em que amortecem affectos e bons impulsos, todas as lealdades da estima, abnegações do sangue, e os fluidos de uma sympathia que ás vezes, instantaneamente, se contrahe. Porque o tirocinio da profissão deserta de risos, constantemente em face do estertor, da allucinação e do soffrimento, o eterno espectaculo de corpos doentes, pondo a nú as podridões do temperamento e das faculdades, a crueza dos instinctos e os urros da cubiça e do odio, aluira-lhe o ideal de generosidade, estancando as fontes do bem, da pacienca e do amparo, quanto é inherente á intelligencia e se bebe de salutar na educação.

Oh, a Julia, que sobrolho promettedor!...

E rolava todo amoroso, n’um espreguiçamento lubrico, cabeça para traz, na molleza somnolenta que faz para assim dizer, atmosphera ao desejo. Bocca aberta, cahidos os braços, cachimbo em ala esburacando o capote, ficou a resonar espapaçado como um odre, e via-se o bigode cahido nas commissuras, pondo-lhe na cara o laivo despotico de um mandarim feroz.

N’um sobresalto então, o marçano viu uma fórma núa que se debruçava para elle, de olhos estourados, os braços em arco pintados de figuras azues, ancoras, letras, cruzes, datas, e de mãos tremulas tacteava as roupas, por baixo do travesseiro, á procura. De medo, nem pio deu. Olhava a estranha cabeça, muito chata de fronte e alongada ao alto, pequenina, afocinhada, de orelhas salientes. Apenas se mexeu, a fórma recuára sem ruido, como se escorregasse, e as suas mãos buscavam sempre, com incisão subtil e fina, pelos colchões, abaixo dos lençoes, sob o travesseiro. Que é? Quem está? Que quer? A adunca fórma vinha com precauções minuciosas, parecia crescer endireitando subitamente o tronco de livida magreza, em que saltavam costellas, e a enorme ligadura passava cingindo-a desde os sovacos até aos rins, com discos de sangue secco. Trespassado de terror, o pequeno fazia tudo para gritar, em lucta com o pesadêlo das mais noites—primogenito das grandes febres, em que mesmo acordado, tresvairava. E a catalepsia era implacavel, completa, prendia-lhe os braços, prendia-lhe as pernas, gelava-lhe a lingua, estrangulava-o pela garganta. Via essa aranha de nodosos membros, amarellos, terrosos, cheios de lanugem parda, cujos ossos davam estalos, indo e vindo, palpando o leito dos pés á cabeceira, escorregando-lhe as mãos ao longo do corpo, de olhos fixos, carcomido, atroz, cheirando a raposo e a mattagal. E não partia, a gargalheira de aço que o estrangulava!...

Transparente da extraordinaria magreza, o larvado sêr dir-se-hia movido por uma idéa fixa, procurando aqui e além, palpando tudo sem ruido. De cada vez que as suas mãos tocavam a carne do rapaz, sentia elle uma frialdade de reptil, pelle escamosa e aspera, que ao contacto dava irritações doridas. Cada articulação lhe fazia uma massa redonda e enorme, na linha torta dos membros.

Era todo anguloso e torcido, inutilisado por uma degenerescencia trahida nos mais simples pormenores organicos, desde os musculos que mal avultavam comidos de cachexia, até ás phalanges dos dedos, filiformes, agitadiças, tendo o ar de vermes.

Afinal o estado fez crise, pela condensação de uma grande força nervosa—e o pequeno deu um berro roufenho e brusco, muito curto, mas ao erguer-se sentiu a guela oppressa pela pressão de uns dedos crispados. A aranha cahira-lhe em cheio sobre o peito, tinha-se-lhe aferrado ás guelas, de pupilla accesa, calada por cima d’elle, e toda inteiriçada na sua magreza funambulesca. O pequeno debatia-se em vão; mas tinha os braços livres e atirava-lhe murros ao focinho, dando pontapés sob as roupas, e furtando o corpo a cada solavanco da guerreia. Luctaram dois segundos assim, n’um silencio lugubre em que os halitos sifflavam; e o espectro mordia nas mãos do garoto, aos pulos sobre a cama, furioso, tentando arrancar-lhe o quer que fosse, mão nas guelas, e a outra mão aggredindo sem descanso. Afinal conseguiu tirar-lhe o que era, pôz um pé no sobrado, deixára-lhe as guelas livres. A lucta porém não cessou, era o marçano quem atacava agora, aos gritos, agarrado ao pescoço do espectro. Tinham acordado em volta, no entanto, chamavam por gente, estremunhados, sem saber o que havia. De braços tisicos, o rapaz retinha a fórma núa, sem largar, arquejando, implorando—dê-me isso! dê-me isso! Mas o disforme sêr parecia de pedra, olhando de pé a creança que implorava. Tinha já ensopada em sangue a ligadura, e dobrado para a frente queria avançar um passo, dizer o quer que fosse, acenar com as mãos talvez; mas ao tempo corriam, e o enfermeiro atirou-lhe um empurrão—seu malandro! seu assassino!

Tinha-se reconhecido o das facadas, o que nunca mexia do seu lugar: e como elle vinha para aggredir, o enfermeiro injuriando-o, n’um chuveiro de infamias vertiginosas—que viera do Limoeiro para alli, era um degredado por toda a vida, um assassino, um pulha e um ladrão!—descarregou-lhe a bofetada em cheio, e com uma cara hedionda viu-o cahir desamparado, todo um, vomitando sangue negro, que cheirava a pôdre. Então disse alto, contra o guarda-vento:

—Eh, carreguem o canalha!

Os moços agarraram n’elle, um pelos pés, outro pela cabeça, e a custo ergueram-no do chão. Ensopada, a enorme ligadura não podendo reter o sangue das facadas abertas no esforço de luctar, pelos intersticios deixava-o correr em fio, muito escuro, crepitante, espumoso, nas tabuas, e pelas roupas, alagando tudo. Esse corpo resequido, sob cuja pelle tendões sahiam retesados como varas, jogava solavancos para toda a banda, com os braços, com as pernas, dando urros de touro agonisante. A enfermaria estava agora em balburdia, e todos fallavam n’um fundo de pavor, esbracejando, commentando o caso, fallando ao mesmo tempo.

Os moços vinham de atirar sobre a cama o rebelde, que a morte estorcia em repellões profundos. Viram-se essas pernas flectidas como para um salto, erguerem as rotulas juntas, contra a bocca torcida, d’onde um sangue denso golfava ao de manso. E dobrado pela cinta, todo aquelle sêr mexia, rolava, uivando, procurando apoio nos hombros, nos cotovêlos, nas nadegas, alçando a cabeça, cahindo outra vez, e erguendo-se ainda para luctar de novo, na ancia do ultimo arranco. Tinham chamado o interno de serviço, que veio ao pé da cama, e seccamente, chupando o cigarro disse—prompto!—e abalou de mãos nos bolsos. O fervor da respiração que subira mal viera a agonia, cahia lento, com o ruido d’um comboio que chega, e a mascara ficára rigida e baça, listrada de um bistre singular, ao ultimo rolar convulso dos olhos. Coincidia com o aniquilamento da face, a geral prostração dos membros—as pernas abatiam-se n’uma rigidez de pedra, mettera-se-lhe o peito para dentro como sorvido, e pendida do leito, a mão que estava fechada relaxou-se, deixando cahir no sobrado sonoramente, umas após outras, as cinco meias corôas do marçano, que condensando afinal as suas lembranças, acabava de reconhecer no morto, o ladrão do armazem.

O HOMEM DA RABECA

A casa para onde me mudei nada tinha de confortavel e resguardada. Sómente alta e mais clara que o primeiro andar da rua do Sol.

Devia já ser velha; os tectos baixos e o soalho carunchoso tremiam em os chinellos arrastando. Pelos buracos do roda-pé, as baratas saltavam de noite aos rebanhos, em cata de alimento. Mas de manhã a coisa mudava—rompia alegremente o sol, como um companheiro folgasão, e no parapeito da varanda, as pombas do marceneiro vinham arrulhar beijando-se, com esse movimento _coquette_ de cabecinhas graciosas, em que parece viver todo um mundo de pequenos segredos de _boudoir_. Um pé de eloendro florido chamava as abelhas, abrindo-lhes as corollas roseas n’um candido aroma de beijos, e em amphitheatro, alargando-se da Baixa ao cimo das collinas de uma banda, e até ao azul do rio da outra, a casaria da cidade, liberta dos ultimos vapores da noite, expunha as suas fachadas brancas, monotonamente cortadas de janellas, sobre que os tectos cahiam em pyramides alongadas, e de que as chaminés furavam aggressivamente aqui e além, fumando na risonha luz recem-nascida.

A primeira coisa que pude notar na visinhança, foi que não havia uma cara bonita. Em baixo na loja do predio fronteiro, a mulher do logar, suja e gasta, era repellente com os seus enormes sapatos de ourelo e o corpete do vestido constantemente descerrado, mostrando a carne trigueira e chuchada dos seios. No primeiro andar, engommadeiras com cara de homem, cabelludas e amarellas, vinham raro á janella para lançar olhares obliquos sobre as casas alheias. Por cima era uma mestra—ao lado um veterano eternamente á janella, de barrete azul, fumando no seu cachimbo disforme. Na rua estreita e tortuosa, todos se conheciam; creanças brincavam descalças e ranhosas, tocando latas; de manhã era uma gralhada de janella para janella sobre a carestia das coisas e as carraspanas dos maridos—e o mesmo padeiro servia as familias, demorando-se de palestra pelas escadas.

Ás dez horas, em quanto fazia o almoço, sentia um rumor de passos cansados, e uma voz dizer de quando em quando—_espera, homem, vae devagarinho. Alguma vez dás comigo pela escada abaixo!_

Era o visinho do lado, o cego da rabeca, descendo com o pequeno. Iam para o giro do dia, em quanto a velhota ficava enrolada em cobertores e meio paralytica das pernas. Succedia topar com elles pelas ruas. O pae era velho, typo commum dos cegos famintos, com a saccola pendente, rabeca a tiracollo por um cordão verde e sujo, o chapeu amachucado, véstia de saragoça. O habito de cantar para as janellas havia-o deitado um pouco para traz, os olhos escancarados tinham uma serenidade vitrea, a bocca era um nada atormentada aos cantos...

Em certos dias corriam a cidade inteira, beccos lobregos e ruas humidas dos antigos bairros, onde parece errar ainda agora uma legenda de facadas e a bulha de altercações vadias.

Á noite, internavam-se pelos baixos cafés de operarios, Alfama, Mouraria e Bairro Alto; e alli amachucados a um canto, em quanto gemia a rabeca, o rapaz erguendo a voz dizia as desgraças dos degredados e as lamentações do Vimioso, terminando por estender o chapeu á esmola dos que bebiam. Eram os unicos tristes da rua aquelles expulsos da fortuna, a velha que ninguem via, o cego e o rapaz macilentos.

Voltavam tarde, extenuados.

—Vá homem, vá, parece que não tens força nas pernas! dizia o cego ao pequeno.

Succedia, por vezes, Miguel recordar que não havia petroleo em casa, que as provisões estavam por pagar no João tendeiro, e não seria fiado real na manhã seguinte se não fosse de logo paga a pequena despeza. Detinham-se então na escada ou á bocca de alguma loja. O pequeno estendia a mão tenra e roxa, e n’ella o pae ia deixando cahir vagarosamente e com pena, uma a uma, n’um _tlin-tlin_ methodico, as pobres moedas recolhidas no trajecto do dia.

Ás vezes era pouco, tres, quatro vintens.

—Bemdicto seja Nosso Senhor! suspirava o cego, e passavam sem luz essa noite.

Era nos domingos mais prospera a esmola e triplicava a receita.

Dizia o cego:

—Sempre é dia em que Deus Nosso Senhor descansou.

Por vezes até, uma pobre senhora, compassiva ante a velhice d’aquelle homem, sem queixa mordendo as miserias do desamparo, offerecia-lhe um pouco de fato, restos de refeição. Era um prazer, que se poupava o jantar d’aquelle dia. E deante do pequeno Miguel, cujos olhos vagos e interiores pareciam absortos n’uma contemplação lunatica, o cego desenrolava carinhos doces e meigas insistencias para que trincasse os melhores bocados, perguntas repetidas sobre se tinha frio, dôres de cabeça, os pés molhados... Rareavam de inverno as esmolas; mal se podia andar na rua, que a lama cuspida dos trens enchia tudo, e eram inclementes e eternas as gotteiras dos telhados pingando sobre quem passava sem cobertura. Em tempos d’aquelles nem os garotos da rua queriam musica—as creanças dos varios andares, as melhores freguezas das pobres valsas e cantigas que o velho executava na rabeca não podiam chegar á janella; se pediam esmola, respondiam logo—Tenha paciencia!

Além d’isso um horror que a policia os fisgasse em flagrante mendicidade... que seria depois, da velhota? O asylo glacial em que as cabeças estão cheias de parasitas e os estomagos vazios de alimento, seguir-se-hia enquadrado na pressão soberba e fria dos fiscaes e administradores; separal-os-hiam brutamente, o velho para a caserna com outros invalidos, como elle sem valia, a creança para a _Correcção_, em que a lividez é patibular. N’esses amargurados dias era necessario comer a rações. D’uma vez tinham feito um pataco. E a velhota, coitada, sem remedio!...

A hora do jantar retardou-se n’aquelle dia. Quando era noite, o velho fallou em irem comer alguma coisa. Queixou-se de não ter vontade, e deu ao Miguel o dinheiro para que fosse comprar pão. A creança olhou-o com uma especie de surpreza ingenua; á luz do gaz d’uma loja viu lagrimas nos cilios tremulos do pae, cuja face cavada tinha uma côr terrena de angustia. E sem saber porque poz-se a soluçar á esquina, longe d’elle, para que não fosse ouvido. Ah! era bem negra aquella vida, era!

MATER DOLOROSA

A noite fôra surprehender o rebanho nos cabeços de Montalão, avançadas da cordilheira adusta, que fechando valle pelo norte, vinham morrer pouco a pouco em outeiros já cultivados, e mais raros á medida que em volume e redondeza decresciam. Ia um d’esses verões alemtejanos, calcinantes e sezonaticos, em que o sol arde desde o nascente ao occaso, não bole folha a cicio imperceptivel, e todos os leitos de ribeiras sugadas e corcovas de caminhos, faiscam sob a luz, em reverberações implacaveis; tempo em que se trabalha de noite, as perdizes fazem ninho, figueiras e vinhas dão fructos, e nos cantos das hortas, os ouriços se rebolam por baixo de abrunheiros e damascos, a espetarem nas puas da sua armadura a provisão de uns poucos de dias. Outeiros e courellas iam já ceifados; viam-se restolhos amarellecidos rompendo da terra esboroenta, como barbugens brancas em face de velho. De longe em longe, no _paiz_ cerealifero, uma ou outra oliveira derreada, cortava um gesto afflicto na crueldade do céo. E para a banda, em esquadrão cerrado, as azinheiras desfilavam em negrumes guerreiros e formidaveis, cobrindo o solo por leguas e abalando em silencio, como para alguma surpreza. Durante o dia inteiro o rebanho percorrera a pastagem comida e recomida de Montalão, tendo acampado de manhã nas planuras e faldas da cordilheira, subindo lento por corregos e ladeiras, e topando as cumiadas por fim. Com similhantes calmas, impossivel de dormir nos curraes; morriam ovelhas de asphyxia e morrinha, pelas inclemencias do clima e putrilagens da agua—e a penuria dos pastos trazia os gados magricellas, atrazava as crias e consumia os lavradores. Desiderio Jacintho, pastor do rebanho ia em bons annos, nunca tinha visto mortandade assim—nem que fosse coisa de Deus, para castigo dos nossos peccados!

Não era o amo só que soffria os azares da calmaceira; que se as perdas d’elle eram maiores, mais alentados tambem os lucros vinham, havendo occasiões de lhe trazer pr’o monte soberanos aos saccos, das feiras onde o mandavam vender cabeças.

Mas o pastor soffria por cima de todos—das onze ovelhas que no rebanho tinha de seu, tres eram já mortas de gafeira e as outras Deus sabe!

Ora essa noite de restolho nos outeiros tinha sido mal dormida por elle, e quasi levada no calculo dos mezes de trabalho, que havia de cumprir para rehaver o triste dinheiro empregado nas suas ovelhas mortas. A um occaso de extraordinario escarlate, intenso, gradual e enorme, rosando arestas de fragas com fugitividades de ribalta, fórmas nuas de troncos, eremiterios e clareiras, succedera uma reviviscencia de rumores, desde a manhã interrompida—vôos de rolas e pombos, gritos de melros, codornizes, papa-figos, e o _gri-gri_ dos melharucos, vivo e musical na altura, predizendo a aura da tarde e pelo canto espaçado antecipando as Ave-Marias rusticas dos campanarios. Vagarosamente, os cimos escureceram. Foram-se as arvores fundindo em penumbras errantes, á medida que se tornava plumbea e baça a calote incendida do ceu; e por fim, tambem o ultimo riso da luz se foi, já serenamente dormia o campo, fatigado do dia torrido e a espaços resonando no borborinho doce da folhagem. O rebanho annunciára gradualmente esta transmutação de horisontes e emmurchecer de tintas, pelos tons e duração dos balidos.