Part 4
E os olhos fechavam-se-lhe no amortecimento de uma enorme fadiga, quando muito ao de manso outra vez, as taes passadinhas soaram abafando ruidos, como de alguem que fosse, encostado ás paredes, tacteando as coisas na escuridade. A vontade d’elle era gritar—quem anda ahi?—procurava os phosphoros, mas vinha uma cobardia fundil-o todo, batiam-lhe os dentes—se fossem ladrões!... E na sua mente lendas de malfeitores tomavam relevo, attitudes tragicas, em que brilhavam navalhas e corria sangue. E os seus ouvidos zumbiam no terror d’aquella espectativa, e um phosphoro raspado na parede, abria clarões tibios, a cuja luz, a figura do larapio tomava relevos de sinistra audacia, o _tic_ sagaz de um animal feroz, pescoço estendido, á escuta para dentro, e cabeça chata, de um desenho de carnivoro, a que duas grandes orelhas despegadas das temporas, davam o aspecto de um mocho, esgalgado e lugubre. _Ó Jasué! Ó Jasué!_... E a voz que assim dissera, abafava-se em segredar entrecortado, parecendo voar por todos os pontos da casa, da abobada da loja á escadinha da cava: quando da rua um silvo discreto, lá longe, na precaução de um plano estudado, fazia cahir o phosphoro e correr a sombra do larapio, aos encontrões nas trevas. O marçano fazia então para gritar esforços desesperados; levavam o dinheiro da loja e a fazenda, o Pinto matal-o-hia em sabendo... E aquella suprema ideia galvanisando-o todo, fazia-o saltar da cama com um berro rouco, braços no ar, incoherencias de possesso... O larapio porem voltava, tinha-se-lhe atirado ás guelas, sacudia-o—quatro da manhã! Era o ajudante de quarto, com o remedio n’um copinho de folha.
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Afinal, abrindo olhos conscientes, ao fim de não sei quantas semanas de parvoice morbida, conseguiu dar fé com tranquillidade, dos seus companheiros de camarata, os visinhos mórmente. Era já n’uma manhã de maio, nos dias em que a humidade das ruelas profundas e o frio dos interiores desabrigados, fazem parellelo ingrato com a tepidez da luz exterior, tão benefica que pelos troncos entorpecidos na hibernagem faz subir revigoramentos de seiva, e vae brotando dos bolbos decorações patheticas de folhas, como accende nas faces rubores de saude, e nos corpos rodopios de alegria insaciavel. Essa magnificencia gradual da terra paramentada de coloridos finos, relvas mosqueadas de malmequeres, papoilas e maios, as transições infinitas do verde que ondula do amarello ao anil, bosquejando fundos de oasis ás casinholas rusticas das hortas, feria pelo contraste os habitantes da velha enfermaria, de paredes impenetraveis, pilares gigantescos, e esse calor insipido de fogões que ardem, noite e dia, com intensidade prefixa n’uma escala, amollentando corpos e favorecendo as fermentações. Alguns hospitalados que melhoravam, derreados ainda pelo assedio de longas enfermidades, iam de janella em janella e cama em cama, espreitando a agitação da cidade alastrada em baixo, na expansão irregular de um bairro pobre, predios esguios, beccos de escadinhas, quintalorios afunilados, ou a coragem dos infelizes que em crise hesitavam, entre a franca convalescença e o franco paroxismo.
Um velho camponez de Chellas por exemplo, ingenuo e palreiro, era d’uma solicitude tocante. Tinha a face rude e calcinada das intemperies do campo, mãos disformes com dedos curvos, que a convivencia da enxada já não deixava endireitar, suiça amarella e raza imbecilisando o riso, e um sincero interesse pela sorte dos companheiros de doença. Curvado no capotão de briche da casa, barretinho branco atado no coronal, elle ia encostado ás camas, todas as manhãs saber dos seus doentes, ajudar os moços no serviço das rações e distribuição dos remedios, contar a sua vida aos que já iam melhor, dizer brejeirices aos que se punham á janella, alentar os que se amarguravam ou rezar pelos que já não sentiam.
E uma noite em que o da cama 24 morreu, o de Chellas sentado na cama, olhos nos dois punhos, chorou umas poucas de horas, como se fosse da familia, o que fez escandalo nas gentes do serviço, o enfermeiro principalmente, que chupando o cachimbo, olho morto, lhe chamou em voz alta—_grande pantomineiro_! O marçano tinha um amor pelo bom homem, ingenuo como elle, fallando n’um tom descansado que lhe recordava as gentes de Santa Comba, e que sabia esses proverbios rudimentares, sobre estados de tempo ou saude, signaes de colheitas ou fortuna pessoal, em que o povo usa synthetisar o seu patrimonio de observações seculares e anonymas. Era o velho de Chellas a unica pessoa que lhe mostrára interesse, querendo saber d’onde era, que fazia, o nome do pai, se na loja era bem tratado, e que tal de _paparóca_...
Assim, na manhã em que a melhora se esboçou lealmente no marçano, pelo espirito lucido que volvia ao cabo de um periodo agudo, em que a febre lhe vedára de todo, percepções fieis e coherentes juizos, a primeira cara que afrontou, abrindo os olhos de um somno reparador, foi a do camponez que lhe sorriu, da cama do visinho do canto, a cujos pés estava assentado. E foi elle quem, no fim de uma grande parlenda sobre a doença de ambos, com o braço estendido lhe foi apresentando a enfermaria toda, com a historia de cada doente, as respectivas manias, as gracinhas dos moços, as invasões bruscas da estudantada, que escancarava as portas do guarda-vento, para em risos e replicas se espraiar depois, em volta de cada caso clinico mais curioso. De tudo, n’essa estufa de efflorescencias morbidas, havia um typo—velhos paralyticos, doenças febris, uma collecção completa de tisicos em todos os graus, classificados por ordem, cardiacos de face terrosa e respiração intermittente, enfermidades viciosas que eram a hilaridade dos convalescentes, anemias, bocios, tumores, um museu de torpeza physica, fazendo o orgulho de uma população e o delirio de um clinico. E reproduzindo o riso, a voz e o gesto do doutor, o velho de Chellas em pé junto ao leito do marçano, arremedava aquelle, d’uma vez que mostrando a enfermaria a um collega da provincia, dizia alegremente:
—Faz-se o que é possivel para haver de tudo, meu caro. Dá trabalho, não nego, mas com boa vontade...
—Bento nome de Deus! fazia amedrontado o rapazito, em quanto radioso da emoção que produzia, o outro tomava folegos, n’um orgulho de contar tão bem.
—Vê vossê o do numero 13, vê? dizia elle.—Esboçava o typo, detalhando devagar—aquelle gordo, todo calvo, passando o fogão... Anda por dois annos que mora cá, entrevadito de todo, e fôra do matadouro. Mau, santinho, como nunca vi! Desde que entrou, não diz senão agua!—quando tem sede. Cova!—se os colchões vão abaixo c’o peso do corpanzil, e assim. De estar para o mesmo lado, semanas e semanas, faz-se-lhe o corpo em chaga viva; e teem-lhe uma raiva na casa!... Nem admira—não arranjando recommendações, não avezando gorgeta, nem bom ar ao menos... A principio vinha a filha, domingos e quintas, com lembranças, sua fruta, e umas certas pratinhas... Eram descomposturas de morte na rapariga, que por fim mudou de bairro, entende? aborrecida do trambolho ruim. E o que fica de contente, em alguem morrendo!—Á força de viver aqui, já conhece o estado da creatura pelo fungar da respiração. Estando para haver carne fresca, avisa logo, a rir, como vingado d’alguma birra velha.
Aquelle contar, dava calefrios ao marçano, cuja phantasia ensopada em toscas superstições de provincia, creava no leito 13, uma incarnação de diabo sarcastico, vivendo da tortura alheia, perto dos delirios, na allucinação das febres e no coração das dôres, batendo a therapeutica, fazendo as crenças debandar, e no crepusculo da agonia alongando sobre os corpos, azas de morcego, farpadas e verdes, faminto das almas côr de luar. Mas na sua monotonia implacavel, o velho ia para deante, verboso e contente, insistindo no caso, biographando uns e outros, referindo as rações de carne assada, as fomes tradicionaes da dieta, os grandes desalentos de quando tombava a noite na enfermaria enorme, á hora em que os accessos vem accelerados, o rhythmo das respirações se turba, uma afflição convulsa esmaga peitos e coragens, e ás janellas fumando, os lividos enfermeiros bocejam de tedio e mau humor. Cabisbaixo então, o velho pensando na sua velha e o marçano em sua mãi, sorriam um para o outro de tristes, com um desejo no bello sol dos prados, e nos tectos humildes sob que tinham dormido n’outro tempo. Quando a narrativa chegou á cama em que o de Chellas estava assentado, o marçano pôz a vista pela primeira vez no vulto do doente seu visinho, atufado em roupas até ás orelhas, e immovel como se fôra morto. Tinha entrado com facadas no lado esquerdo, ia em mez e meio, conforme o velho contou. Poucas palavras, olhos sempre fechados—quer vêr?
E destapando a cara do intractavel companheiro, o de Chellas gritou-lhe:
—Eh camarada, dê os bons dias á gente!...
O doente virou dolorosamente a cara para o lado d’onde partia a voz. O movimento que fez, instinctivo quasi, arrancou-lhe das profundezas do peito um gemido extincto, e o marçano pôde vêr entre a dobra do lençol ensanguentado e o algodão do barrete de dormir, uma face chupada e rôxa, cujo olho parecia dormir sob a palpebra cahida, pelle de elephante com barba rara, enormes orelhas que despegadas do craneo davam a esse todo, a expressão nocturna e lugubre de um mocho derreado. Deu um repellão na cama, uma especie de grito brusco que poz em alarme a população proxima.
—Alguma dôr? quiz saber o de Chellas.
—Nada! nada!—e confuso, tremulo de susto, o marçano tinha desejos de reatar palestra, readquirir sangue frio, rir mesmo do que o outro contava, mas voltavam-lhe ideias negras, parecia-lhe aquillo um carcere, os homens sêres ferozes devorando-se em eternas luctas e eternas intrigas, toda a cidade um covil, e a enfermaria um monturo. E aproximando reminiscencias, comparando feições, dizia para comsigo ter já visto aquella face terrosa. Onde? Fosse lá saber! Mas ficára inquieto, peor, uma coisa parecia estrangulal-o, roubar-lhe o socego e o calor do corpo. Olhava á roda, vazio de consciencia, opprimido, as mãos errantes nas roupas.
Fazia magnifico sol n’essa manhã, quinta-feira de Ascensão por signal, e era de vêr como os convalescentes, abandonando jornaes e palestras, vinham apinhar-se por traz dos vidros da enfermaria, alongando os olhos pela paizagem fronteira. Avistava-se já no arrabalde, um pouco das montanhas da Graça e do Monte, e além, no pendor do valle que se estende contra a Penha, searas a espigar, picadas de vivos pontos de flôres.
Como era dia da _espiga_, pelas veredas que as terras demarcavam, os grupos da gente operaria com exercitos de pequenada, iam entre as searas, serpenteando com fatos de domingo, para colher o ramilhete de papoilas e espigas, que no dizer da lenda lhes traria ao ninho, felicidades e paz. Logo de manhã, o paralytico que na velha cadeira de rodas corria tudo, pedira ao de Chellas para lhe deslocar o vehiculo contra a janella, saudoso dos tempos em que, como aquella gentana toda, espairecia os ocios do dia santo, blusa nova, madama ao lado, e o fedelho trotando no bengalão do pae. Tambem esse foi apontado pelo de Chellas ao marçano.
O rapaz olhou-o de longe, viu uma cara grave expressando saudades de venturas mortas, e estupida indifferença pelo que em volta vivia.
Tempos! Tempos! E o velho abanava a cabeça todo grave, de olhos no chão.
—Já tem a companheira no cemiterio, contava. O rapaz fez-se-lhe homem, e foi degredado por navalhadas. Ninguem herdaria o nome do ferreiro honrado, nem a ferramenta do officio, que por cincoenta annos, as mãos d’elle haviam puído na bella coragem de um labor sem treguas. Tudo n’esse hospital era pois triste, cheirando a tumba—miserias, desgraças, quedas!... Tremia a alma com frio. E tambem pensativo, o velho de Chellas, erguia o olhar sobre a paizagem fronteira, viva de mundo e penetrada dos fremitos da aura e do sol, que manso, mansinho, iam fazendo ondular os colmos das searas e as folhitas das oliveiras. Áquella hora, tudo abriria no seu pobre logarejo, corollas de risos matinaes, simples e sinceros como a alma dos prados verdes, exhalada no cantico dos passaros e na bruma cerula do entardecer. Iria chamando á festa o sino da egreja; gente de casaes aos ranchos, entrava talvez o velho portal de ogiva, gothico da primeira dynastia, e no arraial flautins e bombo, animariam o bailarico de cochopas com moleiros, espessos como bezerros. D’uma banda o rio espelhado, e da outra collinas verdes picadas de pomares em flôr, altas noras ronceiras, e moinhos de vento em rodopio, enquadrariam a paizagem n’uma suavidade casta, cheia de fecundos sonhos, nupcias, beijos, atomos de sol e borboletas sacudindo o iris das suas azas turbulentas. Cada corolla seria um ninho, e uma fuchsia cada insecto bicôr. Nas colmeias das hortas, abelhas iriam fazendo pacientemente, cathedraes de favo, gothicas e fulvas, com o perfume de todas as flôres e a doçura de todas as nectareas. Um deus coroado de folhas, crinas ao vento e riso de auroras, baccho pelos cachos do carcaz, meio homem, meio monstro, esculpido nas troncagens das cepas, entre tufos de parras e cannaviaes, ou nos farrapos de nevoa, á hora em que espadana o sol das cordilheiras, espargiria sobre a natureza ebria, a munificencia das suas graças sem par. E na ponta da aldeia, á porta da casinhola terrea, a velhota de roca hirta no cós das saias, faria bailar o fuso nos dedos, longe do fuso e da roca porém, tendo o pensamento no seu velho do hospital, e chorando por isso mesmo. Ah, pae do ceu! Que seria das vaccas, das leiras de repolho, do batatal e da jumenta parida!... E campo fóra, apanhando espigas, chapeu largo e cantiga prompta, elle via a gentana trepando, serpenteando, correndo, e ficava-se amuado de estar preso, de se vêr doente, espectador de tantas miserias e de tantas dôres!
Assim estiveram calados, deu uma hora no cuco da enfermaria, e o marçano attento no das facadas, via-lhe a immobilidade do corpo afogado em roupa até aos cabellos, e o quebramento da postura, sempre a mesma, vazia e morta. Fazia-lhe um medo algido aquelle homem tão quieto, a que nenhum remedio arrancava melhoras, sempre na mesma, sempre na mesma, não dando palavra, não respondendo ao medico, nem ao menos deixando vêr uma pagina sequer do que fazia por fóra.
—E como vae elle? perguntou o marçano, indicando ao de Chellas o vulto, de soslaio.
A resposta do velho foi:
—Diz que marcha.—E tão laconicamente dita, a sentença de morte deu allivio ao pequeno, que muito baixo para dentro de si, ousou dizer—ainda bem!—como se o mundo lhe ficasse aberto, por se fechar mais aquella cova.
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Permittia-se áquella hora entrada na enfermaria, e em quanto com esmeros postiços, os moços alisavam a roupa aos protegidos, refazendo as dobras, achegando á cama bancas de cabeceira, e pondo a geito os escarradores,—pessoas da rua, acanhadas, passeando os olhos de cama em cama, á procura do seu doente, iam entrando receosas, as mulheres sobretudo, de tanto homem estiraçado. Os que na vida ainda tinham pessoa chegada, velhos paes ou maridos, irmãos, amigos, companheiros de predio ou de officina, levavam os olhos para o guarda-vento, á espera d’um rosto conhecido, que lhes viesse sorrir e fallar. O entrevado deixára-se ficar na eterna attitude de dois annos, indifferente ao que ia, n’um egoismo imbecil em que fuzilava rancor. E da janella mettia dó tambem, a face do paralytico, pintando uma d’essas tristezas planturosas e mudas, que até fazem pena ás creanças, e de que a gente toda a vida se lembra. Nenhum d’elles tinha quem lhe quizesse já, e as affeições dispensadas aos outros, mulheres revendo maridos, filhos beijando os paes, irmãos beijando irmãos, e amigos dizendo o que ia por fóra, escandalos de rua, casos de officina, projectos e desastres, faziam na alma dos dois como um estridor de bofetada, insulto que se não perdôa, e traz odio como reacção. Mas de repente, atraz do velho de Chellas, alguma voz atabalhoada disse:—Eh, marido!...
Voltou-se elle logo áquelle timbre conhecido, braços abertos, querendo erguer-se d’onde estava sentado e sem poder. Era a sua velha saloia, de botas crúas e lenço amarello.
—Eh, companheira!...—Largando o chalito de baetilha, a pobre tinha-lhe cahido em cheio no peito, chorando sem fallar, e toda alegre por vêl-o já de pé.
Riam em volta d’essas ternuras de setenta annos, vivas e sãs, que tinham, tão simples, um perfume casto de bodas de oiro, ao tempo em que um moço, apontando o leito do marçano, disse para um senhor—é aqui! E inesperadamente, o pobre rapaz deu de cara com o Pinto, solemne no frack preto dos dias santos, suiça rasa e cabello á escovinha, o alto ventre liberal, d’onde medalhão e corrente escorriam, n’um pus de riqueza gorda e chinfrim. O merceeiro adeantou-se, face austera de patrão, chapeu alto pendente, e mantinha de pavões bordados. Entrou logo n’uma lenga-lenga nasal e rapida, sem deixar fallar, onde pesava a nota hostil da sua posição superior. Como estás? Como não estás?
Que lhe tinham botado causticos—quantos, mesmo assim? E proseguiu—se purgavam? Era essencial, para puxar os humores.
Deixa doer quem doe! Elle bem lhe recommendára na loja, tivesse resguardos. Advertir um homem casmurros, é malhar n’um ferro frio. E quasi o mandava ficar bom no dia seguinte, impacientado, embirrativo, pela falta que fazia na loja.
Veio o senhor enfermeiro de mãos nos bolsos, o grande avental com chapa da casa, bonnézito á banda. E sabedor da alta posição que occupava aquella figura, o Pinto fez-lhe a reverencia, estendeu-lhe a mão com o grande riso de receber visitas, deu-lhe—_bossa senhoria_. Entraram a conversar na vida, tão trabalhosa para quem não queria andar á dependencia. E o Pinto disse o seu negocio, como tinha começado na rua dos Vinagres com a tendinha do canto, de sociedade com outro. E como subira pouco a pouco, sempre com honra, felizmente. N’um entorpecimento, o outro escutava, olhando por cima a chafra-nafra da enfermaria, tão pittoresca pelos visitantes que entravam, e pelo barulho das vozes que se embatiam. O merceeiro então, para lisonjear tão precioso donato, fallou nas doenças do tempo, na sabedoria dos enfermeiros, _tão entendidos_ que chegavam a embrulhar cirurgiões—e pela primeira vez, o funccionario teve um gesto de concordancia, e disse com magestade batendo o avental—sim, sim!
—Se a doença do rapaz daria para muito ainda?
—Conforme, disse o enfermeiro. E com ares profundos:—Não se póde prevêr. _Logo por conseguinte_, póde estar um mez, dois...
—Dois! disse o Pinto com espanto.
—Tres, ou mais. Conforme. Vae melhor, vae melhor. Mas o Pinto já não o attendia. Dois mezes! E encarava duramente o marçano, como se o estivessem roubando.
O pequeno lamentava, de cabeça baixa:
—Que por sua vontade não estava alli. Se o snr. Pinto cuidava que era fortuna, a vida de doente... Ah! elle não tinha culpa, por sua desgraça, não tinha culpa...
Mas o merceeiro sem attender, voltava á carga, atacando, fazendo-se ouvir. E o tom secco, cerrado e baixo da sua voz, opprimia pela dureza, vinha em saraivada cortando respostas e lamurias, alquebrando mais o pequeno, e pondo-lhe nos dedos e na espinha, a frialdade cruel do medo.
—Nem todos teriam esperado como elle, tres semanas assim. Era mesmo abusar! E que se a coisa dava para tarde, não teria remedio senão tomar outro. Meu rico, dizia-lhe enterrando a cabeça nos hombros, com um brusco movimento ascensional de espaduas; custa! Mas é marchar para a terra.
Reprehendia-o como de costume, pela fraqueza physica, a miseria dos ossitos cambados, a carne molle que cedia prostrada ao mais leve esforço, caniculas de braços, peito para dentro, amarellidões de uma lesma. E a sua carne triumphante e rubra, que a fartura da mesa regalava e mantinha, cuspia desprezos aridos n’essa miseria de fedelho chupado, que vergava em cobardias de vime. Servia lá, nem o diabo! E vendo-lhe lagrimas, temendo que tivessem reparado, fazia a voz alta, amansando a expressão do dizer.
—Cura-se, deixa. Com descanso e tempo, inda vens a dar ahi um granadeiro.—E queria rir; era hediondo a rir! Por fim tirou a bolsa, ficou-se a olhar á volta para que vissem, mexia nas meias corôas novas, fazendo-as tenir, e uma a uma, deixou-lhe cahir cinco na roupa, que telintaram chamando as attenções de toda a casa, pessoal e doentes. Os que ficavam perto, ergueram um rumor de admiração sympathica—que rico patrão, a bella pessoa, feliz de quem servia homens assim! E pediam de mão estendida, o ar exhausto, para tabaco. Ao tenir da moeda, o das facadas abrira olho, immovel nas roupas, e pelo canto via attentamente o rapaz entretido nas meias corôas generosas, e o Pinto a distribuir os meudos que tinha, fazendo alargar o côro de bençãos, oleoso de orgulho, o medalhão oscillando no seu ventre burguez. O episodio fizera esquecer o par de Chellas, velho ao pé da velha, isolados dos mais, e referindo negocios de casa, esperanças no anno e o pequeno lucro das vaccas. Tinham sido abençoadas as aguas de abril, a sementeira enchia olho, nascera um burrico, e na venda do leite, o rapazote tinha dias de seis tostões e mais. O velho impacientado, mexia a perna doente, como a infiltrar-lhe vigor.
—Esta maldita que não enrija! dizia. Esta negregada sempre na mesma!—E procurava quedar-se de pé firme, por minutos, até que forçado a sentar-se rogava pragas, zangado da edade, da fraqueza e da demora.
—Paciencia, volvia a velha. É já por pouco!
E arregaçando o saiote azul, de estamparia pobre, tirou da enorme algibeira de retalhos um queijo fresco, as primeiras cerejas do hortejo, quatro ricas laranjas, e o pé de meia do dinheiro, para se abrir c’os enfermeiros em tendo alta. Um no outro, repousavam olhos tranquillos, na tocante amizade d’essa ligação tão longa, que a velhice despira já de erupções e arrulhos. E fallavam de tudo ao mesmo tempo, para aproveitar bem a visita—quando elle sahisse, não era verdade?... e as dôres que tinha soffrido, passeios ao sol, na cerca, por ordem do doutor, as chuvas, e das manhãs que vinham brumosas ainda, e da vida de cada qual na enfermaria... Interessada, a velha ria para os lados, a um e a outro, feliz por dar a sua piedade de mulher ao infortunio dos tristes, que sobre enfermos eram ainda por cima desamparados de affeições. Por descuido ficára entreaberto o guarda-vento, e como estivessem voltados para lá, viram passar no corredor um padre, de barrete e estola negra, e atraz, pouco depois, o sacrista que levava uma grande lanterna accesa e cruz alçada.
Encararam-se brancos, adivinhando a mesma coisa funebre. O queixo da velha tremia, e na crise nervosa que viera, os seus braços apertavam a cinta do velho, como a furtal-o a perigos. Era a Uncção, a alguem que partia d’este mundo.
—Adeus, disse ella tristemente.
Tornou o marido—adeus! E a olhar se ficou, bestificado nos aspectos sepulcraes da catacumba, a reconstruir aos pedaços, scena por scena e grito por grito, o lugubre drama da vida hospitalar, que desgrenhadas visões alumiavam, a labaredas de horror. Essa passagem do padre no corredor, lançára um calafrio nos catres—parecia menos triste o paralytico, e da sua cama o entrevado ria alto, com um gargalhar imbecil que era diabolico, exprimindo deleites de uma vingança, sinistra de vêr. Desentoada, sem modulações, como sahindo de uma larynge sem cordas, a sua voz cascalhava a espaços, acima do borborinho geral.
—Lá vae padre, lá vae padre! Carne fresca para hoje!...