Part 3
Cada pequenina folha rebentando, trazia ao mesmo tempo, herdadas lascivias secretas, como uma ancia nupcial que alongava os peciolos em pescoço para os beijos do amor frenetico, revirava os apices como linguas á descoberta d’alguma nova sensação, irritando em titillações mysteriosas sobre os reversos das folhas, as villosidades e pellos, no doido prazer esbanjado de uma kermesse. Do entresolo dos bosques vinham susurros de catadupas, azenhas trabalhando, gemidos de caules vergastados, ou ultimos idyllios de folhas outoniças que esvoaçam já mortas. N’essa transição de quadra, a natureza chorava melancolias lyricas, e se o bocejo da nevoa rasgada, deixava contemplar por momentos algum florão de ceu brunido a reverberos de sol, viam-se no azul pallido, sobre o engaste do horisonte, os dulcissimos furta-côres que teem certos nós da madreperola, tons de nacar, junquilho, turqueza e oiro, fundindo em maravilhosos reflexos.
Nas setteirás da grande chaminé provinciana, larga e alta como um torreão de solar, o vento bramia em todos os tons, da raiva á supplica, querendo a todo o transe assaltar a vivenda, implorando, dizendo segredinhos, batendo pancadas humildes, e quedando-se após como salteador, na esperança que fossem abrir.
De noite, uma chuva batera as vidraças e cahira sonoramente nas telhas, sob os golpes da ventania inclemente. Tempo que desalentava os trabalhadores e embebia de tristuras a alma fragil das mulheres!
Pelos vidros da alcova, via-se um bocado do jardim, pimenteiras verdes fazendo oscillar ao vento o seu pranto de folhitas oblongas, eloendros sem flôr, cedros anões, pyramidaes e bojudos, canteiros de anemonas, rainunculos, goivos, rosaes e alfazemas, toda a flora chinfrim dos quintalorios de provincia. E alongando os olhos, Maria de Jesus via mesmo deitada, os queridos arbustos que os pardaes debicavam, e todas essas flôres mal abertas, que nos canteiros punham mosaicos de irregulares coloridos.
A casa ficava d’alto, sobre uma ondulação dos saibros, por fórma que das janellas acima mesmo da parede do quintal, podiam dominar-se todas as perspectivas agricultadas do valle. Eram renques de castanheiros á orla do rio barrento, que a planura repartia em veigas ferteis, laranjaes, olivaes, latadas e quintarolas cingidas por sebes de piteiras e sabugueiros, cantos de courella onde pascia a indolencia fulva dos bois, jumentos e ovelhas roendo pellugens nos vallados. Mais para lá, grandes amphitheatros de outeiros, hirsutos de matto e crenelados de penhas lugubres, armavam escadarias de cyclopes contra a nevoa ondulosa dos ceus—e nitidamente cortados em brancos de caliça violentos, sem claro-escuro, fins de aldeia iam-se esbatendo nos primeiros planos, collina abaixo, casas terreas com chaminés sahindo em torrella das frontarias, esbracejos de parreiras por cima dos muros, medas de azinho e serras de palha em cathedral, carros de matto erriçados de fueiros, portões de adegas com mariolas provando o tinto, mulheres fazendo meia nos poiaes das portas, gallinhas e porcos revolvendo as estrumeiras podres, ruidos de bigorna, cantos de gallos, e no cotovêlo da estrada, já distante, dois paus em cruz historiando um assassinato.
No quintal, por cima do palheiro, a um lado, havia um mirante com balaustrada de louça, a que se subia por uma escada de tijolo, orlada de craveiros e cachos de fuchsias. Entre palheiro e mirante era o pombal.
A cama da doentinha ficava n’um angulo da alcova, e por entre as cortinas podia ella, mesmo deitada, alongar a vista contra a residencia das queridas aves, que em grupos na cimalha do mirante, nos angulos do telhado, ou á porta das pequeninas moradas, se agachavam tristes, pennas em tufos, cabecinhas debaixo da aza, ou bico alto, espreitando a hostilidade parda do ceu. Um ou outro pombo audacioso voava ás vezes por cima do mirante, em arrulhos timidos, saltitando nos balaustres, cauda em leque n’um gracioso movimento de subida e descida, e esse debicar de volatil ocioso, que procura distrahir-se fazendo mal.
A rajada porém fazia-o volver logo ao ninho, impotente para o vôo, de cabeça baixa e azas molhadas. Mesmo tossindo, face irritada de rosetas funebres, guela secca de febre, Maria de Jesus seguia as sortidas dos seus amiguinhos, cheia de dó porque elles soffriam.
Esse dia foi cruel para todos! Ás duas horas, a febre trouxera desvario, e o Santo do Outeiro, com a barretina ao lado e cruz em riste, mais o embuçado de aos pés da cama fazendo rolar pela barba fulva, grandes lagrimas silenciosas, volveram a encher de scenas tragicas a mente da pobre criança, walsando, passando, estacando, esgrimindo gestos de todas as fórmas, e descobrindo á luz uma face em que se repintavam todas as emoções e momices. Tão alto o resfolegar, que se ouvia nos quartos proximos, arquejante, estriduloso, acabando por vezes em silvo. A pelle secca, de contactos asperos, queimava como se fôra uma braza, e no peito que tomára tons amarellos, o animal feroz do coração, comprimido na jaula, batia de encontro ás paredes, pondo na carne solavancos temerosos de vêr. Ao mesmo tempo, espicaçava-lhe o tronco o cinto de causticos que lhe fôra applicado; machinalmente os seus beiços diziam—agua!—e escancarados n’um pasmo vitreo, os olhos erravam no tecto á procura de um ponto tranquillo, onde não chegasse em galope o _djerid_ de phantasmas traiçoeiros. Bateram Trindades, já os ultimos ares do dia eram absorvidos na sombra dos aguaceiros, e da alcova esclarecida a luz de lampada, nada se descortinava sobre o pombal ou sobre o jardim. Mas os vidros da janella tremeram de leve, uma grande mão de dedos esguios bateu devagarinho, bateu...
Dôces e tristes, os olhos da velha mãi reconheceram na treva, a aza do pombo negro fatidica e implacavel, a que o indeciso da noite dava proporções desmesuradas. A tremer chegou-se á filha, viu-lhe um riso suavissimo, espiritualisado de angustia e todo luminoso de innocencia. Cahira o arquejar da respiração, as palpebras cerravam-se-lhe repousando, e no desenho do corpo indeciso nas penumbras do quarto, a pallidez da cara sómente, punha em redor o divino clarão de uma aureola de martyrio.
—Os pombos! tornava surdamente a velha, os pombos!...
E era toda a sua queixa.
* * * * *
Pelo dia seguinte a esperança estava perdida. Os tecidos flaccidos abandonaram-se a uma lassidão tenaz, sem resposta a estimulos de qualquer ordem. Mal se sentia a respiração da doente, e como um pendulo que faz em cada vez oscillações de menor arco, assim o impulso do coração, successivamente enfraquecia. Ao chegar de manhã o velho doutor Patricio, inda sentiu sob os dedos nodosos, o pulso vermiforme que ondulando fugia n’um fio tenuissimo. Ás dez, a onda partida do coração era menos viva já, e mal chegava abaixo do cotovêlo.
Depois fez-se inda mais curta, e lembrava assim o exercito em retirada que lentamente desguarnece um acampamento. Mal lhe sentiu frias as extremidades, e n’um desvairamento de morte, pôde estudar no rosto da filha a anatomia mortificada e plumbea, que é o _toilette_ do corpo para as bodas do cemiterio, a pobre velha desatou a bradar pelas casas como doida, tropeçando nos moveis e despedaçando as roupas da sua misera viuvez.
Corriam ao appello os velhos amigos da casa, e as santas mulheres que tinham visto nascer a pobre Maria. E um chôro cortado de lamentos, enchia a casa, fazendo alarme nas ruas. Alguem notára desusada actividade no pombal. Os chefes entravam pelas casinholas e picavam raivosamente as femeas no agasalho do choco, fazendo-as abalar dos ninhos; e em revoadas doidas por cima do mirante, a turba frenetica afugentava alguma coisa dos ares, parecendo perseguir um inimigo occulto, sem arrufos, sem arrulhos, mas por uma fórma incansavel. Na vertigem da debandada eram profanados os ninhos, rolavam os ovos do alto, ou vinham-se esmigalhar nos tijolos da escadaria os pobres borrachos, brutalmente investidos pelos paes. Por vezes toda a buliçosa legião pousada nos cimos do mirante, armava linha de batalha com graça marcial, em que faziam mosaico as armaduras de plumas dos peitos, e o furta côres dos pescoços levianos. O pombo negro, que dir-se-hia ter crescido pela noite, parecia commandar o veloz regimento, e no extremo da fileira, cabeça alta e olhos inquietos, estudava o horisonte tumultuoso das nuvens, que um dardo de sol ensanguentava a espaços.
Ia pela abobada uma decoração dantesca, profusa em contrastes de negro e branco, com fumaradas errantes que o vento acossava de onde a onde. Por instantes condensada em cupula, ou rachando em zig-zagues de oiro sob o choque dos bulcões em peleja, uma felpa de negro electrico, pastelava ameaçadoramente a amplidão, n’um tom unido azul d’aço, felpa que era como o grosso do invencivel exercito de nuvens. Não havia ainda trovões, e o ar rarefeito transmittia sons difficilmente. Além d’isso, dava-se nos sêres e nas coisas uma suspensão de assombro, recolhimentos de plateia á escuta d’um lance tragico.
Viam-se chegar galopando os ultimos esquadrões da tormenta, ao de manso, n’um pittoresco de emboscada, com as suas provisões d’agua e fogo. Aquillo galgava por cima das montanhas, ennovellando-se em musculaturas titanicas como nos despenhados de Milton, e subindo a tomar fileira na formidavel ordenação da batalha. Alguns medonhos athletas ficavam por momentos em pé sobre os morros crenelados da cordilheira, alongando os braços n’uma selvageria de fórmas. E arrojando ao largo os capacetes e escudos, pousavam de cabelleira em floresta, a provocar em volta esses anões terrenos que se agachavam de medo.
Mas outros mais arrogantes, vinham logo atraz d’esses na escalada emprehendida, cavalgando-os, cingindo-os em lucta singular, e subindo ás costas dos que vinham depois. E bagagens, animaes de ataque, leões em rebanhos, jaguares e pantheras, carbonosos elephantes armados de torres, carros de guerra com panoplias de tridentes... Ante essa invasão sem barreiras, a natureza amedrontada retrahia-se em fremitos. Nem um vôo, de arvore a arvore. Nos pinheiros, castanheiros, e oliveiras de troncos rocados, havia gestos de supplica e dôr centenaria. Por baixo da sua velha ponte romana, e todo cosido com os pedregulhos e juncos do leito, desertava o rio sem rumor. Um trovão principiou em surdina do extremo horisonte, veio vindo, vindo mais retumbante, como se quizesse fender essa basilica armada em funeral. O pombo negro abria n’esse instante as azas a pairar um segundo, e no mais alto do mirante pousou-se n’um grande vaso de cactos, como n’um miradouro de fortaleza cercada. Tinha a cabeça vibrante, bico no ar, o peito rufado—e com os seus olhos castanhos observava os ceus de lado, altivamente, no seu posto. Cahiam já grossas gottas de chuva, que o ar riscavam de arames parallelos, rolando pelo terreno em espheroides vestidos de poeiras fulvas.
Em magotes por essas azinhagas, enxada ao hombro, ramos de trovisco nos chapeirões, jumentos pela arreata, os trabalhadores recolhiam-se á villa, amedrontrados, recomeçando a _Magnifica_, um ar de deslumbramento estupido. E alongando os pescoços n’uma angustia, as vaccadas mugiam fundo, sob o peso da asphyxiante atmosphera. Branca de encontro á fuligem do ar, a villa resahia agora n’um minucioso desenho de casas lavadas, chaminés aggressivas, e portas carreteiras fechando por cancellões de ripa, como se um grande reverbero em meio da sombra a rembranisasse. Começavam ruidos subterraneos, vertigens bruscas de relampagos... Nuvemzinhas pallidas, gazes de tessitura fragil, punhos de _valencienne_, e plumas de leques rasgados em crispações de raiva, corriam, pousavam, debandavam, damasquinando os negrumes com phantasias niveas.
E o pombo negro não descançava nunca! Viam-no voejar em ellipsoides cada vez mais largas, investir bruscamente pelas ventanas do pombal, cuspindo de dentro a palha dos ninhos com turbilhões de pennugem.
A sua actividade tinha coleras e vertigens. Elle fazia debandar o batalhão dos guerreiros, ia e vinha allucinado, mais negro que nunca, reflexos de aço nas azas, e um alvoroto de pennugens na raiz do bico.
As mulheres menos maguadas, que para distrahir-se vinham olhar pelos vidros as arvores do jardim e a vida do pombal, espantavam-se de similhante tumulto de aves.
—Que terão os pombos? Que adivinharão os pombos? perguntavam fingindo ignorancia. Todas porém sabiam a historia da deserção. Era o agouro realisado, toda a familia de almas que ia emigrar, acompanhando ao céo a sua irmã, envolvendo-a na jornada, defendendo-a com as azas, alimentando-a com arrulhos, vestindo-a da brancura divina da sua pureza, e emittindo-lhe o esplendor da sua graça.
Quando o velho doutor chegou, a face de Maria cavára-se de todo, havia na sua testa diaphaneidades de cera, e um tom verde-negro raiando-lhe das fontes, afogava-lhe as feições n’um como luzeiro phosphorente. Nas azas do nariz vincadas a ferro, pontos fulvos depunham-se em crystallisação microscopica, como o pollen de uma funerea flôr desmanchada. E os olhos abertos, gelados de humores, perdida a transparencia, davam á physionomia uma singular expressão de acabamento, angustia e suavidade idiota, deixando vêr no terrivel relance, como o animal se ia transfazendo em coisa.
—Rezem, disse o velho em voz alta, pondo o chapeu para sahir, no meio dos choros renovados.
Os ultimos pombos abriam as azas, abalando por sua ordem, a installar-se na enorme serpente, que se desenrolava palpitando sob a irisação de um ultimo raio de sol doentio.
—Os pombos! os pombos!... dizia agora toda a gente.
O ROUBO
Á porta da enfermaria pousaram a maca, á espera.
—Eh Ramon! gritou o enfermeiro, do fundo. Um servente já velho, olhou na direcção da voz, e de venta no ar, mangas arregaçadas, o labio estupido, farejava. O enfermeiro juntou:
—Cama do canto, vá!
E com o seu geito vagaroso, abria em volta de um que expirava, o biombo isolador, papel azul e verde, com ramitos de rosas e borboletas.
Alta e interminavel, a enfermaria recordava ainda o claustro d’onde nascera, com as suas pilastras de cantaria bruta, a abobada caiada de que os lampeões cahiam symetricamente, e janellas d’uma banda e outra, encimadas de respiradouros circulares. Tinha talvez cem doentes a caserna desconforme, em cujo circuito se viam pequenas bancas de pinho com escarradores de folha, boletins clinicos pendendo a cada cabeceira, e na brancura amarellenta das fronhas, cabeças lividas de olhos estoirados, que se sentiam sós entre tanta gente, e mais soffriam de contemplar os males circumvisinhos. O enfermeiro era um de olhos biliosos e barba dura, cuja rude voz destillava monosyllabos roucos. O seu ventre abahulava-se em obesidades balôfas e a face livida, picada de variola, tinha uma expressão cobarde, espesinhada por esse longo mister de humilhações. Os ajudantes, gallegos velhos, não eram mais dôces de modos, e dia e noite altercando sobre qualquer coisa, batiam os sapatorros no sobrado, mostrando pelos descosidos da camisa, musculaturas de toiro sob epidermes de gallinha cozida.
Era quasi noite, e estagnava á flôr das coisas, uma penumbra morna em que se multiplicavam as larvas da febre, na atroz labuta da podridão. Tinham descoberto a maca no entanto, o enfermeiro viera vêr pachorrentamente, e com um dedo mostrára aos serventes a cama do canto, já prompta a receber hospede. Cada um d’elles então, foi a seu lado da maca; o mais baixo agarrou nos varaes da frente, o mais secco nos de traz. O enfermeiro disse—upa!—e em direitura á cama, a maca atravessou a enfermaria. O doente que vinha de entrar, era um rapazito enfezado e triste, cabeça oblonga toda rapada, um geito de dizer provinciano, e essa doçura de olhar em que se estrellam todas as resignações. Devia contar treze annos, e viera aos dez de Santa Comba, recommendado ao Pinto por um lojista da terra. A vida na loja, durante os tres annos, fôra uma aspera peleja, de madrugada ás onze horas da noite, dia a dia, sem repouso. Era elle quem varria, como marçano mais novo, quem punha os taipaes, e manhãsinha abria a porta, limpava o pó e moía o café. Mettido no saguão de lagedo ou na cozinha tenebrosa da loja, onde de verão e inverno, uma baba salitrosa e gelada chorava da cantaria immunda e das paredes pulverulentas, ahi passava os dias, só com uma triste camisa coberta de nodoas, arregaçada nas mangas e rota por toda a parte, calças de cotim sobre as pernas núas, e tamancos nos pés sem meias, engordurados e torpes. Os invernos tinham sido implacaveis n’esse antro, mesmo para o montanhezito afeito aos gelos das serras beirãs. Como os portaes não tinham portas, um ventinho horrivel cortava pelo corredor, da loja ao saguão, zebrando nas carnes listrões arroxados, pondo frieiras nas mãos dos caixeiros, e tornando a cozinha inhabitavel e mortifera. O marçano não se queixava. Nunca na sua vida tivera jaleca, as calças de cotim safado, luzentes de sebo, não lhe resguardavam as pernitas esqueleticas, e cortado á escovinha, o cabello não podia resguardar-lhe a pelle do craneo. Quando chovia, peor ainda. A agua inundando o saguão, golfava na cosinha, escorrendo pela anfractuosidade das pedras, e vindo molhar os fardos do armazem.
Era então preciso desarrumar aquillo tudo, carregar saccos de assucar, costaes de bacalhau, barricas de peixe secco e manteiga, caixotes de golozeimas, lavar o chão, todos os preventivos exigidos. E sempre elle, o mais fraco e pequeno de todos, carregava com esses trabalhos pesados, e aturava os ralhos. Duas ou tres vezes, o Pinto insinuado pelos caixeiros, lhe batera com uma corda molhada, porque se queimava o café, porque tinham bolor os rebuçados, e algumas vezes, porque as arganassas invadiam os caixotes da fazenda. Era o joguete das intrigas do armazem, o ponto obrigado das chacotas villãs dos caixeiros, o alvo dos ralhos e a victima dos delirios viciosos, d’esses tres ou quatro encarcerados brutaes, que só podiam deixar a loja tres horas por quinzena.
Nos dias agrestes em que era forçado a residir no saguão, sentia por vezes já nos ultimos tempos, a cada lufada de vento, picadas interiores, ardencias mortaes no peito, oppressões vagas, um mau estar indefinido. E aquillo coincidia com uma sensação de fraqueza geral, dôres nas articulações, esquecimentos de membros e vertigens frequentes. O terceiro inverno foi o mais terrivel, e n’uma manhã em que a febre o calcinava e o delirio lhe fazia dizer incoherencias, quando furiosos os caixeiros o iam tirar da cama a pontapés, deram com a sua respiração arquejante, viram-lhe os olhos sem luz, e desceram com medo. E quando anoiteceu, mesmo em mangas de camisa e calças de cotim, o pobre dava entrada no hospital, na maca da esquadra proxima, e aos hombros de quatro gallegos.
* * * * *
Essas primeiras horas de enfermaria foram para o rapazelho um desconforto mortal. Estrangulava-o uma sensação glacial de abandono e de pavôr, a ideia de matadouro onde se morre abandonado ao som de risadas, entre agonias atrozes, sem sacramentos e sem palavras de piedade. Dos fechos da abobada penumbrosa, os lampeões quadrados cahiam com luz triste, immovel na atmosphera podre do ambito, clarões que se amorteciam nos angulos da peça, em cujas muralhas, sombras de pilares traçavam fórmas de arvores colossaes.
No amontoado de leitos, e no sonho phantastico d’aquella luz amarellenta de craneiro, o marçano mal pôde no fervor da febre que o minava, reconstruir com verdade pelo que via, a vida purulenta do estabulo, para onde a cidade varria os seus tumores e as suas miserias. Pareceu-lhe que o deitavam ao pé de uma grande janella, n’algum canto de sombra luctuosa. Duas mãos enormes ergueram-lhe a cabeça para lhe metter o travesseiro, sentiu as coberturas comprimidas aos pés, e erguendo a vista, deu com uma cara gordalhuda e chata de enfermeiro, bigodes cahindo aos cantos da beiçada horrenda, e esse ar de enfado ainda peor que a raiva, que pronostica a indifferença e o embrutecimento, de corações onde todas as cordas estão partidas. Cahiu então n’um estupor profundo, e assim ficou como os outros, arquejando, a pelle secca, bocca aberta e lingua cornea, pequenos gritos afflictivos, que a espaços marcavam as visões do delirio, que ia evocando. Nunca soube dizer os dias e as noites, que assim esteve atolado em modorra sinistra, com listrões plumbeos na face, carnes flaccidas, e sempre aquella oppressão que o afogava com teimosia cruel, se abandonando os travesseiros altos, procurava estender-se um momento sobre algum lado. Ás vezes, alguem lhe chegava ao pé, faziam-no sentar bruscamente na cama, com perguntas rapidas, se estava melhor, que voltasse a cabeça, estivesse socegado, ou erguesse o braço, para lhe cortarem as bolhas que o cinto de causticos abrira, pondo vermelho e doloroso no thorax, todo um circuito de carne viva. O que o atormentava eram as percussões que sobre chagas abertas lhe faziam, de manhã e á tarde, á hora da visita clinica. Se pedia mais devagar, o enfermeiro impunha-lhe silencio, e aquelles olhos de bilioso, vitrificados como n’uma porcelana chineza, davam um calefrio ao pobre rapaz. Noites atrozes, crescia-lhe a febre, e perdido o tino, punha-se a disparatar. Todas as scenas dos tres annos de loja se desmanchavam e reproduziam n’esses desvarios escandentes—a noite em que fôra roubado o armazem, e d’uma vez que ficára a zorra da mulata portas a dentro, batuqueando co’a malta, e ainda as sovas do Pinto com uma corda molhada, por não ter apparecido o gato. Nada volvia a agitar-se com mais frenetica insistencia, n’esse pequeno cerebro atormentado pelo mal, que o roubo da loja. Os caixeiros tinham-se escapulido ao fechar da porta, e elle ficára só, em noite de S. João.
Deitado na enxerga do subsolo, barriga para o ar, as roupas fóra, mãos acima da cabeça, o pobre, sósinho no armazem enorme, pensava com saudades, na fogueira que em Santa Comba, deante do casebre natal ardia a essas horas da noite, e os irmãositos saltavam alegremente em cabriola ruidosa. Pela rua fóra, tudo seriam fogueiras, colmos em montes, canavouras de favas estalando na labareda rubra, e em torno dos mastros verdes, bailaricos alegres, bichas interminaveis de rapazio, rumorejos de guitarras e explosões de pandeiretas. Sobre a villa acordada em descantes, uma corôa de luz poria nas nuvens, o oiro-rosa das alvoradas de maio. As frontarias esclarecidas seriam alegres, e o relogio da egreja iria badalando a meia noite de S. João, quando o chavelho da lua mingoante, symbolico e triste, se fosse a sumir por traz de cabeços solitarios, vestidos de pinhaes sem termo. E abandonado para alli, emquanto escamugidos da loja como larapios, os outros andavam gozando pela cidade, elle fazia por dormir, sem poder. A porta da loja ficára unida, para quando os senhores entrassem. Que triste ser pobrinho e desgraçado!
Em tres annos de mourejar, apenas para comer tinha ganho. E tinha já vergonha de se vêr sebentão pelo armazem, e ao levar aos freguezes de estima no grande cabaz da loja, as mercearias encommendadas, ficava-se acabrunhado e tremulo antes de bater á porta, receoso que o expulsassem, cuspissem de nojo ao vêl-o, e o descompuzessem pelos rasgões da camisa, pelos calçotes de cotim gordurento, tão curtos que se lhe viam as canellas, vergastadas pela orla de coiro dos sapatorros montanhezes. Duas vezes ou tres, pela alta manhã, lhe quiz parecer que andava gente no armazem. Inda chegou a erguer-se da cama. Procurou os phosphoros, tinham-lhe esquecido na cozinha. E pondo o ouvido á escuta, apenas percebeu que as arganassas roiam nas cestas do macarrão, ou pelo lagedo arrastando papeis, armavam as correrias das mais noites. Demais, ia-o embebendo a modorra da madrugada. Fôra penoso o dia—moer café toda a santa tarde, arrumar garrafas que tinham vindo, limpar o bolor dos queijos...