A cidade do vicio

Part 17

Chapter 173,679 wordsPublic domain

Semelhante desordem partia as molas de jogo harmonico na vida da sociedade e da familia, a boa fé cessava, morria o credito, cada qual n’uma hesitação eruptiva mirava de soslaio todo o mundo, estranhos, parentes, irmãos d’armas, pensando o contrario do que lhe era afiançado, remordendo os beiços n’um sarcasmo furioso, e com esta idéa vibrando punhaladas sobre quem quer se aproximasse:

—Tu enganas-me, ladrão!

Como na lugubre éra feudal, o vasto soffrer pervertia as faculdades; os loucos e maniacos eram aos milhares, havia no desenho das cabeças predestinações de patibulo, e essa melancolia negra de mocho, que vem dos estados doentios, ralados por uma dôr moral. Porque a rude batalha da vida que tudo exacerbava, ia alterando em passo egual a physiologia rythmica dos grandes centros, fazendo até exagerado e falso o testemunho dos sentidos—do que davam prova os laivos de litteratura ou arte que tinham resistido ainda, mau grado as apathias dominantes.

Assim, não eram raros os que vencidos de tedio morriam amaldiçoando tudo; os que emigravam para não voltar; os que se reduziam á condição d’immundos animaes, e os que em seitas informes, desprezivelmente rotos, encarquilhados, perseguidos, vagabundos, por toda a banda prégavam absurdos e desvarios.

No luxo dos ricos, notas d’extravagancia insolente davam medida d’eguaes desregramentos.

As mulheres collavam os vestidos com relevos impudicos, imitando nos córtes figuras de peixes, borboletas e aves, n’um charivari de côres vivas e contrastes de gosto caraïba. N’esta agonia de raça tropega, sem consciencia nem vigor, se a recusa de Menelau fez mau effeito, a nova do pão amassado com suor do trabalho, e apoz comido em palacio, parcamente, pobremente, como na loja mais fria d’um mendigo, longe de ser olhada como grutesca, victoriaram-na em exemplo da mais sã philosophia. E entre essa gente, Menelau subiu ainda.

* * * * *

Quando por toda a parte se espalhou que o monarcha, n’um impulso de heroica bondade, pretendia começar a viver dos ganhos das suas habilidades particulares, o pasmo da massa foi extremo, por se pensar que a amplitude d’este capricho chegaria á doação voluntaria e generosa, de tudo que o rei annualmente costumava sugar ás burras da nação. Ter rei de graça, eis o pensamento offegante n’esse paiz da fome. E a lenda transfigurava a figurinha regia, n’um messias de estranha pureza e abnegação sem preço. Formou-se mesmo um partido politico entre a juventude culta, tendo por lemma um pedacito de brôa, e em guiza de programma arvorando as rigidas frugalidades de Sparta. O jornalismo tomando conta do caso, atirou com elle aos escaninhos da provincia, n’uma galhofa d’epithetos. Choveram sobre a corôa mais bençãos e offrendas de polkas; as padarias coifaram-se pittorescamente de taboletas, onde Menelau coroado d’espigas e todo nu como um deus de fabula, estendia olympicamente os braços, mostrando pães saloios á posteridade. E de repente outra nova correu de bocca em bocca, deixando os povos attonitos—foi dizer-se que o rei ordenára festins por tres dias, n’uma das suas quintas de prazer, para inauguração da era nova que ia surgir. Esses festins teriam o cunho da mais estreita cordialidade, seriam por ventura um laço de amor apertado entre as grandes classes e o povo; todo o mundo alli se daria o tu da boa confraternidade sem reservas; e cada pé-fresco saracoteando-se nas escovinhas fadistas da sua condição, poderia em caso lhe fazer conta, beliscar os triceps das gordas conselheiras decotadas, ou correr o braço d’envolta aos toutiços dos magestosos dignitarios da côrte. Dispensar-se-hia o _toilette_, os militares iriam sem armas, os camponios levariam os seus barretes, as engommadeiras os seus capotes, os mendigos a piolharia accessoria. Nada de ceremonias, bella sociedade, nada de ceremonias!

Sómente, como preventivo contra expansões de temperamento calido, se dava de conselho ás damas não levarem braceletes, collares ou quaesquer adornos de preço; se pedia aos agraciados de veneras não trazerem placas cravejadas, mas simples pequenas fitas symbolicas da ordem a que estivessem jungidos; se esperava do cavalheirismo dos senhores gatunos, durante esses dias, a suspensão de escamotagens ás bolsas e lenços d’assoar a que por desfastio eram dados, coisa pouca; como tambem se pedia aos assassinos o obsequio de, por egual periodo, se divorciarem das suas navalhas. Não por se temer desaguisado, que era bem conhecida a fina educação, elevado caracter, e alto nascimento de tão flamenga tropa, mas porque os ardores do sangue nacional fazem excitavel o brio, palavra puxa palavra, figurão boquiaberto está a pedir santa empalmança ao relogio, e d’ahi, como uma pessoa é fragil, sem querer, alguma vez... Emfim, nunca fiando! Tanto mais, que as festas offereciam engodos da melhor confecção, fontes de vinhaça gratis, pão molle, a bella favinha, e pela noite fechada, ora adeus! com moçoilas, salve-se quem puder.

A cada poeta era permittido declamar trechos allusivos á obra de regeneração que se ia emprehender: haveria loiro para os celebres e vivazes, e Menelau mesmo fazia tenção de lêr um bocado de grande effeito. Apoz os banquetes, danças nacionaes, fogo de vistas—c’os diabos, que magnificencia! diziam todos por toda a parte.

Mas emquanto taes alegrias vehementes esfogueteavam assim nos clubs do pé-fresco, extraordinarias batalhas se feriam em palacio, indomitas, torvelinhantes, entre Menelau que teimava democratisar-se ao limite n’aquelle passeio ás hortas, projectado, e toda a soberba côrte envergonhada de semelhante dispauterio.

Porque emfim, se o monarcha descia do solio a fandanguear com patuleas de jaqueta e bocca de sino, a illusão optica da magestade ficaria perdida de todo, visto ella residir na persuasão geral de que o rei por fórma alguma podia ser um homemzinho á semelhança de qualquer outro, porém uma especie de semi-deus como o mikado japonez, meio mythico, meio incomprehensivel, meio velado, e sempre complexo, vibrando medos de redor quem se aproximasse, participando as propriedades da tromba-marinha, tendo os lampejos da scentelha electrica, e em communicação com os grandes espiritos errantes da sabedoria, da força, e da justiça. Desgraça se algum vassallo sentisse a sua voz de cega-rega, lhe adivinhasse caspa, lhe chegasse a suppôr fórma e natureza ordinaria, ou no grande polypeiro da real batata, contar viesse, ter-lhe notado botões purulentos, como na penca do mais elephantiaco general reformado. Ah, sendo assim, a monarchia estaria perdida! Que iria ser depois d’isso, do estranho nimbo, vetusto e terrifico, da velha realeza superficialmente doirada, que respeito inspiraria ella, quando o mulherio tocando-lhe nos velludilhos do manto reconhecesse logo que eram d’algodão, e pondo os olhos nos borguezins vermelhos do principe, entrevisse a rir por uma fenda, na culminancia dos callos, algum prosaico resquicio de piuga?

—Cautela, meu primo e soberano, cautela, dissera marquez Fulgencio, todo peralvilho n’uma cabelleira empoada e profusa, assestando o _lorgnon_ com requintes impertinentes. A experiencia d’estes meus annos vos manda contar, que o povo imagina os monarchas pelas effigies das moedas e estampilhas, cuidando que elles só teem cabeça, e de relevo! Conheço a fundo a predilecção que daes ás lulas, e de sobejo vos tenho mostrado quanta benevolencia me inspiram essas pequeninas devassidões de paladar. Sois rapaz, sabeis evitar a azia pelo bicarbonato... Desde os arabes que a nossa familia cobre do seu real appetite, aquelles animaesinhos filamentosos; ha mesmo em brazão de nossa casa, uma caldeirada de lulas em campo de prata, que demonio! Mas se por ellas vos metterdes a dentro no banquete que intentaes, a plebe verá que tendes intestino, ao contrario dos deuses. E o carrascão, precioso soberano! Na nossa familia, este sumo dá azas á lingua, principalmente sendo por conta do lavrador; lembrai-vos que os segredos d’Estado devem ser inviolaveis.

Mas o rei ficou inflexivel ainda, impaciente mesmo e desgostado, por vêr que o não seguiam no unico systema de restaurar o amor do seu povo, e fornecer completas provas do quanto elle seria capaz de se sacrificar pela felicidade dos subditos.

Todos os meios de persuasão esgotados, o ministerio dos antigos, que sempre caprichára impôr o seu credo de rotina, secular e barbaro, ás passividades deprimentes da corôa, julgou digno pedir a demissão; marquez Fulgencio, que fôra n’um canto esfregar as palpebras corrugadas de cynico, com cebola, volveu chorando aos borzeguins do primo, pedindo para alli morrer, antes que transigir; e como urgia um profundo golpe politico, foi chamado o partido novo, e jorraram as reformas, começando pelos tres dias de festa e reconciliação geral, consoante o programma em boato.

Apenas publicado esse programma, violentas sobr’excitações tetanisaram a cidade, ninguém queria crêr, o commercio teve medo, fez-se lucto entre os nobres, e o resto ria e farandolava em vivorio descommunal. Embalde as grandes classes mandaram deputações, d’embate aos caprichos democraticos do monarcha, fazendo-lhe sentir os perigos que havia, n’uma popularidade jogada de tal fórma.

—Meu primo e soberano, as tradições de nossos maiores... aventurava marquez Fulgencio.

—Os fornecimentos de meus parentes em atrazo, dizia lacrimoso o mordomo.

—As prosperidades d’esta gloriosa nação, entrou a dizer o alto commercio. E Menelau impaciente:

—Não! Não! Não!

Appellou-se para a religião, e vieram os grandes mitrados de longas paragens, implorar por sua vez. Não! O poeta favorito mesmo, que via ameaçado o seu pascigo revigorante á mesa dos quarenta talheres, recebeu na face morta uma recusa formal.

E os jornaes:

—Estamos sobre um vulcão. Ás armas!

Mas qual armas! O populacho que fazia os motins e intimidava os poderes, estava do outro lado.

E as festas tiveram logar, apparecendo os ministros tunicados d’amarello, e o rei com ramas de loiro no craneo, e ricas sandalias cobertas de saphiras e perolas. Para chegar á campina onde estavam postas as mesas do festim, atravessava-se o grande lago, calmo e magnifico como um Mediterraneo. Era no tempo de maio, o ceu fazia tenda de montanha a montanha e horisonte a horisonte; entre oasis de palmeiras, cedros, baobabs e arecaes ondulantes, pequeninas aldeias riam sobre as aguas, entre reviravoltas de pombos e inviolaveis cegonhas brancas, sagradas no paiz. Violentos reverberos de sol enchiam a marinha toda d’arestas refulgentes, verduras de juncaes por entre as ilhotas perdidas, humidas massas de bosque em cujos mysterios, extaticos dormiam formidaveis tumulos de heroes e reis barbaros, sacudindo dos verandahs arruidos tapetes de folhas e cascatas de flôres.

Acastellavam-se em volta titanescos scenarios de serrania lascada, convulsiva, aspera, côr de lilaz nos recovados á sombra, azul nas faces meio luminosas, e fulvas ou côr de rosa pelos espinhaços onde mais vivas diziam as incidencias do sol; e mais longe, cada vez mais, nas ultimas escarpas de _silhouette_ apagada, fazia obeliscos a neve, enormes, n’um scintillante crystal de facetas em flecha. Espendurado de barrocaes a pique, pela vertente dos desfiladeiros onde cabritos montezes balavam de cornatura demoniaca, os pagodes cobriam-se dos seus chapéos de feltro, grutescos como clowns repicando ao vento carrilhões phantasticos de campainhas. Então n’um grande trireme escarlate, esculpido de chimeras de oiro, dragões alados, cães de Fó com sceptros na pata, o rei no meio dos seus ministros, sob tendaes de purpura e ramos de oliveira, atravessou o lago nas azas dos remos, como n’um fim de magica, apotheotico, enramado, entre barcaças onde a turba se apinhava para o saudar ao som de cantigas, que as guitarras repinicavam sob as unhas dos _bailhões_, em acompanhamento ás rimas extrahidaa da real versaria. Bebia o rei por copos d’antiga fórma, como lêra ser uso antigamente, o vinho que negritos vasavam d’alto, rôxo-terra, de bellas amphoras lavradas de mascarões e relevos. Gritavam-lhe muitos:

—Deixa provar, ó _reinadio_!—E vá de risota na companhia.

As barcaças levavam quem tinha querido entrar, gente de acaso, gente de trabalho, mal vestida e grosseira. Menelau na sua tunica de linho, a meio dos ministros, barriga proeminente e vasta, onde as pontas dos seus dedos mal podiam cruzar-se, afigurava assim coroado de verde, d’estas gallinhas cruas, expostas nas casas de pasto sobre ramilhetes de salsa—e á pôpa do trireme um menestrel repetia-lhe as proprias composições.

Derrotavam por esta e aquella aldeia, e mais povo em lanchões advinha a engrossar a esquadrilha.

—Pae, diziam pequeninos gentios de nariz arrebitado e face de cobre, o rei assoa-se ás mangas com’a gente. Megeras de grenha revolta, pernas nuas, tanga de riscado, cabellosas de tromba, pasmavam que o rei não fosse de roca, como os idolos da freguezia.

E evaporado o encanto as desillusões começavam; até que aproaram n’um desembarcadeiro pittoresco, onde colonias d’algas estendiam para a rocha, supplices mãos de vergastadas—e a turba urrando, cantando, brandindo maças, agitando as pennas d’avestruz doa saiões, fazendo telintar braceletes de bronze nos membros, e collares de dentes dos inimigos vencidos em combate singular, ia desembarcando em desordem, arco ao hombro, flechas á cinta, aos saltos sobre as frescuras da areia molle e salgadia. De pé no trireme, ia-os o rei passando em revista preguiçosamente, enojado do fartum que deitavam, perguntando se povo era aquillo, e no fim de contas já dizendo mal á sua vida.

Ninguém da corte o tinha querido acompanhar, nem o menestral, nem marquez Fulgencio, o que amargou á sua benevola alma de creança, pueril, desequilibrada, sem firmeza, ao mesmo tempo fidalga e pusillanime. Lançado em plena campina, o banquete tinha simplicidades de menu, por tal maneira rusticas e primitivas, que os pés-frescos entraram logo a murmurar, n’uma raiva de fome estimulada pelas emanações do lago. Para entalar uma bucha de pão com o meio litro de vinho, não valia a pena sahir de casa, muito menos da cidade; que diabo de rei era este somitego, que nem se explicava ao menos com dois dedos de beef? Os gritos de—carne! carne!—pozeram de sobreaviso o monarcha, forçoso foi mandar abater os bois que havia nas arribanas da granja. Como os cozinheiros do paço, orgulhosos da sua sciencia e jerarchia, não tinham querido embarcar, os convidados arregaçando as mangas e brandindo navalhões, deliberaram elles mesmos fazer cozinha. E o arraial ganhou com isto episodios d’effeito imprevisto, desordens carniceiras, alegrias ferozes d’insaciavel gula, como n’um acampamento de nomadas.

Por toda a planicie acendiam fogueiras, subiam ás arvores para cortar lenha, esfolavam e abriam pelo ventre corpulentas rezes dependuradas nos galhos do pinheiral; entre as cabellugens viscosas do matto, na exuberancia das relvas, aqui, além, viam-se abalar mulheres em cata d’agua, levando cantaros á cabeça; por traz das rochas, nos maciços de zambujeiro, alecrim selvagem, leitos de campanella, rosmaninho ou trevo, languidos casaes rompiam á socapa, recompondo furtivamente nos vestidos, a desordem do amor partilhado. E Menelau paternal, esfregava as suas mãos prelaticias, rosnando:—ah seus maganões, toca fazer população! Cavalgando pipas que sem cessar jorravam, outros bebiam por grandes escudellas, olho turvo, maçã congestionada, arengando a oratoria das tabernas e dos mercados. Mas o cheiro da carniça grelhada entre pedras, que entrou a derramar-se no campo, trouxe os primeiros desenfreamentos do appetite, os urros e pulos redobravam; magotes de gentio com vivas ao monarcha, agitando ramos e farrapos, lá iam em danças da _Africana_, meio obscenas, meio barbaras, deante da tenda regia desenrolando serpentes com vastas perspectivas, n’um charivari de remoinhos e berros, em que se misturava o basso som dos pés descalços no chão. O festim começou na relva, por baixo dos pinheiros, aqui e além desordenadamente, com maltas de grossas femeas, collarejas, lavadeiras, donas de tasca, senhoritas d’arrabalde, deliciadas d’arengar na presença do rei, todo o calão officinal dos seus mestres.

A titulo d’exemplo, Menelau impozera-se comer apenas d’aquelle nobre pão suado nas lides do trabalho, heroicamente, tão saboroso e reconstituinte no rezar da petição que os populares tinham feito. E por simples comprazer d’agradar, ia manducando a grandes bocados esse rolão salobro e massudo como argamassa, que sabia a terra e a bafio. Por vezes, a droga vinha-lhe á bocca n’um solavanco d’azia, lagrimas involuntarias brotavam dos seus olhos pisados, emquanto o povo murmurava—está commovido, mariola! Querendo reanimar o monarcha, os pés-frescos tomavam liberdades d’occasião, davam-lhe abraços em pleno ventre, propunham-lhe jogar o _homem_, ou no melhor dos callos lhe iam ferrando pisadas esmagadoras, mascavando brindes com vozes de vinho, n’um chafurdar d’insolentes cordialidades. Ao mesmo tempo, e mais isto o maguava, ouvia elle os versos que compozera em noites inspiradas, repetidos por boccas vinosas, corruptos de calão, intercalados de riso e facecias, e subia-lhe um desgosto de funebre reinar sobre tal babuge de homens. Fulgencio tinha razão, tarde reconhecia isto, o pobre Menelau! Mas forçoso era parecer alegre, mesmo respondendo a brindes, que em vez de lisongearem a sua divina pessoa, o estavam enxovalhando mais e mais.

Com um riso livido marbreando-lhe a bocca contrafeita elle esboçava gestos, que bruscamente se quebravam n’um asco, respondia palavras incoherentes; e pelas fauces da canalha viam-se desapparecer os ultimos nacos de boi e os ultimos picheis de vinho. Veio a noite, nas sonolencias do campo os grillos crivavam o silencio de silvos, e como lampadas accesas para uma boda, já as estrellas pendiam na tenda palpitante dos céos. Blondes translucidas subiam do lago, condensavam-se, subiam mais, ligeiramente, apagando nas serras a chanfradura dos desfiladeiros, e confundindo bastiões de rocha com as torres asperas dos pagodes—pois a essa hora ainda, espapaçados por baixo das arvores, os pés-frescos bebiam ou rolavam nos braços das suas damas. E como o rei quizesse voltar, muitos oppunham-se, cercavam-no, mais um pedacinho, amigo rei, por quem é, apertando-se-lhe em volta n’uma quadrilha de ratoneiros. A retirada foi quasi uma evasão, todos queriam embarcar no trireme; muitos em zig-zagues, batiam no hombro de Menelau, dizendo—até sempre, ó coiso, explica-te cá com um cigarro. E o rei impava da brôa comida, sentia-se asphyxiar pausadamente, crescia-lhe o estomago dorido, e suores d’angustia gelavam-se empastando-lhe os cabellos nas fontes. Tarde o seu arrependimento chegava, de haver transigido com a populaça, e abdicado do orgulho dynastico que mantinha a distancia, essa vil raça de fellahs; esquecera que a realeza como o pau bichoso, dura podre muito tempo, em se lhe não tocando; a sua travessia pelos versos fôra ridicula; querendo viver do triste pão das cabanas, tinha sido idiota. E como esponja embebida em liquidos, turgecia-lhe no estomago aquelle rolão comido, desmedidamente, furiosamente, obstruindo-o n’um peso de metal que enregela e se mobilisa. Para o desembarcar, os ministros fizeram padiola, porque o monarcha nem se podia mexer; e atraz a turba esguedelhada, praguejava e mugia á luz dos fachos, na alegria indecorosa do vinho.

Rubros clarões então descobriram os caes apinhados de burguezes, de chapéo sobre os olhos e mãos nos bolsos, rindo baixo uns para os outros, e voltando costas quando passava o cortejo.

Por vezes, do coração das trevas rompia um dichote cruel, que instigava publicamente o escarneo, incitando á revolta; escuridões gordurosas choviam das emboscadas, fervilhando rumores d’ameaça; e subitamente, cortando o bairro nobre, babylonia de fachadas algidas, alpendres lugubres, e torres roqueiras com gradaria carcomida, Menelau viu bem que estava perdido. Nem uma luz nas frontarias, nem um viva na bocca das familias patricias, que o viam passar co’a turba multa de pés-frescos. E a sua bocca escaldava, o estomago crescia-lhe sempre, e esses labios brancos murmuravam n’uma afflicção d’embuchado:—o meu reino por uma botija de Sedlitz!

Ai, pobre Menelau! Quizera digerir pão ganho a trabalhar, como se de tal fosse capaz o seu estomago d’ocioso, delicado, senhoril, dyspeptico, que uma ascendencia de pompas, costumes galantes e prazeres, sómente educára a viver do pão dos outros, e aqui está como se foi d’indigestão o bom rei Menelau, tão querido do seu povo, que todos os annos inda agora, ha lucto no dia da sua morte; e antes d’elle seis mezes ninguém trabalha de magua, o que tambem se dá nos seis seguintes, apesar de mui laboriosos, todos os habitantes do pequenino paiz dos pagodes. Para cumulo de pouca sorte, morreu sem admirar a rica palma chifre e oiro, que pelos certamens poeticos do outono, Mont-Real lhe endereçou em preito ás _Folhas e Cascas_ rimadas, premio votado unanime pela nobre academia tolousina, na secção: _sujet libre, quarents vers au plus_.

A palma figurou muitos decennios entre as joias da corôa; mas fatalidade! veio um dia a republica, que a fez talhar em botões, para as cuecas de gala do presidente.

JANTAR NO MOINHO

Estes dias luminosos em que nos apraz o amor das coisas simples, a comprehensão e o cumprimento dos deveres honrados, passados no campo e fóra da convivencia monotona dos trens de praça, dos _meetings_ republicanos com vivorio, dos typhos e do parlamento, são-nos particularmente agradaveis e infiltram-nos no organismo fatigado, particulas de saude que fazem alegre a alma, e dentro de nós cantam marchas colossaes de poderosa instrumentação, _preghieras_ de rythmo suavissimo e casto, toda uma opera de auroras e triumphos, cheia de grandes arias e surprehendentes córos. O ceu não tem negrumes, é frio e lavado o ar, transparencias em que o olhar se embebe sem esforço e a alma sonha sem pesadelo. Tu bem conheces este estado gazoso da alma, caro homem gordo que vens de me lêr, quando passas da rua onde móras na Baixa, para o ar de Pedrouços ou Lavarrabos. Este purissimo azul cantado desde que ha lyras, tão puro de lei, que nem as evolações morbigenas da poesia chocha d’outros tempos conseguiram corromper e estragar, sempre novo para os evohés de cada vate que chega, é o grande poema colossal, que cada um de nós busca metrificar e comprehender, na aprendizagem artistica de cada espirito em jornada para o supremo ideal de bondade, de justiça e d’amor.

Em cada manhã que rompe, pelas esplanadas que vagarosamente o arado sulcou, e as primeiras folhiculas das seáras germinantes avelludam de um tom verde e tenro; pelos barrancos franjados de arvoresitas sem folhas, espinheiros cobertos de drupas escarlates, maciços d’alecrins selvagens, losnas acres, rosmaninhos sombrios, estevas, piornos e murtas, o sol verte a sua pulverisação de oiro n’uma serie de musicaes vibrações, cujo rythmo só percebe uma pupilla impressionista; vibrações por que se afina a musica dos passaros na pennugem dos ninhos e o _pizzicato_ do arvoredo regorgitante de seiva; vibrações que provocam lentamente o desgelo em refulgente orvalho, na concavidade dos pegos, á flor dos quaes anuros irrompem coaxando, verdentos e amorosos, fazendo tambem os _couplets_ do seu primeiro noivado d’este anno...

Com o meu chapeu derrubado e as minhas botas de couro cru, solidas e altas, cinta preta e jaleca de pelles, á hora em que os senhores estão digerindo ainda môlhos do Silva e carinhos d’itaïra, vou eu a pé, fumando o meu cachimbo ou pensando nos meus alqueves, pelas veredas que passam nas folhas de semeadura, ou como fulvas serpentes galgam as espinhas dorsaes das cordilheiras.