Part 16
Menelau ficou scismando no que ouvira ao poeta. _Queixas de intimo e amargo soffrer... Se uma organisação eleita como a minha ou a de Vossa Magestade... Pelo verso as maguas volatilisam-se da alma como perfumes, e esvoaçam em espiras de musica..._ E a imaginação alava-se-lhe no vortilhar d’estes alvitres subtis. Tambem elle soffria perdido nos prosaismos do moderno mundo, tão grosseiro que o não cortejava, tão sceptico que lhe punha em duvida a origem divina, tão egoista que pensava truncar-lhe a dotação. Oh, iam longe os tempos de poderio e triumpho, quando pomposamente os reis entravam nas cidades á frente das cavalgatas decorativas, entre evohés e flôres, envoltos no clangor das trombetas dos arautos; ou acceitavam nos mosteiros gothicos os gordos festins dos dom priores com arengas biblicas; ou nas florestas, ainda sobre alazões fogosos, caçando os veados reaes, viam nimbar-se de clarões celestes n’um maciço de folhedos, a apparição d’algum santo patrono, que resmungava parolas desconhecidas, apontando o ceu. Então eram elles senhores e mandatarios, luziam as corôas em fulgores omnipotentes, e ao menor dos seus gestos cahia no pó a plebe assombrada, oscillavam da forca rebeldes e apostatas, e o Papa lhes remettia por nuncios purpurados o ultimo bilhetinho do Eterno com sellos da chancella celeste. E tudo abatido agora, as realezas da terra e as realezas do ceu, o empyreo e os thronos, nem obediencia nem fé!
E insensivelmente, monarcha Menelau rimava já...
D’alli a tempos o menestrel voltou desanimado. Correra tudo, casas de penhores, caixas de theatro, capellistas, irmandades do Santissimo e bailes campestres. Ninguem queria o throno real e suas dependencias. Concertos recentes, feitos por obreiros barbaros com o famoso camartello constitucional, tinham-lhe tirado o merito como obra de arte. Estava agora uma architetura hybrida, sem typo nem estylo, com pedaços de todos os cyclos historicos, e sangue de todos os morticinios politicos. Cada revolta desfilando por elle, cada usurpação fazendo-o oscillar, a invasão estrangeira vinda por amparal-o, lhe tinham arrancado dos nichos rendilhados, dos frisos em voluta, dos columnellos e architraves, a estatueta d’um prestigio, o florão d’um dom exclusivo, e a cariatide de uma tradição herdada. E emquanto com formidavel impudencia o escabello rude da canalha ia em cada sedição tomando dimensões cyclopicas, o pobre throno carcomido fazia pender mais e mais o seu docel esfiado—cabeça decrepita offerecendo o gasnete ao nó corredio do cadafalso!
Era já o alegre tempo dos reis exilados, villegiando pelos hoteis do boulevard Hausseman e camarins das _estrellas_ novas, indo cear _chez_ Bignon, _chez_ Vachette, e _chez_ todos os restaurantes de sumptuosos gabinetes, com leitos Gauthier, bidé, mesa de jantar e o pequenino pente de madreperola, discreto e util, que alisa a não deixar vestigios, depois dos _can-cans_ em pelota, os cabellos esmanchados de Coralia, Fanny Essler ou Rosita Maury. Pelas corôas nem meia davam. Todos os dias os expressos atiravam ao vortilhão de Paris, principes e princezas, herdeiros sem reino que herdar, reis e rainhas em paletot côr de mel e _cache-misère_ côr de pombo, gran-duques tamanho de grãos de milho, barbados como maçarocas, e tão poderosos, que se cahiam das calças na sua capital, vinham esmurrar as ventas em paiz estrangeiro. No hotel Druot, alternavam-se as vendas das collecções Demidoff com os leilões das rainhas caloteiras. Esses desthronados não soffriam muito porém, que os embriagava a verve de Audran, Halevy e Planquette, sopro de vida nova, subtil e perfido, que ia expungindo os dynastas da velha sagração poetica, pondo-os a correr mundo de lingua fóra, e com guizadas de _couplets_ na colleira.
E dos varandins de palacio, lançando os olhos pela infiel cidade que o repellia, rei Menelau dava suspiros pensando nos collegas, mas sempre versejando, o excommungado!
* * * * *
—Muito bem, disse o monarcha certa manhã, ao cabo de reflectir demorado. O principe é novo para as redeas do governo; por outro lado, ninguem me quer a estalagem com a reputação que lhe fizemos. Que remedio senão reembutir-me no throno?
E aparando com um canivetinho de oiro, a penna de pato das litteraturas celebres, proseguia:
—Pois que sou das raras organisações eleitas, e pelo verso se volatilisam maguas, etc..., por que me não farei poeta, e publicarei tambem um volume de folhas e cascas? A ociosidade indispõe-me com o povo. Quero pelo trabalho reconduzir-me ao seu respeito. Escreverei para ser grande.
Pôz-se então a rimar com toda a gana, os assumptos nobres da sua côrte, virtudes e birras domesticas das açafatas e damas de honor, as dôres de dentes do grande chanceller que punham o gabinete em crise, um ou outro parto feliz da sua galga favorita, attingindo mesmo uma ode sobre a baixa dos algodões, muito gabada no corpo do commercio.
Esta nova phase governativa creou-lhe hostilidades e carinhos na imprensa e classes obreiras. Os republicanos compararam-no a Nero dedilhando lyra, á face de Roma estorcida em clarões de incendio. Nos grupos de mundanos corria em risadinhas surdas o dito mordaz d’um certo marquez Fulgencio, ao ouvir lêr a real ode. E a maioria saudava no excelso rei um d’esses genios poeticos, mandados por Deus de onde a onde, á glorificação dos povos, que por sua doçura, esforços, sabedoria ou martyrios, muito haviam bemerecido da omnipotencia.
Duas sortidas ou tres, jogadas pelo gordo Menelau á popularidade que lhe escorregava e fugia, o certificaram da boa impressão que nos animos deixára a nova da sua coqueluche poetica. Eram lojistas que vinham á porta com os metros em attitude, pessoas que lhe faziam adeusinho nas ruas, dois jornalistas ou tres que lhe sorriam como a collegas, descobrindo calvas de vasta auctoridade e saber. E d’uma vez que a sua caleche se virou por conselho do ministerio, n’uma das grandes ruas da cidade, mais de mil pessoas vieram offertar ao soberano, pedaços de adhesivo e outras miudezas de affecto. Já a sua bella face de moleiro ruborescia n’um bem-estar regalado, e os reaes olhos de goraz, velados em palpebras somnolentas, ousavam fitar por um certo tempo, menos assustadiços e supplicantes, a turba-multa das ruas, entrevista nos passeios de carruagem. Dizia-se em geral:
—Mas é um homem intelligente, nosso rei Menelau. Escreve, por exemplo.
Para desculpal-o das incoherencias de governo e certo esbanjamento dos dinheiros, os amigos opinavam:
—Que diabo! Um poeta!
E nos centros litterarios, como as suas rimas largavam por analyse, descamações de caspa e esquirolitas de veado, esses mesmos amigos juntavam:
—Como ha de ser bom poeta nosso rei Menelau, afadigado como anda nas coisas da governação? O reino atravessava um periodo singular. A industria de engeitar filhos, deixando de ser monopolio das altas classes, democratisava tresvairada, por toda a matulagem de beccos e cabanas de aldeia e cidade. Quem roubava de cem contos para cima era absolvido e condecorado; quem tirava um lenço ou um pataco ia degredado por toda a vida. Os juizes escolhiam-se entre forçados, e os titulares entre pulhas. Evidenciando um cynismo mordaz que era moda, os primogenitos diziam nos salões ás ricas herdeiras:
—Tenciono fazer como meu pae, que nunca se casou.
Os assassinos invadiam as estradas para arcabuzar as diligencias, lavravam por toda a banda fomes biblicas e pestes asiaticas. Como Saturno, os coroneis devoravam os regimentos; os generaes cobriam-se de gloria e medalhas nas secretarias, casas de batota e chás officiaes; e os aspirantes de lanceiros eram as primeiras bailarinas do exercito! Todos os dias quebravam casas bancarias, havia leilões por dividas, abriam armazens de penhores, ou os jornaes annunciavam suicidios. E no respeito a sciencias, os astronomos fixavam a terra nos espaços, e todos os astros em roda descabellados em corrumaças de pandega, ou fandangueando em desnalgado bailete.
Os poucos espiritos sãos, voltados sobre um passado de historicas pompas, contemplavam n’uma apathia desopilante, perdoando as vergonhas presentes pelas glorias de então.
Espicaçado pelo exito, rei Menelau invadia os dominios da alta arte poetica, o soneto pastoril, o acrostico recamado de doçuras do Hymeto, o logogripho cheio de trocadilhos e imagens cartonadas, sublimidades metricas onde a real inspiração tinha vôos de gallinacea. As suas preoccupações litterarias subiram a ponto, que até uma penna de bastardinho mandou cravar na ponta do sceptro, inda assim não lhe fosse escapar a inspiração que o ferroasse acaso, ás horas solemnes da pragmatica. Não era raro apparecerem os discursos da corôa e respostas aos plenipotenciarios, crivados de rimas e allusões mythologicas que faziam a confusão dos funccionarios, e chegaram mesmo a levantar hostilidades com os inglezes.
Bem depressa porém, a atmosphera de sympathia e favor em que os loiros de Menelau refloriam, fizeram o rei baboso de sua pessoa, infiltrando-lhe ambições de mais vasto diametro, filaucias de grande homem, e insidias felinas de creança amimada. Nos conselhos da corôa, embuçado no velho manto real, que a agulha da rainha illustrara de passagens com o desenho de centopeias, batia o pé se lhe negavam dinheiro para frescatas a que era dado, allegando ser na verdade um monarcha mal empregado em tal pelintrice de paiz.
Ia audaciosamente das fórmas pindaricas da ode e do soneto heroico, composições lymphaticas de meia pagina, que o das _Folhas e Cascas_ secretamente refundia, para as audacias do volume orlado a côres, todo em _cul-de-lampes_ do estylo mais puro, letras Ehrmann brincadas de figuritas ridentes em attitudes de chimera, illuminado como uma biblia, e impresso em China e Wattman de primeira. E outras aspirações de gloria artistica d’aqui—ter palacios e kiosques por quintas e tapadas, com marmores e bronzes celebres, esplendores de baixella constellados de velho Limoges, cavalgatas historicas pelas florestas, festins de peru para poetas em velludo e oiro, e uma bicharia engaiolada nos jardins do paço, que pela noite era o terror do burgo de redor. Emfim, uma tarde o povo que mendigava nas ruas ao desamparo, roendo talos na sombra dos portões senhoriaes, ou acocorado psalmejando pelas escadarias dos mosteiros, ouviu pela guela dos canhões annunciar, entre morteiros e bandeirolas, barafundas de fidalgaria rolando em berlindas de côrte, alabardeiros de tricorne e quita-sol, liteiras e palafrens em marcha, que os brochadores acabavam os primeiros volumes da versaria real, e nas monumentaes caleças pintadas de erotismos Watteau, viriam pela cidade caminho do paço, á solemne entrega da famosa lucubração do reinante.
No couce do prestito, balanceado nas correias da pesada e alta traquitana insculpida, dizia marquez Fulgencio para a preciosa marqueza, coifada de marabús:
—Espantosa, a obra d’el-rei meu primo! Como execução, que colorido biliar! Pelos fundilhos rotos da rima, vê-se carne morta do ideal. E a emmaranhada fecundidade, bom Deus de Isac e Jacob!... Ah! nunca poderão bem aprecial-a, sem tesoura e pente.
* * * * *
Rei Menelau era um magnanimo, foi um magnanimo em todos os dias do seu reinado. Ante as supplicas dos que em chusma, quotidianamente affluiam ás portas de palacio, n’esse tempo de miseria livida, o seu coração vertia sincero dó. O que o compadecia mais era esmolarem a pé, as pobres creaturas.
E na cathedral d’uma vez, quando uma velha lhe cahiu em joelhos pedindo esmola, o monarcha foi todo admirado da pobre não trazer luvas. Mandava dar a quem vinha restos do seu pantagruelico jantar, cem talheres para a camarilha, baixella de oiro cinzelado, e quarenta artigos de menu, intactos pela maior parte, e portas travessas vendidos depois aos ricos hoteis da cidade. D’onde vinha receberem os pedintes em serviços de Saxe, apenas esqueletos d’aves e peixes, de envolta com rodellas de limão e cascas de fructa. E exquisito á mesa, o bom monarcha. Um fastio!... Para lhe captarem o appetite, condecorados e eruditos cozinheiros esgotavam-se em pastelarias de recheio phantasioso, molhos nunca sonhados, preparações d’especiaria cara—o que vinha a custar rios de contribuições. O rei mal tocava n’um prato ou n’outro. Quanto a beber, muita vez succedeu erguer-se da mesa com olhos pequeninos, entoando coisas desavergonhadas d’um certo naipe, aos beliscões secretos nas carnes de honor, com seu fiosito de baba mui patife no beiço. D’elle dizia marquez Fulgencio então, paternalmente:
—Coração de oiro, um nadinha piteireiro!
Suppliciados de miseria, como iam grassando vertiginosamente a fome e a molestia nos burgos humildes da cidade, determinaram os pobres por conselho da burguezia, implorar do rei quantos proventos este auferisse na venda do precioso livro de versos, tão fallado por esses reinos afóra.
No memorial que a palacio foram levar, todo escripto por um _doudejante_ da geração moderna, phrases equestres empenachadas de imagens n’uma estrupida de hyperboles, hirtos substantivos cambaleando entre adjectivos, como bebedos entre cabos de policia, tropegos verbos remendados de prefixas e espinoteando em cambalhotas como arlequins—empalhavam processionalmente os espantalhos classicos com que a populaça se julga ennobrecer e heroismar aos olhos dos ricos e poderosos, nos seus mezes de jejum forçado. Alli se allegava o tradicional amor das blusas pelas monarchias; a coragem, valentia e esforços havidos em commum, nas guerras contra o invasor; soffrimentos sem queixa sangrados em inundações e subidas do milho, emquanto o paço nas recepções de circumvisinhos monarchas, caros e nunca assaz amados primos, walsava de calção curto, invertendo as barrigas das pernas nos derrancos do cotillon; alli se chamava ao povo eterna creança, leão indomado, Prometheu captivo na rocha, Atlas, e uma convergencia de historicas calumnias, afinadas no sentido de surprehenderem á bocca do cofre, mui lampeiramente, é verdade, os centos de mil reis que rendesse a principesca edição de rimas e cascas. Tres periodos ou quatro sobretudo, exalçavam com arte a mais pathetica, um certo rolão vulgarisado nas comidas pobres, que pelos dizeres da petição, usava amassar-se com suores de trabalho, amarguras da indigencia (que vida, Jesus, que vida!) e altas dosagens mais d’outros liquidos humanos, d’excreção dolorosa ao que parecia. «Esse pão negro e duro, excelso senhor e rei, dizia o requerimento, é o dos que soffrem e trabalham em prol das industrias e agriculturas patrias, é o pão do povo, o pão da officina, o pão da pobreza. Rudes canceiras logram ganhal-o, suor de nossas frontes o amassa; mas alimentando o corpo, elle enche ao mesmo tempo a consciencia d’uma santissima paz inviolavel. Á noite, sob os tectos das mansardas, quando a chuva...» Ia assim o panegyrico da brôa, escorrido da penna doudejante, luzido, esfregado de novo, tocando pratos e com porta-machados á frente; e em carriolas d’estylo passavam depois allegorias d’instituto, com diademas á fadista e ventres estripados de crina, rhetorica que para além de tres seculos, havia já figurava em cortejos de pompa igual, elogios de sabios mortos por exemplo, introitos de relatorios sobre os arrozaes, programmas de partido politico, cabeçalhos de testamento e não sei que homilias de quaresma. «Oh! mas esse pão vem-nos transfigurado quando legitimamente ganho, e iguaria alguma de principe, por delicada que se antolhe, poderá igualar-lhe a salutar influencia e excedel-o em exquisito sabor...» Justamente este trecho comprometteu a fortuna da pretenção, por deixar cogitativo nosso rei Menelau. Com que, exquisito e magnifico de sabor, hein? E assim remordia elle sob os baldaquinos do throno, mexendo os dedos dos pés em folgadas babuchas de missanga:
—Os cozinheiros do paço vão estancando os seus arsenaes de receitas, sem que até hoje lhes tenha podido manifestar por seus meritos a minha real satisfação. Ora que estes funccionarios nunca hão de fazer lulas a meu contento!... E então que sinto um fraco positivamente por estas vassallas de caldeirada... Oh, os cozinheiros! Condecoral-os foi perdel-os. Desde que brilha no peito do chefe a commenda dos _zoilos verdes_, vae a côrte notando decadencia nos fricassés—e pela minha santa Padroeira que era um papo de milho, o pedaço de gallinha que hontem me serviram no jantar de gala. Tambem, tornou elle bruscamente, mettendo os dedos enroscados de anneis pelas buracarias do manto; como hão de grosseiras gentes interpretar o paladar d’um principe? Vem todas de muito baixo, para verem uma arte—e concluiu devagarinho—no comer. O que mais serve a meu contento inda assim, é o cozinheiro da fazenda. Mas faz-me almoçar contribuições em sangue, quasi cruas, de fórma que para as comer, todo me enojo a retirar-lhe de cima as pelles de contribuintes, que sempre vem agarradas co’a violencia da penhora. O caso é que me estragam o estomago e vou estando obeso e branco como uma abbadessa. De vereadores e merceeiros rotundos, poderão dizer os maldizentes, que me trazem na barriga; mas sobre esta pansa espheroide que irão conjecturar senão que ando aqui a digerir o thesouro?—Uma tristeza poetica empanava-lhe a face de capadinho. Disse lentamente umas poucas de vezes, partindo as palavras como quem as esburga de sentido «... amassado com o suor...»—quasi esteve a esboçar um gesto de nojo, recordando calceteiros ignobeis, incrustados de lama como animaes d’esgoto e suando bestialmente, que dias antes vira n’uma rua, enfileirados no trabalho como captivos no ergastulo; mas continuou «... iguaria de principe, por delicada que se antolhe, poderá igualar-lhe a salutar influencia e excedel-o em esquisito sabor». Fez de si para si:
—É talvez bom para diabetes esse pão celestial. E eu soffro!
Esteve sem fallar um bocado, e estrallejando a unha grande d’encontro aos caninos de lobo, ergueu magestosamente a face na crispatura de quem scisma, aquella face historica e rigida que a pragmatica mandava, nas quedas de ministerio.
—Pois vou-me experimentar pão com suor, a vêr que tal. Mordomo!
Um janizaro rapado á navalha, grandes collarinhos especando o cerebello, libré doirada com bolotas de relevo, e vastos lacis apopleticos de face, ergueu magistralmente o reposteiro, acto continuo fazendo com a cabeça um arco de cento e oitenta. O rei foi dizendo:
—Que promettese alguma coisa aos do memorial, tudo mesmo, mas ouça cá, para o anno que vem. Se gostarem de musica, a banda toca o hymno lá baixo no pateo. Mas hei por minha espontanea vontade não reverter o lucro das minhas rimas em beneficio das classes famintas, agora que ellas tanto exaltam o pão, primeiro ganho e depois comido. Sim, diga-lhes que iremos ao _Te Deum_ na cathedral se as colheitas forem capazes, que tencionamos não pedir mais dotação, nem auctorisar augmentos d’imposto além do duplo dos que vigoram. Olhe, mordomo, ria-se para elles, coitados, que passam mal segundo infiro, e são fieis e passivos vassallos, conforme afiançam no seu favor de tantos do corrente. Quanto ao dinheiro temos pena, sim, verdadeira penna de pato, mas vê bem o mordomo: elle tem destino, oh, destino mui nobre e exemplificante. É que vamos comprar farinha, suar o suor do trabalho que dizem ahi tão amaro e sublime, e com estas duas coisas amassaremos pão de que nos iremos alimentando, e a côrte.
O mordomo attonito, sem atinar com palavras de resposta, esteve livido d’assombro alguns momentos, e arquejava dentro da farda como um grande kagado na sua concha.
—Mas, soberano senhor, aventurou elle com medo de vêr o projecto realisado; que vai ser de Vossa Magestade com semelhante regimen?
—Descança, serei forte como um hercules.
—Que vae ser da côrte, tão dessorada mesmo comendo á barba longa! Forçada talvez a trazer lunch, Jesus Maria! E baixa nos generos a semelhante abstinencia; os salmões que meu sogro fornece, sem procura, apodrecendo para ahi; a fructa que fornece meu genro desamparada; meu cunhado fornecedor de vinhos, quebrando como um scelerado vil; e minhas sobrinhas gallinheiras, meu irmão com mercearia, e meus compadres, primos, primas! Ah, perdidos todos, deshonrados, abandonados, e por cima Vossa Magestade não poderá sobreviver-lhes a pão secco.—E o desgraçado n’um desespero medonho, arrojava o chinó pelos mosaicos do salão.
—Pobre mordomo! fazia o rei commovido. Ahi está um que me adora sinceramente. E começou a mais linda ode sobre a amizade, endereçada ao servidor; inexoravel porém na birra do pão com suor, e brandindo o sceptro com sobrecenhos merovingicos:
—Sim, comel-o-hei, clamava elle por todo o palacio. A honra me vae n’isso empenhada, que os grandes exemplos do alto devem partir. Quer virtudes no throno o meu povo! Ostental-as vou. E se morrer na lucta, os chronistas poderão dizer: foi sobrio e poeta, chegava a roer pão duro como os cães, mas deixa versos de dar ciume aos maiores genios. Pobre diabo, convimos, mas grande rei!—Toca a suar.
Ora foi desagradavel, muito desagradavel ao povoleu, a recusa do dinheiro implorado.
A fome subia por toda a banda desabusando a canalha ruim. Vinham trigos de longe a fabulosos preços, por terem sido vergonhosas as searas; succediam-se os roubos, as quebras fraudulentas, os adulterios e os suicidios. Nos cargos que pagava o estado, affluia toda a sorte de frandulagem ignorante ou descarada, sorvendo os dinheiros na razão inversa dos serviços e dos meritos.
Por vezes, quando algum d’esses se elevava por quatro discursos retumbantes e meia duzia d’intrigas habeis, matilha de adeptos vinham rodeal-o de prompto, conclamal-o emphaticamente nas folhas, jurar que era elle o mais eminente dos contemporaneos, o melhor dos amigos e o mais probo dos patricios—e assim se formavam pequenas côrtes ambiciosas, de olho acceso á mira do propicio dia, em que levando de vencida as facções contrarias, podessem de garra adunca e maxilla voraz, trinchar no que de alimenticio ainda restasse n’esse esqueleto de nação. Dos baixos-fundos ignorados da massa, viam-se romper de chofre creaturinhas verdes talhadas em cunha, desconfiadas, molluscoides, escorregadias, que já no occaso de mocidades subterraneas e suspeitas, furando, successivamente furando, conseguiam á flôr da celebridade afitar por fim os cornichos, na mira d’alguma posição culminante. E surdos mineiros exasperados pela vileza de longos annos famintos, appareciam certa manhã ministros sem ninguem saber por que modo, directores de secretaria, primeiros magistrados, poderosos banqueiros, chefes de situação; e perguntava-se sem ninguem responder, d’onde elles vinham, como tinham podido impôr-se, qual plano de conducta iam seguir, ou por que tenebroso fio de maquinação e filaucia se logravam incluir no circuito aureo da riqueza, da evidencia ou da gloria.
Realmente, n’uma raça de cobardes, punham calafrios taes audacias de vampiros, e a ignorancia e cachexia publicas recuavam, de cada vez que as investia violentamente algum d’esses insaciaveis polvos. Mortas as actividades, empobrecidas as familias, assolado o paiz pelas quadrilhas d’aventureiros politicos que nas ruinas das instituições se emboscavam a pilhar quanto viesse, a fome do povo breve correu a gamma lançada entre a humildade e a ameaça, por não ter mais que perdesse.
Se acontecia romper guerra nos seios d’uma facção ou entre facções adversarias, medonhas revelações d’infamias commettidas davam um panico geral. Vinha-se então a saber como fôra pago tal transfuga, quanto custava tal emprestimo, ou o que auferia tal funccionario.
Por esses rasgões da fé protrahida e da lealdade sonegada, o olhar mergulhava nas catacumbas da bancarrota, de cujos pilares pendiam enforcados, verdenegros, os cadaveres da honra e brio nacionaes—e tinha visões de medonhas catastrophes! Depois boatos sinistros em photosphera a cada lugubre episodio, fundos falsos de calumnia, deboche e crime, cingindo em espiras de serpe reputações cá fóra venerandas, e por milhares engolfadas em podridão!