Part 15
Estacado á porta da alcova, braços cahidos, collarinho sem botão, o collete abotoado ao acaso, Arthur viu de relance aquella desordem de gavetas abertas, a ultima chicara de caldo fria na beira do aparador, colheres pelo chão, a um canto o centro de mesa com pinhas de rosas esmorecendo sem agua no crystal do jarrão proeminente—e por tudo aquillo os seus olhos iam vitrosos d’imbecilidade. Um grande tule pendia n’um cabide, com vincos ainda da loja, cortes nitidos de tesoura na base; e por elle abaixo, com folhas de panno envernizado, grinaldas brancas desabrochando efflorencias de quinquilharia vulgar, n’um asco de tintas frescas ainda. Ao redor d’um crucifixo de pau, assustador, como esculptura, velas altas derretiam nos castiçaes da sala. Duas hospitaleiras com grandes rosarios badalando á cinta, andavam á roda bulindo, aconchegando as coisas de olhos baixos, psalmejando rezas lugubres em latim barbarengo. Elle via-as na sombra negra dos biocos, aborridas, resfolegando, bocejar muitas vezes com mau modo, emquanto as suas rezas seguiam de cór, n’uma lenga-lenga afadigosa. Mas entre a realidade e os seus olhos, um vago de bruma interpunha-se, fazendo-lhe vêr as coisas n’uma perspectiva remotissima. A morte de Judith surgia-lhe indefinida como n’um pesadêlo, sem maguas d’aresta viva, sem biographia, nem vehementes saudades inconsolaveis, sem lagrimas mesmo, descorrelacionada, confusa, como phosphorencia do cerebro doente. Era uma impressão de coisa passada n’outros tempos, com outras pessoas, n’outros logares. De quando em quando, as _corbeilles_ em misulas nos vãos da casa de jantar, esfolhavam rosas silenciosamente, deixando folhas murchas irem cahindo n’um pranto humilde. E Arthur n’uma cadeira baixa considerava as pequeninas graças d’aquella doce amiga, como ella cortava as espinhas com os seus dentinhos brancos, vivacidades sedosas dos seus garços olhos que piscavam n’um fremito irrequieto, e todas as manhãs os seus bons dias chilreantes de trepadora. E apodrece para ahi n’esse desconforme cemiterio, calcada a pés juntos por coveiros ferozes e descarnados! Dez horas, onze horas, duas da manhã, tres, quatro...
Pôz-se a amassar gesso para a mascara, quando o viu plastico penetrou timidamente na camara e foi para o cadaver.
—Gostavas d’ella? perguntou o estudante n’um tom estupido. O esculptor fez com a cabeça que sim, e o outro ficou a vel-o applicar o gesso.
Sobre a colcha afogada em flôres, tochas á cabeceira, dormia ella vestida de noiva para os esponsaes da bemaventurança, o nariz afilando n’uma aresta fina como um gume. Cerrada com ancia, essa bocca dir-se-hia um sulco a buril. Quem teria coragem de viver sem ella n’este crapuloso e vil mundo, quem?
E como o esculptor comprimia certos pontos do rosto, os olhos, azas do nariz, as maçãs da face, todas as proeminencias e fossetas das feições, Albano n’uma ternura magoada, desviando-lhe o braço:
—Olha que isso faz doer, coitadinha!
Esta simples phrase fez que os olhares se encontrassem, medindo a horrivel desgraça; veio-lhes o mesmo brado d’aniquilação supplicante; e n’um choro de profundos soluços e grandes lagrimas que rolavam no branco setim da morta, abraçaram-se por cima do leito, e assim estiveram, por muito tempo, n’aquella postura. Uma das hospitaleiras, que tinha ido roendo pão e queijo que trouxera na mala, entre o livro de orações, unguentos, e um frasco com agua benta, foi para dizer baixinho alguma coisa ao estudante, que alheio a tudo nem a ouviu, e fez um gesto de hombros evasivo. Aquillo forçou a pobre mulher a ir ter com Arthur. Era uma anafada, minhota de fallas, mais velha que nova, com sua grande verruga no queixo. Pedia dinheiro para a agua de Labarraque. Arthur descollava a mascara de gesso ao tempo, e áquellas palavras os seus olhos cahiram sobre Judith, viram-lhe a face marbreada de roxo, tomando a expressão carrancuda d’uma mulher offendida. E teve os olhos longamente n’aquelle desmoronar. Por um canto dos beiços tufavam n’uma espuma viscosa, bolhas de gaz podre que punham ruidos de fervor. Já moscas se abatiam por dezenas no rebordo das palpebras e fendas do nariz, depondo larvas.
A irmã minhota de lado, desviando a outra que se pozera a dormitar:
—Já cheira.
Um calafrio alvorotou Arthur áquella horrivel palavra.
Só na parede, ao debil ondular das tochas, arfava a sombra deitada de Judith, n’uma tranquilla respiração, e dir-se-hia dormindo, tão placida, a virgem das rosas brancas!
Ainda hoje ouço dizer, que Arthur seria o mais extraordinario esculptor do seu tempo, se aquella morte subita o não desorienta no foco das suas grandes faculdades. Elle antes de tudo era uma cabeça fraca, que por uma indole singularmente recatada e hesitante, jámais ousara sasonar e polir as indomaveis paixões da sua alma. Como nos abandonados d’affectos desde o berço, aquelle primeiro amor de mulher alanceando-o no mais fogoso da edade, devia explosir por fórma a perturbar-lhe dentro o rythmo placido do coração e do cerebro.
O certo foi que mudou de residencia ao outro dia da morte de Judith, e Albano nunca mais o viu. Embalde o pobre careca o andou procurando por toda a banda, agora que tanto precisava d’aquelle grande irmão. Nunca mais o taberneiro do Bemformoso ouvira fallar d’elle, na _brasserie_ quasi estava esquecido; as ruas deixaram de o vêr. Á mingua de melhor coisa onde matar tempo, Albano decidiu-se a acabar o curso. E esses annos que foram passando, tornaram o esculptor n’um singular personagem. Morto o idolo que soubera inspirar-lhe culto absorvente, o amor d’elle deformou-se, ampliou-se, derivou por excessos que o frenesi tornava assustadores, ou transfigurava-o o talento em prodigos d’arte ás vezes, como é uso nas gentes d’_atelier_, que amam sempre materialisar as mais fortes emoções. Elle não via nem fallava a ninguem; tinha tomado amor á aguardente, morava n’um arrabalde distante, todo curvado d’espinha e envelhecendo o mais depressa possivel. Amigo Flores, que alfim desposara a grande Barbara, nunca vinha áquella thebaida; o gallego avaro aposentara nos bucolismos da aldeia natal—e assim Arthur vivia miseravelmente, sem companhias, sem trabalho, sem amigos, sem fato, com uma juba feroz e uma barba intractavel, atormentado por não sei que estranho calor no cerebro, e escutando as grandes coleras desordenadas do coração revolto. O primeiro anno corrido sobre a morte de Judith, fôra para elle um d’esses terremotos de caracter mal forjado contra as asperidões da vida, que ao menor abalo esbeiçam fendas, por onde se vêem estrebuchar fraquezas e escorrer restos de crenças, lucta de paixão, hesitação, saudade e loucura, que a educação plastica do artista ia moldando lentamente, desesperadamente, em lucidos pedaços d’estatuaria. Ao cabo d’alguns mezes, quando já iam embotando as irritabilidades mais lancinantes da dôr, por fadiga dos centros de sensação, muitos detalhes finos d’essa divina figura de creança, escapavam á memoria d’Arthur, empallideciam, ou vinham-lhe apenas como esforço de reminiscencia, nas más horas de desconforto. Sómente as grandes linhas dramaticas da sua morte, relevos scenicos, attitudes que ella tomava, detalhes de perfil, um modo de inclinar a cabeça, certos timbres da sua voz melodica que elle ouvia de noite, ainda agora estando tudo tranquillo, ficaram-lhe para sempre na ideia, vehementes e nitidos, por sympathia ao ramo d’arte que professava. Dez vezes ou doze, com deseguaes intervallos, começara n’um bloco ou outro a estatua da mesma mulher em diversas posturas, e outras tantas o cinzel desalentado lhe cahira das mãos em meio da obra, na pavorosa desconfiança de estar profanando o divino ideal preconcebido, com facturas de mediocre nobreza.
No casinholo inhospito em que morava, esses esboços de marmore faziam por baixo da pedra a desbastar ainda, assombrosas tentativas de evasão, resurreição, de gritar por soccorro, como visagens por traz de espessos veus, medonhos arremedos d’angustia, estorsões dentro da lava solida que os constrangia: e no supplicio d’aquella immobilidade viva querendo cuspir entulhos da bocca n’um grito dilacerante, romper com os seus membros o atoleiro que a envolvel-os se petrificava todo, communicando a atroz sensação d’um soffrimento alarmante, tão magistralmente lançados esses primeiros golpes de grande esculptor. Era assim que de informes pedregulhos, rompiam admiraveis trechos acabados e vivos; braços invocando os ceus de mãos descarnadas; cabeças radiando suavidades esquivas, de nariz palpitante e bocca em supplica, tocadas talvez na visão paradisiaca do fra _Angelico_; busto d’uma impossivel delicadeza, sempre cingidos em romeiras de monacal desenho, onde pequeninas mãos apertavam rosas, surprehendentes e brancas, com pétalas finas como papel...—e para baixo o infame bloco impassivel soterrava o resto, desconforme, anguloso, hostil, brutal, como o tronco adusto soterra e termina a dryade na floresta sagrada da antiguidade. Estas tentativas de sceptico iniciando prodigios de cinzel para o sarcasmo de os pôr de banda logo, indo de obra prima em obra prima como um eterno descontente, no proposito de enraivecer a posteridade que o buscasse acaso n’uma obra completa, tudo achando mesquinho e pobre, e sem pretender da vida algum dos seus miseraveis triumphos, gloria, fortuna, estimulos ou emulos, faziam ellas só, toda uma arte estrondosa e moderna, cheia de singularidades e grandezas é certo, mas assignalavam no artista desconfortos de gigante e amarguras de vencido. Uma estatua seguia outra, e outra; e todas a alturas differentes eram postas de banda com teimosia colerica. Dias inteiros, mezes inteiros, levava no meio d’aquelles destroços d’olympo novo, sem fallar, sem trabalhar, exasperado de virgindade, consumido na chamma funebre do alcool, fazendo medonhos esforços para a reconstruir toda na ideia e parando onde se não lembrava, com medo de perverter a sua adoração de escravo, magro, revoltado, quasi faminto, com rosetas escandentes na face morta, e a bocca n’um rictus tragico de cariatide. A sua poderosa estatura curvava-se para a terra lentamente, aqui e além já lhe nevavam cabellos, a aguardente poz-se a agitar-lhe na allucinação que o ia invadindo, frageis phantasmas exhumados do passado—e via-a, fallava com ella, sentia as suas desgraças, deslumbrava-se na sua belleza, tinha com ella longos colloquios. Gargalhava pelas ruas sósinho, argumentando comsigo mesmo em voz alta; o fato cahia-lhe de miseria aos pedaços, deixou d’usar camisa, as suas botas cambavam. N’esse embrutecer cruel comtudo, lucidos espaços riam d’onde a onde; então n’um convergir de ultimos esforços, volvia aos ensaios, aos seus esboços, começava e recomeçava, modificando, inutilisando, com a ancia d’um naufrago e o desespero emphatico d’um rebelde.
Viam-se no _atelier_ espalhados por duzias, como occupações d’esses curtos intervallos de razão, pares de mãos divinamente esculpidas, longos dedos, unhas de opala transparente, celestes delicadezas de toque, mas todos eguaes e como reproduzidos do mesmo modêlo raro. Ou copias sem numero d’uma mascara de gesso, soffredora e candida, que na parede, envolta em crepes, olhava pelo vazio das orbitas. Tal insistencia nos accessorios da mesma figura, exprimia o sentimento immutavel, mais remoto ou menos, da dôr. Era a arte d’um taciturno, immobilisando a imaginação do artista, mas crystallisando cada bocado em perfeições surprehendentes.
E Albano? Emfim como ultimo relampago, uma vez Arthur descobriu que acabara a estatua, ao fim de a haver começado doze vezes. Mas essa, que maravilha unica de genio! Desabrochava completa, estendendo os braços para invocar Deus, por um assombro d’equilibrio lançada na attitude de quem desprende vôos, desennovelando-se da base como uma labareda de sarça, em zig-zags aéreos. Esse phenomeno de estranha belleza, era ao mesmo tempo um prodigio d’audacia, palpitava, fallava, sentia-se soffrer e respirar como uma creatura.
Tinha uma simples roupa em longas pregas, a romeira cingida até á barba com austeridades claustraes, tranças meio enroladas ainda, soltando-se da nuca n’uma expressão espavorida e subitanea. E alli para um canto, acocorado por baixo d’uma juba de velho leão cahido, contemplou Arthur longamente a sua obra, com olhos extinctos onde pela derradeira vez passara um fogo subterraneo de cratera.
Pelas joelheiras laceradas, furavam os seus joelhos carcomidos, e a barba indomita de mendigo, espargia sobre os ossos do peito lugubres fios brancos, vestindo-lhe a nudez por uma especie de instinctivo pudor.
Ante o asceta miseravel, essa apparição de madona ascendia em escapadas de genio do seu pedestal floreteado, que representava um enorme bouquet das flores que Judith amara tanto. N’isto ouviu dizerem perto o nome d’ella.
Sem curiosidade voltou a cabeça, estava Albano ao pé d’elle devorando a estatua, maravilhado, attonito, imbecil.
—Ah, és tu, disse Arthur que se levantou n’um pulo, sem mostras d’alegria comtudo, vendo Albano correcto n’um vestuario de gentleman. Tens tabaco, por acaso?—Albano desviou a vista um momento, para procurar charutos nas algibeiras; então Arthur com um martello, fez a estatua em pedaços[1].
[1] São estes restos da mais assombrosa esculptura que tem visto o mundo, que soldados por agulhas de ferro, ornam hoje o tumulo de Judith, e mais todos os esboços, meias estatuas, fragmentos e ensaios, que por morte d’Arthur foram achados no _atelier_.
A INDIGESTÃO
N’um pequenino paiz do sol, batido dos ventos, riscado de brancas serranias e coberto de laranjeiras, celebridades e patuscas historias, governava um bom e gorducho rei, Menelau de nome, de estatura meã e ventre espherico, cheio de benevolas ociosidades para o seu povo, e senhor d’umas brancas mãos de prelado, que como actividade só sabiam deixar cahir por entre os dedos, as bellas moedas dos erarios publicos. Vinha el-rei Menelau d’uma ascendencia mui nobre e antiga, que nos brazões ostentava symbolos de todas as nobrezas em campos de mil côres, e nas suas veias conseguira fazer circular um precioso licôr feito com sangue de todas as dynastias da terra, desde as mais antigas até ás mais modernas. Este licôr branco como leite, tão nobre conseguira estillar-se pelas edades fóra, tinha uma composição extraordinaria de anemia, infecundidade, preguiça, tristeza e doçura. Por sua côr separava o rei dos fidalgos que o tinham azul aguado, e do povo que sempre o derramara escarlate, por obedecer a seu senhor. A côrte de que o rei se rodeava, era confeccionada com os mais puros nobres do reino, nomes historicos ouvidos em todas as partes do mundo, primos e credores uns dos outros, gente correcta de modos, desdenhosa pelas camadas ultimas, pouco atribulada em labores mentaes, e captando as reaes sympathias por um ramo qualquer d’instincto recreativo.
Havia por exemplo, os que sabiam perder ao bilhar com Sua Magestade encantada de lhes ter ganho sem esforço, os que traziam de fóra bons ditos e finas partidas galantes, os que atiravam aos pombos, os que walsavam, os que subtrahiam _brevas_ ás caixas sem arrombamento do charão onde o rei usava guardal-os, os que aguarellavam picantemente caricaturas dos inimigos politicos de Sua Magestade, os que lhe elogiavam os dotes e convenciam de grandeza, os que lhe escreviam discursos, compravam cavallos, dictavam o estylo das equipagens, faziam suave a vida vendando-lhe os descontentamentos da massa e truncando-lhe a leitura dos jornaes, quem por elle mandava, comia, tinha ideias, effervescencias, pratos de trufas em molhos sabios, comichões, contas nos estofadores e lojas de _bric-à-brac_, alegrias, clarões de vinho generoso, e babas gulosas nas bellas espaduas alabastrinas.
A bondade triste de Menelau permittia em volta nas camarilhas, desleixos de attitudes e palavras que ao povo, a distancia, se afiguravam rotulos das sardanapalicas do alcaçar, onde as cortezãs bebessem por calices sagrados, e pallidos arcebispos de mitra á zamparina, fossem aventurando _can-cans_ fadistas com lindas açafatas unctuosas de maneiras e causticantes de pedraria. O monarcha no entanto estiolava, alquebrado de conviver na turba-multa que ia quotidianamente pelos salões do paço, e nostalgico talvez dos aconchegos de familia pobre que não tinha. Não era para solavancos de politica cynica, o pobre rei de sangue dessorado, achaques parranas, e absolutas tendencias caseiras para um dominó de compadres. E a cada vez que via em lucta os partidos, disputando-se opiparas prebendas, negociando crachás e titulos, anichando os seus sacristas e ganymedes, vomitando infamias pela guela da imprensa, dissolvendo os costumes e preterindo os meritos, o gorducho Menelau enterrando a corôa de oiro até aos olhos e roendo na ponteira do sceptro, punha-se acabrunhado a gritar que não resistia, davam com elle de pantana, e era seu real desejo abdicar para se ir ás alcalinas de Cauterets. Embalde n’esses terriveis momentos de cobardia, eram chamados ao paço todos os chronistas e archeologos do reino, a citarem a Menelau uma quantidade d’expedientes e ditos de velhos reis seus antepassados, em analogos lances de governação tormentosa. E era muito para vêr, como tão veneraveis e poentos sabios se esfarinhavam em diligencias, para do pichel da historia vasarem no branco coração do rei, litros e litros do heroismo das primeiras dynastias.
Embalde os cornetins facundos das bandas marciaes vinham animal-o com offertas de marchas, hymnos e mazurkas de superfina trama; lidadores de toiros lhe consagravam sortes de ferros curtos e ricas pégas de cernelha; directoras de collegio lhe davam celebridade expondo nos armazens de modas, retratos seus a froco com olhos de contas amarellas; e doirados ministros escorreitos de pomada odorifera nas poupas, em saltitantes coplas lhe certificavam ás horas d’assignatura regia, que tudo marchava a trote no seu reinado, os subditos nadando em jubilo por vêl-o de saude mal-os meninos, a roda andando no dia seguinte, e essa noite um raio de pecita nova nos Buffos, onde os decotes das femeas nem tinham principio nem fim.
Alentos de tão jucunda prosperidade que pavoneavam em gloria o ministerio, deixavam frio a Menelau, sombrio e mais que nunca absorvido na estulta ideia de abdicar. O ministerio consternado recorreu então a expedientes febris, pôz-lhe bismas e sedenhos, deu-lhe injecções, fez desfilar paradas em grande uniforme, com sonidos de tambores e clarins, expediu-lhe em commissões os altos corpos dirigentes do espirito publico—as sciencias representadas n’um auctor de graxas impermeaveis, as artes repousando n’um grave brochador de frontarias, as litteraturas, as industrias, o clero... Mas nenhuma supplica commovia o rei Menelau, que só ambicionava ir comer a dotação n’um velho palacio campestre, bem longe, com tapadas onde bramissem veados, e á sombra de cujos arvoredos elle podesse concluir a sua fortaleza de miolo de figueira, tão gabada pelo plenipotenciario da Suissa.
* * * * *
Havia na côrte um poeta de longa coma de azeviche, fallado por seus trovares, e pelo qual uma a uma, todas as damas se perdiam. E encontrando Menelau a cozer moedas nos forros do manto, como salvaguarda em caso de desterro, assim lhe fallou:
—Que funda tristeza faz murchar para a terra como lirio ceifado, a fronte augusta de Vossa Magestade? Saudades acaso, de linda castellã que se foi com seu donzel no palafrem da aventura, mordida pelo aspide da ingratidão?
Considerou o rei no menestrel, e respondeu d’esta sorte:
—Ah, meu muito amado menestrel, que não sabes como doloroso é ser homem assim pequeno, e carregar aos hombros inda por cima, mais de quinhentos nomes de familia! Os povos comprehendemnos hoje menos, que os orientalistas os jerogliphos. Se passamos na rua, vassallo algum se prostra; os _maestrinos_ abocanham de musicas burlescas a dyspepsia que nos punge; e desde que se falla d’um rei, todo o mundo pergunta de qual naipe. Queres tu de trespasse o meu throno e dependencias? É dos mais pequenos e gloriosos do mundo, Deus lhe lançou a pedra fundamental. Como vês, não deita fumo nem cheiro, ha porta para a escada; o diabo é que oscilla como um dente velho. Mas descança, tenho a guarda aqui perto! Não imaginas como isto era, aqui ha oitocentos annos. Nobreza nem raça! Calcula o trabalho de meus antecessores em fabricar fidalguia de primeira qualidade, chegando a haver monarcha que n’esse intuito cavalheiro, legou aos reinos não menos de dezeseis e dezoito bastardos. Nos degraus d’esta machina, onde empoleirado dou beija-mão aos do meu sequito, ha nodoas de sangue d’um valor incalculavel, o que resta em documento de parricidios, fratricidios, filicidios e assassinatos de menor formato, todos os brilhantes feitos historicos das monarchias. Archeologos impertinentes vinham disfarçados ás vezes, raspar para dentro de saquiteis, estas sagradas particulas de crimes abençoados por Deus, para d’ellas fazerem venda aos colleccionadores. Razão por que revesti os degraus com este amor de alcatifa escarlate—d’um _chic_!... O rumor que se ouve não vem da ira popular, mas de ratos que me offerecem serenadas. Posteriormente fiz obras, forçado pela canalha, confesso. Abri janella para um saguão que chamam parlamento, e para despejos ha o barril do _Jornal official_. Levas isto por meia libra diaria, hein?
—Corôa e tudo, meu senhor?
—De certo, disse o rei Menelau. E com riso triste:
—É de latão, menestrel! A outra roubaram-m’a para pagar uns navios de guerra.
O poeta esteve scismando que responderia. E alto para comsigo, ia dizendo:
—No theatro das _Maravilhas_ vão dar revista d’apparato, com musica e bailados. A vêr se o empresario fica com estas chinezices por uns tostões...
—Já lhe tenho alugado em varias peças, o meu throno e soldados. Mas vomitam-me tudo de vinho!
—Estomagos vermelhos! disse o poeta. E fazendo uma pequena pausa, perguntou:
—Os generaes de Vossa Magestade... não sei como diga, sim... acham-se em estado de servir?
—Para commissões, grande tirocinio! Faltam rodisios nos mais gloriosos. Pintados porém, ficam em folha.
—E quantos mil soldados, mesmo assim?
—Quando me casei muitos. Mas o presumptivo é fogoso, tu sabes. Com a mania das pellas e a educação guerreira que leva em palacio, tem amolgado regimentos sobre regimentos. Eis por que o ministro da guerra vae chamar as reservas, e elevar o principe a coronel.
—Bem, bem, disse o poeta, vou-me de longada, a vêr se deparo ahi um adelo.
—Dar-te-hei como luvas, se o negocio fôr a meu talante, a grã-cruz dos _zoilos verdes_, valor, lealdade...
O poeta que já ia á porta derrancado nos salamaleques da etiqueta, avançou ás palavras do gordo Menelau.
—Inda mais grã-cruzes, senhor? Mas vejo-me todo pingado d’ellas, não ha ammoniaco já que as saponifique. Ambicionára antes de Vossa Magestade graça de menos vulto.
—Falla pois, disse o monarcha.
—Se Vossa Magestade editasse o meu livro de versos?...
—Que é versos?
—Queixas de intimo e amargo soffrer, volveu o menestrel rolando os olhos mortos, como nas declarações d’amor.
Se uma organisação eleita, como a minha ou a de Vossa Magestade, se surprehende algum dia envenenada por desgostos sem lenitivo, tão grandes que é pouco o mundo para os conter, desanda a versejar fatalmente. Pelo verso, meu senhor e rei, as maguas volatilisam-se da alma, como os perfumes das amphoras, e esvoaçam palpitantes em espiras de musica á região dos nevoeiros.
—Meu Deus, disse o rei. Que necessidade eu tinha de ser poeta! E para o menestrel:
—Fico por editor do livro, a tua ideia encanta-me! Mas como chamal-o?
O poeta ergueu n’um jubilo as duas mãos viscosas:
—_Folhas e Cascas_, meu senhor!
—Mas excellente!
—_Folhas_, em memoria dos vellinos com que Vossa Magestade collabora no volume, _Cascas_ em memoria do resto.