A cidade do vicio

Part 14

Chapter 143,790 wordsPublic domain

Judith conhecia a sorte das mulheres n’essas operas celebres; quasi todas morriam de amor, abandonadas, violadas, incomprehendidas. E por alegre que fosse o trecho tocado, na sua mente os vultos lendarios corriam de mãos em cruz e olhos vazios, evaporados do marmore romantico das sepulturas. Por outro lado, ella não podia passar sem ouvir o irmão, por uma hora ou duas. Distrahia-se ao menos assim, era como se fosse uma _soirée_. E deitada na marqueza com a nuca sobre as mãos, um papa abafando-lhe os pés, ficava assim muito tempo, muda, com o espirito longe, e immovel como adormecida. Para a contentar, Albano revolvia o reportorio classico, _gavotes_ de Lurli, poemas ingenuos de Gery, certas sonatas faceis de Beethoven, o Mendelssohn menos complicado, e esse menuete de Boccherini d’uma tessitura galanteadora e aerea, que diz a vida de salão no seculo dezoito, e ella nunca se cançava de ouvir. A musica amansava ao mesmo tempo o esculptor, regularisando-lhe as descargas dos nervos, mostrando-lhe os lados dôces e feminis da vida, dando o poema de cada impressão, de cada côr e cada sêr, sagrando tudo, as arvores antigas como deuses e altas como monumentos, as paixões nobres do homem, todos os infinitamente pequenos do amor e da bondade universal. E Judith sempre mais fraca que no dia anterior, com a exquisita melancolia virginal dos anjos doentes, olhos cheios de ceu, e a graça hysterica de um sangue pobre. Uma manhã não pôde erguer-se. Albano vestiu-a, tomou-a no collo como uma creança, e dôcemente veio sentar-se com ella ao pé da vidraça. Piscava os olhos vermelhos, tufados, com um _tic_ nervoso de palpebras, careca desolada, fingindo humor feliz, como se nada em casa houvesse de inspirar cuidados; e dizia muitas vezes—Bem bom! Bem bom! Mas a sua voz tremia com um degelo de lagrimas na guela; e deitada no hombro d’elle, Judith fitava-o com esses olhos inquisidores na fixidez d’uma ideia negra, constellados, profundos e crueis, de enferma que vem de lêr uma sentença na face do medico. O tempo arrefecia, iam nos ceus galopadas de nuvens, grandes chuveiros nos longes, dias pardos, as primeiras severidades luctuosas do outono.

Vortilhões de nevoa afogavam de manhã toda a paizagem de construcções esboçadas e bairros por terra, como esfumaçando dos tectos n’algum vasto incendio de cidadella. Essa fumarada crayonava nos seus ventres de monstro, escadas de Rembrandt d’uma profundeza insondavel, boqueirões que mastigavam com as suas maxillas tenebrosas, flammejantes linguas que vinham sobre os tectos lamber alguma presa estranha, membros destroncados que rolavam em explosões de minas pre-historicas.—E confundindo os cimos na formidavel confusão da abobada, iam-se franjando em rendas de tom alvacento, insculpiam trevos de ogiva barbara, columnellos, e escadarias com grandes mendigos encapuchados na sombra. A espaços, algum feixe de sol amarellentava essa betuminosa e lugubre architectura, campindo fundos d’apotheose murillana, nos truculentos ceus, onde o azul raro abria a sua elysea flôr de colorido.

No quintal de Arthur, os platanos choravam dos ramos, folhas doentias, na aggressão do vento—e desnudando os troncos dolorosos, dir-se-hiam esqueletos despegando dos membros farrapos de sudario ou de pelle. Uma regressão de seivas ia por jardins e alamedas, na melancolia torporosa dos primeiros frios. E ella ia-se devagarinho, quasi sem febre, o menor escarro de sangue, resvalando serenamente pelo mal como por um tapete de flôres. Apenas uma pequena tosse secca a fatigava muito, cavando-lhe as feições a duras enxadadas. Arthur vinha sempre, tendo agora com ella liberdades de irmão e velho amigo. Fallavam pouco.

Ella cansava, a voz ia-se-lhe sumindo como um fio de agua, nas profundezas do peito. E de mãos dadas olhavam-se os dois, n’uma quietação, como _babies_. Ás vezes, raras, ella sorria, os seus olhos ganhavam lucidez como condensando a vida toda d’esse corpo franzino, e ficavam assim. Viera a maldita insomnia, uma inquietação, zumbidos. E as noites eternas torturavam-na, sem uns pobres minutos ao menos, de repouso.

Albano e o esculptor repartiram então entre si o tempo de vela, porque a pobre mamã velha e doente, não tinha mais forças para noites perdidas. Atrozes, essas noites sem conto, gastas a procurar posição de repouso, e successivamente alagadas em suores debilitantes. Raras vezes a tosse lhe permittia dormitar momentos, voltava-se para um lado e para outro, pedia rumas de travesseiros para logo os repellir com fadiga—e uma oppressão no peito, um ralo interior, um dolorir de membros, que lhe faziam insupportaveis certas horas. Pela madrugada, em o ar indo a regelar, a tossinha redobrava, teimava, insistia por horas, horas, horas, até dar com ella para a banda sem accordo, asphyxiada e rôxa. Então sobrevinham terrores, desvairamentos, hesitações. Jesus, se estaria morta! E no silencio da casa, elles olhavam-se com desesperos mudos. Albano applicava sinapismos, punha-lhe aos labios aguas aromaticas com ether, auscultava-a por todos os lados, ou ia-lhe procurando as pulsações com os olhos sobre o relogio de segundos. Ainda não! Ella respira. E sorviam o ar com ruidos freneticos. Arthur ia logo accender sua lampada d’alcool para amornar um caldo. Ao largo a manhã bocejava n’um tedio nevoento e frigido; ruidos de carroças sacudindo ferragens, operarios que partiam, mugidos de vaccas e pregões vagos, punham em volta da pobre gente afflicta, vidas áparte, egoistas, explorando-se com raivas subterraneas, sem fazerem reparo n’aquella agonia de terceiro andar. Ao meio dia, em tempo de sol, se acaso a sentiam mais reanimada, e tinha mastigado o beef ou tomára bem a colher de Madeira, a mamã vestia-a com grandes precauções de flanellas, enrolavam-na em chailes para a sentar ao pé da janella, n’uma velha poltrona em coiro verde, da casa de jantar. Albano e Arthur disputavam-se o encargo de lhe pegarem ao collo, da alcova para a janella, da janella para a alcova, o que fazia sorrir a boquinha desbotada de Judith. Tomando-a nos braços, cada um d’elles nunca deixava de a sentir mais leve que no dia anterior, por mais que fizesse por se illudir. Albano trouxera um clinico celebre da Escóla, que por amor do estudante todos os dias vinha com o seu bom riso d’esperança, resuscitar a enferma, que aljofrava no riso pallido a mais admiravel resignação. Se alguma coisa parecia dar-lhe pena, era que se affligissem tanto por ella. Agradecia em effusões excessivas o menor serviço que lhe rendiam, tudo achando bom, e sempre a dizer que não precisava de coisa alguma. Pequenas vaidades comtudo, ainda vinham como ephemeras margaritas, á flôr d’essa existencia de sylpho que se evaporava, gotta agora, gotta logo, imperceptivelmente, como um perfume raro. Sempre fôra um dos requintes penetrantes da sua preoccupação feminina, ter mãos de rainha ou de santa, com unhas esmaltadas de opala. E mirando agora a transparencia dos seus dedinhos mirrados, com vagos tons d’azul na raiz das unhas, o momo do labio maguava-se todo. Espiralitas rebeldes soltas da coifa, vinham de manhã nimbar-lhe em oiro o marfim da testa. E torcendo-as contra a luz, ella deixava vêr lenitivos de momento, e como um secreto orgulho na face murcha de soffrer. Mas cada vez perdia mais o gosto das côres claras, branco, côr de rosa, violeta pallido, fazendo na escolha dos vestidos severidades de viuva e de velha. A vista d’um chapeu, d’uma visite, qualquer vestuario de sahir, atravessavam-na de melancolias lividas—começava talvez dentro d’ella a horrivel saudade da vida alegre, luminosa, cheia de replicas e luvas frescas, das raparigas sadias e casadoiras, receios indefinidos de nunca mais vir á janella por seu pé, e essa nostalgia insondavel dos que vão morrer na flôr dos annos, nostalgia das velhas affeições queridas, do bom sol de inverno, das grandes arvores seculares, da mocidade dos outros, do amor, das aguas que se espelham, gorgeios de creanças, e da terra inteira e vigorosa—que embrutece a dôr, e Deus sabe se vae impulsionar com desesperos sinistros a chimica tragica das sepulturas. Por ventura a ideia de morrer lhe tinha acudido n’aquellas desfallencias de noites brancas, em que esphacelada de tosse, ella mesma se illudia, assim imaginando afugentar a morte. Tanto que dizia sempre estar melhor, fallava em residir uns dias na quinta dos Fonsecas, em mudando o tempo. Só d’uma vez, contando-lhe Arthur como se desempenhára das missas na capella defronte, por intenção d’ella, como estivesse esse dia peior, lhe ouviram ambiguamente dizer com uma voz abafada e tremula:

—Tem de ser, paciencia!

Os seus olhos tornavam-se enormes, inquietos, quasi ardentes, perscrutando as faces e gestos de todos. Recrudesciam-lhe cuidados pelos outros, a mamã que não comia, Albano que não socegava de noite, o Arthur sempre concentrado; depois eram as gavetas todas desarrumadas talvez, roupa que se ia accumulando de semanas, e ella a não poder costurar, Jesus! o irmão com falta de camizas engommadas. Mas ia levantar-se, andar, ter forças um d’estes dias, não era verdade? Já não deixava a cama, e nem suster podia a pobre cabecita de passaro. Voltavam-lhe fervores de monja por toda a côrte dos ceus, paixões da musica séria, grave, triste, que permuta confidencias de sêr para sêr, e em cuja secreta essencia a alma se banha, para despertar em mundos translucidos de reminiscencias divinas e indefinidas imagens, resolver a dôr pelas lagrimas, e impôr os grandes sacrificios na vida, sem rebellião nem blasphemia. N’este irresoluto spasmo de espirito bruxoleante, ella ia d’um a outro bocado sem coherencia nem logica, querendo apenas pela vibração, traduzido o estranho cosmos interior, que instantaneamente lhe chegava e instantaneamente partia. Embalde o estudante lhe evitava os dolorosos, os convulsivos, os doentios, os sem esperança—Chopin que parece ter escripto sob o inferno d’uma chaga por todo o corpo, excruciado em torturas freneticas; Massenet o poeta das emoções indefiniveis; Beethoven mysterioso como o mar, terrivel e dôce como elle; e os outros, Gounod, Berlioz, Widor, Schumann... Mas eram esses que ella pedia a toda a hora, estendida no seu leito de cassas immaculadas, entre rosas que esfolhavam meio comidas por esses vagarosos dentinhos, mãos em cruz como certas estatuas de mausoleu, o espirito errante. Ao anoitecer punham a lamparina longe, a um canto da alcova, uma penumbra morna ondulava tufando impalpaveis fórmas de mil coisas evocadas; e era quando Judith gostava mais de ouvir o irmão.

Na dubia e calma atmosphera, a musica equiparava todos esses organismos, polarisando-lhes a emoção n’uma mesma corrente de gostos e affinidade de devaneios. Aos gestos d’esse arco requintado, debandavam os allegros como pombas que vindo beber n’uma urna tumular de creança, partissem levando no bico ultimas lagrimas de mãe n’ella choradas. Esboçavam os scherzos fugacidades de cherubins em marcha do ceu á terra, n’uma grande espira biblica, com stalactites d’iris e revoadas d’espiritos santos, entre os threnos das cytharas e chuveiros de rosas mysticas. Por intervallos, suspensões faziam a alma indecisa recuar, reflectir, sacudir as plumas, tomar folego. E em meio da longinqua harmonia quebradiça, serena, carinhosa, supplicante, retinia subitamente um grito. Então os prestos desemboscavam-se, sahiam d’agua para algum sabbat n’uma flecha de lua, faziam-se e desfaziam-se, perseguindo-se, beijando-se, voando em pares por baixo das folhagens multiplas de arecas e nogaes perfumosos, vergando aos circulos como nos corpos de baile, pousando em grupos dissolventes, balanceando-se em grinaldas de flôres por cima dos murmurios da agua, ou ficando a rezar o motivo baixinho.

—Meu Deus, Judith, tu dormes, minha filha?

—Não, mamã, estava a pensar, vês tu, que é tão bom viver!

Albano nada dizia com medo de se ouvir; Arthur tinha receios de perguntar. Depois, era evidente. Começava a romagem dos tisicos n’essas frias manhãs côr de teia d’aranha e folhas mortas, em que a cidade vae pagando ao cemiterio o seu tributo de cem virgens. Na face de Judith, dos malares ao queixo, um claro-escuro projectado na pallidez fazia-lhe a _masque_ rigida e severa.

Para mais, tudo acabrunhava o pesadêlo funebre; dir-se-hia ganharem as coisas de roda, physionomias crueis e implacaveis caracteres. Qualquer agouro caseiro de que Albano sempre se rira, deixava-o pensativo ás vezes, realisado agora. Alta noite, a calada do predio apavorava pela glacial enormidade, fazendo um enorme rir de caraça, baixo, vazio, sardonico; a pendula da casa de jantar irritava-lhe os nervos; lentos chuveiros iam rolando na terra negra, como prantos por vestidos de lucto; e nos descampados da Avenida, os uivos lamentosos dos cães noctambulos, pediam á cidade arquejante no seu somno de vicio, como pobres jaus, esmolas de corpos para matar a fome aos cemiterios. Aggressões em tudo. Se Judith passava pelo somno, os relogios davam horas muito alto, para ella despertar. Estalava o sobrado, quando punham mil precauções em pisal-o. Repetidas _soirées_ com piano e canto até de manhã, na visinhança; gatos cabriolando n’um esbanjamento de prazer, por essas casas; e a mamã apavorada, bradando no meio d’um sonho tenebroso—Jesus, minha filha morreu!

Por vezes tudo parecia um pesadêlo transitorio. Ella podia lá morrer! Morre-se lá com dezeseis annos! A natureza tem necessidade de corrigir por estes modêlos de innocencia e intangivel doçura como Judith, maus rebentos que produz e cadeias de monstros que deixa propagar, sem piedade nem consciencia. E argumentos dos livros. Os organismos novos arrancam dos proprios seios extraordinarias forças de reacção, com que se defendem dos males que os assaltam, até os deixar varados no campo.

Coisa alguma nasce sem um destino e um fim, Arthur, pois não é verdade? Vem ao mundo a mulher para mãe. Logo, Judith não podia morrer ainda. De repente cahiam em si desconhecendo-se, a si mesmos perguntando desde que tempo podera amassar-se-lhes dentro tanta fragilidade, tanta estupidez incoherente, tanta miseria. Cada um d’elles a occultas do outro, punha a sorte de Judith em loteria.

—Se emquanto fôr por esta rua, nenhum cão ladrar, ella melhorará, dizia Arthur apressando o passo, n’um terror de ouvir signal desfavoravel. E se effectivamente ladravam, enraivecido, fazendo um gesto violento:

—Não vale! Não vale! dizia elle transtornado.

A voz de Judith baixava sempre, baixava, cahia o pulso, a tosse era mal um suspiro.

—Por estes dias... dissera o velho pratico, e Albano tinha entrado a rir lugubremente.

—Ora adeus! Póde lá ser! Por estes dias!

Estava essa vez a manhã mais deliciosa, picada de friositos confortantes, nem a primeira nuvem, toda a cidade fumava, e flechas de sol embutiam jerogliphos n’um vehemente ceu d’Andaluzia, e grande rumor de pregões, como houvera peixe...

Não, elles não consentiriam que a sua pobre amiguinha fosse para os covões da fria terra molhada, dura, surda, que rangia as mandibulas na escuridão, e se enroscava corroendo tudo, apodrecendo tudo, substituindo tudo, e d’envolta remexendo no mesmo cadinho d’alchimia torva, velhos ninhos e cadaveres, cabellos loiros e folhas seccas, ultimos risos e virginaes capellas.

Buscavam excitar-se, reanimar reciprocamente as masculas energias decahidas, com dizeres de que não criam uma só palavra. Ante a impotencia nos meios de reagir, vinham-lhes cobardias, transigencias graduaes em materia de fé, vacillações atrozes. Deus atravessava ás vezes essas cabeças desnorteadas, n’um fundo de nevoa sebastianica, carrancudo, com o sarcasmo feroz d’um tyranno que se vinga de o não terem acreditado em começo.

Elles n’uma vil duvida, tendo nos ouvidos a prophecia do clinico, _por estes dias, por estes dias, por estes dias_! contavam as horas que só restavam talvez, perguntando quando seria, appellando para alguem que tudo podesse, fosse quem fosse, Deus ou o demonio. E renegavam dos seus grandes principios d’outr’ora, hesitantes, será, não será? entreolhando-se n’uma d’essas angustias verdenegras, cobardes, mesquinhas, despreziveis, inevitaveis, humanas, que são a bilis do coração, profundamente amargas. Quando foi meio dia, por uma temperatura a mais amoravel, com abelhas zumbindo nas escapadas de sol, borboletas que arfavam, carruagens descendo dos bairros aristocraticos para a cidade commercial, raparigas que punham os ultimos _pompadours_ claros, todo o mundo que se desentorpecia passeando, respirando, cantando, pareceu Judith sensivelmente melhor. Os seus olhos fizeram-se docemente humidos, sem esbrazeamentos de febre; nem uma suffocação de tosse; a voz mesmo subiu um pouco; e coisa que não fôra vista em toda aquella semana, teve um riso quasi feliz. Vinha o sol alegremente pela alcova, festival e fulvo; ella mirava as suas mãos diaphanas com enlevos de _baby_. Albano deu-lhe a colher de Madeira, uma grande pilula de carne, e tintas menos baças pareceram reflorir-lhe por transparencia na pelle. Aquillo deu vislumbres de esperança ao esculptor, que lhe poz junto dos labios, muito jovial, uma bella rosa branca, por milagre obtida já n’aquelle tempo, ultima talvez do anno. Porque nunca se veio a saber como o pobre rapaz tinha artes de arranjar o seu pequeno ramo todas as manhãs.

Passava de seis dias que Judith parecia haver esquecido as flôres, de entorpecida na mollidão da febre, por fórma que havia rosas por toda a parte, nos grandes jarrões do aparador, vergando por cachos no centro de mesa, ou murchas em cabazinhos por todos os cantos. Erravam assim no ambito perfumes fanados de egreja, recolhimentos de penitencia, e halitos tepidos d’oração.

Arthur veio encontrar Albano, que subira ao sotão para trazer a rabeca.

—Mas que vem a ser isto? dizia elle alvoroçado. Melhorou tanto!—E abraçava todo feliz o companheiro. Albano poz n’elle os olhos mortos, não fez senão dizer bem bom! umas poucas de vezes, e viram-se-lhe as lagrimas correndo a quatro e quatro.

—Estás agora piegas, tornou o esculptor cuidando que eram d’alegria. E desceram. Judith tinha querido vestir-se, mas fallava com os dentes cerrados e muito pouco, riso immovel, rolando os olhos n’um vagar quasi dramatico. Albano achou-lhe o pulso regularissimo; conservava-o entre os dedos contando, trinta e uma, trinta e duas, trinta e tres... Subitamente o grande silencio d’um relogio que pára. Judith sorria para todos. Como o irmão estava á cabeceira do leito, teve de virar a cabeça um quasi nada, e ainda o viu todo tremulo, encostado á parede. Mas o pulso recomeçára, trinta e quatro, trinta e cinco... E tão contente, a pobre velha mamã! Fôra Nossa Senhora da Penha, e mais o santo tal, e uma grande esmola que ella tinha deitado ás almas de S. Domingos. Quando estiveres melhor, querida filhinha, iremos aos Fonsecas n’um dia assim como este, em carruagem fechada.—Ia dizer surrateiramente ao ouvido de Albano, no vão da janella: parece-me que ella tem as pontas dos dedinhos frias. Se fechassemos as vidraças? Vae tu vêr.—E para Judith, carinhosamente: muda-se de vida, mal te ponhas boa, deixa isso cá por minha conta. Esse habito de não comeres ás horas, não dormires com medo de tudo, e nunca dares um passo fóra de casa, não póde ser salutar a ninguem, o doutor m’o disse: muito menos a ti que és tão debil, querida filhinha. Bem t’o recommendava eu; nunca querias attender, cabecita ôca!—Mil planos então successivamente, se retalhavam e abatiam na loquela feliz da pobre velhota, mudarem de casa, mandar fazer uma grande pelliça a Judith para o inverno proximo, e noites de theatro, e passeios, e tudo. Sorriam todos, Albano por comprazer dos mais, ceu e terra deslumbrados na fulva magnificencia do astro. Aos platanos d’Arthur, tinham subitamente voltado passaros chilreando n’esse ephemero bom tempo; repicavam sinos por todos os campanarios da cidade; salvas no largo azul-myosothis do rio, predios que embandeiravam içando pau de fileira, musicas dispersas de regimento, uma doce alegria de pombas voando de caramanchel em caramanchel e beira em beira. Vendo Judith tranquillamente na velha marqueza, mirando as suas mãos exangues, um pouco cheia de cara, e como preludiando convalescença proxima, Arthur mesmo sentia-se reconfortado, após tanta noite de maceração e vigilia. E dizendo que já vinha, foi a casa vêr se descançava um pouco. A mudez que Judith conservára, tinha-se rompido áquellas palavras. E dissera:

—Não se demore, n’uma voz que impressionou profundamente o esculptor, timbres de cabra, como se a emitisse o phonographo, e tão espaçada que dir-se-hia não lhe irem occorrendo logo as palavras.

—Ha-de ser fraqueza, disse Arthur, querendo por força que ella estivesse melhor.

Pela tarde, mais de quatro horas, estava elle no _atelier_, á espera que amigo Flores chegasse de casa do Albano, onde o mandára saber de Judith, quando o _ártista_ appareceu.

—Então como está? disse o pobre rapaz muito pallido.

Amigo Flores sacudiu a juba onde fios brancos corriam, e respondeu:

—Já boa. Escusado ter lá ido. E a escada que é alta!...

O outro não entendeu, repetiu-lhe:

—Hein? Melhor?

—Já boa!

—Vossê manga comigo? gritou-lhe Arthur com violencia desmedida.

—Não rebata as minhas asserções. Morreu!

Arthur deu um rugido de leão espingardeado, atirou-se a elle com furias de doido, e pelos hombros derribou-o sobre um grande gesso do _atelier_.

—Morta, que? Morta? dizia elle a tremer, com o outro debaixo do joelho, as mãos crispadas errando, e um riso horrivel na bocca. Morta? Este canalha!...

Ia alcançal-o pelas guelas com a cabeça perdida de dôr, mas presentindo o lance, amigo Flores furtou-lhe o corpo de repente, e Arthur cahiu de bruços, desamparado, como se fôra morto.

—Diabo, diabo! fez o jacobino attonito. Fui-lhe rebater as asserções, era a pequena. Hum! Indole molle; pouco dará.

Quando sem chapeu n’essa noite, envelhecido e lugubre, Arthur veio para modelar o rosto e mãos de Judith, encontrou Albano assentado na cama onde a irmã estava morta. Ao lado, espedaçado n’um impeto de colera, via-se o Stradivarius que o pobre careca vibrava tão bem, sendo ella viva.

Elles viram-se e não trocaram palavra, minados por esse febril e medonho tedio, que vem na ultima noite aos enforcados. O egoismo sereno das fórmas em roda, infiltrava-lhes desprezos áridos por tudo, uma quisilia de vingança contra a cidade, d’ella não vestir o lucto que os imbecilisava a ambos.

A pancada do relogio na casa do jantar era tão nitida, tão viva, tão insupportavel, que Arthur desconcertado fez parar a pendula. Assim as horas iam sem elles saber, e aquella ultima noite foi tres vezes mais pequena. Sómente a bocados, do fundo da Estrella, vinha em dobres arquejantes aquelle tragico sino que fôra o pavor de Judith pela alta noite, no inverno, quando o rir dos ventos cortava a solidão de imprecações, e muito embrulhada no velho capote d’Albano, ella se ia anichar ao pé da mamã, rolando para todos os lados os seus bonitos olhos assustadiços. E esse velho phantasma agora lamentava-a como de longe, um gigante amoroso, encarcerado n’uma velha torre de menagem. Não sei que arzinho escapado por fendas, punha ondulações nas cortinas. Por cima dos moveis, na mesa do centro, ou esmagadas sobre as costas das cadeiras, peças de roupa abandonavam-se em attitudes vazias, enrodilhavam-se, cahiam, remexidas dos bahús por mãos convulsas, trazidas ao acaso sem luz, postas de parte, atiradas com desespero, e por fim esquecidas na ultima _toilette_ de Judith. Um cangalheiro gordo, com a andaina preta esfiada de miseria, cabello em escova bordando cimalha por cima d’uma testa baixa, toda polida de gordura, viera tomar medidas para o caixão. Albano sem saber o que fazia, tinha empurrado o homem brutalmente, que se fosse embora quando não matava-o, e a gritar que não queria a sua irmã pisada, quando lhe deitassem a terra por cima da cova.