Part 13
—Sim, fez com uma affectação de indifferença o estudante; mas ha já tempos, tanto que nos acostumámos. O vaidoso persuadiu-se uma occasião que era el-rei D. Diniz, e ateimava que era, e partia tudo apesar de o acreditarmos; d’uma vez lá em casa, teve uma furia que ia estrangulando as mulherzinhas. De então para cá, essas convicções teem descido com o hospital. Agora imaginando-se milho, foge das gallinhas para não ser tragado. Mas cuido que as metempsicoses não param aqui, porque se declara amphora de vidro, chá preto, uma infinidade de coisas, conforme as luas. Ora não me chamarás orgulhoso, ouvindo da minha propria bocca que sou o filho mais bem conformado de meus paes. Olha bem p’ra mim, tens por amigo um velho de nascença. Quanto a minha irmã...—Arthur pozera-se pallido, e por seu lado Albano mirava cuidadosamente o esplendido ramo de rosas.
—Essa tem saude, ao menos, aventurou o esculptor.
—Saude! Terá; o certo é que fazemos prodigios todas as manhãs, para ella tomar uma chicara de leite e dois biscoitos. Porque nunca tem vontade de comer, nunca!—Mas logo, mas ao jantar, mas eu não posso, mas se me faz mal; um desespero, homem! A outra mulherzinha chora, e eu alli feito carrasco, para ella ter medo e almoçar. Hein? Se elles me vissem a metter pedacinhos de biscoito pelo bico do canario a dentro...
—Que ha de a gente fazer, disse Arthur.
—Sim, tornou Albano, toma-se amor a estas bagatellas, por mais que se não queira. A Judith, tu não imaginas, pesa tanto como uma penna. Depois seccuras sempre, noites de ficar anichada n’um capote meu, ao pé da mãe, com medos de tudo. E allucinações então, não se falla. Enfia altas horas pelo quarto da outra, por um estalo que ouviu no sobrado, os olhos do gato ás escuras, qualquer badalada na Estrella; precocidades, umas melancolias que eu nem sei... São os paes conspirando no sangue para darem com ella na cova, como acabaram com os outros!
E ahi está no que dão allianças degeneradas. Aquillo vae-se definhando, definhando, e verás que me morre um dia, ámanhã, sei lá, quando mal me descuide...
—Diabo, disse Arthur fazendo ares joviaes para lhe afastar os maus sonhos, estás lugubre como um cangalheiro. Sabes lá que vae succeder, sabes lá nada! Ora fallemos d’esse ramo de rosas que evitas como um escolho de palestra, e eu persisto em não largar. Desde que nos encontrámos, te fiz saber que não passaria sem uma grande rosa branca esta noite. Tens cinco minutos, vá!
—Ah, sim, as rosas, tornou o estudante. Aquillo é antes um insecto que uma rapariga, não queres saber? Vive de rosas.
—Todas as raparigas vivem de flôres, mais ou menos.
—Effeitos poeticos no caso! Com a differença que a Judith mastiga n’ellas, engole-as, suga-as com um deleite inexprimivel. É mesmo o unico prato para que não perdeu o appetite. Isto de pequenina; mas o vicio tem ido a crescer. Talvez lhe evitem hemoptyses, por isso lh’as deixo comer: tudo tem as suas compensações. Desde que está nubente, nos periodos criticos, sabes, certos dias de raleira, ou em tendo febre, aquillo torna-se n’uma sofreguidão feroz, uma voluptuosidade de larva horticola, e põe-se a devorar cabazes de rosas como uma esfomeada. Em casa fazemos provisões, deves ter notado. Por exemplo, nunca ficamos sem ellas de noite. É como quem sustenta um passaro. Mas custa caro esse luxo excentrico. Por vezes o mercado está exhausto. Immediações de bailes ricos, ou vesperas de dia santo, pedem um dinheirão por meia duzia de flôres fanadas. Então a mãe vem dizer-me: se fosses vêr os Fonsecas, eram velhos amigos de teu pae, inda assim não estejam doentes...
E ahi venho em peregrinagem á quinta do meu amigo do seculo passado, aturar-lhe as manias, ouvil-o sobre porcelanas, familia rosa, familia verde, as cinco côres de Ming, e revestiduras _craquelées_, e as cascas d’ovo, e _potiches_ du Barry, e um labyrintho de classificações, de fôrmas extravagantes, de fabricas, de seculos e biographias de fabricantes celebres, de fazerem bocejar o mais authentico christão. Então pergunto pelas collecções de roseiras, fallo do tempo que faz, finjo interessar-me todo em coisas de jardim, aterro-me das bichas-cadellas comerem os pobres botõesinhos novos, digo especies ao acaso...—E a Judithzinha, quer saber a velha Fonseca, inda gosta muito de rosas?—Oh, sempre!—Fonseca, o teu braço, diz a boa matrona. Ouves? Inda gosta muito, pobre menina! Vá, mandemos-lhe um bom ramo, que fazem as rosas n’essas roseiras?—E os dois adeante, ajoujados como quando eram novos, borboleteando pelas ruas da quinta, parando em frente das roseiras mais raras, colhem, colhem.—Se eu tivesse uma filha! medita em voz alta a velha n’um suspiro esteril, e o Fonseca todo risonho vae-lhe dizendo que aguarde, tudo póde ser... Ella tem o seu riso doloroso de senhora só, e pondo-lhe no hombro, coquettemente ainda, a touquinha branca, muito florida de laços roxos, diz-lhe n’uma censura amigavel:—Promessas sempre tu tiveste. Mas só promessas, grande mau!—E trago de lá um soberbo braçado de rosas frescas, com muitos beijos e muitos recados para as mulherzinhas, chova ou vente, seja inverno ou seja verão. Que diabo, não te rirás, mas fico contente comigo, parece que ganhei o meu dia. A gente tem pieguices tambem, uma ou outra vez. Judith terá hoje uma bella ceia. Bem bom! Judith vae regalar-se por dois dias com as melhores rosas de Portugal. Até me ponho somitego, todas as rosas me parecem poucas para ella.—E pondo-lhe o ramo deante: vá, corta a tua rosa branca, a Judith é mesmo uma perdição que tem pelas brancas. Eu até faço experiencias. Quando ella fica uns dias sem rosas, appareço-lhe com uma no casaco, casualidade, assim como não tendo feito reparo. Nos primeiros momentos desvia os olhos, conversamos, vou-me demorando, porque assim, porque assado, e vejo-a erguel-os de repente sobre a flôr, scintillantes de gula; ora experimenta um dia! A palestra vae sobre mil coisas pueris, e ella agitada já, a não estar dois segundos no mesmo ponto, a piscar as palpebras com os primeiros symptomas d’uma fascinação quasi toxica. Quer então abalar desgostada, sabendo que estou alli para a vêr debater-se nos seus nervos, mas a rosa é mais forte que ella, muito mais, muito mais. E vem tocal-a com piparotes amaveis, vae, vem, anda á roda de mim borboleteando, a fingir que está bem, e a rosa lhe não deu mau olhado. Repara-lhe nos olhos, de coisas medonhas que dizem, voracidades, furias, todos irritados de fluido, lampejantes, dando punhaladas na flôr! Mas a rosa vence-a, pobre Judith, vence-a de todo, e vem tirar-m’a da casa subtilmente, põe-se a cortar-lhe as petalas ás dentadinhas: está prompta! Depois o paladar mais scientifico, um sentimento da equivalencia sensorial nos varios sentidos... Dás-lhe uma rosa ás escuras, ella mastiga-a, e diz-te logo a côr que era, o grupo que a flôr marcava n’alguma grande familia, tudo. Mas morre, verás, aquillo morre. Fortunas minhas! Nem de rosas se póde viver, que eu saiba.
Enfim, disse elle estendendo o ramo para Arthur, tira lá uma, tira.
—Não, fez o esculptor bruscamente.
—És tolo, gritou Albano, corta essa tal rosa branca, vão muitas aqui para a ceia d’ella.
—Palavra que não quero, insistiu Arthur. Era graça, gosto lá de flôres!
Albano teve um riso nos cantos da bocca, disse bem bom! bem bom! no entono de quem fica rosnando, e foram subindo a Alegria caminho de casa.
O esculptor marchava distrahido, um pouco atraz do companheiro, mãos nos bolsos, cachimbo apagado, absorto n’aquella doentia singularidade de Judith comer rosas, tão extraordinaria, ligeira, graciosa e poetica, que dirieis um episodio de lenda mystica, pintado por algum veneziano da edade gothica, em fundo de oiro byzantino.
Pela mente do artista alava-se essa vaporosa e singular creança, como o colibri mais ligeiro e a borboleta mais velludosa, na metamorphose do insecto que espaneja pedrarias das azas, e no perfume dos calices orvalha a bocca em sede.
Sob a algidez d’um raio de lua, vel-a-hia volitar de cabellos esmanchados pelos rosaes do paraiso, entre flocos de neve, levada no rythmo das walsas do _Freyschutz_, toda pallida n’um sudario luminoso, e com a belleza morta d’essa Mathilde que o Dante evoca trazendo flôres no regaço, dolorosa e vaga, nos tercetos do _Purgatorio_. Adejaria entre rosas, pousando os labios na viva caricia d’esses corações vegetaes, toda banhada n’um rosicler de pureza infinita. E a cada passo, bemfazejas e candidas, ondulariam flôres em saudações amorosas, supplicando a esmola d’ella as colher na passagem.
Junquilhos haviam talvez bordar-lhe grinaldas de noivado, na fimbria austera da tunica; lilazes e jasmins de neve viriam pelos seus cabellos rolar, na audacia de lhe sorverem os celestes perfumes; lirios brancos e palmas lhe brotariam do peito immaculado; humildes floritas viriam adoral-a á flôr das relvas, para morrer sob os seus pés, depois de lhe haverem beijado as frias mãos d’estatuela, admiraveis e brancas.
E esquecendo as mais flôres, sempre preferindo as rosas, indo por entre ellas n’uma via lactea de perfumes, e colhendo-as com dolencias musicas de gestos, para encher regaçadas, coroar a fronte, ou debical-as uma a uma, com a sua graça d’insecto, Judith iria atravez os interminaveis jardins da bemaventurança, serenamente, ligeiramente, transfigurada n’uma expressão divina de repouso, plastica e impalpavel a um tempo, no manso vôo espiritualisado e extatico d’uma Assumpção do Veronezo, sempre, sempre...
* * * * *
Entanto chegavam á porta do Albano, que disse ao esculptor para subir. Mas passava de nove horas, Arthur vinha um pouco fatigado, e separaram-se. Seguia o esculptor caminho de casa n’uma prostração doentia, cabisbaixo e lento, quando ao voltar da rua esbarrondou com um par amoroso, que ao rez das paredes, buscando o auxilio immoral das sombras, velejava cochichando no melhor aconchego.
Casualmente Arthur voltara-se, e pôde vêr uma grande dona de saias bufantes, em passo de carga, dando o braço a um louva-a-Deus de grenha espessa.
—Eh Flores! fez elle sobre o par que se ia escamugindo já por uma travessinha mais aphrodisiaca. Eh Flores!—E como o par fazia não ouvir, e Arthur necessitava de fallar ao _ártista_, foi-lhe na esteira com grandes brados—Eh Flores! Eh Flores!
Monteado por tão insolita maneira o jacobino fez alto, poz a dona n’um recanto, e veio parlamentar com o perseguidor, bastante mal humorado.
—Diabo, diabo! Que systema pessimo rebater as asserções d’um homem que vae espairecendo com sua dama um bocado. Que me quer vossê a estas horas?
—Quem vem a ser aquella nau?
—Que? Nau! Aquella é a grande Barbara de Loures, que vendo-se adorada por um homem das classes superiores, não pôde resistir-lhe.
E baixando a voz n’uma lascivia desordenada e surda: de encher a cama, c’um raio! Em eu as vendo de barba, hum! já sei—com’as castanhas, muito boas e muito quentes. Diz que só _ajuntando-se_... Mas ando a vêr se a atraco pela politica. Que a gaja é uma republicana escamadissima. Para embrulhos não quer senão o _Facho_. Ai, mas que carninhas!
—Pois é matriculal-a, disse Arthur.
—Hein? fez amigo Flores espinoteando, como beliscado no posterior das zonas medias.
—N’um club jacobino, está visto.
—Ando a pensar em servir-me d’ella para tornar os mercados republicanos. Isto, passada a lua de mel! fez elle com grande ostentação. Olhe que se angariam n’aquella Praça magnificos correligionarios, gente destemida, malta de pulso, arruaceiros! Entre as mulheres sobretudo. Porque as mulheres são uma força desaproveitada, já ousei dizel-o no famoso comicio de 24! Ellas muito serviçaes, muito sinceras! e nas _bernardas_, olhe que não sei! Em summa, Alcantara com dois ou tres clubs de femeaço, dá brado. Se tal metto em cabeça á grande Barbara, ella por um lado, eu por outro, e não dou á caranguejola do throno um mez para se mandar mudar. Que eu tive já esta ideia para creadas de servir. Mas vossê sabe, a municipal incute-lhes respeito ás instituições. Emquanto estiver a guarda, podemos contar que a creada de servir é pela monarchia.—E circumvagando olhares desconfiados, poz-se mysteriosamente a dizer que o não largavam, malandros! não era senhor de fazer um passo na rua.
—Mas quem? perguntou Arthur.
—A policia, homem! Como lhes faço medo, mandam-me guardar á vista. Erros do paço. Pois vou-me. Não sabem elles que a obra da revolução é fatal como a das tempestades. Até sempre. Marcha-se porque se marcha; é boa essa!
—Espere cá, espere cá, disse Arthur que não tinha podido sustar-lhe a verborrhêa de Quixote vingador. Preciso de vossê, appareça de manhã. Quero sessenta roseiras do melhor, custe o que custar. Pés com flôr, o mais vigoroso que houver. Ámanhã sem falta então. Conhece vossê quem venda?
—Eu não, mas a grande Barbara deve ter noticia d’esse ramo de commercio. Não gosto de rebater asserções de ninguem, mas é muito, sessenta roseiras. Dará vossê baile?
—Não, dou de jantar a alguem, d’aqui por deante.
—Caspite, provaremos dos vinhos. Então casa armada? Se vossê faz gosto, pintamos-lhe frescos na casa de jantar. Alguma coisa no genero Pompeia, como se não conhece por cá.
—Não, não, disse Arthur. Só necessito as roseiras.
—Concedido. Adeusinho. Soube vossê da grande manifestação republicana do _Mortalha e Onça_ em Caparica? Anda tudo ahi cheio, guarda reforçada. E o ministerio cae!
Imagine que eram os clubs todos, mais de trinta pessoas, tudo em grande burricada, com barretes phrygios e cannas verdes, cantando a Marselheza. O _Trinta_ botou artigo de fundo. Ah, foi imponente! Ao jantar vieram felicitações dos democratas da Amora. D’esta vez o rei embarca! O meu discurso vem no _Facho_, vossê deve ter lido.
—Não li.
—Vossê não é homem que se instrua com jornaes. Indole molle. Faz mal. Eu cá, sempre na brecha!
—Olá! disse a matrona com grandes berros de impaciencia. Despachar, gentes.
—Adeusinho, que a dama desafina. E os malandros a rondarem-me os passos. Eu vos direi, tyrannos! clamou elle mostrando punhos ameaçadores ás esquinas desertas. Então de manhã. Eu indago das roseiras. Saudinha. E trate de me vêr aquelle discurso, homem. Vem no _Facho_ de hontem, terceira pagina, ao alto da quarta columna. Lá verá asserções que ninguem póde rebater.—E foi-se a passos tragicos, com as abas do frac avoejando.
Em tres dias fez-se uma revolta em casa do esculptor. Veio terra vegetal para grandes canteiros talhados de redor das paredes, e em volta ás arvores; um jardineiro plantou com mão profusa as roseiras compradas a Campo d’Ourique, no Petit, ou remettidas pelo Loureiro do Porto. Ao mesmo tempo adquiria Arthur dois grandes volumes de floricultura, disposto a estudar a fundo o problema das rosas. Muitos exemplares que não cabiam no jardimzito, povoaram o _atelier_, alinhavam-se no corredor, e dir-se-hia velarem o somno do pobre rapaz, espreitando para dentro da alcova. A residencia então tomou um ar permanente de festa, onde os perfumes erravam de em torno ás estatuas, n’um mysterio nupcial que fazia inda mais triste o artista. Da janella, toda friorenta n’um chaile, Judith tinha assistido aos trabalhos, com uma sollicitude attenta e silenciosa. Albano não apparecia, por seu lado.
—Então faz-se agora jardineiro? disse ella quando uma noite o esculptor lhe trouxe o primeiro bouquet de rosas brancas. Elle balbuciou confuso o quer que fosse em explicação—que as manhãs eram longas, tinha agora pouco trabalho, era um meio de entreter tempo. Depois adorava as rosas. E aqui fez por exaltar-se, tivera predilecção por aquellas flôres desde pequeno. E como ella mordendo as petalas devagarinho, uma a uma, o mirava com os seus olhos attentos, Arthur cada vez mais escarlate balbuciou coisas vagas, e a voz perdeu-se-lhe. Essa vez fallaram pouco. A mamã dormitava no seu quarto, o irmão sahira para um leilão de livros.
Ella tinha uma roupa escura muito simples, cingida ao corpo e cahindo em pregas amplas, onde a brancura das mãos ficava luminosa apertando o bouquet. Pareceu-lhe mais alta, nunca elle a vira tão pallida, e d’um austero tom cahindo para rigido, quando se faziam silencios entre os dois. Puzera uma romeira branca collada ao pescoço n’um desenho monacal. E contou a Arthur que se sentira doente n’aquelles dias, um frio nos ossos, pequenas tosses que a fatigavam, de noite mesmo sonhara coisas funestas.
—Porque não veio cá? disse ella em queixume. Foram uns serões tão tristes!
—Outro dia larguei Albano tarde. Podia incommodar, não subi.
—Incommodar! fez ella com um modo admirado. E voltando á sua ideia negra contou d’umas borboletas sombrias, que a mamã vira entrar pela janella á noitinha. E o tempo mais frio, sempre nuvens, parece que tudo chora...
Ia comendo irresistivelmente as rosas, toda disfarçada e a medo, como uma creança que faz uma maldade.
Á porta da escada, quando Arthur já se ia embora, ella com modos acanhados disse que lhe queria pedir uma coisa, mas tinha vergonha, receava que elle se puzesse a rir.
—Oh não, disse o esculptor todo serio. Que é?
—Guarde este dinheiro, tornou Judith muito baixinho, guarde, foi d’umas rendas que fiz para o armazem. E entregou-lhe dez tostões—Agora oiça cá, é muito serio, sim, muito serio. Alli defronte ha uma capella, mande lá dizer duas missas, no altar de Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha; prometta, ande.
—Mas prometto.
—Diga ao padre que é por intenção d’uma pessoa doente, que necessita muito de viver. Diz, sim?
—Digo.
—Eu estarei na janella da sala rezando. Sabe rezar? perguntou ella ingenuamente.
—Meu Deus, ensinaram-me.
—Inda bem, Nossa Senhora ha de ouvil-o. Tudo o que eu fôr ganhando será para ella, coitadinha, que é pobre. E não diga a ninguem, nem á mamã, nem ao Albano.
—Posso saber, disse elle, por quem faz esses sacrificios?
—Nada, respondeu ella baixando a vista. Vae sendo velhinha a mamã, e depois Albano não vive senão com livros. Para lhes tratar da roupa com amor é preciso ser da familia. Uma estranha não quer senão que lhe paguem. Quem havia cuidar d’elles se eu morresse!
Aquella infantil preoccupação fez pena a Arthur, que lhe beijou respeitosamente as mãos, pela primeira vez.
—Gosta de mim? disse ella olhando-o de face com grandes olhos ingenuos, em quanto lhe prendia na casa uma d’aquellas rosas brancas do ramo.
—Mas muito, juro, muito!
—E foi por minha causa que mandou vir as roseiras?
—Não, não, palavra.
—Shut! foi tal. Albano deu a entender. Eu mesma adivinharia. Hemos sempre ser amigos, quer? Se Nossa Senhora fosse servida dar-me saude, quem sabe ainda... Mas sinto-me tão fraca, e o tempo muda, depois...
Fez com o polegar na ponta do queixo, o gesto d’uma coisa que se aniquila. E chorava. Foi como Arthur a viu em sonhos d’alli por deante. Todas as manhãs lhe mandava rosas em grandes corbeilles. Mas nunca mais aquella visão de flôr, que emmurchece e pende, se lhe apagou do espirito.
* * * * *
Por esse tempo de feito, Judith adoeceu. Havia uns mezes que ella andava pallida, com o bistre das olheiras mais fundo e mais largo, recolhimentos religiosos, certos langores de cabeça, uma tristeza nos dias de frio. Á noite, Arthur vinha lêr alguma coisa, fallar do que corria, e saber como estavam. Via-lhe sempre um riso de esmalte amoravel, os cabellos enrolando muito baixos, no occiput, em duas rosaceas de oiro baço, um bocado de pescoço flaccido, e essa pallidez de mãos, cerosa e diaphana, que põe em cuidados os medicos. Como symptoma inquietante, nada. Nem dôr, nem prurido, nem ardencias de febre. Uma fraqueza crescente, um emmagrecimento sem causa, fastios, e em certos dias, cansaço. Consultado pelo artista, Albano ficou calado—e pela primeira vez não rematou com o bem bom! do estribilho.
N’esse calvo gasto de toda a emoção, envelhecido antes de feito, com postiças indifferenças pela familia, cynismos de philosopho e superioridades de sabio, via Arthur surdamente ir-se mostrando a alma mais affectuosa, á medida que Judith desfallecia. Elle que até alli tratára a irmã como uma cadellinha de collo, correndo uma vez por outra a sua velha mão pelos cabellos d’ella, com benevolencias de pedagogo e sobrancerias de senhor, descia agora do seu sotão de anachoreta nos entre-actos dos livros, com a rabeca debaixo do braço, calva pensativa, e os myopes olhos perscrutando atraz dos oculos fixos. E alli sentado aos pés d’ella com um ar de artificial expansão, tocava-lhe os bocados de que Judith mais gostava, Schubert, Massenet ou Haydn, em cuja musica ha tremulinas de lua no azul dithyrambico dos lagos, por onde arfa a neve dos cysnes, em tapeçarias de nenuphares. A _Célèbre Rêverie_ fazia-a chorar, assim como uma queixa de creança abandonada, por um caminho que mergulha nos bosques, sinuoso, e se perde em subsolos de floresta—e a voz esmorecendo a distancia, na noite, no desamparo, na fome... A espaços, inda ella chora na aura que faz ondular a herva dos descampados. É um dulcissimo e vago suspiro, uma supplica de alguem que embalde esmola por esses montes á chuva, á procura de cabana onde passar a noite, d’um ninho de ave onde dormir, da saccola do velho mendigo ao menos, para repousar a cabeça...
E a meio da clareira onde a chuva bate, lá longe, reunindo forças que a desamparam, inda o anjinho implora, e chama, e soluça. O vento leva o rumor d’essa voz que esvaece, repetindo manso, de mansinho, a supplica, tresvairada pela febre na oração!
—Oh cala-te! fazes-me mal! dizia ella detendo-lhe o arco inspirado. E em redor todos calados, deixavam errar a imaginação nas brumas pallidas do sonho, soffrendo em commum d’esses presentimentos cujo phantastico é rhembrantesco, como nas noites de Walpurgis. Albano para distrahil-a tocava-lhe então coisas vivas e alegres, walsas, coplas, bailados meyerbeereanos—o dos patinadores, no _Propheta_, onde os grupos vão por turbilhões n’um impeto de vida brutal, sob a neve, á luz dos fachos; a bacchanal do _Roberto_ que uma lascivia quente penetra, entre murmurios de beijos e o espumar das taças; e essa deliciosa walsa das wilis do _Hamlet_, quando Ophelia vem louca, coroada de flôres e vestida de branco, musica tão volatil, tão sentida e tão doce, que a orchestra entrecorta de rumores de agua e echos fluctuantes da campina.