Part 12
Em mimicas de sagui, todo esguedelhado á moda romantica, com tremuras d’ebrio e palavras jactitantes, amigo Flores fallava então nos trabalhos dos pretendidos clubs revolucionarios, as soalheiras apanhadas na via dolorosa da propaganda, portas que lhe atiravam ás ventas pelas eleições, mil ingratidões bebidas sem queixa. Fazia arremedos de quem investe o toureiro—Sim, que fallasse Alcantara! E Alcolena, e Ajuda, e essa rapaziada dos Terremotos toda, para contarem do que elle João Maria Guedes Flores, sósinho e solitario, tinha feito e conseguido. Por sua energia se levára a cabo no Pateo da Galé, o famoso comicio de 24, onde Ajuda nas barbas da policia mandada por ordem do _tyranno_, tinha posto as coisas em pratos limpos. E uma data de clubs fundados por elle, o _Mortalha e Onça_ de Alcolena, com duas Liberdades de gesso na sala das sessões, e um realejo alli tocando a Marselheza noite e dia, para arreliar o paço, apre! Se tinham visto o artigo do _Trinta_, todo escamado? Ninguem tinha visto. Arthur pretendia chamal-o pacificamente aos pinceis então, para discretearem antes sobre taboletas de _phantesia_, e bellas gallinheiras da Praça, por uma das quaes, Barbara de Loures, ruiva maritornes que enchia o mercado com os seus uberes de turina, entre raspões de hortaliceiros, o _ártista_ andava morto. Mas Albano queria vêr por força como era feito um jacobino, investigar das conquistas do partido popular, metter sonda na obra da revolução. Que não rebatessem as asserções do homem! E amigo Flores ia dizendo que o rei ficava de cal em o encontrando na rua, o Fontes mesmo pensára em subornal-o, dar-lhe posta afim de lhe calar o bico. E d’uma vez na calçada da Ajuda, ia muito bem, matutando sim senhor, e ouve _pst! pst!_ E volta-se, era D. Fernando fazendo-lhe signaes. Podia hoje estar n’uma posição independente, mas não era como esses pandilhas monarchicos que se vendiam por um logar; preferia seguir as suas ideias, ser fiel á causa do povo. Enchia a bocca de povo, a vontade do povo, a soberania do povo, o veto do povo, o suor e mais excreções do povo. E batendo nos peitos concavos, olho acceso, gambia fina, um ar chimerico de walsa, deixava desconfiar pela attitude que o povo fosse elle, grão senhor d’arraia miuda, chefe dos sediciosos, e vingador futuro de mil torturas soffridas. A cada passo, a sua arenga vinha infectada com essas phrases de _meeting_, tympanicas pela falta de sentido, escorrendo indignações de bacharel faminto, a que os jornalistas vermelhos teem dado voga entre as classes ignorantes, ensinando-lhes a fanfarronada, sem lhes ensinarem coisa melhor. E vinham os direitos do homem, o corpo social, a dignidade humana, as liberdades d’este seculo, tiradas sobre a podridão da corôa, e mil allusões contra o que cada qual fazia por mez... Por vezes, ao atirar da malha contra o paulito do jogo, a vehemencia do _ártista_ era tão soberba, que se ficava n’um panico, á espera de lhe vêr sahir dos bolsos, hordas de federalistas, communistas, todo o arraial d’opprimidos em linha de guerra, brandindo armas, formando barricadas, cantando _Ça ira!_ e roubando lenços d’assoar. Albano mirava-o como um animal curioso, todo grave e compenetrado; e secretamente, como um irmão da seita escarlate, fazia-lhe pequenos signaes de adhesão, applaudia em risinhos, como quem sabe de tudo, na mira de lhe inspirar confiança.
Aquelle apoio vehemente, endoidecia o _ártista_, que nos dias de loquela entrava n’uma quantidade de revelações d’alta politica. A coisa marchava! Um trunfo dos republicanos dissera-lhe na redacção do _Facho_:
—Dez como vossê, Flores, e a realeza não dura tres semanas! Tinham mesmo chegado a pedir-lhe artigos de fundo, d’aquelles damnados, d’aquelles fortes. A provincia dava-lhe vivas; _Sola e Vira_, um directorio do bairro central, chegára a lançar-lhe nas actas, votos de louvor. Isso lá muito fallado! Abria um riso mysterioso para confessar que havia incredulos que se punham a dizer aos seus botões, a republica está ainda para tarde. Não aconselhava ao povo portuguez aquella falta de confiança nos que andavam á testa do movimento. Já o tinha dito no famoso comicio de 24. Na proxima legislatura, seis é que cantavam na urna.
—Seis que? disse Albano.
—Mas deputados! Um d’elles, e amigo Flores descia o olhar, nunca acceitaria o mandato de tão illustres irmãos d’armas.
—Mas Flores, implorava Albano, mau irmão, acceita por obsequio.
—A coisa está séria! dizia Arthur. E a voz de João Maria Guedes Flores, baixava.
No _Facho_ pensava-se em comprar o exercito, havia aguardente para adhesões espontaneas... E agora shut! nada de darem á lingua, hein?
—Eu cá ouvi fallar n’um subterraneo de polvora até ao paço, segredava Albano tendo primeiro fechado as portas, e lançando ás paredes olhares tresvairados.
Amigo Flores recuou theatralmente.
—C’os diabos! Mas é a anarchia! Mas vão-se lançar no puro nihilismo! Isso sempre eu temi! A soberania popular não quer sangue!—Mas Albano atropellava revelações com revelações, tendo o _ártista_ seguro por um braço, arquejante, magnetisado, escutando por todos os póros.
—E depois, não é tudo, homem. Entrou um navio com armas pela Figueira dentro; Celorico agita-se; Santa Comba diz que não paga; Moita poz barrete phrygio; todo o paiz vae levantar-se como um homem...
—Quando?
—Ámanhã talvez!...
—Bem m’o dizia o Guerra! fez amigo Flores, como se prophecias biblicas viessem de realisar-se.
—Quem viver verá as grandes coisas, ponderou Arthur. Inglaterra jámais nos perdoa. E a Russia, a Austria, Hespanha...
—Hespanha, disse o _ártista_, com os seus males intestinos...
—Infeliz! fez compungidamente o estudante. Mas coragem! Grevy escrevera a Magalhães, dizendo-lhe contassem com elle; havia mesmo umas certas palavras do presidente Grant...
Emfim, qualquer manhã, a monarchia acordava pela barra fóra, caminho do desterro.
—Pois vou já convocar o _Mortalha e Onça_, clamava possesso amigo Flores, rompendo por essas ruas esbaforido, sem mais querer ouvir.
Se concluira alguma obra, convidava toda a gente a ir dar opinião, o Arthur, um porta-machado das suas relações, que lhe servira para modêlo de Herodes n’uma _Degolação de Innocentes_; o gallego avaro, e quando Deus queria, o proprio Albano. Amigo Flores pintava taboletas, frontarias de loja, e casas de jantar de dez palmos, em terceiros andares restaurados. Onde quer que a sua brocha tocasse, a serra de Cintra era certa, com dentaduras do castello dos Mouros, os torreões da Peninha e damas de azul em _pic-nics_ na relva. Se lhe observavam tal destempero n’uma fachada de talho ou tabacaria, amigo Flores tirava altivamente o seu feltro, esbandalhava a trunfa com os dedos de esqueleto...
—Não rebata as minhas asserções!
E a liberdade com que advertia o esculptor das incorrecções de cinzel, a fereza supraciliar com que o chamava de parte para lhe dizer que aquelle pé, alli, não estava a seu gosto; os modos de velho mestre com que lhe rendia elogios, dando-lhe conselhos, que fosse indo, nada de desalentar, e trabalhasse para ser um _ártista_!...
Porque no intuito de reconfortar esse talento de rapaz na sombra, pretendia impôr-se como exemplo de lucta, afinal triumphante.
—O caso é, trauteava elle afiambrando a perna, que cheguei á verdade e tenho hoje côr. Custou, mas posso orgulhar-me, venci. Homem, basta um caso—tal campo d’alfaces pintei a fresco n’um retiro de Rio Mouro, que todas as manhãs n’aquella casa, é um poder do mundo de grillos!
Arthur ria benevolamente, dava-lhe cigarros, ia jantar com elle ás hortas nos dias bonitos. Mas o estudante não o podia aturar, mesmo ganas de lhe remendar os fundilhos com lama da bota direita. E encontrando-o donairosamente na rua a cahir das calcitas amarellas, e cambando a bota de joanetes pelintras, passava de largo acenando-lhe com a cabeça calva.
—Vivendo, obrigado. Inda não rebentou o subterraneo de polvora, paciencia! Mas bem bom, a coisa marcha. Saudinha.—E virava a esquina, concertando os oculos.
* * * * *
Uma tarde, flanava Arthur por entre as boscagens do Campo Grande, fumando cachimbo n’uma d’aquellas indolencias d’artista, que abrem lenitivo no meio dos grandes trabalhos, quando ao virar d’uma alea, deu de cara com Albano que trazia um ramo enorme de rosas. Havia talvez quatro noites que o bohemio não vinha á _brasserie_, coisa de espantar o esculptor, affeito como estava á regularidade desesperante do companheiro.
—Mas que florido elle vem, que primaveril! disse Arthur com grandes expansões. Farçante! Vem perpetrar _bouquets_ fóra de portas, para ninguem suspeitar dos amores em que anda enredado....
Albano ficou a desempoeirar com o lenço, as incommensuraveis botas de duas solas em que velejava. E disse:
—Fui-me vêr um homemzinho áquella quinta, que passa a vida cultivando rosas. Typo curioso de velhote, amador de boas loiças, todo requintado, hei de apresentar-te. Imagina que tudo é do seculo passado em casa d’elle, mobilia, porcelanas, creados, musica, até os gatos. Mas boa gente! Então carregam-me sempre de rosas. Repara que vem aqui soberbos exemplares, hein? E elle, uma paciencia!... Sorvia o perfume das flôres uma por uma, dando pequeninas aspirações sem contacto nas petalas, saltitando d’esta para aquella, como se andasse a educar uma pituitaria intelligente, afim de extremar gradações n’um mesmo perfume subtil. As rosas eram deslumbrantes na verdade, pelo tamanho, pela côr, pelo capricho das volutas petalares, exquisitas _nuances_ de tecido, e caricioso setim dos ninhos interiores, descerrados como escrinios de duqueza ao peso das gottas d’agua que a manhã, boa amiga, lhes chorára no seio ao passar. As escarlates eram colossaes como dhalias, d’um funebre velludo se olhadas de través, com manchas de pellucia cereja destacando das convexidades á luz, e longinquos perfumes onde a narina se embotava e perdia. Uma graça aristocratica idealisava as amarellas, perfumadas de violeta e chá hysson, côr de gemma nos seios, e com petalas quebrando polyedro á volta dos estames, velados n’uma cupula trifoliar de pequeninas peças. E as brancas então, que virginaes!... Pareciam esgotar-se em esforços, ainda as mais abertas, para conservarem fórmas pudicas de botão. E retrahindo-se, tinham castidades de rapariga nua, que depois do banho, toda em perolas d’agua, contra si mesma se cerra, e defende e furta ao amor mythologico dos cysnes. No coração d’essas maravilhosas Ophelias, arfavam roseos tons de carne viva, ondulações molles de femea, e immaculadas frescuras de adolescencia loira, dirieis uma _coquetterie_ de donzella ao apear no primeiro baile. Arthur ia cortar uma das brancas, quando o estudante detendo-lhe os dedos, disse bruscamente:
—Essa não. A outra escarlate é mais bonita, corta.
Mas Arthur preferia aquella branca, qualquer outra, não se importava, mas branca. Não havia de ir pela rua com um paspalhão côr de baeta na botoeira. Albano porem, insistia birrento:
—Corta uma amarella, dizia elle, leva duas mesmo, ess’outra vermelho-esmaiado, mas nas brancas não toques.
Arthur teimando a querer uma rosa branca, perguntava-lhe rindo:
—Trata-se de entretecer corôa mystica para alguma irmã hospitaleira da tua paixão? Mas que extraordinario scelerado!
Houve mesmo uma lucta entre os dois.
—Larga! implorava Albano. Tenho apenas seis rosas brancas. Uma que leves faz falta.
—Mas porque essa avareza?—E o esculptor a insistir, a não largar! Albano vencido, tomou-lhe o braço, mas sem deixar cortar a rosa. Era o cahir da tarde, foram conversando em direitura ás portas, já o sol amarellecia nas arvores.
—Homem, disse Albano, pondo o lenço em torno ao pé das suas preciosas flores, é que se dá uma coisa singular.
—Por exemplo? fez Arthur como quem se não deixará embair.
—Não me dirás, porque é que pondo nós hombro a hombro de todos os sêres que nos são uteis, um medico que lhes vigia os menores actos, desde que nascem até que morrem, não dispendemos eguaes cuidados no que toca á nossa propria conservação? Por mil sabios artificios de cruzamento e alimentação, chegamos a conglobar n’um cavallo as qualidades de força, elegancia, ligeireza e bravura, que separadamente faziam as caracteristicas de muitas castas diversas. Ha botanicos que se esgotam a procurar em flôres, em tuberculos e fructos, os effeitos de coloração e turgecencia mais inesperados. Conheces a lenda das tulipas azues, tens já visto peras de seis kilos, sabes d’aquella casta ingleza de bois quasi exclusivamente feitos de musculo, e não te são estranhas por certo essas maravilhosas aristocracias de cães, pombos viajantes e animaes ferozes convertidos á domesticidade, traduzindo o resultado de dezenas e mesmo centenas d’annos, da tenacidade e sciencia do homem.
Pois emquanto dos typos estancados, das fórmas envelhecidas, e da nutrição quasi morta, fazemos jorrar impetos de seiva nova, forjamos modêlos viris de raça, e nucleos de mundo capazes de viverem outra eternidade, nunca pensámos seriamente em restaurar, decrepitas gentes que somos, a pobre familia humana, pelo mesmo processo por que depuramos um cavallo, uma tulipa, ou crystallisamos artificialmente um diamante.
—Os elementos de ensaio tão passivos abaixo de nós, não offerecem a mesma docilidade no bicho homem, disse Arthur, e o estudante encolheu os hombros sem se importar com isso.
—Resulta que a depauperação dos sangues, a senilidade dos corpos, e envilecimento consequente de tudo aquillo que originava força, andam tão horrivelmente adiantados, que em breves seculos meia familia greco-latina ter-se-ha extinguido inteiramente. Por agora desapparecem familias e classes; mais tarde irão na voragem nações e povos inteiros, pela immobilidade das allianças e acção corrosiva das aptidões morbidas, que todos os dias engrossam de numero e violencia. Já olhaste bem Lisboa? Vale a pena como estudo de monstruosidade. Por cem mil habitantes, trezentas mil enfermidades, tres enfermidades por habitante. Velhas molestias do tempo das Conquistas, trazidas de todo o mundo em despojo de vassallagem, copulando ha quatro seculos através da nossa pobre raça, teem gerado uma tropa extravagante de males que pullulam com vida propria, divergindo conforme a cachexia do tronco que apodrentam, multiplicando-se, resistindo á therapeutica, disfarçando as suas operações, indo a degenerar por graus e descobrindo n’uma recahida, a guela hiante das baterias, dando cabo de nós com tanta elegancia, tão scientifica, tão precisa, tão artistica, tão mathematicamente, que achamos graça á partida, e ao carrasco sorrimos de gratidão, no ultimo alento.
Todos os annos esta aprazivel cidade brinda os seus habitantes com uma febre nova, e á similhança das publicações com gravuras, que distribuem chromos no fim dos volumes, anda ella preparando para d’aqui a tempos tambem, a sua febre colorida, venho a dizer amarella.
Em doenças nervosas, vê tu a inesgotavel variedade e a exhuberancia de padrões! É tudo que vae do tic nervoso, tão patusco, as convulsões macabras da eclampsia. O divertido é então approximar duas affecções pelos reophoros, isto é, um macho e uma femea, para depois ir estudando a incommensuravel progenie resultante. Conforme estatisticas, Lisboa tem hoje por este processo dez vezes mais doidos que pessoas de siso, e mais ha quem chame idiotia ao siso d’essas pessoas.
—Exige-se em resumo que o medico intervenha, vamos, disse Arthur que não tinha prestado attenção.
—Tal qual! affirmou o estudante. Hygiene em scena, para refazer o homem senil, couraçal-o n’uma energia d’aço, estriar-lhe musculos, engrossar-lhe os ossos, agigantar-lhe a estatura, e pôr-lhe o cerebro alli bem lucido. As exhuberancias da saude fal-o-hão moralmente grande, sagaz e leve, com o sentimento viril da honra, susceptibilidades no brio, benevolencias para os fracos, e olho vivo para descortinar ao longe os perigos. Emfim, hygiene, para garantir o futuro do mundo. Até aqui os governos tem posto cada miseravel que nasce, entre o padre e o cabo de policia. O padre faz d’elle um idiota e um cobarde—o cabo de policia reverte a coisa que fica n’um contribuinte. Precisamos mandar á tabúa o reverendo, e pôr a distancia o esbirro; depois do que, o medico dará o braço ao misero explorado, para lhe ensinar a ser um homem. Constituido em dictador, o medico crearia a phalange lacedemonica da Hellade, adaptada á vida moderna, prescrevendo aos fortes o programma d’educação de Gargantua, e pondo o resto em tratamento.
—Esse resto, por signal que te havia dar cuidados, disse Arthur bocejando.
—Não conseguiria talvez regenerar engoiados, mas havia de pôr embargos á propagação dos aleijões e contagio dos virus. Antes de lançar o que chamam tributo de sangue, a lei diz ao conscrito: despe-te! Eis o que eu faria tambem, antes de dar ingresso na vida social a qualquer trocatintas.
—Vago, disse o artista. Em conclusão, pareces-te diabolicamente com o menos fluente dos parlamentares que achincalhas. Escusas de proseguir, sei o que vaes dizer—e foi volubilmente arengando—que o problema era fazer sabios em hercules; d’ahi para cima não custava crear sociedades modêlos. Admittamos! Uma vez extremados os fracos dos fortes, creada a tal guarda lacedemonica com o seu espirito de casta assente na força e no saber, urgia só pôr de observação os sêres inferiores, para lhes extrahir pacientemente, as parcellas de utilidade que os desalmados tivessem a habilidade de dar. A vêr como? Vigiando de perto esse burgo suspeito, como a Judeia vigiava os leprosos. Fazendo essas entidades mortificadas voltar pela descendencia ás fórmas modêlos, que a hygiene houvesse imposto em craveira, antes de conferir diplomas de cidadão a alguem. Oh! dirias tu, nada mais simples de conseguir. A sciencia é muito explicita n’este ponto. E citarias apparatosamente. Se por um lado, os principios morbidos de dois sêres que procriam, vão multiplicar-se no feto e não sommar-se; por outro, os elementos morbidos de qualquer dos progenitores pouca preponderancia alcançarão na progenie, se o progenitor restante possuir em excesso perfeições, que por hereditariedade fossem capazes de neutralisar a doentia acção d’aquelles elementos. Seguir-se-hiam exemplos tirados de fontes insuspeitas e puras. Conta Chiara que M.elle X, 38 annos... O grande Perroud constata que n’um logar dos Alpes, um _couple_ da melhor saude... E mais o doutor este, e alienistas, hygienistas, facultativos militares, um pandemonio de principes da medicina! Podias mesmo aproveitar de Balzac, trechos arrancados á Physiologia do Casamento, sobre o instincto da mulher procurar marido nos temperamentos oppostos ao seu, a sua habilidade genetica de corrigir nos filhos a saude dos paes, e certos vicios mesmo de conformatura, a menos que se não trate de qualidades exclusivas ao homem, como fórmas d’esqueleto, estreitura nas cadeiras, pernas direitas, força muscular, coragem... E para cortejo, sendo preciso, versos de Horacio espremidos no proposito de escorrerem fulminantes conceitos sobre os maus cruzamentos, nebulosas do Hamlet ditas a Ophelia no mesmo sentido, emfim a cavalgata de logares communs que os eruditos gostam de vêr piaffar nas memorias e conferencias.
—Bem bom! dizia Albano, bem bom!
—D’aqui, um mundo de leis a catalogar para uso dos _vauriens_ do teu lazareto. Exemplos. Quanto germina, quer solo estrangeiro. Brada aos ceus propagar monstros, até as artes soffrem com isso. Assim, ordenarias pelas allianças, grandes transfusões de sangue primitivo, rutilante, fecundo em ímpetos. Angariar colonos nas boas raças estranhas e novas, magnificos escocezes de seis e sete pés, camponios do Wurtemberg, lombardos e tyrolezes filhos dos colossaes modêlos de Buonaroti e Bandinelli, e negralhões do Cabo, que tu affirmas serem brancos engraxados, por birra de fazer divergir, na fachada ao menos, a civilisação africana das mais. E punir de morte casamentos entre primos ou individuos com elemento anatomico do mesmo signal, já que de constituições identicas só brotam degenerados e monstros. Nervoso que desposasse nervosa, zás! cabeça fóra. Primo que aza arrastasse á prima, costa d’Africa com elle, não é verdade? Mas, notou Arthur com modulações comicas de phrase, palavra de honra que não vejo em tudo isto, coisa que justifique a tua ignobil avareza de rosas brancas para um velho amigo, que tem por essas maravilhosas flores uma fraqueza das mais irresistiveis. Calculaste mal, meu velho! A divagação de hygiene não deu para me engodares até casa, e eu não vou d’aqui com a lapella desmobilada. Uma rosa, vá!
—Meu pae, proseguiu tranquillamente o estudante parecendo não ter ouvido o que o esculptor dissera, era um nervoso de humor oscillante, cheio de feítios bizarros, susceptivel d’estomago, vivendo de palpitações bruscas, e com dias de não fallar a ninguem.
Confesso-te que me custava a soffrer ás vezes, pobre homem! Então repentes, um domingo rasgou o papel da sala, escarlate, porque diz que lhe estava a arrancar os olhos por dentro do craneo, e eram dôres horriveis. Superficies polidas, muito vastas, allucinavam-n’o, punha-se aos gritos, inteiriçado n’uma convulsão; e em cincoenta annos de vivo não foi senhor de correr a mão por velludo, que a syncope logo o não castigasse. Só a musica domava esses estados, cahia em somnolencias, lingua traçada, era atroz! Quanto a minha mãe, é a mulherzinha que tu sabes, semanas inteiras preoccupada com as mentiras lugubres dos jornaes, chorando o infortunio de toda a gataria dos visinhos, psalmejando rezas nos dias aziagos, e não comendo carne por ser crime matar animaesinhos de Deus. Accrescenta a isto irritabilidades e niquices do mais doloroso hysterismo, explicadas sempre pelo que a superstição tem de mais phantasmagorico no sacco; terás a pobre senhora! Ouve agora a descendencia d’este casal singular: entre a Judith e eu, viram a luz tres pimpolhos. Um que morreu á nascença; outro surdo-mudo, com uma cabeça medonha, esteve doze annos n’um grande berço de verga, até que se foi. Mas o terceiro está vivo e escorreito, e vae deitando um corpo! Por exemplo, fez dezeseis annos hoje. Vemol-o tres vezes por semana, pódes vir comnosco um dia, é aqui perto...
Estavam a meio da avenida Estephania, escurecera—e corriam terras de cada banda, alteando aqui, socavando alem, esfumadas n’um vapor sepulchral que o gaz estrellejava. Á esquerda, na planura que declina cingida em altos gradeamentos, como iam entrando na cidade, viram a mole do hospital Estephania boquiaberta de janellas, flambar por dentro a vida lugubre da enfermaria, como um Molloch punico, digerindo ao rubro algum sacrificio humano. Da direita era um muro de hospicio, fechando terrenos carcomidos, onde muito para lá, na impassivel sombra, um gigantesco dado dormia. N’isto vieram de lá grandes vozes de clamor, elles tinham-se parado a ouvir. Eram cantigas n’um tom destoado, arrastando-se, esguichando em uivos, rouquejos sanguisedentos, brados de gente que pede soccorro, e esse rir imitando o rir humano, sardonico mas inconsciente, que faz arripiar os cabellos. Arthur surprehendido, perguntou que seria.
—São as jaulas de Rilhafolles, disse Albano, é talvez meu irmão a festejar os dezoito. Deixei-o agitado hontem, o director mesmo fallou em lhe reprimir as vivacidades com um certo collete, que me parece ter grandes sympathias na casa. É a primeira vez que lh’o vestem. Nem admira, a gente está em uso de estreiar fato novo pelos anniversarios. Elle põe um bello collete. Bem bom! pobre rapaz, bem bom!
—Que? Está além doido? disse o outro.