Part 11
—Ai, ai! fazia o estudante, atochando o estomago gargantuano com savel frito. Tinha elle uma irmã lindissima, figura de parisiense, meudinha, nervosa, penetrante, musical.
Como Arthur pelo tempo adeante necessitou procural-o, forçoso foi dar-lhe a morada e franquear-lhe a porta. A casa era pobre, terceiro andar para mãe e filha, com sotão para o bohemio dormir. Arthur começou a gostar da pequenita, a vir mais vezes, a olhar para ella de certo modo.
Depois um nome delicioso—Judith! E o esculptor pensava já muito sériamente n’uma estatua de Holofernes, que tivesse a sua propria cabeça.
* * * * *
Um grande alto-relevo que esculpiu para não sei que fachada, trouxe-lhe renome, por alguns dias exposto. Obra excellentemente lançada, esse alto-relevo d’assumpto biblico, com figuras vaporisadas em attitudes d’uma belleza piedosa e serena, e cabeças do mais fino toque. Essa magnifica pagina de marmore, guardava o symbolismo ingenuo e a bondade lyrica, que impressionam a indole sentimental de todo o bom portuguez. Havia n’ella perfis de medalha, roupas que se collavam respirando, pés e mãos de irreprehensivel trabalho, e o ar antigo que vem da leitura dos prophetas. Os jornaes fallaram da obra, quasi toda a gente foi vêl-a, e o _Occidente_ mesmo deu gravuras, o que lançou o esculptor. Por esse tempo vinha elle para visinho de Albano, tendo alugado um rez-do-chão de que fez _atelier_ e residencia. A casa tinha no fundo uns metros de quintal, recinto ensombrado de grandes arvores e todo chilreante de pardalada.
Com o terreno inclinado, desfrutavam-se em chusmas lá longe, perspectivas de cidade que rebenta de escombros, campos d’arrabalde, quintalorios onde latadas tufavam, terrenos de pão, hortas retalhadas pelos trabalhos da avenida nova, predios em ruina, casas perdidas em jardins, montões d’entulho, bandeirolas, e na linha do horisonte as torrellas côr de óca da Penitenciaria com cimos de ardozia em pyramide.
Debaixo das arvores, o esculptor installára a secção de chinquilho e _cricket_ dos seus ocios artisticos, com succursal de trapesio e barras fixas, da gymnastica que se impunha todas as manhãs, ao levantar. Davam para alli as janellas dos predios proximos, e n’uma que Arthur vigiava, vinha assomar curiosa e risonha muitas vezes, a cabecinha loira de Judith. Adoravel essa cabecinha de craneo pequeno e testa pura, com a sua face magrinha e pallida, bocca em coração, queixo petulante, e um modo de rir com flechas d’aurora nos beiços, de timbrar a palavra em gorgeios, e fazer cauda de _x x x_ aos pluraes—_ox olhox_, _ox cabellox_, _já sabemox_... que encantavam a perder o rude trabalhador de blocos. Qualquer mulher artificiosa de educação e _toilette_, tel-o-hia fatigado ou ferido mediocremente. Esse perscrutador brutal, acostumado ao estudo das linhas, dos gestos, das expressões physionomicas, todas as mimicas que a estatuaria fixa e modela, tinha o odio dos artificios, dos ares de palco que a vida das cidades imprime aos individuos, e as mulheres exageram cuidando n’elles irradiar toda a belleza. Nascida em orphandade e pobreza, provinciana no coração da cidade, vivendo com a mãe sem relações, entregue ao trabalho caseiro e ao seu piano de estudo, Judith conservava uma frescura cheia de individualidade, ligeirezas d’alveloa a sessenta volteios por minuto, e uma graça bravia de corça, que vinham antes da sua harmonia physica e da sua belleza innocente, que d’uma educação prodigalisada com mais esmero. Arthur gostava d’ella como um velho póde gostar d’uma creança, pela figura franzina, pela alegria casta, e essa innocencia relampagueante dos olhos, viva, curiosa, agitadiça, sem falsos pudores de palpebras descidas ou perturbadas, que n’outra seria petulancia, e era n’ella excesso de virgindade, de creancice e pureza d’alma.
Vestida de claro, percale rosa, qualquer cassa branca franzindo até cima no peito com severidades de virgem huguenote, o corpete esvasando no desenho arabe d’um vaso, mãos luminosas, estreitas, setineas, sahindo dos punhos de renda em brancuras de magnolia, era deliciosa indo e vindo, dos seus bicos de lacre para o piano, do piano para a janella, da janella ao bastidor, do bastidor para a cozinha. E Arthur vendo-a buliçosa, n’um formilhamento de sêr nubente e delicado, com paraisos de neve na carne, toda impaciencias contidas, ondulações de quem está crescendo, gritinhos, risadinhas, começos d’árias e dolencias de larynge, tinha vontade de lhe estender o braço como um ramo d’arvore, para ella vir pousar debicando o seu _corsage_ de madona, no _pri-pi-pi_ matinal das andorinhas na cimalha dos campanarios. O que sobretudo elle adorava nas suas volatilisações d’artista, eram as attitudes de Judith, d’uma tão inconsciente nobreza, pura arte e graciosa factura, que o attrahiam, que o dominavam, enchendo d’egoismos essa contemplação muda de esculptor. Por exemplo, como ella sabia depois d’uma sonata, ficar apoiada no piano por tres dedos apenas, sem peso, sem esforço, o busto um quasi nada para traz. A sua figura tinha assim uma distincção de _miss_, doirada pelos olhos de loira, cujas fibrilhas claras torvelinhavam com labyrinthos de hydras, nas aguas de uma fonte.
D’entre os hombros sahia-lhe a garganta alta, vergando como haste de flôr rara; o labio de cima tinha ao centro uma gotta de coral deliciosa, que se desfazia no riso, e voltava a tremer, toda pendente, nas horas contrafeitas; e nenhum prazer maior que vêl-a de perfil em fundos violentos, com o seu moderno typo de cidade, exquisito e fino. Tinha a edade em que a mulher está ainda sem sexo e todavia não é já uma creança, fins de infancia em começos de adolescencia, o que ha de mais mimoso na vida feminina, desejos que a admirem e esquecimentos logo d’essa pequenina vaidade, rubores d’uma palavra mais alta, d’um riso largo, rubores por coisa nenhuma. E uma encantadora desordem interior, de ideias, sensações, gostos, e prazeres virginaes! Ditos sem intuito um mez antes, modos de a olharem na rua, qualquer insignificancia quotidiana, alarmavam-lhe agora o natural assustadiço.
Por vezes, de relance, n’essa conflagração de phases vitaes que não tinham podido extremar-se ainda, subitaneas tempestades marulhavam—os seus olhos accendiam constellações de sonho; certas maneiras de detalhar a respiração dir-se-hiam suspiros; cerrava muito os braços contra as costellas, pondo no busto duas azas de amphora etrusca, como se uma febre de abraços lhe viesse. E tão impressionavel, que a menor nuvem a fazia nervosa, e a menor sensação d’altura lhe dava syncopes; em dias de chuva, collada por traz dos vidros, olhos baixos, um susto da fria consternação pardacenta, pousava em immobilidades de chôro, como uma andorinha roubada aos seus novellos de ellipses, pelo bom tempo, no lapis-lazzuli do ceu. E então uma familiaridade a conversar!
Ainda não conhecia Arthur de quinze dias ou vinte, e já sem preambulos entrava a querer saber o que elle tinha feito durante o dia, a que horas tinha sahido, a que horas recolhia, e como é que sendo tão novo, podia viver tão só.
Esse plebeu, rosnador como os cães de fila, intratavel, sem paciencia para massadas, macambuzio e mal disposto, sentia uma immortal felicidade em responder ás perguntinhas d’ella, em adivinhar ao seu lado e por seu mando, todas as charadas e logogriphos do almanach, em guial-a nos desenhos e trazer-lhe florões para bordados. Deante de Judith a aspereza d’elle adoçava-se n’uma timidez serviçal, recolhida se ella o não mandava fallar, radiosa quando lhe sorria. E á flôr da sua larga face operaria, vinha um rubor de felicidade, n’essas visitas passadas em palestras triviaes, casos de jornal e vida caseira, em que desfilava a tragedia narrada pelo localista, as carestias da Praça, uma musica nova, e do que cada um tivera para jantar.
As narrativas de naufragios, choques de comboios, explosões de minas, cidades inundadas, incendios e roubos celebres, duzentas, trezentas mortes, um supplemento algido d’orphandades, viuvezes e desamparos, obras-primas do bello horrido que a phantasia dos _reporter-yankees_ a meudo exporta para chocar os nervos lassos da velha Europa, faziam nas duas pobres senhoras impressão fulminante. Arthur lia o caso, e abaladas, dando exclamações em volta d’elle, mãe e filha commentavam o desastre choramigando, fazendo hypotheses, phantasiando promenores.
A mãe, parando de costurar, calculava:
—Trezentas pessoas mortas, vamos que duzentas eram casadas, e cento e cincoenta tinham filhos... Cento e cincoenta orphãos, já nós cá temos! Nome de Maria! Agora, dêmos cem pessoas a mais de um filho... Onde esta desgraça vae parar! As pessoas a quem estas victimas protegessem, parentes velhos, pobresinhos de porta, creados antigos, empregados das suas lojas... sim, porque haviam ter seu commercio, a sua vida... e ahi fica tudo ao desamparo...—seguia-se um grande suspiro—Ai! ai! Este mundo, bem pensando... E para mais, em sexta-feira! Emquanto uns riem, outros choram.—E já não dormia bem aquella noite. Em que afflicções se veriam os desgraçadinhos por aguas do mar? E que pensariam elles n’aquella hora?
Por vezes Arthur surprehendia-se tambem commovido, porque interessado no contraste d’aquella simplicidade ingenua e sincera, pouco a pouco, sem n’isso reparar, ia sendo por ella dominado. O sentimento de quasi paternidade que lhe vinha ao pé de Judith, revelava-o elle nos presentes que lhe fazia, medalhões com baixos-relevos de Virgens e Christos, beniterios de espaldares rendilhados, albuns de aquarella e carvões de paizagem, flôres, quinquilharias e até ninhos, dos passaros que nidificavam nos grandes platanos do quintal.
Nunca se esqueceria da ineffavel frescura de lagrimas que sentira no peito, a vez que indo vêl-a com uma grande rosa branca, toda orvalhada, ella viera com uns geitinhos infantis tirar-lh’a muito delicadamente, emquanto os seus olhos claros scintillavam. E desfolhando a rosa com os dentes, petala por petala, fôra-a comendo com a especie de gula voluptuosa com que os canarios debicam folhas d’alface, e tendo sempre os ardentes olhos pregados n’elle.
Todas as manhãs ao erguer, Arthur fazia a sua hora de gymnastica revigorante, preparatoria dos trabalhos do dia. Começava com vinte kilos em cada braço, ia d’alli aos saltos elasticos sobre pranchões fixados a variadas alturas, depois fazia as distensões, torsões e suspensões do trapesio, acabando no _moinho_, grande trabalho de destreza, que exige olho fino, corpo d’aço e precisão de mathematico.
Da janella, se acontecia estar levantada, Judith dava gritos de susto, pedia-lhe para suspender os trabalhos, ameaçando-o ficar de mal com elle, se proseguisse.
Arthur socegava-a com palavras de valentia, intimamente lisonjeado ao menor dos seus gritinhos hystericos—e se na janella do sotão as lentes do Albano brilhavam, era uma festa entre os tres.
O habito de tecer mundos de chimera e bizarrias d’espirito onde residir a maior parte do anno, dava ao estudante a mais completa indifferença, ou apenas alguma ligeira attenção, para as coisas triviaes que lhe giravam á roda. A familia merecia-lhe uma especie de benevolencia, sem effusões nem longos entretenimentos; para designar as duas senhoras dizia—_as mulherzinhas, lá em casa_; e apenas ás horas da comida, nas preguiças depois do jantar, se demorava a conversar um pouco em coisas que lhe não inspiravam interesse, e deixava correr para o não acharem antipathico. Quasi sempre as suas palavras eram breves n’esses cavacos domesticos, sim, não, está visto, está claro; ou aquelle interminavel—Bem bom! Bem bom! que servia para exprimir tudo, tedio, satisfação interior, fome, desgosto de viver, necessidades de fazer a barba, e assim. Para se não dar ao trabalho de explicar um ponto controverso, estava sempre d’accordo no que a mãe e a irmã diziam. Por vezes fazia á mesa silencios de pensador, sorvia a sopa bruscamente, cortava os pedaços n’uma gravidade de sabio, cabeça baixa, camarinhas de suor no coronal marbreado de calva. Jámais n’esses momentos, ellas lhe interrompiam a meditação, o jantar corria triste. Tinham-se affeito áquella reserva de velho juiz as duas senhoras, e já não estranhavam. A mãe vendo-o calado, pensava no marido que fôra assim toda a vida, macilento, sorvido, com os seus oculos verdes, nevralgias singulares, e cheio de excentricidades. E Judith amava o irmão como um avô, vendo-o sempre benevolo apesar de casmurro, dedicado no fundo, e com pequeninos presentes de quando em quando. Por vezes, os olhos d’elle sondavam-na por cima dos oculos com sollicitudes antigas, n’uma satisfação de a verem galante, com a sua bata de rendas cingida á cintura fina. E as duas foram-lhe descobrindo virtudes tocantes, uma virgindade de gostos, traços de caracter generoso, e pieguices mascaradas n’aquella selvageria. Levava noites a traduzir romances por uma miseria, no intento d’augmentar a modesta renda de que vivia a familia, afim de nada faltar em casa. Nos dias de annos, começos de estação, ou pelas festas, calado sempre, com a sua nisa parda de seis annos, uma corrente de latão no relogio, descia alta noite em meias, do seu antro de doutor Fausto, quando ellas dormiam; e como a boa fada do Natal deixava-lhes á porta dos quartos, na mesa de jantar, sobre cabides, ou nas mais reconditas gavetas do guarda-vestidos, pequenas peças de _toilette_, quinquilharias namoradas semanas e semanas n’uma _vitrine_, regateadas, ambicionadas, e por fim adquiridas com a feria, que aos sabbados recebia pelos fasciculos traduzidos. Furtava-se então aos prazeres da surpreza, aos agradecimentos e aos beijos, sahindo logo de manhã como um ladrão. Bem bom! Bem bom! Porque o seu odio pelas effusões domesticas, pelas ternuras choramigadas, ia á ferocidade. Certas _calineries_ de paes para filhos e irmãos para irmãs, envergonhavam-no; nunca tinha dado um beijo; e comsigo mesmo, considerando as femeas, vinham-lhe honestidades de Antonio entre as bacchanaes nocturnas da Thebaida. A rabeca porém era o seu confidente linguareiro, que tudo ia contar, exprimir, soluçar. E o que ella dizia d’esse magricella envelhecido, que doçuras de temperamento lhe sondava, que profunda bondade punha em jogo, que frescura interior deixava vêr, e que indomavel paixão de juventude! Do quintal, Arthur e quem estava, applaudiam deslumbrados; Judith tinha soluços nervosos, toda vibrante na emoção magnetica d’um arco assim movido; Albano apenas, impassivel, limpando a calva apostolica, bem bom! bem bom! sorria um pouco do successo.
Percebera elle o que se estava passando entre a irmã e o artista.
E com um certo riso fazia reservas prudentes, ficando calculadamente a distancia d’aquellas expansões. A rabeca sómente, nas passagens idyllicas de Judith com o esculptor, por Albano adivinhadas ou surprehendidas, ousava em surdina fazer o seu commentario ironico, e dar o seu parecer disfarçado, traduzindo pela vibração chorosa ou risonha, o pensamento occulto do rabequista. As conversas de Judith mais o esculptor, ella da janella, elle do quintal, eram o que ha de primitivo em arte de amar.
—Bons dias, que lindo tempo hoje, não está?
—Está, dizia elle.
—Rico para um passeio ao campo.
—Eu gostava mais no rio.
—Podia virar-se o bote...
E Judith fazia um adoravel gesto de medo.
Tornava o Arthur:
—Então o nosso homem, inda dorme?
—Qual! Foi para a escóla já.
—E a visinha nunca sahe d’ahi...
—Muito pouco! Com esta vista da janella, é como se todos os dias andasse duas leguas de campo.
Ou derivavam no eterno motivo:
—Ora veja como vão adiantadas as obras da avenida!
—Ah, muito! Ainda hontem a casa amarella, acolá adeante, estava em pé, e só lá vejo agora as paredes das lojas.
O esculptor punha-se a explicar a avenida, dizia o golpe de vista decorativo de quando ella fosse cheia de construcções, o palacio de crystal com as suas naves radiando da rotunda em cupula, torres nos angulos com janellas de balaustres marmoreos, arvores de sombra, palacios de mil architecturas, bazares scintillantes, estatuas e jogos d’agua...
—Para esse tempo, dizia Judith fazendo olhos tristes, já não sou viva, que pena!
Arthur phantasiava-lhe a brincar destinos de princeza, ter palacio entre parques, desenhado por Garnier, um _coupé_ tirado por cavallos brancos, um marido conde, que fosse loiro e a adorasse, e primeira ordem em S. Carlos. Vêl-a-hia atravessar a cidade em _landeau_, na primavera, ás tres horas, sob a tepidez d’um ceu amoroso, toda setim malva e plumas brancas, sem fazer caso dos cumprimentos d’um pobre artista como elle. Ella ria com esforço áquella ingratidão phantasiada, com um oh! de creança resentida. Apoiando no parapeito as mãosinhas brancas, ia-se debruçando para o vêr melhor; a gotta coral do seu labio tinha momosinhos rubros de quem chora—e calados n’um embevecimento, olhavam-se muito serios, com alguma idéa profunda e nupcial. Coincidia com estas tagarellices dos dois, uma preoccupação de Judith em se fazer senhora. Declarava todos os dias estar mais alta, ir engrossando de quadris. Viera-lhe uma febre de _ménage_, passava dias arrumando, desdobrando roupas, pondo _balayeuse_ nos vestidos usados, marchando como um _I_ para se dar o aspecto imperativo. Todo o seu empenho era representar uma dona de casa; e para isso, como via a mamã fazer, era admiravel desenvolvendo preoccupações, projectos, argucias e pequenos ralhos de cozinha. Viam-na atravessar os quartos com braçados de roupa, muito impertigada, o ar severo, e virar-se de repente a vêr se o vestido ia arrastando. Por não conservar os seus dentes _d’algum dia_, a pobre mamã tinha de comprimir espevitadamente os beiços, para chamar alto. A careta stereotypada nada tinha de captivante; pois assim mesmo Judith a imitava! Com creanças então, que adoravel miniatura de comedia! Judith pretendia adivinhar todos os incommodos ou appetites d’essas pequeninas poeiras, através das birras mais inesperadas. E mil peças, dançava com ellas, erguia-as ao alto esticando os braços, balanceava-as nos joelhos, estava constantemente a penteal-as, a beijal-as, a deital-as como uma Virgem, no regaço, a cantar para que dormissem, a despil-as, a vestil-as, a inventar-lhes incommodos, como pretexto para fazer brilhar as suas habilidades de pequena mamã. Se Arthur estava presente, estes ensaios para esposa eram mil vezes repetidos, exagerados e postos em relevo, n’um sentimento de pedanteria innocente. Por vezes, no meio d’alguma scena difficil, os olhos de Judith levantavam-se sobre o esculptor, havia n’ella um retrahimento de se vêr observada, e ia-se embora de corrida. Todas estas preoccupações se trahiam n’um tom encantador de caricatura, e contemplando-a, a gente pensava com finos prazeres de bric-á-braquista, n’essas figurinhas d’esmalte tão vivas, walsando no oiro das _bonbonnières_, fugaces, illuminadas no galante estylo pastoral do seculo dezoito. Mas não raro era tambem um esquecimento do papel, em meio d’alguma postura mais de proposito composta. Então a creança dava de repente um salto, uma risadita, e quebrado o encanto, reapparecia na sua graça plumosa e ingenua d’ave do paraiso.
Os momentos com ella repousavam o artista d’outros fatigantes dias levados na faina de procurar modêlos, fazer moldagens custosas, desbastar a rija constructura dos blocos; e mil attenções postas em bem ferir a estatua esboçada, retocar as coisas miudas da fórma, fremitos de roupas, serpentinado das carnes, todos os pequenos _tics_ d’onde resulta na estatua a volatilisação da vida. N’uma população degenerada por decrepitudes de raça, vicios de grande cidade, privações de pobreza e demasias de trabalho, o esculptor mal achava corpo que valesse a pena copiar. Na sua missão d’artista, em certos dias, era-lhe forçoso então percorrer os centros vitaes da população, os caes, os mercados, os arsenaes, os quarteis, os navios e as fabricas, a buscar entre os pelitrapos e _va-nu-pieds_ do trabalho, as fortes linhas harmonicas dos modêlos.
Era assim que se lhe deparava aqui um pé bem lançado e livre, no garoto da rua ou servente de pedreiro; além as espaduas e braços d’Atlas, estriados, membrudos, sob a camisola de lã dos catraeiros côr de cobre; torsos de damnados miguelangescos entre os forjadores das officinas; e traços de Antinos n’uma ou n’outra cara enfarruscada, adolescencias doces de punhos e jarretes, seios e gargantas fulvas como o bronze tonkin; pedaços de natureza nobre, descorrelacionados do resto e esparsos sem ordem nem logica, por figuras vulgares, amortecidas nos excessos da labuta quotidiana.
E as difficuldades para trazer ao _atelier_ qualquer d’esses donos de um trecho vivo de esculptura, artimanhas a empregar, longos preludios de explicações, promessas de boa gorgeta, uma canceira atroz de persuasões e engodos! As mulheres escandalisadas do convite, injuriavam-no em pleno mercado, rudes ferreiros riam-se d’elle com chascos; e poucos queriam seguil-o!
Alguns ao fim de quatro sessões ou cinco, fatigados de pousar, abalavam e não vinham mais. E Arthur desapacientado, mortificado, nervoso, ulcerado de coleras, destruia o que estava feito, cahindo em longos tedios de ociosidade.
* * * * *
Arthur vivia como um asceta, sósinho em casa entre as ferramentas de officio, desenhos e gessos classicos, servido por um gallego extraordinario de avareza, e visitado por tres ou quatro amigos de seu pae, que raras vezes appareciam. Aos domingos, se acontecia haver numero, formava-se um chinquilho pacato, em que Albano era parceiro do gallego, contra o Arthur que fazia causa commum com o amigo Flores, _ártista_ pintor. Amigo Flores era o jovial folião, que os francezes já modelaram em caricatura, no zinco dos castiçaes baratos, com a palheta em riste e o seu chapéo de pluma derrubado á banda. Era um sêr filiforme de cara quixotesca, bigodes fluctuantes e pera em cauda de rapoza, alto, republicano e cheio de zumbaias, grande cabelleira ao vento, feltro derrubado, botina torta, e umas taes denguices com damas!... O orgulho da sua arte, forçava-o a attitudes photographicas, mão no peito e uma perna arqueando á frente da outra; ou então descoberto, como quem pousa para a historia, tendo um ar sonhador, os dedos na gaforina que de crespa lhe nimbava a cabeça, olhos em alvo, como a meditar o plano d’um quadro. Quando o contradiziam, amigo Flores tinha a phrase:
—Não rebata as minhas asserções!
Era um jacobino temeroso, que nunca se cançava em referir os seus esforços pela grande causa.
Tomando a pera nos longos dedos d’esqueleto, fazia notar:
—Quando vier a nossa republica, a sua primeira obra será dar-me um beijo e dizer-me assim, obrigado, querido pae.