A cidade do vicio

Part 10

Chapter 103,804 wordsPublic domain

Tirar dos seus habitos um pobre velho; e ao cabo, fica-te para ahi deshonrado, sem ter quem te dê caldos na doença, e quem te reze na agonia. Pois foi o velho que a tirou da miseria, e da filha d’um reles almoxarife fez uma senhora. Inda essa mulher se gaba de ter sangue real nas veias. A mãe era _gansa_ de principe, não admira que a filha sahisse o que sahiu. O senhor não faz ideia dos meus tormentos, não faz! Basta dizer que apenas dormimos uma semana. E para nunca mais.—Tenho vertigens, está uma calma, e desculpas, desculpas, entrou a explorar-me, hoje tanto, ámanhã tanto, desprezos, más respostas, um ar de escarneo; e um dia, vou pedir-lhe perdão de joelhos, e expulsou-me, dizendo que eu era um labrego indigno d’ella, e que havia de fugir com o primeiro. Eu tinha já desconfianças horriveis; o senhor perdoe-me, é desafogo—mas uma noite acordo de repente e senti beijos. Desde essa hora foram-me a embranquecer os cabellos, de noites que passava a chorar, a passear na casa como doido, a morder a roupa para ninguem ouvir os gritos. Era um ciume, uma febre, uma raiva de a morder toda, de a arranhar no peito, de lhe puxar pelos cabellos, veja o senhor—mas que? se eu tinha dó de a magoar, pobresinha, que ahi anda agora sem ter quem na aconselhe, creança como é, ainda por cima maltratada de todos. Capazes são elles de lhe bater; que ha taes canalhas n’esse mundo!... Ai! um dia foram-se-me as duvidas, desgraçadamente vi. Expulsei-a, acabou-se; não sei como, expulsei-a! A gente perde a cabeça, tem momentos de não saber o que faz. Hoje, era differente. Emfim! Foi como se tivesse morrido. Até deitamos lucto, veja o senhor. Pois assim mesmo me explora. Sou-lhe preciso sempre, vem sollicitar o meu auxilio sem pejo, saca sobre o meu nome a quantia que quer, o Vianna tem ordem... E nem ao menos, muito obrigado. A perdição faz as mulheres crueis e sofregas. Tanto que fiz por evitar esta desgraça, tanto! Perdoava-lhe a primeira, seria com ella um pai, como d’antes.

Mas vicios, tenha paciencia, santa paciencia, em minha casa não!

Não! não! não! Antes degredado, antes cahir por esses barrancos bolindo de bichos, antes a morte sem sacramentos. Adeus, disse elle, pondo sobre mim os seus olhos supplicantes; não me despreze, não me queira mal, no fundo todos somos uns podres, mas vem-me um phrenesi por ella ainda hoje, ainda agora, sentil-o-hei toda a minha vida. É uma cegueira, é um castigo, é um destino, de noite levanto-me como doido, vejo-a em toda a parte, onde quer que vá, e por mais que faça para a esquecer. Fez saltar a tampa do cofre hispano-arabe, tartaruga e oiro, onde estava uma photographia sobre esmalte indestructivel. E n’uma especie de allucinação arquejante, de furia nervosa, ficou a olhar longamente o retrato, como se o visse brotar do medalhão, e pouco a pouco ir avultando, tornar-se palpavel... Fallava-lhe com palavras doces, como a uma creança, em voz baixa, cobrindo a figura de beijos, o olhar flambando d’amor.

—Que linda! Mesmo santa!—E n’um choro afflictivo, gaguejando: podias vir, vês tu, eu tinha lá coragem de te mandar embora! E assim, nunca mais, nunca mais!

Instinctivamente então, commovido por aquelle phrenetico amor de septuagenario, que o absorvia, tão grutesco de feitio, tão vil de expansão, cheguei-me ao cofre para vêr. Pobre velho ludibriado, assim bom de maneiras, com delicadezas de instincto a espaços rompendo da rude casca exterior! pensava eu... e n’isto dei um solavanco inesperado, reconhecendo a anonyma condessa da sombrinha japonesa, successo da praia na estação que ia, cocagna de toda essa mocidade roida e palaciana que dandynava fazendo cæcum á corte em villegiatura, raro e fino animal que o hespanhol andava mostrando, apreçando, explorando, offerecendo cynicamente, interesseiramente, como n’um bazar asiatico d’escravas. No espanto em que ficára, nem achei uma boa palavra que dizer ao morgado. Que? Era então a condessa, aquelle impudor de raça, aquelle alegre vicio vestido nos _magasins du Louvre_, cheio de attitudes Robida, com elasticidades de cobra cascavel, tão provocadora a fumar nas frescas manhãs de praia, entre as risonhas banalidades da alta gomma, assim descaradamente distincta, fina, e espirituosa como uma parisiense de Duez; era então ella a esposa de similhante alarve? Que _gaucherie_ de debute, realmente! E vinha-me o escarneo de tão desprezivel origem. Uma morgada da provincia, com creações de coelhos e magustos de bolota ás chaminés da herdade... Singular, como ellas cursam de repente a alta escola do _quartier Breda_, com uma canalhice tão chic, e sem largar o palminho de terra parvoneza. Vão lá descobrir n’esse _sourire chapeau rose_, um laivo sequer do gaspacho trastagano, vão! Francamente bom homem, ia mentalmente confessando para mim, ao considerar na obesidade amorosa do morgado—se fosse outra, condemnava-a por haver atraiçoado essa tua molle bondade de porco gordo. És uma bella pessoa, sem offender quem está. Todavia, eternisando comtigo a lua de mel dos bem casados, aqui para nós, a condessa ficava d’um grutesco... Ha coisas, tu comprehendes, que uma mulher de gosto não póde fazer sem compromettimento. Imagina tu, que ella entrava a nutrir matrimonialmente em parallelo comtigo, conforme é uso nos _ménages_ patriarchaes do teu districto. Diabo, diabo! Era obsceno n’uma senhora.

Punha-me então a imaginar a condessa no segundo dia de esposa, de pé no seu palacete de provincia, ainda em trajos de noiva, e acordando do seu somno de virgem, para repellir o amor d’esse homem vulgar com rebelliões de princeza captiva, transfigurada, inflammada, pedindo alguem que tivesse espirito, um ideal de cultura, e fosse bravo, dedicado e doce, com largas maneiras de senhor. E aquelle homemzinho de charrua, tão singelo e tão gebo, filho d’um creado, gerado n’um ventre de mulher de monte, herdeiro das boçalidades, grosserias moraes e joanetes paternos, tendo virtudes previstas na Carta, um compadre em Lisboa, e explorando o trabalho das aldeias com o ar de as proteger, terror dos candidatos, emprestando a juro, senhor de mãos grossas, com as unhas esmagadas, cabellos nos ouvidos e uma dôr sciatica pelas mudanças de tempo, pronunciando sem graça e rindo com dentes verdes; esse homem estaria ajoelhado aos pés d’ella, braços febris contra a sua cinta ondulosa, suores na careca, e tartamudeando monosyllabos de satyro decrepito. E via-o cheio de pretensão, fato novo, arrotando contos, dominado por um vicio de rapariguinhas novas e endurecido no egoismo dyspeptico dos viuvos, fazer cerco áquella pobre filha do almoxarife de coutada real, ambiciosa como todas as engeitadas de principe, cheia dos formilhamentos d’um luxo entrevisto em caçadas de côrte, espreitado pelas fechaduras, aspirado no rumor das festas reaes, no telintim das baixellas, em musicas de camara dominadas d’uma austera graça, nas _toilettes_ das grandes damas, scintillas de _rivières_ e voejos das ventarolas pintadas por Greuze e Galland, todos os requintes da alta vida, exagerados na pragmatica de palacio e fazendo cyclone n’esse espirito de gazella vaidosa.

E a vida de casados n’um horror de herdade, as janellas da camara nupcial abrindo sobre algum pateo de lavoura, cheio de carretas do captiveiro de Israel, ganhões em mangas de camisa assobiando ao gado que bebe, cães errando de lingua fóra, e a raza campina ao largo, ceifada, pellada, sem guarida, sem pascigo, sem arvores, anesthesiando a vista, carbonisada de sol, e pondo um oceano de separação entre esse insidioso caracter de mulher bella, e a nevrose scintillante das capitaes, por elle tão ardentemente sonhada. Por mais que fizesse, e por escrupulosa que fosse, essa mulher devia fatalmente vir a detestar o marido, tendo-o sempre deante de si, no _deshabilée_ do rendeiro que tem gazes e teme a apoplexia.

Depois o seu modo de ser amavel, de a abraçar mettendo de permeio um grande ventre tympanico, de lhe passar na cara tão branca e susceptivel, a torpe mão que mexia nos patacos da feria e na lanugem das crias; e uma falta de intuição, de nascimento, de gosto, que davam mesmo vontade de lhe ser hostil. Ella soffreu porventura estas coisas pacientemente, reconsiderava eu, com a esperança de Lisboa onde a tinham educado como uma princeza, interessada nas obras da intelligencia, recebendo todos os _vient de paraître_ da litteratura e da musica, vestida em Paris no meio d’aquelle deserto, cultivando plantas de estufa, fazendo Chopin a uma pequena galga que tinha, pela necessidade d’uma alma poetica que ao seu lado soffresse tambem, as inhospitas tristezas do abandono. Uma das coisas, vim a sabel-o depois, que a fizeram receber altas horas por primeiro amante, o secretario geral d’Evora, foi o vicio que o morgado tinha de arrotar, emquanto ella esmaltava de Nocturnos e bocados biblicos de Rubinstein, o religioso silencio perfumado da sua camara. Além de que, mettia-se-lhe em chinelos nos aposentos. Tamanho odio a ganhou desde então, que uma tarde, como elle não entendia as allusões, as ironias, os chascos, ella pôl-o fóra com um gesto de rainha. E a desvergonha de a querer a certa hora, nas satyriases da digestão, e sempre referencias de pae Grandet ás contas pagas, aos vestidos de seda postos de parte ao outro dia de recebidos, ás rendas de libra rasgadas em rompantes de surda colera; por fórma que a pobre ave sabia quanto custava por anno, quanto valia em cortiça, queijo grande ou lã de ovelha, o que era um tormento! E successivamente, mordida de irritabilidades hystericas, entrou a não sahir dos quartos, a não fallar ás creadas, a emmagrecer e a tornar-se pallida, com elasticidades de cobra, tons azulados de mãos, e essa deslumbrante alvura de lymphatica, sob cuja estatua tão fragil ha contensões singulares de caprichos, requintes de graça nervosa, e subitaneos repellões de impudor.

Desci a escada muito devagarinho, para não perturbar a adoração em que elle ficára, fui um bocado ao club. Passava um pouco das duas. Ninguem walsava; sob _abat-jours_ japonezes, as velas derretiam nas bobeches dos candelabros, em mesas de jogo abandonadas com fadiga, momentos antes; havia grupos nos vãos das janellas, grandes risos nos terrados, uma animação de homens fallando ao mesmo tempo. Na sala de leitura, o amigo Alvares gesticulando forte para um grupo de rapazes que esperneavam de riso. Perguntei:

—Que diabo ha?

—Ah, meu rapaz, que escandalo mais catita! Perdeste em não estar, perdeste tudo, vae carpir para o deserto a tua pouca fortuna, que não estás em graça.

—Mas é por força caso espantoso!

—Imagina tu que o Castro enfia pelo baile mais a condessa hespanhola em _toilette_ de espavento, uma sucia de brilhantes. Estava tudo cheio de senhoras, o melhor. Ora filho, mal a viram apparecer foi uma debandada geral! O director de serviço quer expulsar a mulherzinha, o Castro vae-lhe tomar satisfação, levanta-se algazarra... Ah, gostei immenso, que pagode! O caso é que isto anima-se. Nos mais annos uma semsaboria. Mas muito bom! E vou interpellar a direcção.

—E eu dormir, respondi apertando as mãos á volta.

Na rua vi Guimarães pae, thesoureiro do Banco, fallar devagarinho ao visconde Paredes, director e casca-grossa ventrudo, com meio kilo de berloques, que alcunhava a litteratura de peste publica, e enriquecera fornecendo mesclas ao exercito e falsificando os rapés. Quando passei tinha o Guimarães umas notas na mão, que mostrava ao Paredes, confrontando-as minuciosamente.

E ouvi de relance a voz ronronada do director:

—Está muito bom. Telegraphou?

—Vem reforço esta noite. Ámanhã de manhã, estamos-lhe em cima.

No dia seguinte, havia borborinho na praia, ninguem se interessava nos mergulhos da corôa, de grupo em grupo ia gente informar-se, tomar parecer, ou rir da indignação dos mais austeros patricios. Tinham-se descoberto notas falsas em circulação, consideraveis depositos nas malas do hespanhol, que meia hora antes fôra preso mais a condessa, deliciosa traquinas que se divertia em pagar com ellas compras principescas, por esses armazens de modas e novidades. Além d’isso, corria que muito boa gente se compromettera na empreza, algumas cinco prensas surprehendidas n’um palacio á Lapa, duas fabricas subterraneas que estavam trabalhando á entrada da policia; muitas pedras lithographicas com modelos de notas, carimbos de firmas falsas, ferramentas, tintas, uma escripturação montada, chapas de mil feitios... Vinham já os primeiros calamitosos ensaios de quebras fraudulentas com capitalistas fugidos, roubos mysteriosos que a policia tinha ordem de deixar impunes, o contrabando em grande escala, e duzias de moratorias especando uma geral desorganisação do credito. E a essa hora o morgado com o filhito pela mão, quita-sol entre os joelhos, de forro verde, um solideu de seda por baixo do feltro desabado, lá ia para a sua lavoira, recolhido no camisote de lucto, silencioso, cheio de ceremonias, e tendo o pensamento na bella codorniz que acabavam de engaiolar no Aljube.—Pobre homem! dizia eu, vendo-o partir no carrão. Ir para a herdade logo nos mezes em que não ha pastagem...

MADONA DO CAMPO SANTO

Um temperamento, este Arthur! Côres biliosas, intractaveis cabellos extraordinariamente negros, talhados á ninivita conforme a moda romantica dos _ateliers_. Na estatura composta e nos hombros largos, uma reserva trahia a alma dura, violencias, e insoffridos orgulhos. Nasciam d’elle langores e enthusiasmos de indole calida, pueris alegrias, terrores, fluctuações, desesperos e lacunas de caracter, que lhe tinham ficado d’uma mocidade escusa, e da educação cortada de contratempos. Abandonando as _troupes_ do café e os cenaculos de tabacaria e camarim, que fazem opinião sem a ter, de tudo riem e de tudo fallam, tudo julgando e em todos vendo meritos secundarios, elle afizera-se a illuminar o silencio da sua vida, com a luz d’um talento extraordinario e profundo.

Não tinha admiradores, nem amigos, nem discipulos. E incomprehendido, desconhecido, casmurro, sem a audacia de se impôr, nem paciencia de supportar o insuccesso, o seu coração desconhecia os lances da abnegação desinteressada, e sequestrado, intransigente, com os feros orgulhos do pão secco, e a tristeza furiosa dos que soffreram na infancia, mordia a gloriola dos favorecidos, comparando a sobriedade heroica da sua vida, aos ruidos de encommenda e prosperidade crescente de todos esses inuteis.

Assim, na impetuosa edade em que a vida do artista se inflora n’um _bouquet_ de impulsos cavalheirescos e espontaneos, sem calculos, agiotagens ou reservas, aquelle velho de vinte annos não dava passo sem palpar o terreno deredor, olhando as coisas com um sentimento de atroz analyse e ambição egoista. Um diabo apenas, sabia levar este solitario, interessar-lhe, insinuar-se, fazel-o rir.

Era o Albano, zingaro de escóla, dos que envelhecem a fazer o curso, sempre cabulando, encalvecendo, sabendo de tudo, não tendo conhecimentos completos de coisa nenhuma, e sentindo pelos regulamentos das aulas, desprezos que os graves mestres faziam pagar com reprovações e annos perdidos. Albano era um chupado de oculos fixos, com a sua careca apostolica de falripas temporaes, maxillas de cão rateiro, bocca sardonica com dentes de gume branco, e um corpo rachitico, corcovado, esgrouviando do fato pelas curtas mangas da nisa, e pelas pernas curtas das calças.

Os cafés conheciam-no pela grossa jovialidade, um rir nervoso que punha guinchos d’alarme ao canto das suas palavras, e o phantastico humor cheio de _pochades_, buliçoso e crivado de ironias, que lhe tinha valido a raiva d’algumas pessoas em bonita posição. Pelos atrios das escolas, essa figura torta servida por uma lingua damnada, punha má impressão, nos premiados sobretudo, onde a sagacidade do cabula teimava em diagnosticar os maiores herbivoros do curso. Citavam a sua phrase de todos os dias, ao encontrar conhecidos, dita n’um rythmo cheio de pausas, que por si já sibilava ironia.

—Bem bom! Bem bom!—Geito amargo n’um canto da bocca, e logo:—Então que escandalos?

Sem nada affectar, andava ao facto de tudo, sabia fallar em tudo, lia tudo, jornaes de sciencia, livros de todas as especialidades, poemas, romances, historia, critica, e musica de todos os auctores, porque é de saber que tocava maravilhosamente rabeca. Se lhe contavam o escandalo suspirado, sem o qual morreria de paixão, de inanição e tristeza, era vêr os guinchos de deleite em que entrava, e interjeições em que todo parecia bulir.

Encontrára uma noite o Arthur na _Brasserie_, palavras trocadas a respeito d’um chapeu de chuva esquecido, um jornal de gravuras folheado em commum, e ficaram conhecidos. O fato velho de Albano, inspeccionado com attenções minudentes, pareceu satisfazer o nosso homem.

E sympathisaram, tinham entrado logo a discutir, apertaram-se as mãos á despedida, e ás noites depois de jantar, eram certos na _Brasserie_ para o cavaco.

Pouco a pouco, as relações estreitaram-se quanto era possivel em indoles de sobrecenho, como estas. O mais expansivo era Albano inda assim, com as suas mordacidades cortantes, um largo desdem pelas coisas consagradas d’antemão, e a concisa formula sobre os celebres e grandes homens—que tinham todos sua perna podre, podendo esta ter apodrecido em varios pontos do individuo, na consciencia, na cabeça ou em regiões vergonhosas. E a esmiuçar biographias de condiscipulos e mestres, illustradas com os detalhes pittorescos das vaidades assolapadas, calinices _ex-cathedra_, e desenhos de typos feitos em ar comicamente grave, derivou d’ahi nos personagens mais em publicidade, politicos, litteratos, e dinheirosos influentes. Arthur que o ouvia regalado, em silencio, completou-lhe as vistas criticas, esfibrando então com as glotonerias d’um homem posto de banda, as individualidades da arte, que o outro conhecia pouco; e fez-lhe a sua vida artistica, como antes de estudar em Roma tres vezes fôra preterido nos concursos de pensionista, como vindo do estrangeiro com amplas provas de artista tinha achado hostilidades entre irmãos d’armas, dentro da academia mesmo, e por amor d’ella nos jornaes. E sem recursos, n’um paiz pobre onde os amadores d’arte ornam as salas com oleographias, e as galerias, escadas e vestibulos com gessos e cães de faiança, elle referiu a sua inhospita miseria n’uma agua-furtada de Santos, faltas de modêlos, desalentos e orgulhos desprezados. N’essa causa commum que faziam, chegaram a estimar-se, indo cear economicamente de quando em quando.

Era d’ordinario n’uma taberna do Bemformoso que tinham logar estes festins com canôas, n’um cubiculo pintado de verde, com reposteiro de ramagens, bico de gaz ao alto, e um gato amarello enorme, de collete branco e ar caricatural, que ronronava molhando nos pratos as suas barbas mephistophelicas. Muito especial alli o vinho, um grosso vinho pintado de roxo que alem de servir para marcar roupa, afogar baratas e trazer ictericia a quem se lhe affeiçoava, possuia a inolvidavel magia de dar talento aos actores do Principe Real que o aproveitavam assim por todas as fórmas, na tintura dos cabellos, na collagem das barbas postiças, em injecções e banhos geraes, reviviscencia da memoria, extirpação de callos, ou com sardinhas fritas nos entreactos... Nunca o taberneiro se cançava em fazer o elogio historico do fabuloso elixir.

—Lá em Torres, o lavrador é muito entendido na arte, e homem de todo o aceio. Em apanhando os vinhos na conta champa com elles p’ra dentro d’um tonel novo, onde está um carneiro morto com tripas já se sabe, tudo muito bem lavado. E alli se desfaz aquelle carneiro, n’aquelle vinho, até restarem só ossos. Deixa afinar aquillo muito bem, e sempre digo aos senhores que fica um balsamo mais sustancial! Os freguezes engordam todos que não sei explicar.

—Olhe cá, dizia o estudante, de que morrem as gallinhas cá na estalagem?

—Mas de faca.

—Não se me finja carrasco! Quando desenterraram esta, coiso?

—Que diz o senhor?

—Vá! Em principios do mez passado li eu no jornal o convite da familia para o enterro.

N’estas ceias discutia-se tudo, o Oriente, as doenças de cerebro, mulheres, quadros, aguas de Cabeço de Vide, Beethoven, os coelhos albinos, e quem sahia visconde ou casava rico. Albano que achava a litteratura decadente na área latina, tinha uma adoração por Balzac. Balzac e Beethoven! E o seu olhar fuzilava e o seu coração batia. Havia uma coisa egual a escrever a Comedia Humana, era ter composto a pastoral e a Symphonia Heroica.

Fóra d’isto, nada. Pintava Rastignac desafiando Paris na sepultura fresca de Goriot, e o avaro Gobseck dilatando as pupillas de tigre contra os diamantes d’Anastacia. E essas duquezas de grande ar, dando bailes de rainhas, lançando os amantes nos grandes cargos, enchendo Paris da sua belleza, corroendo a sociedade com o seu espirito e phantasia, aladas, deslumbrantes, desprezando as leis, jogando, empenhando, descendo dos fastigios ás vergonhas, sublimes e vis como a carne em que se insculpiam, punham na cabeça do estudante um intangivel mundo feminino, a que elle dava as suas paixões, os seus formilhamentos e furores de homem. Amar a femea da rua dos Fanqueiros depois d’isso, era uma profanação de ideal. Eis porque ficaria solteiro. E se o outro gostava d’amendoas torradas?

O Albano ia vêr Arthur todos os dias, com o seu cachimbo operario ao canto da bocca, o livro da vespera debaixo do braço.

—Bem bom! Bem bom! Então que escandalos hoje?

—Aquelle idiota do G. que partiu uma perna.

—Ora até que afinal! respondia Albano esfregando as mãos. E como quem fundamenta o seu odiosinho: não era senhor de lhe offerecer um calice, que não acceitasse logo. Bem bom! Foi castigo.

Se nas sessões parlamentares algum dos Castelares que alli grassam, vergastava em demosthenicas o ministro com grossa arruaça das galerias, se um condiscipulo soccava outro, ou qualquer vulto da sciencia fraquejava em conferencias, relatorios ou debates de especialidade, um prazer inexhaurivel fazia o Albano guinchar, bater palmas, n’uma satisfação radiosa e sincera.

E a face de Arthur refloria, parecendo a ambos que os desastres alheios os içavam em triumpho pelo mastro interminavel da fortuna.

Estes demolidores que esguichavam facecias lugubres sobre os immortaloides que nas saias da Academia, á sombra copada dos archivos, encalveciam a investigar da dentuça podre da rainha Catharina e dos bastardos de Sancho, elaborando memorias de estructura cornea; que faziam troça nas procissões e paradas, das mumias de guerra que viam com pompa, cavalgando ginetes e destingindo immorredoiramente ao som dos hymnos; que bandurreavam dos bilhostres politicos, dos oradores, dos paspalhões e obsoletas industriaes nacionaes—moviam processos scientificos d’escarneo contra essa rotina de paiz morto, rindo a ironia dos fortes, com ribaldarias cynicas de _triolet_. Era Albano quem fallava quasi sempre, inundando as ceias de canôas, com vinho e projectos de regeneração publica, decretos mirabolantes convergindo a resolver de vez, o insoluvel problema da vida portugueza contemporanea. Cada qual se punha então a dizer o que faria em chegando a ministro. Albano optava pela plantação da beterraba em grande, no que havia de gastar o quarto das receitas do Estado. E pequeninas grandes obras collateraes, por exemplo inundar a Europa de palitos feitos á machina, seis milhões por hora; pôr em arremate uns bancos de bacalhau por elle descobertos em Cabo Verde; enviar uma commissão de sabios á China fazer estudos sobre o rabicho... E sempre no fim: Olá, peixe!—Aquillo deixava o esculptor boquiaberto.

—Mas a arte, a sciencia, nada? perguntava elle timidamente.

—Quanto á arte, dizia Albano riscando a careca com a sua unha em garra, estou que daria resultado um conservatorio de musica e choral para os atuns do Algarve. No que respeita a sciencia, fundava em Coimbra uma faculdade anterior ao estudo das mais, a faculdade de pensar. Como vês, é maravilhoso, simples e facil.

—Ahi está o genio, notava Arthur.