Chapter 9
Sete annos se nos gastaram por ali, menos estranhos em verdade, menos difficeis e arrastados, do que o eu temêra, ao trocar, tão a subitas, cidades e amenidades por brenhas alpestres, tão desconversaveis á primeira vista. Tivemos tempo de sobra para nos irmos aclimando e afazendo, e haurindo poesia mesmo dos penedos, e estillas de mel mesmo dos urzaes. Mas tudo isso pertence a outro livro, onde algum dia folgarei de hospedar os meus leitores; chama-se por signal _O Presbyterio da Montanha_.
XL
Tem a solidão isto de commum com o silencio e a escuridade: espanta e aturde a quem n'ella cái; mas logo que o ouvido, desadormentado dos sons fortes, aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos, desoffuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caçar espectros de raios, phosphorescencias indecisas, que são como que os infusorios das trevas, descerrou-se o negrume em brilhantismo; a calada aviventou-se de dialogos; a solidão, que parecia o nada, é o theatro com o seu drama; é um mundo novo com um systema completo de existencias imprevistas e apropriadas.
¡Que admira! A solidão medita, e a meditação cria.
Os sentidos pastam só no que lhes offerecem a Natureza, a fortuna, o acaso; a divindade interior, a alma, tem commercios ineffaveis com o intimo e ignorado. S. João, entre os nevoeiros de Pathmos, divisa uma Jerusalem celeste; nas cogitações de Socrates, apparece o Omnipotente: nos extasis de Platão, reflexos da Trindade; nos calculos taciturnos de Galileu, firma-se o sol, volteiam os planetas; Colombo faz surgir do fundo dos mares a America; Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o hypogripho, o pégaso do vapor, magia, poesia, potencia escrava do homem, e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes, e amanhan talvez dos ares; a solidão cismadora, dá a Eneida a Virgilio; mostra a Linneu os amores e o somno das plantas; a Dante, o inferno; a Fourier, o paraizo terrestre; a Newton e a Laplace, o codigo dos astros; a Daguerre, os talentos artisticos do sol; ao Gama, o caminho do Oriente; ao soldado Camões, o da immortalidade; põe na mão de Guttemberg a chave do cofre das sciencias; na de Vicente de Paulo, a da caridade; na de Say, a da riqueza publica; na de Pestalozi e Froebel, a da escola séria e fecunda.
Assim como na associação está a potencia do effectuar, está na solidão a potencia ao descobrir, e a ideia germen do facto. Na solidão, a meditação; a acção, na sociedade. O progresso e a vida do mundo dependem da cooperação d'estes dois elementos antagonistas, como da attracção e repulsão a marcha das espheras; e tão fanatico é o fanatico do ermo, Brahmane, Esseno, ou Monje, que cifra tudo no espirito, como o fanatico da actividade material, que tudo cifra na materia. Este ultimo é elemento visivel e palpavel; aquelle, elemento imponderavel dos destinos humanos; e tão imponderavel e subtil, que muitos lhe contestam de boa fé a existencia, os influxos, a importancia.
Archimedes, a sós com a Natureza e com o seu genio, descobre os meios de destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas reflexões criadoras, no seu gabinete, como n'um antro, não sente o estrondo da cidade, já senhoreada dos inimigos; não acorda á voz do soldado de Marcello, que, de espada em punho, lhe ordena que o siga; sem o sentir é degolado. Cai a grande cabeça, irman entre irmans, no meio das espheras celestes que está architectando. Só de tão extraordinaria concentração podiam brotar os seus tão extraordinarios inventos e descobrimentos.
Lavoisier, outro dos martyrisados pelo materialismo descrente e brutal, depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança scientifica, condemnado ingrata e cegamente á guilhotina, ¿que é o que pede aos verdugos revolucionarios seus juizes? uma dilação de quinze dias. ¡Só uma dilação! ¡só de quinze dias! ¿para quê? para concluir trabalhos uteis á humanidade, que n'este momento o desconhece; rematados elles, já não terá pena de morrer. Recusam-lh'a; então caminha sereno a depôr no cadafalso uma cabeça maior talvez que a de Archimedes, e ainda na vespera coroada de loiros pelo Lyceu.
Tanto a actividade fecundante, recolhida por instincto para os penetraes mais sagrados do animo, d'onde se conversa em extasis com Deus e com a Natureza, com e Pae Omnipotente e com a Filha Formosissima, nossa irman, fica inaccessivel aos maiores cataclysmos externos, ás catastrophes das Syracusas, ao cahos, providencial porém medonho, de uma revolução franceza.
O homem que nasce pertencente á escassa familia d'este naturalista pae da Chimica, e d'aquelle geómetra pae da Mechanica, mesmo com os braços cruzados sobre o peito, mesmo com os olhos fechados, mesmo dormindo e sonhando, está servindo como operario; mas abaixo d'elle ha ainda, não menos veneraveis, os prestigiosos scismadores do mundo da Arte, mundo não menor, nem talvez, em ultima analyse, menos util que o da Sciencia.
André Chénier, especie de Lavoisier da Poesia, convocado tambem para o festim da morte, não é dos prazeres ephemeros da existencia que leva saudades;--bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente se lhe estava ali dentro formando, como em cerebro olympico, uma nova Musa gentilissima. ¿Quem lh'a revelára? A meditação solitaria, que sabe tudo, e tudo prophetisa.
¡Bonissima solidão! Tu és para a sociedade o que as tuas montanhas são para os valles: nas tuas entranhas se filtram, dos teus reconcavos rebentam, os genios possantes e profundos que vão derramar por longe a fertilidade. Mas tu não és só mãe ás torrentes caudaes; uma fontinha entre lapas, desconhecida, não se goza menos do teu favor. Sobre o pouco liberalisas dons, como sobre o muito; próvida para o immenso, próvida para o limitado. ¡Solidão, Egeria das almas eleitas! ¡solidão, buscada por Christo, abraçada por Jocelyn, adorada por Petrarcha, explorada em tuas minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de Volney, de Rousseau, do Infante de Sagres, de todos os videntes, de todos os descobridores, de todos os inventores, de todos os Baptistas! ¡Solidão, ninho das rolas como das aguias, perdôa, se eu não sabia ainda apreciar-te.
Só agora, depois de arrancado d'ella ha tantos annos que já a podéra ter esquecido, só agora é que decifro (se porventura não é miragem do amor proprio), que a seriedade austera e o sorrir melancolico da montanha vieram tão de proposito entremear-se na minha vida poetica e amoravel, como a primavera do Paço do Lumiar e as do Mondego.
XLI
Os meus sete annos da serra, só de longe a longe interrompidos por algumas breves excursões a Coimbra, e uma a Lisboa, contiveram forçados e sobejos ocios para eu pensar em alguma coisa mais duradoira e menos egoista que as rosas e os amores; direi melhor:--iniciaram-me um tanto nos segredos de outra esphera menos baixa, na qual ha flores tambem, mas que não murcham; ha tambem ternuras, mas que abraçam o genero humano.
O presbyterio, com a nossa bibliotheca semi-pagan, homiziava-se á sombra do templo do pastorinho S. Mamede. O campanario só chamava para a oração e para festas um povo que se não via, e que aos eccos d'aquelles repiques parecia rebentar da terra. Relogio, não o tinha; contentava-se de pregoar a saudação angelica nos dois crepusculos e ao meio dia. As horas, que são do tempo, desdenhava-as como alheias ao pensamento da immortalidade. O silencio era profundo e geral; seria sem quebra, se o não interrompessem as musicas da Natureza no ermo: os passarinhos por fóra das duas portas abertas da egreja, as cigarras nas oliveiras do passal regaladas no seu banho de sol, as rolas e os cucos no sobreiral de S. Sebastião, as aves domesticas no nosso pateo espaçoso, os grillos pelos silvados, os álertas dos gallos, os uivos dos lobos, os pios dos mochos pelas noites, o frémito do vento pelos pincaros do pomar, enclausurado e protegido com o tugurio no recinto de muros altos, e ás vezes tambem nos temporaes, pela montanha de heras de que se toucava entre platanos o portão hospitaleiro da vivenda.
N'este intermundio o que passava lá ao longe pelo Reino era quasi tão desconhecido como as occupações dos moradores dos outros planetas. Das raias da serra a fóra só tres nomes nos constavam ao certo, porque nol-os dava a collecta da Missa: de um Papa, de um Bispo, de um Rei; os parochianos que não sabiam o latim, nem a tanto chegavam, cuido eu; o que lhes não vedava serem muito boa gente, muito bons christãos e amigos da Patria, em que lhes constava achar-se encravada a sua montanha.
Povos de tão benigna condição, facil era, e gostoso, pastoreál-os. Homens tão montesinhos e sáfaros, mas ao mesmo tempo doceis, intelligentes e activos, grande obrigação era, além de dever civico, humano, e religioso, arroteál-os para um pouco de civilisação, ou para muito, se possivel fosse.
Agras e agerrimas são de si as entreprêzas d'este genero; mas por isso mesmo é que alliciam almas generosas.
¡Grande era, e excellente, a alma do mancebo Parocho!
Novas leituras, novos estudos, em razão de seu officio, se houveram de enxertar nos nossos anteriores conhecimentos, só poeticos pelo de mais. Pegaram ás mil maravilhas; ganharam extraordinaria força em razão da seiva que já encontraram prevenida.
Pelas suavidades da Litteratura vai bom caminho e muito direito para a Philosophia e para a Moral; por isso não sem razão lhe chamaram estudos humanos, ou humanidades. Devorámos com avidez de poetas as eloquencias de Bossuet, de Bourdaloue, e de Massillon; as obras dos Santos Padres, e á mistura as de quantos escriptores sociaes, civilisadores, iniciadores, e alvitristas sinceros, nos occorreram.
Uma vez lançado o espirito por este caminho, não pára; nascem-lhe as cubiças umas de outras; ambiciona e parece-lhe que ha-de abarcar infinitos:
_Jam modo non possum contentus vivere parvo._
XLII
¡Que poesia deliciosa não ha-de ser a que referve na cabeça e no peito de um colonisador humano: Cadmo, Amphião, Dido, Romulo, ou Cabet! ¡Que sonhos magnificos não havia de sonhar toda essa gente!
¡Pois um Fénelon a planejar Salentos!
¡Pois um Voltaire a fazer homens dos seus serranos do Jurá!
¡Pois um Goldsmith a conviver com o seu vigario de Wakefield!
¡Pois um Daniel de Foë a trabalhar com o seu _Robinson Crusoé_, e um Wyss com o seu ainda mais util _Robinson suisso_!
¡Pois o _Medico da aldeia_, o _Vigario das Ardennas_ e o _Cura campestre_ de Balzac!
¡Pois Bernardin de Saint Pierre com a sua _Arcadia_ e a sua républica de felizes!
¡Pois os Jesuitas domesticando os selvagens do Paraguay!
¡Pois um Henrique IV a scismar com a gallinha na panella de todos os seus subditos!
¡Pois Olivier de Serres a transformar com as amoreiras a selvajaria do Vivaret em vergel de afortunados!
¡Pois a parochia de Jocelyn!
¡E muito mais e melhor que a parochia de Jocelyn, o Bispado do nosso D. Francisco Gomes do Avellar!
Meu irmão sonhou tambem, e eu com elle por conseguinte, na procura da felicidade alheia; e parece-me que o nosso affinco perseverado em certos projectos competentemente amadurecidos, e de prestimo indubitavel, alguns effeitos plausiveis haveria dado de si; porque lá n'aquellas terras ainda hoje é grande a autoridade moral e a força persuasiva de um Parocho, sobretudo quando sabem e sentem que é bom homem; ser bom homem é em seu conceito a primeira das sabedorias.
Entraram-se porém dentro em pouco os tempos a cerrar; cresceram desconfianças no futuro; vieram-se avisinhando temporaes, que por derradeiro nos arrancaram tambem a nós, depois de dispersas pelos ares as nossas utopias.
Uma d'ellas, que de certo se teria realizado, sem contradicções nem bulha, era: que nenhum morador da serra, menino, nem velho, nem adulto, nem lavradora, nem ovelheira, deixaria de aprender as primeiras lettras; para o que, lh'as iriamos levar ás suas proprias aldeias em cursos nómadas e temporarios, concertados com as estações, e em harmonia com as lidas agrarias. Instruida a primeira camada, facil era, ou facil nos parecia a nós que seria, colhêr de entre ella mestres e mestras que pela modica recompensa de alguns punhados de grãos, uns arméos de linho, ou um tudo-nada de cobres, continuassem o ensino em suas terras.
¿O saber ler de que serviria, faltando que se lesse, e que valesse a pena de ser lido? Tinha-se assentado portanto em escolhermos, resumirmos, traduzirmos, simplificarmos, humanarmos, e, se tanto fosse necessario, compôrmos, opusculos destinados a darem aos nossos neophytos da religião da luz noções claras e exactas das coisas mais importantes da natureza physica, da religião, da moral e deveres mutuos; quanto bastasse de historia, e o mais que possivel fosse de carta de guia para cada uma das culturas, para cada um dos mistéres, já por ali empyricamente costumados, ou dos que se podessem com a boa vontade introduzir.
Uma typographia modesta, de um só prelo, bastava, e com um só compositor, que podia até ser um clerigo, para se não distrahirem os trabalhadores, facilitaria esta sementeira de industria e civilisação. Os pisões dos bureis, as mós dos moinhos, as galgas do azeite, e os fusos dos lagares do vinho, lá poderiam extranhar nos primeiros dias, verem levantar-se por entre elles um engenho que não deitava nem comida, nem bebida, nem vestido; mas não tardaria que descobrissem como tudo isso, e muito mais, dimanava milagrosamente da bemdita machina, a mais serviçal amiga de todas as machinas, de todas as artes, de todas as sciencias, de todos os melhoramentos, de todos os progressos, de todas as alegrias, de todas as verdades, de todas as consolações, de todas as glorias, de todos os arroteamentos, de todos os aperfeiçoamentos, de todas as conquistas.
A imprensa no ermo, a imprensa na Residencia parochial, especie de cabana disfarçada com limeiras e rosas, não podia deixar de ser uma imprensa util, séria, e dadivosa; e ¡lembrasse-se ella de o não ser! Gostava eu de ver como se avinha para isso com o pastorinho S. Mamede, seu visinho paredes meias, com a pia dos baptisados tão limpida, com a matta além tão inoffensiva, com as sepulturas aos pés a exhalarem paz e bom conselho, com os passarinhos a cantarem festa, com o sol franco por cima da cabeça a proclamar: «Vivei e amae: vede o mundo que eu vos mostro como é formoso; aproveitae-o, e glorificae ao nosso Creador.»
Os livrinhos de tal officina talvez não alongassem vôo até ás cidades (flôres de urze e amoras de silva não se levam ao mercado); mas abundariam gratuitos, inspirativos, e bemquistos, por todas as casinhas da parochia: por baixo dos tectos de palha ou lageas, como por baixo da riqueza das telhas rubras de valladío, ou da opulencia fabulosa dos tres ou quatro telhados moiriscados.
A estante do Ecclesiastico hospedaria fraternalmente entre os breviarios, o _Flos Sanctorum_, e as folhinhas de reza, estes opusculos do seculo. Os paes de familias os depositariam, depois de lidos, para se tornarem muitas vezes a reler, na papeleira por baixo do seu oratorio. O pastor os folhearia, ruminando elle tambem nos campos do espirito, no meio do rebanho mais bem tratado. O operario na sua officina mostraria com satisfação, entre a sua ferramenta, estes instrumentos novos, aperfeiçoadores dos artefactos e do artifice. As séstas de verão, os serões do inverno, ganhariam encantos com as leituras em commum; nos testamentos figurariam como verba, a par com maiores haveres, os volumes, que assim se iriam accumulando multiplicados pelos filhos e netos pelos tempos fóra.
Depois, os domingos, os dias santos, e os tempos mortos para a lavoira, ¡quão bem se não empregariam na cosinha, na sala da Residencia, ou na sacristia por mais espaçosa, explicando á boa gente, já avida de saber, e que affluiria a esses passatempos como ás romarias, o que elles não tivessem podido por si mesmos explicar! que para isso ali estava á mão como auxiliar, ao pé do prelo uma livraria copiosa, e continuamente acrescentada.
Aos ambiciosos do latim, do francez, da historia, das viagens, das noticias do mundo, ou mesmo da poesia, ali se dariam tambem com a melhor vontade licções, livros, conselhos.
¡Quem sabe o que em trinta, quarenta ou cincoenta annos, se não crearia por ali, onde tão pouco em tantos seculos se adiantára! ¡Que novos e prosperrimas culturas pelos valles e cabeços escalvados! ¡que fabricas, talvez, servidas por aquelles rios, por emquanto ociosos! ¡que augmento nos haveres, na população, na civilidade, na convivencia! ¡que festas novas entre estes montanhezes! ¡Quantas á imitação d'aquell'outras da Suissa em honra da velhice, da virtude e dos serviços prestados á communidade pelos corações bons, pelos espiritos eleitos!
O nosso amor proprio, tanto como a nossa consciencia, aspirava a peito cheio virações de Eden, calculando e preparando tantas venturas, e tão faceis de si, quando deveras se desejam.
Até já previamos, como consequencia summamente provavel de toda esta excitação, que umas terras assim, de que nunca se ouvira soar um unico nome distincto para além do seu ultimo tojal, viriam a contribuir como as outras para o lustre futuro da Patria, com talentos aproveitados em sciencias, em artes, em litteratura, em poesia.
Dilatei-me agora n'isto, porque me pareceu que não fazia mal ficar para ahi este pequeno rebate aos curas d'almas, que para a civilisação podem mais e muito mais do que se imagina, e do que presumem elles proprios. Assim se tratasse de os criar bem, de os instruir muito, de os escolher com escrupulo, e distribuil-os com acerto pelas parochias fóra de mão, em que tudo, ou quasi tudo, jaz ainda por tentar[5].
XLIII
Ora pois : estas meditações sociaes, a que só falleceu o tempo indispensavel para frutificarem em obras exteriores, que, ainda que não viessem a ser muitas, sempre seriam algumas, produziram todavia seu effeito benefico em nós mesmos. Tão boa coisa é de si a caridade, que, mesmo não aproveitando para fóra, unge e fortalece a alma em que se hospéda.
Aqui está como a brenha contribuiu tambem para me temperar com amores novos a indole poetica originaria; d'ali é que me tomaram raizes as temerarias resoluções, que muitos annos depois se haviam de manifestar, na criação de um Methodo humano de ensino elementar, e nos esforços para o diffundir e estabelecer.
Em summa: todas quantas aspirações benevolas eu vim a patentear nos dois livrinhos, que ainda hoje amo, _Felicidade pela Agricultura_, e _Felicidade pela Instrucção_, não foram talvez senão reminiscencias d'aquelle prazo da minha vida.
XLIV
Ora eu, como os leitores sabem, não vim com este escripto representar de grande homem, que ninguem o é menos do que eu, nem menos do que eu o podia ser; o meu unico intuito foi expôr lisamente e com verdade os factos, de que a mim me parece poder-se concluir com verosimilhança: que a fortuna e a natureza andaram concordes em sequestrarem da multidão, para o deixarem só e exclusivamente poeta e amante, o individuo de quem eu fui herdeiro, e de que agora em parte sou biographo desapaixonado; por isso declaro com igual sinceridade:--que a par com estas utopias beneficas e civilisadoras, a que o espirito de meu irmão se dava todo, cá no meu nunca deixaram de vicejar os outros generos de poesia menos alta e mais egoista, de que a indole e o costume me tinham feito necessidade.
A esses annos da serra pertencem pois, como já n'outras partes declarei, as traducções das _Metamorphoses_ e dos _Amores_ de Ovidio, muitas das bagatellas encorporadas nas _Excavações Poeticas_, a _Noite do Castello_, e os _Ciumes do Bardo_, ciumes que, dilo-hei agora de passagem, nada tiveram absolutamente que ver com os ideaes amores de que venho conversando.
D'esses annos a primeira parte permittia ainda largos horizontes de esperanças, que depois se apoucaram e denegriram com as vicissitudes politicas, as guerras civis, e as perseguições que lá mesmo nos alcançaram.
Meu irmão, tão devaneador de venturas para extranhos, e que para algumas logrou de feito contribuir, claro está que da minha se não descuidaria. Assim como elle o era para mim, era eu para elle transparente. Ainda que algum de nós pretendesse jamais ter para o outro uma sombra de segredo, baldaria todo o seu empenho.
Sabia elle pois, tão bem como eu, e sem eu lh'o dizer, que o meu espirito poetico no meio de tantas poesias anciava ainda por outra mais especial, que volteava á superficie de todas, como a mariposa que vai e vem de flores para flores, e, mostrando-se contente de as possuir, deixa todavia suspeitar que ainda não encontrou aquella em cujo seio ha-de cerrar as azas, aninhar-se, e permanecer.
XLV
Uma tarde de verão, que me eu estava acompanhado só de minhas cogitações, no que chamavam meu _Templo das Musas_, veio elle ter comigo, trazendo com alegria uma carta recemchegada de Vairão.
Era o meu afamado _Templo das Musas_ uma barraca engenhada de cannas, vimes e feno, quadrada, alta que se podia estar em pé, ampla que se cabia reclinado ao comprido nos bancos de cortiça que por tres lados lhe guarneciam o interior; ao meio de cada uma das tres paredes, uma janella de um só vidro, e outra egual na porta, davam entrada ao dia, á lua, ás viraçoes frescas, e aos rumores proximos ou longinquos da vasta natureza exterior. Pompeava esta solitaria e majestosa fabrica junto a um alto denominado da _Pedra Branca_, fóra do passal, e á beira do sobreiral de S. Sebastião; desafrontado posto, donde se descortinavam terras de quatro Bispados, com horizontes até onde olhos de aguia podiam ir. Era miradoiro, e era escuta tudo junto. ¡Quantas vezes d'ali não captavamos nós, poucos annos depois, o rolar dos trovões da artilheria na acção da Ponte do Marnel, e lá muito mais a longe, no cerco do Porto! ¡sons lugubres que vinham resaltando de cabeço em cabeço encher de enigmas e sustos a nossa descuidosa solidão!
Apezar de tudo, conservo saudades da boa da palhoça. Não havendo guerras civis, conversava sim tristezas, mas tristezas todas mansas, e com seus furta-côres de deleites e alegrias. Estava-se bem ali; e se occorria desejar-se por entre sonhos alguma outra coisa, era antes para que ella viesse enfeitar o deserto, do que não para se ir procurál-a fóra d'elle.
¡Tempos! ¡tempos! Tornei-me lá vinte annos depois; faz agora oito; mudanças até nas brenhas! Existia a mata e a capellinha; existia a Egreja e a Residencia; mas do meu _Templo das Musas_, nem vestigio: os invernos e os estios tinham-lhe devorado até o minimo colmo. Onde eu dormia ou scismava deleites, dominando do meu castello rosado pela aurora, doirado pelo sol, prateado pela lua, espaços infinitos... estavam outra vez as queirozes em pacifica posse do seu torrão, a vangloriarem-se talvez, com as abelhas, de terem afinal triumphado de quem as desterrára; e as ovelhas, vigesimas descendentes de um rebanho que pastava á roda de mim sem me ver, nem ideia vaga tinham já de tal edificação; sumia-se-lhe na noite dos tempos.
Antonita, a pastorinha que o guardava, já por ali não era. ¡Que linda voz que não tinha, aquella prima donna dos oiteiros! ¡que poesia de anjo que não desperdiçava só para a sua roca, e para os carvalhos! que a mim não me via ella, ainda que tão de perto me rondava o tugurio, nem eu me denunciava, com medo de intimidar o rouxinol; o mais que fazia era entreabrir subtilmente a vidracinha da parte onde ella cantava, para lhe estar por ali furtando melodias para os meus devaneios.
Perguntei por ella; quando cresceu, cresceram-lhe ambições, deixou o mato e as ovelhas; fez-se tecedeira; ao tear, cantava ainda tão alegre e innocente, como tinha cantado á sua roca de lan nos descampados; depois, um bello dia, convidou-a o seu anjo para ir cantar no Ceo; e desappareceu.
¡De todo aquelle idyllio tão vivo, só eu resto! Guardadora, choça, rebanho, passou tudo... Mal ficou este pequeno reflexo mortiço na pagina que estou dictando, e que tambem, ella mesma, d'aqui a alguns annos se ha-de apagar.