Chapter 8
«¡Delicias são, mas delicias que passam!» vocifera um incontentado. ¡Oh, que não passam! quando se cuidam idas, nol-as vem restituir a saudade. As proprias lagrimas, com que então as acolhemos, nol-as reverdecem; outra vez as gozamos, porventura mais formosas que no seu primeiro ser; e mais formosas e mais queridas sempre, de apparição em reapparição. Negue-o quem quizer; não se lhe inveja a philosophia. Eu por mim sei que tudo isto é muito verdade.
N'esta propria hora, já tão remota, me estou eu ainda saboreando, como presente, nos feitiços do meu Lago dos Cedros; sou um espelho que embebeu a visão, e já não a perde.
¡_O meu Lago_, disse eu! ¿e por que não? ¡se eu possui a pleno tudo aquillo, o possuo, e não ha força nem jurisprudencia que de tal me possam despojar! ¡Imaginavam os bons dos Conegos regrantes que eram elles os senhores d'aquelles dominios, _mea regna_!... e um sopro, que se levantou da parte do seculo, lhes sumiu todos os titulos de propriedade. Os meus não se escreveram em pergaminhos, e existem; e estão-se rindo de revoluções do mundo: _mea regnas_. ¿Sabeis porquê? porque a mim foi a Natureza, e seu filho o Amor, quem me fez a doação; e a elles, tinha-lh'a feito um chimerico direito regio sobre todo o solo, bens, e futuros, de nossa terra.
No dia em que os despediram, como illegitimos detentores de uma propriedade commum, perderem um gozo material; e nada mais perderam, porque posse espiritual, comparavel á minha, nunca elles a chegaram a tomar. Não era para elles que as aves cantavam contentamentos, que as arvores vicejavam esperanças, que as fontes murmuravam nomes de ausentes, que as virações calidas exhalavam phyltros, que os effluvios das flores namoravam, e que a solidão era povoada; tudo isto, quem o disfructava era o poeta, que o está ainda disfructando.
XXXVI
¡Que grande erro social, que nefando peccado de prosa, não foi: que na hora audaz, em que se arrancaram do solo os troncos seculares carcomidos e sêccos das Ordens religiosas, se não mettessem logo para o logar d'elles plantações novas, de optima qualidade, que tão bem haveriam pegado! Extirpavam um preterito que ensombrava e assombrava; bem era; ¡mas quantos queixumes e clamores se não teriam afogado á nascença, se logo semeassem, ali mesmo, futuros apropriados ás necessidades já conhecidas da presente edade, e das edades ulteriores!
¿Estes conventos-palacios, estas cêrcas-principados e paraizos, estas grossas rendas, por que se não applicaram a abrigar e manter, isto é, a salvar, recompensar, e aproveitar, poetas, artistas, e sabios, que são, cada um a seu modo, outros tantos solitarios por vocação, e que do fundo dos seus ermos encantam o mundo com prodigios? Não ha Religiosos que mais deveras honrem e manifestem a Potencia Creadora. ¡Como a convivencia quotidiana, de todas as horas, diurna e nocturna, com tantos engenhos e talentos variadissimos, fecundaria a cada um com o polen de todos! ¡Como o pintor influiria no poeta, o poeta no musico, o musico no estatuario, o estatuario no historiador, o historiador no philosopho, o philosopho no moralista! ¡Como os bisonhos reaqueceriam com o seu fogo aos veteranos! ¡e os invalidos, se os lá houvesse, encaminhariam com a sua experiencia ás aguias no seu primeiro adejar á borda do ninho!
Então sim, que todo este maravilhoso poema de Deus, chamado Creação, no qual todas as artes se travam e permutam em harmoniosa competencia, seria lido se traduzido em voz alta ás multidões; e em quanto o mundo physico se dilatasse em riquezas e commodidades palpaveis, haveria, aqui e acolá, grupos seriamente religiosos, que lhe estariam elaborando ares mais respiraveis para o espirito.
Não é, não é utopia; que o digam, e infinitamente _a fortiori_, os caudaes litterarios e scientificos, de que foi matriz a ordem Benedictina.
Depois de cahido o colosso monacal, sepultado no desprêso, quasi no esquecimento, e recoberto com montanhas de odios como o Typheu sob os promontorios da Sicilia, fôra valentia covarde hoje em dia, zêlo superfluo, e actividade ociosa e ridicula, restaurar o processo condemnatorio das Ordens religiosas, já trancado. Permitta-se-nos entretanto ponderar em proveito da ideia que aventavamos: ¡quão inuteis, comparados com estas congregações de sabios, de artistas, de poetas, não eram, por exemplo, aquelles reclusos de Santa Cruz de Coimbra! ¿Que beneficios lhes deveu o mundo em tantos seculos? ¿que vestigio deixaram da sua existencia? ¿que tradição, ao menos, de santidade? ¿Alcançámos nós ali algum successor de S. Theotonio, ou de Santo Antonio, d'este sympathico e popular Santo Antonio, que experimentou Santa Cruz e a refugiu por mal conforme ao seu espirito humilde e penitente? De todo em todo, nada.
Estava sendo um feixe de homens absolutamente negativos:--nem illustrados, nem ignaros; nem aristocratas, nem democratas; nem beneficos, nem maleficos; nem do povoado, nem do ermo; nem desconsolados, nem contentes; nem escandalosos, nem edificativos. Apenas tinham de vida quanto bastava para não serem enterrados. O seu Prior subia uma vez por anno á Universidade, a abrir como Cancellario a sala dos exames privados, e voltava para a hybernação. Mostravam a sua livraria, como os tumulos dos dois Monarchas: sem tomarem d'elles, nem d'ella, coisa alguma; mostravam o seu santuario, como a espada de D. Affonso I: tudo reliquias sem virtude excitativa; mostravam as suas quintas com desvanecimento, mas bocejando. As Imagens de pedra, lá fóra, na frontaria da egreja, geladas e immoveis entre ninhos e hervinhas floridas, não eram menos insensiveis do que elles n'este banho da Natureza tão viva e voluptuosa. Tanto lhes diziam já a elles as harpas eólias das ramadas, como os vultos de marmore dos quatro Evangelistas, ou das tres Virtudes theologaes, o do seu Patriarcha Santo Agostinho, ou os conceitos mysticos estampados pelos azulejos. Indifferença para o Céo, indifferença para a terra.--Viver tal não valia a pena.
Quando o anjo da espada de fogo os pôz fóra do eden, só poderam levar saudades do ocio descuidoso e farto que se lhes acabava; mas que deixasse nenhum vacuo a sua ausencia.... não deixou de certo. Não houve perda; mas podéra ter havido lucro, se, como vinhamos conversando, áquelle solipsismo de todo o ponto esteril, tivera succedido uma congregação nova:--a dos crentes no bello, a dos devotos das artes, das sciencias, da poesia; e dos que tecem coroas de luz para a civilisação.
¿Mas que digo eu _não houve perda_? assim mesmo a houve, e, se bem se considerar, não tão pequena.
Estes dominios arrancados ás Ordens religiosas, que lhes mantinham o seu cunho de perpetuidade, e os facultavam ao usofruto de toda a gente, passaram, pelo engôdo de quatro cobres, com que nem a pedra dos alicerces se pagaria, para a mão de um particular qualquer: um Silva, um Guimarães, ou um Vianna, que apeteceu palacio, hortas, e parque para a sua familia. Desde logo, trancados os portões a poetas, a amantes, a meditativos, dispersos os livros e os quadros, o espirito burguez começou por dentro a desfigurar tudo, a compartir, a amesquinhar, á sua imagem e similhança. Os Evangelistas, que escreviam tão attentos os seus livros havia tantos seculos, no estio á sombra das copas, no inverno á dos troncos, foram talvez dormir para algum recanto. O arvoredo, que só produzia meditações, produziu taboado ou carvão, e deixou livre a terra para crear mais algum moio de milho; o Maio levou tambem d'ali os seus ermitães, os rouxinoes, para onde houvesse menos especuladores e mais sombras, menos estrondo e mais Natureza, menos mundanidades e mais ninho.
Inuteis por inuteis, excusados por excusados, antes aquelles semimortos, a quem acabámos de matar, do que estes taes vivos; e antes mil vezes que todos elles, a nossa ideal republica de talentos e de genios.
¡Dá gosto a quem sabe dizer, como Christo ao Diabo, que o homem não vive só de pão, phantasiar o que haviam de dar de si estas novas colmeias, estes mixtos de gymnasios de exercitação, e Runas de repoiso! ¡os favos que ali se espessariam de poemas, de operas, de musicas populares, de romances, de historias, de philosophia, de sciencias, de tudo quanto ha de mais saboroso e nutritivo para a alma! ¡Como o soldado dos _Lusiadas_ seria feliz, e quão mais copioso testamento de versos de oiro houvera deixado, a ter existido no seu tempo um tal refugio! Poupava-se ao amigo Jáu o trabalho de mendigar para elle, e á velha Barbara o vexame de lhe esmolar da sua pobreza
¡E de Camões para cá, quantos até hoje, da sua familia poetica, que morreram á nascença ou se extraviaram e perderam, não estariam agora por cima das nossas cabeças a resplandecer!
¡A terra e o ar a criarem-nos sempre n'esta região de benção, e nós sempre n'esta plaga de maldição a desperdiçarmos! Só tres seculos depois de mortos advertimos em que ainda não morreram, e nos lembramos de lhes ir buscar uma pedra para monumento. A honra aos ossos, essa que espere mais dois seculos; não tem pressa; agora descança-se.
¡Pobre Camões! se a tua Santa Cruz, esse torrão inspirativo, onde tu mesmo havias poetado tambem nos dias da tua mocidade, fosse já então isto que lhe eu cubiçava nos meus entresonhos á beira do Lago dos Cedros, e te hospedasse com orgulho nas suas sombras, abastado, seguro, escutado, e applaudido de outros cysnes, não saberias ter suspirado no teu ultimo canto aquelle triste verso
_o gôsto de escrever que vou perdendo;_
nem aquella estancia, que ainda nos faz córar por nossos bisavós:
Vão os annos descendo, e já do estio há pouco que passar até o outono; a fortuna me faz o engenho frio, do qual já me não jacto, nem me abono; os desgostos me vão levando ao rio do negro esquecimento, e eterno sono; mas tu me dá que cumpra, ó grão Rainha das Musas, co'o que quero á Nação minha.
O que tu pedias á Rainha fabulosa das Musas, haver-t'o-hia liberalisado, sem rogos, a esclarecida previdencia da Nação, então devéras tua, e de todos os que, como tu, se desvelam pela engrandecer.
XXXVII
Assaz e de sobra tenho sonhado; levantemo-nos, que são horas de nos irmos chegando ao fim da nossa jornada.
Além de Santa Cruz, outros muitos sitios, onde o acaso me levou pelos arredores de Coimbra, e mais longe, vieram entretecer na tela do meu permanente affecto os bordados das suas peculiares inspirações.
As _Ruinas do Mosteiro_, por exemplo, nasceram da contemplação melancolica dos restos do convento de Santa Clara, á beira do Mondego[4], e de uma visita de passagem aos destroços de um cenobio de monjas, não sei já de que Ordem, em Moimenta da Beira.
As _Duas Palmeiras_, colhi-as n'uma excursão á magnifica matta do Bussaco.
A _Rega dos pomares_, deu-m'a ao descahir de um dia de verão a quinta suburbana das Setes Fontes.
A _Noite do estio_, passou-se me tal em realidade na quinta de Santa Margarida, n'um cedral que lá havia n'esse tempo, e já não ha, bem ao rés do Mondego. Era a noite (¡se podiam esquecer coisas d'estas!) era a classica noite da romaria annual do Senhor da Serra, quando bandos de peregrinos e peregrinas de longe, de muito longe, trajados de gala á moda de suas terras, enramados de verde, seguindo as violas, e alternando nas cantigas a devoção e os amores, veem pernoitar na cidade, pelas varzeas, pela ponte, pelas quintas, para seguirem juntos para a serra em começando o primeiro desmaiar de estrella na antemanhan.
Até a _Feiticeira_ (¡quem o crêra! crel-o-hão agora, porque de vergonhas ficticias ninguem se jacta) a _Feiticeira_ mesma teve, sob os enfeitos ou disfarces da poesia, o seu fundo de realidade. Morava a boa da velha n'um casebre escuro da rua da Figueirinha; tinha fama, n'esse tempo, de ser uma das sibyllas que melhor atinavam com os futuros, e com mais certeira mão pescavam o perdido nos abysmos do passado. Rira-me eu sempre de gente d'esse lote, e espanto-me hoje de quem se não ri d'ella; mas poeta, criado com os supersticiosos Romanos, amante e com tão poucas certezas fixas a que me apegar, disse um dia entre mim:
_................... quid tentasse nocebit?_
e dirigi-me para a nova Cumas, como podéra ter ido á tôa para outro qualquer passeio. Colhi prognosticos ruins; não lhes dei fé, mas sahi triste. O tempo (bem haja elle) os desmentiu de todo o ponto.
XXXVIII
Abraçára meu irmão, por muito livre e muito reflectida escolha sua, o estado ecclesiastico. Pelos meus gostos imaginais os seus; o parochiar nos campos, bem vedes se lhe não seria incentivo de ambições.
Não ha viver mais poetico para um espirito amante do remanso e do estudo, e avido de bemquerenças, nem mais talhado para dar largas a uma actividade bemfazeja; diziam-lhe que era enterrar o seu talento e saber; respondia que antes era pôl-os, se porventura os possuia, onde, embora entre humildes, melhor poderiam resplandecer; e que, assim como uma egreja entre mattos e casaes era mais egreja, que cercada de ruas e tráfego, tambem a eloquencia podia ser impunemente mais viva, mais caudalosa, mais remontada e mais pathetica, e sobre mais formosa mais efficaz, e mais eloquencia em todo o caso, entre os singelos filhos dos campos, do que entre os zombeteiros moradores das cidades.
A todas estas razões lhe acrescia outra, que elle não declarava, mas que eu bem sabia ser-lhe a principal: n'um presbyterio rustico, se o conseguisse, se nos devolveriam em commum dias, á feição d'aquelles que a leitura dos nossos poetas nos havia costumado a cubiçar.
Cumpriram-se-lhe os votos. A senhora Infanta Regente D. Isabel Maria o proveu no Priorado de S. Mamede da Castanheira do Vouga.
XXXIX
A 23 de Outubro de 1826 entravamos, com o alvoroço da novidade, e cheios de vagos projectos não pequenos, pela alpestre região ás abas da serra do Caramulo.
¡Nada mais avêsso ás amenidades que nos ficavam em Coimbra! ¡solo magro, ondado, mattagoso, ermo, roto de quebradas e algares, selvoso por intervallos, salpicado a longe e longe de alguma escassa póvoa recoberta de loisas ou de feno, e retalhado de rios e ribeiros profundos e pedregosos! ¡No descampado um passal, antiga quinta das Limeiras dos Condes da Feira, que ali se iam pelos verões montear javardos! ¡Ao centro do passal, e á beira da via publica, o templo de S. Mamede com seu adro arrelvado cingido de cerejeiras, platanos e nogueiras! ¡Por detraz do templo, emboscada, a residencia parochial! ¡Por detraz d'ella despenhadeiros até um rio, que o sol não avista em cada dia por mais de uma hora!
Repicavam os sinos dando as boas vindas ao novo Pastor.
--«¿Onde está a freguezia?» perguntavamos nós maravilhados:
_¿Qui teneant (nam inculta videt) hominesne, feræne?_
--«Dispersa, escondida pelos oiteiros, a uma parte e a outra, distancias muito largas.» O unico visinho proximo da egreja e do presbyterio era, lá para a orla do passal, S. Sebastião na capellinha branca, como que posto de guarda á sua profusa e rumorosa matta de sobreiros.
Solidão silvestre mais caracterisada, não quero que a haja. A poesia e as festas da serra (que nada ha tão desamparado que não tenha suas festas e poesia) só depois e com o tempo é que tinham de nos vir apparecendo.
Entrança tão desabrida infundiu-me tristeza; e o alvoroço em que o movimento e variedade da jornada nos trouxera, breve me degenerou em esmorecimento. ¡Se me vinham tão frescas e presentes as memorias, não só da cidade do Mondego, senão tambem da minha Lisboa natal, d'onde tão poucas semanas havia que eu sahira! ¡Vermo-nos agora de improviso sequestrados de todo o trato humano, em paragem na qual não havia porquê nem para quê numerar as horas, e onde a carranca dos sitios tinha um cunho tão profundo de immutabilidade, que o espirito se confrangia, e se gelava o coração!
Pela primeira vez ali o namorado da Natureza se amuou, e teve com ella os seus arrufos.
Se o permittis, ouvir-lhe-heis versos em que procurou desabafar:
A PRIMEIRA NOITE NA SERRA
_.................ibi hæc incondita solus_ _Montibus et silvis studio jactabat inani._
¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! Em solitario monte, que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte nada avistou jamais no amplissimo horizonte do mundo a tumultuar, de cidades a rir... n'este ermo ignaro, frio? mudo... aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo, ¡o meu presente e o meu porvir! Genio invisivel da montanha, de astros, de sol, o ceo te banha; o mar de longe te acompanha no livre cantico sem fim. Escada de Jacob da terra ao firmamento, a mansão tua é monumento da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.
Emquanto, em derredor do solio teu sublime, a baixa terra vil que a instavel sorte opprime, se volve, se transforma, e sua angustia exprime n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor, a variedades sobranceiro mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro, e do diluvio assolador.
Silencio e paz comtigo habita; o ermo é como o eremita; loucas vaidades não cogita; ama o seu rustico trajar; em apparente inercia ama que ferva occulto de seus affectos o tumulto, seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.
Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia: eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia, póde ouvir de tua harpa a casta melodia, e abrazar-se de amor e endoidecer por ti; sim; mas eu, frivolo, profano, á solidão extranho, affeito ao mundo insano, ¿que hei de esperar? ¿que tenho aqui?
¿Toda a minh'alma se entristece, e se confrange, e se ennoitece, ao ver que a sorte lhe destece de um sopro os aureos sonhos seus. Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto! sonhava mundo... ¡acho um deserto! sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!
Náufrago, perco a lyra em meio da viagem. ¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem, quem me resurgirá! Dos montes a linguagem... oiço... escuto... medito... e em vão quero entender; é como uns sons d'ignota fala; qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala, sem me abalar, nem me embeber.
¡Oh! ¿á minh'alma taciturna que importa, ó montanha soturna, que de perfumes sejas urna da terra erguida sobre o altar? ¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto, que o sol doirado, ao teu deserto mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?
Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo, ¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo, só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo, bramirei:--«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel! ¡são mais pesares, mais saudades, mais estro a arder em vão, mais visões de cidades, mais tentações a dar-me fel!...»--
¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores! ¡Tanto vate a ceifar louvores!... ¡Tanto moço a colher amores!... ¡Tantos loireiros e rosaes... E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado, qual roble que geme indignado, vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!
Assim ruge, baldão de vingativo nume, esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume; assim nos gelos sua, agrilhoado ao cume do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz. Só o abutre de eterna fome, que o grande coração algoz sem fim lhe come, responde em ais á sua voz.
Fenece o dia. ¡Hora jocunda, que eu tanto amava! ¡hora fecunda dos cantos meus! ¿porque me inunda nova amargura o coração? ¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre? a serra em luto se me encobre; a nocturna mudez duplica a solidão.
Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa. De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa; tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa, nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir de luzeiros um labyrinto. ¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto é vento em selvas a rugir.
Calae, fugi, ventos agrestes; sumi-vos, lampadas celestes; n'um seio a delirios já prestes não susciteis mais tentações. Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes... vós, astros, cifras de diamantes, O arcano me aclarae lá d'essas regiões.
¡Oh! se á minha razão, contradictoria, altiva, que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva, de vós, faroes do Geo, baixasse a crença viva, que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!... ¡se me volvesseis as ditosas esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas, com que se enfeita e esconde a Cruz!...
Tornar-se-me-hiam de improviso a solidão, em paraizo; a magua, em perenne sorriso; em alto cantico, a mudez; a mallograda lyra, o não colhido loiro, em harpa augusta, em palmas d'oiro; e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.
Delirios sempre vãos, fugi d'um peito enfermo; tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo; ermo para ambições, e inferno, e não ermo; para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo. Gentis phantasmas de cidades, vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades, como um esquife em aureo veo.
¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me, (embora em saudades me eu queime)! O somno, as vigilias enchei-me da vossa esplendida vizão. ¿Val o riso choroso as festas da loucura? vinde, guiae-me á sepultura, crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.
¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos, nem ecco respondeu n'estes covões ignotos. Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotos dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer; não, no silvestre seio vosso, nem de amenas ficções apascentar-me posso, nem menos as posso esquecer.
¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futuro sondou jamais o abysmo escuro? ¡Apenas chego e já murmuro! ¿O de que tremo acaso sei? Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados, aqui me aguardem, recatados, dias de estro e de paz, quaes nunca disfructei.
Se além, no presbyterio, humillima choupana, (Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana) mais que fraterno amor sollicito se afana em me afofar o ninho, a vida em me inflorar; se n'um retiro verde e mudo, por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo, sombras no estio, o inverno ao lar;
se a solidão que me apavora, sómente o fôr vista de fóra; se em seus recôncavos demora gente feliz, povo de irmãos; se do antigo viver, das crenças de outra edade, vestigios guarda a soledade; se poesia se vive entre estes aldeãos;
se a alegria, serena, isenta de pesares, como a fresca saude, habita os puros ares; se em toda a parte ha Deus, em ceos, em terra, e mares, se Deus em toda a parte a Natureza ri... coração meu, não desanimes, gozos que não prevês, e cantos mais sublimes encontrarás talvez aqui.
¡Ah! sendo assim, que importa a fama! Tambem philomela derrama sua harmonia ás selvas que ama longe de ouvintes e do sol. Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria que a viva, a lustrosa poesia de perolas que a flux borbóta o rouxinol?