A Chave do Enigma

Chapter 7

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¿A que veem sorrisos de estranheza? a dama era tanto, e o servo tão pouco, na estimativa da sociedade de então, e a Natureza tendia tanto por todos os modos, pela magia do amor sobretudo, para a realisação do seu bemdito sonho da igualdade humana, que onde ao villão falleciam azas de atrevimento para se remontar até á esphera da castellan, emprestava o amor as suas á castellan, para ella baixar até á cabana do trovador. D'ali subiam juntos á felicidade. A abelha rainha da colmeia, e o insecto que ella escolhe d'entre os seus adoradores, vão, dizem os naturalistas, consummar nos ares, longe do alcance d'olhos, o mysterio por onde o enxame se regenera.

Assim se ajudava com estas mui frequentes descidas das aristocratas a fusão das castas, e a restauração da dignidade humana. Talvez se possa presumir sem temeridade, que as fraquezas das grandes senhoras para com os seus subditos mais distinctos por gentileza, valentia ou talentos, não concorreriam menos para a demolição do feudalismo, que os monstruosos direitos dos senhores, ás primicias nos casamentos das villans suas vassallas.

Deixemos porém philosophias tamanhas, que não cabem em tão pequena historia, e tornemo-nos a ella. Só digo que a humilde consciencia que eu tinha de mim, nunca me haveria permittido abalançar vôo até á eminencia moral onde habitava Maria; e que, se a minha alma era, como talvez fosse, a que Deus talhara para a sua, muito bem fez ella em vir provocar o seu trovador.

Trovador, repito, e não cuido haver presumpção, nem modestia, se não verdade muito chan e muito clara, em appellidar assim o autor d'esta collecção; quando não, consideremol-a, se vale a pena, e comparemos.

¿Que era com effeito o nativo e desartificioso trovar da edade média? falo do trovar namorado, e não do guerreiro, nem do satyrico; falo do que se comprehendia sob a denominação de _gaia sciencia_, e que dava assumpto ás discussões e sentenças das famigeradas _côrtes de amor_: era um verdadeiro trovar; uma caçada á ventura, sem guia nem itinerario, pelos campos da phantasia e do sentimento.

A elegia dos Gregos e dos Romanos, começára chorosa, e passára, sem mudar de nome, a interpretar igualmente os desejos bem succedidos; e as festas do coração. A _gaia_, ou folgasan, _sciencia_, pelo contrario, tendo devido começar, como o seu nome o inculca, por celebrar as boas fortunas, foi por natural pendor descahindo a pouco e pouco para a tristeza, para a saudade, para a desesperança, que vieram por derradeiro a constituir o habito e principal caracter da poesia da edade média.

O cantor apaixonado era o proprio heroe dos seus cantos. A historia que celebrava, em termos vagos, mysteriosos, sem referencia a nomes certos de pessoas nem logares, não era d'estas que podem ser vistas em quanto se operam; não se compunha de actos exteriores; corria toda no mundo dos espiritos; entrevia-se apenas sob um veo de mysticismo, muito similhante áquelle com que a linguagem theologica obumbrava os mysterios da Religião; percebia-se sempre pelo fundo da scena ir e vir uma figura de mulher, encarregada de algum papel singular. ¿Mas quem era ella? Ninguem o affirmaria. ¿Amava? sabia-se que era adorada; sabia-se que o merecia; nada mais.

O espirito do adorador attrahido, mas ao mesmo tempo intimidado, pela auréola, esvoaçava-se-lhe em roda, ora mais perto, ora mais longe, esperando e desesperando, impondo silencio aos sentidos, e cilicio aos appetites, sem de todo os poder domar; feliz como um anjo, infeliz como um demonio; invejando toda a especie de glorias para merecer, invejando a paz dos mortos para descançar; maldizendo e apertando os laços; misturando, como as creanças, o riso com as lagrimas; e não admittindo para confidente senão as arvores e o vento, os rios, as flores, e as estrellas.

Tal foi o trovar nas eras juvenis dos enthusiasmos, quando os homens que não eram cavalleiros eram poetas, os que não eram poetas eram menestreis; quando a mulher na Europa tinha um altar, e Christo na Asia um sepulcro, e a devoção d'aquelle sepulcro e a d'este altar traziam em fluxo e refluxo contínuo as povoações. ¡Extraordinarios tempos, em que a heroicidade era lyrica, e as fraquezas heroicas! tempos extraordinarios, resumidos em dois versos pelo seu chronista epico, o Ariosto:

_Le donne, i cavalier, l'arme, gl'amori,_ _Le cortesie, l'audaci imprese io canto._

Abstrahi do que se referia ás guerras dos Logares santos; recordae só os cantares de galanteio ascetico, e, sincera paixão do fim do seculo undecimo, do duodecimo, e do principio do decimo terceiro, se porventura os lestes; sentireis isto mesmo que eu vos confesso: que toda a presente poesia não parece senão um ecco tardio do cantar nativo e ainda inculto dos Provençaes. Não os conhecia eu ainda quando a compuz, nem me parece que se os conhecesse os tomaria para exemplares; mas o certo é que os meus amores se assimilhavam aos de muitos d'elles em mais de um ponto; e portanto, sendo eu sincero, como elles o tinham sido, era impossivel que a lyra em que eu improvisava, não gemesse, sem o cuidar, no estylo da mandora, da mandora pendurada ha mais de seiscentos annos no cemiterio das litteraturas.

Maria continuava a ser portanto para mim, ainda depois de convencida de existir, a minha nobre dama encantada no seu solar remoto e inaccessivel; e eu, o servo seu poeta, cantando-a só pelo gosto e pela necessidade de a cantar.

XXXI

A maior parte dos meus versos não lhe chegava ás mãos, nem mesmo apparecia ao publico, ou se revelava aos amigos. Recatava-os a ella, parte, porque os sentia inferiores ás continuas, tão gentis e tão admiraveis paginas das suas cartas; parte, porque aqui ou acolá desdiziam d'aquella virginal e santa pureza, de que a minha imaginação e a sombra do mosteiro m'a revestiam, e que realmente era, e foi sempre, um dos seus maiores attractivos; então aos olhos extranhos sonegava-os, e mesmo aos ouvidos dos intimos, porque me repugnava poder outrem espreitar para dentro do ninho das nossas almas. Amava só para mim; poetava só para mim; e poetava como amava: sem premeditação, sem esforço, sem reconsiderações, e sem emendas.

¿Bons tempos, que tão verdadeiros fostes, como vos desvanecestes? ¿como passastes vós, eternidades voluptuosas?

Compunha eu tudo isto como as arvores ora murmuram, ora rugem, ora gemem varrendo o pó com as ramas, segundo passam por ellas os zephyros ou os furacões. Toda a differença era: que a mim, as bonanças e as tempestades não me vinham de fóra; formavam-se umas e outras inesperadamente na phantasia.

XXXII

Aqui uma voz imperiosa da consciencia me intíma que não demore por mais tempo uma solemne reparação. Faço-a de joelhos abraçado a um cipreste. Concluida ella, espero que me levantarei da terra alliviado.

Os ciumes que obscurecem a ultima parte d'estes cantos, existiram sim;

_........quis enim securus amavit?_

mas causa, mas pretexto, mas sombra de pretexto para as suspeitas, nunca jámais a encontrei no pobre Anjo que eu flagellava. ¿Mentia eu pois? ¿Calumniava para ser algoz? ¡Longe tão infame supposição!

Houve delirios na minha alma, e reproduziram-se nos meus versos. Eis ahi tudo.

O meu amor era verdadeiro; e todo o verdadeiro amor é visionario, é supersticioso, é pessimista; e, similhante áquelles enfermos que preferem aos alimentos sãos e agradaveis, substancias amargas e nocivas, procura por uma tendencia irresistivel, desencanta, cria para si tormentos reaes, e com aquillo mesmo que o devêra destruir se vai cevando.

Se eu ouvia o caso de uma infiel, de uma enganadora qualquer, de que tantas se nos deparam nas historias, nos romances, nos poemas, nos dramas, e na vida contemporanea, perguntava-me logo, com terror, ¿quem me affiançava a lealdade de Maria? ninguem, senão as suas cartas. Então, esquecendo que a assiduidade, e sobretudo o estylo d'ellas, excluiam toda a razão de desconfiança, a poder de meditar no possivel, convertia-o em provavel, e do provavel me abortava o certo. ¿A paixão com que eu me lisonjeára nas horas desanuveadas e alegres, merecia-a eu porventura? Sabia que não. ¡Logo, que insensatez no contar com ella! ¡depois, a distancia! ¡depois, as suggestões da solidão, mais tentadora ás vezes que o povoado! ¡depois, annos preteritos que podiam ter semeado tanta coisa! por ultimo, ¡uma indole tão manifestamente inflammavel! Tudo, até as suas cartas mais ardentes, até a sua insolita deliberação de se me offerecer, tudo então depunha conteste contra ella no tribunal tumultuoso da minha alma. Os sonhos se me tingiam na cor dos pensamentos lugubres de todo o dia; e eu, carecente de noticias reaes e positivas com que os rebater, acceitava os seus embustes como revelações vindas, fosse d'onde fosse, mandadas não sabia por quem nem para quê, mas nem por isso menos attendiveis.

Sonhos, acceitos como prophecias, e meditações extravagantes como os sonhos, ahi tendes as unicas fontes d'onde rebentaram essas elegias tormentosas, que eu haveria queimado quando acordei e volvi a mim, se já então se não tivessem derramado por esse mundo.

Desabafei-me de um peccado horrendo; levanto-me, e prosigo.

XXXIII

O mais do volume dimanou puro e sereno do coração namorado, mas em paz. A essa procedencia é que eu lhe attribuo, conforme toquei no prologo, a boa fortuna que logrou; que outros merecimentos não lh'os posso descobrir, por mais que lh'os procure. Como eram taes affectos os que n'elle predominavam, por isso levou, e conserva, o titulo de _Amor e Melancolia_; _Melancolia_ não ha separal-a do _Amor_.

Affirma a Baroneza de Staël, com razão, que amor verdadeiro e alegre não cabe n'este mundo. Aos que levianamente a contradissessem, responderiamos com palavras tambem d'ella:--que ha mais gente habilitada para entender Newton, que para tratar a fundo d'esta paixão.

Eu por mim cuido ter sido do escaço numero: o amor pareceu-me sempre um prado florescente de primavera, mas coberto de um ceo triste. O mesmo se representava a Maria, e isso explica a variante do titulo da obra _Novissima Heloisa_, designação que n'estas alturas já dispensa outros commentarios.

O mais d'esta poesia, e muita outra a este modo, que depois se desaproveitou, (_trovas_, _tenções_, _solaus_, ou como melhor se lhe possa chamar) germinou com intervallos, ás vezes largos: que não foram tão poucos os annos que duraram estas relações. Ao longo d'elles, confesso que a intensidade do meu fogo não foi sempre a mesma. Não pode haver amor platonico sem um certo exforço da vontade; e exforços teem sempre isso comsigo: que o fragil da nossa natureza os obriga a remittirem a sua energia de vez em quando. Confessarei até que, se a minha vestal invisivel não fosse tão assidua em me velar a chamma, e alimental-a quando a pressentia enfraquecer-se, já póde ser que tivesse alguma vez chegado a apagar-se-me.

Emquanto o coração estava em férias, emmudecia a Musa; mal que elle a um suave toque despertava em sobresalto, recomeçava ella os seus cantares; e o amor n'estas ressurreições não era menos vehemente do que a principio o tinha sido. Quem não dissimulou aquelle vicio, adquiriu algum jus a gloriar-se d'este pequeno merito.

XXXIV

¡Os arredores tão poeticos da minha Coimbra conspiraram com o amor para se me florirem estes improvisos! O Penedo da Saudade, a Lapa dos Poetas, a Fonte das Lagrimas, o Ó da Ponte, os sinceiraes do Mondego, tudo sabia dos meus segredos; tudo, em me vendo chegar, me perguntava por ella e m'a pedia. Mas era especialmente o Real cenobio de Santa Cruz o meu grande manancial.

¡Quantos domingos de verão não voava eu sosinho para ali, a gosar curtas horas, mas tantas, que ás vezes se mettiam pela noite, tendo começado antes do meio dia! parecia-me que era para mim que D. Affonso, o Conquistador, e D. Sancho, o Povoador, que lá dormem como em casa sua, tinham edificado aquelle refugio; para mim só, e não para os Conegos regrantes, que D. Manuel e D. João III o engrandeceram e aformosentaram com tão regia, com tão prodiga bizarria.

Ainda hoje, como no meu tempo (ainda no meu tempo, como em seculos atraz), pombas, pardaes, e outros passarinhos, se aninham, contubernaes e familiares com os carcomidos Santos de pedra, pelos nichos da alterosa frontaria exterior, como em poisadas tambem proprias e muito suas, e amollecem com a sua presença amante e festiva a austeridade do monumento; emquanto os orgãos gemiam lá dentro, cantavam elles cá por fóra. Quando as rezas matutinas começavam a espertar eccos pelos desvãos das abobadas sobre as campas de marmore brunido, já elles tinham dado as alvoradas ás virações do Mondego seu visinho. O rebentar estrondoso das horas na torre proxima, não os assustava; os sinos eram para elles aves de outra especie, inoffensivas tambem, só com a differença de se estarem captivas n'uma gaiola alta, e cantarem mais elevadas coisas, e para mais longe, pela terra fóra e pelos ares acima, caminho do Ceo.

Na lyrica dos antigos poetas mesclava-se commummente com o folgar de festins e amores, quanto bastava do pensamento da brevidade da vida para mais avidamente se colherem as rosas ephemereas das voluptuosidades; aqui o fundo do poema era pelo contrario a melancolia saudavel, e as delicias mimosas da Natureza o seu accessorio.

Isto, que em breve sigla se lia no rosto do convento dos quatro Reis, ia depois encontrar-se em copiosissima profusão no interior e nos vastos dominios campestres da vivenda. É assim que n'um esmerado volume biblico, paciente lavor de algum obscuro Raphael da edade media, o frontispicio floreteado e doirado annuncia logo as maravilhosas paginas, em que o texto devoto irá manando todo por entre um perpetuo paraizo de primaveras, animaes, sonhos, e devaneios. É assim tambem, que no sorrir de um bom velho se resumem os castos alvoroços que lhe abundam pelo animo.

N'um festim opiparo toma cada um d'entre as iguarias e licores o que mais lhe desafia o paladar; a mim não me chamavam para Santa Cruz nem o templo, que deu brado em S. Pedro de Roma, e que Paulo III cubiçou conhecer; nem o santuario, orgulhoso museu de reliquias; nem a bibliotheca, assoberbada de sciencias sacras e profanas: ia girar á toa, e inebriar-me, sem ninguem saber, no dormitorio do _Silencio_; depois no da _Manga_, aviventado do estrépito de cascatas, que um sultão de Granada cubiçaria para os pateos da Alhambra. D'ali, escadarias de marmore, bem minhas conhecidas, me subiam para o meu passeio de predilecção: era o dormitorio de Nossa Senhora do Pilar.

Pintae na ideia um corredor immenso, largo, alto, abobadado, pavimento de lagedo, paredes alvas, luz copiosa por zimborios no tecto, e janellas amplas ao comprido de um dos lados; do lado fronteiro, enfileirae portas de cellas; ponde n'um dos extremos uma grandiosa sala vaga; no outro, rasgae um portão bipatente que dê sem subida nem descida para um terreiro ajardinado; postae á direita do portão, como porteira obsequiosa, uma agigantada magnólia a emborcar das suas enormes urnas de prata reviradas, olores americanos, que Marco Antonio pagaria por um milhão de sestercios para a sua Cleópatra; moldae todo o terreiro, á direita com arvores, á esquerda com um extenso e levantado viveiro gradeado, compartido em republicas de aves de toda a especie. Ahi tendes o passeio amores dos meus amores; ahi tendes o foco mais activo das minhas inspirações.

Eram as cellas habitadas; mas o corredor permanecia quasi sempre deserto e mudo, o que deixava as minhas phantasias em completa liberdade. Por mais de uma vez se me deu occasião de travar conhecimento com alguns dos religiosos; esquivei-a sempre. ¿Que tinha eu com elles, ou elles comigo? pelo contrario: necessitava de que nada me recordasse que elles existiam. Todos os seus cubiculos os tinha eu melhor empregado n'outras tantas virgens do Senhor. N'um dos mais centraes, fronteiro a uma janella de assentos, habitava Maria; D. Anna Lucinda á direita, no immediato. Voltado de costas para a janella, ou passeando por diante d'aquellas portas, distinguia, ora n'uma ora n'outra cella, as praticas de ambas; ouvia as suas conversações em voz baixa; deliciava-me com a doçura das suas falas, que eu não conhecia.

[Ilustração]

QUINTA DOS AZULEJOS (no Paço do Lumiar) Tal como era ainda em 1862

Das innumeraveis cartas de ambas, que eu sabia de cór, me raiavam para dentro da alma as intuições de tudo que estavam de parte a parte pensando, sentindo, dizendo. Era o meu nome o centro fixo, em torno do qual volteavam todas as suas ideias, como um turbilhão de planetas de Venus, scintillantes, mas celestialmente immaculados. Tinham-me comsigo, como eu as tinha commigo. Maria e a sua satellite se animavam com meu fogo, e m'o reflectiam virginisado; irradiação argentina e mysteriosa, de que se formam sonhos candidos, transpirações de um coração que se coagulam em rosas, sobre as quaes logo outro se reclina.

Eram estas visões tão claras, e estes extasis tão reaes, que bem provavam haver no mundo, como diz Shakspeare, alguma coisa mais do que os philosophos presumem; havia por força uma corrente e contra corrente de affectos sympathicos e harmonicos d'ella para mim, e de mim para ella; fluidos ethereos e celestes, que a Sciencia ainda não descobriu, mas que pelos effeitos se manifestam.

Dizem que entre o Mediterraneo e o Atlantico, por baixo das aguas que passam contínuas pelo estreito, repassam encobertas outras tantas; são oppostas as direcções; mas os impetos caudalosos são eguaes, e não se contrariam. Cada mar toma quanto enviára, e restitue quanto recebêra. As columnas do _non plus ultra_ ficam desmentidas. Os dois mares, graças a esta corrente e subcorrente, não são mais do que um só com dois álveos e duas denominações.

¿Estava Maria n'aquelle quarto? ¿ou n'outro, bem, bem longe? ¿Que importava esse accidente fortuito e impessoal? Longe ou perto, ali ou n'outra parte, estavamos, e sentiamos estar, em communicação directa. A corrente superior e clara, era para ella a dos meus transportes; para mim, a dos transportes--d'ella; mas ella e eu percebiamos não menos que enviavamos affagos, e que elles chegavam aonde se dirigiam.

¡Ai, hora incendida e imperiosa de um meio dia de verão! ¡hora em que os passaros se calam a dormitar a sesta debaixo das folhas mais espêssas, e as cortinas das alcovas se fecham! via-a eu estar-se recreando n'um crystallino banho de affectos, que eu mesmo lhe andára enchendo, que a sua amiga lhe toldára de confidentes sombras, e onde a vigilancia de ambas não deixava penetrar olhos extranhos. Aquelle deleite, de que eu era tambem autor, me endeusava.

Estava fóra de mim, sem saber onde. Por uma d'essas incoherencias que tão frequentes são nos sonhos, o logar era muitos logares ao mesmo tempo: era Vairão; era a Capital; agora, uma sala entre uma bibliotheca e um jardim; logo, um refugio campestre; e os moradores de cada um d'estes paraizos, sempre os mesmos dois, e mais ninguem. O phantasma das primeiras noites do laranjal de Almedina, era agora uma verdadeira donzella, vivente como eu, incontestavel como eu, que me falava, que me respondia em voz humana, a quem eu apertava e beijava com fogo a mão elastica e macia.

Se algum som inesperado me quebrava a allucinação, e eu, reconhecendo o dormitorio, advertia na imprudencia de permanecer tão pertinazmente no mesmo pequeno espaço, retomava triste o meu passeio longo e solitario da porta do terreiro até a da sala vaga, e d'esta até á magnolia.

A pouco e pouco me revertiam as fugidas illusões; as duas cellas tornavam a ser o meu sacrario, o meu palacio, a minha Cythéra. Mais cauteloso então o somnambulo, em vez de parar, afrouxava e emmudecia, quanto lhe era possivel, o passo por diante do asylo dos seus mysterios; applicava o ouvido da alma, e tornava a perceber, em termos sempre novos, e com circumstancias sempre diversas, as mesmas confidencias que o enlevavam.

Mais de uma vez aconteceu abrir-se inopinadamente uma porta no corredor, e sair... ¡um Religioso! Áquella apparição mal agoirada, dissipava-se todo o mundo phantastico; ¡era como se um abutre se tivesse precipitado sobre um bando de pombas! As sombras de Maria e Anna recebiam um suspiro saudoso já a vinte leguas de distancia; e eu sahía pelo terrado dos viveiros, subia o arvoredo da quinta, e ia procurar junto ao Lago dos Cedros refrigerio contra os ardores da febre, que indubitavelmente me abrazava.

XXXV

O Lago dos Cedros de Santa Cruz de Coimbra era (não sei se o será ainda hoje) uma das mais donosas curiosidades de Portugal. Parece impossivel que o riscassem assim para Conegos regrantes de Santo Agostinho, para successores de S. Theotonio. Que o traçasse D. João V para uma cêrca de freiras de Odivellas, ou Luiz o grande, de França, para se estar com Racine ou Molière, ou com as gentis collaboradoras dos seus romances, nada mais natural.

Era no cimo de um suave oiteiro, uma esplanada espaçosa, toda em derredor cerrada de uma alta muralha de cedros, tão a prumo, tão massiça e de tão renteada superficie, que não parecia senão muro solido pintado de verdenegro por algum Cinatti. Portas arqueadas, rotas na muralha a distancias eguaes, mettiam para alamedas seculares, que, descendo, e dispartindo-se, todas ennoitecidas, murmurantes, gorgeadas, cheirosas e ermas, iam buscar por outros pontos da cêrca novas amenidades, ou taboleiros de flores, ou fontes e repuxos, ou obeliscos de murta, ou estatuas devotas, ou inscripções meditabundas. Aos pés da muralha dos cedros corre um canapé rustico de porta a porta. O chão, atapetado de fina relva, abre-se no meio em um lago amplo e redondo, com sua ilheta ao centro, toucada de laranjeiras viçosissimas, a namorarem-se com toda a razão, verdes e doiradas, como o ceo azul, nas aguas crystalinas. Duas bateiras sem dono, mas que o amor e o prazer podiam com iguaes direitos reivindicar, são a flotilha d'este pequeno mediterraneo, d'onde, por mais que faça a circumfusa mystica do ermo, não logra desterrar umas não sei que lembranças e saudades da ilha de Chypre, e das nymphas que a imaginação grega enxergava por entre as ondas do Egeu. Ali ao menos é que eu ideára o _Banho das Graças_, descripto por Narciso n'uma das suas cartas; e ali é que eu devaneei o _Barquinho do lago encantado_, que vós lestes n'este livro.

Nos assentos de cortiça, ou no velludo do relvado, folgava de me estirar a sós com o coração ainda agitado das scenas do dormitorio do Pilar. ¡A taciturnidade do sitio, todavia tão melodiosa, vinha tão de molde aos soliloquios da Musa interior! Eu não pensava: borboleteava: deixava-me boiar na viração pelos dominios infinitos da alma, ora tocando n'um espinho e fugindo, ora poisando n'um jasmim e adormecendo.

Ha horas d'estas em que a gente senhoreia o planeta, e não é d'elle; em que tudo quanto é solido, isto é, duro,--fixo, isto é, estorvo,--temido, isto é, tirannia,--elementos de que se nos compõe a vida real a todos quantos somos, se afunde a pouco e pouco e desapparece, e um relampago de bemaventurança nos envolve com a sua luz visionaria. N'estas horas, em que nos vingamos dos positivistas, recambiando-lhes o titulo de doidos com que elles nos calumniam, forçamos nós o destino a servir-nos, como escravo docil aos nossos minimos desejos.

Fundia eu o possivel e o impossivel; corporificava-os; disfructava-os. Dos raios do sol fabricava palacios de oiro para Maria; das balsamicas exhalações dos cedros, mocidade perpetua para ambos nós. Conversávamos com os nossos irmãos passaros, perguntando-lhes se os seus ninhos continham tanta ternura como os nossos berços.

¡E haver quem deplore a vida como breve, guando n'ella cabem d'estas immensidades! ¡Grande ingratidão! ¡profundissimo desconhecimento!