Chapter 6
¡Mas então não sabeis que n'aquelle povoado ha tambem, a seu modo, uma Paschoa de flores, estreias de anno bom, fogueiras de S. João, dias duplices para regosijos, banquetes e alegrias de abbadessados, visitas ao locutorio, quanto mais raras tanto mais bem vindas, e em que o ermo e o mundo se confrontam de perto! e não é por certo o ermo o que mais se póde queixar do seu quinhão.
¿Que dirieis vós da monja, que negasse existirem passatempos nas nossas cidades, só porque os não via, e descriptos os não imaginava? Pois outro tanto podia ella dizer, se o não diz, de vós outros, que descredes da bemaventurança da sua cidadinha.
O cenobio, tal como o esboçamos aqui, existe em realidade; e contra os d'esta especie não aventamos que séria objecção possa pôr a philosophia humanitaria. São refugios para corações feridos, que em nenhuma outra parte o encontrariam; são asylos para muito desamparo da fortuna; são taboa de salvação para muito naufragio; repoiso para muito cançaço; gruta mysteriosa para muito animo poetico; seguro para muita innocencia; e se a Liberdade os não pode proscrever sem contradicção, sem a si propria se annullar, a philosophia, mãe, filha, e socia, da mesma Liberdade, o que só pode contra taes mosteiros, ou antes em favor d'elles, é exigir que os severos votos, aliás licitos em si mesmos, sejam soluveis, e se desatem apenas finde a vontade que os dictou; e que a prepotencia, a ambição barbara, calculos ou vinganças, não atirem para os pés do altar victimas consternadas, em vez de sacerdotisas radiosas.
Franca a entrada, franca a sahida, o mosteiro não ficará sendo senão a séde do contentamento, da virtude, da perfeição, e até da Liberdade mais ampla, mais inoffensiva, mais formosa, mais completa.
Apressemo-nos em confessar, que nem todas as clausuras se assimelham a esta que entrevimos, de que já existe metade, e de que a outra metade hade vir por certo, quando ressentimentos politicos emmudecerem, e a razão dos povos, desassombrada de todo o genero de preconceitos, for adulta e governar.
Não; nem todas as clausuras são assim; e contra as que assim não são, pouco nos magôa que a Philosophia troveje, e que a Liberdade se levante. O convento que amamos e defendemos, o convento que o bom senso applaude, que a natureza approva, que a cidade deve acarinhar, e o Céo cobrir com benção de prosperidades, está equidistante do convento fanatico, suicida, e assassino, e do convento relaxado, vicioso, onde impera, em odio aos ceos e á terra, o monstro execrado sob o titulo de _crasta_ na linguagem mesma das chronicas monasticas.
Estes ultimos (¡ainda bem!) dissolve-os a podridão interna; passam, e a sua memoria só fica subsistindo nos contos asquerosos da escola de Bocaccio e La-Fontaine; mas a vida d'aquelles, mais dura, mais resequida, mais resguardada, não se gasta senão muito lentamente.
A Religião e a Humanidade caminham sorrindo uma para a outra; logo que se encontrem n'um abraço estreito de irmans, para nunca mais se dividirem, aquelles institutos, que nem uma nem outra reconhecem por seus, ou hão-de desapparecer com todas as suas sevicias, como desappareceu a Inquisição, ou se hão-de converter á Natureza, cujas branduras licitas e bonissimas rejeitavam. Nunca mais uma triste mãe sentirá estalar-se-lhe o coração a fibra e fibra, vendo sumir-se-lhe para a catacumba de um claustro a filha mimosa das suas entranhas, creada com o seu leite, crescida entre os afagos, ufania dos seus olhos, bordão florido para a sua velhice. ¡Velhice! Que mãe, verdadeira mãe, poderia chegar até lá, dizendo-se a cada hora do dia:--«¡Nunca mais a posso ver!, ¡nunca mais a hei-de ouvir, se não fôr por sonhos! quando eu acabar de morrer, dir-se-ha no meio da communidade, silenciosa como espectros pallidos, e tremulos todos: _Resemos pela alma da mãe de uma de nossas irmans_; e nada mais, senão chorarem todas, suppondo-se todas orphans na orphandade que só é de uma.»--Á mesa, onde não vê sua filha, salgará com lagrimas o pão, porque a sua innocente, defecada da penitencia e dos jejuns, não terá, para matar a fome, no seu canto escuro e solitario, senão um pedaço de pão negro e duro, que o mendigo e o cão esfaimado de tres dias recusariam. Não poderá encarar com donzella alheia coberta de galas, e trocando risos de alma com toda a Natureza, sem logo se atirar de mãos postas, e debulhada em lagrimas, aos pés da imagem da sua ingrata, coberta de burel sêcco e mordente nas calmas do estio, descalça, apertada n'um cilicio, cortada das disciplinas, entregue aos mistéres mais trabalhosos e obscuros, definhando-se de semana para semana, com o coração já morto, com a alma já meio morta a pezar dentro na fronte pendida e despojada, ¡que não ha reconhecel-a! ¡e os olhos sempre no chão, á procura do sepulcro, que assim tarda! ¡Como dormirá e mãe, quando, encarnada pelo amor na pessoa da filha, cogitar (e cogita sempre) que a pobresinha nem tem, como a ovelha, um feno em que descance, mas pernoita vestida, ora n'uma taboa nua com uma pedra por cabeceira, ora prostrada em oração sobre as lageas regeladas do pavimento!
Arredemos d'ali os olhos; mas isto existe. O proprio Martyr Sublime, não n-o póde ver sem pena do alto da sua Cruz, Elle que proclamou que o seu jugo era suave, e que fez do amar a pae e mãe o primeiro dos seus mandamentos em relação ao proximo.
XXVII
Vairão era de antigos tempos uma das casas religiosas da especie média entre os dois extremos, uma das poucas em que as familias piedosas e discretas punham confiadamente suas filhas a educar, para depois as reconduzirem ao mundo, graves sem fanatismo, puras sem mingua na sensibilidade, mulheres emfim, quanto mulheres o podem sêr, anjos perfumados em paraizo.
Havia em Vairão outras educandas e seculares. Todas ellas, assim como as religiosas, davam a Maria a preferencia do seu affecto, sem que uma unica pensasse em lh'o invejar. É porque a doçura da sua indole fazia esquecer a superioridade do seu espirito.
Ás prendas manuaes, em que primava, reunia o gôsto da leitura, até algum tanto o do estudo, e a meditação reflexiva, que extrema em cada escripto, como em cada conversação, o verdadeiro do supposto, e o proficuo do prejudicial:
_Florigeros ut apes per saltus......_
Entretanto, dotada de um tacto verdadeiramente feminino, possuia a grande e difficil arte de se mostrar ao nivel do commum do seu sexo, quando mesmo as ideias que expunha desciam o vôo de mais alta esfera. Um veo de modestia, que ás vezes chegava a parecer timidez e acanhamento, temperava, por assim dizer, o brilho do seu saber, da sua imaginação, e do seu juizo, para não offender a miopía dos espiritos vulgares. Era-lhe até facil e usual o calar-se, simulando ignorar as coisas que melhor sabia, quando se arreceiava de humilhar a vaidade de quem quer que fosse; o que não tolhia que até as mais edosas a tomassem por conselheira, convencidas, pela experiencia, de que ninguem calculava com mais acerto do que ella, de que ninguem poderia guiar por mais seguro caminho a um alvo honesto e proveitoso.
O melhor da herança de sua avó e de seu tio, o poeta, reduzira-se a uma boa porção de livros, francezes, hespanhoes, e italianos, quasi todos escolhidos e de substancia, e classicos portuguezes. Devorára, relêra tudo, comparando, assignalando o que tinha por mais ou menos bom, e enthesoirando o optimo em volumosos cadernos de excerptos, que, folheados por um litterato de lei, para logo lhe revelariam o apurado gôsto da collectora. O francez, o italiano e o hespanhol, se lhe tornaram d'esta sorte familiares. Quanto á lingua patria, essa, tradição e gloria de sua familia, foi a que sempre lhe attrahiu particulares desvelos; e em verdade, que ninguem a conhecia mais por dentro; ninguem a tratava com mais acerto, graça, e facilidade. Não é louvor pequeno este, mesmo para dama, e dama em provincia; em nossos dias sobre tudo.
Sem pejo declararia eu aqui, se tal noticia podesse a alguem interessar, que do meu trato com ella é que principalmente se originou o meu empenho, não digo de classicismo, mas de vernaculidade em todo o caso. Não ha estudo, nem mais apetitoso, nem mais aproveitado, que o da fala da nossa terra, quando se tem por mestra uma mulher a quem se ama.
Ahi me ia eu agora desviando por um atalho que não convém. Tornemo-nos á educanda de Vairão.
XXVIII
Cuido que não haverá ledor que não tenha lá o seu livro predilecto, para o qual de todos os outros se aparte por natural tendencia. O escriptor mais do nosso peito pode variar, e varia, com as transformações da edade, da saude, da fortuna, das circumstancias; mas ha sempre um, com quem melhor nos entendemos; com quem nos parece conversarmos; com quem permutâmos o nosso espirito, porque nos entende, e o entendemos, porque nos parece vivo e presente, e o qual por derradeiro chega a encarnar-se em nós, e a influir nos nossos actos e na nossa vida.
A preferencia de Maria para as suas leituras, começadas n'uma pagina, e continuadas quasi sempre nos espaços imaginarios, não acertava porém n'uma só obra: pendia indecisa entre Petrarcha e Santa Theresa de Jesus. Eram dois caudaes brilhantes, ainda que tristes, que iam, patentes ao Céo um e outro, parar ambos n'um mar de affecto.
¿Que alma houve jámais tão namorada como a da formosa de Burgos, a não ter sido a do cysne de Arezzo? ¿ou que espirito sé haveria de equiparar, na doce melancolia da adoração, ao segundo Dante, mais sympathico, se menos colossal, ao poeta, não já do _Inferno_, mas do _Purgatorio_ e do _Céo_ do amor, ao bom Petrarcha emfim, se a Hespanha, est'outra Italia das graças e das paixões, se esquecesse de procrear a Matriarcha das Carmelitas?
¡Que espantosa similhança entre ella e elle!
São dois corações desmedidamente grandes, a quem não basta para os encher qualquer affeição terrestre e vulgar, e que só em flôres e fructos de paraizo poderão achar confôrto.
_Fulcite me floribus, stipate me malis, quia amore langueo. Loeva ejus sub capite meo, et dextera illius amplexabitur me._[3]
O Cantor tão religioso, e a Religiosa tão cantora, como que só teem de corpo e sentidos quanto baste para os reter na terra dos deleites ephemeros, e retardar a sua fuga para regiões de affectos sem limite.
Um e outro amam no intimo, pela delicia do amar, pela necessidade de amar, e sem pedirem mercê nem recompensa.
Um e outro fabricam da sua ternura, religiões attractivas, dominadoras, perduraveis: elle, a dos trovadores mysticos e fervorosos; ella, a das noivas para a eternidade.
Petrarcha tinha-se criado com as poesias voluptuarias da Roma classica: mas, de amavel pagão, que o estudo o podéra ter feito, se converteu em eremita namorado.
Theresa, segundo ella mesma se nos historía, seduzida nos primeiros annos pelos feitiços do mundo, dominada da turbulencia da phantasia, e escandecida pelos fogos da juventude, só muito a poder de exforços, só depois de muito bafejada pela Graça, logrou desenlear-se das vaidades, pegar e lançar raizes no retiro.
Ella e elle podem exclamar como S. Bernardo:--_¡O beata solitudo! ¡o sola beatitudo!_--porque para um e para a outra o ermo é egualmente povoado por um phantasma luminoso: lá, pela imagem de Laura; cá, pela de Jesus; dois verdadeiros ideaes dos amores ao mesmo tempo mais ferventes e mais castos.
Petrarcha, sabe que não ha-de gosar Laura em toda a vida; espera e anceia, como Theresa, pelas bodas celestes.
Theresa, desafoga a sua impaciencia, como Petrarcha, em jaculatorias tão mimosas, que a Esposa dos cantares se deteria para lh'as ouvir.
O POETA
Tennemi Amor anni ventuno ardendo Lieto nel foco, e nel duol pien di speme, Poi che Madonna, e'l mio cor seco insieme Saliro al Ciel, dieci altri anni piangendo.
Ornai son stanco, e mia vita riprendo Di tanto error; che di virtute il seme Ha quasi spento; e le mie parti estreme, Alto Dio, a te divotamente rendo.
Pentito e tristo de' miei si spesi anni, Che spender si doveano in miglior uso, In cercar pace, ed in fuggir affanni,
Signor, che 'n questo carcer m' hai rinchiuso, Trammene salvo dagli eterni danni, Ch'i 'conosco 'l mio fallo, e non lo scuso.
A RELIGIOSA
¡Ay! ¡que larga es esta vida! ¡que duros estos destierros, esta carcel, y estos hierros, en que está el alma metida! solo esperar la salida me causa un dolor tan fiero, que muero porque no muero.
Acaba yà de dexarme, vida, no me seas molesta; porque muriendo, ¿que resta, sino vivir, y gozarme? No dexes de consolarme, muerte, que assi te requiero, que muero porque no muero.
O POETA
Io vo piangendo i miei passati tempi, I quai posi in amar cosa mortale, Senza levarmi a volo, avend' io l' ale, Per dar forse di me non bassi esempi.
Tu, che vedi i miei mali indegni, ed empi, Rè del Cielo invisibile, immortale, Soccorri all'alma disviata, e frale, Él suo difetto di tua grazia adempi.
Sicchè, s' io vissi in guerra, ed in tempesta, Mora in pace, ed in porto; e se la stanza Fu vana, almen sia la partita onesta.
A quel poço di viver che m' avanza, Ed al morir, degni esser tua man presta: Tu sai ben, che 'n altrui non ho speranza.
A RELIGIOSA
Ay! que vida tan amarga dò no se goza el Señor! Y si es dulce el amor, no lo es la esperanza larga. Quiteme Dios esta carga, mas pesada que de azero, que muero porque no muero.
Solo con la confianza vivo de que he de morir: porque muriendo el vivir me assegura mi esperanza. Muerte, dó el vivir se alcanza, no te tardes, que te espero, que muero porque no muero.
¿Não parecem duas rôlas melancolicas respondendo-se lá do fundo de suas apartadas espessuras? E ainda n'este momento foi mais o cançaço da vida que lhes escutastes, do que verdadeiramente o impeto dos seus amores; esse é tal, que a muitos periodos da prosa da Hespanhola só falta mudar-se o nome de Jesus no de Saint-Preux, por exemplo, para se imaginar que se está ouvindo Julia de Wolmar; ao mesmo passo que muitos sonetos e canções do Italiano, trocado o nome de Laura no da Rainha dos Anjos, e encorporando-se n'um horario, muitos olhos devotos os regariam com lagrimas.
_Valchiusa_ ou, como dizem, _Voclusa_, onde Petrarcha passa tantos annos sonhando com o espectro, primeiro de uma viva, que não vive para elle, e depois, de uma defuncta que nunca para elle morrerá, Valchiusa é para todos brenha alpestre, cavernosa, brava, despovoada, mas é vergel e universo para elle, e o casebre do seu refugio, palacio oriental.
Outro tanto se figuram aos olhos de Theresa o escuro, o desconforto, a austeridade do seu mosteiro, e da sua cella.
Aos eccos da voz italiana sahida d'aquelle esconderijo, como de um vaso rustico um perfume precioso, todos os espiritos poeticos se innebriam, e lhe respondem, imitando-a; o Camões cá no Tejo é um d'elles. Ás melodias da Castelhana, cardumes de almas suspiram de toda a parte, e vão procurar nos cenobios as voluptuosidades da penitencia.
Ambos ficam sendo mythos: um, da perfeita idolatria tributada á mulher; a outra, da adoração perfeita, offerecida ao Salvador.
Petrarcha, emfim, apparece á nossa imaginação, qual Roma o applaudiu em realidade, cingido no Capitolio com triplice coroa; _ter geminis honoribus_; a corôa de hera, como poeta; a de loiro, como triumphador; a de murta, como amante.
Santa Theresa tambem a não concebemos senão tres vezes coroada: como escriptora e poetisa, pelos estudiosos; como virgem, pela Rainha das Virgens; como Santa, pela Egreja Romana.
Não maravilha que a leitura assidua de taes obras, e então n'uns sitios e edificios tão moldados para as fazerem resoar em cheio, elevasse a alma poetica de Maria até ao enthusiasmo. Não admiraria mesmo se tivesse feito d'ella uma fanatica. Felizmente não succedeu assim, porque a absorpção ascetica da Bem-aventurada diluiu o que tinha de excessivo e perigoso, nas tendencias mais suaves e humanas do Visionario de _Laureta_.
XXIX
A secular amava o convento pacifico onde se criára, e que era, por que assim o digâmos, a sua patria, e o seu mundo; amava-o sim, mas nem por isso deixava de se inclinar insensivelmente para outro viver mais liberto e amplo, sobretudo mais natural, mais completo para o coração, mais conforme aos instinctos femininos. De tudo isto é que resultou o ennamorar-se, sem saber como, de um phantasma de poeta, que se lhe revelára como dotado de uma grande faculdade de amar, e cujos gostos amenos, e facillimos de preencher, tanto com os seus se harmonisavam.
D. Anna Lucinda, a sua inseparavel e confidente (repisemos embora isto que ha pouco tocáramos) não se animou a contrariar-lhe a inclinação. Era freira, mas de grande juizo casado com grande virtude; não se assimilhava ás que parecem querer vingar-se do seu captiveiro, retendo n'elle, e attrahindo para elle com seducções de todo o genero, a incautas; portanto secundava, se não com exhortações, ao menos com o benevolo sorriso de amiga desinteressada, as visões mundanas de Maria. Autorisara-lhe a primeira carta; felicitara-a pelo exito que lhe ella surtira; deixara-a progredir; e fôra vendo com satisfação, ainda que não sem alguns longes de cuidado pelas incertezas do futuro, os progressos de um primeiro affecto, que de dia para dia se foi activando, até que chegou a verdadeiro amor, apaixonado e invencivel.
Ora, em quanto Maria, de quem eu por então ignorava quasi todos estes pormenores, vivia, sem que as outras lh'a suspeitassem, vida tão romantica no seu mosteiro, outro tanto, pouco mais ou menos, acontecia ao que tinha a gloria de lhe occupar os pensamentos. Se ella se havia comprazido de crear nos dominios da phantasia uma especie de Ossian, sem cans na fronte nem rugas no coração, e disfructava o nobre prazer de ser apontada como a sua companheira, a sua guia até aos cumes de Morven, a aurora da sua alma, a interprete da Natureza para com elle, e d'elle para com os homens; eu da minha parte queria-lhe como á minha Malvina, e não dava já um passo na existencia sem me acompanhar do meu phantasma candido.
Nunca então pensei em que d'esses meus sonhos acordados se podesse jámais fazer um livro, e muito menos que o houvesse eu em tempo algum de explicar, como agora estou fazendo.
XXX
¿Onde, quando, e como o compuz? ao acaso; por toda a parte; e sem me sentir. Não o poetei, trovei-o; menos ainda que isso: trovou-se-me elle, e eu colhi-o.
Em realidade, e em mais de um sentido, reconheço eu ao presente que estes versos se aparentam muito menos com obra de poeta, que de trovador.
¿Que eram com effeito, e que faziam, esses filhos prodigos do undecimo, duodecimo e decimo terceiro seculo, a que chamamos trovadores?
Era o trovador pelo commum um moço de phantasia e arrojados espiritos, nascido as mais das vezes n'uma choupana entre a floresta e o castello feudal. Ainda no berço uma cigana lhe lêra a _buena-dicha_, em que ninguem creu.
O unico livro em que solettrou foi a Natureza. O rouxinol, veio de proposito, mandado por Deus, um mez em cada anno, para lhe ensinar o canto; e quando elle repetia mais ou menos imperfeitamente essas lições selvaticas, a andorinha do seu beirado debruçava a cabeça fóra do ninho para o ouvir, e o animava a ir por diante; de cantigas de ternura, entende a andorinha como ninguem. Depois, a fonte prateada nas noites de luar o instruia nas sonatas argentinas da mandora; e as virações, depois de se terem detido no cimo dos carvalhos a escutar-lh'as, proseguiam o seu caminho aereo, comprazendo-se de as diffundir. Isto nos annos a crescer, mas ainda mancebinho, e ainda não trovador.
Trovador, sagrava-o de repente um dia a dama do castello, sem attentar n'elle nem lhe saber da existencia. Foi elle, que do fundo da sua humildade a enxergou na capella á Missa por manhan cedo, ou na caça, montada no seu palafrem branco, ou á tardinha, entre as aias, no vergel. Desde essa hora perdeu liberdade e alegria; fez voto de não querer a alguma outra; pediu á fortuna, a todos os Santos e a Virgem, não que lhe obtivessem mercê de correspondencia, que fôra temeridade e loucura o esperál-a, mas unicamente o fazer-se d'ella conhecido por seus cantares nas _côrtes de amor_, quando já não fosse por seu denodo contra inimigos. Este voto secreto, sem testemunhas na terra, ignorado d'aquella mesma a quem se referia, improvisava algumas vezes um heroe; mas quasi sempre um poeta, em quem o fogo da paixão suppria a sciencia e a arte, duas coisas que faltavam ambas n'aquelles Orpheus da Provença, obscuros fundadores da poesia de toda a Europa.
O ecco dos applausos, que lá em baixo no burgo animavam a nova musa elegiaca, pouco tardava que penetrasse até ao salão onde cavalleiros e damas se reuniam.
O castellão desejava conhecer o talento seu vassallo, que algum dia porventura lhe immortalisaria as proezas; o villão, não sem pasmo seu e inveja dos visinhos, era chamado para vir com a sua mandora entreter uma hora do serão de inverno. Na enorme chaminé, estralava a fogueira; de seus espaldares lavrados, as nobres o consideravam curiosas; ¿quem poderia dizer a cada uma d'ellas se lhe não estava destinado um papel na historia, ainda sem titulo, que por acaso se ia abrir?
O mancebo, em pé, de olhos baixos, na postura de um peregrino devoto perante um mausoleo de esculturas nobiliarias sob uma abobada de cathedral, começava a sua primeira recitação; se o effeito correspondia nos ouvintes á espectativa, o serão seguinte já lhe dava assento n'um escabello; tão insigne favor, redobrava-lhe posses ao talento; excedia os prestigios da vespera.
Ao terceiro dia abria-se-lhe inesperadamente o Capitolio; era proclamado pelo marido, pagem, ou escudeiro da senhora, que muitas vezes era ella propria trovadora tambem, como Azalais Porcairagues.
D'ahi ávante progrediam as coisas pelo seu álveo natural. A senhora era sensivel; a proximidade, tentadora; a poesia e uma gloria a nascer, mais tentadoras ainda que a proximidade. O pagem, a principio, contemplára com terror o abysmo que separava as duas situações. Voar da profundeza do seu valle natal até á altura vertiginosa em que se via, fôra um milagre; mas para se despenhar, sobrava a minima imprudencia. Era-lhe mister cantar o amor, sem denunciar a amada, nem a ella mesma. Mais e peior: era-lhe forçoso dizer muito, calando tudo; desconcertar ou prevenir suspeitas de rivaes, de invejosos, de cortezãos, e de soberbos; arrastar cadeias de bronze; como quem passeasse sôlto e alegre pelo relvado de um parque; ter a mira interior n'um ponto fixo, e a pontaria da bésta sempre n'outro.
Tão desinteressado, tão heroico servir, não escapava á perspicacia de quem o inspirára. É a gratidão uma ternura, que sem custo fermenta e se faz amor.
Um dia, não sei em que estação... talvez no estio, que é fogo; talvez no inverno, que é frio; no outono, que é melancolia; ou na primavera, que é amores; n'uma certa hora, d'aquellas em que uma estrella cai do ceo sem se entender como, um olhar da castellan baixava sobre o pagem, e lhe revelava a sua dita. D'ahi avante, eram dois segredos para esconder, em logar de um; eram dois infortunios occultos, fundidos n'uma felicidade ainda mais occulta. ¡Occulta! Nem sempre. ¡Que de tragedias, como a de Faiel, se não misturam com as festivas delicias na historia dos trovadores! ¡laudas de sangue por entre paginas doiradas!
Alguma vez, ainda que rara, era a dama que tomava n'estas difficeis declarações a iniciativa: Margarida, mulher de Raymundo, senhor do Castello de Roussillon, fez a primeira proposta ao trovador, seu pagem Guilherme de Cabestaing.