A Chave do Enigma

Chapter 5

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--Tu que exhalas de ti, qual vérte a rosa aromas, effluvios de prazer, universal ternura, Mãe das Graças e Amor, deusa da formosura, que envolves a nudez co'o veo das aureas comas,

Venus; pois que são teus os ceos, a terra, os mares, e até ás sombras do Orço abrange o teu poder, lança um propício olhar, Venus, aos meus pezares; do teu jugo me solta, ou dá-me emfim morrer.

Com tão cruel supplicio, ignoto á humanidade, ria teu filho em vão, tu, deusa, és mais piedosa. Ardo por uma pedra em chamma vergonhosa, perdi a paz e a gloria, o siso e a liberdade.

Qualquer ente alardeia ufano os seus amores: a ave, piando; o peixe, aos pulos pelo mar; o rebanho, mugindo; em cantos os pastores; e eu, Venus, só a ti ouso este ardor mostrar.

¡Quão menos insensato o moço do Cephyso se finou por si mesmo ao pé do espelho aquoso! Suppoz a sombra nympha; espera ser ditoso; cai no engano; perece; apiadas-te, é Narciso.

E eu, eu sei que a beldade, iman d'est'alma ardente, só a mim deve o ser; nasceu de minha mão; não me ouve, não me vê, não se condoe, não sente; não lhe pude formar lá dentro um coração.

¡Ó Venus! se ha mulher que eu possa crer retrato do immenso que sonhei compondo a Galatéa, revela-me onde habita a amavel Semidéa; assim teu filho Amor jamais te offenda ingrato.

Seja embora pastora, obscura, humilde, escrava; terá por choça um throno, e por captivo um Rei; e eu, já salvo da insania, eu, que a teus pés chorava, a ti uma hecatomba alegre immolarei.»--

Ainda bem não findára a prece, quando lhe pareceu notar nos labios da Immortal um sorriso auspicioso. O Cupido, que junto d'ella estava em pé, e que era tambem obra de suas mãos, agitou as azas de marmore, soprou as labaredas petrificadas do facho, que instantaneamente coruscaram, e rompendo por entre a cortina do incenso, que ainda envolvia a nympha, lhe lustrou com o milagroso calor a fronte, os olhos, as faces, a bocca, o seio, o coração. Ao fogo d'este segundo e divino Prometheu, a estatua estremece; a pallida brancura se tinge da côr da vida; o peito palpita; os olhos se voltam para o céo da Grecia, que logo os embebe do seu mais brilhante azul; baixam sobre Venus; ¡parecem attonitos! descem; ¡encontram-se com os de Pygmalião! duas rosas subitas se abrem nas faces; o sorriso, aurora de uma existencia de amores, alvorece em labios nacarados.

--«¡Filha dos meus sonhos!» «¡Galatéa!--» exclama o artista delirante, correndo a tomál-a em braços, ao vel-a descer do pedestal. «Galatéa, ¡filha dos meus sonhos! ¡se é esta uma nova illusão que Morpheu me envia, compassivo, mas cruel, possa eu não acordar jámais!»

¿Vistes vós alguma vez rasgar um dia magnifico depois de uma noite profunda? ¿Notastes como então sahiam do nada as amenidades das terras e dos rios, a animação e o movimento dos campos e das cidades, as côres, os cantares e as esperanças? assim, repassada a subitas de calor e luz pelo sol dos espiritos, pelo amor, a alma recemnascida de Galatéa adivinhou para logo a adoração de que era alvo. Comprehendeu a turbação que inspirava, pela que sentia. Viu nas profundezas interiores do seu ser, diaphanas como um lago limpido, a sua pureza virginal, a sua magica-branca, a sua suavidade irresistivel, o seu destino de ser feliz felicitando.

A turbação instinctiva de um pudor que a si proprio se ignorava, cobriu o rosto de Galatéa do mais amavel escarlata; abaixou a vista sobre si mesma, e não sabendo para onde se refugiar, mariposa attrahida da luz, voou para os braços do amante, escondendo o seio no peito d'elle, fechando os olhos para não ser vista.

N'este momento a Philoméla, occulta na folhagem de um platano visinho, entoou um brilhante epithalamio, e o hymeneu fechou as cortinas purpureas do aposento.

XXV

Despidos os accessorios esplendidos e sobrenaturaes, a fabula de Pygmalião reproduziu-se na minha historia; o simulacro que eu incensára e servira, o simulacro filho da minha imaginação, era emfim mulher; mulher amante, capaz de bemaventurar-me, e desejosa de o fazer. Só a Philoméla do platano, e o hymeneu, andavam ainda tão longe e tão emboscados nas brenhas do futuro, que eu mesmo não ousava crer-lhes bem deveras na existencia.

Entretanto, como a encarnação e os sentimentos do meu idolo para commigo eram innegaveis, começou logo a haver entre nós uma especie de semi-consorcio tacito; era já a communidade dos corações, se não era ainda a dos somnos, visto que o bom Ducis, chamou ao casamento

_Douce communauté de coeurs et de sommeils._

As nossas mutuas confidencias passaram a ser, por minha parte, o que por parte d'ella desde o principio tinham sido: reservadas inteiramente de ouvidos extranhos e curiosos. Com isso lucraram muito maior affoiteza, e um novo encanto, que nos concitou a ampliál-as de dia a dia.

Quanto é dado a ausentes conhecerem-se, conhecemo-nos. Pelas mutuas e circumstanciadas descripções que trocámos das nossas vivendas, dos nossos gostos, do emprego das nossas horas, e de todos os nossos pensamentos, podemos, como sylpho e sylphide, visitar-nos de continuo. Estavamos simultaneamente: eu junto d'ella, no seu mosteiro; ella commigo, no meu castello. Já não havia lá nem cá, ladrilho de pavimento, nem abobada, accidentes de luz ou sombra, movel ou planta, que nos não fosse familiar. Via ella gostosa ao meu lado, o irmão inseparavel que me excitava a querer-lhe, a amál-a, com a mesma espontaneidade com que me acompanhava nas outras excursões poeticas; eu, achava ao pé d'ella a Religiosa sua intima, que a vira crescer, que a estremecia como a filha e irman, que a ajudava com os seus conselhos, a protegia como Anjo da guarda, se revia na sua bondade e no seu talento, e que, apesar de não saber como viveria se a perdesse, nem por isso apressava menos com os seus votos o momento de m'a entregar.

Assim mesmo, ¡grande era na verdade a minha solidão! mas tenho que a de Maria era ainda mais profunda, poetica, e enamorada.

Ha uma natural propensão que nos leva sempre o desejo do que possuimos, para o que não temos, para o que muitas vezes não poderemos alcançar; a imagem de um ermo attrai o mundano; a do mundo dessocega ao eremita. São palpitações e adejos da alma captiva para o ideal. Somos assim. Se o não fôramos, ¿onde estariam os horizontes luminosos da alma? ¿Onde, como, e de quê, podéra crear-se poesia?

Eu, que tinha em redor de mim uma cidade, e a liberdade de me expandir para toda a parte, punha as minhas mais cordeaes delicias em me ir encerrar não pressentido, nem presumivel, n'aquella remota clausura. Maria, costumada a ella, sem quasi conhecer outra coisa, e devendo estremecer só ao pensamento de trocar o seu pacifico viveiro pelas extranhezas e perigos do ar pleno e sem limites, Maria, compunha agora lá os seus melhores devaneios no phantasiar outro viver, outro sentir, outros deleites, e de todos os deleites o maior, dizia ella, o de gastar a sua existencia em amenisar outra; ambição verdadeiramente feminil: ¡a abnegação absoluta!

Se viessem no futuro a citál-a como a socia, a guia, a auxiliar, a afinadora da lyra do poeta, e a serva ministra das suas festas, seria isso para ella um triumpho (mil vezes m'o repetiu). Mas, embora o seu nome viesse a esquecer de todo (acrescentava com uma effuzão de ternura encantadora), a certeza de haver obscuramente cumprido todo esse encargo, já lhe bastava para não trocar a sua dita pela de outra alguma.

XXVI

As abobadas de um claustro encobrem thesoiros de sensibilidade inapreciaveis, inexhauriveis, e bem mal avaliados dos profanos.

Cada um considera aquelles encerros mysticos á luz dos seus proprios preconceitos. Um espiritual, vê ali um alfobre de plantas para o Céo; uma terra de Gessen allumiada de cima pelo sol, no meio de um Egypto ennoitecido; um paraizo passageiro sotoposto ao Paraiso perennal, com a mais curta e directa serventia de um para outro. Ao incredulo, figura-se um pantano antigo de fanatismo e superstições. Um economista, lhe chama desperdicio anachronico de riquezas, de forças productivas, e de população. Um naturalista, execra, em nome da Natureza, que se ousem e se permittam votos de a renunciar; e, propheta de infortunio, commina, em nome d'ella, como infalliveis penas do desacato, as tristezas, as enfermidades moraes e physicas, as allucinações, os delirios, o definhamento, o envelhecimento no incompleto dos annos, a morte prematura. Finalmente, um romancista licencioso sonha, e se arroja a escrever os seus sonhos como historia, que o amor, bannido em vão d'aquelles recintos, em parte nenhuma é tão despota, tão insensato e monstruoso como lá. Segundo esses moralistas de abominação, os mysterios vergonhosos da deusa Bona, ter-se-hiam perpetuado ao abrigo e no seguro inviolavel dos nossos asylos religiosos.

Desprêso a tantos exageradores systematicos. Se um mosteiro não é Céo, porque o não ha nem cabe na terra, é um santo e bemdito refugio, onde muitas penas se atalham, e muitas se adormentam.

¿O caracter de contranatural, que acintosamente se exprobra ao mosteiro, existirá porventura, como se comprazem de declamar os seus antagonistas? Não de certo; no mosteiro feminil principalmente.

Se a felicidade terrestre, por outra, o contentamento, é o unico alvo racional, a que tendem por diversas vias todos os exforços humanos, ¿quem affirmará com a mão na consciencia, que a mulher do nobre no seu solar, a do burguez na sua casa, a do artifice no seu sótão, a do rustico na sua cabana, a do pescador na sua choça, para não falarmos de tantas outras mulheres sem poisada certa, sem familia, e sem sociedade, disfructam maior quinhão de ventura que as Religiosas? ¿Será tudo, será mesmo o essencial para a felicidade, o ter um esposo e ter filhos, esses dois bens, essas duas ufanias tantas vezes descontadas pelos mais pungentes cuidados, pelos mais amargos desgostos, e não raro pelo encurtamento da existencia?

«Possuem a liberdade,» dirão elles. ¡A liberdade!... ¿que liberdade? interrogae-as a uma e uma; não ousarão responder-vos; mas um involuntario sorriso triste vos responderá por ellas. ¿Quantas são das forçadas que remam n'esta galé mundana, as que não terão muita vez pensado com inveja no viver manso e sem estrondo d'aquellas solitarias, sem os cuidados do amanhan, sem as fadigas improbas do hoje, sem os arrependimentos e os pesares do hontem?...

Cada uma d'estas diversas operarias do futuro, colhe, é verdade, aqui ou além, mais ou menos abundante, mais ou menos imperfeito, algum deleite que o mundo nega ás cenobitas; ¡mas quanto não compra ella caro esses deleites, essas escaças compensações dos seus pobres destinos, que vós, philosophos exclusivos da população e da riqueza publica, chamarieis naturaes, se vos atrevêsseis!

A eremita, pelo contrário, privada d'estes gosos passageiros, está livre das sollicitudes que tantas vezes os precedem, os envolvem, os seguem, os descontam, os aniquilam.

As faculdades amantes de que se compõe essencialmente o ser feminino, não se anihilaram entrando para o ermo; exaltar-se-hiam porventura; e, se lhes faltasse emprêgo e alimento, devorariam afinal miseravelmente, e com medonha rapidez, as miseras depositarias d'esses dons celestes. Felizmente não succede assim. Ellas amam tambem.--«¿Amam?!» ¡Oh! ¡e quanto! ¡e quão bem! ¡e quão satisfeitas! «¿Ellas?!!» Sem nenhuma dúvida. Os seus amores são melhores que paixões: são simplices affectos.

Uma cultura especial, e o influxo dos ares que respiram, operaram n'ellas, sem as destruir, uma curiosa transformação: tinham nascido flores singelas para fructificarem vulgarmente; uma jardinagem milagrosa as converteu a pouco e pouco em flores dobradas, mais fragrantes, mais para cubiças. Do que originariamente havia de servir para a reproducção, fez petalas; fez viço; fez flor de flor: monstruosidade embora para o botanico e para o naturalista, mas ufania para a terra, e orgulho para a arte, que, sem destruir a natureza, logrou apresental-a com aspecto mais formoso. D'estas flores viventes póde coroar-se a Religião, que são dignas d'ella; póde inspirar-se a Poesia, que em nenhuma outra parte as encontrará tão celestiaes; e póde a Moral mesma comprazer-se, que tem n'ellas modelos perfeitos de virtudes, sempre raras, e cada vez mais recommendaveis.

¿Mas teimais em perguntar que é o que realmente amam estas mulheres? Tenho medo de que não chegueis a entendêl-o bem, porque eu mesmo, grosseiro, carnal, mundano como vós, não cheguei ainda bem a explicar-m'o. Para isto, falta-nos a nós todos um sentido, sentido sem nome, que descobre mil coisas subtis no mundo moral; a metade mais delicada da nossa especie é que o possue; as mulheres é que o saberiam explanar.

Se em espirito devassâmos a furto uma clausura, ¿que é com effeito o que descobrimos n'aquelle mundo tepido, tão suave, melodioso, e perfumado por dentro, como triste, áspero e mudo parece cá de fóra? A alteza dos muros, e as grades de ferro, têem razão: não estão ali para evitar a fuga; estão porventura para disfarçar a seducção do retiro, que, a ser conhecido, fascinava excessivamente; estão sobre tudo para rebater audacias de desejos impuros, qua a pureza mesma attrahiria, como o balir manso das ovelhas no aprisco está innocentemente chamando os lobos em seu damno.

Por traz d'aquellas gradarias severas, d'aquellas muralhas ameaçadoras, está uma cidadinha toda feminina, sempre em paz e em festa; paz talvez com leves quebras, para melhor se apreciar; festa sem tumulto nem estrondo, sem custosos preparos, nem recordações afflictivas.

Os dormitorios são bellas ruas direitas, calçadas de lageas polidas, e onde o silencio, amigo da meditação, se casa harmoniosamente com a sombra fresca, e deixa perceber o som dos proprios passos que vêem da extremidade opposta, como se até o andar tivesse ali a sua reflexão.

Por ambos os lados d'estas ruas, abobadadas como hoje as de Herculanum, e condecoradas cada uma com o gracioso nome de uma Santa, se enfileiram os modestos palacios das habitantes. As portas sem chave, á primeira saudação affectiva, ao minimo toque, se descerram. Descobre-se no interior a riqueza da desambição; um sorriso hospedeiro, que illumina tudo como sol; o leito alvo para os alvos sonhos; os paineis meditabundos, que a musa da lenda explica, ora em idyllios, ora em phantasticos romances, ora em tragedias gloriosas. Sobre a mesa sem espelho, a jarra de flores entre duas velas de cera alvissima, e alguns livros, d'estes cuja leitura se interrompe a scismar, e se continua mentalmente por uns mundos nunca vistos, em que tudo são maravilhas. Um pintasilgo saltitando e scismando tambem n'alguma coisa do passado, do futuro, ou do possivel, alterna suspiros e cantares, pendente do tecto na sua thebaidasinha de arames, enfeitada de ramos frescos; vê de um lado a arqueta do seu pão sempre cheia, do outro a sua cisterna de vidro, em que se mira como Narciso, em que bebe como a Samaritana, ou se banha na sésta como odalisca; em baixo, vê a sua providencia, que em fórma de boa amiga o considera, lhe fala, e interrompe os seus lavores, ou orações, para lhe atirar beijos. Emfim: a janella completa as magnificencias do palacete, juntando-lhe, como dominios contiguos, o vergel proximo, e o ceo, que pouco mais distante se figura.

Nas casas d'esta singular cidade, que o mundo não vê, e muito d'elle não quer ver, para mais a seu salvo a poder negar, ajuntam-se frequentemente assembléas, em que se não gosa por certo á moda de nós outros, mas se gosa não menos, e talvez mais, á moda do ermo: são conversações entre espiritos. Se as paixões vehementes as quizessem invadir, resvalavam-lhes pela superficie. Os affectos sim que as povoam, e constituem a sua essencia; é um papear como dos passarinhos n'um bosque ao principio e ao fim do dia; porque n'aquellas vozes meigas, ora transpiram os influxos de um crepusculo, que apoz as trevas se abre para um dia grande, ora os de outro crepusculo, que se vai a pouco e pouco fechando sobre as alegrias, para acabar na escuridão; mas, quer um, quer outro, todo o crepusculo tem rosas, todas as rosas teem amores.

Não se discutem ali, nem as novidades do periodico, jornal das modas dos politicos, nem os caprichos dos enfeites, politica das mulheres. Os eccos dos espectaculos, dos motins, dos escandalos, das heroicidades, das demolições e das edificações das outras cidades, das grandes, das Babylonias, ou não chegam até esta povoação, ou lhe entram tão amortecidos e como de coisa tão extranha, que nada ou pouco desconcertam a immutabilidade do pensar, e nada absolutamente a do viver.

O amor sensual é da Natureza, não ha duvida, e não entra ali; afugentam-n-o, exorcizam-n-o, como o demonio do meio dia e da meia noite; debalde o pobresinho se faz Protheu para as captar: agora cantando-lhes convites d'entre a copa de uma arvore, agora passando como viração que vem de ver namorados, e vai correndo por cima das hervas trémulas a espreitar outros; uma vez é som de flauta longinqua, que desperta suspiros por onde passa; outras, um nome de homem proferido ao acaso, palavra sem virtude onde elles abundam, mas ali occasionadora de devaneios; reveste a fórma de alguma coisa, de alguma pessoa, de algum sitio, de alguma scena, que se viu em quanto se andava lá por fóra, em que se ficou pensando, e que ainda na memoria do coração se não apagou.

Sim, sim; não ha negál-o: o Amor, ladeado das Graças, deve espreitar bem a miude, trepado nas grades exteriores, para o que vai lá dentro, como os passeantes n'um jardim devoram com os olhos as flores e moveis de uma estufa, ou como as pombas de Pygmalião lhe consideravam as frias e ridentes estatuas da officina.

¿Mas que mal faz isso? tambem as Amazonas haviam de ser salteadas, não raro, por vagas tentações voluptuosas. Todavia, a gloria de lhes resistirem, junto ás occupações que lhes enchiam a vida, as mantinha satisfeitas umas das outras, e ufanas do seu forçado celibato.

Toda a differença é: que as heroinas do Thermodonte, cortando o seio direito para melhor pelejarem, como que despediam de si metade da sua feminidade, e, endurecidas com a prática das guerras, se indemnisavam com a alegria de vencer a inimigos, dos deleites de serem vencidas por amantes; ao mesmo passo que estas amazonas pacificas da Religião, conservando inteira toda a sua sensibilidade, a enganam, dispartindo-a, furtada aos impetos da natureza carnal, por um cardume de objectos qual a qual mais consentaneo á sua indole delicada: é o trato das flores, que são suas irmans; é a creação dos passarinhos, que são, voadores do ceo, os irmãos de suas almas; o canto, exercicio de Anjos; é a caridade, enlevo do Creador; são as miragens infinitas da esperança; são as perdoaveis altivezes de um estoicismo temperado; são tambem os entretenimentos manuaes: ora de vestir e ataviar a santa Imagem predilecta, que para o coração suppre uma filha, ora de coser o enxoval branco para a creança que está para nascer na cabana visinha, ora tambem de seroar na grinalda de flores de laranja, com que se ha-de enfeitar no seu dia grande uma noiva muito amiga.

¿Que são os presentes que saem continuos d'aquelas portas, se não coisas todas formosas e suaves como a cera e o mel das colmeias? laminas devotas e scintillantes; doces de mil gostos, de mil côres, de mil fórmas; flores e fructos artificiaes, com que as abelhas se enganariam; aromas para toucadores e festas; cartas, mensagens, e convites quasi pueris na simpleza, e sempre rescendendo á innocencia mais sympathica e mais alegre.

O segredo de tantas e tamanhas branduras, por si mesmo se descobre: a mulher no trafego do mundo, se infiltra suavidade para o sexo forte, com quem convive, recebe d'elle em troca o que quer que seja de mais grave, que não quero dizer de menos extremoso; e uma beneficiação mutua e perenne, que a Providencia ideou quando partiu em duas metades a nossa especie; mas a mulher na convivencia exclusiva do seu sexo, mantem inteiras, completas, e no mais perfeito estado de graça original, todas as suas disposições nativas; é como a violeta, que emboscadinha á sombra conserva o cheiro subtil e o frescor virginal, que as mãos e o sol lhe estragariam.

A mulher aqui não é esposa nem mãe, porém não deixa de ser mulher, se não que o é em muito maior auge.

¿Não vos basta? ¿deplorais a encantada cidadinha por estar carecente de praças, de passeios, de espectaculos? Outro engano; outro engano manifesto: ¿pois não são donosas praças aquellas crastas arborisadas, com suas sonorosas fontes de repuxo no centro, e á volta majestosas arcarias á romana? ¿claustros guarnecidos de baixo a cima com azulejos de biblica erudição, não recordam os Porticos, em que os antigos senhores do mundo se espaireciam das calmas por entre estatuas e pinturas de suas fabulas? ¿não são passeios publicos, e mais apraziveis por libertos de constrangimentos, os jardins, os pomares, as frescas hortas da cerca? ¿theatro de espectaculos augustos, não o será o templo aos olhos da fé e da piedade? ¿não se representam ali em seus dias prefixos todos os lances da vida do Salvador, desde o Presepio até ao Calvario, desde o Calvario até á Ascensão? ¿todos os passos da Rainha das Virgens, desde a sua Natividade até á sua Assumpção? ¿todas as glorias dos principaes Bemaventurados? ¿Não é ali, no magnifico santuario, que entre a profusão de marmore, luzes, oiros, sedas, flores, incenso, resoam em musicas solemnes, que só o orgam é digno de acompanhar, os mais graves e poeticos pensamentos dos Prophetas, dos Apostolos e dos Doutores, e que, inspirando-se de todos elles, a eloquencia sagrada derrama a doutrina para a ignorancia, a esperança para os afflictos, os desenganos para os vaidosos? aos pobres annuncia thesoiros, thronos aos conculcados, festins eternos aos famintos, sobrecorôa aos Santos, invoca luz perpetua para os finados, e vôa, como o Dante, por uma espiral infinita, do fundo dos abysmos até ao cume do firmamento.

Cada festividade é precedida de longe pela ancia de a ver chegar, e deixa apoz si recordações para muitos dias.

As donzellas dos salões, que revolvam e troquem entre si memorias das contradanças, do valsador infatigavel, do discreto que as entreteve, dos trajos e penteados que se distinguiram, do novo duetto que se executou, do romance ou das poesias que se annunciaram de autor querido, de uma inclinação encoberta de que já todos segredavam, do baile estrondoso que se ia ter, de uma regata, de um duello, de um passeio a Cintra, de uma lua de mel, ou de uma exposição de bellas-artes. As virgens do que se cuida solidão, não acham para si menor nem menos attractivo assumpto, o revolverem na conversação, o repastarem no espirito, as circumstancias, os minimos accidentes, de que se acompanhou o dia festivo do seu templo; os enfeites e a elegancia de cada altar, o inesperado primor d'esta ou d'aquella cantora, a maviosidade com que o orgão gemeu na Adoração, o como a ponto acudiram de fóra o repique e a girandola, o rasgo de pintura, ou de affecto, com que o orador maravilhou o auditorio, a multidão e a variedade de vestidos que affluiram á egreja, as largas distancias d'onde accorreu povo a ella, a satisfação com que todos sahiram, e o bello e saudoso effeito que fazia aquella torrente ondeante de cabeças, ao engolfar-se e desapparecer da nave para o terreiro, por baixo do côro, como um rio fugaz por baixo de uma ponte inabalavel.

Direis que ha um travo particular de tristeza em tudo isto. ¿E quaes são os prazeres do seculo em que esse resaibo se não mistura? denunciae-me um unico, se o descobristes.

Murmurais que em tudo isto é sempre mais ou menos a contemplação inerte e passiva, e que a vida fraudada de todo o movimento proprio e espontaneo não é vida.