Chapter 4
O sol e o movimento mundano e prosaico do dia seguinte, enfraqueceram seu tanto as impressões do drama nocturno e intimo. Encerrei-me no meu quarto; fechei as janellas para revocar no remanso de trevas artificiaes a sombra magica; reappareceu-me, porém não já a mesma; faltava-lhe a animação que a vehemencia da minha fé lhe prestára; de tão real que tinha sido, tornava-se de novo problematica. As objecções da razão gelada e desabrida, oppunham-se outra vez á prophecia da vontade. A linguagem nativa e sincera da carta, era um protesto eloquente e energico da innocencia e do amor contra as suspeitas; mas as suspeitas murmuravam sempre; a vaidade (¿quem a não tem?) a vaidade, similhante áquelles rhetoricos subtis das escolas antigas, sustentava alternativamente o pró e o contra: ora pretendia se acreditasse n'um affecto, que enobreceria a quem lhe servia de objecto; ora repulsava uma crença, que, a sahir burlada, redundaria em vergonha muito grande e muito certa.
N'estas alternativas passaram dias e noites; dias penosos, estirados, e ermos; noites acompanhadas, festivas, instantaneas. Só quando repoisava tudo, velava e vivia eu. Os meus pensamentos e as minhas alegrias, com as flores nocturnas se abriam, com as flores nocturnas se fechavam. Só as estrellas se podiam mirar n'elles, n'elles que tanto se lhes assimilhavam no brilho e na pureza.
Quando, apagadas em casa as ultimas luzes, e reinando já profundo silencio ao longe por toda a cidade, cerca de meia noite, eu entrava com pé furtivo e o coração pulando, no aprazado arvoredo dos meus amores, já ali encontrava á minha espera a figura branca. Com mil beijos soffregos nos saudavamos, vingando-nos em minutos da eternidade do sol. Pedia-lhe de joelhos perdão de a ter renegado, de ter duvidado da sua existencia, durante as horas insipidamente allumiadas. Com um abraço restauravamos as pazes.
Sentava-a ao meu lado, n'um banco rustico, afoufado para ella por minha mão com mangeronas, que as havia em grande espessura á sombra da laranjeira mais alta. Reclinava ella a sua cabeça languida para cima do meu hombro, ou eu a minha face ardente sobre o seu seio, a escutar-lhe e a interrogar-lhe o coração. Repetiamos os nossos incendidos dialogos da vespera, como novos. Misturavamos lagrimas de ternura e felicidade. Reviviamos antecipados os mais bellos futuros. A qualquer tenue rumor, d'estes com que a noite, maliciosa amiga dos namorados, se diverte a assustál-os, estremeciamos como dois culpados colhidos em flagrante; ella, forcejava por fugir; eu, escondia-a, rindo, com os meus braços contra o meu peito; guardava-a ali muito tempo como filha; embalava-a, adormecia-a, inspirava-lhe com beijos os sonhos que havia de sonhar, insinuava-me n'elles, e lhe repetia em voz baixinha as mais suaves coisas d'este mundo. Se um grillo cantava então, se um ramo ciciava lá por cima, impacientava-me de que m'a acordassem. Perguntava-lhe ao ouvido pelo seu nome, pela sua familia, pela terra da sua vivenda; não respondia. Inquiria-lhe, em tom ainda mais leve, se já porventura em algum tempo outro amor lhe sobresaltára o coração; levantava-se de repente, grande, sublime, aggravada da suspeita, prestes a desaparecer para sempre; e fal-o-hia, se ambos os meus braços a não retivessem pela cintura:--«Se eu não tivesse um coração ainda virgem, ¡como ousaria offerecer-t'o! ¡offerecer-t'o espontanea! ¡a ti! ¡ao meu poeta!»--dizia ella com uma voz que não saberia mentir por mais que fizesse. Pedia-lhe outra vez perdão, agradecendo-lhe a ineffavel certeza que me dava da minha felicidade tambem no passado; outorgava-m'o generosa; mas impunha-me, como penitencia, que lhe improvisasse poesia. Era a poesia o que a fascinára? o que a attrahira para junto de mim; e eu (¡bemditos os vinte e quatro annos!) derramava, inspirado só por ella, poesia nova e fervente, por entre aquelles troncos mudos, como as Philomelas no seu enthusiasmo a esperdiçam pelos choupaes do seu Mondego.
Como a das aves, se perdeu a minha; mas nunca a exhalei tão de dentro, nem tão para a alma, como então.
XIX
Agora caio eu de repente em mim, e me envergonho de tudo que tenho estado doidejando. ¿Tinha eu direito, ou necessidade, de fazer em publico similhantes confissões? ¿Não deixarei ahi violados dois pudores: um meu, outro alheio e mais que meu? ¿Haverá indulgencia que baste para devaneios tão frivolos e pueris? ¿Não me desdenharão até, como ficções inverosimeis, absurdas, impertinentes, estes idyllios elegiacos, tão verdadeiros todavia? São verdadeiros, e eu prometti historiar; eis aqui a minha unica defensa.
De mais, eu confio em que os leitores, aliás benevolos, se não esqueceram do que se ponderou no principio d'este escripto; a saber:--que, nem em bem nem em mal, se póde carregar á minha conta o que fazia ha trinta e oito annos um que tinha o nome que eu hoje tenho; e que esse nascêra e se creára, unica, simples, e exclusivamente, para poeta, poeta de amores e delicias.
Pressupposto isso, continuemos o pobre romancinho, que nunca o houve mais historico; e tornemo-nos á carta, que, tantos dias ha, espera uma resposta.
Ignorava eu pois, e de nenhum modo podia conjecturar, d'onde procedêra, e que mão a havia escripto; mas propendia, por não sei que vaga revelação, para crêr que não era senão mulher, poetisa, enthusiasta, e muito superior ao vulgar pelo talento, quem assim me desafiava o coração, enamorando-me o espirito.
¿Reflectistes alguma vez no que seja aquelle bichinho de Deus, que pelas noites de verão está scintillando do fundo de um relvado, sua immensa floresta? Pois aquillo é uma namorada. O seu resplendor, que allumia as hervas até á enorme distancia de um palmo em redondo, é a manifestação esplendida do vago e poetico amor em que ali se consome solitaria; é uma Hero, mais sublime, chamando e attrahindo com o seu facho um individuo da sua especie, que ella nunca viu, mas que adivinha ter-lhe sido predestinado pela Natureza. Deixae-o andar a elle saltitando inconstantemente pelo labyrinto dos silvados, nas chorêas aereas e loucas dos seus eguaes, como um cardume de pequenas faiscas intermittentes; deixae-o volitar tão altivo da sua liberdade, que a energia do luzeiro lá em baixo, tão formoso e mais vivido que o seu, o arrebatará em vindo a hora, e no leito de seda de uma florinha, sob o docel de uma folha verde, o amor e o hymeneu accenderão os seus fachos áquella duplice chamma confundida n'uma só.
Tal se me affigurava a minha ingenua correspondente, irradiando d'aquelle modo até a mim, lá do interior do seu pacifico retiro, o poetico brilho dos seus affectos innocentes.
Na carta refulgia, com effeito, um amor. Era como um carbunculo, que, trazido para o escuro, continua a expedir os raios de que o impregnou o sol.
Respondi finalmente. Foi heroica a determinação; foi o salto fatal de Leucade; foi dar de cabeça para baixo na voragem, que, ou me havia de atirar arrogado e desconhecivel para cima do lodo, ou restituir-me ao dia, feliz, glorioso, coroado dos myrthos de Paphos pelas sereias.
XX
Entretanto, no meio da minha allucinação vaidosa, nunca me desamparou de todo o previdente instincto da dignidade; as minhas paginas confessavam, sim, o amor; amor profundo, amor immenso; mas este amor immenso e profundo, qual eu o emprestára á Nympha aerea dos montes, qual eu proprio o tributára á deidade phantastica da Primavera, e qual mulher nenhuma deixaria de o colher com avidez, se o encontrasse, apparecia aqui como um rico fructo do paraizo, ainda pendente no ramo, já maduro, já proximo a despegar-se, baloiçando-se a um lado e a outro, indeciso para onde haveria de cahir; era, na realidade, como fôra na fabula o ramo de oiro, passaporte para os campos ditosos de além mundo, mysterioso ramo que ninguem por força, nem por fraude, esgalharia da arvore, mas que por si se deixava tomar da mão chamada pelos destinos para o haver.
Tal foi, mas em phrase chan, e sem atavios de estylo, a substancia da minha resposta: enigma contra enigma, oraculo contra oraculo.
N'este vago, de que um e outro, por motivos differentes, mas com egual cautella, evitavamos deslisar para o positivo, se foi continuando, cada vez mais frequente, mais ampla, mais amigavel, mais sincera, e mais interessante, a nossa correspondencia.
Se quem escrevia era aquillo que eu desejava, devia estar contente de mim; se era outro, e mal benevolo, o empenho que dirigia aquella penna, esquivava-lhe eu escrupulosamente os azos para triumphos. Eu por minha parte estava satisfeito de mim, e encantado com tudo quanto se me ia de novo de dia a dia descobrindo de perfeições na minha Galatéa, que, ao exemplo da de Virgilio, me atirára a maçan refugiando-se para os salgueiros; entrevia-a eu por entre as ramas; não a chegava ainda a conhecer de todo, mas differençava já com evidencia, que não era satyro travesso, mas sim nympha, namorada e negaceadora como os passaros:
.............................._lasciva puella_.
Não descontinuavam, no emtanto, diligencias para se descobrir o esconderijo, em que se homisiava sempre que se presumia ir-lhe já lançar a mão á ponta do veo. Com a obstinação do mysterio, recrescia o affinco das pesquizas.
Apparece um fio no labyrinto: as minhas cartas vão por Villa do Conde para Azurara; mas ¿quem as toma em Azurara? Espia-se, colheu-se: é uma servente do proximo convento de Vairão. Está pois a caçada circumscripta a um pequeno recinto, d'onde já não ha fuga possivel para a pobre corça: agora é deixar-se tomar ás mãos rendida e envergonhada.
XXI
É Vairão um nobre mosteiro de Donas da Ordem Benedictina. Está situado quatro leguas ao norte do Porto, na terra da Maia (Palencia dos antigos) entre Douro e Minho; corre-lhe perto o formoso rio Ave, que, por entre as villas do Conde e de Azurara, entra, grosso de caudaes, e já senhoril, no mar. As convisinhanças do edificio o tornam grave e meditabundo: a uma parte, serranias altas e solitarias; a outra, o Oceano, que rumoreja resguardado da vista por immensidade de pinheiraes.
É tão fidalga a antiguidade de Vairão, que ninguem, ha já muito, nem elle proprio, lhe conhece a origem. Fundal-o-hia, segundo uns, em 1148, D. Touris; segundo outros, na muito mais apartada era de 485, certa senhora nobre, Marispala, de quem se delettreia ainda o nome n'uma incompleta loisa grande, como campa de sepultura. Fôra, resam memorias, convento duplex de monjes e monjas da regra de S. Bento, que debaixo dos mesmos tectos tinham extremadas as clausuras, e communs no templo os exercicios religiosos. Exhala-se ainda agora d'aquellas paredes um grande e bonissimo cheiro poetico de seculos e santidade.
Ali pois vivia desde a meninice, secular e educanda, a minha desconhecida. Não foi difficil adivinhál-a d'entre as companheiras; de sobejo a denunciavam a notoria superioridade da sua instrucção e talento, e as suas tendencias todas litterarias e poeticas, herdadas no sangue e nos exemplos domesticos.
Constava por tradição ter sido uma das illustrações longinquas da familia o classico Doutor Antonio Ferreira, autor da primeira tragedia de Ignez de Castro, e particular amigo de Antonio de Castilho. O não menos classico Nicolau Tolentino de Almeida fôra irmão da avó da nossa educanda, senhora de virtudes tão iguaes aos seus altos espiritos, que o grande satyrico usava dizer que só se casaria, se o casamento com irman fôra permittido.
Desappareceu a mascara: Maria da Expectação Silva e Carvalho é já, descoberta e confessa, D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal.
O meu romancinho devia terminar n'aquelle ponto, ou proseguir transformado em historia; estava escripto que proseguiria.
Tal era tambem, e fôra desde a primeira hora, a tenção resoluta e inabalavel da que viera despertar-me para a festa do coração.
Assenti; deixei-me por ella conduzir, indifferente a calculos, adverso por natureza a previdencias; tão poeta no real, como no imaginario o tinha sido, e como o hei-de já agora ser até ao fim; em summa: verdadeiro crente na Providencia.
XXII
Parecia que eu e Maria tinhamos ouvido da propria bocca do Salvador o admiravel sermão da montanha; ¡tanto nos estava profundamente impressa dentro a sua doutrina! Eram com effeito evangelicas, ou de boa nova, estas palavras de Christo:
--«Não hajais cuidado do vosso viver, d'onde comereis, d'onde bebereis, ou d'onde vos heis-de vestir.
«Olhae-me para as avesinhas do céo; vêde lá se ellas semeiam, ou ceifam, ou encelleiram coisa alguma; quem as mantém é o vosso Pae Celeste. Pois vós sois para elle muito mais que as avesinhas do céo.
«¡Vestido!... ¿A que vem o dessocegar-se por elle? Reparae no como crescem os lyrios dos valles: não trabalham, nem fiam.
«E mais vos digo, em verdade, que o proprio Salomão nunca trajou galas como qualquer d'elles.
«Ora: se Deus assim reveste umas hervas do campo, hoje viçosas, amanhan queimadas no forno, ¿não vos revestirá de muito melhor grado a vós, creaturas de apoucada fé?
«Portanto, nada de vos inquietardes dizendo:--¿Que havemos de comer, que havemos de beber, que havemos de vestir?
«Que se desvelem com isso os pagãos; o vosso Pae Celeste bem sabe que todas essas coisas vos são mistér.
«Não vos atormenteis pelo amanhan; o amanhan lá curará do que lhe pertence: bem bastam a cada dia as suas penas.»--
Não sei, nem nos importava saber, se Thomaz Roberto Malthus, o economista algoz dos casamentos pobres, approvaria, ou não, esta nossa fé tão commoda, e que a mesma Providencia tomou depois a si o justificar.
Se quereis verdade ainda mais em cheio, e sem disfarces, nenhum de nós ambos se lembrava de pensar no futuro por esse lado; entre nós e o porvir material, mettia-se uma seve de affectos tão espessa, tão alta, e tão florída, que não nol-o deixava perceber. Era como o pinhal a cortinar o Oceano revolto de ante a vista do conventinho descançado.
Olhae que eu não vos prégo ó sermão da montanha para que nos imiteis, mancebos e donzellas na febre aguda do amor, vós para quem uma cabana, uma fontinha, quatro raizes do monte, e para postre amoras de silva, e as glandes do filho prodigo assadas n'uma fogueirinha de gravetos, se figuram banquete em palacio, sobrando-lhe para salsas o bemquerer; não, Robinsons do affecto e da adolescencia descuidosa e credula; o que só faço é relatar-vos, sem apologias nem recommendações, o que por nós passou n'uns tempos de loucura, que (¡ainda mal!) não podem já voltar. Lêde muito nas boas horas, como nós a reliamos, a consolativa prégação dos passarinhos e dos lyrios; mas, se vos parecer, não deixeis de folhear tambem um poucochinho os economistas; não será mau. Os corvos da Thebaida acudiam, verdade seja, aos santos eremitas á hora do jantar com pães tomados sabe Deus d'onde; mas não ha muitos d'esses hoje em dia, cá pelas cidades. Corvos que vos empolguem o vosso pão da mesa, e até da mão, isso mais depressa.
XXIII
Maria conhecia-me pelos meus livros e pelas minhas cartas; alguma coisa era; mas os meus escrupulos melindrosos pediam mais: enviei-lhe o meu retrato, uma expressiva miniatura em marfim. A mão engenhosa do pintor, não paga de me reproduzir, enchera de um rosal florescente o fundo do seu painelinho; era o poeta da _Primavera_, rodeado dos seus preteritos amores. Guardo-o como preciosidade e reliquia; ¡se andou tanto tempo occulto no seio com que eu sonhava!... A carta em que ella me agradecia este pequeno penhor, repoisa, outra reliquia, no mesmo cofre junto d'elle; seria profanação o publicál-a. Fique ali a sonhar eternamente a immensa ternura de que a repassou a melhor, a mais carinhosa mão de quantas jamais pegaram na penna para revelar a uma alma a formosura de outra.
É a este segundo periodo das nossas relações, começado ao desfazer-se a nuvem da divindade, deixando apparecer a mais sympathica das mulheres, que pertence inteiro o livro sobre que emprehendi derramar agora alguma luz.
XXIV
Lêstes sem duvida a historia de Pygmalião; então sabeis como aquelle phantasioso escultor, com a arte no coração, e a fé na alma, lavrou uma estatua, se ennamorou e endoideceu por ella.
O sol da Grecia, que tantos portentos allumiou, nunca vira coisa assim formosa.
O Real estatuario, pois era Soberano, esqueceu por ella mais que o seu throno de oiro, e os seus estados que o adoravam; esqueceu todas as beldades de umas regiões como aquellas, digno berço de Venus e das Graças, e onde os lacteos marmores e as ceras coloradas, para copiarem aos olhos as formosas do Olympo, e povoarem os templos com Hebes e Junos, Dianas e Minervas, de mais não precisavam que retratar os bandos vivos e buliçosos das filhas da terra. A todas offuscava para elle, para elle Jupiter do cinzel, a Pallas brotada da sua cabeça poetica e fogosa; assim a lua cheia, ao levantar-se de traz dos cumes selvaticos dos Dáctyles, desterra o scintillante cardume das estrellas.
Não contente de a vêr todo o dia, vinte vezes se levantava cada noite para tornar a vêl-a, e de cada vez lhe descobria gentilezas novas. Com a alampada trémula na mão, erguendo-a, abaixando-a, ora de longe, ora de perto, a rodeava, scismando, palpitando, sorrindo, figurando-se-lhe vêl-a corresponder com a expressão do aspecto ás blandicias com que elle, mais poeta que Anacreonte, a affagava. ¡Oh! ¡que não daria elle por ter a lyra de Orpheu e de Amphião, cujos sons escutados pelas pedras as animavam!
Ás plantas nuas da sua Galatéa, mil vezes rebeijadas, tomava as suas refeições, offerecendo-lhe sempre com suave convite as primicias de Baccho e Ceres, os mais perfeitos favos de Hybla e do Hymetto, e os mais delicados dons de Pomona, que em canistreis de vimes de prata lhe vinham pôr deante virgens, por quem o Pae dos numes se metamorphosearia vinte vezes.
Cochichavam ellas entre si, e riam doidinhas á socapa os mais tentadores risos que sabiam, sem nunca lograrem que os olhos fitos nos da estatua se abaixassem, nem por descuido, para os d'ellas. Retirada a mesa, fechava o Principe as portas eburneas do aposento, incendia-se com segundas libações rituaes de Naxos e Chios; exhalava o seu fogo tresdobrado em abraços e beijos; cingia de perolas e diamantes o collo e os pulsos da effigie; banhava-a com essencias de nardo e dictamo; engrinaldava-lhe a fronte com as rosas mais frescas das emmolhadas em vasos aureos esculpidos, coroando-se com as restantes a si mesmo; tornava a encaral-a; e o reflexo das flôres de Amathunta, que Sapho algum dia havia de proclamar rainhas de todas as flôres, e a que a Mãe de Cupido fadára as mais extranhas seducções, quando as viu retintas com sangue do seu Adonis, aquelle reflexo purpurino no alvor das faces lhe parecia, no seu estatico enlevo, uns assomos do pudor virginal sobresaltado com a desnudez propria, com a solidão e voluptuoso desamparo do sitio, com o olhar a um tempo supplicante e audaz do adorador.
Era então que, delirante, perdido de desejos impossiveis, elle se lhe pendia amorosamente ao pescoço, forcejava por animal-a com ósculos; e reconhecendo quanto eram baldados os seus desejos, imbebia o rosto ardente entre os arfantes seios, frios, de marmore, e os áljofrava com um chuveiro de lagrimas. Nestas porfias, sem victoria nem derrota, se lhe exhauriam as forças; deixava-se cahir esmorecido para cima do tapete de purpura de Tyro, cerrava os olhos, e um somno transparente, um meio-sonho, dando-lhe por momentos a posse da sua beldade, ouvindo-a, sentindo-lhe palpitar o coração, repassando-se do seu calor, o restaurava, para se tornar com mais vehemencia, em acordando, á sua adoração perpétua, ás suas cubiças insensatas.
A deusa dos mil amores, que perscruta até ao intimo os corações dos mancebos, podia bem ter ciumes d'aquella pobre e insensivel beldade tão amada; mas foi generosa; generosa... não: antes muito justa. ¿Não era aquelle o mais solemne culto, o culto mais sincero e desinteressado que jámais se rendêra á sua divindade?
Não odiou a Galatéa; sorriu-lhe como para uma irman mais nova; mirou-se n'ella complacente como n'um espelho. A filha das ondas do Egeu foi benigna para a filha dos marmores de Paros.
--«¿O amor que nasceu de mim--dizia ella--não me tem a mim propria ferido e felicitado, tantas vezes? ¿Por que não farei eu que esse amor, não menos maravilhoso, que nasceu d'aquella, lhe dê tambem um quinhão nos céos que eu disfructo sem limite?»--
Pygmalião, o Rei artista, havia afeiçoado para muitos altares os mais perfeitos, os mais adoraveis simulacros da Immortal; e se não se inflammára por elles, como agora por este de Galatéa, era só por que a santa majestade do ser divino lh'o prohibira; mas os templos, em que os milagres d'essa arte crente e inspirada resplandeciam alvejantes, eram sempre os mais frequentados, os mais servidos com offertas, sacrificios, e grinaldas. A officina mesma, em que avultava entre um povo de outras estatuas e grupos a estatua da sua rival em fascinações, era sympathica aos olhos da Omnipotente, e sollicitava o seu favor. As pombas, que a ella lhe vogam o carro aereo, jungidas com festões de murta, tinham ali entrada livre. Dos loireiros rosiflores, e das grutas dos jardins do palacio, esvoaçavam-se familiares até aos peitoris das janellas, sempre francas ás inspirações dos ceos diáphanos, do cicío das auras pela folhagem, e do estrépito das fontes, melodias como de nautas migdóneas. D'ali observavam, conversando umas com outras, a profusão que lá dentro ia, de coisas tão brancas, tão suaves: ¡tanta nympha! ¡umas, trajadas como para chorêas! ¡outras, despidas como para o banho! ¡e entre todas, e sobresahindo a todas, o vulto da propria deusa, tão sua conhecida, e o de Galatéa, não menos celeste, candida como ellas, e, a julgar pelo sorriso, como ellas affectuosa! Alguma das espreitadeiras aladas dizia então lá pela sua lingua ás companheiras:--«¡Olhae, olhae como está em ambas enlevado! os escravos chamam-lhe Rei, mas não é tal: é, como nós, um captivo do amor; ¡e de quão benigna condição!... é reparar-lhe no ar, nos movimentos. ¿Não vêdes como olha para nós, tão benevolo, e quasi invejoso, quando nos beijâmos? entremos sem medo, que nos não ha-de fazer mal. ¡Mal aquelle!... Apostaria eu que já foi pomba, antes de ser gente. Chôva-lhe a nossa rainha, como sobre nós, amores sem espinhos, e delicias renovadas de hora a hora.»--
A estancia era então invadida pelo bando festivo. Pygmalião exultava, tomando por feliz agoiro ver as conductoras do coche de Dióne arraiarem-lhe a casa toda com os reflexos argenteos das suas azas irrequietas, e cobrirem de ternura, de voluptuosidade, de poesia, como um veo alvo, roto, e esvoaçado, as estatuas dos dois idolos do seu coração.
¿Não era tudo isto mais que bastante para merecer á mãe do amor um prodigio sem exemplo, e que a ficasse glorificando nas lyras namoradas de todo o mundo?...
Acabava um dia o Principe de queimar aos pés de Venus, segundo o seu costume de todas as manhans, uma copiosa oblação do mais puro incenso. Tinha regado o fogo, em que elle fumava n'uma amphora de bronze, com vinho amadurecido havia cem annos pelos oiteiros pampinosos de Chypre, e reservado em talhas de barro para sacrificios aos deuses maximos. Tomada respeitosamente venia da Immortal, transporta por suas mãos o vaso depositario do fogo para deante de Galatéa. Quer offerecer-lhe, ainda que em segundo logar, porção igual, tanto da rescendente massa, orgulho da Arabia, como do liquido generoso. Enganou-se-lhe a mão no incenso, e lançou nas brazas porção avantajada. Venus sorriu, e não se agastou. As distracções do amor, ninguem melhor do que ella as conhece por experiencia.
Emquanto o veo alvacento do innebriante fumo, elevando-se d'ante o pedestal da nympha, a envolvia toda, e tornava a sua presença mais celestial, Pygmalião, acompanhando-se com a lyra de sete cordas, cantava de joelhos um hymno, que as pombas escutavam n'um silencio religioso; pareciam querer decorál-o para o repetirem á sua rainha, quando ella se jazesse em amoroso ocio, reclinada sobre as violetas em algum secreto pavilhão de rosaes da sua Paphos: