Chapter 3
Dos guerreiros nos tumulos afiem faminta espada os barbaros guerreiros; no sepulcro do sabio o sabio estude; e dos Reis nos marmoreos monumentos vá sonhar a ambição grandeza e pompas; vós soltos de freneticas loucuras aqui vireis mil vezes visitar-me, na amizade pensar que nos unira, e unir-nos deverá transposto o Lethes. ¿Por que me interrompeis com taes suspiros? ¡ah! deixae-me acabar. Quando sentados em torno a mim na flórida alcatifa, guardardes meditando alto silencio, se d'entre as mangeronas que me cobrem sahir acaso a borboleta errante, ¿não vereis n'ella o espirito do amigo que vem gozar do sol a claridade? Quando o suave rouxinol de noite da minha olaia gorgear nos ramos, ¿não pensareis, de santo horror tranzidos, que feito rouxinol, meus cantos sólto? Sim, pensareis, e erguendo-se inspirado algum lhe ha-de bradar: «¡Oh! ¡meu amigo!» Responderão: «Oh meu amigo» os bosques; e vós direis que o meu phantasma errante, da argentea lua á muda claridade, á conhecida voz d'alem responde, e em tudo encontrareis a imagem minha.
Se inda então meus costumes vos lembrarem, se vos lembrar meu coração piedoso, velae que em meu retiro as bellas aves de caçador cruel cantem seguras; Amor, o leve Amor, com arco d'oiro, só elle, e mais ninguem logre atirar-lhes; careço de amorosa melodia que me poetize o somno derradeiro; morto que nada tem, preciza d'estas pobres delicias rusticas, se folga que a namorada moça, o terno amante, juntos, ou sós, a visitál-o acudam. Então ao som de languidos suspiros, de alegres cantos, de amorosos versos, de ternas queixas, de perdões suaves, muitas vezes contente a minha sombra, formando ao pôr do sol vermelha nuvem, girará n'estes ares revolvendo da passada existencia almas lembranças.
Andaram tempos. Amores mais serios, mais vastos, mais duradoiros, mais uteis, ainda que menos entendidos das turbas a quem se referiam, inspiraram já outros desejos:
Ó terra de Colombo, um navio de esmola do abysmo te evocou, e aurea brotaste á luz. Por outra regia Heroina esmolada uma escola vai transformar-te em ceos, terra de Santa Cruz.
E eu, que já uma vez, largando o patrio ninho, romeiro do progresso em balde te busquei, retomarei de novo o undívago caminho, e irei juntar meu hymno ao seu triumpho; irei
pender na escola-templo os festões da poesia, e, novo Simeão, findar a vida em paz. Onde o homem que se humana affoito invoca o dia direi:--«A patria é esta; aqui viver me apraz;
«apraz-me aqui morrer, onde as mães porventura co'os filhos pela mão me hão-de vir visitar; saudades esparzir na minha sepultura, e dizer: _Este sim, que soube o que era amar._»
Passaram tempos ainda, e até essa esperança consolativa se desfloriu. Ouvi o esmorecimento não já cantar, mas gemer, no seio da amizade:[1]
«Depois vem a reparação, a rehabilitação, não ha duvida. Do sepulcro brota o loiro, e a posteridade amarra a elle os inimigos dos amigos dos homens, os areopagitas idolatras envenenadores dos Socrates crentes. Mas as cinzas não sentem; as estatuas não vêem nem ouvem.
«O premio que eu devaneava a principio, quando via tão ás claras a bondade da obra que estava fazendo, era que os filhinhos, e as mães, me acompanhariam, chorando, ao cemiterio. A esse côro de amor imaginava que até o cadaver se me alegraria. Não dava aquelle triumpho posthumo pelas torrentes de carroagens e salvas funebres dos magnates. Pois nem já com isso conto. Conseguiu esta gente, não sei se invejosa, se quê, diffundir tão copiosamente os seus preconceitos, escurecer em tanta maneira a luz do beneficio, que nem já espero aquillo. As mães ver-me-hão passar, sem saberem quão grande amigo de seus filhos e netos ali vai; e d'estes só porventura me irão dar despedida os que n'esta hora estão cantando e amando por essa meia duzia de escolas regeneradas».
XIII
Saiamos d'aqui a toda a pressa, leitores amigos, antes que nos degenere em paginas de santa mas feia indignação, um escripto que eu vos prometti e destinei todo pacifico e amoravel. Torno-me pois á minha Arcadia da mocidade, como o soldado mal ferido das guerras, e ainda mais dos menoscabos que dos golpes, se acolhe á quieta poisada em que se creou.
Apóz algumas tentativas incertas e incoherentes de lavor poetico, de que o publico se esqueceu, e eu quizera esquecer-me tambem, foi a fabula selvatica de Narciso e Ecco a primeira producção que me rebentou nativa, e verdadeiramente congénita áquella indole campestre e amoravel, que os successos e os estudos me tinham andado a preparar desde o principio. Nunca jámais essas singelas _Heroides_, impetuosamente e quasi de improviso brotadas (posso hoje dizer isto sem jactancia, e sem que os entendidos m'o descreiam) ousaram esperar o extraordinario, o excessivo favor com que foram recebidas, multiplicadas em edições sobre edições em Portugal e no Brazil.
¡Ora, quem poderia jámais lembrar-se de que um livrinho assim, todo vão, todo fabuloso, uma especie de globo de espuma, nascido de um sopro para boiar nas virações por alguns instantes, espelhando os verdes da terra e o azul de cima, e apagar-se para sempre, filho do nada restituido ao nada, conteria o germen de uma historia muito real!
Pois foi assim: Das _Cartas d'Ecco e Narciso_, sahiu, como de flôr ephemera um fructo, o _Amor e Melancolia_, este _Amor e Melancolia_, que já não era um devaneio e um canto, mas sim registo disfarçado de uma historia do coração: _lacrimæ rerum_.
XIV
Tres annos havia que tinham apparecido pela primeira vez as _Cartas d'Ecco_; e dois os poemetos da _Primavera_.
Residia então o autor de ambas estas bagatellas nos sitios mesmos, que, em harmonia com os vinte e quatro annos d'elle, lh'as haviam inspirado. Repoisava, já fóra do estádio academico, nos ocios tão poeticos do seu Mondego. A casa da vivenda conheceil-a vós, desde que o mais poeta dos nossos prosadores[2] pela magia da sua penna, que é ao mesmo tempo varinha de condão, vol-a descobriu, vol-a franqueou, vos fez, queridos leitores meus, entrar n'ella a visitar-me.
Pois bem: Era ali, n'aquella casa, ainda hoje lembrada do nosso nome, n'aquelle espaçoso e singular edificio, encostado, de uma parte á vertente de Subripas, de outra ao Arco moirisco de Almedina; dominando o rio convisinho e a margem ulterior, e dominado pelo castello de templarios, theatro do tragico fim de Maria Telles; era ali, n'aquella estancia, de aspecto meio senhoril, meio claustral, com seu pateo espaçoso, e escadarias de pedra, suas enormes laranjeiras enclausuradas, suas varandas ajardinadas, seus erguidos miradoiros; era ali, ali, para onde eu tantas vezes me recolho em espirito, ainda agora, a escutar os descendentes dos rouxinoes que festejavam, como nós, a _Lapa dos poetas_; ali, ali era, que os dias e as noites se nos devolviam, ao meu inseparavel e a mim, nas leituras amenas, nas conversações mais amenas ainda, com os bons engenhos juvenis, que a tão hospedeiro retiro nos acudiam de boa mente.
Era o Setembro de 1824; um donoso Setembro na verdade: estio em cheio e sombras á farta. Liamos os dois, isto é o um; por outra: recitavamos de cór pela centesima vez as elegias de Tibullo, á sombra de uma laranjeira merecedora de as ouvir, e muito bem capaz de as ter ditado, se fôra em Italia, e para tanto lhe desse a velhice, que todavia não era pouca. (Nenhuma circumstancia d'aquelle tempo se me desbotou ainda da memoria).
¡Chega uma carta! ¡lettra desconhecida!... Abre-se, reza assim:
«Azurara, pelo correio de Villa do Conde, 27 de «Setembro de 1824.--
_«Amar o mais perfeito é um dever:_ _«Virtudes tantas devem ser amadas:_
«Se vos apparecesse uma Ecco, imitarieis vós o vosso Narciso?
«A desconhecida
«_Maria da Expectação Silva e Carvalho._»
¿Que significava, que podia significar aquillo? ¿Era uma pergunta candida? ¿era um brinco malicioso? ¿era masculina, era feminina, a mão que tal escrevêra? ¿como responder? ¿a quem responder? O coração, ou presago, ou desejoso, dizia uma coisa; a prudencia, outra. O Tibullo era do parecer do coração; todos os mais poetas votariam como o Tibullo. O sol, que observa ha tantos mil annos coisas de todas as castas, e de certo não ignorava o segredo d'aquella, espreitava-nos, e ria. A laranjeira, scismava calada; como aia e enfeitadeira de noivas, lá se inclinava para o sim; mas tambem, como velha, desconfiava. O Samsão de marmore do angulo do terrado, esse continuava a escachar pacificamente o seu leão, e não se intromettia na contenda.
Por muitas vezes se releu a carta á espera sempre de algum subito reflexo revelador; ¡e o enigma cada vez mais fechado!
Era caso para pesquizas, pois de qualquer dos oppostos lados que a verdade estivesse, não faltava que fazer, e tinha-se de lhe acudir com resposta.
Armou-se uma verdadeira caçada; empenharam-se n'ella quantos visinhos e praticos de Villa do Conde e Azurara se puderam desencantar; ¡e o mysterio a cerrar-se cada vez mais! ¡e a curiosidade, o interesse, a recrescerem-me na mesma proporção!
Respondi emfim ao meu phantasma:--«Que não ousava eu muito acreditar em apparições de Eccos para quem não fosse Narciso; mas que, se por milagre houvesse uma, nunca eu seria tão insensato como o filho de Liríope.»--
Até aqui podia eu chegar com a resposta sem me comprometter; para diante fôra já arriscar-me. Partiu. Fiquei aguardando com certo dessocego pela réplica. Chegou, correio por correio.
Era a mesma lettra sem disfarce, e a mesma assignatura supposta. Mas d'esta vez, em logar de linhas contrafeitas, paginas com todo o desartificio amavel e persuasivo, com toda aquella graça nativa feminil, que se não imita. Quasi com certeza andava ali mão e espirito de mulher. ¿Era ella porém interprete solitaria de sentimentos proprios?; ou consocia e agente de uma conjuraçãosinha zombeteira? ¿Como descriminál-o? Não havia melhores razões para uma, que para outra supposição.
A substancia d'aquella carta, que eu não devo nem quero tirar do sacrario em que a enthesoiro como reliquia, reduzia-se a querer-me convencer de quanto eu era injusto para comigo, e de quão mal conhecia o sexo amoravel, se o julgava todo unicamente sensivel aos encantos dos _Narcisos_; emfim: que o poeta, que tão verdadeiros affectos suspirára por uma deusa ideal,--a Primavera, merecia bem que uma mulher o procurasse para compôr a felicidade d'elle, e pela d'elle a sua propria.
Isto, e muito mais a este modo, expunha a carta; mas por uns termos tão obsequiosos, tão lisonjeiros, e ao mesmo tempo tão naturaes, como os eu não saberia expor aqui em traducção.
O inverosimil principiou ali a figurar-se-me provavel. Nas regiões imaginarias em que vivem os poetas, não ha extranhezas senão para o que é natural e corrente; o ordinario são os prodigios.
XV
Sem me atrever a confessar a minha nascente, ou já nascida, persuasão, senti ir-se-me levantando n'um recanto do animo um altarzinho todo verde e florido para uma divindade ainda invisivel, mas cuja aproximação já por um certo calor suave se me denunciava.
Diz que muitas leguas ao largo de Ceylão já o gajeiro, embalado lá em cima no sol doirado do Mar Indico, percebe na fragrancia das virações tepidas as selvas de canelleiras da ilha, ainda occulta pela convexidade marinha, mas que vem correndo a encontrál-o. Assim me sentia eu levado para uma ilheta de amores, que, já aspirada, e ainda não descoberta, vinha por cima do seu mar de aljofares offertar-me, toda donosa e festiva, a hospedagem das suas sombras inebriativas. Um côro de sereias a meio caminho nos revelava, nos annunciava de parte a parte; e, assim como se vê tantas vezes no mar um navio pela acertada disposição das velas demandar a terra, com o mesmo vento que de lá sopra, a aura que me falava do meu porto, a mesma era que para lá me conduzia.
«Não ha cubiça do que se não conhece,» dizia um antigo poeta; extranha sentença; e para de poeta, muito mais extranha. A mui veridica historia que vos narro, duas vezes a desmentiu: nem a que me buscava me conhecia, nem eu conhecia a que buscava.
E nem por isso é a coisa tão para espantos como de fóra e á primeira vista se representa. ¡Que de consorcios se não teem celebrado, até com amor, entre ausentes, pela simples troca de retratos! ¿Que mancebo se poderá gabar de não ter sonhado muitas vezes, dormindo e acordado, com a heroina de um romance, ou com o invento prestigioso de um pintor? ¿Quem ha que não saiba o caso d'aquella moça franceza, que se finou de paixão pelo seu Telemaco? Ninguem o prediria a Fénelon, quando, accezo no santo amor do genero humano, compunha para a eternidade o seu homerico poema social. Temperae de um pouco de poesia a qualquer coração (o nosso era temperado de muitissima) e vel-o-heis palpitar todo credulo por um phantasma. Para uma Virginia, este phantasma será Paulo; para um Paulo, Virginia; para um astronomo, um planeta, que elle, em nome do seu calculo, intima aos abysmos celestes lhe apresentem; os phantasmas das religiosas, são os anjos; os dos cenobitas, virgens do Empyrio; o dos artistas inspirados, a gloria na posteridade; o meu, tinha sido com effeito a Primavera, continuava a sel-o, mas agora humanada em figura feminil.
XVI
Se eu me não temesse da gente em prosa, que só acredita no que se palpa, havia de dizer que a aspiração para o bello desconhecido, para a perfeição ideal, entresonhada onde quer que seja, e com qualquer dos milhões de fórmas em que ella se póde metamorphosear, tanto não é extranha á Natureza, que não são unicamente os individuos privilegiados da nossa especie, os que a experimentam.
¿A rôla, a pomba, o rouxinol, a gemerem de saudade, a arrulharem de ternura, a gorgearem de immenso affecto, por que enlevam tanto, e tantas coisas inefaveis dizem aos animos devaneadores, senão porque os seus gemidos, suspiros, e canticos, almejam coisa diversa dos deleites faceis que os rodeiam, e que já possuem?
E depois: o Pae Commum não é avaro de seus dons, e ha-de folgar quando cada uma de suas minimas creaturas, alando-se quanto póde e sabe pela esphera dos gosos puros, se aproxima cada vez mais a Elle, que é a Summa Belleza, o Summo Bem, de que todos os bens são emanações ou reflexos.
¡O rouxinol, a pomba, e a rôla!... mas os insectos mesmos, ¿quem affirmará que não se pascem, como nós, ainda que muito longe de nós, á meza infinita, perenne, e perennemente renovada, do amor ideal?
¿Quem sabe até o que irá de mysterios nas flores e nas arvores!? ¡que idyllios, que elegias, que divinos poemas não correrão nas florestas com o murmurinho dos ventos em estrophes de aromas, intelligiveis ás arvores congeneres, e ás flores da mesma especie!...
A carta, que de algures levantára vôo para algum fim, a carta que eu tinha nas mãos, tão candida, tão vivida, tão palpitante e amoravel, tão segura e tão certa, podia ser portanto, e, se o podia ser, era-o, uma especie de borboleta, que sahira das flores de uma alma solitaria e longinqua, para vir fecundar as da minha com um polen ardente e inesperado. Os effeitos que ella em mim produzia (logica ordinaria dos desejos) eram, á mingua de outras provas, uma vehemente presumpção de que o bom do papel vinha mensageiro leal, e não explorador perfido da minha credulidade; e entretanto mal sabia eu como lhe respondesse.
Deixar-me ir de vôo rasgado ao reclamo fôra temeridade indesculpavel; mas fôra tambem excesso de prudencia, repugnante a um sentir delicado, aventurar offensas, embora leves e disfarçadas, para rebater um aggravo só possivel; queria-se o meio termo; e esse era difficillimo; e difficillimo sobretudo como eu o desejava, que era propendendo mais para o coração, que para o espirito; para abraço, que para duello.
Meditei todo o dia.
O que eu nas falas gracejava por cautella, já no fôro intimo se me discutia como negocio.
Empenhei todas as potencias da alma, como poderia fazer o Edipo deante da Esphinge. Levei o serão e a noite a sós, no laranjal, a interrogar a lua, antiga confidente de namorados.
A lua, ou nada sabia no caso, ou, se o sabia, não o quiz dizer.
Mas a noite, grande terceira e fautora n'isto de amores, segredava-me ao sabor do appetite, com umas taes razões, tão cheias de poesia, isto é de verdade, que o genio fogoso dos meus vinte e quatro annos fez sahir, sem grandes evocações, não sei se de algum tronco, se das nuvens, se d'entre as pedras e heras da varanda de D. Maria Telles, uma Sombra de mulher, uma Fada, uma Sylphide, com quem eu tive ali horas ineffaveis de colloquio, desabroxando e enramalhetando futuros em commum.
Tenho pena de não poder já copiar aquellas praticas, nem as achar mesmo para mim bem inteiras na memoria.
Se o leitor, ou leitora, tem a edade que eu tinha então, e é poeta, mas poeta verdadeiro, d'estes que não só lêem e escrevem a poesia, mas a vivem, lá rastreará por si aquella scena tão cheia, tão real, tão animada. Se bem a concebem, tenho-lhes inveja eu; digo como a Santa da lenda:--«Ai! ¡que saudades me não comem do tempo em que eu era tão infeliz!»--ou, como a outra, toda delirante de ternura:--«Tenho dó dos demónios; ¡pois se elles não amam!»--O meu Virgilio, tão poeta na voz, na alma, e no coração, exclamava saudoso:--«¡Oh! ¡quem me dera nos campos, lá pelas ribas do Sperchio; pelos cumes do Taygéte, bacchanalmente retoiçado das virgens lacedemonias! ¡Ai! ¡quem me pozera hoje nos valles, tão frescos, do Hemo, e com a sombra grande de suas ramarias me protegera!»--
¡Que melhores Sperchio, Taygéte, e Hemo, que melhores campos, delicias, e feitiços, que a adolescencia com o amor, e o amor com os seus extasis e raptos!
¡Que de coisas se não descortinam e ouvem então, que depois se calam e desvanecem!... engano-me: não se desvanecem, nem se calam; são vivazes e immortaes no seio da Natureza; mas nós, é que transpomos a paragem bemdita de reconcavos e eminencias, onde se recebem em eccos augmentativos todas aquellas vozes, d'onde se descortinam em cheio todas aquellas vistas maravilhosas.
¡Oh! detende-vos ahi; detende-vos; abraçae-vos aos troncos floridos o mais pertinazmente que poderdes, que em principiando a descida... ¡adeus primavera! ¡adeus amores! ¡adeus sabedoria das loucuras! ¡adeus miragens e musicas da vida! ¡adeus de vós a vós mesmos! ¡e adeus esperanças de reascenderdes nunca mais! Os leitos de rosas e as corôas de violetas, já lá estão hospedando a outros viajantes que vos expulsaram. Resignae-vos, se podeis, á peregrinação, por sobre espinhos, e por entre saudades, cada vez mais espessas.
¡Ah! ¡de quantas, e quantas não vou eu já carregado para o ciprestal que lá ao fundo me negreja! Tiremos d'elle os olhos, e deixemol-os ir ao que lá nos fica perdido, ¡perdido para todo sempre!...
XVII
Passeava eu pois com a minha apparição candida; sentava-a ao pé de mim; apertava-a nos meus braços; mostrava-a com ufania ao astro das noites, que não era mais puro, nem mais limpido; pedia-lhe, promettia-lhe uma ventura ainda não experimentada na terra; unificavamos pelas nossas confidencias o nosso passado; o nosso porvir entretecia-se n'um ser unico. O existir eu, era para mim, n'aquelles momentos extraordinarios, a mais solemne e convincente demonstração da existencia, da realidade, da indispensabilidade d'ella: ella existia, visto que eu existia.
Não riais: eu amava perfeitamente. «¡A um espectro!» não: a uma mulher, a uma mulher, de quem só o corpo, talvez, ali faltava, e cuja entidade moral e espiritual me pertencia me acompanhava, me velava.
¿Não me sentia eu repassado do calor das suas azas invisiveis? ¿não tirava a cada momento de cima do coração palpitante, para a rebeijar, a carta por onde tinham girado os seus olhos, em que poisára a sua mão, que aspirára tão de perto as exhalações do seu seio, do seu coração e da sua alma?
Aquella carta exercia incontestavelmente em mim um influxo magnetico, dominador, prestigioso; eu não sabia, nem tentava, explicál-o; mas negál-o, por um scepticismo ingrato e mal philosophico, muito menos o podia, muito menos ainda o desejava.
Sentia-me tão bem sob aquella dominação absoluta, era tão bom permanecer assim, que o meu voto summo seria que nunca mais amanhecesse, se as falsas alegrias da madrugada me haviam de dissipar tão afortunado Elysio.
Mysterios intimos da grande Isis, religião do amor, ¡infeliz quem vos não conhece! ¡mais infeliz quem chegou a conhecer-vos e vos perdeu! Esse é como o tronco sêcco: vicejou, florejou cem annos, cantou com todas as aves debaixo do céo, mimoso da terra, familiar com o sol, confidente das estrellas, abrigo aos amantes, depositário dos seus nomes e votos, suspirando suave com elles, inebriando-os com suas exhalações, promettendo-lhes, e promettendo-se, primaveras sem numero e sem fim; depois, murchou; cortaram-n-o, cahiu; fizeram d'elle, se o não deixaram apodrecer, ou o não queimaram, um instrumento grosseiro para revolver o solo, um barco para transportar mercadorias; ou, quando mais bem livrado, um Satyro tosco, de quem riem os passageiros, ou uma apparencia de Bemaventurado para um altar. ¡Oh! ¡como aquelle arado, se podesse pensar, trocaria com alvoroço o seu prestimo, aquelle barco os seus serviços, aquelle Satyro o seu arremedo de riso, aquelle Santo a sua alampada e os incensos, por uma só das horas frivolas e sem historia, da arvore, que vivia, que amava, e que era amada!
A minha visão, a minha mulher sem nome, nem fórma determinada, prestes para receber qualquer fórma, e qualquer nome, era, se me podem bem entender isto, uma cifra, um symbolo, e o ideal da feminidade. No seu ser se epilogavam para mim todas as perfeições, todos os encantos dispartidos por quantas existem, existiram, ou poderão jámais existir; por isso a minha ternura para com ella era sem limites; era um amor, que n'aquellas horas de enthusiasmo abrangia todos os amores, presentes e futuros.
¡Oh! ¡O amor! ¡o amor! se ha n'este mundo coisa que nos possa dar ideia da grandeza da alma, da profundeza da adoração, do infinito da bemaventurança, é o amor.
Contam que uma só noite de terror e angustia já cobrira de cans e rugas a um mancebo; uma só noite como esta no meu pomar de estio, abraçado, confundido com a minha invisivel, remoçaria a um Nestor.
¿Que seriam todos os gosos materiaes comparados com aquella religiosa voluptuosidade?
¿Onde ha ahi alcova de noivos, estreada apoz dez annos de suspiros, onde ha ahi harém de hurís circassianas sobre rosas, ao som dos epithalamios dos rouxinoes do Bósphoro, que se não trocasse por este noivado mystico, tão sem rumor, tão puramente celebrado debaixo do céo e no seio da Natureza estiva pela poesia e pelo amor?
XVIII
Em quanto assim me corriam ali horas de feitiço, ¿onde estava e que fazia realmente ella?
Só muito depois o vim a saber: pela sympathia inexplicavel que nos attrahia mutuamente, sentia-me tambem comsigo na sua soledade. Eu era lá o seu phantasma carinhoso, como ella cá o meu; a lua que de cá e de lá contemplavamos em commum, observava lá e cá as mesmas scenas tão parecidas, tão eguaes, que a duplicidade lhes não tirava a identidade. Supprimam os accidentes de logar; era no mesmo ponto do oceano dos tempos um só ninho de duas alcyones, que, embaladas mollemente no seu bemquerer, ignoravam que houvesse mundo para fóra da esphera dos seus affectos. Assim, não eram já imaginarios os abraços que dava, os abraços que recebia cada um de nós; as nossas declarações, juras, e protestos, entravam nos ouvidos, desciam ao coração a que se dirigiam.
O amor, a quem os milagres são naturalissimos, triumphava já da distancia, como havia de triumphar do tempo e da fortuna.