Chapter 2
Todos os ridentes allegorisadores da antiguidade falaram de um Cupido filho de Venus, armado de fogo e settas, cruel e suave ao mesmo tempo, incoercivel e fugitivo como os sonhos. Existe esse, não ha duvida; mas ha outro amor, podéra eu affirmar-lhes, que nasceu do casamento de uma açucena com o zephyro; que mesmo suspirando está a rir; que sóbe em espiraes melodiosas para o ceo até se perder de vista, mas não foge; reapparece, e redescende fiel ás mesmas amenidades d'onde levantára o vôo. Não fere, nem envenena; encanta. Não accende fogo para deixar cinzas; brilha na alma como sol. Não se rodeia de aves de agoiro, nem de sonhos temerosos. Não desvela as noites, já com prazeres instantaneos, já com delirios, e arrependimentos contumazes, mas se imbebe na andorinha do beirado para nos acordar cada ante-manhan com as alegrias puras que ella sabe. Não cura de ciumes; quizera que todos amassem como elle. Não é um amor concentrado, exclusivo, incompleto, que só põe a mira n'um objecto caduco; é outro amor profundo e infinito como a Creação, com cujas maravilhas, maravilha elle proprio, se renova; a sua venda, se a tem, não escurece; é toda de brilhantes diaphanos e prismaticos, que redobram os prestigios do Universo. É o primogenito de todos os amores, e o que a todos sobrevive. É o que serviram, adoraram, e nos ensinaram a adorar, sem nome, todos os grandes poetas, desde Orpheu até o _Thomaz dos passarinhos_. É o que a virgem mais ingenua está sonhando voluptuosa, quando absorta suspira, e parece triste. É o que á mente do religioso levanta escadas floridas para o Empyrio. É o que annuncia, como boa nova, ao caduco, uma arregaçada de saudades, um chorão, um gorgeio estivo, e prateados raios da lua para cima da cova. É, em summa, o que aos impotentes da infancia segreda tantas coisas ineffaveis que os alvoroçam, e de que o outro amor, em chegando, ha-de receber porventura muita herança. Tal era a mysteriosa divindade que presidia aos nossos passatempos, sem que eu então a adivinhasse.
Amavamos pois decididamente.
VII
Vigiava-nos inquieta, suspeitosa, sollicita, a mãe de Amalia... Não riais: o seu coração materno tinha razão; um coração materno tem razão sempre. Não era um impossivel o que ella temia; apavorava-a um perigo real; e quanto a ella, segundo todas as mostras, muito provavel, ¿Que perigo? o da communicação da minha doença a um ente a quem ella sentia vinculada a sua existencia, e sem o qual, ainda que o quizesse, não saberia já viver.
O sangue que eu perdêra, a minha debilidade, todo o meu exterior, induziam a crer que a enfermidade que trabalhava tão activa por dentro em me destruir, ¡era.... nada menos que a tysica! mal ainda então rarissimo, com que hoje pela generalidade se vive familiarisado, mas do qual no começo d'este seculo nem quasi se ousava proferir o nome senão em baixa voz.
A familia, em cujo seio despontava tal phenomeno, forcejava pelo encobrir a todo o custo aos de fóra, como um castigo divino e uma ignominia; e abria ella mesma uma area de respeitoso terror, em cujo centro languescia, soccorrida, mas desamparada, a pobre victima. A roupa, os moveis, até a loiça do seu serviço, tinham marca, para que ninguem lhes tocasse. O confessor, o medico, o amigo, os filhos, a esposa, não chegavam ao alcance do seu halito; era o leproso; era quasi o damnado aquelle triste esqueleto vivo, envolto na sua pelle livida e ardente, e a quem, para luxo de desgraça, a Natureza subtilisava a vista e o ouvido, conservando-lhe inteiras a memoria e a intelligencia até á ultima. Emfim, logo que o espelho apresentado aos labios por um braço estendido de longe, e tremente, testemunhava com o seu cristal não empanado, que o ultimo bafo se esvaecera, ainda a terra o não tinha recebido, quando já os seus vestidos, o seu leito, a sua cadeira de martyrio, o livro das suas derradeiras orações, tudo era entregue ás chammas, e as mais prolixas ceremonias de lustração, tanto religiosas como physicas, acudiam á poisada; acontecendo, muitas vezes, que nem depois de picadas e renovadas as paredes, havia temerario que se aventurasse a occupal-a.
Deus louvado, o tempo não tardou em mostrar, pelas mais irrefragaveis provas, que a minha enfermidade, com toda a sua carranca de profunda e fatal, era passageira, e que d'aquella frágoa poderia sahir, como de feito sahiu, uma constituição vigorosa e duradoira.
Aos nossos amores, tão bem correspondidos de parte a parte, nem sequer faltou pois o estimulo de uma quasi prohibição, e o sainete de terem de se andar recatando, sobresaltados ao minimo rumor, como verdadeiros criminosos. Se não fosse a presença de minha mãe, e o affecto e delicadeza com que sua prima a tratava, ter-nos-hiam, provavelmente, separado, enclausurando na casa a amante, e deixando livres, mas desertos, para mim, o jardim e a quinta, largo e formoso banho dos ares balsamicos, de que eu então sobre tudo necessitava. Quem havia de lucrar com isso era João, meu primo; o que sua irman perdia, ganhava-o elle; era um namorado de menos, e um soldado de mais para o seu regimento, em que até então era elle só a força e o commando, o porta-bandeira e o tambor.
Havia muitas horas, entretanto, em que a mãe de Amalia, com a razão, ou com o pretexto do estudo ou dos bordados de sua filha, a retinha no gyneceu da casa; essas horas (bem o sabem todos os que amaram) deviam-me parecer eternidades; para as abbreviar, ora ia sentar-me n'um banquinho ao pé do seu bastidor, enlevado em vêr rebentar flôres debaixo dos seus dedos, e ouvindo os contos, que ainda hoje me lembram, da velha e gorda cosinheira Escholastica; ora me detinha encostado ao grande portão de grade de ferro no lado fronteiro do pateo, com os olhos pregados na janella do quarto de lavor; feliz quando de traz da vidraça me alvorecia a miude, saudando-me com um sorriso, aquella pequena rosa que eu esperava, e que já de lá como que me estava ensaiando os beijos que eu d'ali a pouco havia de colher ás escondidas no caramanchão, especial asylo, e o mais seguro, dos nossos furtos.
VIII
É uma grande pena que não saibam as creanças escrever, e não registem, para depois as lerem, as suas memorias, e que a torrente caudalosa dos successos ulteriores lh'as desgaste e confunda quasi todas; a sua historia poderia ser muito mais gentil, muito mais elegante, muito mais instructiva, que as historias e novellas de outras idades.
Á mingoa de taes documentos, que bem preciosos me seriam agora, fui hontem 19 de Dezembro d'este 1861 visitar, ao cabo de tantos annos, logares tão queridos, e evocar n'elles os phantasmas verdes dos arbustos do meu tempo, o phantasma candido d'aquella que eu tantas vezes arraiei, como gentil Maia, á custa d'elles, e o meu proprio phantasma pequenino, alegre, buliçoso, tão puro, tão amante, e diante do qual, como diante d'ella, eu me ajoelharia, se o encontrasse. Palpitava devéras ao approximar-me, como sem falta deve acontecer a quem se acerca de um logar de mysterios, ou a quem excava um solo, de que espera enthesoirar reliquias santas da antiguidade. Parecia-me que o mal transparente veo, que, tanto ha, me collocou o mundo n'uma penumbra, de repente se levantaria por um milagre da vontade e do affecto, e que eu ia rever tudo tal como o levava no coração e na saudade.
¡Ai ninho de tantas delicias! ¡quem se atreveu a desfazer-te! De tudo que ali havia, e que era tantissimo, ¡quasi que só eu resto! Não importa: profanados, perdidos mesmo, esses logares conservam, indelevel ainda para a minha alma, a sua primitiva sagração. Tornarei a visital-os na proxima primavera; talvez se me recordem então do que hontem só confusamente lhes lembrava; encontrarei porventura valverdes florídos, rainunculos matizados, quinquagesimos descendentes, e mais, dos que tão suavemente brilhavam no meu tempo; e esses alguma coisa saberão relatar-me de tão antiga historia. O portico viçoso, estrellado de jasmins, que bordava de sombras graciosas o vestido branco de Amalia, quando, abrigados ali n'um meio dia de verão, escutavamos as cigarras emboscadas, ha-de por força com a sua fragrancia falar-me d'ella, e avivar-me no espirito um cardume de sensações lyricas ineffaveis.
Por agora, que estou dictando a uma legua de distancia estas paginas, talvez indifferentes a todo o mundo, e frias como a estação em que nascem, que me acho diante de outras arvores nuas, que aguardam, saudosas como eu, dias de festa, o mais que posso dizer é que a primeira impressão photographica da bella Natureza, toda esplendida e de uma admiravel nitidez, foi ali que a minha mente a recebeu. Um tal quadro, que tinha de me ficar no sanctuario intimo para todo sempre inspirativo, fecundo, milagroso, e contendo a synthese da galeria do Universo real e imaginario, mal podéra haver tido tal perpetuidade e tal virtude, se lá m'o não collocassem uma fada e um genio, uma mulher e um amor; mulher recem-cahida das estrellas e ainda ignorante da sua destinação; amor puro como o dos Anjos encarregados de enfeitar a Natureza, e que, terminada a tarefa, dormitam entre os obeliscos que levantaram, e sonham céo.
Assim, ao mesmo tempo que as minhas forças medravam a olhos vistos de dia para dia, e que os diversos receios das duas mães diminuiam de manhan para manhan ao alegre florir do meu aspecto, se foi a minha indole compondo com duas religiões, que a final se reduzem a uma só: o culto das gemeas e eternas amantes universaes,--a Natureza e a Mulher.
IX
De tão ameno passeio na alva da vida chego de repente á escarpa de um precipicio, d'onde é inevitavel o despenho para um abysmo.
Encetava eu apenas a carreira do estudo, tão menino, tão menino, que o ouvirem-me já ler, e verem-me formar caractéres, era (nunca a minha vaidade o esqueceu) um thema de admirações e de felizes prognosticos para os parentes e amigos da familia. De repente outra doença, mais terrivel que a primeira, e menos esconjuravel do que ella, não paga com martyrisar-me, não contente de balançar-me por um fio largos mezes entre a vida e a morte, me atira vivo para um sepulcro! Eu respirava; mas os bellos olhos, idolatras das flores e de Amalia, e vangloria de minha mãe, não sabiam se havia ainda no ceo o sol de Deus! É impossivel recordar-me d'esse prazo, prazo de não sei quantas eternidades, sem que ainda agora o coração se me confranja.
Imaginae um homem á hora em que se fosse embarcar n'um bergantim doirado, por um mar de prata, com virações balsamicas dos vergeis da terra, cuidando já velejar horizonte em fóra para um mundo de delicias... e lançado de improviso no mais fundo subterraneo de uma torre. Esse homem tão desafortunado, e desafortunado tão sem culpa, que nem ainda era homem, fui-o eu; e tanto mais sem-ventura, quanto ninguem então, nem eu por conseguinte, me julgava possivel a ressurreição, e a soltura.
Convalesci; d'esta vez sem os soccorros do campo. Tinha as forças e a edade para folgar, tinha o desejo e a precisão do movimento, da convivencia, da fraternisação geral, da conquista, emfim, que pelos olhos se opera de continuo nos inexhauriveis dominios da Natureza e da sociedade; não podia permanecer immovel; mas o meu carcere sem lanterna me seguia por toda a parte. A ave da poesia, que me pipilava dentro, debatia-se contra as grades, quando ouvia lá de fóra estrondear a vida festival, e pelo ecco deshumano das suas vozes se lhe revelava o sem numero de bellas coisas, que até os insectos e vermes senhoreavam pela vista.
X
Dera-me a Providencia, entre meus irmãos, um, dois annos mais novo do que eu, cuja indole sympathica inteiramente com a minha, cujos gostos em admiravel harmonia com os meus, nos constituiam mais que irmãos,--duas metades inseparaveis do mesmo todo. Ardia tambem n'elle a faisca sagrada. Não era tudo o palpitar o coração de cada um dentro no peito do outro; os nossos espiritos se adivinhavam de parte a parte; a nossa conversação tinha... (¿como hei-de dizer isto?) o que quer que fosse de um solilóquio, ou de um cantar ao ecco. Levava-lhe eu a vantagem de vinte e quatro mezes mais, elle me levava a de mais um sentido. Havia equilibrio, e compensação; cada um dava, e cada um recebia. Este mesmo interesse mutuo contribuia para a espontaneidade da nossa fuzão necessaria e suavissima.
Chegou a edade dos estudos. Era tempo de aparelhar com as chamadas humanidades para as sciencias. ¡Que inveja e que tristeza, quando meus irmãos, ambos mais novos do que eu, sahiram pela primeira vez deixando-me só para se irem inscrever na classe de latim! Permittiu-se-me accompanhal-os; attendi; devorei; li pelos ouvidos; corri aposta com os mais applicados.
O preceptor, bom e honrado velho, que, trinta annos havia, professava com devoção o idioma de Cicero e Virgilio, observa a minha attenção; interroga-me curioso; reconhece e declara não ter discipulo que mais em cheio haja absorvido as suas doutrinas.
D'essa hora em deante fui eu o filho adoptivo, o predilecto, o mimoso, do seu enthusiastico romanismo. Não só erudito de amplos cabedaes, mas poeta, poeta elle mesmo, poeta _utriusque linguæ_, julgou reconhecer em mim, pelo modo como lhe eu traduzia as paginas inspiradas que elle me lia com fogo, e pela promptidão, sobre tudo, com que eu lhe restituia nos versos originaes os trechos que elle para isso me recitava das Musas cesáreas reduzidos a proza portugueza, julgou, digo, reconhecer uma indole fadada para a poesia; e pôz com generoso exforço peito a cultival-a.
Tratar as Musas, e em particular as latinas, é desenvover a um tempo phantasia e sensibilidade:
_......lecto carmine doctus amet._
O poeta que assim cantára, logo ali se apossou de mim para toda a vida. O seu estudo, que eu nunca mais interrompi, que depois alarguei, e que ainda agora me é delicias, entrou pois como elemento energico, tanto como as amenidades do Paço do Lumiar, e os amores infantis de minha prima, na composição mysteriosa e providencial do meu verdadeiro destino, que nunca foi desde o principio, nem já agora póde ser outro até ao fim, senão, repito, a poesia.
Meus irmãos passaram-me dentro em pouco de condiscipulos a discipulos; e o mais novo, Augusto, de discipulo a inseparavel. ¡Que annos! ¡Que annos esses! ¿Quem, tendo-os uma vez desfructado, os esqueceria em nenhum tempo, em nenhuma fortuna?!
Augusto e eu, que afinal já éramos um só, fanatisados deveras com as grandiosidades heroicas, com as fabulas ridentes e floridas que nos surdiam de continuo ao excavarmos por aquelle mundo fossil e classico, pode-se dizer que nos naturalisámos Romanos antes de sermos Portugueses; fomos antiquarios enthusiastas na puericia; os cobres, que os d'aquella edade desbaratam em doces e brinquedos, convertiamol-os nós em qualquer _alfarrabio_, que no frontispicio nos trouxesse um dos nomes Romanos immortaes, cuja ladainha sabiamos de cór, e recitavamos com veneração, desde o principio da _edade aurea_ até ao cabo da _edade ferrea_ e _lutea_, desde Livio Andronico até aos escriptores já christãos, ultimas reliquias do Imperio e da lingua a desfazerem-se. Devoravamos tudo aquillo sem guia, sem escolha, temerariamente, mas com uma perseverança, com um affecto, com um encantamento, inexplicaveis. Excusavamos, repelliamos qualquer outro passatempo; visitas, passeios, tudo nos era enfadonho, comparado com a delicia de vaguearmos pela Italia velha, de ouvirmos os seus heroes pela bocca de Tito Livio, de entrarmos com Virgilio familiarmente no palacio rustico d'el-Rei Evandro, de nos espairecermos com elle, Calpurnio, e Nemesiano, por entre as amenidades campestres, e ouvirmos cantar Horacio n'um pomar da sua Tibur:
_...... ad aquæ lene caput sacræ_
coroando-nos como elle
_...flore, terræ quem ferunt solutæ_
ou de escutarmos suspiros e galanteios de Tibullo, Propercio, Gallo, Catullo e Ovidio. Ovidio mais que todos nos levava traz si as vontades. (Não prégo moral; historío).
A poder de lidarmos com aquella gente, aformosentada pela distancia, e tão ideal vista de cá; tudo gue não era ella, o seu viver, o seu pensar, o seu idioma, as suas festas, nos parecia mesquinho, insipido, repugnante; sonhavamos acordados.
D'isso me adveio, cuido eu, e não podia deixar de ser em edade tão branda para receber cunho, uma confirmação não pouco efficaz para a poesia.
XI
E na verdade, já que estamos conversando desenfadados, sinceros, e sem armar a vanglorias, ou, por outra, já que me estou confessando dos meus peccados de poesia pratica, direi aqui (embora quebre o fio da narração, depois o atarei) que, estendendo a consideração por todo o longo e variado decurso da minha vida até hoje, não descortino em toda ella senão... (¿como direi isto que me não afronte em demasia?) senão um predominio constante da phantasia sobre a realidade; uma extranheza activa e passiva dos homens, successos e coisas do mundo, em que vivo como que emprestado, semi-pagão, semi-classico, semi-republicano dos Gracchos, semi-conviva de Mecenas, semi-Tityro, semi-captivo das Corinnas e Delias, e, com tudo isto, a esvoaçar-me sempre da poesia que foi, ou que se nos figura lá traz, para outra que lá adiante ri aos santos amigos da humanidade, aos utopistas.
Sempre que o individuo, de quem falo, entrou, ou cuidou entrar, na politica (n'esta parte, Deus louvado, já escrevo o necrológio) foi sempre levado do enthusiasmo, ignorante da historia contemporanea, e da mesma politica, não ajuramentado a bandeira de côr alguma, não adstricto a tal ou tal plano de estadista, curando pouco de nomes, e menos ainda de interesses proprios; foi campeão sem divisa de uma causa apenas prophetisada, vaga, confusa, remotissima.--a civilisação pela moral, pelo amor, pelo trabalho, e pelo saber. Pueril e incorrigivelmente seduzido por miragens humanitarias e poeticas, nunca passou entre os politicos positivos de alvitrista chimerico, e homem para nada; pugnou com o ardor de quem reivindicasse algum morgado pingue, pugnou até vencer (¡vêde isto!) para que se fechasse aos tentados de suicidio a paragem vertiginosa que mais por seu contagio os attrahia; empenhou sabios em procurarem remedio, se o houvesse, que diminuisse as duas pestes:--duello, e infanticidio; incitou para o cultivo serio das Lettras quantos talentos esperançosos descobriu; foi de todos amigo sem inveja, pregoeiro sem restricções; propoz para os veteranos dos estudos e da poesia uma Runa gloriosa, abundante, e aprazivel, em vez do hospital que ainda não mandou queimar a enxerga de Camões, á espera dos que poderão vir; pediu, e tambem debalde (¡debalde até isto!) um Campo Elysio terrestre para os mortos memoraveis; suas effigies postas pelo publico agradecido nos passeios, e uma lamina commemorativa pregada pelo Municipio na frontaria de cada casa, testemunha do nascimento, dos trabalhos, ou do obito, de um benemerito; procurou e descobriu as reliquias do Cantor dos _Lusiadas_, para que as desagravassem; forcejou com a persuasão para que se desse á agricultura o seu apreço, á imprensa o mais amplo favor, premios reaes aos talentos operosos e productivos, subsistencia e honra aos educadores, ensino liberal, christão e ameno á puericia; pela puericia, que é a nação de amanhan, fez mais, muito mais, quanto poude e mais do que podia: invocou por ella ceo e terra, throno e plebe, sabios e ignorantes, ricos e miseraveis, o clero e as mulheres; foi na vanguarda dos consociados para se promover a educação popular; fez-se, a expensas de tudo seu, mestre-escola de plebeus e descalços; evangelisou de terra em terra o novo ensino, o ensino racional, a centenares de professores honestos; pelejou na imprensa, com o amor e com o odio, desde a supplica até á verrina, em prol dos calcados direitos da infancia, da maternidade, e da Patria; e convencido, pela evidencia dos factos, resposta eloquente e peremptoria aos negadores das vantagens da reforma, que riem, que riem da caridade, que riem da philosophia, que riem do progresso, que riem de seus filhos, que riem de si mesmos, deixou pendente a envelhecer por dez annos, desenfeitada e esquecida, a sua lyra (¡oh! ¡milagre summo de uma fé verdadeira!), para andar sollicitando a redempção e o baptismo de luz dos captivosinhos de sete e menos annos; foi levar o beneficio espontanea e gratuitamente ao Brazil; ambicionou que lh'o acceitassem do mesmo modo na Hespanha e na Italia. Se n'estes dois lustros de lidas obscuras, só pagas com desgostos, alguma hora se recordou de poetar, foi só para convidar com o exemplo e com o discurso talentos melhores que o seu a encetarem cantares de civilisação, a enxertarem nos loireiros estereis alguns ramos fructuosos; e não se levantou da cadeira de um ensino quasi ignobil aos olhos do mundo, senão para escrever livros sem vulto, mas necessarios ou uteis:--_Noções rudimentaes_;--_Guia pratica de mestres_;--_Tratado de Metrificação_;--_Tratado de Mnemonica_;--_Felicidade pela instrucção_;--_Felicidade pela agricultura_;--_Tentativas grammaticaes_--um _Curso de lingua latina_;--e, de envolta com tudo isso, requerimentos reiterados e instantes aos poderosos, ás sociedades, ás academias, aos principes, aos tribunaes de instrucção, para que o ajudassem.
Quando um Rei _amigo dos que trabalhavam_, e cheio elle mesmo de nobres ambições, convidava ao poeta de outr'ora para ir colher fructos de oiro num ensino altamente litterario, ousou o poeta pedir-lhe commutação no serviço, offerecendo-se-lhe operario para a trasladação dos monumentos classicos romanos á lingua patria, por entender que ia n'isso muito maior vantagem aos estudos e á poesia, ainda que para elle menos lucro e menos brilho.
Todos estes rasgos de loucura se provam e documentam d'aquelle pobre sonhador, a quem, deneguem tudo mais, coração e muitissimo não lh'o podem contestar.
XII
¡Que digo! ¿Esta mesma digressão aqui não é porventura uma sobreprova de quanto o amor, na sua mais vasta accepção, o amor que não suppre assim a poesia senão porque o é, constitue o caracter do pobre homem? Nem os desenganos o desenganam; nasceu affectivo; affectivo tem vindo caminhando pela vida fóra, da primavera para o estio, do estio para o outomno, que já se lhe desverdece, e nem os gêlos do inverno lograrão provavelmente resfrial-o.
Na festa da Primavera, n'esses dias do amor só sensual e egoista, bem que innocente, ¿que pedia elle aos amigos para quando já não existisse?
Deixae-me escutar n'um ecco d'alma aquelles versos:
Depois que entre os abraços delirantes de todos os que amei findar meus dias, sepultae-me n'um valle ignoto e fertil. Para marcar da sepultura o sitio, sobre o cadaver que vos foi tão caro mangeronas plantae, cuja verdura em roda fecham variados lirios. Na raiz funda da soberba olaia poise a minha cabeça, e o tronco amigo sobre mim curve a copa florescente. Mil piteiras unidas, ostentando na hastea vaidosa as flores amarellas, em quadrado não grande me defendam das incursões das cabras roedoras. Em meu tronco se escreva este epitaphio:
_Foi poeta amador da Natureza:_ _d'entre as sombras ancioso a procurava,_ _qual terno amante a bella fugitiva._
Sobre isto pendurae sonora flauta, que se revolva á discreção do vento. Não cerque os ossos meus, não m'os ensombre, nem teixo nem cipreste; arvores quatro quizera só no meu jardim de morte. N'um canto a laranjeira graciosa, que mescla util e doce, a flor e o fructo; n'outro a figueira sob as amplas folhas modesta occulte seus nectáreos mimos; defronte um pecegueiro em fructos mostre que amavel é pudor, quando enche faces de penugem subtil inda cobertas; no ultimo canto... (a escolha me confunde) plantae no ultimo canto uma ginjeira; é a arvore da infancia, até na altura; d'esta por sua mão colhe um menino a mui ridente baga, e ri de ufano. Alguns tempos depois que a fria terra meus restos encerrar, á minha olaia vós, meus amigos, vós dareis meu nome, pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.