A Chave do Enigma

Chapter 13

Chapter 131,461 wordsPublic domain

Tendo 1 anno de edade cahiu Castilho em casa, dos braços da ama, por uma escada de pedra, e quebrou o osso sterno, onde conservou sempre defeito. Ficou tão abalado, que chegaram os paes a recear se lhe extinguisse a vida. Aos 4 annos teve tosse convulsa, e deitou muito sangue pela bocca. O estado em que ficou, obrigou sua mãe a leval-o para o campo. Isto tudo (note-se) foi antes do ataque de sarampo que o cegou aos 6 annos.

Pag. 10, lin. 5--*Quinta dos Azulejos*

Sobre a _quinta dos Azulejos_ (tambem outr'ora chamada do _Principe_), no largo do Poço, no logarejo do Paço do Lumiar, junto a Lisboa, veja-se o que vem nas _Memorias de Castilho_, por Julio de Castilho, tomo I. O poço que se via no meio do tal resumido largo já não existe. Engana-se Castilho attribuindo a esta quinta, por conjectura vaga, a honra de ter communicado ao logarejo o seu nome de Paço. Essa gloria, segundo o erudito Vilhena Barbosa, pertence talvez á quinta dos Duques de Palmella.

É ainda hoje a quinta dos Azulejos um bellissimo especimen dos jardins nobres e ricos do seculo XVIII. Pena e grande pena foi, que os modernos proprietarios destruissem o arvoredo antigo, os buxos aparados, as murtas, etc., dos jardins em estylo velho, para substituir essas regradas opulencias vegetaes por outras invenções pertencentes ao chamado jardim inglez. Estas serão muito bellas, mas desdizem dos azulejos primitivos, que lá campeiam ainda, e são dos mais vistosos, dos mais correctos, dos mais agradaveis que podem ver-se.

Quando, na muitos annos, visitou essa quinta o Poeta, ainda o estado antigo da parte rustica do predio se conservava intacto. É lastima que o alterassem.

Pag. 19, lin. 13--*Antigos donos da quinta dos Azulejos*

Não se conhece (se é que existiu) parentesco da familia do Poeta com os donos da _quinta dos Azulejos_ (ou do _Principe_). Pelo lado Castilho não seria de certo. A ter existido, deve ter provindo da familia materna, que era de Lisboa e seus arredores, ao passo que a do Doutor José Feliciano de Castilho era de Coimbra, Aveiro, S. Lourenço, e Bairrada. Sem haver consanguinidade, bem pode ser que as duas familias, que parece eram bastante intimas, se tratassem por parentas, a principio por gracejo, depois por costume. Não sabemos dizer quem hoje representa a familia de Amalia.

Pag. 21, lin. 33--*Thomaz dos passarinhos*

_Thomaz dos passarinhos_ é o personagem de um dos contos do fallecido e talentoso Rodrigo Paganino no seu lindo livro _Contos do tio Joaquim_, livro que muito agradou a Castilho, e que elle ouviu com gosto ler umas poucas de vezes.

Pag. 25, lin. 3--*O Paço do Lumiar a uma legua de Lisboa*

«Estou dictando a uma legua de distancia»--dizia Castilho e bem. _A Chave do Enigma_ foi escripta na casa que o poeta habitava, na rua Nova de S. Francisco de Paula, n.os 25, 27 e 29. D'esta casa apenas existe hoje menos de metade.

Pag. 27, lin. 11--*José Peixoto do Valle*

Era o nome d'esse abalisado professor no Geral do Cunhal das Bolas. Coube-lhe a gloria de mestre de Castilho; este mencionou-o mais de uma vez em varios livros.

Pag. 30, lin. 8--*Cemiterio de honra*

Castilho propoz e advogou a creação de um cemiterio de honra para mortos celebres e benemeritos da Patria. Não os queria encerrados n'um Pantheon; queria-os n'um vasto jardim cheio de sombras, zumbidos, e vozes de passaros, á sombra da Cruz. Nas notas do seu _Camões_ tratou largamente o assumpto. Não foi ouvido.

Pag. 30, lin. 9--*Bustos de homens notaveis*

Castilho propoz mais de uma vez que nos passeios publicos se collocassem bustos de Portuguezes notaveis.

Pag. 30, lin. 14--*Camões*

Em 1836 propoz Castilho, na assemblêa geral da Sociedade dos Amigos das Lettras, em Lisboa, se buscassem os ossos de Camões, e se lhes prestasse homenagem nacional, solemne e publica, segundo o programma que apresentou. Procurou os ossos, e achou-os, dirigindo uma Commissão especial nomeada expressamente pela mesma Sociedade. A nova Commissão de 1854 discordou da argumentação de Castilho, e deu outros ossos como sendo os do Epico. Entretanto Castilho conservou sempre a convicção de que o seu raciocinio na busca era o verdadeiro.

Castilho tinha a maior ufania e satisfação em escutar á sua consciencia dizer-lhe que em 1836 tinha elle procurado (e achado) na egreja de Sant'Anna os restos mortaes de Camões. Sobre todo esse complicado assumpto pode ler-se o que se trata detidamente nas _Memorias de Castilho_, Livro III, no _Instituto de Coimbra_. Não fizeram caso dos argumentos, e levaram para os Jeronymos uns ossos quaesquer. Consulte-se o consciencioso livro do illustrado sr. Padre Sebastião de Almeida Viegas _A verdade acerca dos ossos de Luiz de Camões_.

Pag. 36, lin. 7--*Palacio do Arco de Almedina*

A casa do Arco de Almedina, em Coimbra, ainda hoje é denominada _dos Castilhos_ pela ter habitado esta familia muitos annos. A vista do pateo foi reproduzida no volume antecedente a este.

Pag. 36, lin. 22--*Maria Telles*

Julgava Castilho, com muitos seus contemporaneos, que o tristissimo caso do assassinio da infeliz D. Maria Telles se tinha dado no casarão velho, ou Torre, junto ao Arco de Almedina. Era engano; sabe-se hoje que não foi ahi.

Pag. 37, lin. 14--*A educanda*

O nome adoptado pela educanda, _Maria da Expectação Silva e Carvalho_, não era o que usava, mas tinha forma symbolica. _Maria_ era com effeito o seu nome proprio. A _Expectação_ allude á expectativa, em que ella se achava, de ser, ou não, correspondida pelo Poeta. _Silva_ e _Carvalho_ eram appellidos da Casa de seu pae; Francisco da Silva Coimbra de Carvalho, Cavalleiro professo na Ordem de Christo, Fidalgo da Casa Real, casado na freguezia das Mercês a 27 de Outubro de 1785 com D. Maria Fortunata Agostinha de Portugal, nascida em 12 de Outubro de 1766 na freguezia dos Anjos. O nome exacto da _incognita_ era D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal.

Pag. 50, lin. 28--*D. Tourís*

Esse D. Tourís, ou Turís Sarna, é, segundo os nossos antigos linhagistas, progenitor da nobre familia dos Barbudos, á qual pertenceu o senhorio da villa de Barbudo, concelho de Villa-Chan, comarca de Pico de Regalados (hoje freguezia de Parada, concelho de Villa Verde). D. Leonor de Barbudo, natural de Odemira, filha unica e herdeira de Ruy Filippe de Barbudo e de Isabel Rebello Falcão, casou com D. Francisco de Baêna, vereador da camara de Odemira, e filho de D. Hernando de Baêna, o primeiro que de Sevilha se passou para Portugal, e teve em 30 de Outubro de 1501 o foro de Escudeiro fidalgo.

Foram primeiros avós do Desembargador do Paço João Sanches de Baêna, que na sua mocidade usou tambem o appellido de Barbudo, 5.º avô da educanda de Vairão. ¿Quem diria ao fundador, que passados seculos ali tinha de habitar uma sua descendente?

Pag. 50, lin. 38--*Os Sanches de Baêna*

Vivia essa senhora recolhida em Vairão, com sua irman D. Maria do Carmo (mãe do actual Visconde de Sanches de Baêna). Tinham um irmão Luiz da Silva Coimbra de Carvalho, cadete, fallecido novo em resultado de feridas recebidas na guerra peninsular.

Pag. 53, lin. 24--*Pygmalião*

Parece haver entre os antiquarios mythologos certa confusão entre dois Pygmaliões, um esculptor insigne, e um rei de Tyro; Castilho (como alguns outros) fez dos dois um só.

Pag. 131, lin. 34--*O Imperador de França*

Referencia a S. M. Napoleão III, que em 1861 reinava, sem que ninguem podesse presagiar a sua desastrosa queda oito annos andados.

Pag. 149, lin. 28--*Cinzas da correspondencia do Poeta*

O sr. Ernesto Loureiro, comprando o predio de S. Francisco de Paula, depois da sahida de Castilho em 1871, determinou edificar ahi um predio novo para sua habitação. A metade septentrional da casa velha foi arrazada, e n'esse sitio e em parte do jardim se levanta hoje um _chalet_. O sr. Loureiro, cujo fino espirito e cujo affectuoso coração se compraz no culto do passado, quiz respeitar a lapide posta pelo Poeta; mas sendo necessario removel-a, fel-o com cuidado, com carinho, com amor, e pôl-a com o cofre das cinzas n'outra parte do mesmo jardim, juntando-lhe um pedestal por accessorio, e o busto de Castilho. Tudo isso consta minuciosamente de um auto ali celebrado, e que se acha intercalado no logar respectivo das _Memorias_. O que praticou o sr. Ernesto Loureiro honra sobremodo o seu caracter.

[1] Carta ao Ex.mo Sr. Casal Ribeiro datada em 1 de Março de 1859, publicada pela Associação Promotora da Educação Popular.

[2] J. M. Latino Coelho: Biographia de A. F. de Castilho na _Revista Comtemporanea_.

[3] Cant. dos Cant., cap. II.

[4] Pode-se ler a interessante descripção do que resta d'esta casa tão religiosa como historica no formoso livro _Bellezas de Coimbra_, impresso n'aquella mesma cidade em 1831 pelo sr. Antonio Moniz Barreto Corte Real.

[5] Pode-se ver na _Felicidade pela Agricultura_ o artigo intitulado--_O Clero, e as Mulheres_.

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