Chapter 12
Manhan da alma existencia. ¡Oh! ¡como alegre me alvoreceste! ¡oh! plena luz, enlevo de que o minimo insecto ignaro goza, riqueza de que é rico o mundo todo, luz, com pródiga mão dos céos lançada, vida, belleza, luz! palavra etherea, a unica de um Deus no grão momento, em que ao formado mundo erguia o panno... ¡luz! ¡luz! ¡eu te gozei na infancia minha! ¿gozei?... ¿quem te possue goza-te acaso? não; pródigo, indiff'rente, como todos, vi-te, desperdicei te ¡Ah! ¡quem me dera d'essas horas doiradas um minuto, uma só gotta d'essas fontes amplas por este areal tão sêcco! ¡Oh! ¡com que sede n'um só momento me vingára de annos! ¡que joias no poetico thesoiro avido para um seculo ajuntára! ¡Como ás imagens pallidas, que á força te arranco, ó Natureza, como arranca o oiro entre fezes duro escravo á mina, como a tantas imagens desbotadas, rico legado do menino ao homem, revivêra o matiz, o fogo, o lustre! Então, para pintar florestas, mares, não precisára de espreitar confuso um ramo a folha e folha, ou já no copo, agil movido, o rutilar da lympha. Se ouvisse descrever a majestade de um rosto varonil, de uma formosa o encanto, de um menino as graças lindas, tudo isso o variára a mente facil. O aspecto do varão nem sempre fôra a paterna presença. Além de Amalia, de meus brincos pueris ligeira socia, mais formosas houvera, e mais formosos anjos mortaes que o meu gentil do espelho, de olhos tão vivos, tão córado aspecto, riso tão doce, e que eu amava tanto! ¡Saudades vans; desejos vãos e acerbos! Se o mar, se o céo, se os campos se me esquivam, róla a mente em seu mundo infindos mares, campos lhe alastra de opulencia extranha, circumvolve-o de céos fervendo em astros. Tal de Agenor o filho a patria perde; mas se lei deshumana o lança em fuga, oraculo phebêu condul-o a thronos; por Tyro que perdeu lá funda Thebas, a de cem portas nos canoros muros. Mas a patria... era a patria; aquella Tyro... era a Tyro da infancia; o solio, Thebas, o Elysio, o Olympo mesmo, a não valeram.
¡Feliz o para quem da vida as portas já se abriram sem luz! Só tem metade do humano apego ao mundo e horror á morte: não viu, chupando o leite, o seio amigo, o sorrir brando, os olhos, e nos olhos o coração materno; as irmans suas não foram mais que uns sons; a rosa, um cheiro; movimento, o passeio; o sol, quentura; um monte, a estiva noite; as Graças... nada. ¡Longe outra vez, e para sempre longe, saudades vans, desejos vãos e acerbos! ¿Que me importam canções? ¿que outrem descreva com mais proprio matiz do mundo os quadros? ¿que tenha ou não mais azas para um voo? ¿que importa que um volume de poesia seja um thesoiro para mim sem chave? ¿e que dos seios do animo rebentem meus versos caudalosos, sem que eu possa co'a propria dextra abrir-lhes a passagem, por onde ávidas paginas inundem? ¿Não me rege inda a luz os cautos passos? ¿não me tinge inda ao perto as varias fórmas? livros... pluma... olhos meus e dextra minha quando jámais n'outro _eu_ me falleceram, n'outro _eu_ onde os amei e os amo em dobro? ¡Graças a amor, á Natureza graças! logrei constante, e lograrei perpétuo nos laços fraternaes consorcio d'almas, nos de hymeneu fraternidade nova; meu ente n'estes entes se completa, já bardo sou tambem... sahi, meus versos; pura mão, don dos céos que eu pago em beijos sollícita vos abre ao mundo estrada; sahi, voae! da gratidão fervente aos olhos de Sendim levae meus votos!
LIII
Completemos estas explicações melancolicas.
Aquelles em quem o amor entrou só, ou principalmente, pelos olhos, acham custo em comprehender, como desservido da vista se possa na alma accender este fogo maravilhoso. A sua mesma ventura é que os torna assim pouco philosophos.
Examinemos.
Reuniu Deus para compôr a mulher--remate, corôa, e epilogo da Creação--a quinta essencia de tudo quanto derramára de melhor no paraizo, onde a collocou, e do qual, ainda depois de perdido, as descendentes de Eva ficariam avivando recordações. Quiz Elle, o Summo Factor, fundir-lhe o espirito brilhante e suave de um raio de oiro do sol, e de um raio prateado da lua. Deu-lhe a pureza da cecem, a alvura do lyrio, o pudor e a graça da rosa, a modestia da violeta; accendeu-lhe no olhar brilho de estrellas; descerrou-lhe auroras de carmim e perolas no sorrir; para fala, concentrou todas as melodias, balbuciadas no frémito das virações, no murmurinho das fontes, e nos canticos das aves; modelou-lhe a estatura pela dos arbustos mais esbeltos e mimosos; arredondou-lhe as fórmas, que lembrassem os frutos mais gentis e apetecidos; diffundiu-lhe os cabellos como as ramas pendentes e movediças do salgueiro aquatico; impregnou-lh'os de electricidade; embebeu-os de um aroma que fala; revestiu-os de brilhantismo; tão esmerado e prodigo os dotou, que o oiro e as perolas, as pedrarias, os perfumes, as sedas e as flores, ambicionando realçal-os, recebessem d'elles novo preço.
Este ente, meio positivo, meio aereo, meio terrestre, meio ceo, que volteia por entre nós como anjo desterrado, saudoso, mas contente, tendo por fala um canto, a sujeição e a humildade por imperio; em que a fraqueza é graça, e a graça omnipotencia; cujo encargo é mais que eternisar a especie,--é entretecel-a, domesticál-a, refinar-lhe o gosto, os instinctos do bello, os arrojos para o bom e para o sublime; a mulher em summa, fadada de alguma sorte a ser mãe e mestra, guia, arrimo, lampada, conselheira, prophetisa, esforçadora, modelo e premio, não só de seus filhos, mas de seus irmãos tambem, de seu consorte, de seu proprio pae, de todos que de perto ou de longe lhe podessem receber directas ou reflexas as influições; a mulher, a mulher--da qual, depois de tantos mil volumes de panegyrico, depois de uma idolatria universal de seis mil annos, ainda se não exhauriram louvores, nem jámais se hão de exhaurir--não seria a vice-providencia, que devia ser, e que é, no meio da sociedade, se não possuisse este complexo ineffavel de seducções para toda a especie de indoles, de espiritos, de gostos; um laço infallivel para cada sentido; um milagre para cada incredulidade; para cada infortunio, seu balsamo; para cada edade, seu ramalhete; sua estrella para cada noite; mão inesperada e macia para cada desamparo; para cada fronte que se despedaçaria ao cahir, a almofada subita de um braço todo extremos, de um seio todo suspiros, de um coração todo divindade.
Parece que está aqui o animo a nadar á sombra de uma sagrada Paphos n'um pego verde e azul, aureo e argentino, embalado pelos mais ridentes genios das ficções; e não está senão folheando, ebrio de gratidão, o Génesis ineffavel da creatura em quem mais evidentes se revelam as perfeições do Creador. O que pareceria um hymno, é, para quem o souber meditar, uma succinta e desenfeitada pagina de historia natural.
Ao homem grosseiro, pervertido, gasto, embrutecido, represente-se muito embora que a mulher, brotada para seus prazeres ephemeros, como as flores, não pode penetrar dentro em nós senão pelos olhos; feche-os, e escute: lá está ainda ella com a sua magia. Furte-lhe tambem os ouvidos, como Ulysses ás sereias; não a destruiu; o calor, os abraços, e os beijos, lhe revelarão completos os seus encantos. Não ouse ou não possa tocál-a; um halito, uma fragrancia subtil, que não é de flores, mas de vida,--que é mais que de vida, pois é do amor,--lhe dirá: aqui está o fruto para a tua avidez e para a tua sêde.
É porque a mulher, communhão perfeita do affecto, é toda para todos, e toda para cada um. Triumpha na luz, como n'uma auréola; enleva nos sons, como n'um cantico; insinua-se por cada sentido; infiltra-se por cada póro; não ha porta na alma que se lhe não franqueie. É a chamma electrica, para a qual não ha resistencia nem muralhas. Fugi-lhe; esquivae-vos; sumi-vos nas entranhas da terra; lá mesmo sereis d'ella; vel-a-heis sorrir-vos, aquecer o vosso jazigo, bafejar cubiças ao vosso coração, fazer do vosso nada um universo, reerguer-vos para o Ceo, de que blasphemaveis.
Pelo que pertence em particular ao homem da nossa historia, eis aqui chãmente o que eu sei, e que não é muito.
Comprehendestes, cuido eu, como a grande Isis, a Natureza, a qual para nenhum de vós se despe de todos os seus veos, quiz ser ainda mais esquiva, mais recatada, mais avára para com elle, para com elle seu fervoroso adorador. Não se lhe furtou de todo; não apagou entre si e elle o sol, como já fizera com o seu Homero; mas annuveou-lh'o como para a solemnidade de um mysterio magico; e, mesclando trevas com luz, benigna e ainda mãe no seu rigor, lhe ensinou a adivinhál-a, a completar-lhe as lacunas das realidades com as phantasias, a estudar a um e um os seus pontos mais frisantes, e de inducção em inducção, de analogia em analogia, de probabilidade em probabilidade, a recompol-a, ou a creal-a, não verdadeira nem falsa, chimera organisada de certezas, hypothetica nos accessorios, incontestavel no essencial; retrato seu, imperfeito, mas reconhecivel, mas formoso, mas sympathico, mas inspirativo, mas sufficiente e sobejo para idolatrias.
Qual a Natureza lhe apparece e lhe poisa para modelo diante da lyra, tal lhe assoma diante do coração esta florida cifra da mãe Universal, o archétypo das perfeições: a mulher.
LIV
Mancebo, que me has-de ler curioso e condoido: ¿conheces tu porventura aquella que te embelleza e te fascina? não te pergunto pelos arcanos do seu interior, que ella propria não decifra; falo só do que só porventura te seduziu; falo da sua fórma externa; falo mesmo d'aquella porção exclusivamente que a arte não some em nuvens de tecidos preciosos, em auroras de mil cores, em espumas de rendas, em cascatas de oiro, de aljofares, de diamantes, cahos esplendido que sonega um mundo de gentilezas a attrahir-te e a repulsar-te; falo unicamente do semblante; do semblante que emerge livre, dominador e risonho, por cima de tamanha cerração de enigmas. ¿Vês tu em realidade esse rosto que te encara com tão seductora franqueza, que para ti se banha nu em ondas de luz sob os lustres e sob o sol? ¡Pobre illudido! ¡Se o vidro augmentativo t'o averiguasse, talvez recuarias de espanto! a tez mimosa e córada, a tez que ambicionavas beijar tão lisa e tão perfeita, reconhecêral-a vasto mappa de cavernas e montanhas, de torrentes mal cobertas, de espessuras, homizio e pastagens de viventes, para quem mais que para ti foram fabricadas aquellas regiões incognitas. Com a apparição d'esse mundo de lindezas microscopicas, evocadas por um crystalzinho convexo, desappareceria a beldade que a Natureza, benignamente enganadora, te inculcava; o que a tua sciencia ganhava, o enthusiasmo do teu amor o perdia sem remedio. Decomposta em mil formosuras, aniquilára-se a formosura, que só á providencial, á calculada imperfeição dos teus orgãos tinha devido a existencia.
¡Bemdita sempre e em tudo a Bondade Infinita do Creador! ¡Que philosopho insensato se afoitaria a tomar-lhe contas para o censurar! Nem eu, nem eu proprio, tenho que murmurar de ser menor que o de outros muitos convivas o quinhão que o Pae da luz me concedeu no seu festim.
Cada qual vê a mulher pelo seu prisma, prismas todos differentes e todos illusorios. O meu, fundido de um crystal mais turvo, decifra-a, individua-a muito menos, é verdade; mas em compensação permitte-me á phantasia o completal-a com todos quantos primores sabe, que são infinitos.
¿Querereis dizer-me que são ficticios, que não são ella, esses primores? ficticios embora o sejam na origem; mas tornam-se d'ella, são ella mesma perante a alma e o coração que lh'os prestaram; é a mulher sem-senão, a mulher idealisada, a mulher só assim ascendida a grau de divindade, mulher exterior mais parecida por ventura com o espirito gentilissimo que lhe mora dentro, que o bando de máscaras femininas, mais ou menos imperfeitas, que enxameiam por esse mundo á procura sempre de homenagens convictas e duradoiras.
Logo que eu, alchimista combinador e attento, senti uma voz suave, em que outros, distrahidos com o olhar não attentariam, e que me desceu do ouvido ao seio, distillo d'ella ao brando calor do sangue quanto succo ella continha de imaginação ou de Juizo, de melancolia, de prazer, de bondade, de innocencia, de sentimento. O perfume que d'ali se exhala, já annuncia a deusa. Entrevejo-a; branquejou-me o rosto, d'onde sahira tanta melodia e tanta alma. Doto-o, fado-o, opulento-o como podéra fazer o Oberon mais carinhoso, ou a Titania mais amante. O phantasma, já meio filho da minha adopção, passa por diante e perto de mim; reconheço-lhe, ou attribuo-lhe, como Virgilio á divina mãe de Enêas, a estatura, o movimento, o andar, que para ser adorada se lhe não dispensa:
_Et vera incessu patuit dea........._
e não accrescento, porque o não penso:
_...............tu quoque falsis _ _Ludis imaginibus..............._
Beldade assim composta não é só perfeita,--é inaccessivel aos estragos do tempo, é rosa que poderá morrer, mas não murcha, não desmaia, não se desfolha; quando por fatalidade desapparece, desapparece toda de uma vez.
O commum das mulheres produz o commum dos amores: fogos-fatuos fluctuantes, frouxos, passageiros; para a minha, arde o fogo de Vesta.
A par d'esta vantagem, que sem duvida o é para a poesia namorada, um terrivel desconto se apresenta logo:
Os olhos fazem mais que descortinar a formosura: dizem aos d'ella o effeito que ella produziu; supplicam, exoram, convencem, triumpham; possuem uma linguagem innata e universal, instantanea e completa, electrica, divina, intraduzivel em sons humanos. Carecer d'esta ineffavel faculdade, gozando-se embora da luz para disfructar e amar a vida, é vagar surdo-mudo pelo crepusculo n'uma região verde e florida, sem tratar com os moradores.
¡Grande e horrorosa verdade! Mas outra vez acudiu aqui maternal a Providencia. Assim como outorgára á phantasia uma intuição especial, concedeu á linguagem da poesia, encarregada de supprir a do olhar, um accrescimo de viveza, uma força de convicção, de sentimento, de lealdade, que podesse aspirar, a persuadir.
Os olhos commerceiam o amor, como opulentos, em moedas do mais fino oiro, ou em lettras que as sommam e as cifram n'um relance. A fala, embora poetica, mais pobre e mais humilde, vai contando os pagamentos do coração a real e real, em cobres gastos de uso, em pratas suspeitas de liga e falso cunho; moedas de baixo preço, que mil vezes se lhe recusam; mas afinal tambem salda a sua conta.
Não me affoito a dizer, nem quasi a pensar, que a diminuição do primeiro sentido fosse cabalmente compensada com um accrescimo proporcional na faculdade de exprimir pela palavra o sentimento; creio todavia, que alguma coisa com isso parecida se deu em realidade; com o que, já pode ser que o peculio poetico se augmentaria; nova e suprema prova do que assentáramos como fundamento no principio d'este escripto, a saber:--Que a Natureza e a fortuna andaram concertadas em preparar por todos os meios, com os favores e com as sevicias, um cantor, embora inutil para tudo mais.
LV
Sobre o livro e sua historia, nada me resta para accrescentar; narrei tudo como o tinha na lembrança; forcejei pelo explicar sem vaidade nem modestia.
É um pobre escripto, que as almas de bem hão-de tomar á boa parte.
Presumpções litterarias, não as tem.
Quem, obedecendo a instinctos maus, exercesse n'elle critica malevola, e até por facillima não muito nobre, juro-lhe eu, sobre minha honra e vida, que perpetraria uma feia acção. Deixem aos chacaes o revolverem sepulturas, e cevarem-se em ossos.
Sei que ha indoles hostis, que ao tomarem um livro novo, levam já o fito em dilaceral-o; e a essas por demais seria o requerer-lhes misericordia.
Permittam-me comtudo rogar-lhes que esperem para entrarem na censura d'este, que o autor haja tambem desapparecido como o assumpto da obra. No intervallo, que não poderá já ser muito longo, aggridam, vulnerem, destruam muito embora qualquer outro dos seus escriptos, e todos; não lhes exceptua nem um só, a não ser o livrinho do ensino primario pelo amor, porque esse não é d'elle; é propriedade inauferivel da puericia, da Patria e da posteridade.
LVI
A collecção de mais de setecentas cartas, de que sahiu como summario a _Chave do Enigma_, existia completa ha poucos momentos ainda; daria tres volumes que poderiam interessar, se não como historia, como romance intimo certamente; ardeu até ao minimo fragmento, ali, debaixo das arvores do meu jardim; eu proprio lhe puz o fogo, velei a pyra em quanto se não extinguiu, enterrei as cinzas; davam na torre do palacio das Necessidades as quatro da tarde d'este dia 25 de Agosto de 1862.
As razões que me induziram a este sacrificio, rastreiam-n-as todos; o que n'elle soffri, tambem o calo, que não importa a pessoa alguma.
A pedra que o ha-de ficar commemorando, e que algum poeta ou alguma poetisa lá para o futuro em estio ou outono de amores folgará porventura de visitar com este livrinho na mão, dir-lhe-ha isto:
AQUI JAZEM AS CINZAS DA CORRESPONDENCIA DE D. M. I. DE BAÊNA COIMBRA PORTUGAL E A. F. DE CASTILHO QUEIMADA N'ESTE MESMO LOGAR AOS 25 DE AGOSTO DE 1862
LVII
Mais uma ou duas paginas para responder já agora ás ultimas curiosidades.
A 29 de Novembro de 1834, na parochial egreja do Salvador do mosteiro de Vairão, recebia eu emfim por minha legitima esposa a D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal. O orgão cantava não sei que jubilos tristes; as Religiosas choravam a perda da sua mais espirituosa, mais suave, e mais amavel companheira de tantos annos. A mão d'ella, tremia na minha; o alvoroço do seu interior, exhalava-se baixinho em monosyllabos humidos de lagrimas; eu padecia e gozava como homem que ia fugir com um thesoiro furtado. A boa D. Anna Lucinda não podéra assistir á ceremonia; ¡tanto a desejára em quanto só a vira no futuro! e agora... desamparavam-n-a as forças para a encarar; jazia doente na sua cella deserta. Maria tomou-o por agoiro. ¡Nunca ceo sem nuvem sobre alegrias humanas!
Dois annos, pouco mais, durou a nossa união sempre harmoniosa e intima; sempre tal, qual m'a haviam promettido os meus devaneios poeticos tão ambiciosos.
Ao longo d'esse breve praso, de que nunca me poderei esquecer, foi sempre Maria a melhor metade da minha alma; os olhos e voz para a minha leitura; a mão para a minha escripta; a inspiradora para os meus versos; a conselheira nas minhas incertezas; a vestal para o fogo das minhas pequenas ambições; a socia, a luz, a explicação dos meus passeios; o calor, a fragrancia e a musica da minha poisada; um enxerto da arvore da vida no meu teixo; o ecco do meu coração; o meu estro fóra de mim a mostrar-se-me, a abraçar-me, a não me perder hora nem minuto de dia nem de noite; ella, ufana, de mim como de uma gloria; eu, d'ella encantado como de uma felicidade.
Filhos são nós que apertam os vinculos naturaes entre o homem e a mulher. Teve o Céo por superfluo dar-nos filhos; estreitar-nos mais era impossivel. ¡Grande misericordia foi aquella! a pobre assim, levou para o Céo uma saudade unica.
Uma enfermidade longa, durante a qual a sensibilidade de Maria, como clarão de alampada que se quer extinguir, me pareceu ainda mais viva, a pouco e pouco a arrastou até á borda dos desenganos, desenganos para ella e para todos; para mim não, que por instincto de vida, repulso constantemente, e até ultima, o crer na desgraça, o admittir-lhe mesmo a possibilidade.
LVIII
N'um dos dias de Janeiro do anno de 1837 (os que hoje contam menos de vinte e cinco annos não eram ainda nascidos) Lisboa toda branquejava amortalhada em neve profundamente (as memorias meteorologicas poderão dizer a quantos foi; eu esqueci-o, ou nunca o soube); sei que nem os velhos se lembravam de ter jámais visto por aqui espectaculo assim alpestre; nem de então para cá se renovou. Era um dia pallido e lugubre, que gelava o coração e as esperanças,--um d'aquelles dias, não sei se amigos se adversos, não sei se verdadeiros se mentirosos, mas bons para se fecharem os olhos e se expirar com mais desapego da terra.
O quarto da resignada e valorosa victima, que repartia, sorrindo, esperanças que ella mesma para si já não queria, tinha a janella fechada ás tristezas de fóra; as do interior lhe sobejavam; uma lamparina aos pés da Imagem em vulto da _Senhora Mãe dos Homens_,--madrinha de Maria, e objecto da sua devoção de toda a vida,--attrahia, como um reflexo precursor da luz perpetua, a vista perturbada da paciente, indo e vindo da Imagem, que parecia chamal-a, para o amante, que, recostada a fronte sobre o seu travesseiro, e apertando-lhe a mão, lhe supplicava mudamente o não deixasse.
Reconcentrou emfim, por um supremo exfôrço feminil os remanescentes do seu vigor exhausto; e mandando chamar meu irmão, que na proxima sala chorava por ambos nós, nos disse: que sentia já a sua existencia na vasante, e era tempo de apparelhar a alma para as bodas eternas; em quanto lhe restava entendimento e fala, queria dirigir a cada um de nós um rogo que de proposito reservára para aquelle momento em que nada se recusa.
Cada um jurou cumpril-o, fosse qual fosse.
--«Tenho pena de ti, ¡meu pobre poeta!--proseguiu ella apoz alguns momentos de concentração.--Sei que deixo um grande vazio na tua vida. Se Anna Lucinda não fosse freira, essa conhecia-te como eu, amava-te quasi tanto como eu, podia continuar como tua esposa a obra da tua felicitação, que eu deixo incompleta. Se jámais a ventura te deparar outra mulher de alma, e capaz de comprehender a tua, instruida, amante, superior ao vulgo dos espiritos, apta emfim para te servir e consolar, offerece-lhe o logar que eu deixo ermo nos teus destinos; eu mesma abençoarei lá de cima a vossa união.»
Vim a cumprir-lhe o seu desejo testamentario; ella desempenhou-se da promessa.
Então, voltando-se para o nosso querido irmão, e depois de lhe agradecer todas as melindrosas manifestações de affecto, que tantos annos havia nos liberalisára, sem cançaço nem quebra, lhe supplicou, doce e graciosa como um anjo, cujas azas de prata já começavam a despontar, lhe outorgasse emfim a casinha candida com que tantas vezes lhe fizera sonhar; agora, para a erigir bastava uma só pedra; que lhe puzesse uma inscripção, na qual ao nome d'ella se ajuntasse o dos seus tres poetas: o meu, e o dos seus gloriosos parentes--Ferreira e Tolentino.
A bella alma partiu.
LIX
No cemiterio de Nossa Senhora dos Prazeres o tumulo N.º 48, convisinho á ermida da Virgem, deixa ler este epitaphio:
MONUMENTO DE PERPETUA SAUDADE, CONSAGRADO POR ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO A SUA MULHER D. MARIA IZABEL DE BAÊNA COIMBRA PORTUGAL, DIGNA SOBRINHA DE NICOLAU TOLENTINO DE ALMEIDA, E DESCENDENTE DO ANTIGO POETA ANTONIO FERREIRA. NASCÊO NO PORTO A 2 DE JULHO DE 1796 E FALLECÊO EM LISBOA A 1 DE FEVEREIRO DE 1837
NOTAS
Pag. 17, lin. 10--*Primeiros desastres de Castilho*