A Chave do Enigma

Chapter 11

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Maria, nos fraguedos do Caramulo, não podia deixar de raiar-me a cada passo, como a lua, que, entre fagueira e melancolica, se encobre e descobre de continuo ao que transita por moitas e bosques; e, ou elle vá, ou pare, ou retroceda, o acompanha sempre, e lhe dá a sentir, com enternecido agradecimento, que não vai só.

O mais e o melhor da minha poesia inculta dirigida a ella, não era porém o que se escrevia; era sim o que se me ia

_de noite em leves sonhos que mentiam,_ _de dia em pensamentos que voavam;_

lyrica interior, que todos, cuido eu, conhecerão, ou conheceriam alguma vez; bafagens que veem direitas do paraizo á alma, e da alma se tornam para d'onde vieram, sem deixarem cá em baixo vestigio, mais que um frémito voluptuoso no coração, que de fóra se não percebe. Vêem-se manar lagrimas sem dôr, errar pelos labios uns sorrisos não alegres, mudar cores o semblante, despegar-se dos seios um suspiro, as mãos estenderem-se á procura do que quer que seja; vê-se tudo isto, e diz-se:--É um visionario, ou está sonhando;--e não é senão um poeta, que está lendo em si o mais celestial poema que nunca houve, mas que nem elle tornará a abrir, nem outrem jámais adivinhará.

D'esses poemas fiz eu, e perdi, innumeraveis.

Fazia-os ao pendurar ritualmente no crepusculo da tarde de cada sabbado uma capella de murtas nos ramos do meu cedro, consagrado a ella, e que me parecia tão desejoso de festejál-a como eu proprio; fazia-os deitado nos povaes de tijolo de S. Sebastião, ao ramalhar das carvalheiras, pelas séstas; fazia-os regando o jardimsinho de narcisos, gradeado de canas, por baixo da fonte do passal; fazia-os encostado sosinho a deshoras pela noite velha á janella do meu quarto, que deitava para a banda do horizonte, onde devia ficar o d'ella; fazia-os ouvindo ler versos apaixonados, que todos no espirito se me traduziam, e se combinavam na minha historia, muito mais apaixonada que elles todos; fazia-os escutando lá de um oiteiro o sino das Ave-Marias, ao cessarem os trabalhos da terra, na hora em que o ceo accende, como lampada para infinitos amores, a estrella magnifica de Venus; mas sobre tudo os fazia fechado por dentro na minha Villa Viçosa de palha, junto á _Pedra Branca_, ao abrigo das chuvas e frios, do sol e dos ventos, de rumores e distracções, livre de olhos, de ouvidos e de pensamentos extranhos, só por só com a minha ausente. Para ella renovava as flores e a agua na urna de barro sobre a mesa entre os sophás de cortiça. Ouvia-a cantar ao som da sua viola franceza; dizia-lhe extremos de brandura, que nenhuma linguagem humana traduzira; perdia-me pelos mysteriosos labyrinthos da sua sensibilidade, nunca dantes franqueados; escutava o meu nome tornado musica pelos seus labios; recostava-a n'um coxim de rosmaninho; ajoelhava-lhe aos pés em adoração; voava-lhe aos braços, e anciava morrer ali assim, porém com ella, que eu sou o irmão mais novo de Propercio:

_Tunc ego, sed tecum, mortuus esse velim._

Nada me inspirava tanto como a boa da casinha, tão depressa e tão sem custo edificada, que parecera improviso de Sylphides e Sylphos, e na qual se dissera terem elles ficado; ¡que assim era prestigiosa!

Fôra sempre a minha ambição mais levantada, e algumas vezes me chegou a ser esperança tambem, o possuir vivenda minha em torrão meu, por mim delineada, feita aos meus gostos, sem visinhos mas respirando hospitalidade; solitaria, mas ridente; sem fausto, mas abundante em commodidades, em graças profusissima. Aquillo de poder um homem dizer que tem a sua cama, a sua meza, a sua lareira, e os seus livros, entre paredes e debaixo de telhas muito suas; que vive e pernoita com raizes no solo; que emfim é dono, para fruir e testar, de uma porção do terceiro planeta vindo do sol, ainda que não sejam senão poucas braças; e que o Imperador de França não é mais senhor, nem porventura tanto, das suas Tulherias... deve ser umas delicias muito grandes. Nunca as experimentei, nem experimentarei já agora; mas imagino-as; e pode-se dizer que as sonhei, sem dormir, no meu aureo salãosinho de feno.

¡Como eu ampliava tudo aquillo com a varinha de condão da phantasia! a um lado, a alcova nupcial, com suas janellas cortinadas de verde pela frondosidade do pomar contiguo; a outra parte, a saleta do fogão para o inverno, dominado aos bustos de Sapho e Anacreonte, a olharem para as estatuas de Homero e de Virgilio; aqui, a livraria com a mesa para a escripta, e dois espaldares de braços; a casa de jantar com sua fonte e viveiro de aves, e a porta larga e envidraçada aberta para a horta ajardinada; e a voz de Maria, a presença de Maria, a musica do seu vestido, o calor da sua bondade alegre e vigilante, por toda a parte.

Basta, basta já de pisar folhas d'outomno que murmuravam viçosas e rescendentes por cima e em derredor, e agora me estalam pallidas e seccas por baixo de cada passo.

L

Ahi fica entregue ao publico da minha terra, pelo ter em conta de amigo, a Chave do meu Enigma, assim como se põe nas mãos do melhor e mais proximo parente a do caixão doirado e funebre que desappareceu.

Como de hoje ávante nunca mais havemos de tornar a este assumpto, acrescentarei ainda algumas palavras, e as derradeiras, destinadas a acclarar outro supposto mysterio com que as trevas d'este se duplicavam.

O immortal autor da _Epopeia naval portuguesa_, o meu bom e velho amigo Joaquim Pedro Celestino Soares, fazendo-me a honra de me dedicar este seu recente monumento de glorias portuguezas, mostra-se maravilhado de que eu pinte, sem os ver, tantos quadros da Natureza. Muitas pessoas antes d'elle tinham manifestado egual admiração, para mim obsequiosa, e mais que obsequiosa--lisonjeira.

Suppondo que as minhas descripções de objectos visiveis, desde as _Cartas d'Ecco_, _Primavera_, _Amor e Melancolia_, até ás presentes paginas, conteem algum longe d'esse merito que tão benevolamente se lhes attribue, aqui está a explicação que eu posso dar d'esse phenomeno simplicissimo.

Teve a nossa criança, emquanto o foi, e segundo já vos disse, uns olhos de formoso brilho, vividos, buliçosos perscrutadores insaciaveis, e de um alcance desmedido. Mais de uma vez ouviu dizer a sua mãe, que pareciam duas janellas armadas de festa, onde a alma vinha contente lá de dentro espairecer mirando-se no Universo.

Por volta dos seis annos, a segunda enfermidade, de que já vos falei, enfermidade peior que a imaginaria tysica, fechou inopinadamente aquellas janellas, deixando passar apenas, atravez, uns reflexos duvidosos de claridade, frios, desvestidos de côres, desertos, importunos; clarões, que, em vez de trazerem alimento a percepções e alegrias, só occasionavam pelo contrario dores physicas no orgão, por então só vivo para padecer. Este mesmo inutil e violento crepusculo, foi portanto necessario repulsal-o; um veo de seda negro foi lançado sobre a innocente cabeça; fecharam-se-lhe profundissimas as trevas; a victima, o meio-morto, descançou; ouvia chorar, não sabia por quê.

Se um cadaver no sepulcro podesse pensar, ¿sobre que pensaria? Sem duvida sobre o anterior viver que se lhe acabára; revolveria, combinaria de mil maneiras as ideias do preterito, como um avaro, debruçado sobre o thesoiro, mergulha os braços até aos cotovelos, e o coração até ás auriculas, no seu charco inutil de oiro e prata. A pobre criança ruminava ás escuras as visões em que se pascêra na claridade; ia-as convertendo de vagar em substancia propria. Como por fóra fazia noite, illuminava-se por dentro com quantas luzes se lhe tinham prevenido a tempo, e que ella instinctivamente espertava de continuo. O seu espirito era como a lamina photographica, ainda não inventada: recebêra as imagens; fechara-se-lhe depois a camara obscura; agora estava-as fixando em si próprio por uma chymica natural; fôra espelho, era estampa.

Passaram annos; levantou-se o veo negro; Deus apiedado tinha outra vez dito: «Faça-se a luz.» Reappareceu o dia.

¿Reappareceu? não; veio novo, diverso, de natureza extranha; uma especie de dia crepuscular; entre ledo e saudoso; mixto de realidades, verosimilhanças, conjecturas, sonhos; comparavel por ventura, sem grande impropriedade, ao que são algumas das phantasticas noites de lua cheia no estio, ou ao alvor espalhado no Elysio pelos poetas.

Pensando bem n'isto, não posso deixar de render graças á Providencia, e de descobrir n'esta sua liberalidade, e mesmo nos precedentes rigores, novas inducções para acreditar, entre mim, que toda a minha predestinação era, como desde o principio me aventurei a dizer-vol-o, que não fosse eu jamais outra coisa senão cantor, e não fosse cantor senão de ternuras.

Vós, que ledes pelos vossos proprios olhos isto que vos eu escrevo por mão alheia, vós, que disfrutaes, sem a aproveitardes assaz, a dita de possuirdes uma excellente vista, sentireis por ventura alguma difficuldade em conceber aqui o fundo do meu pensamento. Ora vejamos se vol-o decifro.

LI

Com ser a luz uma communhão universal do Amor Divino, meza infinita em que os soes aos milhares ministram aos planetas sem conto; e aos entes sem limite de que os povoou o Omnipotente, é comtudo certo, que, assim como vão desiguaes os quinhões de luz de cada sol aos planetas e satellites que a distancias entre si diversas o rodeiam, assim tambem na esphera que habitâmos, por exemplo, a luz vem medida aos sitios, ás estações e ás horas, ás especies, aos individuos, ás edades e ás circumstancias, em proporções diversissimas, todas calculadas, todas certas, e todas em harmonia com as complicadas precisões de um systema geral e perfeitissimo.

Comparae a claridade das cinco zonas; em cada zona, a das quatro estações; e em cada estação, a das montanhas, dos valles, dos bosques, e das cavernas; a da manhan, do meio dia, da tarde e da noite. Depois em cada logar e á mesma hora, considerae no como a luz, banhando e tingindo unicamente a superficie dos corpos inorganicos, incapazes de a sentir, vai abraçar com as suas caricias os entes organisados, que n'ella, e no calor seu companheiro, parecem aspirar a vida, o amor, a alegria; a adoração, como sectarios de Zoroastro. Os vegetaes, sem olhos, a bebem, se inebriam, riem-lhe em flores, com murmurios lhe falam, com fragrancias a lisonjeiam; brincam-lhe com os raios, decompondo-os na folhagem buliçosa, resurtindo-os; alvoroçam-se com a aurora, pendem-se e fecham-se ao escurecer; despem galas no inverno; na primavera retoucam-se e amam; no estio pompeiam e triumpham. Mas n'esta mesma generalidade ¡que differenças e quasi excepções! Para todos a luz é condição do ser e felicidade; mas o musgo que prospera na penumbra da Islandia, pereceria fulminado como Sémele, se o ardente sol dos tropicos o visitasse; as plantas magnificas dos tropicos, nas nossas latitudes, só temperadas, morreriam cegas á mingua de esplendores. Uma herva ala-se do fundo do fojo para o celeste amante, a quem o girasol no seu jardim vai tambem seguindo com a larga fronte doirada, que parece um retrato ephemero do bello astro, explica a fabula de Clície, e dá razão aos dois versos do Camões:

_Transforma-se o amador na coisa amada_ _por virtude do muito imaginar._

Entretanto as grutas e os subterraneos lá teem não menos seus jardins umbrátiles, onde mil especies vegetaes, com uma só gotta de luz diluida nas trevas, alimentam e aditam a existencia.

Os animaes, se exceptuarmos algumas raras especies mais baixas na gerarchia, que parecem não ver, dado se voltem para a luz como as plantas, os animaes absorvem-n-a com delicias.

Os seus olhos são os vasos de gemmas finissimas por onde os seus espiritos a bebem; mas n'estes vasos sem conto, ¡que differenças nos tamanhos, nos feitios, nas cores, nas propriedades! Todos se enchem á immensa cascata de luz que jorra inexhaurivel: quaes em golfadas copiosas, quaes em estillas diminutas; estes, sombria, que fôra trevas para aquelles; aquelles, tão luxuosa, que cegaria a estes. A aguia devassa do alto os pormenores da campina; o insecto perscruta, com inveja dos sabios, o ignorado mundo dos infinitamente pequenos; e eximindo-se por sua tenuidade á perspicacia humana, é ainda por ventura condor, elephante, e lince para universos vivos, nem por nós sonhados, e de mil vezes mais espantosa exiguidade. Ha olhos-telescopios, ha olhos-microscopios, olhos que aproximam, olhos que afastam, olhos que alternativamente afastam e aproximam, olhos que se fitam rectos n'um só ponto, olhos que miram para todas as partes ao mesmo tempo, olhos para o dia, olhos para a noite, olhos unicos, olhos multiplices, olhos, em summa, que só a Sabedoria de Quem os ideou e perfez poderia discriminar e abranger em descripção ou cómputo.

No meio d'estas myriades de orgãos destinados a pascer-se nas lindezas e magnificencias exteriores da Natureza, foi ao homem, seu filho predilecto, que ella deu com a razão e o engenho os mais admiraveis de todos os olhos. Emquanto os dos outros viventes, afinados pelas precisões circumscriptas dos que os possuem, não transpõem limites relativos e determinados, os do homem, pelos milagres da Arte, tornam-se mais que de aguia no alcance longinquo; rivalisam com os dos insectos, mergulhando profundamente pelos abysmos da pequenez; vão buscar para o dominio da Sciencia astros sumidos nas profundezas do espaço, arcanos de anatomia nos vermes imperceptiveis, nos globulos do polen das florinhas mais tenues, nos atomos da poeira impalpavel; e dominadores da luz, pelos instrumentos com que se completam, a refrangem á vontade, e a decompõem, como a divina Iris no firmamento.

¡Entretanto a vista humana, assim mesmo dotada, quão pobre não é para saciar o animo curioso! ¡e então no seu estado natural, que myopia! ¡que imperfeição! ¡que fallibilidade! Aquelles mesmos objectos, que pelo seu volume e proximidade mais parecem estar em relação activa, passiva, necessaria, quotidiana, com o espectador, não passam de uns mascarados e uns fingidos, que, divertindo-o e ajudando-o, zombam d'elle continuamente.

¿Que é ver uma rosa, uma arvore, um edificio, um monte, o Oceano, mesmo com os olhos mais perspicazes e attentos? É receber de cada coisa d'estas uma ideia vaga, superficial, imperfeita, diminutissima, falsa. Quando não, acuda a lente a averiguar uma só petala da rosa, uma só folha da arvore, uma só pollegada do edificio, um só grão da terra do monte, uma só gotta do Oceano (mas ainda a lente não diz tudo); para logo se reconhecer com espanto que isso que se chamára ver, não passava de illusão; era um andar palpando em grosso e ás cegas alguns vultos grandes; nada mais. Se o mundo moral e intellectual nos estão inçados de mysterios, erros, e ignorancias, os aspectos do mundo physico não são menos enganosos; representa-se a comedia da vida n'um theatro já para ella de proposito armado pela Natureza, com o mais ficticio de todos os scenarios: _Mundum tradidit Deus disputationi hominum._

N'este cahos universal de enigmas e chimeras, o instincto de saber impacienta-se, agita-se, barafusta, sonda, investiga, conjectura; adivinha ás vezes; aspira a matar a grande esphinge, que se ri d'elle, e que não morre.

O instincto da Arte, menos ambicioso, mais pacato e mais philosophico a seu modo que o ardor scientifico, contenta-se com as brilhantes apparencias; estuda-as, sem pensar em as dissecar; e, como de todas lhe resultam harmonias, todas falam ao espirito e ao coração, sobre todas paira o ideal, de todas se reflecte o amor e a sabedoria, não precisa, nem pede mais, posto o deseje, e o aproveite quando a Sciencia o desencanta e lh'o ministra.

Reflectindo nas verdades incontestaveis e vulgares que deixâmos indicadas, tem-se logo de reconhecer que os poetas, na sua qualidade de pintores, só reproduzem apparencias, perseguem sombras; e, combinando-as e variando-as ao sabor da phantasia e do gosto, aquecendo-as de affecto, e arraiando-as de idealidade, criam para a alma, dentro n'um mundo phantastico, outro mundo ainda mais phantastico. ¿Não é assim?

Ora pois: a criança tão nossa conhecida recebêra, nos annos das primeiras e fortissimas impressões, as ideias, como vós em egual edade as recebestes, e as continuais a receber, dos objectos que aos olhos se offerecem em multidão; depois, fechada a sós com essas ideias, não as destruiu: fortaleceu-as, confirmou-as; depois finalmente, quando entre ella e o espectaculo se ergueu de novo o panno, e a scena lhe appareceu transfigurada, isto é, quando reviu menos vividos e distinctos os mesmos objectos, tirou das suas reminiscencias com que os completar.

LII

--¿Mas como é--insistem--que, distinguindo apenas, e a curta distancia, os vultos grandes e as côres, consegue descrever, não sem alguma verdade, quadros da Natureza vastos e minuciosos, cujos originaes sem duvida lhe escapam?--Do mesmo modo, pouco mais ou menos, como qualquer leitor por uma descripção poetica debuxa no seu espirito um objecto, cujo total nunca viu, mas cujas partes componentes a uma e uma lhe são todas familiares. Variando os elementos que possuo, vou compondo os quadros a meu gosto.

Mas o que sobre isto vos poderia amiudar, já versos meus o disseram, agradecendo a um pintor amigo, a Sendim, o ter-me retratado. Se os lestes, saltae as seguintes paginas; se os não lestes, e vos interessa tal investigação, aqui os tendes. A mim apraz-me reproduzil-os; são já hoje saudades de vinte e tantos annos.

Já desde Homero, em tráficos do Pindo, amigo meu Sendim, não roda o oiro. Versos, bustos, paineis, primor das graças, pague-os sêcco Bretão por sommas brutas, se muito ha que do autor deu cabo a fome. Lisonja em metro, em marmores, em côres, encommende-a o mimoso da fortuna; pague com seus dobrões a gloria alheia. Nós que, longe da terra, ao vulgo extranhos, vivemos facil vida anachoreta por solidões de imaginario mundo; que os loiros para nós por nós plantados ouvimos sussurrar por sobre o colmo da ermidinha onde as musas nos visitam; nós, nós, a quem deu alma a Natureza, não terrea, não mortal, não simples alma, de instinctos animaes fugaz composto, mas generosa, esplendida, sublime, mixto da etherea luz, do olor das rosas, do gorgeio do cysne, e do profundo bramir do Oceano, e do beijar das rolas, e do albor melancolico da lua, e da calma do estio, e das sonoras bafagens tuas, Héspero, e do lume trémulo e scismador dos longes astros, não pomos preço vil ao que é sem preço.

Como lá n'outra edade, entre homens simplices, colono, pescador, monteiro, artifice, de mão a mão seus commodos trocavam, tal dura e durará commercio nosso. Irmans, e não rivaes, as artes-bellas apertem mais e mais seus mutuos laços; sua origem commum, seus fins os mesmos, impõem-lhes lei de amar-se, unir esforços, umas ás outras realçar o encanto. Mais, muito mais que irmans, são todas uma; em nome, em fórma varia, é uma a essencia: a belleza, a verdade, anceiam todas.

Pinta o Meónio, poetisa Apelles, Phydias derrama em marmore a harmonia, Orpheu nos magos sons esculpe os deuses. Não ha mais que um só Deus, uma verdade, uma belleza só; mostral-a em côres, em figuras, em sons, em phrases podes; são cultos de um só nume em linguas várias. A amendoeira em flôr é primavera, primavera é como ella o ceo macio, primavera a violeta, os ninhos novos. Unica e pura a eterna luz do engenho dos sentidos no prisma se refrange, e sai cambiada em fulgidos matizes. Como as côres são luz, são estro as artes.

De nossa industria os fructos permutemos. O mago teu pincel doou-me aos evos; se os versos meus aos evos resistirem, nos versos meus reflorirá teu nome.

¡Ah! ¡não poder eu mais! qual tu meu todo á estampadora pedra o confiaste, capaz de confundir maternos olhos, ¡não poder eu tambem pintar no metro genio, vida, expressão, physionomia de quadros, onde a mente aos olhos fala! Desegual foi comnosco a Natureza: amante seu feliz tu gozas d'ella, abráçal-a com extasi, sorri-te, descobre-te um a um seus mil encantos; e, como se um tal bem não fosse immenso, diz-te:--«Eis-me aqui, retrata-me, ó ditoso; d'onde os gostos extrais, extrae a gloria.»-- ¡Não assim eu! eu busco-a... ella se occulta; chamo-a, invoco... ou não vem, ou só de longe fugaz e esquiva se entremostra, e passa; como visão por sonhos vaporosos; como scena confusa e namorada de já perdido livro; como ideia da mui longinqua infancia, que inda a medo por sob as cans revôa ao pé das urnas; ou como o astro da noite em selva umbrosa; ou como as vozes de um serão do estio, quando da aldeia as virações as levam soltas e vagas ao curioso ouvido de erradio viandante; ou como o vulto de ingrata amada em vão, que evita encontros, leve atravez das arvores refoge, sem deixar mais de si que a viva imagem de alva roupa esvoaçada e gostos idos! Realiso as que a Grecia fabulára impaciencias do Alpheu, quando entre as nevoas, doido de amor, frenetico, debalde a vedada Arethusa andou buscando: «Nympha, vi-te--clamava--¡ai! ¡quero ver-te!» e o _ai_, com que as florestas apiedava, não apiedava o coração da isenta. Á beira de suas aguas fugitivas depois cançado e triste ia encostar-se, a procurar pelo animo saudoso que feições enxergou, quaes poderiam ser as mais que não viu; compunha-a toda, linda sim, mas phantastica; e por ella com longo affecto os eccos entretinha.

Por isso ninguem peça inteiro canto na harpa quebrada. A voz de outros poetas que o solte; não me assombra: a solfa inteira perante os olhos seus se desenrola. Minha harpa incerta, em solidões, por noite, não apontados sons pendente exhala, a capricho de um zephyro que adeja. De Achilles, dos Jardins, do Eden os vates, e dos Bardos o Bardo, Ossian, o altivo, (pelo seu estro o juro; ¡immensa jura!) taes não subiram, se ás geladas trevas desde a infancia atro genio os condemnára.