A Chave do Enigma

Chapter 10

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Leu-se a carta; era um suave queixume pela quebra já mui longa da nossa correspondencia; e era em tudo uma confirmação evidente de que Maria não deslisava apice da que se manifestára e fôra desde todo o principio; e encerrava realmente no seu complexo todos os requisitos para a felicidade de um homem, que, possuindo paz e amores, já não cançaria o Ceo com grandes votos.

--«Vamos--exclamou meu irmão, abraçando-me;--tenho promovido tantos casamentos por estes arredores, e regala-me sempre tanto administrar o setimo sacramento, folgasão preambulo dos baptisados, que desejo e mereço ver tambem alegrias d'essas na Residencia. Venha a tua solitaria amenisar emfim a nossa Thebaida. Havemos de fazer um jardim de proposito para ella por baixo da fonte do passal, com bastantes narcisos, que lhe recordem a primeira revelação que te ella fez da sua ternura.

«Quando as obrigações do meu ministerio me demorarem por fóra (a sua merecida fama de prégador começava a não lhe deixar dia nem hora livre; não havia festa grande nos quatro Bispados para que não fosse rogado), quando os meus especiaes estudos me privarem de cultivar comtigo a nossa cara Poesia, terás uma leitora e secretaria, que te coadjuve, e ao mesmo tempo te exalte a inspiração; a sua voz tornar-te-ha a Poesia mais poetica; os versos dictados para mão tão delicada, sahir-te-hão mais bem nascidos.

«Podiamos edificar aqui desde já uma casinha aprazivel, um verdadeiro ninho de andorinhas para o novo casal; mas possivel é, bem sabes, que não seja esta a terra que nos ha-de comer os ossos; e n'esse caso, o havermos lançado aqui raizes mais fundas, teria sido tornarmo-nos mais doloroso o arrancamento. Para gente sobria e simples, como nós, é de sobra o presbyterio; bastará guarnecermol-o de mais roseiras, abrirmos-lhe no meio do pateo o luxo de um tanque para espelho, e para pompa erigirmos ao fundo das laranjeiras o elegante pombal candido que projectavamos, e de cujas moradoras hade ella ser a providencia e a alegria, como de toda a vivenda.

«Em summa; os nossos haveres permittem-nos, sem taxa de temeridade, a realisação d'esta encantadora utopia, que talvez nos abra passo á realisação das tantas outras que planejâmos! Para obras de beneficencia, de humanidade e de civilisação, nunca é de mais uma conselheira, e então de tão alto juizo, de coração tão amante, e amadurecida pelos livros e pela solidão.»--

Era musica celestial tudo isto que lhe eu escutava; apertál-o bem apertado ao peito, foi toda a minha resposta de assentimento.

Verdade verdade:--está-me vexando, apesar do que estabeleci no começo d'estas confidencias, tão diffuso falar sobre tão apoucado sujeito, que, por mais que eu diga, saiba e sinta, não ser eu, sempre hão-de tomar por mim; e portanto, dobrada censura: sobre importuno, immodesto. Paciencia. Os mal affeiçoados muito ha já que hão-de ter dado a sua curiosidade por satisfeita, e cerrado o livro; os outros, que vieram commigo até aqui, são mais soffridos de genio, e são amigos; hão-de-me acompanhar já agora com indulgencia até ao fim; e se a esses mesmo enfado, fique o restante da narração como soliloquio de um saudoso, ou dialogo de memorias tristes entre um vivo e dois finados.

XLVI

Tinha-me a Real munificencia do Senhor D. João VI, já em 1819, collocado em posição de fortuna, para entre poetas, e poetas portuguezes, muito invejavel: dera-me a propriedade sem onus de um dos mais pingues officios de Justiça na Correição de Coimbra. Com essa renda vitalicia, que ainda hoje durára, se não fossem as uteis refórmas introduzidas no fôro depois de 34, podia eu ter folgadamente realisado desde todo o principio o meu consorcio com Maria; mas eu tinha feito voto anterior de mim para mim, e não queria quebral-o, de deixar sempre na casa paterna, integral e incondicionado, o usufruto d'aquelle rendimento. Não era generosidade; era simples dever. Tendo pois, como se não tivesse, facilmente se imagina ¡como eu ficaria por dentro com este raiar subito da Providencia, da Providencia encarnada em amor fraterno! A chave d'oiro do meu paraizo tinha-a eu posto d'onde a não podia retomar; meu irmão acabava de me entregar outra; e com tal melindre de affecto, como tudo que d'elle vinha para mim, que recusar-lh'a eu, fôra magoal-o mais a elle, do que a mim proprio.

A casinha parecia-me transfigurada em albergue de fadas.

Respondeu-se ali mesmo á carta. Antonita estava cantando uma cantiga de amores a vinte passos de distancia; a alegria e a amizade cantava no coração de Augusto; no meu, cantavam o alvoroço, o enternecimento, a amizade. Era uma hora d'aquellas de que o Céo não empresta mais de uma ás existencias afortunadas.

A carta que eu então dictei para mensageira de tão boa nova, e a que tres dias depois se lia mysteriosamente no mesmo logar aos ultimos raios de um sol magnifico, existem ainda hoje, mas não pódem ser relidas; doer-me-hiam excessivamente; hão-de ser pelo contrario queimadas com todas as outras d'este romance intimo e sagrado, logo que eu tenha concluido o presente escripto. Se alguem não comprehender por si este melindre, paciencia; eu é que me não atrevo a explicar-lh'o.

A elegia _Ermitagem da montanha_ tinha sido poucos dias antes phantasiada ali mesmo. Junto ao convento havia tambem serras, como já vos disse:

_Sola eris, et solos spectabis, Cynthia, montes._

Na desesperança, ou, quando menos, incerteza de conseguirmos jámais posse real um do outro, ¿não eram bem naturaes aquelles desejos, aquellas visões do poeta solitario no meio dos seus bosques, pensando na poetisa solitaria á sombra do seu mosteiro? ¿Que amante deixou de sonhar alguma vez que a felicidade o aguardava n'uma caverna sonegada aos olhos de todo o mundo?

A mutação maravilhosa que se me acabava de operar nas perspectivas da alma, fez rebentar o meu ultimo canto--_A Esperança._

¡Ah! ¡a esperança! ¿quem? não sendo amante, ou louco, póde fiar-se nos sorrisos de tal phantasma? Os gozos, que tão proximos se me antolhavam, ainda vinham longe. ¡Ha tantas illusões d'estas na vida! teem-se os olhos fitos n'uma ventura que já se vê e se ouve tão perto, que se figura alcançavel com dois passos... e não se repara em que entre ella e nós pode haver duas ribanceiras escarpadas, e até de permeio um rio sem ponte, profundo, vertiginoso, mortifero!

XLVII

Em 1828 sahia pela primeira vez á luz, mais por desejos de meu irmao que meus, o _Amor e Melancolia_.

Aos que já então o tomassem por historia poetisada, como agora se vê que era, figurou-se de certo, como a mim proprio, que estava ella chegada ao seu desenlace ultimo. Era miragem de deserto; o verdadeiro lago para a sêde, jazia ainda bem remoto.

Vieram-se carregando cada vez mais as trevas do horizonte politico; ¡os receios e os sobresaltos, os perigos mui reaes a crescerem e a amiudarem-se!

O presbyterio queria ser arca de salvação; mas até elle, em tamanha altura, fluctuava já, e estremecia sobre o diluvio. Se se mandava fóra ave exploradora, voltava atemorisada sem nos trazer folhinha de oliveira. Recerrava-se o postigo, e ficava-se inerte á espera de melhores dias. Entretanto os trovões, ora mais ora menos longinquos, não despegavam, e os relampagos espreitavam ferozes por todas as fendas.

¡Foram tempos bem tristes! Nem o viver benefico de um bom Parocho, nem o viver innocente de um poeta, nem o concentrado de ambos n'uns reconcavos silvestres só vistos de cima pelo que vê tudo, nos aproveitaram para immunidade.

¡Que de refeições interrompidas por uma noticia de denuncia, e de encarceração meditada, proxima, infallivel! ¡que de noites mal dormidas, ou veladas pelos matos, ou por poisadas alheias! ¡que sumir de livros nos vãos dos altares! ¡que enterrar os objectos preciosos! ¡que abrazar papeis! ¡que vigiar do alto do campanario! ¡que fugir a subitas do ninho, para regressar a elle palpitando, e refugir de novo! ¡e tudo isto por quão longo tempo! até que, levantado já quasi o cerco do Porto, atterrados com o ultimo e inevitavel perigo de sermos monteados e perdidos, commettemos á desesperação o salvamento e, atravessando ainda por entre os cercadores n'uma ante manhan escura e chuvosa, lográmos acolher-nos á Cidade eterna.

E se vê, se um passaro assim combatido dos temporaes podia lembrar-se de construir e pendurar em ramos que todos rangiam e estalavam, cestinha de amores para onde chamasse companheira. Não podia ser, por mais temerario, por mais imprevidente que elle fosse.

Estes mesmos trabalhos e transes, que então me pareciam encobrir a Providencia, como as nuvens encobrem ao sol, pode ser que me viessem mandados tambem por ella a trazer-me germes que ainda me faltassem, de poesia affectuosa. Isso teem de seu, se me não engano, as perseguições revolucionarias: assolam, para fecundar; chovem odios, que em se evaporando terão feito desabrolhar bemquerenças. Alma que padeceu, condoe-se:

_Non ignara mali..............._

Só de longe é que isto se conhece bem, e como tudo no mundo é por melhor. Agora nem áquella quadra tormentosa quero mal.

Ella tambem, se hei-de dizer toda a verdade, posto que me retardasse projectos mui queridos, não me foi tão completamente negra como se poderia imaginar pelo que deixo exposto. O animo, pelo menos o dos poetas, pelo menos o meu, tem não sei que elasticidade com que resiste ás quedas e ás durezas mais asperas dos precipicios: torce-se, e não quebra; cai, e resurge; comprimem-n-o adversidades, e logo depois, elle por si mesmo se dilata. Apenas tinha passado um sobresalto, um terror, um homizio, ou uma fuga, e os ares se serenavam um tanto, voltava a bemdita imprevidencia, e com ella o contentamento, e com elle o viver semi-fabuloso com todo o seu cortejo de visões poeticas, accorridas de todos os pontos do horizonte, de todos os recantos do coração, de todos os esconderijos da memoria, de todas as grutas amenas da vontade, de todas as profundezas do discurso; como ao reapparecer do sol depois da trovoada, voltam á festa duplex da Natureza os insectos, as aves, os rebanhos, os pastores, o viço, a musica, o alvoroço.

¡Que de versos não devi eu a esses luminosos intervallos! Foi n'um d'elles que meu irmão e eu plantámos no pateo da Residencia um cedro, que eu mesmo trouxera recemnascido da matta do Bussaco, e que, ha já annos, cobre com a sua sombra balsamica o telhado hervoso da casinha, pradaria das pombas domesticas, e alem do telhado boa metade do terreiro.

Oito primaveras se teem devolvido desde que o visitei pela ultima vez.

¡Deve ser hoje a mais fastosa arvore da cercania!

XLVIII

Sentae-vos em espirito debaixo da sua copa, se vos apraz, e ouvireis o que lhe eu cantava ao firmarmol-o tenrinho n'aquella terra benta.

Adverti porém desde já, em que não ides escutar maravilhas de poeta. São versos faceis e descuidados, como os eu então fazia para matar o tempo, e esquecido de que havia mundo.

Podéra agora tel-os retocado; ¿mas para quê? ¿e que é do valor para estar desconcertando por mera vaidade litteraria umas saudades d'estas? Hão-de ir e hão-de ficar já agora singelos e montesinhos como nasceram.--Ouvida a primeira duzia d'elles, quem lhe parecer, que deixe os outros.

¡Ó cedro, ó joven principe dos bosques, eis-te já no teu novo domicilio, eis-te vaidoso em pé, do sól á espera! Gente do presbyterio, afervorae-vos, entrançae danças, coroae-vos todos, cantae-lhe bençãos, tumultuae-lhe em roda.

¡Gloria a Deus! ¡Como o dia vem formoso! Anjos que protejeis a Natureza vossa amavel irman filha do Eterno, que entre vós repartistes as montanhas, o arvoredo das Dryades palreiras, e a urna fresca das occultas Náyades, vinde, adoptae no seu primeiro dia do filho de David a arvore antiga. D'entre os ramosos tufos elevado seu cume se remonte á patria vossa, e aponte os Ceos ao pensamento humilde. Praza o carvalho a Jove; o loiro a Phebo; a vós o cedro; o cedro, inda saudoso e altivo do seu Libano, inda cheio das lembranças da Biblia, inda soberbo de hospedar em jardins, palacios, templos, Adonai, o Rei Sabio, o Povo Eleito. Assim glorioso e mistico, o bom cedro, o cedro-rei, viu supplice prostrar-se Israel ora a Deus, ora á fortuna, aos ceos e ao mundo, á eternidade e ao tempo.

¡Oh! ¡venerando! ¡oh! ¡cresce em nossa terra! co'a verdenegra copa não desdenhes acoitar o singelo presbyterio. Premeia o generoso desint'resse do plantador que desce todo á campa. Sagradas são as dividas do affecto; os cuidados que assiduos te protegem, invoca o tempo de os pagar co'as sombras. Dias virão nos teus crescentes dias, em que nobre ante a porta da virtude com ternura e respeito hão-de saudar-te os montanhezes descobrindo a fronte. Lembrarás os antigos patriarchas, que ao-pé da movel tenda no deserto pertenciam aos Ceos pela esperança, e ao patrio mundo pelo amor dos homens. --Ali--dirão--na sésta reclinado o pobre ancião, pastor d'estas aldeias, ao circulo inquieto dos meninos ensina a amar a Deus, a si, aos outros, ás lettras, ao saber, á patria, á gloria; e, abraçando-os risonho á despedida, distribue co'a mão tremula aos melhores em premio doce disputados frutos.-- --Ali--dirão tambem--sentou-se um dia, e gabou a frescura das ramadas, um Bispo antigo e santo; ali tomava o seu café, resando o breviario; meu avô, bem que rustico e indigente, falou-lhe ali, beijou-lhe o annel e ouviu-o. ¡Que apostolo! ¡que amor! ¡que urbanidade! essa arvore o cobriu, ficou sagrada.--

Hospede e amigo do adoptado albergue, firma-te ao solo com raizes promptas; exalça a fronte aerea, alto, gigante; abre os cem braços co'os tufões em lucta. Piedoso Briarêu, não temas raio; o raio atrôe as serras, cegue, abraze o altivo topo ás arvores soberbas; tu, não tremas; eu quero no futuro que um novo talisman te adorne e ampare, possante contra furias de elementos, contra o machado algoz, contra demonios:

Se dos teus annos na madura força a mão que ora te planta inda for viva, essa mesma, já tremula e inda amiga, inda meiga ao seu cedro, e já caduca, no tronco te abrirá com tardo exforço graciosa capellinha, onde sorria um San-João, o Santo alegre do ermo: trajo de pelles, juvenil frescura, olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.

N'essa noite poetica e devota, em que o prazer, centuplicando aspectos, povoa, anima, encanta o mundo inteiro; agua e terra, ar e ceo, tudo é macio; em que a velhice, a mocidade, a infancia, sympathisam no vago da alegria; em que n'alma insaciavel de delicias se juntam com mistura inexplicavel o saudoso passado, os bens presentes, ao contente futuro ebrio de esp'ranças; em que n'um laço mystico se aggregam da vida e eternidade os pensamentos, gozos, superstições, fraquezas, cultos, como um ramo de rosas e ciprestes na caprichosa mão das feiticeiras; n'essa noite das noites invejada, té dos casaes lá do ultimo horizonte a ti concorrerão por toda a parte dançantes bandos que a viola impéra. Verás girar seus bailes rebatidos em redor das estridulas fogueiras; ouvirás os seus canticos em coro devoto e namorado; a bomba foge, zune fugindo, e solapada estoira; o buscapé no ar caracolando morde n'um, morde n'outro, ameaça a todos, dispersa os grupos, gasta-se raivando, e entre os risos rebenta atroando os ares; aqui, circula em vertice perenne a roda leve espadanando incendios, chovendo oiro luzente e estrellas alvas; ali, floreia o fulgido valverde, vulcão sonoro que arremette ás nuvens; vôa, remonta impaciente aos astros o ignívomo foguete estrepitoso. ¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas! ¡e os segredos d'amor! ¡e a prece occulta! e essa mão dada a furto, e a furto acceita! ¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudes da meia noite em ponto! e a flôr crestada! ¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes, e muitas mais a próvida malicia! ¡e a fonte que amanhece entre descantes, e pasma rindo de se ver c'roada de festões verdes e enlaçadas flores!... ¡Que noite! ¡que prazeres! ¡que triumphos te aguardam no porvir, me estão na mente!

Mas se ao neto do Libano silvestre, se á arvore do templo, ao cedro antigo, mais contenta sublime austeridade, religioso é o chão que te sustenta, santa e severa a muda visinhança.

D'esse lado, essa relva avelludada foi chão d'egreja outr'ora, e esconde os mortos; onde a oliveira está, surgia a torre; bradava aos eccos dos remotos cumes o sino da oração, lá onde agora está cantando o melro; e pasce a ovelha, balando o seu amor ao filho ausente, onde a moça aldeana ajoelhada em noite do Natal, ante o presepio acalentava em côro o Deus Menino. Nem portas, nem degraus, nem muros restam! ¡Um saxeo altar! ¡por tecto uma parreira! ¡e um San-Jorge musgoso entre silvados! D'aqui, filho do antigo, o novo templo te alveja em face. Em fundo de sepulcros por ossos vãos enredarás raizes.

¡Que vezes para o ceo voarão juntos o perfume do incenso e o teu perfume, o teu sussurro e os canticos da Biblia! Escutarás por baixo do teu cume os mysterios, a supplica chorosa, as lições da moral, do Eterno as glorias, o voto humilde, a gratidão serena, o tom pesado dos funereos Psalmos, a infancia d'entre as aguas renascida, os protestos do amor que acceita e córa; e o mais que o mal previne e o mal espia, gera, vigora o bem e o bem premeia, suavisa as dores, o prazer modera, adoça a vida, aperfeiçoa os homens, e por c'roa da paz a paz promette.

Assim, quasi debaixo de teus ramos, juntarás o que a mil faria illustres: a raça que milita, e a que triumpha; os cultos da saudade, e os cultos vivos.

Cresce pois outra vez, cem vezes cresce. Alto, em frente do humilde presbyterio, torna-te a sentinella das montanhas.

Se o peregrino, attonito, espantado, errar nos cumes alongando os olhos; se vires muito ao longe os passos frouxos, o curvo dorso, o pallido semblante, e as cans sem honra do ancião mendigo; indica-lhes a senda hospitaleira, mostra-lhes em teu lar os seus penates; e dize ao peregrino:--Eis a poisada;-- e ao mendigo:--Bom velho, andas perdido; reconhece o teu fumo, a tua porta, teu leito, os teus irmãos, teu pae, teus filhos.--

¡Oh! ¡que viver, que almo viver te aguarda! beneficencia, paz, respeito, gozos, ¡quantos bens! ¡e esses bens quão longas eras! Mas nós... ¡ah! nossos dias fugitivos seculos são se á rosa se comparam, mas passam como a rosa a par dos cedros. Para ti, de anno em anno a primavera virá com pompa nova e novas galas; para nós, menos flores de anno em anno lhe virão no regaço; menos fogo nos olhos, no sorrir menos ternura. Eu, que outr'ora a cantei, que ardi por ella, para quem toda a alegre Natureza era animada, meiga, inspiradora; que doce delirava entre as violetas, entendia o favonio e a voz das fontes, entrava co'a andorinha em seus prazeres, co'o rouxinol em seus segredos ternos; que do meu estro nas visões formosas arvoredos, oiteiros, grutas, rios, povoava das priscas divindades, e n'um mundo só meu, vivia todo... hoje, ¡quão frouxa pela mente nua sinto raiar a inspiração que imploro! Do genio a seiva, a primavera da alma, langue; raro floresce, a longe, a longe.

¡Como! ¡tão novo ainda, é já forçoso que a grinalda poetica se esfolhe! ¡Lyra que apenas entoou preludios, já desafina, e jazerá sem honra! ¿Serão estes os canticos do cysne?

Ó meus delirios, nuncios meus de gloria ¿mentieis vós? ¿ir-se-hiam para sempre lagrimas, illusões, ternura, cantos?! ¡Ah! ¡sentir-se morrer, que acerba morte!

E tu tambem, tu morrerás um dia. As raizes cançadas de nutrir-te não pedirão mais succo á larga terra. ¡Adeus, ninhos d'outr'ora! adeus frescura, sombras, sussurro ameno e cheiro alegre! A copa verde que hospedava as nuvens, ludibrio d'auras, arida esvoaça. Mas ao menos feliz impresciencia, don melhor que mil dons, te coube em sorte. Dominas vastamente o ar e a terra, sobes vaidoso aos ceos, á Estyge afundas, e baqueias sonhando eternidades.

¡Ó arvore, alevanta-te! ¡desata em nossos dias tua umbrosa pompa!

Emquanto a raça ephemera dos homens vai e vem, faz, desfaz, se eleva, desce, tu, fixa, tu do sabio exemplo inutil, medra pelo descanço; igual hospéda, sorrindo sempre, as estações oppostas; presta-te aos soes e ás luas, que sem conto volverão sobre ti; sê caro asylo ao favonio que em braços te adormeça, e ás aves que em teu seio se aninharem, e soffre ou goza o teu destino immenso.

¡Ai, nunca de teus ares dominando pela terra de Luso oiças ou vejas da civil guerra as armas fratricidas! Inda agora nos eccos d'estes montes os seus trovões sacrilegos retroam. Inda em nossos ouvidos estremecem quadrupedante estrepito, relinchos, retinir d'armas, rufos de tambores, rolar de carros, vozear de chefes, e os gritos do clarim, pregões da morte, ¡Que esposas inda agora estão carpindo! ¡que mães, filhas, e irmans, inda hoje em lucto! Do sangue a côr maldita inda denigre esses campos de horror; e as sepulturas dos sem numero extinctos nos combates, não florirão inda esta primavera. Do raio o fumo a Lusitania assombra.

Ó Paz, filha do Ceo, mãe da abundancia, da innocencia e do amor irman e amiga, alma Paz, volve a nós, que assaz é tempo. De opulentos avós mesquinhos netos, já não pedimos bens: aos descendentes do povo infesto a Roma e Rei do mundo, basta um pouco de pão em paz comido. Sobre os antigos loiros desfolhados caiba-lhe ao menos respirar dormindo, ¡Que ideia tão inhospita e gelada!...

¡Aguas! ¡aguas! ¡reguemos o bom cedro! ¡lá se vai por o sol! ¡cá nasce a lua! Ó lua, vem propicia á joven planta; e tu, doirado sol, propicio volta.

¿Quem bate?... ¡parabens! dançae, folguemos? ¡eis o pobre! ¡eil-o! ¡é Deus que a nós o envia! ¡sim! da parte de Deus vem sempre o pobre. Entrou á rega; ¡é fausto o agoiro! ¡é fausto! enchei-lhe a taça, beberemos todos.

Conduziram-n-o ao lar; da farta ceia leval-o-hão consolado á foufa cama. Agora, que estou só, que apenas oiço o mui longe cantar das fiandeiras na aldeia d'alem-rio, ¡oh! vem... ¡sentemo-nos ao-pé do que algum dia ha-de abrigar-nos, candida imagem de Maria ausente! segredarás aquella de que és sombra, que para ella está guardada a gloria de casar algum dia uma roseira ao já seguro tronco. ¡Ai, doce emblema da quêda e flórea vida, enlevo de ambos!

XLIX

Versos a este modo, e até somenos, brotaram por ali muitos nas temporadas luminosas, ou menos escuras; e em quasi todos elles brilhava, ou se entrevia, a estrellinha polar, para onde apontava o meu coração magnetisado.

¡Podera não! Todo o solitario tem lá sua visão de que se não desapega por mais que faça.

O poeta das tristezas não sonhava senão Roma no Ponto Euxino.

S. Jeronymo, na sua cova, batia com a pedra nos peitos, a ver se matava lá dentro seductores phantasmas de mulheres.

Eremitas na Thebaida, invocando Anjos do Ceo, eram tentados de demonios terrestres formosissimos.

Petrarca, em Valchiusa, tinha Laura morta engrinaldada sobre um altar a escutál-o.

Camões na gruta de Macau não estava sem Natercia.