A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes

Chapter 8

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Deram oito horas da manhã. Um silencio profundo afogou de repente todos os estrepitos e todas as vozes nos dois campos. Similhante á pausa abafada, que precede os gemidos da procella, em breve iam rebentar d'este silencio momentaneo, todas as tempestades, que o odio e as paixões encerram.

A fortaleza das posições do Vimeiro, e a valentia dos defensores promettiam aos soldados de Junot disputada lucta. Apezar d'isso as massas accumuladas nas eminencias, nem suspenderam, nem paralysaram, o seu esforço. A divisão Laborde começou o ataque. N'esse momento, como se á ira dos homens se antepozessem as consolações do ceu, ouviu-se o repique longiquo, mas claro, de uma sineta, na capella da aldeia, convidando os fieis á oração. Logo apoz reboou, immensa e prolongada, acclamação festiva dos batalhões francezes. Era a brigada Thomières, que a passo ordinario, e com os estandartes desenrolados, partia intrepida a escalar as escarpas da montanha, d'onde tres linhas inabalaveis juravam repellil-a.

Cobria-lhe a frente uma nuvem de atiradores. Os reparos dos canhões, rodando nos flancos, abalavam o chão, confundindo com o tropear da marcha o seu rolar soturno. O espaço, que separava os contendores, depressa se encurtou; o vulto da columna depressa se estreitou tambem, e diminuiu na distancia. Uma orla de fumo alvacento, franjada de relampagos, elevou-se lentamente da testa da linha no meio de detonações repetidas. Ao mesmo tempo os tambores, as trombetas, as gaitas escocezas, as cornetas, e os cheios sonoros dos instrumentos bellicos romperam em harmonia guerreira do centro das brigadas inglezas. Encostando as coronhas ao hombro, com os murrões accesos junto ao ouvido das peças, os soldados de Wellesley acceitavam resolutos o desafio das aguias francezas.

D'ahi a um momento ao trovão da artilheria juntava-se o estampido de milhares de fuzis. A montanha, silenciosa e fria até então, vestiu-se de clarões lividos, e uma densa nuvem de fumo, baixa e quasi immovel, véu sinistro, escondeu os combatentes da vista anciosa dos espectadores. De instante em instante novas explosões atroavam o campo, e por entre os rolos de pó e as fumaradas dos tiros faiscaram como fitas tortuosas de lume as descargas dos batalhões. Os pelouros, bastos como granizo, silvaram, varejando as fileiras. As balas de artilheria, cortando o ar, e zumbindo, vinham enterrar-se, escarvando o solo aos pés das companhias, ou, rasgando-lhes e esmigalhando-lhes as filas, abriam por meio d'ellas cruentas e largas brechas, assignalando no chão juncado de cadaveres e moribundos o seu rasto destruidor.

Pendurados das ingremes ladeiras, ouvindo por cima das cabeças estourar a voz de bronze dos canhões, sentindo debaixo dos pés retremer e escorregar a terra, no meio de uma atmosphera ardente, ora atropellados pelos que a morte despenha adeante das pontas dos alcantis, ora impellidos pelo tropel impaciente dos que atraz d'elles bramem e se apinhoam na subida, os soldados do regimento 26.^o, respondendo com a audacia do silencio á tempestade vomitada das cristas das alturas, alcançam por fim a aresta da montanha, conquistam a beira da planura, e arremessam-se como leões raivosos, em linhas crespas, contra a muralha de aço, que lhes oppõem o 5.^o regimento inglez. Foi como o encontro de duas nuvens carregadas de electricidade. A meia distancia uns dos outros, os canos das espingardas inclinam-se, dois relampagos immensos lambem a face das columnas, e o ruido de duas descargas quasi unisonas ribomba de cerro em cerro até aos valles.

As vozes dos chefes por cima dos mil rumores da peleja, e o tinir do ferro nos pelotões calando bayonetas soam distinctamente durante a curta pausa, que se segue. Depois, violentos estremeções sacodem os membros convulsos dos dois corpos gigantes, e n'um abrir e fechar de olhos ambos se precipitam um contra o outro, esperando suffocar-se n'este abraço, em que toda a sua colera ruge frenetica.

A cortina de fumo, que os encobre, adelgaçando, rarea-se um pouco, e o duello temeroso dos dois regimentos, arcando peito a peito, com os ferros apontados ao coração, brilha por momentos em toda a sua magestade!

Loison e Charland, com os batalhões 32.^o e 82.^o já a esse tempo estavam travados com tres dos regimentos de sir Arthur, o 97.^o o 43.^o e o 52.^o. As linhas britannicas, abaladas pelo furioso embate, vacillam, encurvando-se. O impetuoso encontro das companhias francezas, sulcando-as, e mutilando-as em partes, cuida um momento tel-as arrancado, desordenadas e vencidas, do solo a que a disciplina parece arraigal-as. Mas a confusão dura apenas minutos! As filas confundidas reconstruem-se, e os assaltos vertiginosos dos guerreiros de Thomières e Loison quebram-se em vão contra a firmeza admiravel d'aquelle rochedo humano!

O sangue ensopa o chão, amortecendo o ruido dos carros e reparos, e o estrupido medonho dos pés dos combatentes. A chamma das bôccas dos canhões e fuzis cresta o rosto dos mais avançados. Fileiras sobre fileiras, minadas pelo bater incessante dos pelouros, escorregam no solo humido de carnificina, e prostram-se depois para não se levantarem, conservando apenas, aqui, e acolá, de pé, um ou outro soldado, sentinella perdida, que sobrevive ao estrago commum.

De lado a lado mordem o pó os mais valentes. O coronel Pillet e o general Charland, feridos, multiplicam as ordens e o esforço. O tenente coronel Peytavy adormece do somno dos fortes. Os inglezes pelejam com pouco enthusiasmo, mas com tenacidade indomita. Sem retirada, a derrota equivale para elles a um desastre sem nome. Nas suas costas aprumam-se despenhadeiros a pique; a seus pés ronca o mar enfurecido! Wellesley sabe-o, mas conta com os obstaculos naturaes, e com o valor e o numero de suas tropas. As columnas de Junot não são assás profundas para varrerem na ponta das bayonetas as tres linhas, que têem defronte.

Kellermann desdobra os batalhões da reserva a dois tiros de peça do Vimeiro. O duque d'Abrantes, perto d'elle, contempla o progresso dos ataques de Delaborde e Loison. Uma ordem sua manda marchar em auxilio dos dois generaes o 2.^o de granadeiros, commandado pelo coronel Sainte-Claire. Avançando em columna, e em pelotões, o regimento costêa a quebrada, que baixa á direita para o barranco, aonde passa a estrada do Vimeiro a Toledo. Os inglezes, desopprimidos das forças de Delaborde, constrangidas a recuar, respiram por instantes, recuperando-se á pressa dos golpes precedentes.

Avistando os inimigos, que se adeantam, são suas disposições promptas e decisivas.

Os artilheiros assestam contra elles as bôccas de dezoito canhões e obuzes, e dando-lhes fogo a um tempo cobrem o terreno de projectis. As balas ôccas dos obuzes, enfiando filas inteiras, vem rebentar como bombas e granadas no centro dos segundos pelotões. Cuidam que o espanto e o terror dissiparam o ataque, e que os francezes cedem sem entestar com suas linhas! Illusão! Mal protegido pelos frouxos tiros das baterias da primeira divisão e da reserva, investindo por baixo de uma chuva de balas, que o consome, o regimento, como se entrasse em parada, prosegue inalteravel, semeando de mortos e feridos todo o caminho, e pagando com torrentes de sangue cada passo adeantado. Os que se aprestam a rechaçal-o, sentindo-o acercar, sem o ver, pelo som cada vez mais forte da marcha, vencem a custo o sobresalto inspirado por aquelle silencio ameaçador, grávido da vingança de tantas perdas.

Finalmente as pontas das bayonetas relampejam sobranceiras ás cristas da montanha, e as companhias, desfilando a cincoenta toezas da planura, principiam a formar-se em batalha. De repente, espectaculo doloroso, porém cheio de grandeza(!), um mar de fogo irrompe de todos os lados, e envolta em chammas a pequena columna oscilla, arqueja, relucta ainda, mas em vão e alue-se por fim, crivada pelas descargas convergentes da mosquetaria de seis regimentos! As explosões das peças acompanham o trovão rolante das descargas, os clamores do combate, e as ameaças dos tambores e cornetas. Os cavallos de trem da artilheria franceza extendem-se uns após outros, deixando os reparos desmontados. Os coroneis Foy e Prost pugnam debalde, e salpicam de sangue os canhões emmudecidos. Os primeiros pelotões de infanteria varridos pelo tufão de metralha desapparecem fulminados, e quando o fumo, que cega o campo, se desvanece, do bello e soberbo regimento, cujos brios os contrarios mesmo haviam applaudido, apenas restam reliquias, que em troços dilacerados se derivam fugitivas pela encosta, golfando de todos os membros o sangue de mil feridas!

Kellerman, que seguíra o 2.^o de granadeiros com o 1.^o regimento, ás ordens do coronel Morancin, atravessado o barranco, fôra encontrar-se de rosto com a brigada de Ackland. Sir Arthur, notando cuidadoso este movimento contra o centro, e receando pela povoação do Vimeiro, tractára de anniquilar sem demora o novo ataque. As tropas britannicas baixaram em forças duplas sobre a columna de Kellermann, e flanquearam-n'a. Não contente ainda com a fuzilaria cerrada, que dizima as fileiras contrarias, o general inglez arroja sobre ellas o impetuoso choque de quatrocentos cavallos do 20.^o de dragões ligeiros, da guarda de policia portugueza, e dos voluntarios da Beira Alta e Extremadura.

Os granadeiros, colhidos no meio de um verdadeiro furacão de ferro, antes de poderem formar quadrado, vêem reluzir sobre as cabeças os sabres dos dragões e as espadas da cavallaria portugueza, á qual a voz e o exemplo de Manuel Coutinho, do coronel de milicias de Leiria, do morgado de Penin, e dos outros cavalheiros, que dias antes encontrámos no palacio da Asseca, infundem animo superior a maiores emprezas. As aguias rojam no pó pela primeira vez, e o amante de Leonor, alcançando a preço de ferimento leve a gloria de tomar um dos estandartes fadados até então pela victoria é saudado com vivas e felicitações pelos soldados, ebrios de enthusiasmo.

Os granadeiros acutilados dispersam-se deante dos cavalleiros, que os perseguem, alastrando o terreno de victimas, destroços, e captivando quasi a cada passo os que fogem, arremessando as armas.

--Safa com a calma! brada um dos officiaes portuguezes, que a farda, a estatura herculea, e a voz atroadora denunciam de longe ser o bellicoso patriota, o major Alvaro. Trago os miolos assados dentro d'esta barretina, d'esta maldita panella. Forte asneira! Pôrem á cabeça da gente um cantaro que peza arrobas! Trago a camisa pegada ao corpo de suor!

--Que dia, meu amigo, que grande dia! disse o capitão-mór de ordenanças de Leiria, Manuel Carranca, limpando junto d'elle a testa com a aba verde da farda, e restabelecendo o equilibrio ameaçado pela carreira do cavallo, um pouco fogoso de mais talvez para a sua pericia equestre. Não sinto já o braço de jogar cutiladas a estes cães, sr. Alvaro! Respiremos um instante!

--Pouco os acúa! Não me estejam a fazer de um agreiro um cavalleiro! accudiu o alcaide-mór Rodrigo Crespo com a serenidade de um veterano callejado. Isto de que os senhores se admiram não é nada em comparação do que foi pelo Roussillon! Se caíssem sobre um quadrado a espirrar fogo por todos os lados, e crespo de bayonetas como um ouriço, então veriam. Mas estes granadeiros, que se derretem como alcôrce mal os cavallos lhes fungam ás barbas?! Historia!... Olhe, sr. Isidoro Pinto! ajuntou, voltando-se para o coronel de milicias, que acabava de sofrear o ginete, e que o escutava. Olhe como Manuel Coutinho, vae guapo na frente. Corre que desapparece! Ah, rapazes, rapazes!

--Bom sangue não mente! redarguiu o velho cavalheiro, resguardando a vista do sol com a mão curva, e contemplando o espectaculo terrivel e variado, que se descortinava no campo por todas as partes.

--Ah, meu coronel! exclamou o major Alvaro escarlate de fadiga e de regozijo. Tenho engulido mais de dois alqueires de terra, ando todo n'um lago, mas juro-lhe por todos os sanctos da côrte do ceu, que não trocava por um condado a alegria d'esta hora... Como elles fogem! Parecem gamos! Ah senhores francezes, cheira-lhes a esturro a nossa polvora? Bravo! Lá apanharam os inglezes um pelotão quasi inteiro! Fortes covardes!...

--Não diga isso, senhor Alvaro! atalhou o coronel Isidoro Pinto. Agradeça a Deus o que estamos presenciando, e antes de tempo não cante victoria! Os francezes são valentes soldados, e aqui mesmo o estão mostrando. Fogem estes, e quem sabe, talvez d'aqui a nada tenhamos de fugir tambem. Agora por elles, e logo por nós. São sortes da guerra.

--Qual fugir, nem meio fugir! gritou Rodrigo Crespo, rindo desentoadamente. Mas espera! Que é aquillo lá em baixo!

E alçando-se nos estribos apontava para a linha de arvores de um pequeno bosque, copado sobre a esquerda, d'onde principiavam a enrolar-se certas ondas suspeitas de poeira, avultando, como nuvem que desponta e se desdobra, em corpo numeroso.

--Aquillo?! O que é aquillo? berrou o major Alvaro depois de fitar por um pouco a vista de lince no ponto designado. Aquillo são francezes. É uma emboscada de cavallaria jacobina. Estamos lambidos, com mil diabos!...

--Fale mais devagar, observou o experimentado alcaide-mór. Noticias d'estas não se gritam por cima dos telhados. É verdade, são francezes, e com peças montadas e atiradores na frente! Formam em columna e em pelotões á saída do bosque! Temos festa!... Rapazes! Alto! accrescentou virando-se para o meio esquadrão de voluntarios que o seguia. Apparece um grosso de cavallaria inimiga pelo flanco! Sentido! Toca a reunir ao tenente coronel Taylor.

E o alcaide-mór, collocando-se á testa do meio esquadrão, ajuntava friamente voltado para o major e para o capitão-mór:

--O sr. Isidoro Pinto tinha razão. Vamos receber uma carga a fundo, e receio que a nossa gente a não supporte. A confusão desordenada, em que a cavallaria ingleza corre no alcance dos granadeiros, póde ser-nos fatal. Em todo caso... somos portuguezes. Aqui havemos de vencer ou morrer!

--Viva o principe regente! Viva a santa religião! bradou o major floreteando a pesada espada, e atirando a barretina ao ar.

--Viva Portugal, e sejamos homens! exclamou o coronel sereno e intrepido, mettendo o cavallo ao lado do do alcaide-mór.

--Eil-os comnosco! gritou Manuel Carranca. Deus me perdôe! Como vem feros! Se não fosse vergonha dizia, que mettem medo... de longe!

--Póde dizer, que não lhe fica mal. Mais d'estes lances tenho eu visto na minha vida, e confesso-lhe que estimaria achar-me agora em outra parte... São ossos do officio, não ha remedio senão roel-os. Paciencia!

A conjectura do velho official era exacta. Vendo disperso pelo fogo das brigadas e pelo ferro dos dragões inglezes e da guarda da policia o bello regimento de Morancin, o general Margaron, emboscado desde o romper da manhã com toda a divisão de cavallaria franceza, deu por fim o signal do ataque, signal, que Armand de Aubry, Lassage, e muitos outros officiaes, não menos impacientes do que elles, aguardavam cheios de ira, e mordendo os beiços.

O formoso quadro, que offereciam á vista os pelotões, desfilando a trote de entre as arvores, cobertos por uma linha de atiradores, e trazendo nos flancos as bôccas de fogo chamadas da reserva, ao passo que enlevava os olhos, confrangia o coração. De momento para momento apertava o perigo dos alliados soltos em carreira desenfreada após os vencidos.

Avançando em duas columnas, uma composta da guarda do general em chefe e do regimento 26.^o de caçadores a cavallo, ás ordens do principe de Salm-Salm, a outra formada dos regimentos 4.^o e 5.^o de dragões, na frente dos quaes galopavam Margaron, os majores Leclerc, Theron, e todo o estado maior, os esquadrões francezes, desenvolvendo-se, arremettem com os estandartes altos, e as espadas núas, no meio da brava alegria dos clarins, direitos a uma eminencia, que precisam vencer para dominar o campo.

Similhantes a duas serpes monstruosas, suas columnas enroscam-se, colleando pelas veredas da encosta, e subindo, ora entumecem, ora estiram os anneis luzentes pelas voltas sinuosas, precedidas dos relampagos, que fuzilam as bôccas das peças, do trovão, com que a artilheria annuncia a sua presença, e da cortina de fumo, que ondeia e paira sulcada de coriscos, sobre a ladeira opposta pela qual já se precipitam os atiradores, investindo-a.

Vendo-os accommetter assim vistosos e intrepidos, o tenente coronel Taylor olhou em redor de si, e apontando para elles exclamou: _splendid_! Soldado applaudia a bizarra apparencia de outros soldados dignos do seu valor! Firme deante da ameaça d'aquelle golpe sua voz resoa em brados viris superior a todos os ruidos. Indifferente aos perigos, vôa, ora a um, ora a outro lado, ordenando e confortando os seus.

Os clarins britannicos e portuguezes respondem altivos ao desafio guerreiro do inimigo. As nossas bandeiras tremulam com orgulho deante das bandeiras oppostas. Retrocedendo em ondas loucas do alcance, que os attraíra, os portuguezes e os dragões britannicos entram nas fileiras uns após outros, e a ordem de batalha reconstrue-se sobre o terreno já cavado pelas balas dos francezes. Manuel Coutinho e os officiaes unem os esforços aos do valente capitão inglez e acodem á confusão inevitavel d'este momento de sobresalto.

--Eil-os partem! exclama o amante de Leonor, vendo a cavallaria contraria arremessar-se a todo o galope.

--Ávante! A elles, dragões! Bradou Taylor, largando as redeas, e soltando o fogoso ginete, cujas crinas ondeantes açoutam o ar.

Foi como o encontro de dois vulcões rolando ennovelados por cima da terra, que parecia gemer e vergar opprimida com a tempestade de homens e cavallos, cujo estrondo abafado recresce á medida, que as duas muralhas de ferro se approximam.

O chão embebe-se rapido debaixo dos pés dos corseis. Já não é senão uma estreita orla entre dois rolos de pó.

O sol bate de chapa sobre a planicie. As armas scintillam despedindo clarões sinistros. A distancia desapparece! As primeiras filas topam em cheio. Um grito, uma explosão, um estrondo horrendo, assonancia de mil clamores e de mil estrepitos, acompanha o medonho choque!

As fileiras baralham-se, e a peleja individualiza-se. Os pelotões atiram-se uns contra os outros como vagas furiosas e encapelladas, estourando no meio d'aquelle mar agitado. Com as redeas nos dentes, os cavallos empinados, e a pistola, ou o sabre em punho, n'este duello immenso composto de mil combates parciaes, cada qual busca um contendor e logo o esquece, derrubado e nas ancias da morte, ou distraído no ardor da nova provocação. Ao fuzilar das espadas juntam-se as detonações, a chamma fugaz dos tiros disparados á queima roupa, e os jorros de fogo que illuminam a frente das baterias.

A atmosphera suffoca. Ao alento fumegante dos cavallos, nitrindo de colera, une-se a respiração abrazada dos homens, cujos olhos relampejam, cujo odio encanecido em momentos devora o adversario alçado deante d'elles. O sangue gotteja das armas e dos uniformes. Gemidos e brados acompanham a agonia e a vingança. Por meio d'esta scena de furia e delirio feroz atravessam ginetes sem dono com as crinas soltas, e cruzam esvaindo-se pelas feridas corseis arrastando presos dos estribos os cavalleiros moribundos. A lucta é toda de força e destreza. Deslumbra a vista o faiscar incessante dos golpes. As fileiras raream-se. As vozes dos chefes retumbam por cima do concerto horrendo dos combatentes travados como feras no circo.

D'Aubry, fiel á sua palavra, mais parecia buscar a morte, do que a gloria. O seu braço fere infatigavel; o seu peito offerece-se descoberto ás balas e ao ferro. Por onde passa, os mais fortes e audazes, recuam, ou caem. Manuel Coutinho, ao lado de Taylor, viu-o atirar o cavallo ao encontro do coronel, saír intacto e invulneravel do arremesso de cem contrarios, e avisinhar-se com a espada alta sobre o commandante inglez.

Sentindo fugir-lhe o campo, e divisando rotas, ou desordenadas suas fileiras, Taylor accommette quasi só os inimigos com aquelle supremo desdem do perigo, feição heroica do seu caracter. Poucos dragões e alguns portuguezes ainda o rodeam, porém já desfallecidos. Os esquadrões britannicos recuam e fazem já meia volta, retirando-se surdos ás ordens e á desesperação dos capitães.

Lassagne e o coronel inglez encontram-se um defronte do outro por um d'esses acasos, que a guerra tantas vezes arrasta. D'Aubry luctava perto por abrir caminho, mas se podia ver o combate, não podia soccorrer o companheiro de armas. De subito a espada do tenente francez faiscou baixando a cravar-se no hombro esquerdo de Taylor, que a dor faz vacillar nos arções, mas ao qual a ira, restituindo o alento, presta novas forças. Um golpe terrivel depressa o vinga, e Lassagne, varado de uma estocada pelos peitos, baquêa do cavallo em terra.

--Adeante! clama a voz do coronel, apertando os joelhos ao cavallo, e floreteando o sabre.

Não poude dizer mais. Uma bala suspende-o na carreira. A mão inerte solta as redeas, a espada núa escapa-lhe dos dedos, e o corpo seguro na sella por segundos oscilla e prostra-se afinal sem vida. A bala tinha-lhe atravessado o coração!

Manuel Coutinho olhou e empallideceu. Na mão de Armand d'Aubry fumegava ainda a pistola, que disparára o tiro. A queda de Taylor acabou de abalar os soldados já vacillantes. Alguns d'elles comtudo, cercam d'Aubry, accesos em raiva e esquecem tudo para saciar o odio, que os abraza. Triste com a perda do amigo, insensivel á propria morte, o mancebo quasi que mal lhes disputa a existencia. Já o sangue lhe corre de largas feridas, já a espada lhe treme na guarda, já um véu principia a turvar-lhe a vista, quando de repente vê a larga folha de um sabre ameaçar-lhe a fronte, outro ferro antepor-se e aparar a golpe, e uma voz conhecida bradar-lhe:

--Rende-te!

Entregou a espada já sem ver a quem, e fechou os olhos.

Quando tornou a abril-os, achou-se debaixo do tecto de uma barraca de lona ingleza, com o cirurgião-mór de um corpo britannico ao lado, e Manuel Coutinho á cabeceira.

A batalha tinha terminado. A brigada Solignac na estrada da Lourinhã, e a brigada Crenier na assomada da Ventosa haviam tentado tambem de balde a ventura das armas. A fortuna de Wellesley foi mais poderosa. As posições do Vimeiro, immortalizadas pela firmeza dos alliados, repelliram todos os ataques. No fim de duas horas e meia de fogo, os francezes contaram fóra de combate mil e oitocentos homens entre mortos e feridos, bastantes prisioneiros, entre elles o general Brenier, e treze peças de campanha perdidas, com vinte e tres carros de munições. O duque de Abrantes, salva a honra, inclinou-se deante da adversidade, e ordenou a retirada.

Restava-lhe morrer, capitular, ou abrir pelo meio dos inimigos a retirada. A sorte compadecida não quiz que elle encontrasse um tumulo em Portugal, aonde quasi possuira um throno. Por mão dos proprios adversarios lhe franqueou as portas da patria.

XII

Sol entre nuvens

Voltemos áquella casa tão risonha do campo do Ourique, aonde ouvimos as imprecações de Manuel Coutinho, as palavras prudentes do bispo de Malaca, e a resposta de Leonor ás propostas de Lagarde. Apenas decorreram algumas semanas, mas os successos precipitaram-se, e tudo mudou de aspecto.

Entremos sem ruido pela alcova, cujas portas de vidraça, recatadas pelo reposteiro de seda, abrem sobre a sala, aonde vimos a filha de Paulo de Azevedo jurar ao seu amante eterno amor. Os moveis e o adorno do aposento são ainda os mesmos. Os raios do sol afagam de luz dourada as avezinhas, que saltam nas gaiolas, e beijam as corollas das flores, cujos variados matizes sobresaem, marchetando os bellos ramos, que enfeitam as antigas jarras japonezas em cima do marmore dos tremós.