A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes
Chapter 7
--Sr.^a D. Leonor, gritou Simão, não deixe seu pae assassinar-se por uma teima! E o agente, simulando compuncção hypocrita, quasi se lançára de joelhos aos pés da donzella, que se desviou enojada. O sr. Paulo não lhe disse nada, agora vejo! O conselho de guerra julga-o ámanhã ás dez horas; e a sua sentença... é de morte! Offereci-lhe salval-o por uma quantia. Quer á força sacrificar-se! Commetter um crime, um suicidio! Diga-lhe!...
--Que o meu coração se despedaça de o perder, mas que a minha alma se arrebata de admiração com a sua nobre recusa? É isto o que quer que eu diga? Para quê?! Ha muito que meu pae e eu nos conhecemos!...
--Oh! minha senhora! Cuidei que amava mais seu pae, do que trinta contos de réis! observou o espia ferindo todos os alvos.
--Meu pae fez o seu dever. Rejeitou o pacto infame. Eu cumpro o meu, dizendo-lhe que nunca tive tanto orgulho em me chamar sua filha.
--Mas! A sentença é infallivel e executa-se logo. Ámanhã á tarde terá de orar sobre um cadaver! Veja que está matando seu pae!
--Silencio! clamou o cavalheiro indignado e terrivel de aspecto. Assassino és tu, mas da honra dos homens, e até da fraqueza de uma senhora. Vai-te! Perdes aqui o tempo, não achas compradores, e podes encontrar... Por Deus! Não me tentes mais!
--Tenha dó de si! insistiu o agente, recuando deante do ancião, mas orando sempre em nome dos trinta contos. Não se fie em vans esperanças. Ninguem o salva senão nós, minha senhora! O capitão Magendie, conhecido pela severidade, é o presidente do conselho de guerra, e a vida de seu pae...
O honrado Simão aqui estacou com o resto da phrase estrangulado na garganta. Uma larga mão, desabando-lhe sobre o hombro com o peso de um rochedo, acachapou-o debaixo do seu vigoroso impulso. Ao mesmo passo uma voz aspera e imperiosa dizia-lhe com ironica intenção:
--Chamavas pelo capitão Magendie, creio eu. Aqui está o capitão Magendie! Repete deante d'elle o que dizias nas suas costas! Quero saber se ousavas fazer-me cumplice do infame pacto de sangue, que vieste propor! Fala!
Paulo de Azevedo e sua filha contemplaram attonitos e cheios de assombro a subita intervenção d'aquelle homem, que um erro de officio do espia, deixando a porta da prisão aberta atraz de si, introduzira no momento mais interessante do drama, de que eram auctores e personagens.
--Fala que mando eu! repetiu o capitão, saccudindo o delator livido, tremulo, e mudo de terror.
O cavalheiro e Leonor começavam já a compadecer-se do infeliz Simão, muito parecido n'este instante a um chacal colhido nas garras do leão.
--Fala, ou morres aqui mesmo! bradou pela terceira vez o capitão de mar e guerra. Quero ouvir e saber tudo!
N'este momento as faces de Leonor afoguearam-se do mais vivo carmim. Uma figura nova acabava de entrar em scena. Era Armand d'Aubry. O mancebo approximou-se d'ella com um sorriso, cortejou Paulo de Azevedo, disse-lhe o seu nome, e beijando a mão á donzella com respeito, disse-lhe:
--Não é verdade, minha senhora, que já me accusava de vanglorioso, ou de esquecido?...
--Eu, senhor d'Aubry! Que direito tinha para isso?
--A minha palavra dada.
--Sei que é escravo d'ella; mas ás vezes ha razões...
--Nenhuma póde desculpar um descuido, que eu confesso, e que podia ter sido fatal. Fiei-me na palavra... de um homem que a trahiu, e descancei de mais. Felizmente chego ainda a tempo!
Um grito agudo de dor arrancado ao virtuoso Simão pelos dedos de ferro de Magendie interromperam n'este ponto a conversação.
D'Aubry, adeantando-se, interpoz-se entre a victima e o militar irritado.
--Magendie! disse meio serio, meio a sorrir-se, quereis esmagar esse verme debaixo dos tacões das botas?!...
--Não! Fôra vergonha e opprobrio! Mas o miseravel invocava o meu nome, quando entrei! Quero saber o que ousou inventar!
--Deixe-o! accudiu Leonor, dando alguns passos para o capitão. O que elle propunha não deshonra o sr. Magendie.
--Espero que não se atrevesse a implicar-me nas torpezas, que vinha aqui negociar. Se o fez... juro pela minha espada que lhe arranco a lingua mentirosa...
--Não! Não! atalhou a donzella. Falou só da severidade do sr. Magendie, e da sentença de morte que ha de proferir ámanhã contra meu pae.
--Eu! Ah! Pois tiveste a insolencia de fazer de mim carrasco? Serás punido! E arremettendo contra o espia, inerte e transido, serviu-lhe as costellas de tres, ou quatro pranchadas, que retiniram, seguindo-se umas ás outras com a velocidade do raio.
--Magendie! Basta! Deixa esse desgraçado! clamou Armand, sustendo-lhe o braço já alçado para repetir a correcção.
--Sáe! ajuntou arrastando o delator quasi pela gola da casaca, e lançando-o fóra. Se te demoras... não levas um osso inteiro.
Simão desappareceu, lastimado do corpo, e dorido da alma, pelo exito pessimo da sua missão.
--Minha senhora, disse d'Aubry com nobreza. Os instantes são preciosos. O general Junot, que não é tão mau, como o odio dos portuguezes o crê, informado de tudo--porque não lhe occultei nada--assignou a ordem de soltura de seu pae sob palavra sómente, de que o sr. Paulo de Azevedo não ha de pegar em armas contra as tropas de sua magestade o imperador e rei n'esta ocasião. Fui talvez temerario, mas obriguei-me em nome do preso. Se me excedi, como só eu respondo...
--Meu pae! Meu querido pae! Livre! Solto!... exclamou Leonor apertando o ancião nos braços. Obrigada sr. Armand! Obrigada!
--Sr. d'Aubry! redarguiu o cavalheiro, vencendo a custo a commoção, e não soltando do coração a filha amorosamente cingida ao peito, a palavra, que deu, é como se fosse minha. Não abusarei da sua generosidade. Verei de longe os successos, mas não estranhe, não me leve a mal, que suspire pela victoria dos meus compatriotas...
--É tão natural! O que hei de estranhar? Sr.^a D. Leonor! Se lhe disserem que Armand d'Aubry ficou no campo, lembre-se d'elle, lembre-se do homem, que, não podendo merecel-a, quiz ao menos eximir-se ao seu despreso.
--Despreso!? Porque nos fez Deus nascer tão separados, sr. d'Aubry!
--Paciencia, accudiu o mancebo com um sorriso contrafeito. Seja minha irmã! E se em suas orações não póde pedir a Deus que faça triumphar a minha causa, rogue-lhe ao menos que me dê a morte gloriosa do soldado. Adeus! Lembre-se alguma vez de mim sem odio. Magendie são horas! Se quereis ser dos primeiros na batalha... a cavallo, e a galope!
X
Antes de se levantar o panno
Junot sobresaía no valor heroico. Era a imagem viva dos paladinos cantados pelo Ariosto. O peso das responsabilidades acurvava-lhe, porém, o animo, e as complicações do governo afrouxavam-lhe a vontade. Soldado sem emulo na intrepidez facilmente se offuscava no gabinete, ou no conselho, aonde a sua estrella esmorecia com frequencia. Grande, quando não era o primeiro, sentia vacillar nas mãos o leme do Estado no exercicio da suprema auctoridade.
Accrescentemos, para sermos justos, que a culpa das infelicidades foi menos sua, do que filha das ordens que o subjugaram de longe, e das circumstancias que o opprimiram de perto. A invasão de Portugal e a usurpação da Hespanha, dois attentados agravados por meios ardilosos, assignalaram os primeiros passos de Napoleão I para o precipicio, d'onde se despenhou poucos annos depois.
A casa de Bragança e a dynastia dos Bourbons, duas realezas desamparadas, dois cadaveres (na opinião do conquistador), uma fugida na America, outra expiando em Vincennes as scenas de Bayonna, apenas lhe mereceram que lançasse sobre ambas o seu manto de abelhas para as sepultar! Riscadas do livro de ouro dos soberanos pela espada, suppoz erradamente o moderno Cesar, que tambem acabariam de se extinguir no amor dos subditos, como tinham desapparecido a um aceno seu do theatro agitado da epocha. Cegueira! Captivos os principes ou ausentes, a saudade e os brios das nações armaram contra elle adversarios mais terriveis. Pela primeira vez se encontrou com os povos, e a sua fortuna começou a empallidecer desde então. Com estes novos adversarios a tactica e a disciplina quasi que eram vans; as victorias consumiam os vencedores; e cada gotta de sangue, que tingia a terra, levantava uma legião de inimigos.
A alliança das revoluções populares com a causa dos monarchas proscriptos mudou todas as condições da lucta. As derrotas não provaram nada em favor dos invasores; pelo contrario os revezes anniquilavam exercitos completos. O exemplo de Bailén viera demonstral-o. O duque de Abrantes via tremer em Portugal pelos alicerces o edificio da dominação franceza, e apprehensões rasoaveis diziam-lhe que, desabando elle de repente, podia colhel-o debaixo das ruinas, e aos seus companheiros de armas. D'este receio se originaram os maiores erros, que lhe censuram n'esta campanha.
Se não contrahiu a tempo as forças repartidas pelos presidios do reino, é porque temeu, aos primeiros rebates do canhão inglez, que Lisboa lhe escapasse, e que as praças, chaves, de provincias populosas, lhe cerrassem as portas, obrigando-o a escolher entre a morte do soldado e a capitulação affrontosa de Dupont. De dois males inevitaveis optou pelo menor. A furia guerreira de seus granadeiros podia talvez supprir a inferioridade do numero; mas, sublevada a capital, e perdidas as fortalezas, todas as esperanças de retirada se desvaneciam. Foi o que o decidiu.
Sir John Moore abicára com o seu corpo de tropas ás praias da Figueira. Sir Harry Burrard, Clinton, e Murray com suas brigadas já avistavam as costas de Portugal. Demorar-se em repellir Wellesley equivalia a deixar engrossar pela juncção a vaga ameaçadora dos contrarios. Junot lembrou-se, de que não era costume seu recuar, e arremessando a luva aos inmigos com tantas probabilidades contra si, confiou talvez, em que um dos ultimos raios do sol de Austerlitz viria illuminar mais um dia de triumpho para as armas francezas.
Calculadas pelos mappas, as tropas francesas no dia 15 de julho ascendiam a vinte e seis mil homens; porém, um mez depois, quando se contaram as praças presentes para as metter em linha, apenas appareceram dez mil soldados effectivos! As marchas forçadas de julho pela Extremadura e Alemtejo, as fadigas e ardores do clima tinham devorado quasi tres mil prostrados nos leitos dos hospitaes. Cinco mil e seiscentos occupavam Almeida, Elvas, Palmella, Peniche e Santarem. Dois mil e quatrocentos guardavam Lisboa; mil continham a bordo dos navios os prisioneiros hespanhoes: e os tres mil restantes vigiavam os fortes, as baterias, e as torres levantadas nas duas margens do Tejo.
O duque, partindo para abrir a campanha, já tarde conheceu, que em vez de conservar sobre os inglezes a superioridade indispensavel para os ferir e arrancar no momento dado, sacrificára ao proposito secundario de assegurar a defeza do rio e das fortificações do reino a sorte das aguias imperiaes, avistando-se com Wellington na proporção de um contra dois, ou peior ainda, depois do desembarque das quatro mil e duzentas bayonetas dos brigadeiros Anstruther e Ackland, desembarque operado durante o dia e parte da noite de 20 de agosto. Apezar d'isso, resolveu Junot, não só pelejar, mas sahir ao encontro de sir Arthur, e combatel-o aonde o encontrasse. O astro do imperio resplandecia ainda sobre a Europa, e as victorias, companheiras fieis dos capitães de Buonaparte, apenas em Hespanha lhe negavam um, ou outro sorriso. Mas a fortuna principiava já a cansar-se, e o genio de Napoleão, unico digno de a dominar, faltava n'este instante critico aos batalhões desterrados no extremo occidente pela sua ambição.
Foi em Torres Vedras, que o duque de Abrantes concentrou todo o exercito, e que, passando-lhe revista, encontrou só onze mil e quinhentos soldados, mesmo arrolando os não combatentes. Duas divisões de infanteria commandadas por Delaborde e Loison, uma reserva de granadeiros, e uma divisão de cavallaria ás ordens de Margaron, em força de mil e duzentos homens, caçadores a cavallo, e dragões, em quatro regimentos de dois esquadrões cada um, com vinte e seis bôccas de fogo, regidas pelo general Taviel, compunham todo o poder militar, de que dispunha o logar-tenente de Napoleão I na vespera da batalha, em que se iam travar braço a braço as duas nações ha tantos annos emulas, e cada dia mais implacaveis no designio de se supplantarem, como se uma devesse necessariamente offuscar a outra, ou como se a Europa não offerecesse espaço sufficiente a ambas para existirem e prosperarem.
Sir Arthur Wellesley, nos exordios da sua carreira na Peninsula, logo revelou as qualidades que o habilitavam a competir com os mais illustres capitães sem desafiar um d'aquelles immensos desastres, que immortalizam nas paginas da epopeia napoleonica o infortunio de tantos generaes. Concedendo pouco, ou nada, ao acaso, e não estribando as combinações nos rasgos duvidosos de temerarias emprezas, concebêra o seu plano com a prudencia fria, que sempre em tudo caracterizou seus calculos. Prevendo que, senhores de Lisboa, os francezes podiam atravessar o Tejo sem obstaculo, assoberbar as provincias do sul, e communicarem, por via d'ellas, com a fronteira hespanhola, e não querendo arriscar-se a um revez possivel no ataque de Torres Vedras, determinára tornear o exercito do duque de Abrantes por um movimento audaz, cortando a marchas forçadas pela estrada de Mafra, e chegando adeante d'elle ás portas da capital. A sir John Moore cumpria ao mesmo passo descer de Coimbra e occupar Santarem, vedando tambem por este lado a retirada dos contrarios.
Estavam expedidas as ordens n'este sentido, e marcados o dia e a hora, em que haviam de principiar a executar-se. Mas sir Harry Burrard, tenente general mais antigo, e segundo commandante das tropas britannicas, afferrou no dia 20 de agosto a enseiada de Maceira, e Wellesley foi immediatamente a bordo conferenciar com elle, e expor-lhe o verdadeiro estado das operações. Sir Harry não formava exacto juizo das forças de Junot, nem sabia apreciar as difficuldades, que podiam oppor-lhe. Ignorava tudo. A tenacidade da resistencia de Laborde na Roliça infundia-lhe receios, e antes de se medir com os francezes quiz ter proximos os onze mil auxiliares de sir John Moore, ordenando a sir Arthur, que se sustentasse no terreno, aonde acampára, e expedindo avisos sobre avisos aos navios fundeados no porto da Figueira para que o desembarque de suas tropas se realizasse nas proximidades da Lourinhã.
As posições occupadas por Wellesley eram seguras e pouco accessiveis. O Vimeiro assenta-se no regaço de um valle banhado pelas aguas do Maceira. Ao norte altea-se em seios sinuosos um ramal de collinas, cortado da parte de leste por uma quebrada rota em largo barranco. A estrada da Lourinhã atravessa por cima dos cabeços d'esta cordilheira passando pelos casaes de Fontanel e da Ventosa. Nas costas do Vimeiro, ligadas quasi as primeiras casas da povoação com suas faldas, ergue-se uma montanha, meio vestida de arvores e matas, meio nua e escalvada. De seu topo annuviado descobriam-se os caminhos e sendas, torcidas em diversas direcções para Torres Vedras. Sobranceira a esta elevação, enlaçando-se os montes, e empinando-se uns por cima dos outros, corre a serrania, a qual em ondulações, mais ou menos asperas, se prolonga quasi a beijar o mar, abraçando do lado de oeste todo o espaço comprehendido entre a margem esquerda do Maceira e a orla da costa.
Seis brigadas ás ordens de Hill, Crawford, Ackland, Nightingale e Fergusson, com as avançadas sobre a estrada de Mafra, guarneciam as alturas com oito peças de artilheria, em quanto as brigadas Anstruther e Fane, com meia bateria de 9 e meia bateria de 6 defendiam a montanha. A cavallaria guardava as bôccas do valle, e um piquete de portuguezes e de _riflemen_ observava a estrada da Lourinhã.
Eis a disposição do acampamento inglez antes das vedetas dispararem os primeiros tiros.
O duque de Abrantes não mandára reconhecer o exercito inimigo, e sabia apenas pela noticia dos destacamentos de cavallaria, que tinham batido o terreno como exploradores, que elle estava reunido no Vimeiro, e que de noite se tinham visto arder tres linhas de fogueiras. A impaciencia natural e a necessidade não lhe consentiram maior informação. Instava com elle tudo para que precipitasse o encontro decisivo. Lisboa, agitada e descontente, podia libertar-se de um momento para outro, sopeando a pequena guarnição que a refreava. Os inglezes tinham tudo a lucrar, e elle tudo a perder com a demora. Em circumstancias assim apuradas, o melhor conselho era combater logo, sem escolher o campo, sem contar o numero.
Suas instrucções foram promptas e audazes. A cavallaria com o grosso da infanteria marchou no dia 20 á noite pelo desfiladeiro, que de Torres Vedras desemboccava no ponto, aonde se bifurcavam as estradas do Vimeiro e da Lourinhã. Aos primeiros clarões do dia 21 Armand d'Aubry, e o capitão Magendie, os quaes em poucas horas de trote rasgado tinham vencido as sete leguas, que os separavam do campo francez, encontraram já os corpos em descanso a legua e meia dos postos avançados de sir Arthur, o qual não inculcava haver-se apercebido ainda de sua visinhança.
Do sitio, aonde as tropas respiravam da rapidez de marcha, ás eminencias por cima da povoação do Vimeiro, encoberta com relevo do terreno, alargava-se uma charneca, toda areia e rochas, que em ingremes pendores baixava por uma parte até ao barranco no fundo do qual se apinhavam os tectos da aldeia de Toledo, e pela outra vinha quasi tocar as bordas do Maceira, cuja corrente preguiçosa scintillava no seu leito, illuminada dos raios nascentes do sol, que já em todo o seu esplendor dourava os cumes dos montes, recortados no celeste azul e transparente, inundando de jorros cada vez mais vivos de luz os terraços e as encostas das montanhas, os valles e os desfiladeiros, aonde as sombras mais tempo luctam com a claridade matutina.
Junot avançou direito ás alturas, com a cavallaria na vanguarda, com a infanteria formada em columnas de duas brigadas, e com a artilheria nos intervallos. D'Aubry recebeu ordem ao mesmo tempo de avisar o coronel do 3.^o provisorio de dragões para que, atravessando a quebrada perto da aldeia de Toledo, se elevasse até ao moinho de vento de Fontanel, e ahi extendesse as filas brilhantes de seus cavalleiros pela corôa dos serros, cortando a estrada do Vimeiro á Lourinhã.
A vista do bello regimento, campeando descoberto no posto, que lhe fôra designado, deu o primeiro signal da batalha.
A manhã rompia serena e clara. Sir Arthur Wellesley, que n'este dia principiou a saír da meia obscuridade para as paginas luminosas da historia, rodeado de um luzido estado maior, mettia o pé no estribo, quando chegaram as primeiras noticias do inimigo. A physionomia do general, placida e firme, não denunciava em nenhuma nuvem os cuidados do commando. D'ahi a pouco a cavallo, silencioso, e attento, todos o viram consultar com o oculo os horizontes nas direcções d'onde deviam surgir os contrarios, enviando de curtos em curtos espaços a todo o galope um ajudante encarregado de suas ordens. O socego profundo da natureza, o riso das plantas ainda frescas dos orvalhos nocturnos, os vôos rasteiros das aves, e os murmurios brandos da corrente, contrastavam com os ruidos do campo, nuncios e precursores da procella, de que a ira dos homens inflammaria em breve aquelles pacificos contornos.
Entre o primeiro sobresalto da presença dos inimigos, e os primeiros rebates interpoz-se longa pausa. De parte a parte os exercitos, como dois luctadores antes de entrarem no circo espreitaram os movimentos um do outro, calculando todas as vantagens.
Antevendo o ataque pela frente e a esquerda de suas posições, sir Arthur destacou para as alturas da estrada da Lourinhã a brigada Fergusson, e logo atraz as de Nightingale, de Ackland, e de Bowes. Em breve a montanha do Vimeiro, em que ha pouco se accumulavam reunidas as forças de seis brigadas, appareceu quasi desguarnecida, não conservando mais que os tres regimentos de infanteria de reserva, confiados á pericia do general Hill.
As tropas portuguezas, ás quaes se tinham aggregado recentemente sessenta soldados de cavallaria da policia, capitaneados por Manuel Coutinho, duzentos artilheiros de Valença, fugidos da praça de Peniche, o coronel de milicias de Leiria, o morgado de Penim, e outros voluntarios, postados a principio no valle, foram logo mandados subir tambem a encosta, para formarem na planura do monte com a brigada Crawford.
O duque de Abrantes acompanhou estes movimentos da esquerda dos inglezes, ordenando as manobras correspondentes.
A brigada Brenier, por ser a mais proxima, adeantou-se em auxilio do 3.^o de dragões, e a brigada Solignac, que seguia em columna a de Brenier, carregou egualmente sobre a direita com seis peças de artilheria. Assim, antes de ferida a peleja, metade das forças britannicas operava na estrada da Lourinhã, opposta a um terço pouco mais, ou menos, do exercito francez; mas a differença era notavel. O movimento de Junot, inopinado e fortuito, deixára grande distancia entre a direita reforçada e o principal corpo do exercito, em quanto os inglezes, pelo contrario, se ligavam concentricamente, não aproveitando menos os cinco regimentos de Bowes e Ackland ao general Fergusson, do que á defeza do Vimeiro, cujo aspecto infundia respeito até aos veteranos pela sua apparencia marcial.
O espectaculo dos dois exercitos, avisinhando-se um do outro, era bello e grandioso. A infanteria ingleza com os seus uniformes escarlates, dragonas brancas de lã, e barretinas largas de couro ornadas de pennachos de varias côres, desfilava a marche-marche cerrando filas, e mettendo em fórma. Duas linhas, cujas oscillações, cessando de repente se converteram na immobilidade da firmeza, postadas nos contrafortes e terraços da montanha, dominavam em amphitheatro as ladeiras aprumadas por onde os soldados de Junot haviam de avançar. Por cima d'ellas, mais atraz, e na rectaguarda das posições, ainda os serros se coroavam de bayonetas. Era a terceira linha extendida pela brigada do general Hill! Os canos luzentes das espingardas, e os ferros de lança dos estandartes scintillavam; as chapas douradas dos capacetes da cavallaria, os peitos de aço e as espadas nuas dos soldados, faiscavam, deslumbrando. De intervallo a intervallo, no cume de um pico mais alto, na cabeça de uma collina mais elevada, reluziam as peças de bronze assestadas, e ainda silenciosas.
O galope dos esquadrões, ennovellando-se a distancia entre rolos de pó, a brava alegria dos clarins, o desafio das trombetas, o rufar dos tambores juntos ás harmonias guerreiras das musicas, ao ondear das bandeiras soltas ao vento, e ao galope dos corseis dos ajudantes e generaes, cruzando a paizagem em todos os sentidos, compunham um quadro animado e vívido, que levava apoz si os olhos e a vontade, incendiando de enthusiasmo os animos mais timidos e indifferentes.
Ia romper-se a batalha. Armand d'Aubry, rodeando com a vista todo o campo, como o falcão paira dos espaços sobre a presa, disse para Lassagne, cujo sorriso parecia convidar os perigos:
--Julio! Dias como este nunca mais esquecem! Olha como os inglezes nos aguardam! Faz gosto vel-os assim de marmore em suas linhas, e saber que a nossa espada fará calar em breve os rugidos d'aquellas bôccas de bronze em que Wellesley confia para nos deter!... Logo verá de que lhe valem!
--Se as calarmos! redarguiu o tenente. Os soldados que alli temos, não se afugentam como guerrilhas.
--Melhor! Quanto mais cara, mais gloriosa será a victoria! Quando mandará o duque romper o baile?! Sinto uma impaciencia!...
--Escutai! Eil-o que principia! atalhou Lassagne. Se a fortuna proteger as armas da França, este dia póde ser um grande dia!
E largando as redeas, os dois partiram a bom correr para o posto, que haviam de occupar, e aonde Magendie e outros officiaes esperavam já por elles.
XI
A batalha