A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes

Chapter 6

Chapter 63,993 wordsPublic domain

--Ignora-se ainda, mas suppõe-se! respondeu o intendente um pouco turvado.

--Quaes são os agentes dos sublevados do norte em Lisboa?...

--Tracta-se de os descobrir, porèm!...

--Não sabeis nada então?

--È verdade. Nada certo.

--Muito bem! Se não sabeis nada certo, se para vós tudo são trevas e ignorancia, tinha razão mr. Luyt. De que serve a policia? De engulir dinheiro e denuncias, e de fazer render os serviços que não faz. Não nos quebreis, pois, mais os ouvidos com os vossos malsins surdos, cegos, immundos, e famintos, e fazei-nos o obsequio de nos deixar discutir em paz.

--Oh! exclamou Lagarde livido e convulso de ira. Tractas-me como se fosse um verme. Sois acaso Napoleão o grande!? Cuidais que hei de supportal-o? Sou magistrado independente, e não recebo ordens, nem censuras senão dos superiores...

--De mais tendes recebido dos inferiores, mas peitas e dinheiro. Até nas enxovias e prostibulos se diz que bateis moeda! Olhai bem para mim! Toda a minha riqueza consiste n'estas dragonas, em cem francos que trago no bolso, e nos copos de prata da minha espada. Não levarei de Portugal senão mais alguma cicatriz, e um nome honrado. Se vos atreveis a asseverar o mesmo, aqui está a minha mão, apertai-a, estou prompto a pedir-vos mil desculpas. Se não ousais!... Sumi nas trevas com os vossos morcegos toda a historia da policia de Lisboa, e não faleis de collo alto aos que vos conhecem e se envergonham de vos têr por compatriota.

Lagarde espumava. Immovel de colera e espanto cada phrase do capitão feria-o no rosto e na consciencia como um açoute. A sua posição era tão falsa e dolorosa, que Herman compadecido quiz pôr-lhe termo.

--Vamos, senhores, exclamou, deliberemos e não questionemos. Hoje os minutos valem horas. Lagarde! Receiais algum tumulto na capital?

--Não. Apezar de contar com pouca força respondo sobre minha cabeça pela tranquillidade de Lisboa, se os inglezes não entrarem.

--E eu respondo sobre a fé e honra de meus canhões, que os inglezes não passam as torres! acudiu Magendie. As minhas proclamações de polvora e bala agradam-lhes menos ainda, do que as suas de papel nos lisongeam a nós.

--Excellente! tornou o ministro do reino. Então por esse lado podemos estar descançados. Mas os inimigos, é provavel, que não queiram perder de todo o lanço, e hão de trabalhar. Dão-me cuidado os inglezes tão proximos, e os odios vivos de toda esta gente.

O general partiu com o melhor das tropas. Novion avisa-me de que a guarda da policia já desertou quasi toda. Só hontem fugiram sessenta soldados. Se acaso se levanta um tumulto repentino, e é facil, com que havemos de contar?!...

Lagarde encolheu os hombros e calou-se. O conde da Ega estremeceu e fez-se mais pallido. Luyt, com a penna suspensa, e os olhos parados atraz dos vidros dos oculos, respondeu a meia voz:

--Com umas segundas vesperas sicilianas!...

--Em que todos seremos assassinados?! interrogou Herman affectando serenidade, porém um pouco tremulo. Meus senhores, parece-me que o caso merece ser examinado. Estou prompto a verter o sangue no campo, pelejando como soldado, mas a idéa de uma affrontosa morte, dos ultrages e supplicios, de que nos ameaça a vingança de uma plebe de canibaes, aterra-me, não o encubro. Confesso mais. Falta-me o valor para a encarar com intrepidez! Lagarde, vamos! Reanimai-vos. Os homens são para as occasiões. Que imaginastes para conter e enfrear o populacho, que murmura, e que o canhão de Wellesley, ou de Cotton póde dispertar e enfurecer?...

--O terror! O reinado do terror! Só o medo póde salvar-nos! redarguiu o intendente sombrio e fitando os collegas.

--O terror?! Renovar as scenas de 1793 em Lisboa? Levantar o patibulo em permanencia?!...

--Sim! O estado de sitio em todo o seu rigor! Não foi já decretado? O verdugo e o cadafalso são a razão extrema da autoridade contra o povo.

--Mas as horrorosas execuções de partidos inteiros, de classes adversas quasi em massa, que nos propondes o que salvaram em Paris? Já vos esqueceu o famoso dia de thermidor?...

--Não! Salvaram a França das armas dos alliados, cobriram as fronteiras de recrutas, que luctaram como veteranos, assegurando o triumpho e unidade da republica. Achais pouco? Reparais nas manchas de sangue?!...

--Dizei nas torrentes, é mais exacto...

--Sim! Mas esse sangue, embora jorrasse innocente muito, confirmou a liberdade, e tornou a França grande, invencivel e temida. Robespierre, Saint Just, e Carrier, os chefes e os proconsules succumbiram afinal, e foram arrastados no rolo furioso da tempestade, desenfreada por elles? A expiação do systema foi o mesmo patibulo aonde o tinham architectado? Que importam tres, ou quatro cabeças mais no cesto da guilhotina, quando tantos resultados abonam a logica inexoravel, que o dictou? Estamos quasi sós no meio de uma nação insurgida e irritada, que a saudade da independencia e de seus principes subleva, que a dor e a ira das offensas exaspera!... Os inglezes bloqueiam-nos por mar, e accommettem-nos por terra! A nossa sorte é vencermos, acabar aqui, ou passarmos por cima de montões de ruinas e de cadaveres. Não temos quartel a dar, nem a receber! Na falta de forças seja o terror a nossa espada! Na falta de todo o apoio seja o cadafalso a nossa força!...

--Para que o sangue das victimas nos afogue? Para que o luto de um povo assassinado macule de eterno opprobrio o lustre de nossas armas?!... exclamou Hermam erguendo-se com impeto, severo, e indignado. Não! mil vezes não! Esse crime inutil, porque apressaria só a nossa queda, fôra a sentença de morte da honra franceza. A civilização, que representâmos, esconderia o rosto de vergonha. O imperio teria de córar deante d'esse anachronismo sanguinario. O anno de 1808 não é o anno de 1793. Podem tental-o; mas eu não lançarei essa grande nodoa sobre mim e sobre a patria. Os vencedores de Austerlitz por meu voto nunca hão de vestir a opa vermelha do carrasco...

--Veremos como os guerrilhas e os sicarios do principe regente vos agradecem! Quando virdes o punhal sobre o coração, ou o trabuco apontado ao peito...

--Poderá tremer no homem o que é fragil, por ser barro e limos, redarguiu o ministro com um gesto de suprema elevação moral, mas a consciencia, ao menos, não ha de accusar-me n'essa hora suprema! Alguns mezes menos de vida não valem o sangue de milhares de innocentes, a infamia do meu nome, o opprobrio da minha memoria.

--N'esse caso, accudiu Lagarde, lavo as mãos de tudo, e não respondo...

--Respondo eu! interrompeu Magendie, que escutava o dialogo havia minutos, e que de pé e silencioso, mas cheio de impaciencia, a custo reprimia a colera. Respondo eu! As taboas de proscripção não hão de aviltar-nos. Somos soldados e temos armas. Se Lisboa se insurgir, os canhões dos meus navios e os machados dos meus marinheiros chegam ainda para varrer, como pó levantado, as espumas da plebe enfurecida e indisciplinada, sr. Lagarde! O reinado do terror, o arremedo das carnificinas de 1793, não se ha de fazer em Lisboa, em quanto uma bala me não varar o coração. Nunca o sangue dos patibulos, que eu saiba, que eu consinta, salpicará as aguias, que beijámos como symbolo da honra... Sei porque lhe occorreu exhumar do arsenal infamado dos dias mais funestos da revolução o cadafalso de Robespierre! Tem mais sede de ouro, do que de sangue, a sua idéa é mais de vingança, de cubiça, do que de medo! Se fossemos agora ao castello de Lisboa, talvez achassemos a explicação do plano, que nos propõe!...

--Sr. Magendie! É a terceira vez que hoje me affronta n'esta casa! bradou o intendente enraivecido, mas pallido de susto deante dos relampagos, que despediam os olhos do capitão.

--Acha? Uma já devia ser de mais! Quer a reparação? Está a minha espada ás suas ordens...

--A sua espada?! Desafia-me?! A occasião podia ser mais opportuna.

--Creia que nunca lhe fiz a injuria de suppor, que podia encontrar um homem no sr. Lagarde. Estava zombando quando falei na minha espada; é arma que não conhece. Se fosse uma mordaça, e fossem algemas?!...

--Senhores! Senhores! Por quem são! accudiu o conde da Ega interpondo-se.

--A minha paciencia, atalhou o intendente, limpando dos labios a escuma, e empregando vãos esforços para vencer a convulsão nervosa, a minha longanimidade não se altera com estas provocações grosseiras proprias de uma educação de tarimba...

--Agradecido pela clemencia, meu fidalgo! redarguiu Magendie, inclinando-se ironicamente. Mas o plebeu, que se levantou da tarimba, e poz estas dragonas présa os brios como um ducado. Quereis saber porque este homem de bem queria fazer de todos nós assassinos, e dos soldados da França verdugos? Eu vol-o digo em duas palavras! Machinou casar a filha de um cavalheiro rico de Mafra com Armand d'Aubry seu sobrinho. A donzella resistiu, e o sr. Lagarde vingou-se accusando falsamente o pae, sepultando-o em um carcere, e dando a escolher á filha a morte d'elle, ou um resgate infame a troco da sua mão e dos seus bens! Encontrou duas almas nobres; Aubry rejeitou o pacto; a filha não se quiz vender para salvar a velhice de um militar, deshonrando-lhe os cabellos brancos... O sr. Lagarde não se deu por vencido, e trabalhou para si. A esta hora achar-se-ha um agente seu na prisão do cavalheiro, que se chama Paulo de Azevedo, e ha de já ter-lhe intimado a decisão final de pagar trinta contos de réis até ámanhã, ou de ouvir a sentença de um conselho de guerra, e de aparar no peito as balas de um pelotão na praça do castello! Eis o verdadeiro motivo do santo zelo que o inflamma. O reinado do terror sería para elle uma chuva de ouro, ou de sangue, segundo a docilidade das victimas!...

--Calumnia! Infame calumnia! exclamou Lagarde branco e tremulo de colera.

--A accusação é grave, sr. Magendie! observou Herman, que se poz em pé assim como os collegas, e que leu no rosto demudado do intendente, apezar de todo o cynismo d'elle, vehementes indicios da culpa. Veja o que acaba de asseverar! Allude a um magistrado, a um homem que mereceu a confiança do imperador. Provará o que affirmou?

--Se houver alguem que ouse repetil-o deante de mim, interrompeu Lagarde suffocado, consinto que me condemnem!

--Acceito! disse Magendie. Ouvirá a confirmação da verdade, e de uma bôcca insuspeita. Aubry!...

A porta abriu-se, e Armand appareceu aos umbraes, pallido e resoluto.

--Meu tio, disse depois de saudar o conselho com uma cortezia, jurei-lhe que seria punido se não remediasse o mal, e aqui estou para cumprir a promessa. Na presença de Deus e dos homens, por alma de meus paes, assevero e juro que o capitão Magendie disse a verdade e só a verdade! Agora, que deante de vós, e de todos os que me escutam prestei testemunho á consciencia, curvae a cabeça, e arrependei-vos, porque, por vossa propria bôcca estais condemnado!

O tom, em que Aubry falou, inculcava maior tristeza, do que ira. Lagarde petrificado deixou pender a fronte e murmurou:

--Tambem tu, Armand!...

--Fiz o meu dever. Sois irmão de minha mãe, mas da herança de meu pae, o que acima de tudo préso é a honra do nome, e essa, já vol-o tinha dito, hei de sepultal-a commigo pura no campo da batalha, aonde posso caír e morrer hoje, ou ámanhã! Meus senhores, adeus. Pedí a Deus que exalte as nossas armas!

Ditas estas palavras saíu sereno e grave, deixando todos pasmados e silenciosos.

IX

O pae e a filha

--Trinta contos! É um sacrificio grande, bem sei, mas a vida e a liberdade valem mais. As provas estão em nossas mãos. Se as abrirmos, o conselho de guerra ámanhã...

--Condemna-me á morte?!...

--Sem duvida nenhuma. O capitão de mar e guerra Magendie, nomeado para o presidir, passa por severo e intractavel. Os outros officiaes, sobre tudo mr. Etienne, estão resentidos, e entendem que um exemplo é indispensavel...

--Bem! E o capitão Magendie e os outros officiaes sabem o que me propõe?

--Deus nos accuda! Pois isto são segredos de chocalheiros?! O que lhe estou dizendo ficará entre tres pessoas. O senhor Lagarde, o senhor Paulo de Azevedo, e eu. Vamos! Decida-se. O tempo vôa. O conselho reune-se ámanhã ás nove horas do dia, e esta noite hão de ser-lhe presentes, ou negados os documentos.

--Uma palavra ainda! Leonor sabe?...

--Para que a haviamos de affligir? A sr.^a D. Leonor, como boa filha, ha de achar tudo justo e rasoavel; mas se for preciso...

--Pois senhor... Quer dizer-me o seu nome?

--Simão... Simão basta.

--Pois, sr. Simão, a minha resposta é simples. Não acceito. Estamos em Portugal, e não nas roças do Brazil. Sou innocente, nunca tive medo da morte, e não compro por nenhum preço esses curtos e attribulados dias, que ainda posso viver. Diga isto a quem o mandou.

--Veja! Medite! Olhe que depois não tem remedio.

--Vejo a infamia, e não me admira. Tractam-nos como captivos, e pedem-nos o resgate? O meu, ao menos, não hão de leval-o d'aqui. Antes as balas dos inimigos da minha patria no peito, do que atirar um real ás mãos immundas dos falsos magistrados, que vendem o sangue.

--Ha de arrepender-se.

--É commigo. Não se incommode a convencer-me.

--Mas a sr.^a D. Leonor?!...

--É filha de soldado. Poupe-lhe a sua piedade. Não gaste mais em vão um tempo precioso; talvez ache em outra parte alguem mais docil. Lance a derrama, colha na rêde o que apanhar, mas, por Deus! livre-me da sua presença e das suas propostas. Está-me fugindo a paciencia por instantes!...

--A sr.^a D. Leonor vem ahi...

--Minha filha?!...

--Sim. Vem vêl-o, e despedir-se talvez. Sabe o que o ameaça. Foi avisada. Dou-lhe uma hora para a abraçar e falarem. Póde revelar-lhe a minha proposta. Aqui volto logo...

--É escusado. Tenho uma palavra só.

--Não importa. Deixe! A firmeza inspira-me interesse. Gosto dos homens da sua rijeza. Seria pena se!...

--Se eu me não quizesse comprar por trinta contos?...

--É verdade. O que são trinta contos para um cavalheiro rico?

--Nada! São sómente uma infamia e uma covardia. O senhor Simão acha natural, e não era de esperar outra coisa; eu unicamente sinto ter as mãos atadas, e não poder estampar a resposta nas faces do villão que me suppoz capaz de tal deshonra. Queira sair!

--Não tenha esse genio! Não lhe levo a mal o desafogo. A gente quando se entala doe-lhe e grita, mas depois vem a reflexão...

--Saia! Não vê que me faz horror e asco?

--Jesus! Que palavras! Eu saio, eu saio! Não se escandeça. Socegue! O que lhe estou dizendo é para seu bem. Até logo! Abrace sua filha, lembre-se de que tudo tem remedio, menos a morte, e caia em si. Acha cara por trinta contos a protecção que lhe offerecemos?! É a vida, é a liberdade!...

Estas palavras foram já ditas de fóra da porta chapeada da prisão. Um impeto de Paulo de Azevedo apressou a retirada do mellifluo procurador das veniagas da policia. O agente, cujos modos e indole de certo denunciou logo ao leitor o dialogo, que acabàmos de escutar, seria homem de cincoenta annos. Baixo, livido, e anafado, com uma cabelleira cravada até á testa, uma pala verde deante dos olhos, e um tom aflautado e mavioso, pertencia áquella especie de algozes, que abraçam a victima com o riso nos labios, e que a dilaceram, consolando-a com phrases dulcissimas.

Mas a physionomia abjecta e repugnante não podia enganar ninguem. A providencia traduzira fielmente em suas feições ignobeis a perfidia e a traição. Aguazil promovido por mil torpezas á jerarchia de espião em chefe e de confidente de Lagarde, vociferava contra sua maldade até a plebe dos malsins, seus humildes subditos. As lagrimas e os tractos eram para elle um prazer suave; e armado de dentes até o umbigo, a sua avidez insaciavel, mas inventiva, achára artes de devorar até a pobreza e a miseria, tornando suas tributarias as enxovias, as galés, e a prostituição.

Nunca Paulo d'Azevedo alcançára sobre si maior victoria, do que reprimindo os accessos de colera, em que por vezes o sangue lhe subiu ao rosto, e abstendo-se de corrigir, alli mesmo, e por sua mão, o emissario descarado da venalidade do intendente geral da policia. A lucta custou-lhe, porém, esforços, que depois lhe quebraram o animo. Leonor, entrando, assustou-se de o ver sentado, ou antes prostrado, com o rosto entre as mãos, e a alma e o coração tão trespassados, que de desfallecimento quasi havia perdido todo o accordo. Para o despertar do lethargo doloroso foi necessario, que a mão delicada e a voz affectuosa da filha despertassem a ternura em seu peito quasi insensivel á força de oppressão.

--Meu pae! Meu querido pae! exclamou a donzella, cingindo-lhe os braços ao collo, e beijando-o extremosa e arrebatada.

--És tu Leonor! Minha Leonor! Ai filha! Que saudades e que tristezas desde que nos separámos!

--Então! São trabalhos com que Deus quer provar a nossa resignação. Louvemos a sua bondade e confiemos na sua justiça.

--Nunca duvidei d'ellas. Submisso e conforme com a vontade do Altissimo espero que Elle disponha de mim. Já sabia que vinhas, que te davam licença...

--Disse-lh'o aquelle homem de preto, que saiu, quando entrei?...

--Disse. E nunca os ferros me pesaram tanto como ha pouco. Não imaginas o que elle me propoz?!...

--Da parte de Lagarde? Adivinho! Um casamento para mim?!...

--Um casamento para ti?! bradou Paulo erguendo-se convulso. Pois o infame atreveu-se a pedir a tua mão?...

--Tranquillize-se, meu pae, não era para elle. N'esse ponto ao menos fez-me justiça, accudiu a donzella sorrindo.

--Então para quem?

--Para um sobrinho seu, Armand d'Aubry, militar, moço, e digno de estima pelas qualidades.

--E tu? interrogou o pae, fitando-a.

--Respondi que não! redarguiu Leonor serenamente. Como a minha mão era o pretexto de um resgate, e o que Lagarde cubiçava eram os meus bens, offereci-lhe os que herdei de minha mãe em troca da vossa liberdade.

--Fizeste mal! disse o cavalheiro severo, mas commovido. E o sobrinho, esse Aubry, tão vil como o tio, extendeu logo a mão, e acceitou o preço? Vens pedir o meu consentimento?!

--O sobrinho, meu pae, alma grande e nobre, tudo, rejeitou a minha mão e os meus bens, redarguiu a donzella.

--Ah! Tanta generosidade em um francez!... Espanta-me! Acaba!

--Tenho concluido. Aubry pediu-me perdão da vileza do tio, e jurou proteger-nos...

--De graça? Duvido! Verás que não! insistiu Paulo, meneando a cabeça com ar incredulo. Representou um lance de theatro, talvez ensaiado em casa para figurar de homem de brios, e a esta hora estará rindo-se com Lagarde da tua simplicidade em o acreditar.

--Não julgo, meu pae, que se ria de mim com Lagarde, porque rompeu com elle.

--Apparencias!

--Verdades! E a prova é que se Manuel Coutinho, o coronel de milicias de Leiria, e muitos outros não gemem hoje em uma prisão, á generosidade de Aubry o devem.

--Ah! Conta-me essa historia. Quero sabel-a.

Leonor expoz-lhe então os successos, que o leitor já conhece, e terminou manifestando a sua confiança nas promessas do official francez.

--É um procedimento nobre! Quasi que tenho pena que a acção fosse de um francez. Não gosto de dever a inimigos. Não importa. De hoje em deante esse mancebo é sagrado para nós como um parente. Agora, Leonor, chega-te mais para mim. Quero ver-te mais de perto. Estás pallida, muito pallida, mas fica-te bem. Cada vez mais linda! E havia de um estrangeiro levar-me a joia da minha alma por uns mezes mais, ou menos de velhice cansada?! És o retrato de tua sancta mãe--não nos olhos!--os teus são mais pretos e formosos e os cabellos tambem! Senta-te aqui nos meus joelhos. Agora um beijo, muitos beijos!... Ha tanto tempo que te não via, filha! Não imaginas como a tua falta me fazia velho! Dize-me, ajuntou com um sorriso humido das lagrimas, que estavam a saltar, e os amores, como vão os nossos amores? Manuel Coutinho adora-te como tu mereces, não? É sempre escravo dos caprichos da sua noiva? Quero saber tudo!...

--Meu pae! accudiu ella córando cheia de rubor, e escondendo a face no hombro do ancião.

Por isso mesmo, porque sou teu pae, é que pergunto. Bem! Bem! Se Deus quizer hão de ser muito felizes ambos! Mas disseram-me que vinhas despedir-te...

--Despedir-me?! exclamou a donzella sobresaltada. Despedir-me porque?! A condessa da Ega alcançou-me licença para entrar aqui, e vim logo. Sabe as noticias, as grandes noticias que ha, e que já são certezas?

--Não sei nada, filha. Não falo senão com os guardas, que são francezes, e bem vês...

--Que hão de encobrir tudo. Pois ouça. Tenho muito que lhe contar. Alegre-se, e diga se não tenho razão de lhe pedir alviçaras.

A narração feita pela donzella com as mãos entre as do pae, com os lindos olhos accesos em enthusiasmo, e fitos nos d'elle, e com o rosto inflammado nas risonhas côres da esperança, a pouco e pouco foi communicando a Paulo de Azevedo o ardor e o jubilo, que exaltavam aquelle animo juvenil. Suspenso dos labios queridos da filha, quando ella lhe pintou a insurreição de Traz-os-Montes, o cavalheiro não poude conter-se, que não exclamasse:

--Ah! Sepulveda! Que invejas hão de ter muitos mancebos aos teus oitenta annos!...

Quando lhe descreveu o Algarve, Coimbra, Leiria, e o Alemtejo sublevados, e desafiando com as armas na mão a pericia dos francezes, o antigo official, levantando-se, e córando de prazer, bradou:

--Portugal! Julgavam-te morto, e até queriam rasgar e repartir entre si a tua mortalha?! Bom é que lhes mostres que vives, como viveram nossos antepasados. Aljubarrota, Valverde, o Canal, e Montes Claros foram a licção dos invasores de hontem, assignala o teu valor em novos campos de batalha para terror e castigo dos invasores de hoje! Continúa, Leonor!

A amante de Manuel Coutinho, proseguindo, contou-lhe a chegada e o desembarque de sir Arthur Wellesley, a marcha do exercito nacional ás ordens de Bernardim Freire, o combate da Roliça, e a saída de Junot ao encontro das tropas britannicas.

--Louvado sejaes, Senhor, pela grandeza insondavel de vossa justiça! exclamou o ancião, inclinando reverente a fronte, e erguendo as mãos. Do grão de areia formaste a montanha, que se levanta contra os soberbos, dos fracos e desamparados compões a força, que ha de subjugal-os. Leonor! Junot será vencido! Diz-m'o o coração, diz-m'o a vontade do céu manifestada em tantos prodigios. Ditosos olhos os que virem romper a aurora do grande dia da nossa liberdade, que já sinto proximo!

--Então, meu pae, não lhe dizia eu, que o nosso captiveiro estava a findar por pouco?!

--O teu, filha, o da patria, e ainda bem! O meu!...

--O vosso tambem. Porque não?! accudiu ella, abraçando-o.

--Talvez acabe mais cedo mesmo! Quem sabe! Não importa. No fim de tudo?! murmurou comsigo. Possa o meu sangue, como expiação, lavar as ultimas nodoas da culpa, por que este reino foi castigado!

--Senhor Paulo! Passou a hora! O que me diz? Está mais socegado. Volveu á serenidade que tão bem lhe fica?

Era a voz aflautada do agente de Lagarde, cuja cabeça de reptil se arriscava, toda olhos e ouvidos, por entre a porta aberta sem ruido. O cavalheiro estremeceu e descórou. Cresceu-lhe a ira, e investindo contra elle obrigou-o a desapparecer. Um clarão sombrio, que faiscou ao mesmo tempo de suas pupillas, exprimiu toda a sua raiva.

--Ah! bradou elle. Ainda este homem aqui!...

--Quer que entre? perguntou o delator sempre escudado com a porta.

--Entre! Leonor, és filha de militar. Tens animo e constancia, bem sei. Ouças o que ouvires, não te assustes, não digas uma palavra.

Voltando-se para o confidente da policia, cujo sorriso oleoso parecia grávido de mysterios e de insinuações, accrescentou depois:

--Veiu propor-me ainda agora, que eu comprasse a minha vida por trinta contos. Já lhe respondi, e repito deante de minha filha: se estivesse solto, seu amo pagaria a affronta, a que teve a covardia de se atrever contra um preso! Captivo, e em poder de inimigos, tenho só livre a alma para protestar, e para dizer que prefiro mil vezes a morte á infamia de pesar o meu sangue a ouro nas balanças iniquas de um salteador e de um espião. Póde sair!