A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes
Chapter 5
A posição de Junot não podia ser mais precaria nem arriscada. Os seus vinte mil soldados, repartidos pelos presidios e hospitaes, entre o paiz irado, que não lhes concedia quartel, e que os assaltava de todas as partes, entre os treze mil inglezes, que seguidos de perto por outros vinte mil de sir John Moore e de sir Hew Dalrymple, entre o bloqueio das esquadras britannicas, no mar, e a aggressão violenta, em terra, do odio armado de tres milhões de habitantes, achavam-se limitados á capital e ao territorio, que pizavam, sentindo fugir tudo debaixo dos pés, sem esperança de auxilio, sem caminho aberto á retirada.
O duque de Abrantes mostrou-se digno dos feitos heroicos, que ennobreceram a sua carreira.
Adoptando as providencias, que o aperto aconselhava, e tomando Lisboa por base de operações, cuidou logo em concentrar o numero necessario para arremessar as tropas britannicas vencidas e escarmentadas outra vez ás aguas.
Não lhe sobrava outro recurso!
Havia de atravessar duzentas leguas por terrenos montanhosos, com alguns rios caudaes a vadear, e populações insurgidas a disputar-lhe o passo, renovando a temeridade de Xenophonte e dos dez mil, ou tinha de sair ao encontro dos inimigos, feril-os de espanto pela rapidez dos golpes, e anniquilal-os, tornando-lhes funestas pela grandeza do desastre, as praias que buscavam! Junot optou pelo ultimo arbitrio. A execução, porém, não correspondeu ao que exigiam imperiosamente as circumstancias.
Mandou sair o general Laborde para observar os inglezes, e atalhar o progresso de sua marcha. Chamou de Almeida Loison, e determinou-lhe o itinerario. Finalmente reuniu e organizou na capital todas as reservas, disposto a confiar a sorte da invasão ao atrevido lance de uma batalha. Accusam-n'o entretanto de não ter sabido attrahir a victoria.
Laborde partiu a 6 de agosto á frente do regimento 70.^o, de dois esquadrões do 27.^o de caçadores a cavallo, e de cinco peças. Thomiéres, que defendia Obidos e Peniche com o 2.^o ligeiro, e um batalhão do 4.^o de suissos, havia de unir-se-lhe em Alcobaça no dia 11. N'esse mesmo dia chegava Loison a Thomar, contando-se que a 14 ou a 15, o mais tardar, se acharia em Alcoentre para coadjuvar seus companheiros de armas.[1]
Laborde era official distincto pela intrepidez e aptidão. Avisado de que as tropas britannicas e portuguezas estavam em Leiria, a poucas horas sómente das suas, retirou a 14 sobre a Roliça, legua e meia atraz, reforçando a guarnição de Peniche com o 4.^o batalhão de suissos, postando em um moinho sobre a esquerda do Arnoia outro batalhão, e estendendo até ao Cadaval e Bombarral tres companhias do 62.^o para darem as mãos a Loison, o qual não devia demorar-se.
Sabendo os francezes do outro lado da Serra de Minde, conservou-se o exercito do general Bernardim Freire em Leiria apezar das instancias de sir Arthur. Este, não recebendo dos nossos mais do que o auxilio de mil e quatrocentas bayonetas e duzentos e sessenta cavallos, proseguiu apezar d'isso o movimento offensivo. No dia 14 aquartelou-se em Alcobaça, e no dia 15 dormiu nas Caldas. Um combate entre as suas avançadas e o batalhão francez postado junto do moinho sobre o Arnoia, advertiu-o da proximidade dos soldados de Napoleão. Fiel ao seu caracter circumspecto, deteve-se até ao dia 16, talvez indeciso por falta de informações.
Da Roliça ás Caldas medem-se tres leguas de distancia. As duas povoações campeiam nos extremos, norte e sul da vasta bacia, rasgada ao oeste, no meio da qual se ergue a villa de Obidos, notavel pelo aqueducto e pelo castello mourisco. A estrada de Lisboa cortava uma planicie arenosa até á Roliça, aonde um ramal de collinas se destaca da serra principal, correndo limitado por um ribeiro até á Columbeira. Ao primeiro volver de olhos dir-se-hia que findavam alli todas as communicações. A estrada perdida em um desfiladeiro sinuoso e estreito quasi que desapparecia da vista, não principiando a alargar-se, senão passada a Azambujeira dos Carros. Laborde occupava a planicie desde a Roliça até poucos metros adeante da Columbeira.
No dia 17 de agosto, ás nove horas da manhã, um tiroteio nos postos da direita deu o primeiro rebate da visinhança dos inglezes. Eram elles, de feito, marchando em numero de perto de onze mil, com a disciplina e serenidade que lhes grangeou os louros depois festejados em toda a guerra da Peninsula.
As tropas de Laborde, na maior parte recrutas quasi imberbes, nunca tinham entrado em fogo. A vista marcial d'aquelle exercito, que avançava silencioso, detendo-se a espaços para reformar as filas rotas pelos obstaculos do terreno, e continuando depois, firme e ordenado, como se houvesse de figurar em uma parada, por força havia de commover e sobresaltar soldados bisonhos, que apenas contavam dois mil e quinhentos homens, comprehendidas as tres companhias destacadas sobre a direita.
Laborde não esmoreceu. A planicie, attendida a desegualdade de forças, não podia defender-se. Cedendo á necessidade mandou então guarnecer as fortes posições situadas nas costas da Columbeira pelo regimento 70.^o, em quanto á testa do 2.^o ligeiro da artilheria, e da cavallaria, cobria a entrada do desfiladeiro, transportando assim o theatro da lucta com mais favoraveis condições.
Executou-se a evolução com celeridade e na melhor ordem. As novas posições dos francezes, quasi inaccessiveis, offereciam aos inimigos cinco barrancos em rampas asperas, afogadas em murtas, sargaços e arbustos alpestres. Wellesley, da sua parte, tambem não hesitou, mandando atacal-a formando em cinco columnas. O combate feriu-se e durou quatro horas. O valor das duas nações, travadas afinal corpo a corpo no continente, ostentou n'elle todos os brios. Trepando as encostas debaixo de uma chuva de balas deixando em cada passo vestigios do sangue vertido, e semeando de cadaveres o terreno conquistado, os inglezes chegaram a coroar uma vez de seus estandartes a crista das alturas; mas a furia guerreira dos legionarios de Bonaparte, avivada pelo exemplo dos chefes, depressa transformou para os soldados de Wellington o meio triumpho em desastroso revez. Precipitados nas pontas das bayonetas pelo impeto irresistivel dos contrarios, atropellados uns sobre os outros na descida, ou antes na queda, os alliados despenharam-se, como torrente que maior torrente impelle, até á planicie, espiando os jubilos momentaneos e o ardor temerario.
Assim mesmo o leopardo britannico, recuando, levou nas garras provas palpaveis das perdas irreparaveis dos adversarios. Mais de quinhentos francezes, prostrados no campo, mortos ou feridos, attestavam qual fôra de parte a parte a braveza do encontro. Ao mesmo tempo a vista penetrante de Laborde, seguindo a marcha das duas columnas, que sir Arthur tinha enviado desde o começo da acção para lhe tornear as posições divisou a do major-general Fergusson já proxima da Azambujeira. Fôra loucura insistir mais. A retirada principiou.
Á testa dos melhores soldados, Laborde repellia os inglezes, detendo-os por meio de descargas á queima roupa, soltando sobre elles o galope fogoso dos caçadores a cavallo, ou arrancando nos gumes dos ferros de seus recrutas, tornados veteranos, os atiradores britannicos, a cada instante dispersos, e quasi acossados até debaixo do fogo das grandes massas, que os protegiam. O terrivel estampido e os pelouros dos dezoito canhões de Wellesley não calaram senão tarde o fogo das cinco peças do general francez. Nem um instante o passo firme e seguro de seus batalhões se accelerou deante do perigo a cada instante mais terrivel. Fazendo alto para reunir as tres companhias destacadas sobre a direita só entrou em Runa depois de as unir a si, conservando até ao fim a mais inabalavel firmeza.
Foi um nobre e formoso espectaculo este prologo curto, mas heroico, da guerreira epopeia, cujas paginas a gloria havia de inscrever nos muros voados e nos campos assolados de Portugal e da Hespanha. Armand d'Aubry, sempre ao lado de Laborde, de Brenier, ou de Arnaux, assimilhava-se áquelles semi-deuses de Homero, que petrificavam legiões inteiras pelo terror do seu braço. Voando na frente dos mais ousados por entre os clarões das bôccas de bronze a vomitarem ondas de metralha, envolto em fumo, e cuspindo de si invulneravel os pelouros dos fuzis, como o leão africano cospe as frechas encrespando a juba, o mancebo, multiplicando-se, apparecia em toda a parte, e em toda a parte a sua presença, similhante ao furacão das batalhas, rasgava largas brechas nas fileiras contrarias.
Mil vezes a morte, desafiada em poucas horas, não se atreveu a tocal-o; e contemplando o sorriso, que lhe brincava nos labios, quando a um grito d'elle o esquadrão levantava comsigo tempestades de ferro e de fogo, dir-se-hia, que, para este homem, verdadeiro centauro, as rapidas e pungentes commoções, e a brava alegria das pelejas eram um prazer, uma sensação deliciosa, um enlevo!
Manuel Coutinho, que as ordens de Wellesley prendiam junto do estado-maior, admirando de longe a valentia radiosa do moço official, invejou-lhe em mais de um rasgo a galhardia, tremendo ter de lhe chorar a queda.
Quando a noite, descendo, envolveu em seus veus a agitada scena, em que gemiam tantas dores, e em que tantas victimas agonizavam, o amante de Leonor ainda por entre as sombras avistou na ultima carga o sobrinho de Lagarde, rodeado do relampaguear de cem fuzis, arremessando contra elles o peito do cavallo. Como se a fadiga de um dia inteiro fosse repouso para elle, invencivel nos arções, d'Aubry assignalava o cruento caminho da retirada com o afuzilar tremulo da espada por entre clamores dos que o fogoso corsel calcava aos pés!
As aguias feridas principiaram alli a encolher as azas e os vôos. O sol ardente da Peninsula, cegando-as, precipitou-as palpitantes dos ninhos sobre as rochas vivas da terra, que suppunham escravizar para sempre!
Em quanto a guerra erguia na Roliça o primeiro padrão de uma lucta, que havia de ensanguentar por annos as Hespanhas, Junot procurava realçar com as pompas officiaes os derradeiros dias do seu dominio.
O anniversario de Napoleão foi solemnizado pomposamente, e os cortezãos da fortuna, um pouco desmaiados com as noticias do desembarque dos inglezes e da sublevação das provincias, ainda ouviram da bôcca do general em chefe promessas e illusões de conforto, que, se não os tranquillizaram, lhes minoraram ao menos as apprehensões. Herman engulia o sorriso, parecendo despedir-se com os olhos da bella capital, pela qual já ia quasi esquecendo a patria. Luyt, preoccupado, expedia ordens, meneando a cabeça com tristeza. Finalmente, Lagarde, sombrio e taciturno, recolhia-se como Pythagoras atraz da cortina mysteriosa do seu antro, e, prevendo a catastrophe, arrependia-se de não deixar aos portuguezes ainda mais pesadas memorias da sua administração. Assim mesmo o paço de Queluz lembra-se bastante d'elle!
O duque de Abrantes partiu para o exercito, depois de concertar com o general Thiébault, seu chefe de estado maior, as ultimas disposições da breve campanha, que iam encetar. O rosto de Junot disfarçava mal o receio de que a sua ausencia apressasse a explosão dos sentimentos mal comprimidos da capital. Desguarnecida a cidade, podiam as naus britannicas forçar a barra, e os habitantes vingar em uma hora a aversão e offensas de muitos mezes. Aos cuidados do governo juntavam-se no animo do general em chefe outras magoas, talvez mais pungentes. Os formosos olhos, que lhe sorriam no meio do esplendor, ser-lhe-iam fieis na adversidade, ou bastaria um revez para lhe roubar com os prestigios do poder corações, que tinham jurado amal-o sempre até á morte?!...
Mas a voz do dever chamava-o; foi obrigado a obedecer. A 15 de agosto, á noite, marchou á testa do regimento de granadeiros, de um batalhão do 82.^o, do 3.^o provisorio de dragões, e de uma bateria de dez peças. Parou em Villa Franca, e a 17 seguiu vagaroso na direcção do Cercal, quatro leguas distante da Roliça, aonde o despertou o echo amortecido do canhão disparado no primeiro campo da batalha d'esta guerra.
Deixemol-o rodear-se de exploradores, e estimular com suas ordens cheias de instancias a marcha de Loison e de Thiébault, para não arriscar a lucta senão com todas as forças reunidas contra sir Arthur Wellesley. Transportemo-nos no emtanto e sem demora do Cercal e Torres Vedras ao palacio do Rocio, e entremos na sala do conselho, aonde deliberam os membros do governo. O que então se passava alli não era menos curioso e importante, do que o que occorria debaixo da barraca do quartel general nas vesperas da acção decisiva, que se planeava.
Em ambos os theatros o dedo da Providencia escrevia em lettras de fogo a sublime palavra de Deus, suprema consolação dos que padecem, terror infinito dos oppressores!
VIII
Ralham as comadres descobrem-se as verdades
Voltemos á mesma sala, onde assistimos ha dias nos paços da Inquisição ao conselho de governo, presidido pelo duque de Abrantes. As figuras, que vamos encontrar, são ainda as mesmas. Só falta o general em chefe já a caminho para se collocar á testa do exercito.
Á direita da sua cadeira vazia, senta-se o conde da Ega, nomeado conselheiro do governo, e encarregado da pasta da justiça por decreto de 1 de julho, em virtude da demissão do Principal Castro. Á esquerda, mas de pé, e com indicios evidentes de summa agitação, está Lagarde, não só pallido, mas verde de bilis concentrada, todo convulso, e amarrotando com grande ira um papel entre as mãos. Francisco Antonio Herman, sempre apurado no trajo e primoroso nas joias e galas pessoaes, corre pela vista, quasi sem a ler, uma folha coberta de algarismos, resumo pouco agradavel do ultimo balanço do erario. Luyt, com a barba quasi em cima da mesa, e os oculos assestados, faz voar a penna em linhas miudas, enchendo varios diplomas e interrompendo-se com frequencia para menear a cabeça em ar de hesitação, ou para espreitar por baixo dos oculos a posição e os modos das pessoas, que o rodeiam.
Dois personagens mais completam o quadro. O primeiro é o capitão Magendie, de grande uniforme, passeando silencioso, e medindo o aposento em largas passadas de um a outro extremo. O segundo, que apresentâmos ao leitor pela primeira vez, chama-se mr. Juffré, merece a reputação de estelionario, que o flagella, passa com razão pela harpia mais ávida de todo o bando de abutres, que espicaçam o corpo quasi moribundo de Portugal, e honra-se e faz vida essencialmente de ser cunhado de um general.
No momento, em que entrámos, a discussão, acalorada, tinha-se interrompido de salto com a chegada de Lagarde, o qual rebentára do antro da policia grávido de cuidados, de apprehensões, e de pessimas noticias. Apenas acabou de balbuciar o prologo da elegia dos infortunios consummados e das desgraças imminentes, alguns dos ministros, como petrificados, sumiram-se nas cadeiras, pozeram a vista no chão, ou cairam n'aquellas sombrias meditações ácerca da fatalidade, de que o vulto dramatico de Hamlet é a personificação sublime.
O menos sensivel na apparencia aos revezes e receios era Herman. O sorriso, é verdade, tornou-se-lhe contrafeito, as faces desmaiaram um pouco, e o brilho das pupillas esmoreceu visivelmente; porém nenhum outro symptoma accusou n'elle enleio, ou perplexidade. Magendie, official intrepido, mas pouco affeito a dissimulações diplomaticas, tinha exhalado a primeira explosão de colera, descarregando uma punhada furiosa sobre o bofete, e ornando o gesto violento de uma rajada de pragas maritimas de sabor alcatroado excessivamente forte para o paladar e delicadeza nervosa do auditorio. Partiu depois direito á parede de fundo da casa, encetando o passeio peripatetico, annotado de murmurios surdos, em que viemos colhel-o.
O ministro da guerra e da marinha, o incomparavel Luyt, vivia em um resfriamento perenne, e era quasi impossivel concluir cousa alguma da expressão apathica e insignificante, por calculo, do seu rosto immovel e descorado. Escrevia, olhava, tornava a escrever, sacudia o arieiro, e sobretudo não perdia palavra, nem movimento dos collegas. Dir-se-hia um automato funccionando em quanto lhe durava a corda. Quem não queria, nem sabia enganar o observador menos perspicaz era de certo o conde da Ega. O honrado fidalgo retratava no semblante, sem o menor disfarce, a tragedia do partido, que tinha abraçado. Ignorâmos se começára já para elle o arrependimento, e se lamentava a docilidade, que o fizera mais francez, do que alguns ministros de Napoleão; mas ousâmos asseverar que as faces jaspeadas de malhas lividas, o luto das feições contraídas, e o profundo desalento, que respirava a sua mudez glacial, exprimiam uma grande agonia moral, e equivaliam a um bilhete de pesames aos protectores, e a uma certidão de obito passada á causa imperial na Peninsula!
Finalmente mr. Juffré, especie de peão fidalgo da côrte do duque de Abrantes, verdadeira, mas rachitica estatua de Nabuco invertida, com bases de prata, e cabeça de barro, ora sobre um pé, ora sobre o outro, recuava, pulava, e adeantava-se em saltinhos de pulga industriosa, com o chapeu na mão direita, a bengala na esquerda, e dois lenços ricamente bordados e almiscarados a rebentarem pelos bolsos da casaca côr de pinhão.
Um risinho amarello, meio enfiado, tremia-lhe nos cantos dos labios, delgados e sumidos, revelando indiscretamente, que aquella bôcca voraz, era rasgada, como a do tubarão de orelha a orelha. O nariz expansivo e recurvo, como bico de ave da rapina, quasi que arremettia com os beiços, invadindo-os; e os dentes finos, juntos, e agudos, assimilhavam-se a duas serras parallelas.
Anão de estatura, enfeitado como uma imagem, recendente a aromas como um pivete, dir-se-hia a alma do Judeu de Veneza no estojo dourado de um pintalegrete de quarenta annos! As luvas estalavam-lhe nas mãos, os calções modelavam o algodão que chumaçava as coxas, e a meia de seda exgotava os poderes da elasticidade para não trahir, abrindo-se, o segredo da perna artificial d'este Nemorino em edição correcta.
A testa immensa e esguia, como que escorregava para a nuca, acabando aonde principiava o chinó, que, forcejando por ser louro, sahira, comtudo, quasi alaranjado, arqueando as sanefas graciosas do mais vistoso topete. Os olhos azues, da tinta das más porcelanas japonezas, volviam-se cheios de vivacidade, armando ciladas quasi constantes á formosura, ou á riqueza, duas conquistas em que seu dono os empregava com summo gosto. N'este momento, um véu de inquieta tristeza assombrava a sympathica physionomia de mr. Juffré. A vista penetrante e obliqua do homunculo estava de sentinella á leitura, de que o ministro Herman se distraía a miudo, e inculcava ao mesmo tempo a desconfiança, e a cubiça luctando com o medo e a avareza.
--Emfim! exclamou por fim Herman, sorvendo com pausa uma pitada. Até que temos os inglezes á porta!...
--Diga dentro de casa, e quasi senhores d'ella, que diz a verdade! redarguiu Lagarde meio suffocado. Ouçam o resto. Ainda não li tudo. Vejam como Wellesley e Cotton rematam a proclamação: «O nobre esforço contra a tyrannia e usurpação da França será sustentado pelas forças unidas de Portugal, Hespanha e Inglaterra; e para o exito feliz de causa tão justa e gloriosa os designios de sua magestade britannica são eguaes aos que nos animam»... Ah! proseguiu animando-se, os traidores sabem que nos achâmos sobre um barril de polvora, e lançam fogo ao rastilho, calculando pelo relogio a hora de nos fazerem voar!...
--Mas a policia apanhou de certo os agentes, e arrancou as proclamações? accudiu Luyt sem levantar a cabeça, nem a penna do papel, e com a accentuação fria e nasal, que lhe era propria.
--A policia, senhor Luyt, atalhou o intendente colerico, fulminando o ministro com a vista accesa em chammas, a policia não possue o dom de ubiquidade, nem os cem braços de Briareu... Esta madrugada todas as esquinas amanheceram forradas de pasquins e de impressos incendiarios. Arrancaram-se muitos. Pois bem! Á tarde já lá estavam outros!...
--Se não serve ao menos para isso, de que vale então a policia? repetiu o fleugmatico ministro da marinha, continuando a escrever.
--De que serve?!... Serviu, bradou Lagarde enfurecido, para não cairmos umas poucas de vezes nos laços dos conspiradores! Inaudita pergunta! De que serve a policia! De accordar os que dormem, de velar pela ordem, de conter e reprimir os maus sentimentos de uma população que nos detesta. Achais pequeno milagre conservarmos ainda Lisboa, quando o reino todo se levanta e os inglezes marcham contra nós?!... De que serve a policia?! É boa! Serve para isto!...
Ao mesmo passo mr. Juffré, vendo Herman pousa a folha coberta de algarismos, interpellava-o em tom meio submisso, meio agastado.
--Então?! O que diz?...
--É exacto. Estão escripturados e dados em entrada por emprestimo, a trinta dias, vencendo juro de 15 por cento os seus cento e trinta contos...
--Bem! Agora a ordem para os receber do erario?...
--É inutil.
--Inutil! Porque?! interrogou o argentario sobresalto.
--Porque no erario não ha real. Todo o dinheiro, que existia, levou-o o duque na caixa militar...
--Ah! Malditos inglezes! Mas! E o penhor? A prata da egreja de S. Roque, que está na Moeda, e que s. ex.^a o general meu cunhado me affiançou?...
--Por ordem do duque restituiu-se outra vez á egreja. Póde ir lá buscal-a... se lh'a derem.
--Mas n'esse caso estou roubado, despido, e nú! Caí nas garras de uma quadrilha de salteadores! berrou o uzurario, ao qual as palavras mansas do ministro quasi arrancavam a alam aos pedaços com tenazes em braza.
--Modere-se sr. Juffré. Veja aonde está e a quem fala...
--Falo ao salteador que me espoliou! O sr. Herman rouba-me e escarnece-me.
--Engana-se. Está fazendo a satyra do duque de Abrantes. São d'elle as ordens de que se queixa. Eu obedeci.
--Pois então clamo e juro, que s. ex.^a o duque é tão bom, ou peior do que o sr. Herman.
--Olhe, atalhou o ministro, muito sereno, monte a cavallo e vá dizer-lh'o a elle. Fica além d'isso mais perto dos seus cento e trinta contos de réis. O que não lhe prometto, se o duque lhe ouvir metade das palavras, com que me está regalando a mim, é que não lhe pague capital e juros com um chicote na cara ás vergalhadas...
--Que insolencia! Ousa dizer-me?! exclamou Juffré fulo e convulso.
--Um conselho! Não torne a falar aqui em ladrões. Não acorde o cão que dorme. Observou Herman, olhando de revez para Lagarde, e apunhalando o uzurario com o sorriso.
--Porque? É capaz de insinuar? atalhou o outro já em voz baixa.
Sou capaz de me lembrar, sim senhor, e muita gente commigo. Fazem-lhe hoje trezentos contos, e quando veiu para aqui não trazia treze francos. Quem o ignora? Cuida que todos são esquecidos? O sr. Juffré e outros similhantes foram a vergonha e o opprobrio do nosso governo. Deus queira que não sejam tambem os instrumentos da sua ruina. Adeus! O conselho tem cousas sérias de que tractar, e a mesa dos publicanos é lá fóra. Vá!
--Miseravel! Salteador! gritou o homunculo roxo de ira, cerrando os punhos, e crescendo contra o ministro, cuja frieza motejadora o exasperava.
Mas a raiva converteu-se-lhe logo em susto, quando sentiu a larga e pesada mão de Magendie a ferral-o pela gola e pelo fundo dos calções, leval-o pelos ares até á porta, abril-a com o pé, e despedil-o como um fardo, accrescentando no fim de todo este drama em acção:
--Desprezivel sanguesuga! Se aqui voltas protesto cortar-te e salgar-te as orelhas, a unica cousa que não é postiça em ti!
O argentario calado e tremulo ergueu-se moido, reparou á pressa os ultrajes das roupas amarrotadas, e desceu as escadas rabiando como buscapé acceso em arraial.
Depois d'esta proeza, pouco heroica pela qualidade da victima, o capitão Magendie approximouse da meza, e fitando Lagarde, disse-lhe com a concisão militar, que lhe era usual:
--Quem espalhou as proclamações?...
--Não se sabe. Ha indicios... replicou Lagarde assumindo o seu ar mysterioso.
--Quem as trouxe de bordo da nau ingleza? insistiu o official, continuando o interrogatorio.