A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes

Chapter 4

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--De todos os conspiradores, desertores, e foragidos, que nos fazem a honra de detestar o nome francez como estrangeiro, como jacobino, e como herege! Podeis estar seguro! Se dessemos busca ás salas e corredores arruinados do andar nobre, punhamos a mão, juro-vos, sobre o ninho ainda quente d'esses escandecidos patriotas, que se tornam invisiveis, sempre que podem, para nos darem detraz dos muros e vallados os bons dias e as boas noites com as balas das espingardas. Meu tio, o intendente Lagarde, não hesitava, e a esta hora já tinha uma nuvem de beleguins e soldados a cercar tudo, e a farejar e aforoar os cantos e desvãos... Eu... creio mais nas minhas pistolas e na minha espada, do que nos laços e ardis da policia, e ha tres noites que sonho a fio com delicias na probabilidade de um duello, ou de um combate com uma legião de fantasmas...

Entrou n'este instante o João da Ventosa, e os creados, multiplicando-se, pozeram a mesa, interrompendo o dialogo dos dois officiaes. A ceia não tardou, e o lavrador, por calculo, ou por generosidade, viu-se claramente, que desejava estimular por todos os modos a sêde dos hospedes, convidando-os a libações repetidas, que a natural sobriedade de Lassagne, e a prudencia de Armand tiveram o cuidado de conter dentro de limites rasoaveis. Apezar dos louvores encarecidos, com que o rustico Amphitryão encarecia os productos da colheita ribatejana, e a despeito da qualidade fina e capitosa do licor, os dois militares honraram o Baccho portuguez com summa circumspecção. O amigo de Manuel Simões, pouco satisfeito, ao que parecia, e forçado nos ultimos entrincheiramentos, ergueu-se para ir pessoalmente escolher na adega duas garrafas, uma de Madeira, e outra do Porto, capazes, affiançava elle, de vencer o jejum de um cenobita, a immobilidade de um morto, e a frieza de um velho.

--Sentido! murmurou d'Aubry quasi ao ouvido do tenente. Os espectros, segundo noto, são eruditos. Leram Virgilio, Horacio, e Vegecio. Este aldeão medita uma nova edição do cavallo de Troia em formato reduzido. O que elle vae buscar não é vinho, é somno para nos ter á sua disposição...

--Nos meus dias de taful e de rapaz talvez se arrependesse, porque me atreveria a beber o mar! disse Lassagne sorrindo, e retorcendo entre os dedos as guias do bigode louro.

--Ah! Leão! Meu querido Leão! Muito verdadeiro é o adagio que diz: viaja para aprenderes. Quem havia de suppor, que, sem sermos Samsão, vinhamos encontrar em umas ruinas da Ponte da Asseca esta parodia dos artificios biblicos de Dalilla?

--Oh! accudiu o tenente rindo. Dalilla de vestea, calções, e varapau?!

--Porque não? O habito não faz o monge. Álerta! Ahi vem o nosso homem, e suspeito que a adega, como a famosa caverna de não sei que santo, ha de ter uma bôcca aberta para o inferno. Deus me perdoe, se o calumnio, porém creio firmemente, que elle foi saber a senha dos fantasmas para o espectaculo d'esta noite.

As duas garrafas continham na realidade o licor precioso das colheitas rivaes das vinhas do Douro e dos cachos insulanos, e tinham sido escolhidas por um entendedor emerito. Os officiaes festejaram-as com o alvoroço, que mereciam suas qualidades e seus annos, simulando mesmo certa turbulencia, que a um observador mais habil, do que o João da Ventosa, pareceria mais do que suspeita, se attentasse para a expressão maliciosa dos olhos de Aubry, e para o sorriso ironico engatilhado nos labios de Lassagne. Tudo tem comtudo um termo, e davam tres quartos para a meia noite, quando os dois francezes, entre bocejos, e dando mostras de excessivo peso na cabeça, pediram treguas, e manifestaram o desejo de descançar das fadigas da jornada e dos effeitos narcoticos da campanha bacchica. O lavrador accendeu dois castiçaes de casquinha, e mais vacillante, do que elles, porque não se poupára durante o combate para os estimular, guiou-os pela escada interior aos dois quartos, aonde, como sabemos, já tinha aquartellado Leonor e seu pae na famosa noite, immortalizada pelas proezas do sargento Cabrinha e de seus milicianos.

--Viva Deus! exclamou Aubry, rindo, depois de corresponder ás boas noites e offerecimentos encarecidos do patrão, de fechar logo a porta a duas voltas de chave, e de ouvir o ruido dos passos do rendeiro a descer a escada. Viva Deus! Estamos nas covas de Salamanca, e aposto que separados apenas por uma parede da sala regia aonde os fantasmas dão as suas audiencias. Lassagne! Ha mezes passaveis por ser a primeira pistola e a mais fina espada do regimento. Não deixeis ficar mal a destreza n'estas ruinas, porque vos affirmo, que, vivos ou mortos, os que entrarem n'este quarto, pela janella, pelo sobrado, pelo tecto, ou pelos muros, não saem d'aqui sem dizer d'onde vem, e para onde vão.

--Virão elles? replicou o outro official, encolhendo os hombros com o usal sorriso. Receio que algum diabrete os avise...

Não receieis. Não faltam. Diz-m'o o coração. A fortuna tem sido madrasta commigo, e deve-me tanto, que de certo não me nega o gosto de ver e apalpar um espectro, e de lhe perguntar noticias dos... inglezes, do general Bernardim Freire, ou de algum guerrilha emboscado perto d'aqui! Se vos parecer deixaremos para depois o itinerario do purgatorio e os fogachos do inferno....

--Impio! respondeu o seu interlocutor em tom jovial. E não quereis que nos chame esta gente jacobinos e herejes?! Em que acreditaes?

--Em Deus, que nos ouve; em Jesus, que nos remiu; na immortalidade, que ha de unir-nos em espirito aos que amámos e chorâmos n'este desterro chamado vida! retorquiu o mancebo de repente serio e quasi melancholico. Mas!... São horas de apreciarmos os colchões das camas, e de dormirmos um instante com os olhos abertos. Lassagne tendes o somno pesado?...

--Leve como um açor! Um nada me desperta.

--Bello! Eu tambem. Por esse lado não ha que temer. Agora as pistolas. Optimo! As escorvas estão seccas e ardem bem. Tende sempre as armas á mão. Boas noites! Deus permitta que os fantasmas se não arrependam. Estou ancioso de os conhecer.

E o estouvado, rindo e espreguiçando-se, apertou a mão do amigo, pousou as pistolas á cabeceira sobre um velador, e deitando-se vestido em cima do leito, cerrou os olhos. Lassagne imitou-o. D'ahi a um momento resonavam ambos.

Teria passado uma hora, e jazia tudo em profundo socego, quando Aubry, que na realidade tinha o somno esperto de uma ave, accordou ao ruido lento dos gonzos enferrujados da porta falsa, que abria sobre o seu quarto, disfarçada com o velho espelho porta pela qual vimos verificada a evasão de Paulo de Azevedo mezes antes. O mancebo tinha conservado a véla accesa, e ao primeiro som esfregando os olhos, e reassumindo os espiritos perturbados, sentou-se na cama, correndo a vista por todo o aposento afim de perceber d'onde partia o assalto.

Um instante bastou para formar exacta idéa d'elle. A porta resistia de velhice, mas, gemendo, cedia sempre, e o espelho recuava.

O sobrinho de Lagarde saltou de manso á casa, engatilhou as pistolas, e com ellas nas mãos, e a espada núa debaixo do braço, pé ante pé, encaminhou-se á entrada do quarto, em que repousava Lassagne.

Achou-o erguido tambem, e armado. Com o dedo sobre os labios recommendou-lhe silencio. Os dois apenas trocaram um gesto. Não era preciso mais. Estavam entendidos.

Aubry encobriu-se com o cortinado do leito; Lassagne atraz do vão da porta, e ambos aguardaram que os espectros acabassem de vencer os obstaculos. Queriam desenganar-se finalmente por seus olhos da verdadeira significação das mysteriosas apparições, que vinham visital-os. Não esperaram muito!

VI

Uma visão pouco sobrenatural

O espelho continuava a desviar-se, girando de vagar, descobrindo a porta secreta. De repente dois vultos embuçados apontaram á entrada, e com passos subtís adeantaram-se cautelosos. Atraz d'elles, como sentinella no seu posto, ficou uma terceira figura com meio corpo na escuridão e meio corpo frouxamente allumiado pelo escasso clarão da lanterna, que trazia, a qual aclarava os tres personagens enroupados de mais para a estação e assás pesados e volumosos para passarem por espiritos.

--Dormem! Estão apanhados! disse o primeiro em voz submissa.

--A luz?! respondeu o segundo. Aonde está o outro francez?...

--Ahi! Segure-o sem bulha. Este fica por minha conta!

--Bem!

Deram algumas passadas surdas, abriu o primeiro as cortinas da cama de Aubry, correu o segundo com a vista o leito deserto de Lassagne.

Recuaram. Os officiaes, não só não dormiam, como tinham desapparecido!

--Fugiram! exclamou o vulto mais alto, levantando a voz.

--Manuel Coutinho! Sr. Manuel Coutinho! gritou o mais baixo. Fomos sentidos. Os jacobinos pozeram-se ao fresco!

--Por onde? Não póde ser! Procurem bem! accudiu o amante de Leonor, que era quem guardava a porta falsa.

--È verdade! Os nossos vélam! Fóra tudo está quieto!...

--De certo, sr. morgado! atalhou o capitão-mór. A esta hora os dragões estão apanhados como coelhos na rede. Mas aonde se sumiram então os homens?!...

N'este momento ouviu-se um silvo forte e prolongado da banda da estrada, e dispararam-se dois, ou tres tiros quasi debaixo das janellas.

--Que é isto? bradou Manuel Coutinho. Estaremos vendidos?

--Não, meus senhores, não estão! accudiu Aubry, soltando-se de repente das cortinas, que o escondiam, e cortejando com extrema urbanidade os conspiradores.

Ao mesmo tempo Lassagne apparecia aos umbraes da entrada do quarto grave e silencioso. As armas, que os officiaes traziam nas mãos, provavam, que vinham apercebidos e dispostos para um encontro.

Houve um momento de pausa, durante o qual os cinco personagens reunidos por modo tão singular se mediram e encararam sem proferir palavra.

--Conversemos, senhores! disse por fim o sobrinho de Lagarde. Não imaginam a impaciencia, que tinha em os encontrar aqui. Andei doze leguas a cavallo, sem resfolegar, e que leguas, santo Deus! para ter o gosto de conversarmos cinco minutos!...

--Talvez se arrependa! bradou o morgado, carregando o sobrolho, e fazendo o gesto de buscar no cinto as pistolas.

--Nada de imprudencias, por quem é!... atalhou Aubry, de repente serio, e apontando as suas, acção que Lassagne imitou serenamente. Não comecemos a narração pelo epilogo, erro crasso de rhetorica, segundo affirmava o padre Laly, sabio professor do meu collegio. Tambem trazemos com que responder, e menos mal. Deixemos, porém, as explicações de polvora e bala para o fim se não nos entendermos. É melhor!...

--Pois bem, seja! redarguiu Manuel Coutinho. Caímos em uma emboscada, e...

--E não sabe se o feitiço se virou contra o feiticeiro? interrompeu, rindo, o official. Parece-me que sim. Queiram sentar-se, meus senhores...

--Estamos bem! O que temos a dizer em duas palavras se acaba!... exclamou o capitão-mór, que as maneiras polidas, mas zombeteiras d'Aubry irritavam excessivamente.

--Quem sabe?! tornou o mancebo, fitando-o com ironia, e torcendo entre os dedos e com graça as guias do bigode. A mobilia não é opulenta, mas as cadeiras chegam. De mais soldados com pouco se contentam. Queiram sentar-se. Muito bem! proseguiu depois de os ver sentados. Posso saber o motivo a que devo a felicidade d'esta visita? O meu nome é Armand d'Aubry, capitão do 1.^o de dragões da guarda...

--Ah! exclamou Manuel Coutinho com certo sobresalto, Armand d'Aubry?!...

--Exactamente. O meu companheiro chama-se o sr. Leão Lassagne, tenente do mesmo corpo, conhecido dos austriacos, prussianos e hespanhoes pela firmeza dos golpes e certeza do tiro...

Aqui o morgado e o capitão-mór enfadados da prolixidade dos cumprimentos olharam um para o outro encolhendo os hombros. Manuel Coutinho, frio e reportado, ouvia, sem desafinar a expressão intrepida do rosto, este prologo cerimonioso de Aubry, não se dignando mesmo patentear o menor indicio de impaciencia.

O official francez percebia maravilhosamente tudo o que passava pela mente dos interlocutores, porém, simulando ingenuidade maliciosa, divertia-se em ter suspensa aquella anciosa curiosidade.

--Ser-me-ha licito, agora, que dei conta de mim e do meu amigo, perguntar o nome dos cavalheiros, que nos honram com a sua presença?...

--De certo! redarguiu Manuel Coutinho, inclinando-se levemente. Se nos cobrimos com as trevas da noite é porque somos opprimidos, e ainda não soou a hora de combatermos á luz do dia. Este senhor é o morgado de Penin, administrador de uma das casas mais nobres e ricas da provincia. Aquelle é o senhor capitão-mór de ordenanças de Leiria, Manuel Carranca, pessoa distincta e estimada pelo nome e qualidades... Eu chamo-me Manuel Coutinho, appellido não de todo obscuro, e fui desligado do regimento, aonde servia como capitão... Bem vê, sr. d'Aubry, que está em excellente companhia, e que, apezar da hora, não entrou em nenhuma caverna de salteadores...

--Oh! Pelo amor de Deus! Quem se lembrou nunca de tal?!... Seria importuno se insistisse em perguntar ainda a razão, porque tres cavalheiros tão amaveis nos fizeram o favor de perturbar o nosso somno, roubando aos espectros d'este palacio o segredo das visões theatraes?

--Nada mais justo! retorquiu o amante de Leonor. Precisavamos da casa para nós, e não queriamos ser vistos, nem seguidos...

--E então, como o sr. Aubry muito bem disse, occorreu-nos roubar aos espectros o segredo d'esta porta. Vinhamos...

--Prender os dois officiaes que julgavam adormecidos, na boa fé da hospitalidade portugueza?!...

--Hospitalidade forçada! É verdade, vinhamos, deplorando que a guerra nos coagisse a incommodar duas pessoas, que tanto careciam de repouso. Felizmente d'esse remorso estamos absolvidos. Não interrompemos o somno de viajantes cansados; encontrámos a vigilancia de militares affeitos a todos os rebates dos campos...

--Mil vezes obrigado por tanta benevolencia! replicou Aubry, pagando ironia com ironia n'este duello cortez, que espantava o morgado e o capitão-mór, mais propensos aos argumentos de ferro e pau, do que aos tiros dos epigrammas.

--E agora? interrogou Aubry, cuja alegria se apagou, convertida subitamente a expressão risonha em aspecto quasi severo.

--Agora?! redarguiu Manuel Coutinho, levantando-se com os seus amigos, e cortejando-o em ar resoluto. Agora, como não podemos espaçar mais a partida, e decidimos vencer todos os obstaculos, offerecemos ao sr. d'Aubry e ao sr. Lassagne as nossas desculpas pelo incommado, que lhes causámos, pedimos-lhes que não nos disputem a passagem, e como seria mais do que imprudencia deixar na rectaguarda inimigos tão valentes á testa de uma força, vemo-nos constrangidos a rogar-lhes, que nos entreguem as suas espadas...

--Ah! atalhou o official com um sorriso amargo. Não pede pouco. Pelo que vejo chegámos...

--Áquellas explicações mais vivas, accudiu o mancebo, de que nos falou no principio da nossa conversação... Creia que sinceramente o sinto...

--Oh! Não se afflija, por quem é! Estamos mais longe d'isso, do que cuida. Pois, na realidade suppoz, que dois officiaes armados e apercebidos haviam de ceder deante de tres homens?...

--Somos dez e quasí todos militares. Não ha deshonra. Veja!

De feito os outros conspiradores attrahidos pela demora acabavam de apparecer á porta secreta, e, entrando, rodearam em um instante os dois francezes, socegados e pacificos, como se tudo fosse pura ficção theatral.

--Agora nós!... Ouça! observou d'Aubry. Lassagne não são os passos do sargento Roberto? Abri a porta!

D'ahi a um momento assomava á entrada o vulto colossal e herculeo do novo protogonista, o qual parou aprumado e hirto, com a mão na palla da barretina, e o rosto invadido quasi todo por bigodes e suissas enormes, aguardando de pé, respeitosamente, que o interrogassem. Os conspiradores eram todos olhos e ouvidos.

--Quantos prezos Roberto? perguntou o official.

--Doze! Meu capitão!

--Armados?

--Até aos dentes.

--O meio esquadrão?

--Parte cérca o palacio, parte está na ponte e á bôcca da estrada do Cartaxo.

--Houve resistencia?

--Dois tiros, mas não feriram ninguem.

--Aonde está o lavrador d'esta casa?

--Fugiu pelas vinhas com outro paizano.

--Que ordens déstes aos dragões?

--As vossas. Fogo sobre quem tentasse fugir pelas janellas, ou pelas portas. Quartel a quem se rendesse.

--Bem! Desembainhae a espada. Vigilancia! Prompto á primeira voz! Meus senhores ouviram? accrescentou, virando-se para os cavalheiros portuguezes, e cruzando os braços.

--Tudo! respondeu o coronel de milicias Isidoro Pinto Gomes, adeantando-se, e fitando no mancebo os olhos placidos e firmes.

--E o que fazem?

--O mesmo que o senhor official de certo contava fazer... Passâmos! retorquiu o coronel sem elevar a voz, e tão manso de gesto e de physionomia, como se estivesse tractando de cousas indifferentes.

--Por entre as balas e as espadas dos meus dragões?!...

--Tanto vale aqui, como mais adeante! replicou intrepidamente Manuel Coutinho. Principiâmos vinte e quatro horas mais cedo.

--Muito bem! Mas de que serve verterem tantas pessoas illustres o sangue debalde? A honra fica salva, e o sacrificio...

--É inutil, ia dizer? Perdôe-me a interrupção, sr. d'Aubry! A honra do soldado talvez ficasse salva perante o numero, porém a de portuguezes, que juraram pelejar pela patria, de certo não! Viemos aqui para morrer por ella!... Se tivessemos por nós a força usavamos d'ella sem escrupulo... Faça o mesmo. A fortuna traiu-nos aos primeiros passos. Que importa? Estas armas empunhadas para sermos livres não hão de ser-nos arrancadas senão com a vida...

--É a sua ultima resolução?

--É!

--E a de todos nós! ajuntou o coronel, apertando a mão do mancebo, animado assim como o morgado, o capitão-mór, e os outros portuguezes pela eminencia do perigo.

--Muito a meu pezar sou obrigado a oppôr-me. Lassagne! Roberto! Firmes! nem um passo, senhores! exclamou. Queiram atirar primeiro! Damos-lhe o partido que nossos avós deram aos inglezes em Fontenoy!...

--Talvez houvesse meio de evitar!... murmurou ao ouvido do coronel a voz tremula de fr. João, cujo rosto apopletico convertêra de repente em pallidez suspeita as assanhadas côres.

--Nenhuma! respondeu sêcco e irado Isidoro Pinto. Se tem medo retire-se, entregue-se, faça o que quizer, mas deixe-nos! Vamos! Abram-nos caminho, senhores francezes! Esta é a nossa terra, e havemos de passar, ou acabar n'ella!

E o velho official, venerando pelos cabellos brancos e pelo ardor nobre, que lhe restituia os brios juvenis, com a espada na direita, e uma pistola engatilhada na esquerda, seguido dos companheiros, avançou contra Lassagne e Roberto, em quanto Manuel Coutinho por calculo, ou por acaso, se achava deante do capitão d'Aubry. O conflicto parecia inevitavel.

--Logar! bradou o mancebo portuguez com um gesto de ameaça.

As pupillas do official francez despediram dois relampagos; o seu rosto tomou terrivel aspecto. Foi só por um instante. Inclinando a espada, e reprimindo a colera, disse ao adversario pasmado da mudança:

--Agradeça a Deus! A lembrança de um anjo suspende-me o braço! Alto! accrescentou em voz sonora e cheia. Um momento! Senhor Manuel Coutinho sabe quem eu sou?

--É o sobrinho do intendente Lagarde, do homem que...

--Não diga mais. Sei que está offendido e que tem razão de o estar. Mas!... A roupa suja lava-se em familia. É o noivo de D. Leonor? Aquelle a quem ella prometteu e jurou amar?...

--Sou, porque?...

--Porque fui sem o saber causa innocente de suas lagrimas. Sinto encontral-o aqui. Podia, se fosse vil, prevalecer-me do acaso. Quero que me fique conhecendo. Quero mostrar-lhe que sou digno do honrado nome de meu pae. Se o deixar saír para onde vai?

--Para o exercito de sir Arthur Wellesley. É lá o meu posto. Replicou Manuel sem hesitar.

--Adivinhava a resposta. Pode ir! Lá nos encontraremos como inimigos, mas como inimigos que se estimam.

--E os meus companheiros? perguntou o mancebo pasmado de tanta generosidade.

--Os seus companheiros?! Bem! É justo! Que se recolham com os espectros, e que esperem. Deixem-me partir a mim e aos meus dragões. Lassagne e Roberto são discretos e fieis. Se for preciso dirão que não viram nada.

--A sua mão sr. d'Aubry!? insistiu Manuel Coutinho commovido e com os olhos humidos. Quero apertal-a cheio de admiração pela grande alma, que se nos acaba de revelar. Em todas as occasiões, succeda o que succeder, lembre-se de que tem um amigo, um irmão em mim!

--Menos no campo de batalha? accudiu o official sorrindo.

--Lá mesmo! Se as armas lhe forem contrarias....

--Obrigado, mas!... E quem sabe?! A fortuna póde cansar-se um dia. Uma pergunta. Paulo de Azevedo!?...

--Continua preso e vae ser julgado.

--Meu tio enganou-me então? É o mesmo! Ainda estamos a tempo. Hei de cumprir a minha promessa. Sr. Manuel Coutinho, se não tornarmos a ver-nos, diga aos seus amigos, diga a D. Leonor... que fiz o meu dever. Agora adeus. Os seus amigos que se retirem já! A scena dos espectros, ajuntou volvendo ao gracejo proprio da indole jovial, ia-se tornando tragica. D'aqui a duas horas parto. Siga depois a sua sorte, e não se ria muito de mim, quando se recordar dos lances d'esta noite. A proposito, aquelle reverendo que vejo tremulo entre os seus, é o capellão da guerrilha? Parece-me pouco bellicoso!

E voltando-se para Lassagne e para o sargento, immoveis assim como os conspiradores, em quanto durára a conversação com Manuel Coutinho, d'Aubry disse-lhes com o seu ar de riso habitual:

--Meus amigos, estes senhores, que por muito enroupados no verão tomavamos por homens friorentos, são na realidade espectros, e vão desapparecer. Já lhes agradeci o favor da visita, e depois da explicação, que acabo de ter, creio que se convenceram de que era perigoso passeiar fóra de horas por este mundo. Lassagne! Logo vos explicarei o enigma. Roberto! Mandai soltar os presos da granja. Partimos dentro de duas horas. Senhores fantasmas! A sua visita causou-me o maior prazer, mas espero que seja a ultima. Muito boas noites! Queiram dar recados da minha parte ás almas de meus parentes, que encontrarem no purgatorio!

Um momento depois Lassagne e d'Aubry achavam-se outra vez inteiramente sós nos quartos, o tenente abraçava o seu companheiro d'armas pelo nobre rasgo, que ennobrecia mais o seu caracter, do que uma victoria. A magnanimidade é a mais alta e a mais sublime das virtudes do guerreiro.

VII

Primeiros clarões de um grande dia

A Gran-Bretanha entrou por fim em campo. Sir Arthur Wellesley, cujo nome, conhecido então apenas pelas campanhas da India, em breve os revezes de Napoleão haviam de tornar famoso, avançava das praias do Figueira, pela estrada de Coimbra e de Pombal, com treze mil infantes, duzentos cavallos, e dezoito canhões. As forças nacionaes, organizadas, ás ordens do general Bernardim Freire, não excediam de seis mil bayonetas e de seiscentos homens de cavallaria. Nos dias 10 e 11 de agosto os alliados occuparam Leiria, e no dia 12 descansavam em Pombal as tropas portuguezas.

Mas se os nossos e os inglezes eram ainda poucos, atraz d'elles vinha a nação inteira.

Os casaes e aldeias despovoavam-se; os povos accudiam á beira das estradas, saudando com suas acclamações os libertadores. A capital, ainda sujeita ao jugo, tremia de raiva entre as armas que lhe tolhiam resgatar-se. As proclamações de Wellesley e de Cotton, apezar da severidade vigilante de Lagarde, zombavam da policia, penetravam em todas as casas, e lidas com avidez e enthusiasmo inflammavam o patriotismo. Os olhos voltavam-se sofregos para o Tejo, esperando de um momento para outro ver ondear o estandarte britannico nos topes dos mastros. Os ouvidos credulos transformavam a cada instante o mais leve rumor longiquo nas sonhadas descargas, que haviam de annunciar a catastrophe á usurpação. A victoria do marechal Bessiéres em Rio Sêcco pouco avivára o prestigio offuscado pela derrota e capitulação de Dupont em Andujar. O rei Joseph, como já dissémos, apenas entrado com a sua côrte em Madrid logo se vira constrangido a retroceder até as margens do Ebro.