A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes

Chapter 3

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--Os laços da prudencia humana não me prendem! exclamava o padre com o barretinho de seda arregaçado para a nuca, a calva purpurea, e o sobrolho franzido... Mais poderoso e forte do que todos os artificios mundanos é o Senhor dos exercitos!... Para vencermos os jacobinos basta a candura da pomba.

--Cuidado com as garras do milhafre!... interrompeu pela terceira vez o mancebo pallido com um sorriso ironico.

--Ao milhafre atira-se, sr. Mannel Coutinho, gritou o bellicoso servo de S. Francisco, ferindo a mesa com o punho cerrado. Bons caçadores temos, e se for preciso, Deus pela sua infinita misericordia fará um milagre em nosso favor.

--Nada de milagres! accudiu o capitão-mór de ordenanças, Manuel Carranca, o qual, rouco de gritar, aproveitava o incidente para locupletar com duas valentes inspirações o pulmão estafado. Nada de milagres! Se v. s.^a rev.^{ma} julga, que os francezes fogem com estolas, hyssopes, e caldeirinhas de agua benta, engana-se redondamente. Vá a Leiria, e lá lhe dirão de que serviu o bello cantoxão do bispo e dos clerigos!... Safa! Tenho ainda nos ouvidos os bérros das peças de artilheria, e os alaridos d'aquelles malditos granadeiros... Pareciam gatos a marinhar e leões a arremetter...

Esta apostrophe, sem desmaiar a resolução dos ouvintes, tornou mais grave o rosto de alguns. Houve até quem applaudisse com um aceno de cabeça assaz expressivo a rustica e quasi impia declaração do capitão-mór. As momices bellicosas e varias do franciscano começavam a aborrecel-os. Veremos no capitulo seguinte a verdade do adagio: Pela fructa se conhece a arvore!

IV

Reina a confusão no campo de Agramante

Fr. João era o mais irado, ou antes, era o unico irado. O seu labio superior, extendido como tromba cresceu, e a barba de tres andares descaíu-lhe com o beiço de baixo quasi até o peito, signal manifesto de seu despreso. O suor da colera, colera de frade, oleosa e leveda, inundou-lhe a testa. As pupillas faiscavam.

--Santo Deus! que ouço!... atalhou pondo-se em pé, hirto e furioso, e alçando os braços como se afagasse a peroração do melhor de seus sermões. É o sr. Manuel Carranca quem profere taes blasphemias, ou é algum inimigo de Deus e da patria?!...

--Padre mestre! accudiu não menos irritado e furibundo o arguente interpellado, já tambem de pé. Não me tente a paciencia! Eu digo a verdade e não solto blasphemias. Pão pão, queijo queijo! Nunca tive trato com mouros, judeus, ou herejes, nem consinto que ponham nota na minha religião, entende?...

--Se não quer ser lobo não lhe vista a pelle. Sou ministro de Deus, e não adulador de poderosos. Castigo os que erram! replicou o orador com um gesto inimitavel de desdem olympico.

--Castiga? Diz que ha de castigar-me?!... bradou o capitão-mór livido e convulso de raiva.

--Digo-lhe que já o castiguei, e que hei de continuar!... retorquiu o frade não menos rascivel crescendo dentro dos habitos.

--A mim! Manuel Carranca, morgado e capitão-mór de ordenanças de Leiria, pae de familia, e homem de sessenta annos de edade?!... insistiu o outro suffocado, roxo, e com os punhos cerrados.

--Quem o ouvisse não lhe faria doze annos! Uma criança não fala mais loucamente; concluiu fr. João encolhendo os hombros, limpando o suor, e sentando-se de golpe.

--Sabe que mais, sôr padre? gritou quasi em delirio o aggredido. Tenho pena de o ver de saias. Senão!... Juro-lhe por alma de Eufrasia, minha santa companheira, que Deus tem, que deixava metade da pelle agarrada aos nós da corda, com que o havia fustigar!...

Só o pugilato podia terminar a contenda, chegada a estes termos. Fr. João parecia possesso. Sentava-se, erguia-se, estorcia-se, clamava, e accusava, defendia-se, ameaçava, enternecia-se, e elle só fazia mais ruido, do que cem mendigos implorando voz em grita a caridade dos fieis. O seu adversario ria-se com despreso das contorsões do prégador, e repetia entre gargalhadas nervosas, quando uma pausa nos accessos do reverendo lh'o consentia:

--Juro-lhe! Se os frades como as mulheres, não vestissem saias, o padre mestre saía esta noite d'aqui em carne viva!

O auditorio escutava calado e neutro as imprecações dos contendores, ria-se das interjeições e dos trejeitos, e murmurava, porque se perdia em puerilidades similhantes um tempo precioso.

A algazarra dos dois subiu, porém, a tal ponto, que o coronel de milicias, que dormitava talvez encostado ao punho, como insensivel ao ruido, que o cercava despertou meio sobresaltado, abriu metade das palpebras preguiçosas, e articulou em tom pausado sómente estas palavras:

--Que vozeria é esta, senhores? Estamos á porta de algum açougue, ou em uma casa honesta, deliberando a bem da patria? Peço socego.

Não foi preciso mais. Tudo emmudeceu. Isidoro Pinto Gomes era um ancião veneravel, nobre pelo sangue, exemplar pelas virtudes, e acatado geralmente.

--Vamos! Proseguiu. Não é já cedo, e é preciso sem demora concluir! E correu a vista serena pelos collegas, detendo-a um pouco severa sobre o frade e o capitão-mór, que, sentados um defronte do outro, ainda se ameaçavam com os olhos. O sr. fr. João Salgado propunha que montassemos a cavallo, e partissemos d'aqui a levantar Santarem, Villa Franca, Leiria...

--Todo o reino, sr. coronel. È facil! interrompeu o padre.

--È fácil de fazer e difficil de sustentar, redarguiu Manuel Coutinho. Os francezes ainda estão em Abrantes e Lisboa...

--É para os lançar fóra que eu queria que todos esses povos armados...

--E vossa reverendissima conta acompanhar-nos e combater ao nosso lado? interrogou o coronel sempre com a mesma gravidade.

--Certamente! exclamou o prégador menos enthusiasmado já. Com as minhas orações, com as armas espirituaes...

Uma risada estrondosa de escarneo, desatada com insolencia pelo capitão-mór, estrangulou-lhe entre os dentes o resto do discurso.

--Sr. Manuel Carranca, observou Isidoro Pinto, risadas não são razões. Queira reportar-se. Estamos em acto serio, e que póde custar a cabeça a todos nós... Continuemos! As armas espirituaes de grande auxilio nos poderão ser, porém infelizmente não bastam. Junot e os seus soldados pelejam com valentia, e não se dispersam com exorcismos. Sr. Manuel Coutinho, o seu voto? Vem de Lisboa, é militar, e tem prudencia. O que entende?

--Que novos levantamentos nos atrazam em vez de nos adeantar. Os francezes são soldados, e bons soldados, força é confessal-o, e só por outros soldados podem ser vencidos. O povo tem desejos e vontade, mas falta-lhes disciplina...

--_Deus super omnia_! exclamou o incorregivel fr. João. Não lhes queria estar na pelle se de Leiria até ás abas da capital toda a gente se levantasse contra elles. Só os nossos campinos e guardadores, que formoso esquadrão! De mais Lisboa está á primeira voz. Sei-o com certeza. O Conselho Conservador na primeira occasião atira pelos ares os inimigos de Deus e de el-rei...

--Vossa reverendissima está enganado! respondeu o mancebo inalteravel, em quanto o frade rubro e arquejante esponjava com o lenço de algodão o suor da eloquencia, e sorvia uma apoz outra tres pitadas triumphantes de esturro.

--Estou enganado?! bradou. Queira dizer em que?

--Em tudo. Primeiro o povo não se levanta assim de repente e todo. Depois os campinos e guardadores não aturam uma carga de cavallaria ou o fogo da artilharia, a qual alcança longe, e mette medo. Por ultimo a cidade de Lisboa não se move!...

--Ora essa! Muito mal nos iria então!...

--Porque? Não marcham os inglezes de Montemór, ao pé de Coimbra? Confie mais n'elles, que sabem fazer a guerra. O general Bernardim Freire com as milicias e voluntarios tambem avança. O que queria de Lisboa? Uma revolução de paizanos? As baterias do castello e as bayonetas de Junot depressa a venceriam. Ninguem deseja mais a capital liberta, do que eu, como portuguez, como militar, e... Os outros motivos são só meus. Mas conheço a necessidade e resigno-me. A nossa causa ha de triumphar nos campos de batalha, e não nas ruas, e com tumultos. As victimas já não têem sido poucas.

--Qual é então a sua opinião, sr. Manuel Coutinho? observou o coronel, calando com um volver de olhos imperioso a loquacidade do prégador, que abria a bôcca para replicar. O que devemos fazer?

--A minha opinião é que montemos a cavallo, recrutemos o maior numero possivel de homens valentes, e que sem ruido nos vamos unir ao exercito de operações. O nosso posto é lá.

--Muito bem! Sou do mesmo voto. O que dizem os senhores?

--Que estamos promptos, disse o capitão-mór de ordenanças. Ardo em impaciencia de tirar uma desforra mestra da grande sova de Leiria...

--E nós todos de tirarmos desforra da invasão! atalhou Isidoro Pinto com dignidade. Partiremos esta madrugada, e se Deus quizer seremos mais felizes d'esta vez.

--Que gloria, senhores, para nós e para nossos descendentes! exclamou o morgado de Penin, cujo enthusiasmo facil de inflammar se exaltava n'estas occasiões. A patria libertada, Portugal triumphante!...

--O que não rirá sua alteza real o principe regente, quando souber como nós por cá tractámos os francezes! Para mim o melhor dia da minha vida ha de ser o ditoso momento em que possa beijar os augustos pés do meu rei... Oh, se elle voltar, e ha de voltar, apezar de indigno filho de S. Francisco, irei com o povo puchar aos varaes da sua carruagem!

E espraiando o zelo monarchico n'esta jaculatoria servil, o frade corria os olhos, de que já saltavam as lagrimas de uma alegria antecipada, pela assembléa soffrivelmente fria, ou quasi hostil á demonstração.

--Sr. fr. João, disse o coronel de milicias, levantando-se, e alçando a cabeça com ar magestoso, se o principe D. João voltar, e Deus o traga depressa, deixe ás mulas de Alter, cujo é, o peso do seu coche. Essas mãos sagradas são para os officios divinos, e não para as tarefas dos cocheiros...

--Mas! replicou o frade interdicto e atalhado com a licção. Não estamos todos aqui ajuramentados para verter até á ultima gota de sangue pelo principe e pela familia real?... Se não fosse isto e a santa religião tanto fazia Bonaparte como qualquer outro.

--Eu lhe digo! redarguiu Isidoro Pinto. Sou portuguez e sou catholico. Como portuguez quero morrer livre aonde nasci; como catholico detesto os que adoram o meu Deus só com os labios, roubando e profanando os templos, prendendo e espoliando em Roma o vigario de Christo. Depois de Deus e da patria--mas só depois--é que vem para mim a restauração do throno de nossos reis...

--Depois?! É singular! murmurou fr. João contrariado e aggressivo.

--Pois não devia achar singular, redarguiu o coronel serenamente. E senão diga-me: Para que são os reis?...

--Essa é boa! Para que são?!... Deus instituiu-os...

--Como pastores, guardas, e defensores dos povos. E o que defendeu, ou guardou o principe regente? A sua pessoa, as suas alfaias, a sua segurança. A nós mandou-nos abrir as fronteiras, e entregou-nos manietados por uma ordem sua aos inimigos, de que fugia.

--Nunca tal ouvi! clamou o prégador attonito. O que queria o sr. coronel que sua alteza fizesse em tão grande aperto?

--O que fez D. João I e D. João IV. Que ficasse! Era a sua obrigação. Os reis não estão acima de todos para se esconderem dos perigos atraz dos ultimos vassallos, ou para esperarem que elles combatam e vençam na sua ausencia.

--Que importa isso? Não estamos nós?

--Importa muito! É verdade que estamos, mas elle falta; e em quanto sua alteza, que Deus guarde, saboreia a duas mil leguas d'aqui os ananazes e bananas da sua xacara de S. Christovam, choramos nós a liberdade perdida mettidos no captiveiro, em que nos deixou...

--Mas sua alteza não se esqueceu de nós. O seu manifesto declarando a guerra á França!...

--Ah sim! Bem sei! Declarou-lhes a guerra! Quem a sustenta? Nós e nossos filhos com o sangue vertido no campo e nos patibulos, com as casas saqueadas e reduzidas a cinzas, com os bens e a saude arruinados. A côrte festeja de longe o nosso valor. A Gazeta do Rio chama-nos heroes; porém!... Uns comem os figos, e aos outros arrebenta-se-lhes a bôcca. Acha isto justo, nobre, e bem feito? Se acha, faz mal, se concorda, calo-me. O principe e os titulares hão de voltar, quando lhes abrirmos as portas; em quanto houver perigo, não! Se os cavalheiros de provincia, se o clero, se o povo imitassem tanta ingratidão--tamanha vergonha--deixe-me chamar as cousas pelo seu nome, Portugal seria de Napoleão, de Junot, do principe da Paz, da Hespanha, de todos, emfim, menos de quem o desamparou para cuidar de si. Louvado Deus, se o rei fugiu, e desertou do throno, nós lembrámo-nos da nossa historia, dos nossos brios, e do nosso juramento. Esqueceremos apenas... que estamos combatendo sós! Quando o senhor D. João e os fidalgos se recolherem, nós, pobres e mutilados, mas honrados, iremos dar-lhe os parabens, e tornaremos logo para casa a ver se ainda salvamos do naufragio o pão de nossos filhos... Peço desculpa d'estas palavras, meus senhores! ajuntou, cortejando os conspiradores, que o tinham ouvido silenciosos, porém sympathicos. Sou velho, e os velhos têem o defeito ás vezes de falarem muito. Prometto emendar-me, porque a occasião é de acções, e não de palavras. Amanhã de madrugada partimos. Boas noites! São horas de descanço.

Fr. João mettia dó. A sua filaucia oratoria, punida pelas sinceras e sisudas reflexões do coronel, tinha-se convertido em humildade, em mais do que humildade, em consternação. A verdade e a justiça das queixas, que ouvia, eram tão evidentes, que não lhe consentiam replica. Arrependido de as ter provocado, apertou com expressivo ardor a mão do velho cavalheiro, e com os olhos baixos e modos contrictos encaminhou-se ao aposento, em que o aguardava a cadeira, em que havia de repousar. Os seus amigos não tinham melhor leito.

Os outros cavalheiros iam separar-se egualmente, quando os assustou o tropear de muitos cavallos caminhando a trote largo. Manuel Coutinho por uma fresta das tabuas, que tapavam uma das janellas rasgadas sobre a estrada, espreitou com precaução, e ao clarão do luar viu reluzir os cascos, e peitos de armas dos dragões francezes. Ao mesmo tempo uma voz forte dava a ordem de alto, e por um instante tudo caiu em silencio. Os conspiradores olharam uns para os outros e instinctivamente levaram a mão ao punho da espada. O mancebo continuava entretanto o seu exame sem se sobresaltar.

--É uma escolta de seis homens, e acompanha dois officiaes! disse elle retirando-se. Somos doze, e os nossos creados que dormem na granja muitos mais e decididos. Apaguemos já a luz, vamos para o outro lado do palacio, e demos tempo ao lavrador de nos avisar. Naturalmente os francezes pedem hospedagem, e passam aqui a noite...

--Se assim for! E a nossa jornada?! atalhou o capitão-mór de ordenanças.

--A nossa jornada está primeiro do que elles! accudiu sorrindo-se Manuel Coutinho. Simplesmente o que póde acontecer é apresentarmo-nos com alguns prisioneiros ao exercito.

--Excellente! Excellente! gritou a voz de trovão do morgado de Penin. Vamos a elles. Que nenhum escape!

--Mais baixo, senhor morgado, mais devagar! Não acorde o leão que dorme. Os soldados é facil apanhal-os aonde ficam. Os officiaes ainda mais. O João decerto os mette nos quartos, que sabemos, e pela porta de espelho... Entretanto por causa das suspeitas, e porque esta casa ainda póde ser-nos util, sou de voto, que os assustemos e afugentemos com uma representação de fantasmas... e que á saída lhes demos a voz de presos.

--Lá está o João da Ventosa com elles à fala! observou o major, que espreitava á janella: Apeiam-se! A ceia que os espera ha de custar-lhes a digerir.

--Deram-nos tão mau almoço em Leiria, atalhou rindo o coronel, que lhes devemos esta ceia. Vamos ensaiar os nossos papeis.

D'ahi a um momento estava deserta a vasta sala. Os conspiradores tinham desapparecido por uma porta falsa, aberta na parede com tal arte, que ninguem seria capaz de a descobrir.

V

Francezes á meia noite

Em quanto Manuel Coutinho e seus amigos traçavam á pressa o plano, que acabámos de escutar, os dois officiaes francezes batiam, chamando o lavrador com a auctoridade de quem mandava.

João da Ventosa e Manuel Simões conservavam-se ainda na mesma posição, mas os canecos tinham ido tantas vezes á fonte do cangirão, e o summo da cepa fôra tão seductor, que, apezar de suas dimensões respeitaveis, o alentado vaso estava quasi no fundo. A lingua começava a pegar-se ao céu da bôcca dos dois bebedores, e os olhos a piscarem-se. Ambos cabeceavam a compasso com aquelle sorriso beatifico e petrificado, proprio da embriaguez mansa, quando as pancadas rijas dos militares os despertaram em sobresalto.

Saltaram de um pulo para o meio da casa. O baralho sebento e coçado do uso quotidiano, com que haviam jogado a bisca voou das mãos ao fazendeiro espavorido, e as cartas espalharam-se ao acaso pelo chão. As proezas contra os agentes de policia de Lisboa, e a execução summaria de Gaspar Preto, (o _Sapo_), eram dois espinhos, que não lhes deixavam a consciencia tranquilla. A todas as horas tremiam de ver a justiça á porta, sem animo todavia para fugir, o que acontece varias vezes.

--O que será? balbuciava o robusto camponez da Aramanha. A modo que sinto patas de cavallos lá fóra. Arrastam espadas. Com mil cobras! Estaremos caídos na esparrella, sôr compadre?

--Valha-o um milheiro... de lacraus, homem! retorquiu o companheiro de copo, affectando serenidade, porém mais morto, do que vivo tambem. Sempre se lembra de cousas!... Não é nada, aposto! Não ha de ser nada...

--Deus queira! Mas olhe: não gosto nada de francezes á meia noite!...

--Nem eu com a breca! Caluda! Batem como quem se despede. Os excommungados, se não abro, pregam-me com a porta dentro! Vamos! Alma até Almeida!... O que fôr soará. Você ouve? Fique-se ahi para esse canto, estire-se, durma, ou finja que dorme, e nem tugir, nem mugir. Deixe-me cá a mim com elles! Muito finos hão de ser se metterem os pés pelas algibeiras ao João!... Ahi vae! Ahi vae! Isto aqui não é nenhuma estalagem!...

E rosnando, e gritando, o lavrador accudia o mais devagar, que lhe era possivel, contando os passos, tropegos das libações e do susto.

A porta desaferrolhou-se por fim, as trancas rangeram e cairam, e o pobre João da Ventosa esteve quasi perdendo os sentidos, quando viu deante de si os dois officiaes francezes apeiados, e a escolta ainda a cavallo. Um tremor invencivel apoderou-se-lhe dos membros, e um suor frio, acompanhado de arrepios suspeitos pela espinha dorsal, acabou de o paralyzar. Em um instante passaram-lhe pela mente todas as conjecturas lugubres, que o medo podia forjar. Sentiu os ossos dos dedos estalados com os anginhos e os braços cortados com as cordas. Viu-se na enxovia comido de miseria, nas garras do escrivão e do carcereiro, dois abutres insaciaveis. Ouviu e respondeu aos interrogatorios; e, convencido do seu delicto, escutou a sentença de morte, entrou para o oratorio, e com os cabellos hirtos e a lividez do terror encarou o espectro pavoroso da forca...

Olhava, e não via, movia os beiços, e não falava, procurava arrastar os pés, e elles parecia que tomavam raiz no chão! Foi um minuto de delirio e anciedade, mas um minuto de tal agonia, que a outro qualquer toda a cabeça se poria de certo branca. Entretanto era animoso, e recobrou-se. O sangue quasi gelado aqueceu, os espiritos acovardados restauraram-se.

--Assim como assim, disse comsigo, melhor é acabar aqui de uma bala, ou de uma cutilada, do que nas mãos do carrasco. Vivo não me levam elles de casa, e muito inteiros não hão de ficar tambem. Veremos.

Tomada esta prompta resolução, socegou mais, levantando os olhos para os recem-chegados. Os officiaes tinham-se arredado um pouco, e falavam a meia voz com o sargento. Quando voltaram, um d'elles, cujo ar aberto e espirituoso, rosto juvenil, e vista maliciosa não promettiam na apparencia nenhum executor de ordens severas, tocou-lhe então no braço, e na aravia arrevesada, com que os estrangeiros arremedam e estropiam de ordinario o idioma portuguez, exclamou:

--Ah! Ah! O sr. lavrador é que é o dono da casa dos fantasmas? Venho fazer-lhe uma visita de proposito, e pedir-lhe que me arranje um quarto, aonde possa falar á vontade com os seus inquilinos, as almas do outro mundo. Mal sabe as curiosas cousas, que desejo perguntar-lhes...

--A quem? bradou o João ainda vexado de receios. É escusado. Não sei nada. Póde prender-me, matar-me...

--Prendel-o! Matal-o!... Quem lhe metteu essas loucuras na cabeça?... Sou capitão, e chamo-me Armand d'Aubry. Ouvi falar d'este palacio e dos fantasmas, que dão bailes e concertos á meia noite, e jurei convidar-me com este meu amigo para assistir a um d'elles... Diga-me senhor, tem bastante valimento na casa para me alcançar dos seus espectros o favor de se não incommodarem por amor de mim, e de me tractarem como pessoa da familia?...

O lavrador não sabia se estava sonhando, se estava acordado, ou se aquelle homem era doido. Não o entendia, e fitando n'elle os olhos espantados contemplava-o boqui-aberto e quasi nescio de estupefacção.

--A proposito! proseguiu o militar. Andámos um bom par d'estas suas leguas portuguezas, que são eternas e cançativas, e estamos caindo de fome e de somno. Póde dar-nos sem demora um pedaço de pão, um gole de vinho, e uma cama? Aonde poderei alojar os meus soldados?...

--V. s.^a está em sua casa! redarguiu por fim o lavrador, respirando mais desafogado. Queira entrar. Eu chamo já a velha e os creados, que estão dormindo. É um instante em quanto se lhes fazem as camas e se arranja alguma cousa para ceiarem. Sem ceremonia entrem camaradas! Tragam os cavallos á redea e venham commigo. Graças a Deus temos aonde aquartelar um regimento... Safa! accrescentou limpando depois o suor da testa com as costas da mão. A gente não ganha para sustos! Sempre cuidei!... Ah! E os outros lá de cima? E os creados d'elles que estão na granja da encosta? Com a breca! Se dão com a lingua nos dentes vae tudo por ares e ventos. Valha-me Deus!... Se eu nunca hei de acabar de ser tôlo! Já minha avó me dizia: João, para que te mettes tu a dobar meadas alheias?! Não ha remedio. É preciso fazer das fraquezas forças.

E juntando o exemplo ao preceito, a sua voz taurina fez saltar em um momento, e pôr de pé os moços e a governante, accender o lume, e preparar tudo para que a hospitalidade promettida aos dragões francezes correspondesse á fartura e largueza, de que se prezava.

--Sabeis que este palacio negro e a caír faria a fortuna de um auctor de novellas tragicas? observou em francez o companheiro de Armand, o tenente Lassagne. Se os espectros o vexam, como se diz, devêmos confessar que escolheram scena propria para seus terrores.

--Espero antes de nos separarmos, atalhou d'Aubry na mesma lingua, que d'esta vez as almas do outro mundo é que hão de ter medo e fugir. Sei de uma excellente receita para isso.

--Ah! Ah! E o nosso sargento, curtido em trinta campanhas, o que diz do demonio e seus saquazes?

--Roberto?!... Ri-se e encrespa os bigodes. Tanto lhe faz combater os austriacos e os prussianos, como os mamelucos, ou os subditos de sua magestade infernal Satanaz I. É capaz de disparar á queima-roupa sobre Asmodeu em pessoa.

--Ha de ser curioso! O meu receio unico é que os phantasmas se recolham aos bastidores e addiem a representação. N'esse caso os logrados seriamos nós....

--De certo!... Mas tenho motivos para crer que a noite de hoje entra no programma diabolico. A demora em abrir a porta, a perturbação d'este lavrador que me parece um contra-regra soffrivel de visões e espectros, certo ar de mysterio e de desconfiança, tudo me faz suppor, que apenas deitarmos a cabeça no travesseiro... teremos logo de a levantar para nos entendermos com as almas do outro mundo. Aposto que lá em cima os ensaiadores andam já a tombos com o averno, ou com o purgatorio?!

--Talvez! Então este casarão é o quartel general?...