A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes
Chapter 2
As bandeiras dos officios fluctuavam nos ares, e uma linha cerrada de bayonetas, pouco condescendentes, não consentiu que os provincianos a atravessassem. O lavrador e seus amigos rosnaram algumas pragas, mas tiveram de as engulir em sêcco e de ficar.
Antonio da Cruz, guapo e decidido, trajava bem suas galas domingueiras, e dava-se ares de moço mui desempenado debaixo das abas do chapéu novo de Braga. Vendo-o assim alegre e pimpão, meio encostado ao cajado, uma saloia, fresca e viçosa como as rosas do campo, pediu-lhe licença de passar para deante afim de ver melhor, e o moleiro officioso fez-lhe logar immediatamente, acto de cortezia recompensado por um sorriso, que descobriu indiscretamente as trinta e duas perolas, que escondiam uns beiços mais vermelhos, do que bagos de romã. Ao mesmo tempo o João da Ventosa e o Manuel Simões, encontrando-se hombro a hombro com um marchante conhecido, homiziavam-se com elle a furto no retiro de uma tasca chamada loja de bebidas, para onde os iniciados se introduziam por um corredor estreito, disfarçado no fundo da entrada da casa, deante da qual se achavam.
Até aqui corrêra tudo admiravelmente, mas o demonio depressa as arma. O sargento, o _Sapo_, e uma quadrilha de beleguins da policia seguiam de longe o triumvirato innocente, desde as portas do Passeio publico. Haviam-n'o perdido de vista, quando á voz do almoço o robusto lavrador capitaneou a evolução, que levára os convivas ao sujo templo, aonde o Comus enfarruscado das iscas os detivera duas horas.
Cabrinha recebêra ordem expressa de Lagarde de se apoderar dos tres amigos, e de os hospedar na cadeia, mas fôra egualmente admoestado para obrar com finura e sem ruido. Era a razão porque não se atrevêra a empolgal-os na rua, e no meio do povo, que seus gritos podiam alvorotar. Quando lhe desappareceram, como se a terra se tivesse sumido com elles, scismando um instante, disseminou logo depois a quadrilha em duas mangas. Uma partiu para o Rocio e foi postar-se á esquina do arco do Bandeira. A outra conservou-se na rua Augusta, vigiando-a. O _Sapo_, trepado em um frade de pedra, servia de vedeta.
O Antonio da Cruz estava todo embebido nos colloquios e requebros de seu galanteio com a saloia, quando sentiu de repente, que lhe batiam no hombro. Virou-se, e deu de rosto com um sujeito magro e grelado, de chapéu arrombado, calções espigados, casaca de côr cambiante, e sapatos risonhos, que lhe disse muito manso ao ouvido, travando-lhe do braço.
--Está preso! Venha commigo. Não faça bulha!
Ao mesmo tempo outro escudeiro, baixo, roliço, olhos encarnados e chorosos, e nariz expansivo, cravejado de rubis assanhados, deitava-se-lhe ao outro braço, ao braço do cajado, pendurando-se quasi n'elle. N'um rapido relancear o moleiro descobriu a poucos passos, cozidos com as hombreiras da porta, por onde se tinham escoado os seus amigos, o sargento, o _Sapo_, e um terceiro quadrilheiro. Esta apparição revelou-lhe que era serio o caso.
Soltando um assobio forte e prolongado, signal aos companheiros para se juntarem e accudirem, o Antonio, sem accusar a intenção na physionomia, sem levantar voz, ou grito, por um movimento secco dos hombros saccudiu de si os dois malsins, e empunhando-os já no ar pela gola assás madura das casacas cossadas e transparentes, cuspiu-os das mãos, colhidos em flagrante, cada qual para sua direcção. Ao arremesso momentaneo, o homem esguio e grelado, por ser mais leve, subiu mais alto, e veiu caír por elevação sobre as costas de um massiço prebendado, com os olhos escudados de oculos e palla verde, o qual estava explicando a duas sobrinhas boqui-abertas a lenda aurea de S. Crispim, pintado na bandeira dos sapateiros. O agarrador, grosso e baixo, mais pesado, voou rasteiro, deixando metade da gola, as costas, e uma aba da casaca no punho do moleiro, e foi bater, como pella despedida, no vulto enorme de certa dona viuva e namoradeira, notavel pelo toucado impossivel e alteroso, a qual occupava os ocios em tiroteio amoroso com um alferes da brigada da marinha, pessoa corpulenta, forçosa, e de maus narizes, cuja carranca um par de bigodes hirsutos e alastrados tornava ainda mais temerosa.
O prebendado com a pancada afocinhou o chão, não sem trazer comsigo tambem de golpe o tambor mór de um dos regimentos, que por acaso seus braços extendidos empolgaram na ancia de se amparar. O militar francez, verdadeiro Alcides, arqueava n'aquelle instante o corpo com donaire, e dobrado para traz, firme nas pontas dos pés, aparava com a palma aberta o couto do bastão volteado com graça. A dona, impellida pelo esbirro-tortulho, soltou um grito agudo, desabando de chofre sobre o peito do seu Adonis. O volume era colossal, e o alferes desapercebido, não podendo suster de pé posto o pezo d'aquella montanha de ternura, que em cima d'elle o alluia, apalpou a calçada com as costas, mastigando uma blasphemia por entre as guias dos bigodes.
O drama complicou-se então. Advertido pelo signal, o João da Ventosa deixára em meio o monstruoso caneco de vinho de Torres, que saboreava, e saltou da tasca vermelho e inflammado. A primeira figura, com que a fortuna o obsequiou, foi a figura patibular do sargento Cabrinha, o qual primeiro se offereceu ás iras do lavrador. Um murro capaz de fulminar um touro prostrou o espião sem sentidos sobre o lagedo. Nem o sacrificador, nem a victima tiveram tempo de proferir palavra. Ao mesmo tempo o marchante, que vinha atraz, colleando os beiços com a lingua, esbarrando com o quadrilheiro entufado em defeza do seu superior, despediu-o nos bicos dos sapatos, e remetteu-o ao meio da rua, aonde se espalmou sobre os pés gotosos de um frade arrabido, mestre e prégador, cujas rezas nasaes paralyzou o baque repentino.
Finalmente, o Manuel Simões da Aramanha, que saíra em ultimo logar, como homem de consciencia, porque não quizera deixar o copo cheio, encarando com o _Sapo_, que se fazia pequeno como um verme a ver se escapava, calado, mas terrivel de gesto, alongou o braço com a rapidez e a força irresistivel da mola de aço, que resalta, e aferrando o aborto pela nuca, com um murro metteu-lhe os dentes e os queixos pelas guelas, e metade a rastos, metade por seu pé, seguiu com elle atordoado e alagado em sangue o rasto dos companheiros. Os tres cortaram depois intrepidos pelo meio da procissão alvoroçada, por entre as alas de tropa baralhadas, e pelo centro dos magotes de povo em remoinho, e entranhando-se por travessas e bêccos desertos esquivaram-se modestamente aos justos applausos de suas proezas.
Cabrinha tornando a si, e os beleguins moidos e estirados, soltavam gritos espantosos, bradando pelo soccorro da justiça. Respondeu-lhes a bengala magistral do tambor mór, e a bainha de ferro da espada do alferes, vingando com raiva incansavel o riso e as vaias da queda desastrada no dorso dos delinquentes. O mais agil dos dois, o homem-grelo, fulo de dor, e cego de medo, para se furtar ao chuveiro de bastonadas, que não cessava de lhe afagar as costellas, atirou-se de um pulo, ao meio do prestito, abalroou um desditoso cruciferario banhado em suor, e encontrando-o em cheio, rolou com elle. Amotinou-se o vulgo, ferveram juras, ameaças, e punhadas, e um patriota, que espreitava a occasião, lembrou-se de açular a desordem, exclamando: «Fujam! fujam! Ahi vem os inglezes!» Não foi preciso mais. O espanto e o terror obraram prodigios. A multidão precipitou-se, e o tumulto tomou as proporções, que sabemos.
Em quanto nos quarteirões da cidade baixa se representavam estas scenas, corriam os tres auctores do motim direitos ao caes hoje chamado da Areia. Chegados em poucos minutos viram uma falua do Riba-tejo de verga de alto, e o arraes, seu conhecido, metteu-os dentro sem mais perguntas. D'ahi a pouco navegavam rio acima, e o _Sapo_, sempre hypocrita e vil, estorcia-se aos pés dos inimigos triumphantes, chorando e supplicando, com prantos mulherís! Mas o Manuel Simões apontava-lhe para a cicatriz da bala, com que o ferira na cabeça, o João da Ventosa encolhia os hombros, e o Antonio da Cruz, grave e conciso, como um juiz do crime, mandava-o calar, jurando-lhe que a arvore e a corda estavam promptas, e não podiam esperar, e que a sua palavra, uma vez dada, havia de ser cumprida. O arraes e os marujos, um ao leme, e dois á proa, assobiavam como se não vissem, ou não ouvissem nada.
O vento soprou de feição, e ás dez horas da noite a falua atracava a Villa Franca.
III
Um conciliabulo politico no anno de 1808
Voltemos á ponte da Asseca, de que ha tanto estamos ausentes.
Vamos saber se o palacio arruinado conserva a sua reputação diabolica, e se o João da Ventosa, depois do façanhudo murro, que esboroou quasi a cabeça ao sargento Cabrinha, se recolheu são e salvo a seus lares, ou se a vingança do espião punido o obrigou a tomar ares mais fortes no exercito nacional do general Bernardim Freire. Avisinhemo-nos com certo resguardo. É noite, e ainda com o luar claro podem tomar-nos por francezes, e pescar-nos com alguma bala patriotica.
Deram onze horas. Provavelmente o patrão e os creados dormem a somno solto esfalfados do trabalho da eira e dos carretos do celleiro. Não! Ha luz no quarto terreo. Espreitemos! Lá está o lavrador sentado com o sabido caneco ao lado, o bojudo cangirão defronte, e o eterno Manuel Simões a fazer-lhe a segunda. Estes pelo menos não emigraram para o Porto, nem mudaram de costumes.
A opinião de que os tumultos do Corpo de Deus tinham sido obra de uma conspiração mallograda salvou das perseguições da policia os tres camponezes. Uma das pessoas, que podia denuncial-os, o sargento Cabrinha, agonizava no hospital accommettido de uma congestão cerebral, e com a perna esquerda partida e amputada, tudo fructos amargosos do funesto dia, que o céu destinára para castigo de seus crimes. Mesmo que escapasse da amputação e á febre, o que os facultativos duvidavam, todos prognosticavam que acabaria demente, ou nescio.
Restava o Gaspar Preto, o _Sapo_, do qual nos despedimos a ultima vez, deixando-o entre as garras de dois inimigos resentidos e inexoraveis, o Antonio da Cruz e o fazendeiro da Aramanha. O que é feito d'elle?
Tres dias depois as mulheres que iam ceifar ao campo, passando pelo alto do Valle, viram de longe balouçado pelo vento nos galhos da figueira do José Lopes, a mais elevada e formosa arvore dos contornos, um vulto, que á luz incerta e na meia treva do alvorecer, tomaram por espantalho pendurado para assustar os passaros.
Palraram, discorreram, entre si as comadres e as visinhas ácerca d'aquella novidade, e acabaram por decidir, como verdadeiras pêgas curiosas, que o caso merecia exame. Subiram a encosta. Quando chegavam acima, rompia ainda pallido o primeiro raio de sol. Soltaram um grito de susto, e ataram as mãos na fronte! O espantalho era um homem enforcado!
Quizeram fugir, mas o peccado de nossa mãe Eva deteve-as. Antes das linguas paroleiras tocarem a rebate no logar e nos arredores era indispensavel conhecer o infeliz. As mais velhas e resolutas armaram-se de valor, e approximaram-se. Outra exclamação, em que o espanto se revelava mais, do que o dó, chamou em volta d'ellas as raparigas. O padecente, que em vida fôra assaz feio, apparecia-lhes medonho n'este patibulo repentino com a cabeça pendente, a lingua fóra da bôcca, e os olhos esbugalhados e saidos das orbitas. Tinha as mãos amarradas atraz das costas e um rotulo no peito, que dizia: «Justiça de Deus! Por Judas!»
As mulheres benzeram-se em silencio, e olharam umas para as outras. O medo curou-as por um instante da loquacidade. Apezar das contorsões, que desfiguravam o rosto da victima, e que a morte como que immobilizára, petrificando-as com sua rigidez, aquella cara, tantas vezes vista, não podia enganar a memoria das matronas e donzellas. Era o _Sapo!_ o _Sapo_ garrotado!
Satisfeito este ultimo instincto de sua indole, as mulheres dispersaram-se como um vôo de gralhas ao tiro do caçador, e esquecendo a ceifa e o jornal, correram, como loucas cada uma para sua parte, a fim de espalharem a noticia. O primeiro, que avistaram, e a quem a deram, foi ao Antonio da Cruz, que acharam assentado á porta do moinho, com o cigarro acceso na bôcca, e a espingarda ao lado. Escutou-as sem se alterar, saccudiu o lume com um piparote, e erguendo-se vagaroso e sereno, respondeu-lhes:
--Então! São coisas! Deus escreve muitas vezes direito por linhas tortas! O velhaco não merecia uma, mas cem forcas.
Fechou depois a porta, metteu a chave no bolso da vestia, e partiu direito a Santarem pela Ponte da Asseca sem olhar para traz. A isto se reduziu da sua parte a oração funebre do desgraçado malsim!
O povo commentou, como costuma, o successo, repartiram-se os votos sobre a causa e os auctores da execução, porém nem um só dos patriarchas da aldeia se lembrou de boquejar no Antonio da Cruz. Os contrabandistas, como tinham os hombros largos, carregaram com todas as culpas, e a versão mais seguida foi que o desditoso _Sapo_ recebêra de alguns d'elles com capital e juros o premio de suas espertezas e denuncias.
No emtanto os acontecimentos politicos adeantavam-se. A revolução do norte creára forças, e os francezes, acossados e repellidos de toda a parte pelas populações iradas, já não chamavam seu, senão ao terreno que pisavam. A derrota dos insurgidos do Alemtejo por Loison em Evora, o saque e o martyrio da cidade levada de assalto, longe de acalmarem os animos, exaltaram-n'os com a narração exagerada dos horrores perpetrados pelos francezes. O nome de Loison, já odioso, tornou-se execravel; e a sêde de vingança accendeu-se em todos os peitos, ardente e implacavel. Lisboa principiou a agitar-se. Os moradores mais abastados, fugindo ao jugo detestado dos estrangeiros, accolhiam-se ás provincias sublevadas. A cidade tornou-se um deserto. Em pleno dia as ruas eram silenciosas, como se a peste as houvesse despovoado. A falta de communicações com o norte e o sul do reino, e com o mar, elevou o custo dos generos a preços fabulosos, e a escacez do trabalho assentou a miseria e a fome no albergue do pobre e do operario. Os proprietarios não recebiam suas rendas, nem os empregados seus ordenados. Mais de vinte mil pessoas decentes, que viviam dos salarios da côrte e dos lucros do commercio, pediam agora esmola! Os habitantes ruraes, intimados para entregarem as espingardas, evadiam-se em grande numero com ellas, e iam engrossar a insurreição. Ninguem podia sair as portas de Lisboa sem passaporte. As bombas, os foguetes, e os fogos de artificio, alegria e paixão das festas e arraiaes, foram prohibidos. Emfim todas as oppressões e violencias se accumulavam para apressar as horas de dominio, que o governo francez ainda havia de contar, quasi reduzido á capital do reino e suas cercanias.
Leiria, vendo o Porto, Braga, e Coimbra levantadas, quiz imital-as com mais zelo, do que prudencia. Os vaticinios patrioticos do morgado de Penin, excellente portuguez e pessimo soldado, não se tinham cumprido, senão na parte mais facil. O resto, o peior da empreza, encarregou-se o brigadeiro Margaron de o concluir por ordem de Junot. O ex-coronel de cavallaria e alcaide mór Rodrigo Crespo, e o coronel do regimento de milicias Isidoro Pinto Gomes, com um punhado de soldados indisciplinados, unidos ao capitão mór das ordenanças do termo, Manuel Carranca, sonharam uma restauração temeraria, decidiram o bispo a cantar um _Te Deum_ na egreja matriz, e passeiaram em triumpho entre acclamações estrepitosas o estandarte de Portugal.
Vimos com que leviandade o major Alvaro e o morgado de Penin discutiam os seus planos de rebellião, como se os veteranos de Bonaparte fossem soldados de chumbo, ou de papelão. As avançadas inimigas, entrando em Rio Maior, despertaram os dois velhos crianças de suas illusões. O galope de seus cavallos, reputados os melhores da Extremadura, salvou-os de ficarem prisioneiros e trouxe-os já meio desenganados a Leiria, aonde a sua presença sobre-excitou as paixões, em vez de as aplacar. Todos juraram morrer defendendo os muros derrocados e o castello da terra natal; anoiteceu porém, e os heroes, conversando com o travesseiro, sentiram esfriar repentinamente os brios. O prelado recordou-se de que, ministro de um Deus de paz, devia abominar o sangue, e, cavalgando a mula episcopal, apartou-se a bom andar do sitio da tentação. Muitos dos granadeiros da independencia, que na vespera rachavam ainda os céus com féros brados, lembrados de que á noite todos os gatos são pardos, aproveitaram o escuro, e eliminaram-se sem ruido, mais cuidadosos da saude do corpo, do que do esplendor de suas armas. Ficou o povo, gente quasi inerme, alvoroçada, e inconstante. A primeira descarga inimiga varreu, como pó, essa plebe, e abriu as portas aos francezes. Como Achilles os lidadores de Leiria sobresaíram na ligeireza dos pés!
Mas até os triumphos de Junot conspiravam a sua ruina. Cada derrota dos portuguezes levantava em favor da independencia milhares de braços. Quando um povo inteiro se torna inimigo, o seu nome é legião, e a fabula de Cadmo realiza-se. Evora e Leiria volveram logo a si, e Loison e os generaes estrangeiros recuaram. A ambição de Bonaparte cansára a fortuna, e Deus tinha designado a peninsula para theatro das primeiras licções dadas ao seu orgulho, e dos primeiros revezes experimentados pelas suas aguias. Encarando o bello sol das Hespanhas, a estrella do imperio sentiu esmorecer o brilho, e começou a declinar.
Os adversarios irreconciliaveis, aos quaes o novo Cesar imaginou cerrar para sempre nossas praias, saltaram n'ellas como libertadores, e romperan essa guerra, alternada de victorias e revezes, que só havia de findar ás portas de París. Sir Arthur Wellesley á frente dos soldados embarcados em Cork, seguidos de perto pelas tropas de Sir John Moore, transportadas do Baltico, combinando as operações com o almirante Sir Charles Cotton, e com os generaes, que dirigiam a insurreição de Portugal, havia de pisar em breve a terra, aonde o esperavam tantos tropheos, marchando direito sobre Lisboa, decidido a arriscar em um só lanço a sorte de toda a lucta.
O duque de Abrantes era uma alma bem temperada. Se as prosperidades entorpeciam a sua indole um pouco frivola, o infortunio, ou os perigos, encontravam-o sempre intrepido. As más noticias não o desalentaram. Decidido a disputar até á ultima escorva a capital do paiz, que por momentos julgára esquecido dos seus reis e da sua autonomia, não trepidou um momento, empregando todos os esforços para conservar Portugal engastado como joia inestimavel no diadema do conquistador.
Para que a heroica decisão não desmentisse tão audaciosas esperanças, era necessario reunir em Lisboa todas as forças activas. Kellerman expelliu de Alcacer do Sal os bandos de guerrilhas, que a infestavam, evacuou Setubal, e veio coroar com suas tropas as eminencias de Almada.
Todos os preparativos, ditados com vigor, correram rapidos. As prevenções compativeis com o pequeno numero de bayonetas, que lhe obedeciam, foram adoptadas a tempo. O general Graindorge defendeu a margem esquerda do Tejo. O regimento 47.^o guarneceu o forte da Trafaria, a torre do Bogio, e os navios fundeados. O regimento 66.^o occupou Cascaes. A legião do Meio Dia a torre de S. Julião da Barra. O regimento 26.^o cubriu Belem, o Bom Successo, e a Ericeira. O 15.^o Lisboa e Sacavem. O marechal Travou foi nomeado governador das armas da capital; o general Avril governador do castello de S. Jorge; e o conde de Novion, á testa da guarda da policia rareada pelas deserções, e quasi limitada ao seu estado maior, auxiliava a conservação da cidade, reputada por Junot como base essencial de todos os seus projectos.
No dia 15 de agosto, anniversario do nascimento de Napoleão, o duque logar-tenente reuniu ainda nas salas do palacio da sua residencia, a nobreza, o clero, os magistrados, e os officiaes superiores, e recebeu-os com um rosto tão alegre e prazenteiro, como se Catilina não batesse quasi ás portas de Roma, ou como se o trovão dos canhões britannicos, já bem proximo, não acordasse os echos dos campos de batalha, aonde se ia jogar esta partida, que deu o signal a tantas tempestades na Europa!
Eis o estado dos negocios, e pedimos venia ao leitor de o ter demorado tanto na Ponte da Asseca com esboço tão informe de noticias politicas e militares. Voltando atraz, e penetrando com elle discretamente no corredor, meio alluido do andar nobre do palacio _maldicto_, pedimos licença para o guiarmos pelo som das vozes, que parecem altercar em uma sala proxima, até o seio mesmo do congresso dos conspiradores, que alli pleiteiam competencias, e apuram alvitres afim de coadjuvarem as armas nacionaes e os progressos dos alliados.
Era noite, já o dissemos, e noite adeantada. A lua alta nos ceus espalhava o seu clarão sobre as aguas dormentes da villa, e prateava de luz branca, franjando-as, as copas das oliveiras, trepadas pela encosta fronteira. Tinham dado onze horas, e havia duas que os oradores patriotas exgotavam toda a sua eloquencia sem se entenderem. A casa vasta, arruinada, com os tectos a cair, e os sobrados a desfazer-se de podridão, estava mais de metade mettida na escuridade quasi clara, que fazia a sombra das paredes luctando com a lua e as estrellas. Todas as janellas, que abriam para as hortas, sem vidraças, nem portas, deixavam coar livremente o ar, e os ruidos de fóra, tão sensiveis na solidão e no silencio nocturno.
Na parte mais reparada, entre duas portas quasi penduradas das couceiras carcomidas pela ferrugem, via-se uma comprida mesa de pinho allumiada por enorme candieiro de latão de tres bicos, cuja chamma enfumada a aragem saccudia e ondeava. Á roda da mesa, ornada apenas de um tinteiro de pau immenso, de pennas resequidas, e de papel em branco, sentados em mochos toscos, viam-se alguns homens, tão diversos nos trajos e maneiras, como na physionomia e expressão.
Na cabeceira, com a face recostada no punho, as palpebras quasi fechadas, e certo ar de imperio indolente, estava um ancião, que a farda de panno azul escuro com abotoadura e guarnições brancas, e dragonas de cachos, denunciavam como official superior de um dos corpos de milicias. Era o coronel Isidoro Pinto Gomes, que a espada do general Margaron não podéra alcançar em Leiria, e que o zelo attrahia a todos os conciliabulos patrioticos. O major Alvaro á direita d'elle, e o morgado de Penin á esquerda, ambos de uniforme, e com os capotes, com que se encobriam apezar da estação, abertos, ou derrubados para traz, compunham o que hoje diriamos a mesa da presidencia.
Mais abaixo a farda verde comprida com vistas brancas e o chapeu armado de outro personagem accusavam com evidencia egual o seu cargo de capitão-mór de ordenanças. Manuel Carranca, tambem salvo por milagre do conflicto de Leiria, inflammava-se em um debate violento com uma pessoa, que o habito e o cordão, as bochechas redondas, a triplice rosca da barba, e o ventre empinado proclamavam logo como um dos mais apopleticos, irasciveis, e facciosos filhos de S. Francisco. Este padre, conhecido e respeitado como orador sagrado, pertencia ao convento de Santarem, e chamava-se fr. João Salgado. O segundo interlocutor, com o qual repartia os thesouros da dialectica, ainda moço, pallido, melancholico, e esbelto, sem lhe ceder uma pollegada de terreno, sorria-se dos clamores freneticos do reverendo, e parecia atiçal-os mesmo com prazer maligno, lançando no meio de suas apostrophes uma interjeição, ou uma exclamação repentina, que tinham a virtude de fazer saltar o theologo aos ares como uma mina carregada. Os outros conjurados ouviam calados, trocando apenas algum relancear de olhos, como no circo os espectadores comtemplam as vicissitudes da lucta entre dois campeões afamados, contentando-se com o espectaculo, e abstendo-se de o perturbar com os seus applausos, ou com a sua reprovação.