A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes
Chapter 10
--Bravo! gritou da porta Paulo de Azevedo. Não sabes Leonor? A bandeira branca, a bandeira sem mancha, já tremula no castello e nas fortalezas! Os vivas nas ruas da baixa atrôam tudo. Os foguetes em girandolas sobem e estalam nos ares. Os repiques dos sinos, as salvas de artilheria no rio, coalhado de navios e botes, e nas torres, ensurdecem. Os montes da cidade estão negros de gente. É um delirio, uma loucura! Deram-me mais de cem abraços, e não sei ainda a quem os devo! Somos livres. Temos rei e patria!... Manuel Coutinho dentro de tres dias quero que seja meu filho. Temos a dispensa concedida e o padre de casa, o nosso santo bispo. D'Aubry! Deixe rir e cantar os rapazes! Não faça caso. Quando vier a paz geral... venha comer comnosco a Lisboa as broas do natal!...
Armand, ouvindo anunciar para tão breve o casamento de Leonor, tinha-se tornado livido como um cadaver, e vacillára. A vista cobriu-se-lhe de nuvens, e se Lassagne o não amparasse, não se sustinha de pé. A donzella, á qual Manuel Coutinho apertava a mão com namorado enlevo, leu a desesperação nos olhos do official francez, e sentiu quasi remorsos do amor que o matava a elle. Silenciosa e pallida inclinou a fronte, e sepultou no peito o suspiro, que ia jà a soltar indiscretamente. D'Aubry venceu-se de pressa.
Tornando-se a si, adivinhou o que encerrava de affectuoso e nobre o silencio da noiva, e resolveu corresponder-lhe com generosidade egual. Pegando na mão de Manuel e de Leonor, e unindo-as, disse ao velho cavalheiro com um sorriso:
--Sr. Paulo de Azevedo! Este dia de jubilo para Portugal não me entristece. Nós o vingaremos, como soldados, em outros campos. Consinta que na hora de partir, e de lhe dizer adeus para sempre, eu beije a mão de minha irmã, e que estreite nos braços o irmão que me salvou!...
E depois de abraçar Manuel, os seus labios tocaram por instantes a bella mão de Leonor. A donzella, sentindo caír sobre ella uma lagrima ardente, que lhe escaldou a alma, refugiou-se confusa e anciosa contra o peito do esposo promettido.
--Aubry! Não acceito desculpas. Ha de ser dos nossos, assista ao casamento de minha filha!
--É impossivel! redarguiu Armand com tristeza, logo dissipada pelo impeto affectado do seu genio jovial. As nupcias de Manuel fizeram-me lembrar, de que tambem tenho uma noiva, a gloria, noiva que espera por mim para consumar o meu destino. Leonor, adeus. É melhor despedirmo-nos já d'aqui... até á eternidade! ajuntou em voz sumida.
--Armand! respondeu ella no mesmo tom. Fique! Não vê que a morte, que deseja, é um suicidio?!
--Não. É um dever. Adeus. Lassagne! Quando em França nos recordarmos de Portugal... a doce imagem do anjo, que nos salvou, sempre gravada no peito, será a companheira e a consoladora de nossas saudades. Manuel Coutinho! A sua felicidade com a esposa, que vae ter, é para ser invejada até do céu. Não importa, merece-a. Nunca encontrei maior alma, nem coração mais puro. Sr. Paulo de Azevedo! Ficam-lhe dois filhos para amparo da sua velhice. Quer lançar uma benção sobre o terceiro, que não tornará a ver talvez, mas que jura amal-o sempre?
O cavalheiro commovido apertou-o nos braços, beijou-o como filho, e arrancando-se a custo ao doloroso enlace, exclamou:
--D'Aubry! Se Deus me tivesse dado um filho assim?! Adeus. Não se demore. Faltar-me-ia o animo. Não quero... vel-o partir.
Um momento depois Lassagne e Armand volviam para aquella casa um derradeiro e sentido olhar. O primeiro levava só vivas as saudades; o segundo deixava n'ella para sempre metade da sua alma e a alegria de toda a vida.
Silenciosa e triste, Leonor seguiu-os com a vista até desapparecerem. Depois enxugou as lagrimas a furto, e suffocou os suspiros.
Teria receio de amar de mais o irmão que fugia d'ella para não entristecer a sua felicidade!?
Quem se atreverá a decifrar os mysterios do coração feminino?
A guerra da independencia prolongou-se. Armand e Manuel Coutinho, pelejando debaixo de bandeiras oppostas, não se encontraram. Paulo de Azevedo e sua filha falavam a miudo do official francez, que o seu coração não sepultára com a ausencia, e o avô, fazendo saltar nos braços o primeiro neto, fructo mimoso do afortunado enlace, muitas vezes repetia com os olhos humidos: Deus te faça um homem, como teu pae, ou como Armand d'Aubry!
Quando a batalha de Waterloo encerrou a ultima pagina da epopeia maravilhosa do primeiro imperio, Manuel, que subíra por suas proezas a um posto elevado no exercito, e que teve a gloria de não assistir obscuro áquelle derradeiro feito de armas, levantou do campo o coronel d'Aubry, moribundo e varado de balas nos quadrados da velha guarda. A morte d'esta vez quizera accudir, mas vagarosa e incerta, ao chamamento do mancebo. Tres mezes depois Armand pelo braço do esposo de Leonor batia de novo á porta da casa, de que se despedira sem esperanças de a tornar a ver.
A sua presença, festejada por Paulo de Azevedo e pela filha, como verdadeira ventura domestica, avisou a serena alegria, em que se escoavam os ditosos dias dos seus amigos. D'Aubry mostrava ter esquecido na lucta de gigantes da épocha o louco amor, que lhe apressára annos antes a saída de Portugal. Nem um gesto, nem uma palavra revelaram da sua parte a menor fraqueza! Sómente, ao apartar-se, já na vespera de embarcar para Londres, é que o segredo foi revelado por um gemido mais alto do coração. Leonor, sempre discreta, simulou não o entender, mas percebeu que o francez partia para não voltar! A antiga ferida continuava aberta, seria sem remedio d'esta vez?
FIM DO SEGUNDO E ULTIMO VOLUME DA «CASA DOS FANTASMAS»
NOTAS AO SEGUNDO VOLUME
I
As chacotas os andores, o baile das espadas etc. pag. 7
A festa do Corpo de Deus, instituida em 1264 pelo Papa Urbano IV, para dar a Jesus Christo culto particular, era solemnizada nas villas e cidades principaes do reino com exquisitas invenções de figuras, danças, e folias. A procissão saía na primeira quinta-feira, depois da festa da Santissima Trindade, attraindo os olhos, e enlevando a imaginação do povo pelo esplendor e pompa, de que se rodeava.
As noticias impressas mais antigas, que sobrevivem ácerca d'ella, encontram-se nas _Dissertações Chronologicas_ de João Pedro Ribeiro, e no _Novo Regimento para o governo da mesa da bandeira de S. Jorge, fundada nas cartas, alvarás e lembranças do antigo regimento, que se queimou pelo terremoto de 1755_, publicado pelos habeis archivistas da camara municipal de Lisboa, em cujo cartorio se guarda.
No seu romance intitulado o _Monge de Cister_, com tanta rasão admirado como primoroso modelo da novella historica, descreve o sr. A. Herculano (tomo II e pag. XVII) a procissão de corpus referida ao anno de 1384; reinado de D. João I; e o quadro do poeta, desenhado do natural, é tão perfeito e verdadeiro, que vemos resuscitadas e vivas n'elle as feições do grande espectaculo religioso da meia edade n'este dia.
João Pedro Ribeiro, no tomo III das _Dissertações Chronologicas_, doc. LII pag. 153, insere um alvará datado de 16 de agosto de 1630, pelo qual o rei ordena, que os tribunaes do Porto acompanhem de futuro a procissão do Corpo de Deus da mesma fórma, que a tinham acompanhado n'este anno. No tomo IV das _Dissertações_ (doc. XIII a XVI.) publica duas cartas da rainha regente D. Catharina, uma datada de 30 de maio de 1560, e a outra de 13 de maio de 1561, nas quaes dicta alguns preceitos ácerca do modo e fórma de reger a procissão na cidade do Porto, e de cohibir as representações deshonestas e escandalosas, introduzidas n'ella.
Outras duas cartas, uma de el rei D. Filippe III, escripta em Aranjuez em 15 de maio de 1607, outra dirigida ao juiz, vereadores e procurador da camara da cidade do Porto, pelo marquez de Castello Rodrigo em 18 de maio de 1608, (doc. XV e XVI), tractando do mesmo assumpto, respondem ás queixas do bispo D. Fr. Gonçalo de Moraes, e providenceiam ácerca d'ellas. Finalmente o _Regimento feito pelos officiaes da camara da cidade do Porto para a procissão de corpus com o parecer do Dr. Antonio de Cabral, chanceller da Relação_, regimento approvado pelo alvará de 15 de julho de 1621, encerra o plano de distribuição das figuras, córos, danças, folias, monstros, chacotas, imagens, anjos, demonios, andores, charolas, communidades, clero, e tribunaes, que haviam de acompanhar o prestito, determinando o logar, que lhes cabia n'elle, e a ordem em que tinham de caminhar.
No _Regimento Novo_ de Lisboa, que já citámos, diz-se que a primeira vez, que o sr. S. Jorge saiu com o seu estado na procissão foi no anno de 1387 por ordem expressa de D. João I. No reinado de D. João III, em 1538, o prestito era tão vistoso e variado pela singularidade e invenções das figuras, e pela opulencia e riqueza que ostentavam as corporações mechanicas, que não admirava que se despovoassem os arrabaldes e até as provincias para assistir a tão sumptuosa festa. Em tempos mais proximos havia toirada no dia da procissão.
D. João V, instituindo a Patriarcal em 1717, decretou nova fórma á procissão de corpus, tornada menos profana e mais devota. A grande pompa e o immenso cortejo, que a ennobreceu no anno de 1719, proporcionou fecundo thema á eloquencia do incansavel irmão Barbosa Machado, auctor da obra a que se refere o texto.
II
O resto, o peior da empreza, encarregou-se o brigadeiro Margaron de o concluir por ordem de Junot, etc., pag. 29.
Coimbra sublevou-se contra os francezes no dia 22 de junho, formando logo para sua defeza a legião academica, composta dos estudantes ás ordens do vice-reitor. O Porto tinha-se levantado no dia 18, dando o exemplo a toda a provincia do Minho. O Algarve insurgiu-se a 16. A provincia da Beira não se demorou tambem. Dentro de poucos dias o incendio tinha-se extendido a todo o reino, tornando-se geral.
Os francezes conservavam guardas avançadas em Pombal e Leiria. Quinze estudantes e um cabo conceberam o projecto de desalojar, e sairam com esse intento de Coimbra no dia 28 de junho. Perto de Leiria foram accommettidos por vinte e dois dragões de Junot; travou-se a peleja; a cavallaria inimiga cedeu, e communicou o panico ao resto da força postada á entrada da ponte. Esta, recuando, dispersou-se, ferida de terror.
O governo francez, offendido do atrevimento, decidiu dar um exemplo severo, castigando Leiria. O general Margaron partiu de Lisboa á frente de dois batalhões, de quatro companhias escolhidas, e de seis peças de artilheria, incumbido da execução marcial decretada contra a cidade.
A columna provou logo em Alcoentre o seu ardor de vingança. Tomando o innocente cirio da Ameixieira por um tropel de guerrilhas, Margaron manda armar uma embuscada por traz de um pinhal, e o chefe de esquadrão Salm-Salm investe, intrepido e implacavel, os aldeãos devotos, como se fossem leões embravecidos. Aos primeiros tiros caem por terra banhados em sangue o gaiteiro e o prégador. Depois são assassinados indistinctamente homens, mulheres, e crianças. A fuga salva o maior numero da furia dos vencedores, cujos despojos n'esta batalha incrivel são duas bandeiras de Nossa Senhora, expostas como tropheus no quartel general. O boletim de 7 de julho teve a ingenuidade de commemorar como derrota de um exercito de rebeldes esta carnificina do povo inerme!
No dia 5 uniu-se o general Thomiéres com 800 homens a Margaron, e marcharam ambos contra Leiria A cidade passou, como é de crer, dos fogosos arrebatamentos de jubilo patriotico a uma sombria apprehensão dos males, que a ameaçavam. Não contava para se defender, senão com os brios já desalentados de algumas companhias de ordenanças, que haviam principiado a organizar-se sob o commando do coronel de cavallaria Rodrigo Barba Allardo, alcaide mór. O capitão mór, Manuel Trigueiros, auxiliava-o com mais zelo, que pericia, e o coronel de milicias Isidoro dos Santos Ferreira procurava reanimar o esforço de todos com seus discursos. Era pouco para arrostar em fortificações, nem meios solidos de resistencia o valor disciplinado dos soldados do exercito da Gironda.
A noite, e a noticia do que occorrêra em Alcoentre, acabaram de arrefecer o enthusiasmo amortecido dos moradores. Rodrigo Barba, os magistrados, e o bispo, não julgando prudente, desarmados, como se viam, affrontar as iras dos inimigos, evadiram-se sem ruido durante a calada das trevas. Quando rompeu o dia, apenas oitocentos homens da plebe, e duzentas ordenanças de espingardas e chuços se atreveram com temeridade louca a disputar sem chefes a entrada da cidade aos francezes. Margaron deu-lhes as honras de guerreiros consumados, tomando as disposições, que poderia exigir uma força regular e numerosa. Avançou contra Leiria com as tropas divididas em duas álas e a artilheria no centro. Disparados os primeiros canhões, e dadas as primeiras descargas de mosqueteria, o povo fugiu em confusão, e os francezes apoderaram-se da cidade com perda de um homem morto e de dois feridos!
Os vencedores despregaram então toda a crueldade contra velhos, mulheres, e crianças, que imploraram debalde a sua misericordia, e metteram toda a povoação a ferro e saque. O principe de Salm-Salm sobresaiu com ferocidade n'esta campanha contra prisioneiros inermes. O palacio episcopal, a Sé, e os templos foram roubados; as egrejas desacatadas; as casas particulares invadidas e despojadas. O resultado foi incenderem-se mais os odios, e recrudescer a resistencia nacional. (Vid. general Foy tomo II liv. VIII).
III
O duque de Abrantes mostrou-se digno dos feitos heroicos, que ennobreceram a sua carreira etc. pag. 68.
A vida de Junot comporia quasi um romance.
Nascido em 23 de outubro de 1771 contava trinta e sete annos em 1808. Estudante do collegio de Châtillon, quando rebentou a revolução, alistou se como voluntario em uma companhia de granadeiros, e combateu com denodo em defeza da patria. O valor temerario e arrebatado grangeou-lhe no quartel a alcunha do _Tempestade_; mas a sua elevação começa em Toulon. Bonaparte conheceu-o e apreciou-o alli, e nunca mais deixou de o proteger.
As proezas com que sobresaiu nas campanhas de Italia e do Egypto, e a dedicação pessoal, que sempre votou a Napoleão I, apressaram a sua carreira. Nomeado governador de Paris depois do dia IX thermidor, e casado com Mademoiselle Permon, cuja casa frequentára com Bonaparte em dias menos felizes, subiu rapidamente os postos. Em 1804 achava-se coronel general dos hussards. Embaixador em Lisboa e condecorado por D. João, principe regente com a gran-cruz de Christo, saiu da côrte portugueza em outubro de 1805 sem licença, e veiu apresentar-se a Bonaparte nas vesperas da batalha de Austerlitz, aonde realçou a antiga valentia em mais de um rasgo brilhante.
Em julho de 1806 foi nomeado governador de Paris e commandante da primeira divisão militar. Prodigo e singular nos appetites, não havia ouro que o saciasse. Os excessos repentinos e fulminantes da sua ira assustavam até os amigos mais intimos. Napoleão escolheu-o para capitanear o exercito, que invadiu Portugal em 1807, e a principio não teve rasão de se arrepender. A sua marcha rapida sobre Lisboa pelas montanhas da Beira mereceu os louvores dos militares, e justificou o titulo de duque de Abrantes, com que o imperador o recompensou.
A convenção de Cintra não interrompeu a carreira de Junot. Na Hespanha, na Allemanha, e outra vez em Portugal, mas ás ordens de Massena, a sua espada não ficou ociosa. Ferido gravemente no rosto durante a guerra da Peninsula recolheu-se a Paris. Depois da campanha de 1812, em que o imperador o censurou de irresoluto em um dos seus boletins, a rasão do duque de Abrantes principiou a vacillar, e em Veneza acabou de se abysmar nas sombras da demencia. Transportado para casa de seu pae, em Montbard, falleceu a 22 de julho de 1813 de um accesso violento de febre depois de uma dolorosa amputação.
Junot não era soldado rude e grosseiro. Gentil e urbano, sabia attrahir pelas maneiras, e era susceptivel de sentimentos elevados e de acções nobres. Intrepido e intelligente, se os perigos e a morte o não faziam recuar, o pezo das responsabilidades acurvando-lhe com frequencia o animo, tornava-o inferior a si proprio nas posições eminentes. Nascêra para ser o segundo e nunca para ser o primeiro nas arriscadas funcções do governo. Os erros, que lhe estranham mais, derivaram-se todos d'esta incapacidade natural. Cultor das boas artes, e dotado de gosto e critica judiciosa, a sua bibliotheca encerrava os mais bellos exemplares das edições de Bodoni e Didot impressas em velino. Em Lisboa, entre as cousas raras, que tomou para si, figuravam a famosa Biblia ornada das miniaturas de Julio Clovio e alguns quadros preciosos.
Junot morreu aos quarenta e dois annos, tendo vivido por seus vicios e fadigas quasi tres edades de homem. Os costumes dissolutos, que, longe de encobrir, parecia alardear, a avidez pouco escrupulosa, com que se maculou em diversos lances, o fausto e as prodigalidades, de que se rodeava, e as furias momentaneas de um genio assomado, raiando quasi em demencia empanaram e diminuiram a gloria conquistada pelo seu valor de paladino em campos de batalha memoraveis.
Sua mulher, a duqueza de Abrantes, não foi menos celebre como escritora e como dama espirituosa.
DOCUMENTOS
N.^o 1
*Tratado secreto concluido em Fontainebleau entre o imperador dos francezes e el-rei de Hespanha*
Napoleão por graça de Deus, etc., etc., etc., havendo lido e examinado o tractado concluido e assignado em Fontainebleau em 27 de outubro pelo general de divisão, Miguel Duroc, nosso mordomo mór, etc., etc., em virtude dos plenos poderes que para esse fim lhe démos, com D. Eugenio Izquierdo de Ribera y Lesaun, conselheiro d'estado honorario de sua magestade el-rei de Hespanha, egualmente munido de plenos poderes de seu soberano, cujo tractado está concebido na fórma seguinte:
Sua magestade o imperador dos francezes, rei de Italia, etc., etc., e sua magestade catholica el-rei de Hespanha, desejando de sua livre vontade regular os interesses dos dois estados, e determinar a sorte futura de Portugal de uma maneira congruente com a politica de ambas as nações, nomearam para seus ministros plenipotenciarios, a saber: Sua magestade o imperador dos francezes ao general de divisão Miguel Duroc, mordomo mór de sua imperial casa, etc., e sua magestade catholica el-rei de Hespanha a D. Eugenio Izquierdo de Ribera y Lesaun, seu conselheiro d'estado honorario, etc., os quaes, depois de haverem trocado seus plenos poderes, convieram em o seguinte:
Artigo 1.^o As provincias d'entre Douro e Minho com a cidade do Porto serão dadas com toda a sua propriedade e soberania a sua magestade el-rei de Etruria, com o titulo de rei da Lusitania septentrional.
Art. 2.^o A provincia do Alemtejo e reino do Algarve serão dados com toda a sua propriedade e soberania ao principe da Paz, para os possuir com o titulo de principe dos Algarves.
Art. 3.^o As provincias da Beira, Traz-os-Montes e Extremadura portugueza permanecerão em deposito até á paz geral, em que d'ellas então se disporá, conforme as circumstancia, e pela maneira que for determinada pelas altas partes contratantes.
Art. 4.^o O reino da Lusitania septentrional será possuido pelos descendentes, herdeiros de sua magestade el-rei de Etruria, conforme as leis de successão observadas pela familia reinante de sua magestade catholica.
Art. 5.^o O principado dos Algarves será hereditario na descendencia do principe da Paz, segundo as leis de successão, vigentes em a familia reinante de sua magestade el-rei de Hespanha.
Art. 6.^o Por falta de descendente, ou legitimo herdeiro de el-rei da Lusitania septentrional, ou do principe dos Algarves será a investidura d'estes dois paizes garantida a sua magestade catholica, com a condição porém de que nunca ficarão reunidos em a mesma pessoa, nem á corôa de Hespanha.
Art. 7.^o O reino da Lusitania septentrional e o principado dos Algarves reconhecem tambem como protector a sua magestade; e os soberanos d'estes paizes nunca poderão fazer a guerra, ou a paz sem o seu consentimento.
Art. 8.^o No caso que as provincias da Beira, Traz-os-Montes, e Extremadura portugueza, conservadas como em sequestro, forem pela paz geral restituidas á casa de Bragança por troca de Gibraltar, Trindade, e outras colonias, que os inglezes hão conquistado aos hespanhoes e a seus alliados, o novo soberano d'estas provincias contrahirá para com sua magestade el-rei de Hespanha as mesmas obrigações, que ligam á sua augusta pessoa el-rei da Lusitania septentrional e o principe dos Algarves.
Art. 9.^o Sua magestade el-rei de Etruria cede com toda a sua propriedade e soberania o reino de Etruria a sua magestade o imperador dos francezes, rei da Italia.
Art. 10.^o Logo que se leve a effeito a occupação definitiva das provincias de Portugal, os principes respectivos, que d'ellas tomarem posse, nomearão entre si commissarios para demarcar os convenientes limites.
Art. 11.^o Sua magestade o imperador dos francezes, rei da Italia, garante a sua magestade catholica el-rei de Hespanha a possessão de seus estados na Europa ao sul dos Pyrenéos.
Art. 12.^o Sua magestade o imperador dos francezes, rei da Italia, annue a reconhecer sua magestade catholica, el-rei de Hespanha, como imperador das duas Americas, quando sua magestade catholica se resolver a tomar este titulo, o que terá logar pela paz geral, ou dentro de tres annos o mais tardar.
Art. 13.^o Fica entendido entre as altas partes contratantes, que ellas repartirão egualmente entre si as ilhas, colonias, e mais possessões maritimas de Portugal.
Art. 14.^o O presente tractado ficará secreto: será ratificado e as ratificações se trocarão em Madrid vinte dias o mais tardar depois da data em que foi assignado.
Feito em Fontainebleau.
_Duroc.--E. Izquierdo._
(_E logo por baixo_). Approvámos e approvâmos, pelas presentes ratificações o antecedente tractado, e todos, e cada um dos artigos que n'elle se contém. Declarâmos que fica acceito, ratificado e confirmado, e promettemos que será inviolavelmente observado. Em fé do que assignâmos com o nosso proprio punho as presentes ratificações, depois de lhe havermos feito pôr o nosso sêllo imperial.
Fontainebleau aos 29 de outubro de 1807.
NAPOLEÃO.
O ministro dos negocios estrangeiros.
_Champagny._
O ministro secretario d'estado.
_H. B. Marat._
N.^o 2
EDITAL.
O principe regente nosso senhor foi servido mandar remetter á mesa do desembargo do paço o decreto do teor seguinte.
Tendo sido sempre o meu maior desvelo conservar em meus estados, durante a presente guerra, a mais perfeita neutralidade pelos reconhecidos bens que d'ella resultavam aos vassallos d'esta corôa; com tudo não sendo possivel conserval-a por mais tempo, e considerando, outrosim, o quanto convem á humanidade a pacificação geral: Houve por bem acceder á causa do continente, unindo-me a sua magestade o imperador dos francezes, rei de Italia, e a sua magestade catholica, com o fim de contribuir, quanto em mim fôr, para a acceleração da paz maritima. Por tanto, sou servido ordenar, que os portos d'este reino sejam logo fechados á entrada dos navios, assim de guerra, como mercantes, da Grã-Bretanha. A mesa do desembargo do paço o tenha assim entendido e faça executar, mandando affixar este por edital, e remetter a todos os logares, aonde convier, para que chegue á noticia de todos. Palacio de Mafra em vinte de outubro de mil oitocentos e sete.--Com a rubrica do principe regente nosso senhor.--Para que chegue á noticia de todos, se mandou affixar este edital.--Lisboa 22 de outubro de 1807.--_José Federico Ludovici_.
N.^o 3
O governador de Paris, primeiro ajudante de campo de sua magestade o imperador, e rei, general em chefe, grão-cruz da ordem de Christo de Portugal.