A Casa dos Fantasmas - Volume I Episodio do Tempo dos Francezes
Chapter 9
--Deus?!... exclamou Manuel Coutinho, respondendo á ultima phrase do ancião, e volvendo ao céu, limpido e azul, um olhar de amarga desesperação. Não se esqueceu Elle de nós? Não está com os inimigos do seu nome e da nossa liberdade?!...
--Não diga isso. Caia em si. Não vê que accusa a divina justiça? Deixe-a caminhar...
--Coxa e lenta como a dos homens?!... Senhor bispo! Sou moço e militar, desculpe-me, mas não posso supportar com paciencia christã o espectaculo de tantas miserias e de tantos crimes!... Fala na justiça de Deus?! Aonde estava ella, quando o Vigario de Christo, arrancado por mãos sacrilegas da sua cadeira, foi como seu divino Mestre arrastado de prisão em prisão, de opprobrio em opprobrio, por turbas de soldados á voz de Bonaparte?...
--Estava no Calvario, como no dia em que padeceu o Redemptor! Continue!
--Ah! E porque dorme ella, quando nações inteiras choram escravas o seu martyrio, e banhadas em sangue invocam a morte nos campos talados, nas cidades saqueadas, nos patibulos e nos carceres, a morte, unica esperança que lhes resta, depois de roubados os seus altares, de incendiadas as suas moradas, de infamadas suas esposas e filhas, e de dispersas como vil pó as cinzas de seus paes e de seus avós?!...
--Quem lhe diz, que dorme, e não que aguarda a sua hora? Quantos seculos durou a perseguição da egreja e a tyrannia dos Cesares?... E hoje, d'esse colosso romano, que assoberbava o mundo, o que sobrevive? Ruinas, memorias, e a cruz triumphante alçada no Vaticano!... Tranquillize-se, conforme-se, espere...
--Que espere!... Mas elles, os verdugos, os malvados, acaso esperam? Paulo de Azevedo, duas vezes salvo por nós, escapou por fim aos laços do infame Lagarde? Está no castello, bem sabe, e o conselho de guerra, que ha de julgal-o, tem sêde do seu sangue... Hoje, ámanhã, de uma hora para a outra, as balas de um pelotão!... Não tenho animo de o imaginar!... Vel-o morto, assassinado, e não poder valer-lhe!... E sua filha, a desgraçada, que já não tem lagrimas que verter, que sente a todos os instantes no coração o frio da morte, ameaçando o que mais ama e estremece n'este mundo?!... E hei de esperar?! Resignar-me! Deixal-o morrer?!...
--Ha de esperar, sim. Que remedio!... Paulo de Azevedo está em perigo, porém ainda não morreu...
--É verdade. Mas para o salvar?!...
--Havemos de empregar todas as nossas forças.
--Oh! accudiu o mancebo, cujo desespero rompeu por fim em dolorosa ironia. Hão de salval-o! Contam assaltar o castello, prender Junot, e colher Lagarde como um lobo no seu antro?!... Lagarde!... O auctor de todos os nossos infortunios!... ajuntou em voz cava e com terrivel expressão. Pelo menos esse não se rirá impune, festejando o ultimo suspiro da sua victima. Lagarde pertence-me. Sou o seu juiz, e a minha justiça não coxêa, nem dorme, como a da Providencia.
--Não blaspheme, e escute, se póde! Os dias da usurpação estão contados. Quem sabe! Ámanhã mesmo talvez troquemos o lucto da escravidão pelas galas...
--Sonho! Irrisão!... bradou Manuel Coutinho saccudindo com força o braço do seu interlocutor. Aonde estão os homens para isso? Bastaria o som de um tambor para os espantar, e Junot conhece-os. Cuida que dou fé ás proclamações e aos conciliabulos do Conselho Conservador? Becas, sotainas, velhos fracos, negociantes, e frades, que tremem da sua sombra, ousarão nunca medir-se com os soldados de Bonaparte em um combate?!... Senhor bispo de Malaca, se palavras e balas de papel matassem, então sim, mas!...
--Manuel Coutinho, a dor torna-o injusto. Essas becas e esses frades são mais fortes, do que os soldados em volta de suas bandeiras. Lembre-se de que puzemos a cabeça em cima do cepo, e de que estamos resignados a padecer!... Não esperava que o escarneo caísse da sua bôcca sobre nós! Aprende-se mais depressa a morrer com ruido no meio do fogo e dos alaridos de uma batalha, do que a aguardar o algoz sobre os degraus do cadafalso?... E ninguem sabe melhor se elle póde ferir, e se todos estamos decididos a jogar a cabeça n'esta partida... em que apostámos honra, bens, e vida pela patria...
--Sei, mas o povo cala-se e obedece. Lisboa chora e supporta. O reino...
--O reino accordou, e não torna a adormecer. Por isso lhe disse que estavamos nas vesperas da victoria...
--O reino accorda?! Mas eu ignoro tudo!... Senhor bispo de Malaca!... Compadeça-se da minha impaciencia. Bem vê! Estou quasi louco! Conte com o meu braço, com o meu sangue. Ha alguma esperança?...
--Ha mais do que esperanças, ha factos. Prepare-se! dentro em pouco o seu posto será nas fileiras de seus compatriotas, no exercito da independencia. Leia! Adore os designios profundos da Providencia.
Manuel Coutinho, arrancando-lhe quasi da mão o papel, que lhe offerecia, correu-o todo em um relance de olhos, e apenas o sentido lhe penetrou a intelligencia, o sangue em ondas affluiu ás faces, as pupillas faiscaram, e uma expressão de jubilo, e de enthusiasmo subito avivou-lhe as feições.
--O norte sublevado!... murmurava lendo, e detendo-se, como se julgasse impossivel o que lia. O Porto talvez levantado a esta hora! Traz-os-Montes e o Minho ámanhã, ou depois em armas!... Os inglezes em Cork, ou já no mar para desembarcarem!...
E o suor borbulhava-lhe na fronte, e a vista scintillante devorava cada lettra do escripto.
--Meu Deus! Se isto é sonho, ou delirio meu, fazei que nunca desperte d'elle.
--Então, filho, disse o bispo sorrindo-se com mansidão, ainda acha que a justiça divina coxêa, e dorme? Arrepende-se agora da sua pouca fé?! Pois bem! Já vê que as becas e as sotainas ainda valem alguma coisa. O milagre fez-se, e um bispo é quem ha de no Porto presidir, ao governo do reino restaurado. Sei-o de certeza.
--Seguiu-se uma pausa curta, durante a qual os olhos e as mãos do mancebo se elevaram ao céu em um gesto sublime de gratidão e de crença fervorosa. Depois a cabeça inclinou-se, a vista fitou-se no chão, os braços descaíram e duas lagrimas de dor e de alegria saltaram do coração, e correram vagarosas pelas faces.
O bispo contemplava o rosto do amante de Leonor de Azevedo, e traduzia com a perspicacia dos annos e da reflexão os signaes fugitivos da lucta das paixões.
Por fim venceu a razão. Manuel Coutinho, como se quebrasse de repente a prisão, que lhe paralyzava as faculdades, serenado o semblante, acabou de exhalar em um suspiro a maior oppressão, que lhe confrangia o peito.
--Fui temerario, senhor bispo. Falei mal de Deus e dos homens! Cegou-me o orgulho, e deixei-me arrastar pelas loucuras da tristeza. Desesperei da Providencia no momento em que ella nos accudia!...
--Só Deus é grande, filho! O que somos, e o que podem os nossos juizos falliveis em presença da sabedoria eterna?! Arrepende-se? É o essencial. Vamos ao que importa. Já viu D. Leonor?...
--Não! Faltou-me o valor. O que havia de dizer áquella infeliz, ferida de tantos golpes a um tempo?... A imagem do patibulo de seu pae, visão lugubre e incessante, segue-a por toda a parte. Nos seus olhos leio o desespero e a morte. Amo-a, senhor bispo, amo-a desde a infancia, como não amei minha mãe, como não estremeço meus irmãos, como não adoro... ia soltar uma blasphemia!... Enlaçadas desde a meninice pela mesma ternura nossas duas almas ha muito que não fazem senão uma. O que ella sente e chora, as suas lagrimas de sangue, caem-me todas, ardentes como fogo, aqui, dentro do peito, e escaldam-m'o. O véu branco da noiva será em breve o negro fumo da orphã, e viuva sem chegar a ser esposa, sei, adivinho, que um claustro começará a abrir-lhe a sepultura, aonde ella, aonde nós havemos de descançar ambos!... Não sem eu me vingar primeiro!
--Manuel Coutinho, deixe a Deus o cuidado de punir! Socegue! A voz da liberdade, a voz da patria chamam por nós. Seja homem! Seja soldado! Tem uma espada, não faça d'ella um punhal, arma de traidores!... Leonor está mais tranquilla, mais resignada. Vi-a hoje, e já falámos a seu respeito...
--E ella?!... Disse-lhe?! Espera?!...
--Disse-me tudo e espera. Paulo de Azevedo não morreu, e havemos de salval-o. Tenha mais fé. Não atormente com os delirios da sua paixão a existencia propria, e aquella alma sensivel e melindrosa, que treme que uma imprudencia, venha abismar no mesmo naufragio os dois amores da sua vida!... Se não fosse o seu genio arrebatado confiava-lhe um segredo, que Leonor se não atreveu nunca a dizer-lhe, porque receia os impetos da sua cholera, mas que havia por outro lado de aplacar-lhe a afflicção...
--Diga-me tudo, senhor bispo. Prometto, juro vencer o meu genio.
--Veja lá! Dá-me a sua palavra de cavalheiro de fazer o que eu lhe aconselhar depois?...
--Dou. O segredo?...
--A vida de Paulo de Azevedo não corre por ora risco. É o penhor com que Lagarde tenta extorquir a D. Leonor uma promessa de casamento...
--Oh o infame!... E eu aqui de braços cruzados!...
--Se me não me escuta, calo-me. Lembre-se da sua promessa.
--Sou mudo. Sou uma estatua.
--Bom! Saiba, pois, que o intendente da policia imaginou enriquecer um sobrinho arruinado, dotando-o com os bens da filha de Paulo de Azevedo. Pediu-lhe a mão em Mafra ha mezes, foi repellido, e vingou-se perseguindo o cavalheiro e sua filha...
--Assim a causa de todas as desgraças sou eu!?... atalhou o mancebo impetuoso. Leonor e seu pae padecem por amor de mim, e no meio de seus prantos e do lucto da sua alma aquelle anjo nem uma queixa soltou ainda contra o algoz da sua vida! Porque sou eu que a torno infeliz e inconsolavel!... Hei de mostrar-me digno do sacrificio! Hei de...
--Comece por se mostrar digno das minhas confidencias, escutando-as. Observou o bispo com um sorriso. Lagarde ameaça Paulo de Azevedo, tem-lhe a espada suspensa de um fio sobre a cabeça para vencer a filha; mas no fim é tão interessado como nós em conservar vivo o unico fiador de suas esperanças!... O conselho de guerra não se reune, e mesmo que chegue a ser convocado, a sentença não passa do papel.
--E Leonor?!...
--Altiva e varonil redobra as resistencias. Mesmo ao pé do cadafalso de seu pae prefere morrer com elle, creio, a comprar-lhe o perdão por um preço vil...
--Bem sei! O seu coração envergonha o de muitos homens!... Como se chama o sobrinho de Lagarde, esse noivo feito á força, cujo papel, tão nobre (!) entra como parte principal na tragedia de nossas desventuras?... accrescentou Manuel Coutinho em voz lenta e sombria, a que um toque de ironia cruenta avivava a expressão.
--Porque o pergunta?
--Para ajustar no mesmo dia todas as minhas contas.
--Já se esqueceu da sua promessa?
--Não! Mas!...
--Quando for tempo de o desligar d'ella sem perigo seu e nosso... então falarei. Agora não. Sabe que ámanhã, depois da procissão do Corpo de Deus, se esperam grandes novidades?
--Aonde?... Se soubesse a minha impaciencia?!...
--Em Lisboa. Aonde queria que fosse?...
--E contam commigo?... Qual é o posto que hei de occupar?... Asseguro-lhe que só por cima do meu cadaver...
--Sei muito bem. Guarde para si a noticia, vá ver Leonor, demore-se pouco, porque ella espera uma visita, ou antes duas...
--Visitas!... De quem?...
--Segredo de estado. Depois saberá...
--Porém!...
--Não insista. Se podesse dizer-lh'o, cuida que me calava? A proposito! Se por acaso estiver lá em cima, quando elles... digo, quando as visitas chegarem, jura pela sua honra obedecer em tudo a Leonor, e voltar aqui pela escada do meu gabinete?...
--Mas!... Tantas precauções fazem-me suppor!...
--Supponha o que quizer. Jura?...
--A minha confiança na sua virtude é tal, que de olhos fechados me entrego em suas mãos. Juro!
--Não ha de arrepender-se. Sem isso não o deixava subir...
--Mas padre, mas senhor bispo! Essas visitas são então de inimigos?...
--Talvez! E então?! Cobre-os, quem quer que sejam, o tecto d'esta casa, recebo-as como hospedes, é quanto basta, julgo!...
--Oh! Dava metade da minha vida por adivinhar...
--O caso não merece o sacrificio!... Deixe instruir o processo, deixe informar os juizes, e quando lhe chegar a sua vez... nós o chamaremos.
--Obrigado! Como instrumento cego?!...
--Não. Como um coração generoso, como um amigo seguro, porém... perigoso. Estamos perdendo tempo! Leonor espera-o. Nem uma palavra do que se conversou aqui, e sobre tudo recorde-se do que jurou...
--Hei de cumprir a minha palavra como homem de honra, mas depois, sr. bispo!...
--Depois... O que Deus quizer! Dá o mundo tantas voltas em poucas horas, Manuel Coutinho, que nos deitâmos rapazes, e ás vezes accordamos velhos. Deixe andar os homens e as cousas. Creia no tempo. É grande medico. Adeus! Vou tractar de uma doença, que dá maior cuidado... Portugal está enfermo e não póde esperar.
E despedindo-o com um sorriso e um aceno de mão cheio de bondade, o velho prelado entrou para um aposento terreo, cujas portas de vidraças abriam sobre o jardim, em quanto o mancebo voltou em busca da escada de pedra, que subia para as salas do primeiro andar.
XII
Arcades ambo!
--Está certo do que affirma? Veja lá!... A policia não gosta de representar papeis tristes, e um erro nas circumstancias actuaes póde ter consequencias... Repita! Viu os homens? Sabe o seu intento?...
--Vi, sim senhor! Largava a falua quando eu cheguei, e por um triz me não apanham!... Sempre curti um medo! A gente não ganha para sustos...
--Está bom! E como soube que vinham para a revolução, que os inimigos de sua magestade o imperador e rei tramaram para ámanhã durante a procissão do corpo de Deus? Olhe bem! Não se allucine...
--Não ha engano, não senhor. Aqui trago quem ouviu tudo. Gaspar, chega-te! S. ex.^a dá licença. Dize para ahi o que saccaste do bucho ao alarve do Paulo Penedo, e o que ouviste na Ponte da Asseca.
--Ah! Este homem ouviu?!... Bem! Então que fale.
O dialogo, que estamos escutando, tinha-se travado, como o leitor já percebeu de certo, entre o intendente Lagarde, o sargento Cabrinha, e o seu assessor Gaspar Preto.
Os honrados malsins, farejando a denuncia lucrativa, corriam de Villa Franca, aonde se haviam transportado a cavallo, e traziam nos alforges nada menos do que uma boa conspiração para attrahir sobre si a chuva de ouro, com que o ministro francez costumava recompensar os serviços relevantes dos seus agentes.
Ainda que o sargento desempenhasse o papel principal, manda a verdade que se diga, que a gloria do descobrimento pertencia de direito ás longas e afiadas orelhas do seu digno assessor. Fôra o _Sapo_, apezar de meio homiziado depois da prisão de Paulo de Azevedo, devida, como sabemos, á sua traiçoeira actividade, quem, espreitando os passos do Antonio da Cruz e do João da Ventosa, e as idas e voltas nocturnas dos embuçados, que frequentavam a casa arruinada da Ponte da Asseca, principiára a desconfiar de que as ruidosas cavalhadas das almas do outro mundo nas salas desertas do palacio encobriam planos politicos.
Para melhor se certificar, provou Gaspar, que não roubára a alcunha por que era conhecido.
Cozeu-se, como o _Sapo_, com as pedras caídas, que do lado da porta do João da Ventosa pegavam com o tapume, por onde elle introduzia as visitas, segundo vimos atraz, nos quartos do primeiro andar, penou frios e fomes, tiritou de mêdo mais de cem vezes, mas por fim conseguiu o seu fim.
Seis dias antes da festa do Corpo de Deus, ás onze horas da noite, por um luar esplendido, colheu em flagrante tres dos fantasmas, que tanto desejava avistar, e teve a rara felicidade de os conhecer a todos.
Viu-os entrar. Ficou firme no seu posto. A divindade protectora dos mexericos segredava-lhe que se os olhos tinham alcançado muito, os ouvidos ainda podiam obter mais. A sua paciencia merecia premio, e o demonio, cujo era, não lh'o negou.
Quando se ía já sentindo quasi inteiricado de jazer enroscado, como a serpente, os conspiradores saíram. Principiava a aclarar a madrugada. Um d'elles, o capitão de milicias de Rio Maior, dotado de uma voz de baixo profundo, voltando-se para os outros, disse-lhes:
--Façam-me uma fogueira bem vistosa lá pelos sitios de Leiria, e assem-me n'ella esses hereges e jacobinos, que os de aqui ficam por minha conta! Não havemos de ser menos que os de Bragança e Villa Real! Viva o principe regente, nosso senhor!
Os poderes do orgão vocal do herculeo capitão eram tão extensos, que este desafogo innocente do seu patriotismo seria assaz perigoso, se a solidão e a noite o não cubrissem. Entretanto os amigos, menos intrepidos, recommendaram-lhe prudencia, e o gigante, docil como uma creança, submetteu-se, encolhendo os hombros, a estes conselhos timidos. O morgado de Penin e outro cavalheiro apartaram-se então um pouco. Quiz o acaso que fosse para o lado, justamente, em que o virtuoso Gaspar se occultava; e o terror do malsim subiu tal ponto, que esteve um instante para o trahir!
Vendo de repente o Antonio da Cruz, o João da Ventosa, e o Manuel da Aramanha, o resurgido, tão proximos do seu covil, que bastaria um d'elles extender o braço para o agarrar, não foi senhor de si. Vinham atraz dos personagens principaes, e tudo inculcava que não vinham por curiosos. O _Sapo_, frio de neve, e todo um calafrio de medo, ennovellou-se n'uma bola para occupar menos espaço, e fez a Nossa Senhora da Saude a promessa solemne de uma missa e de uma perna de cêra se permittisse, que nenhum dos cinco désse com elle alapado n'aquella toca, seguro de que, se escapasse por milagre ao alentado varapau do ex-assassinado fazendeiro, a bala da espingarda, que o moleiro trazia ao hombro, não o erraria de certo em nenhum caso.
Os conspiradores estavam longe de se supporem espiados, e traziam outros cuidados.
Voltando-se para Antonio da Cruz, o morgado disse-lhe:
--Já sabes! No dia de Corpo de Deus has-de estar em Lisboa. És lá preciso!
--Se meu amo mandar!
--De certo. Mas sei que manda. O Paulo Penedo não tarda com as ordens... E você, sôr João da Ventosa, deixa-se ficar por cá, ou acompanha tambem o Antonio á côrte?
--Eu, sôr morgado, lá por ir, ia; mas assim sem saber o que a gente lá vae fazer?!...
--Ora! Vae dar um passeio, vêr a procissão, que se despovoam aldêas e logares para accudir a ella... e depois!... Adivinha-me este dedo, que o seu cajado talvez não fique por lá parado!... Gosta dos francezes?...
--Como o diabo da cruz, senhor! Pelo amor que lhes eu tenho... e o bem que me fizeram!...
--Pois vá, homem, que póde ser que não perca o seu tempo. Ás vezes d'onde menos se espreita sae coelho...
--V. s.^a que diz isso!... Está bom. Não é preciso mais. Senhor mandar, preto obedecer!... E tu, Antonio Simões, estás ahi sem atar nem desatar? Porque não vens com o Antonio e commigo á festa? Tens medo dos francezes, homem?
--Salva tal logar, sôr compadre! Mas que quer você que eu vá fazer á côrte pregado no meio das ruas como uma estaca? Com mil cobras? Se por lá bispasse o alma ruin do sargento, ou aquelle excommungado _Sapo_, ainda, ainda; mas qual! sumiu-se a terra com elles!...
--Qual sumiu! Aposto um almude dobrado contra duas canadas singelas em como as duas osgas estão pegadas em alguma parede de Lisboa...
--Veja lá, sôr compadre! Se tem palpite n'isso é outra cousa: pernas a caminho. N'um sopro deito o albardão á égua... Não morro quieto se não racho de meio a meio aquelles dois patifes.
--O _Sapo_ fica por minha conta, atalhou o moleiro. Prometti-lh'o e hei de cumprir. Você, sôr João, que me diz da figueira de José Lopes, alli em cima, no alto do logar?
--Ora essa! Que é boa arvore. Porque?...
--Pois juro-lhe que dá figos de enforcado para o anno. Antonio me não chame eu se não pendurar do pescoço em um dos ramos o judas do Gaspar Preto antes do dia do natal!...
--Você sempre tem cousas, sôr Antonio!
--Vá com o que lhe digo. De mais, pouco ha de viver quem o não vir.
--Então, rapazes? atalhou o morgado, que estivera conversando a meia voz durante o colloquio dos tres. Quem vae a Lisboa?...
--Saberá v. s.^a que nós todos tres!
--Ora assim é que é. Gosto de os vêr de feição. Bebam por lá um copo, ou dois, de vinho á minha saude, e outro á do principe regente, nosso senhor, o qual, querendo Deus, muito cedo teremos n'estes reinos para gloria da patria e da santa religião!...
E o morgado, assim como os ouvintes, desbarretaram-se com toda a reverencia como bons catholicos e vassallos fieis e respeitosos.
--Adeus, Antonio, proseguiu. Recados a teu amo! Diz-lhe que nós cá estamos, e que o que fêr soará. Sôr João! Volte depressa. A caldeira está ao lume, ha de ferver, e póde ser necessaria a casa...
--Quando v. s.^a mandar, sôr morgado.
--Olhe! Se no meio da procissão, ou depois, houver algum barulho, não me metta as mãos nas algibeiras. Dê-lhes com alma, desanque-me os jacobinos moa-m'os como farinha, hein?...
--Vá v. s.^a descançado.
--Vou! Vou! Vocês não deixam mal o Ribatejo. Até á volta. São horas.
Os tres de fóra foram buscar os cavallos, e d'ahi a pouco desappareciam a galope pela Ponte da Asseca. O lavrador e os seus amigos recolheram-se tambem logo. D'ahi a instantes resonavam a somno solto.
Quem não tinha vontade de dormir era o _Sapo_, o qual, arrastando-se do esconderijo, fulo de terror, respirava a custo, estirando os braços, mais morto do que vivo.
A ameaça do Antonio da Cruz soava-lhe nos ouvidos como um dobre funebre, e por vezes sentia já em imaginação os gorgomillos tão apertados como se lh'os estreitasse a promettida e fatal corda!
A reputação merecida do moleiro de não quebrar palavra dada fazia-o de mil côres, e a voz da consciencia, que só o susto tinha o condão de accordar de véras, advertia-lhe, que provocára, não uma, porém cem vezes, o castigo.
Não vendêra elle ao sargento o segredo do asylo em que se homiziava Paulo de Azevedo, abusando da hospitalidade de Antonio da Cruz, o qual, tendo-o poupado, o julgára grato? Não fôra causa da prisão do Cavalheiro de Mafra, da magoa de Leonor, e do desespero de Manuel Coutinho? Agora mesmo, não colhêra um segredo, que podia custar a vida e a liberdade a tantas pessoas?
Gaspar era logico. Convencido de que a sentença proferida era irrevogavel, tractou de se eximir aos seus rigores pelos meios usuaes, isto é, accumulando novas traições. Coxeando e rastejando partiu para a villa, aonde amanheceu á porta do sargento, cuja cholera exacerbada pela certeza de ter servido de alvo á irrisão na famosa noite dos fantasmas, soube artificiosamente exaltar. O _Sapo_ acabou de o petrificar, narrando-lhe as ameaças do Antonio Simões da Aramanha, e o plano, interceptado por elle, de grandes tumultos em Lisboa durante, ou depois da procissão do Corpo de Deus.
A noticia valia o seu pezo em ouro, e Cabrinha decidiu-se a ser em pessoa o portador d'ella.
A chegada de Paulo Penedo, emissario de Manuel Coutinho para chamar o moleiro em seu nome á capital, confirmou as informações do agente. Gaspar, a troco de pão, queijo, vinho, arrancou sem difficuldade ao camponez boçal quanto elle vira e ouvira do patrão em Lisboa. Separou-se, deixando-o convencido de que o amante de Leonor de Azevedo não tinha mais leal amigo.
Depois d'esta ultima proeza, os dois malsins começaram a jornada até Villa Franca, aonde haviam de embarcar, o sargento ardendo em impaciencia de cingir na fronte os louros, e de sepultar no bolso as peças de 7$500, que Lagarde não cisava aos que o serviam zelosamente: o _Sapo_, cujas vigilias eram cada noite mais tormentosas, acompanhando o patrono a Lisboa, primeiro para se afastar o mais possivel da figueira do alto do Valle, depois, para ter o gosto de vêr mettidos na enxovia do Limoeiro, graças á sua honrada lingua, o Antonio da Cruz, o João da Ventosa, e o Antonio Simões.
Já os ouvimos confessar ao intendente da policia, que por um instante não caíram na bôcca do lobo em Villa Franca, e encontrando-os no gabinete do ministro, no exercicio de suas funcções, convem notarmos, que tinham sido activos no desempenho da sua missão, como homens fieis aos interesses proprios, e devotos da causa que abraçavam.