A Casa dos Fantasmas - Volume I Episodio do Tempo dos Francezes
Chapter 7
--Com anginhos nos dedos e ferros aos pés. Juro-te! Dize a verdade, homem. Do mal o menos. Quanto te prometteu? Olha que a corda, que ha de pendurar-te na forca, já está fiada e torcida...
--Se eu disser não me descobre?
--Não! O teu crime te descobrirá. Quanto?
--Seis moedas...
--Por conta, ou ao todo?
--Por conta. As outras seis... havia dar-m'as em Lisboa... quando levassemos os presos.
--Ah! Agora repara. Vamos ás nossas contas. Gaspar, devo-te uma sova mestra pelo natal passado e outra por este entrudo. Bem te has de lembrar por quê!... Mas perdôo-te, tudo, e até no tiro dado em Manuel Simões não hei de boquejar... se juras fazer ao sargento o que elle te mandou fazer aos outros...
--Matal-o?!... exclamou o _Sapo_, cuja vista feroz se inflammou.
--Não, maldito! A justiça que o mate, quando o sentencear!
--Então?!...
--Quero que vejas, que ouças, e que me digas tudo quanto elle fizer? Percebeste?
--Sim senhor...
--Vê lá. Se te escorrega um pé, ou a lingua, e eu o sei... guarda-te!
--Não ha de ter razão de queixa. Sou-lhe muito obrigado.
--Não me dês mel pelos beiços, que não sou abelha. Cuidado commigo. Depois!...
--Já lhe disse. Fique descançado.
--Fico, fico! Não tem duvida. Agora vens comnosco á Casa Negra.
--Oh, sôr Antonio, por alma de sua mãe, pela sua boa sorte, tudo quanto mandar, menos isso... Sirvo-o de rastos, estou prompto a lamber o chão aonde pozer os pés, mas tornar alli... isso não!
--Ah! Tens medo do diabo?...
--Mate-me, entregue-me, faça de mim o que quizer, mas não volto lá.
E as feições repulsivas do malsim exprimiam por tal modo o medo e o espanto, e revelavam uma resolução tão decidida de se expor a tudo para não obedecer, que Manuel Coutinho disse algumas palavras ao ouvido de Antonio da Cruz.
--Pois bem, esperarás por nós. Ahi te deixo agua pé e brôa. Mas sentido! Olha que te quero encontrar á volta!... Forte homem! Ter pavor assim de almas do outro mundo!...
--Ah! sôr Antonio! Se você visse!... O fantasma branco alto como um cypreste crescer para si, e o defunto sentar-se de repente e olhar... Ai Jesus! Parece que os estou vendo ainda! Quando me lembro cuido que enlouqueço!...
--Está bom! Está bom! Até logo! Com que viste o defunto e o fantasma?... insistia o moleiro serio e apprehensivo, olhando para o amo com certo enleio.
--Como o estou vendo a você, sôr Antonio. Credo!...
Manuel Coutinho encolheu os hombros, conchegou o capote e saíu. O Antonio não teve mais remedio senão seguil-o, mas apezar de todo o seu valor benzeu-se, e o coração batia-lhe mais rijo no peito, do que se visse um touro partir contra elle enfurecido.
IX
Que talvez podesse servir de prologo
Deixemos descançar por um pouco os heroes d'esta mui veridica historia, em quanto corremos rapidamente os olhos pelos successos, de que a Peninsula foi theatro n'este periodo memoravel.
Sem um resumido esboço, dos factos, que servem de fundo e de moldura ao quadro, difficilmente formará o leitor exacta idéa d'elle.
Os francezes, como dissemos, tinham atravessado as provincias, e entrado na capital com o nome de amigos. Retirando-se com a esquadra para o Brazil, o principe regente entregára em suas mãos o reino sem defeza. As ultimas ordens de sua alteza, datadas de 26 de novembro de 1807, ordens pacificas e conciliadoras, abrindo-lhes as fronteiras, ajudaram mais, que as armas, os generaes de Bonaparte a superar os obstaculos da invasão.
Junot confessou-o nas primeiras proclamações! A obediencia, tão elogiada por elle, e dictada pelas circumstancias, ainda não encerrava os ressentimentos, que tornaram depois vacillante e precario o dominio estrangeiro.
O regimen absoluto, que as reformas do marquez de Pombal não conseguiram remoçar, adoecia de incuravel decrepidez. Muitos homens illustrados, que o grandioso espectaculo dos acontecimentos advertia, suspiravam por uma renovação, que não podia nunca ser inspirada, bem o sabiam elles por experiencia, nem pelas idéas, nem pela iniciativa de um governo caduco.
Esta illusão de animos generosos durou pouco. Os que amavam sinceramente a patria depressa se desenganaram da vaidade das promessas dos conquistadores.
Estes, apenas se reputaram seguros, arrancaram a mascara, e pozeram termo ás complacencias. Assim que viu reunidos e repousados os corpos dispersos por longas e precipitadas marchas; assim que os soldados lhe pareceram restaurados da fome, das inclemencias da estação, e da aspereza do transito o general em chefe cançou-se de dissimular, falando com a altivez de vencedor aos que o tinham recebido como hospede!
Foi então geral o sobresalto. Os actos despoticos e oppressivos dir-se-íam calculados para irritar o ciume e o amor proprio do paiz. As guardas de Lisboa confiadas só aos francezes; o emprestimo forçado imposto ao commercio com o praso de vinte dias; a insolencia do famoso decreto de Milão condemnando como sujeito a resgate o reino que não fôra conquistado; as armas reaes picadas do frontão dos edificios publicos; e a bandeira nacional arriada no castello e nas fortalezas, e substituida pelos estandartes tricolores, foram outros tantos erros dos dominadores, que a saudade da independencia registrou como ultrajes.
Desde o dia 13 de dezembro, em que Junot rodeado de pompas guerreiras, mandára baixar o pavilhão das quinas deante das aguias do Sena, nunca mais houve paz entre a nação offendida e os invasores. A luva ficou desd'esse dia no chão por falta de chefe, que a levantasse; porém, decorridos mezes, Portugal erguia-se para responder á provocação, envidando valor egual aos brios.
Atraz da occupação da pequena monarchia, que o orgulho do gabinete de Saint Cloud estava ainda longe de suppor, que podesse tornar-se em breve um dos inimigos implacaveis de sua ambição, pouco se dilatou a invasão de toda a Hespanha. Assignando o tractado de Fontainebleau, que repartia os membros de Portugal entre os Bourbons, os francezes, e o principe da Paz, auctorizando a entrada de quarenta mil soldados em seus dominios, Carlos IV não percebeu que firmava a propria abdicação.
Bonaparte anciava um pretexto para realizar os seus designios. Deram-lh'o os enredos aulicos, o nucleo de descontentes, de que se rodeava o principe das Asturias, depois Fernando VII, e a má vontade de todas as classes contra o ministro omnipotente, valido do monarcha e amante da rainha; deram-lh'o egualmente a miseria, a inquietação, a decadencia geral, e o presentimento de immensas catastrophes.
As dissensões da côrte, filhas da lucta do herdeiro da corôa com os soberanos e com o privado, D. Miguel de Godoy, e a indiscreta revelação dos aggravos reciprocos, levada ao tribunal do imperador, para este sentenciar como arbitro a familia real, ajoelhada a seus pés, facilitaram a occasião appetecida por Napoleão I, precipitando a queda do ministro entre violencias e tumultos, coagindo a abdicação de Carlos IV, e apressando a saída de Fernando VII para Bayona.
Vendo por terra o diadema dos Bourbons de Hespanha Bonaparte não o restituiu a Carlos IV, nem a Fernando VII, cingiu-o na fronte de seu irmão, o rei de Naples, escolhido para reinar entre bayonetas sobre a monarchia de Izabel a Catholica. Os principes despojados resignaram-se, mas a Hespanha protestou. Madrid insurgida deu o exemplo. Murat cuidou suffocar a sublevação pelo terror dos supplicios. Illudiu-se. O sangue vertido na capital em 2 de maio tornou irreconciliavel a nova conquista com o imperio. A nação respondeu aos canhões, aos fuzis, e ás execuções militares com a resolução indomita, que as adversidades confortam, e os triumphos exaltam.
A ira fez soldados os habitantes da Peninsula. O odio da servidão resuscitou os dias de Viriato e de Sertorio. Cada rochedo, cada tronco, de arvore, cada balsa escondeu um inimigo; e para repellir os oppressores até os velhos saccudiam os gelos da edade como mancebos, e as crianças pelejavam como homens. Por um, que expirava, erguiam-se mil. N'esta nova seára de Cadmo o ferro, tocando a terra, levantava legiões de heroes. O chão fugia debaixo dos pés aos veteranos da Italia e do Egypto, e a espada dos marechaes, quebrada sem gloria, ameaçava em vão as fragas de um territorio, que, alastrado de cadaveres, e abrazado pelas armas e pelos incendios, até cuspia de si os ossos do estrangeiro, negando-lhes a paz do tumulo!
Oviedo, a antiga e venerada côrte das Asturias, recordando, que suas montanhas tinham sido berço e asylo da renascença christã, alçou ousada o seu estandarte. Cadix e Sevilha acompanharam-n'a. Granada e Valencia insurgiram-se logo depois. Toledo, Santander de Biscaya, Saragoça, Tortosa, e Galliza, não ficaram atraz. Dentro em pouco os esquadrões francezes, encanecidos nas luctas d'esta epocha de prodigios, já não chamavam seu mais do que ao terreno aonde combatiam.
As juntas de salvação e defeza, á medida que as terras se iam sublevando, exprimiam o seu pensamento de porfiada resistencia. Filhas legitimas da revolução, os revezes e os sacrificios não as desanimavam. Diversas e oppostas muitas vezes no caracter e nos costumes, nenhuma trahiu o seu juramento. Preferindo para mortalha da Hespanha os muros voados e as torres arrazadas das praças de guerra e das antigas cidades, todas rejeitaram a clemencia injuriosa, que lhes promettia o perdão em troca do soberbo dominio a que a Europa quasi inteira curvava então a cerviz.
Os successos correram como a impaciencia dos contendores.
A invasão, que talára a provincia de Granada, derrotadas por Castaños as tropas imperiaes, foi obrigada a retroceder. A capitulação de Bailen quebrou o prestigio das legiões invenciveis. Os francezes, acossados de posto em posto, tiveram de evacuar Madrid, e recuando deante do impeto da nação armada, só pararam ás margens do Ebro. Os capitães mais ousados aprendiam, finalmente, a conhecer, que vale mais o esforço de um povo unanime, do que a espada feliz do mais do maior homem de armas.
A junta central de Aranjuez, composta de deputados de todas as provincias, constituiu-se como representante de Fernando VII, captivo em Valençay, e assumiu a suprema direcção, conferida pelas necessidades e o heroismo pelo paiz. A Inglaterra, senhora por tanto tempo do sceptro dos mares, disputando a Napoleão em todos os campos de batalha a primazia no continente, ouviu de repente os clamores dos descendentes de Pelaio, e contemplando o arrojo, com que elles se atreviam contra o poder que desmaiava os monarchas mais poderosos, estremeceu de jubilo, e saudou n'este commettimento audaz a aurora do dia de Waterloo.
Em Portugal, apezar de não ser menos vivo e intenso o odio, não foi tão prompta a explosão. Mas a chamma, por calar debaixo de cinzas, não rompeu por isso com menor violencia.
No dia 5 de fevereiro de 1808, na occasião, em que as auctoridades francezas se reputavam mais firmes, reuniram-se encobertamente em Lisboa seis homens, que nenhuma distincção hierarchica apontava para chefes, mas que a firmeza da vontade e o despreso dos perigos recommendam ao louvor da posteridade. Chamavam-se Matheus Augusto, José Maximo Pinto da Fonseca Rangel, José Carlos de Figueiredo, Antonio Gonçalves Pereira e André da Ponte de Quental da Camera. Juraram na presença de Deus empregar as forças, os bens, e a vida com fervor até conseguirem restituir ao principe regente, a sua corôa, e á patria o seu esplendor e liberdade.
Juntavam-se ás oito horas da noite alternadamente uns em casa dos outros, e desde logo se occuparam de minar o chão debaixo dos passos dos invasores, descobrindo no meio do seu cortejo os illudidos e os coactos para os descriminar dos vendidos e traidores, e sondando o animo dos officiaes militares, dos magistrados, e dos ecclesiasticos para indagar a sua disposição, apurando aquelles com que podia contar.
Esboçada a conspiração, e protegida por inviolavel segredo, principiaram os primeiros conjurados a attrahir outros, engrossando o numero dos cumplices. Á policia, regida por Lagarde, chegaram cedo os echos d'esta empreza, que, tomando corpo á proporção que os acontecimentos caminhavam, era já na primavera de 1808 uma verdadeira potencia, fortificada pelos votos concordes do patriotismo portuguez, e pela coadjuvação de valiosos auxiliares recrutados nas fileiras do exercito nacional, nas casas mais illustres da fidalguia, e nas classes respeitadas do clero, da toga, e do commercio.
Quando Junot embarcou em virtude da capitulação de Cintra, só os cabeças de bando, representantes, perante o Conselho Conservador, da multidão dos adherentes, excediam de _cento e oitenta_, e os homens, de que podiam dispor, não baixavam de tres, ou quatro mil, com sete peças de artilheria, 370 cavallos do regimento da Luz, e da guarda real da policia, 112 officiaes avulsos, e 710 bayonetas!
Saltemos agora as semanas, que nos separam dos meiados de junho de 1808, e observemos o estado das cousas já bastante alterado no curto espaço de sete mezes.
Determinára a Providencia que do excesso dos males, que flagellaram a Peninsula se gerassem as causas, de que primeiro renasceu a independencia, e depois a liberdade. As scenas de Bayona, e a repressão cruel dos tumultos de Madrid despertaram a Hespanha do somno, em que a falsa alliança dos francezes a embalava. Badajoz sublevou-se a par de outras terras importantes no dia 30 de maio, e á sua voz principiou a provincia do Alemtejo a agitar-se. Ao norte a Galliza, com os bellos portos do Ferrol e da Corunha, e a sua população briosa e accumulada, não hesitou egualmente em saccudir o jugo.
Os dez mil hespanhoes aquartelados no Porto, que depois da morte do general Taranco obedeciam ao marechal de campo D. Domingos Ballesta, receberam ordem da junta para recolherem, aprisionando o general Quesnel, governador militar da cidade, e todos os officiaes e soldados, de que podessem apoderar-se.
Ballesta executou a ordem, e chamando as auctoridades da segunda capital do reino, perguntou-lhes, antes de partir, por quem se decidiam? Pela patria, responderam alguns.
O castello de S. João da Foz, de que era major Raymundo José Pinheiro, arvorou a bandeira portugueza, e a guarnição communicou com o brigue inglez _Eclipse_, o qual esperava os acontecimentos, cruzando proximo da costa. O povo não se moveu. A occasião ainda não estava madura.
Os timidos conselhos do brigadeiro Luiz de Oliveira prevaleceram. O Porto tornou a submetter-se ao governo de Napoleão I.
A 9 de julho chegou a Lisboa a noticia da insurreição das tropas hespanholas e da prisão de Quesnel.
O perigo eminente estimulou o duque de Abrantes.
A divisão Caraffa, composta de seis batalhões de infanteria, de um regimento de cavallaria, e de algumas baterias de artilheria, ardia em desejos de imitar seus irmãos de armas, provocada pelos emissarios expedidos a toda a pressa de Sevilha e Badajoz. Junot antecipou-se. Vinte e quatro horas depois os soldados de Fernando VII, presos e desarmados, embarcavam para bordo dos pontões francezes, e sómente poucas companhias do regimento de Murcia e alguns hussards do Maria Luiza conseguiam escapar-se.
Por meio d'este golpe ousado o general em chefe, retaliando as hostilidades dos patriotas, soube refrear a tempo as impaciencias e a animosidade dos habitantes irritados. Loison saíu a 17 de Almeida sobre o Porto com a sua columna, afim de se oppor ás tentativas da Junta de Galliza, e a 20 passava o Douro no Pezo da Regua. Mas o dia das iras populares tinha alvorecido. Rodeado por todas as partes de inimigos invisiveis, que fuzilavam suas tropas por traz das vinhas e dos rochedos, pendurados sobre a corrente torva e arrebatada do rio, volveu já sobre a noite ao Pezo da Regua, e tornou a vadear o Douro para a outra margem, abençoando a precipitação boçal dos camponezes, que o salvára quasi por milagre de uma ruina completa.
O Minho e Traz os Montes, sublevadas em massa, acabavam de empunhar as armas, proclamando a independencia. Mais alguns passos de Loison além de Mesãofrio, mais prudencia e calculo da parte dos aggressores, e a columna franceza encontrava a sepultura n'aquelles penhascos e desfiladeiros immortalizados pela sua derrota!
Em quanto Junot quebrava por um lance audacioso a espada nas mãos dos batalhões de Caraffa, Manuel Jorge Gomes Sepulveda, tenente general, e governador militar do norte, em edade provecta, acclamava a restauração da dynastia de Bragança, e era seguido pelas terras mais notaveis das duas provincias.
No dia 18 a revolução rebentou no Porto, e no dia 19 foi nomeada a primeira junta portugueza, cujo papel havia de ser tão importante nos successos, que se precipitavam. Coimbra Pombal, e Leiria seguiram o exemplo do Porto, e a insurreição crescendo e alargando-se, batia pouco depois ás portas de Lisboa, ameaçando o dominio estrangeiro, tanto pelo lado do norte, como pelo lado do sul. Desde os Algarves até Evora e Beja levantou-se o mesmo grito de exterminio correspondido por milhares de vozes.
Antes de combater a insurreição a ferro, o duque de Abrantes chamou em seu auxilio o braço ecclesiastico, convidando-o a fulminar as populações armadas.
Uma pastoral do cabido patriarchal representou como crime e peccado inexpiavel a resistencia ao grande e invencivel Napoleão, declarando a culpa sujeita a excommunhão maior sem prejuizo das penas temporaes. Esta profanação sacrilega serviu só de aviltar aos olhos do paiz os ministros do altar, que não se envergonhavam de offerecer o incenso do templo e o beijo de Judas contra a liberdade á vontade despotica dos oppressores. Os raios mal forjados nas sacristias caíram frios e inermes deante da resolução e da perseverança dos que pelejavam pela patria, e a famosa proclamação ao Divino, despresada como merecia, não roubou ás fileiras nacionaes um só defensor.
A resposta de Bonaparte em Bayona á deputação portugueza foi mais eloquente para fazer de nós soldados, do que as excommunhões dictadas no quartel general francez. O imperador, julgando a occupação de Portugal legitima depois da partida da familia de Bragança, tractava o pequeno reino desamparado com os rigores devidos a uma colonia ingleza!
Era a sua idéa e a sua politica. Pouco lhe importavam o amor e a confiança dos novos subditos. Não os temia nem o preoccupava o que havia de dispor afinal ácerca do seu destino. Junot, que os conhecia melhor, tinha procurado attrahil-os, e chegára a linsongear-se com a esperança de os adormecer a ponto de lhes riscar da memoria as saudades da dynastia e da independencia. A obediencia imposta pela força afigurava-se-lhe esquecimento, e nos seus officios ao ministro da guerra o governador de Paris traduzia os vivas venaes da plebe ao sabor dos seus desejos, pintando a nação tranquilla, submissa, e satisfeita. A explosão das provincias e os murmurios da capital vieram depressa acordal-o d'este sonho!
Olhou. Não viu em volta de si, senão odios mal reprimidos, ou adhesões falliveis e compradas. A pobreza e a miseria, filhas do bloqueio, que paralysava o commercio, tornavam ainda mais critica a sua posição. O cambio do papel moeda subira a 31 e a 32 por cento; o pão custava 75 réis o arratel. A carestia dos generos, tornando a vida difficil e dolorosa para as classes indigentes, aggravava o descontentamento geral. A Junta dos Tres Estados, reunida para pedir um rei a Napoleão, proporcionou ao juiz do povo José de Abreu Campos, a occasião appetecida de manifestar os verdadeiros sentimentos do paiz, desenganando o duque de Abrantes, de que se achava só e detestado com o seu exercito no meio de populações hostis, que suspiravam pela hora de restaurar a liberdade e o throno de seus principes.
No mez de junho estavam dissipadas todas as illusões. Admirado do arrojo com que paizanos quasi sem defeza se arriscavam ao encontro de legiões aguerridas, Junot exclamava: «Portuguezes! Que delirio é o vosso? Em que abysmo de males vos despenhaes? Ao cabo de sete mezes de paz e harmonia, porque razão correis ás armas?» Concluindo com a lei marcial, ameaçava as villas e cidades com o saque e o incendio, e os cidadãos com a morte!
Se estivesse mais lembrado da sua juventude deveria recordar-se do modo por que a França respondêra heroicamente aos que lhe apontaram a espada ao peito dizendo o mesmo.
X
Tolda-se o tempo
Transportemo-nos um pouco antes dos successos esboçados nas paginas antecedentes aos paços da inquisição, situados no Rocio de Lisboa, aonde hoje ergue o seu frontão votado ás Musas o theatro de D. Maria II. Em algumas das salas e aposentos do antigo palacio dos Estáos, restaurado pelo marquez de Pombal, assentou Lagarde as repartições da policia geral do reino. Era justo! Ao lado do santo officio da fé o santo officio da usurpação. As duas inquisições fraternalmente hospedadas uma a par da outra não podiam offender-se do acaso que as unia! Soldados da guarda real da policia, corpo fundado e disciplinado pelo conde de Novion, emigrado francez que as victorias de Bonaparte e a invasão de 1807 lançaram outra vez nos braços dos seus compatriotas, guardavam as portas de fóra, ou de espadas em punho vigiavam os corredores e camaras, que precediam o quarto reservado aonde o proconsul se encerrava com os seus confidentes.
Deixemos passar esses vultos, que pisam os sobrados nas pontas dos pés, escorregando quasi como sombras. São rodas secundarias da machina. O olhar enviezado e inquieto, o rosto meio escondido na dobra do capote, e a humildade rasteira denunciam, sem necessidade de mais exame, os delatores obscuros, ou os agentes provocadores, destacados nas ruas e praças, ou nas tavernas para escutar e repetir os clamores de indignação das multidões. Esperemos que algum personagem de elevada gerarchia appareça, e nos introduza no gabinete discreto e só accessivel a poucos eleitos, aonde o magistrado estrangeiro conta as pulsações do coração de Portugal, e segue com a vista fria e penetrante os estremecimentos de cholera, ou de impaciencia do paiz, cançado da oppressão e envergonhado do silencio, em que a supporta ha sete mezes!
O general Junot, governador de Paris, entra pelo braço do conde da Ega, seguido de seus ajudantes de campo. O ministro Herman, encarregado dos negocios do reino e da fazenda, ex-commissario imperial, não se demora atraz d'elle. Lunyt, secretario d'estado da marinha e da guerra já os tinha precedido. A concorrencia de taes pessoas inculca acontecimento notavel, e é de crer que o conselho se não separe sem que alguma providencia venha esclarecer o segredo dos ultimos dias e dos ultimos sucessos. Quem nos abrirá caminho até ao famoso reposteiro, que deante da entrada da sala vedada representa para os profanos o papel de véu de Pythagoras? As sentinellas, immoveis como estatuas, velam fieis ás ordens recebidas. Os porteiros, em ar protector, ou mysterioso, despedem os pretendentes e os importunos. Um cordão de empregados corta á curiosidade todos os passos. Gritou-se, porém ás armas. O uniforme de um official superior reluz na extremidade de extenso corredor. Os subalternos inclinam-se profundamente, e respondem em voz submissa ás perguntas imperiosas, que lhes dirige. Acompanhemos este iniciado. É o capitão de mar e guerra Magendie, commandante da marinha. Seguindo-o, temos a certeza de não encontrar obstaculos.