A Casa dos Fantasmas - Volume I Episodio do Tempo dos Francezes
Chapter 6
--Somos tres. Os meus companheiros esperam no fim do corredor, que desembocca n'esta porta secreta. Pertencemos ao conselho conservador de Lisboa, soubemos da prisão de seu pae, e seguimos os milicianos de longe. O lavrador, que traz esta casa de renda, é nosso, e ensinou o modo de entrarmos aqui. Temos caminho facil para fugir.
--Ah! E Manuel Coutinho veiu tambem?... accudiu Leonor córando.
--Não! Pouco ha de tardar. Está perto, e mandou-se-lhe recado... Mas os momentos são preciosos. Não podemos demorar-nos aqui. Quer ir acordar seu pae sem bulha e dizer-lhe?...
--Já! Vou immediatamente. São dois minutos em quanto volto com elle.
--Pois sim. Aqui espero.
De feito, instantes depois Leonor tornava com Paulo de Azevedo, e este apertava silenciosamente a mão ao desconhecido, que lhe dizia em voz baixa:
--Venha! Temos os cavallos promptos e tudo a postos. Simão da Costa e Nuno do Rio, seus amigos, estão alli dentro, Manuel Coutinho vem já caminho da Ponte... São mais de onze horas. Ás duas saímos, se a noite lhe mette menos medo, que a cadeia de Santarem...
--Quando quizer. Para onde?...
--Para Lisboa. Para o covil do Lobo. Aonde menos cuidem que póde estar, ahi será o mais seguro.
Paulo inclinou a cabeça e seguiu-o com sua filha.
O espelho fechou-se. Quando o sargento veiu não achou nem o rasto de seus presos.
VIII
Entre os bastidores
Lá sabemos como Leonor e seu pae conseguiram evadir-se sem as chaves da prisão saírem do bolso do carcereiro. Agora cumpre-nos explicar a resurreição dos mortos na casa maldita, e esboçar em duas palavras a biographia do intrepido espectro, que, mascarado em alma do outro mundo para assustar os valorosos milicianos da comarca, ás ordens do sargento, baqueou das andas abaixo, transido de pavôr, por achar o defunto, de pé tendo-o visto entrar em braços dos creados.
Nos acontecimentos d'esta infausta noite para os agentes da policia franceza, o morto-vivo e o espectro medroso representaram um papel, que os torna dignos de nos demorarmos com elles por algum tempo.
Principiemos pelo honrado fazendeiro, cuja desastrada sina choram em côro as visinhas e as comadres da aldeia. Como o encontramos de repente são e escorreito com profundo terror dos sicarios, que se julgavam livres do seu nodoso cajado de marmeleiro? Que santo obrou o milagre de levantar da sepultura este Lazaro de japona para confusão e ruina dos inimigos? Como dormiu elle no reino das sombras tantas horas, e só accordou, como ao rebate da trombeta final, com o dobre fatidico da meia noite, hora fadada a visões, a trasgos e a feitiços?
As tres perguntas são razoaveis, e a curiosidade do leitor é natural. Desejariamos de bom grado asseverar-lhe, sem faltar á verdade, que o sabido condão do palacio deserto fôra o auctor de todos os prodigios, porém somos obrigados a confessar como sinceros chronistas, que até aqui o maravilhoso e o sobrenatural só existiram na imaginação escandecida de alguns dos actores, que pozemos em scena. Tudo o que passou se explica perfeitamente sem ser preciso prevalecermo-nos da má reputação da Casa Negra.
Em primeiro logar o Manuel Simões não resurgiu á sexta hora de entre os mortos, embora padecesse sob o poder do sargento Cabrinha, porque para resuscitar era necessario estar morto, e elle nunca chegou a fallecer! A bala do _Sapo_ roçou-lhe pela testa, ferindo-o de raspão, e lançando-o por terra sem sentidos; mas não penetrou na cabeça.
Quando vieram as mulheres, e entoaram em roda do seu corpo as nenias costumadas, principiava elle a voltar a si; e quando o João da Ventosa se approximou, suando e esbaforido, porque do alto de um cabeço ouvira o tiro, e dois minutos depois descobrira no luz-que-fusque o _Sapo_, correndo em saltos de gafanhoto com a espingarda na mão, já achou o corpulento fazendeiro sentado no chão, muito tonto ainda como se recolhesse de alguma feira, ou romaria, porém sem lesão grave, e apalpando escrupulosamente todos os ossos e costellas.
--Ah! Ah! Compadre! gritou o rendeiro extendendo a mão ao amigo e contentissimo de o ter vivo. Com que então os caçadores andam pelo sitio, e fizeram-lhe alvo da cabeça? Safa demonio! ajuntou examinando-lhe a fronte mais de perto. Escapou mesmo por uma unha negra!... O maldito tinha-lhe vontade, e não queria perder a polvora. Upa!... Póde vir outra ameixa detraz do vallado, e custar-nos mais a engulir... Se foi só isso não é nada. Mas!...
--Ainda não foi d'esta, sôr compadre, e se eu soubesse quem me fez a esmola... com seiscentos milheiros... de cobras!... Moia-lhe os ossos com este cajado mais moidos que pimenta em almofariz... Patife! Atirou-me como a um lobo! Ah, sôr João, vossa mercê acaso veria quem foi o alma ruim?!... Parece que tenho dentro da cabeça a mó do moinho a zoar, e que me anda tudo á roda! Ora esta!...
--Olhe compadre, o melhor é mudarmos de pouso; depois falaremos. Alli em baixo, na fonte, ata um lenço molhado na cabeça, e lá em casa lhe diremos o que vimos. Agarre-se a mim, não tenha vergonha. Forte historia!
--Antonio me não chame eu, sôr compadre, se me ficar inteiro uma semana o ladrão, que me pregou esta bala! Hei de achal-o, mas que haja de descer vestido e calçado em busca d'elle aos infernos...
--Não será preciso, homem!... Agarra-o cá em cima sem ir tão longe. Mas ha de fazer o que eu disser.
--Pois vá! Olhe que o dito, dito! Isto não se leva a rir.
--Tem razão, compadre; vamos. Trago cá uma idéa!... Emfim! O que for soará...
Os dois pozeram-se a caminho, porém muito devagar, porque Manuel Simões de cinco em cinco passos cambaleava com vertigens, a que chamava nobremente vagados. Era noite fechada, quando avistaram a Ponte da Asseca, e a casa. Chovia e trovejava que mettia mêdo.
O João da Ventosa, que em todo o tempo não soltára palavra, labutando, contava elle depois, com a sua idéa, virou-se então para o fazendeiro e disse-lhe que se deitasse e se fingisse morto emquanto ía chamar os creados.
--Que me deite e faça morto, salva tal logar?! Oh sôr compadre?! exclamou o ferido. E para quê com um milheiro de cobras?...
--Para apanhar a raposa e as gallinhas na capoeira. Você não sabe, homem!? Não vê que se quem lhe atirou atinar que perdeu a bala muda-se com vento fresco, e nunca mais lhe pomos os olhos em cima... Estire-se-me já n'esse chão, não venha alguem. Nem trus, nem buz! Pela lingua morre o peixe.
--Ora essa!... Sempre tem cousas, este sôr compadre! Com que então ainda em cima quer que me espoje n'este charco, e que feche a bôcca a cadeado?... Vá lá! Por esta não esperava eu. Arrenego!
--Viu pescar á linha sem anzol, sôr casmurro? Vamos. Esse corpanzil já por terra, e caluda! Não me demoro.
Manuel Simões, resmungando, e praguejando, sempre se foi deitando no sitio mais enchuto.
Minutos depois tornou o compadre com o maioral e o abegão, em grandes lastimas por tamanha desgraça, e levaram-o por morto em braços até á cozinha da casa, aonde o vieram encontrar, como vimos, os dois assassinos.
Os creados, apezar de conhecerem por experiencia a força herculea do João da Ventosa, benziam-se de que elle tivesse carregado só com aquelle corpo, tão pesado, desde a azinhaga, como lhes disséra. Sentiam os braços derreados só de o trazerem de tão perto!
O lavrador mandou accender fogo, e pôr agua ao lume; pediu um alentado cangirão de vinho, uma tigela de assucar mascavado, e chamou de parte a tia Margarida, ministro feminino de todas as repartições domesticas da granja, para lhe confiar o occorrido, exigindo o maior segredo. A velha esconjurou-se, louvou a Deus pelo milagre visivel, e saíu, trotando e rosnando, para fazer a cama ao fazendeiro em um vão escuro, e desviar da cozinha a vista e as orelhas dos curiosos.
Seguiu-se um entre-acto bacchico, durante o qual a agua quente e o assucar serviram de pretexto ao vinho, o qual representou a parte principal. Estava já menos de meio o cangirão, quando a voz esganiçada de José Vardasca, diabrete de quinze annos, sobrinho do rendeiro, em altercação com o contralto enrouquecido da tia Margarida, obrigou os dois campeões a suspender as hostilidades. Manuel Simões amarrou o lenço manchado de sangue á roda da testa, de modo que lhe cobrisse a cara, e extendeu-se sobre a mesa de pedra. Um feixe de palha serviu-lhe de cabeceira, e uma manta cobriu-o até aos pés.
Ensaiada assim a peça, João da Ventosa abriu a porta, e com um--Olá!--que fez tremer as paredes, poz termo ao dueto da velha e do rapaz.
José Vardasca não vinha só. Acompanhava tres sujeitos, envoltos em capotes de baetão grosso de gola alta, cobertos com sombreiros de abas derrubadas, os quaes esperavam fóra da porta, no escuro, que elle désse ao tio o seu recado.
Ao que parece os viajantes eram conhecidos do rendeiro, porque apenas o rapaz lhe disse, quasi ao ouvido, algumas palavras, este correu sem chapéu apezar da chuva, e encaminhou-se para elles. Ninguem ouviu o que falaram, mas os creados viram desapparecer o amo e os hospedes por detraz do muro da horta, e recolher-se passado um pedaço o João da Ventosa só, em ar de quem se não tinha cansado com o passeio. As conjecturas dos servos não foram adeante. Cuidaram que elle saíra a metter os tres embuçados no atalho da azinhaga, e se acaso se admiraram foi, sendo tão largo e generoso, de lhes não ter dado agasalho em sua casa por uma noite, em que a agua era tanta, diziam os rusticos, que a podiam os cães beber de pé!
Mas o lavrador sabia melhor do que elles o que fazia. E nós, que não somos de segredos, e que não receiamos que a policia dos francezes nos tome contas em 1864, das conspirações de 1808, não duvidaremos revelar as razões do seu procedimento.
Os tres sujeitos eram nada menos do que tres delegados do conselho conservador de Lisboa, associação composta de patriotas dedicados á restauração da independencia e do throno legitimo, e decididos a todos os sacrificios para arrojarem da sua terra os soldados de Bonaparte. Tinham atado relações em todo o Ribatejo com os homens que podiam ajudal-os em seu arriscado proposito, e haviam partido dias antes da capital para se reunirem em Santarem com Manuel Coutinho e alguns cavalheiros do Sardoal, Leiria, Pernes e Rio Maior, no intento de assoprarem de mais perto a irritação popular, e de irem dispondo os animos para a sublevação geral, que meditavam, apenas as cousas lhes proporcionassem ensejo favoravel.
João da Ventosa, assim como o Manuel da Cruz, e outros visinhos, iniciados em parte do plano, executavam com cega fidelidade todas as ordens emanadas d'este governo occulto e revolucionario, que na ausencia da familia real, e em presença do jugo estrangeiro, representava para elles a unica e verdadeira auctoridade do paiz.
O rendeiro, pois, assim que os tres desconhecidos lhe repetiram as palavras, que serviam de senha aos amigos da liberdade--pelo rei e pela patria--largou tudo, e offereceu-se logo para o que mandassem com a maior submissão.
A reputação diabolica da Casa Negra, guardava-a por tal modo da curiosidade, que nenhum refugio mais seguro podiam encontrar os conspiradores, não só para pernoitar, mas afim de celebrarem as conferencias. Explicaram os seus desejos ao lavrador, e este, que o medo dos fantasmas não vexava, guiou-os pela horta a uma entrada secreta, disfarçada com um tapume de tábuas, e introduziu-os nas salas e aposentos do primeiro andar do palacio. Accendeu luz com o fuzil, ensinou-lhes alguns dos segredos dos quartos e corredores, e prometteu trazer-lhes vinho e refrescos.
A chegada do sargento e dos presos, espertando a imaginação do malicioso rendeiro, e a coincidencia de abrigar debaixo do mesmo tecto a victima e os assassinos, suscitou-lhe a idéa de salvar Paulo de Azevedo e sua filha das garras dos agentes de Lagarde, castigando ao mesmo tempo a perversidade de Cabrinha e do seu acolyto. Avisou os delegados do conselho de Lisboa, ajustou com elles a maneira de fazer evadir o cavalheiro de Mafra e Leonor, condemnou o fazendeiro á immobilidade, assegurando-lhe em premio da sua paciencia as delicias da vingança, e para não omittir nenhum episodio distribuiu ao travesso José Vardasca o papel conspicuo de phantasma branco, marcando a todos a meia noite, como a hora mais opportuna para o feliz exito do drama.
Sabemos qual foi o resultado. Os milicianos fugindo, o _Sapo_ correndo até perder o folego, e o sargento estatelado sem sentidos no meio da cozinha! O que se tornou mais difficil foi calar os berros do intrepido José Vardasca, assombrado com a vista do fazendeiro, e convencel-o de que não estava com um defunto, mas com um homem vivo e inteiro. O rapaz não se rendeu á evidencia, senão depois que viu e apalpou como S. Thomé.
O sargento, cujos ossos ameaçou por umas poucas de vezes o cajado, ou antes a clava de Manuel Simões, e que o João da Ventosa não trabalhou pouco por salvar ainda d'esta vez, o sargento, desmaiado e inerte, foi levado para cima de um catre e vigiado por um dos moços com ordem de chamar o lavrador assim que abrisse os olhos. O fazendeiro da Aramanha, mal rompia a aurora, tomando o conselho do compadre, montou n'uma egua, e partiu para casa a descançar, não sem primeiro rezar um responso ás costellas do virtuoso Cabrinha e ao pescoço de Gaspar Preto, aonde quer que os encontrasse.
O sargento esteve duas horas sem accordo. Quando voltou a si não via senão fantasmas em redor da cama. Custou a socegal-o.
O que mais abalára aquella alma seraphica fôra a fuga dos seus presos! Não podia conceber como lhe tivessem escapado, e na sua dor pharisaica arrepellava as melenas, e blasphemava como um possesso, jurando contra Satanaz, contra a Casa Maldita, e contra si. Mesmo de noite quiz saír. Pediu o cavallo, outro espectro na transparencia e magreza, e cravando-lhe as esporas voou a Santarem, talvez na esperança de ainda pôr a mão em cima da presa.
Voltemos agora á Azenha de Cima, aonde deixámos Manuel Coutinho e o Antonio da Cruz, esperando pelas horas mortas da noite afim de emprehenderem a campanha planeada por ambos.
Apezar da chuva caudal e dos relampagos, o moço do moinho, garoto leve como um ginete, que via de noite como os gatos, e era capaz de entrar pela bôcca de uma manilha, tinha sido mandado pelo amo á descoberta até á Casa Negra com ordem expressa de não se deixar agarrar, e de espreitar em roda com a sua curiosidade habitual. O rapaz partiu a correr, como se a agua lhe não batesse em cima ás torrentes, e uma hora depois voltava com a noticia de que os presos estavam na Casa Maldita, de que o sargento, o _Sapo_, e os milicianos ceiavam regaladamente com o João da Ventosa, e de que o corpo do Manuel Simões fôra recolhido pelo lavrador, e jazia com uma véla aos pés e outra á cabeceira na mesma cozinha, aonde o beleguim emerito e seus sequazes se estavam banqueteando.
Em toda esta chronica, narrada pelo moço com incrivel volubilidade, o que mais socegou o animo de Antonio da Cruz foi a certeza, de que o cadaver do fazendeiro da Aramanha não desapparecêra, como se dizia, por artes do demonio. Estava prompto a medir-se e a arcar com uma companhia inteira de milicias, mas o inimigo do genero humano tremia só de cuidar que poderia encontrar-se com elle um só instante!
--Ah José! disse depois de certa pausa. Então o sôr João da Ventosa é que levantou o corpo do Manuel e o levou para casa?... Estás bem certo? Viste?...
--Com estes dois que ha de comer a terra, respondeu elle, fazendo uma cruz com os dedos, e beijando-a. Assim me Deus salve a minha alma. Ah patrão, que _diluivo_ de agua que vae por ahi abaixo! Parece que quer alagar-se hoje o mundo. Credo!...
--É verdade! accudiu o moleiro. Vens um pinto... Vamos! Que tal te sabia um trago, ou dois de agua pé, ein? A roupa não te pesa e estás tiritando que parece que te apanhou uma sezão...
O liquido medido com largueza pagou os trabalhos do moço, e o amo despediu-o logo depois, em quanto Manuel Coutinho passeiava de um lado para o outro inquieto e murmurando por entre dentes algumas palavras.
--Antonio! observou o mancebo, parando de repente defronte do moleiro, e encarando-o firme. Atreves-te a ires commigo á Casa Negra, para enxotarmos de lá o sargento e a sua quadrilha? Elles são oito, ou nove, mas nós dois bem armados e decididos?!...
--Valemos por dez ou doze. Vá feito, senhor! A espingarda é de dois canos e a choupa está amolada... V. s.^a quer a outra espingarda? É um instante em quanto se carrega?
--Não!... Sim!... Carrega! Guardarei as pistolas e a espada para o fim se for preciso.
--Quer que vamos já?... Sinto uns formigueiros n'este braço, que não me deixam senão quando assentar em cheio duas boas lambadas nas costas do sargento e na cabeça d'aquelle alma ruim do _Sapo_...
--Não as perdem, mas espera!... Que bebam até caír. Nós os faremos erguer. Podes fumar homem!
--Com sua licença.
O dialogo acabou aqui. Manuel Coutinho sentou-se com a cabeça entre os punhos e os cotovellos na mesa, scismando, e o Antonio poz-se com todo o vagar a carregar e escorvar a espingarda. Depois foi ver as mós se tinham grão, abriu o ladrão da presa, e quando tornou, veiu encontrar ainda o patrão na mesma posição com o relogio deante de si e os olhos cravados nos ponteiros.
--Agora! exclamou o mancebo levantando-se com impeto. É meia noite! Esperam por nós. Vamos! E cobrindo-se com a manta, que o Antonio extendera a enxugar ao lume, passou as pistolas no cinto, apertou o boldrié da espada mais alto, e pegou na espingarda.
O moleiro ainda se apromptou mais depressa. Enrolou-se na manta, cobriu com ella a coronha e os fechos da clavina, metteu-a debaixo do braço esquerdo, e empunhou com a mão direita o inseparavel varapau rematado pela choupa. No momento, em que estava dando volta á chave da porta um immenso clarão livido abriu os céus, o outeiro illuminou-se de fulgores sinistros, e a casa tremeu com a terra ao ribombo do trovão perpendicular. Apezar da sua intrepidez os dois recuaram quasi assombrados até ao meio do aposento: Santa Barbara! bradou o Antonio benzendo-se. Jesus! clamou o amo ao mesmo tempo. Ficaram immoveis ambos olhando um para o outro.
--Deixemos passar a maior, senhor! disse d'ahi a instantes o vigoroso aldeão. Ella anda mesmo por cima da nossa cabeça...
--Pois sim. Deixemos! redarguiu Manuel Coutinho sentando-se no banco defronte da porta.
Minutos depois outro relampago menor allumiou o campo, e á luz d'elle viram vir correndo ennovellado direito ao moinho um vulto, que mais parecia na velocidade um furacão, do que um homem.
--Oh lá! disse em voz cheia o moleiro. Castelhanos por aqui á meia noite?! Quem temos? É bom vêr sempre!...
Não teve tempo para mais, do que para se desviar, extender o braço, e segurar pela golla o impetuoso vulto, tão cego na partida, que se elle não se arreda a tempo, colhe-o pelos peitos, despedido como uma bala de canhão, e atira-o ao chão, porque trazia força para arrombar portas e paredes.
--Ah, sô amigo, aonde vamos com tanta pressa? exclamou o Antonio, o qual affeito a apanhar na praça os bois de cara, amarrava ao limiar com o vigoroso pulso o desconhecido, que, estafado e convulso, estacou arquejante e sem poder falar.
Manuel Coutinho, callado e quasi indifferente, havia-se approximado da porta, e contemplava a scena, como quem só desejava, que ella se não prolongasse. Antonio da Cruz adivinhou a impaciencia do mancebo, e voltando-se para elle disse-lhe:
--É um instantinho, meu amo! Entretanto amaina mais a chuva... mas nadar por estas horas com mouros na costa, nada!... Vamos, patrão, desate-me já a lingua, como desatava as pernas pelo cabeço arriba, e diga para ahi quem é, e o que faz correndo por esta linda noite até á porta da gente de bem!... Vamos, desembuche, senão!...
--Sou... Sou...
--É! É... Quem? Cousa boa, não decerto. Com a breca! Entre que lhe queremos ver o focinho á candeia. Melros ás escuras podem saír morcegos!...
E ao mesmo passo arrastava para dentro da cozinha o vulto, que escorrendo em agua, e cortado de frio e medo, nem lhe resistia, nem tinha animo para articular palavra. Apenas lhe metteu a luz ao rosto, o moleiro, fitando-o, voou de um salto á porta, fechou-a, e voltando-se para Manuel Coutinho, disse-lhe com um riso amarello:
--Aposto que v. s.^a não é capaz de adivinhar quem o diabo nos trouxe por aqui? Sabe quem é este cara de fuinha?...
--Nunca o vi. Não o conheço.
--Pois olhe que perde!... Isto é o maior heroe cá dos sitios... Nem mais nem menos, do que o sôr Gaspar Preto, por alcunha o _Sapo_!...
--O _Sapo_? Já te ouvi esse nome... Será?!...
--O maior ladrão e traidor da cafila dos jacobinos... Oh, mas por aqui a esta hora, não é natural! O sargento Cabrinha não anda longe, aposto!... Este velhaco é o seu braço direito...
--Percebo!... bradou o mancebo, deitando tambem a mão ao _Sapo_, e saccudindo-o de modo, que se repetisse, ameaçava desconjuntal-o. Antonio! Não o deixes escapar! Foi Deus que o trouxe...
--Deus?!... Antes o demonio, cujo é!... Não importa. Veiu por guloso? Pagará as dividas que tem na minha conta. Se havia de ser ámanhã é hoje. Gaspar! Toma sentido! Se não me respondes direito, por alma de minha mãe te juro, e sabes que nunca jurei em vão, que deixas aqui a pelle pelos nós d'essa corda, ou os ossos na vara do meu cajado...
--Sôr Antonio, por quem é!...
--Por quem sou mesmo. Prometti, e costumo cumprir.
--Nunca lhe fiz mal...
--Hum! Nem bem!... Vamos! Cabeça alta e lingua solta. D'onde vens?
--Da Casa Negra, aonde appareceu o demonio ao sargento, a mim, e aos milicianos.
--Ah! Ah! accudiu Manuel Coutinho. Deixa-me perguntar. Este fio póde levar-nos longe.
Interrogado pelo mancebo, entre o pavor dos espectros e o medo das ameaças de Antonio da Cruz, Gaspar Preto fez uma confissão geral tão sincera, que até o segredo do tiro dado em Manuel Simões lhe saltou quasi todo da bôcca sem se sentir. O pavor ensandecia-o.
--E affirmas não estar já ninguem na casa, senão os presos?
--Ninguem, a todos os vi fugir, como lebres...
--E o sargento?
--Desappareceu. Foi o primeiro.
--Bem! Agora nós! atalhou o moleiro. O que vinhas tu aqui cheirar ante-hontem? Se disseres a verdade não te toco.
--Eu!... Eu!...
--Tu sim!
--Vinha ver... se havia gente de fóra por cá!... redarguiu o malsim contido pelo olhar firme de Antonio, e estorcendo-se como se lhe estivessem dando tratos.
--Ora graças a Deus! Já confessas!... Vinhas então como espia! Está bom. Outra pergunta. Quem foi ao Casal do Ouro? Fala!...
--Eu!... Suspirou tremulo o miseravel.
--Quem te mandou?
--O sargento... Que eu por mim!...
--Bem sei. Vamos a outra historia. Esta tarde deram um tiro no Manuel Simões?... Vê bem! Quem foi? Olha lá se mentes!...
Gaspar sentiu dobrarem-se-lhe os joelhos, fugir-lhe a vista, e zumbirem-lhe os ouvidos. Esbugalhou os olhos, e por mais que quizesse não poude pronunciar uma syllaba.
--Quem deu o tiro, quero saber! repetiu o moleiro, meneando o varapau e encarando o assassino com terrivel gesto.
--Não sei... Não sei...
--Sabes e viste. Essa cara de réo o está confessando. Fala. Quem foi?
--Eu!... por descuido...
--Descuidos teus, já sei. É o que suppunha. Agora vê lá!... O sargento não te tinha dito nada?...
Houve uma pausa longa. O _Sapo_ chorava, supplicava, mas não redarguia á interrogação.
--V. s.^a já viu esmagar uma osga contra uma parede? bradou o Antonio fuzilando-lhe as pupillas, e convulso de cholera. Pois vae ver. Juro-lhe, se este cão se cala um minuto, que deixa os miolos n'aquelle muro.
--Pelo amor de Deus!... Sôr Antonio não me deite a perder!...
--O sargento sabia?... replicou o outro alçando o cajado.
--Jesus!... Não me mate!
--Sabia ou não?...
--Sabia!... rosnou o malsim quasi sem sentidos de terror.
--Quanto te prometteu... pelo tiro? Conheço-te. Tu de graça não o disparavas.
--Agora isso não! Póde matar-me, mas não confesso.
--Eu matar-te?... Para que? O carrasco não come pão de graça.
--Então entrega-me?!...