A Casa dos Fantasmas - Volume I Episodio do Tempo dos Francezes

Chapter 5

Chapter 54,009 wordsPublic domain

Defronte um tremó, que na sua mocidade brilhára pelo esplendor dos dourados, mas que na velhice, ou antes na decrepidez, apenas se recommendava por bellos relevos de folhas e flores, com um espelho de Veneza em cima, comido e manchado no aço, sustentava duas jarras do Japão da mais preciosa porcellana, infelizmente rachadas. Cadeiras de braços, mutiladas, um velador alto desgrudado, um bofete de almofadas com sua escrevaninha de prata mareada, olhando para o espelho, completavam a mobilia.

Na segunda camara havia um leito mais singelo sem cortinas, e um espelho embutido na parede, que enchia de alto a baixo um vão inteiro. O bofete liso com tinteiro de bronze antigo, e as quatro cadeiras que constituiam todo o seu adorno, não accusavam pouco os annos pelo estado de ruina; e as colgaduras[1] de couro, rotas ou tão coçadas, que não tinham já côr possivel, deixavam em parte nus os muros, provando que o tempo as respeitara menos, do que aos pannos de Arraz do quarto principal.

O cavalheiro de Mafra mal correu a vista em redor de si. Sentou-se deante do bofete da sala grande, molhou a penna na tinta grossa da escrevaninha, e começou machinalmente a traçar linhas e dezenhos informes em um papel. Desde o Casal do Ouro até alli não descerrára os labios, nem para falar á companheira do seu infortunio; e só o ardor sombrio das pupillas denunciava a ira, preferindo consumir calado as tristezas a desafogal-as em vozes, ou em queixas. Leonor contemplou-o silenciosa por alguns momentos, e, avisinhando-se depois nas pontas dos pés, pousou-lhe na fronte annuviada um beijo, que a ternura humedeceu de lagrimas.

Paulo, como se acordasse repentinamente, vendo no espelho o lindo rosto debruçado sobre o seu estremeceu. Um sorriso melancholico adoçou-lhe a expressão severa. Cedendo ao carinho de tão suaves caricias, e tornando os olhos meigos, fitou-os cheio de enlevo na formosura da filha. Cingindo-lhe depois o collo com os braços, cobria-lhe de osculos os cabellos e a fronte, e procurou tranquillizar-lhe a inquietação.

Leonor era todo o seu amor e toda a sua familia. Se desejava sobreviver ás desgraças da patria é porque não queria deixal-a orphã e desamparada n'uma edade, em que as illusões armam tantos laços á candura e á innocencia.

Mas as palavras do velho cavalheiro não o enganavam a elle, nem á donzella. Quando para a consolar affirmára, que um vago presentimento lhe augurava, que não chegaria a entrar na prisão da villa, via-a aberta para o receber, e o conselho de guerra convocado para o sentenciar! Quando lhe lembrava, que seus amigos não dormiam, e que Manuel Coutinho, e dois d'elles, andavam perto, sorria-se por dentro da invenção, porque ignorava se a sorte d'elles não seria egual, ou peior n'este momento!

Leonor ouvia-o com a incredulidade do affecto. O fino instincto das almas, que são todas sentimento, é adivinharem os verdadeiros motivos dos sacrificios generosos. Palpava a verdade, e tremia que o futuro fosse ainda mais funesto. Mas dotada de caracter varonil vencia-se para não atormentar seu pae, devorando os prantos, e comprimindo os soluços.

Á ceia a visita do lavrador, e a presença odiosa do sargento de sentinella, como vimos, á hospitalidade do rendeiro, interromperam a conversação cortada, com que os dois se distraíam, e apenas as portas tornaram a fechar-se, e Margarida poz a mesa, o pae e a filha, tomada uma refeição mais do que sobria, e já cansados de dissimular, despediram-se e cada um se recolheu á sua camara.

A creada no mesmo instante fez a cama para si em um recanto, e fatigada adormeceu mal a cabeça tocou no travesseiro.

Leonor aproximou-se então do espelho, lançou sobre as espaduas núas um penteador de cassa, e principiou a desatar as tranças, que, desfeitas, se encresparam em madeixas negras, envolvendo-a no mais luxuoso véu. Duas lagrimas, duas perolas, avelludavam-lhe o olhar tocado de branda ternura, e as pupillas, pretas e languidas, ás quaes aquella nuvem leve de melancholia toldava um pouco o brilho, levantavam-se armadas d'aquelle requebro meio tristeza, meio reflexão, que fala com tanta eloquencia; e prende com tão irresistivel poder até os mais isentos. A bôcca, pequena e graciosa, abria aos cantos duas covinhas assetinadas, berços de lyrios aonde se embuscava a malicia espirituosa, tornando o sorriso fascinador. Os dentes, ora appareciam finos e eguaes, como fios de aljofres entre rubis, ora se escondiam, quando a phisionomia tomava a expressão contemplativa e serena, que era o seu maior triumpho. O collo esbelto, disputando alvura ás açucenas, pousava-se com graça; as faces e a fronte douravam-se d'aquella transparente e mimosa côr, em que as rosas nascem e desmaiam á mais leve commoção, radiosa carnação, que tanto realça a belleza meridional, mesmo quando não cede ás mulheres do norte a palma dos niveos encantos. O seio virginal palpitava sobresaltado. A mão estreita e leve deslaçava impaciente os nós de fita do justilho; e a estatura elegante e flexivel prestava-se em ondulações airosas a todos os movimentos.

Um suspiro e um gesto, que exprimiam a tribulação do animo combatido de apprehensões, e uma pausa, em que a vista se perdeu pelos idilios do primeiro amor, revelavam as duas correntes encontradas, com que luctava áquella hora. O que lhe dizia a ternura filial repetiam-n'o as lagrimas lentas e silenciosas, vertidas quasi sem as sentir. O que anciava e assustava a timidez da paixão entre hesitações e receios, mais fortes que a vontade, retratava-o a repentina chamma da vista, e o extasis em que o rosto se transfigurava subitamente, illuminado pelo duplo clarão da esperança e do pudor. Quem podesse colher n'este instante o segredo da sua alma só encontraria n'ella duas imagens--a do pae extremosamente querido, e outra mais viva, mais occulta, e mais funda ainda, a de Manuel Coutinho, que o pejo quasi encobria de si mesma, mas que uma ternura invencivel avivava a cada palpitação do peito!

Leonor sentou-se ao bofete no desalinho da meia nudez, dobrou uma folha de papel, e contemplou-a por momentos com a cabeça entre as mãos e a vista vaga e esquecida. Depois, meneando a fronte, como se quizesse sacudir o peso dos cuidados, inclinou-se para a mesa, soltou a penna sobre o papel, e começou a retratar as tristezas do captiveiro e os sonhos do coração.

Usando do privilegio concedido aos auctores de historias, tão veridicas como esta, introduzir-nos-hemos n'este ninho virginal, e por cima do hombro da linda escriptora ao qual o véu diafano das rendas mais faz sobresaír o marfim polido e a fórma admiravel, iremos lendo á medida que ella as escrever, as confidencias, que julga depositar unicamente no seio da mais discreta e mimosa de suas amigas de infancia, de D. Marianna de Sousa, mais velha um anno, e tambem desterrada com toda a familia para longe do antigo solar de seus paes em Lisboa.

Escutemos a conversação travada a distancia entre ellas. É de crer que nos diga mais, do que extensos commentarios ácerca dos principaes personagens, cujas aventuras emprehendemos esboçar com a fidelidade e escrupulo proprios de narradores inaccessiveis á fabula e á lisonja.

Leonor de Azevedo a D. Marianna de Sousa

«Minha freirinha!... Deixa-me dar-te mais esta vez ainda o doce nome da nossa amisade! Escrevo-te das portas de uma prisão, e talvez, ai! tremo dizel-o! dos primeiros degraus do cadafalso de meu pae. Realizou-se o que eu tanto receiava. Lagarde descobriu o nosso asylo. Estamos em suas mãos. Offendi-lhe o orgulho; é capaz de tudo; e conto com a vingança promettida. Não me arrependo. No meu logar, Marianna, farias tu o mesmo, e esperavas resignada a tua sorte... Se não fosse meu pae, pouco ou nenhum caso faria d'elle... O despreso até mata a aversão, e de certo ninguem o despresa tanto, e com mais rasão.

«Lagarde veiu a Mafra a um baile que lhe deram. Tentaram-lhe a cubiça as terras e os vinculos, que hei de herdar, Deus queira que bem tarde (!), e por desgraça poz os olhos em mim para enriquecer um parente, que não conheço, que me não conhece tambem, mas que elle ousou dizer que me adorava pelo retrato, que lhe fizera de mim... dos bens da minha casa é mais provavel! Marianna, lês na minha alma, e bem pódes imaginar o espanto em que fiquei, ouvindo de um estrangeiro esta proposta, que me offendia na ternura filial e no amor proprio... Nem lhe respondi! Encarei-o, e, levantando-me, deixei-o acabar a ultima cortezia e o ultimo sorriso deante de uma cadeira vasia. Dizes que me pareço com meu pae, e que a natureza errou em mim o sexo. Talvez. Nunca senti tantos desejos de ser homem! Mulher, senão fosse o mundo!... Ha affrontas, porque choro amargamente a nossa fraqueza!

«Lagarde tem maneiras e grande uso da sociedade. Não sossobrou com o revés, começando a girar pelas salas como o convidado mais jovial. Notei que não tirava a vista de mim, e preparei-me para segunda instancia. Não tardou. Veiu tirar-me para dançar, louvou o meu toucado, o meu vestido, a delicadeza das mãos, a graça e a alvura das rendas; achou-me linda e seductora; extasiou-se de lhe responder algumas palavras em francez; e falou-me com enthusiasmo dos elogios que tinham feito da minha voz... Constrangi-me e escutei-o sem colera, sem impaciencia, mas com aquelle sorriso que tu dizias ás vezes, que era cortante como fio de dois gumes. Que remedio! Estavamos em scena, e elle é actor consumado. Depois, e no fim de tudo, por acanhada e esquerda não queria deshonrar a nossa educação do convento, nem dar-lhe motivos para que me tomassem pela provinciana boçal e nescia, que ao principio cuidára encontrar...

«Acabada a dança, em que te affirmo sem vaidade, que não envergonhei as lições do nosso mestre mr. de Lisieux, tão airoso com a sua cabelleira empoada, casaca direita, e rabequinha de estojo, ao apartarem-se os pares, convidou-me para darmos um passeio pelas salas. Inclinei-me, e acceitei-lhe o braço. Démos algumas voltas, e no meio de uma d'ellas, junto de um tremó carregado de flores, teve o despejo de renovar a supplica, assim lhe chamou, em ar de riso, porém o tom e a expressão diziam assaz que era uma ordem.

«Ouvi-o estremecendo. Não acreditas a jactancia, a soberba, e por baixo do verniz das phrases, o modo imperioso, com que este sultão me atirava o lenço em nome da felicidade do seu parente, e da minha, em nome da gloria e ornamento dos bailes de París e das recepções das Tulherias, que a rosa do occidente iria realçar com seus encantos!... Contive-me. Subiu-me em ondas a côr ao rosto. Empallideci depois. Aquelle escarneo era tão pungente, que me custava a supportal-o, sem lhe explicar ao menos que o entendia. Mas contive-me, protesto que me contive a ponto de me saltarem as lagrimas pelos olhos seccos! Não é possivel exprimir-te o que padeci nos minutos que durou este supplicio. Foram annos de angustia e de anciedade! Lagarde, como se adivinhasse, tocava em todas as partes melindrosas da minha alma e offendia-as. Tornou-se por tal fórma transparente a ironia, que se me figurava ouvil-o rir por dentro da eloquencia, que estava gastando em convencer a herdeira sómente cobiçada, para remir do naufragio a mocidade tempestuosa d'aquelle sobrinho, arruinado e invisivel, cuja causa advogava.

«Perguntarás, talvez, porque não fiz o que já tinha feito, porque o não deixei? Não me atrevi. Meu pae estava perto; Manuel Coutinho tambem; olhavam para nós, e ao menor signal que me escapasse, castigavam alli mesmo o insolente! Vê tu o meu enleio e o meu martyrio! Quando se afastaram, respirei. Podia mostrar a Lagarde, que a estatua vivia e tinha brios para vingar a dignidade do seu sexo. Inflammou-se-me a vista com a ira, fitando-a n'elle com um desdem tão altivo e firme que o obriguei a calar-se de repente no meio das lisonjas impertinentes. Percebi que não esperava tanto, e que se perturbava. Retirando então o meu braço, dei dois passos atraz, e medi-o da cabeça aos pés com aquelle olhar scintillante e frio ao mesmo tempo, que me achaste duas vezes, e que depois contavas, sorrindo, que era o mais fero e fulminante olhar, que nunca viras, porque gelava e queimava ao mesmo tempo. Não sei se foi esse, ou outro peior, o que sei é que recuou lentamente e quasi pasmado deante d'elle, como deante da ponta de uma espada; e quando lhe respondi, que preferia a cella do mais austero convento, a pobreza, a mendicidade até, á ignominia de me vêr em leilão na praça, á vergonha de acceitar o nome de um homem, que nem ao menos guardava as exterioridades hypocritas de um galanteio, julgando-me tão pouco que se propunha amar e pedir esposa por terceiro, vi-o fazer-se branco como a tira da camisa, esconder o sorriso nos cantos da bôcca, e olhar-me direito e serio como deve olhar-se para alguem, quando recebemos uma injuria grave. Mas polido, mesmo na sua colera foi senhor de si, e mordendo os beiços com tal furia que lhe espirrou o sangue d'elles, cortejou-me, e retirou-se. Á roda de mim tremiam todos. Eu levantára a voz, e tinha-o constrangido a curvar a fronte deante de muitos. Foi o que não me perdoou.

«Todas as nossas desgraças datam d'esta noite. Jurou humilhar-me, mas não o consegue. Livre, ou em ferros, o desprezo será egual... Antes a clausura, antes a vida errante que levo ha mezes, antes as estreitezas de uma prisão, do que a infamia de um laço apertado sem amor pela avidez! Lagarde não tornou a falar-me. Sómente poucos dias depois, sahi a cavallo, e encontrei-o com Loison, general maneta, que dizem ainda mais perverso. Pararam para me vêr passar. Sabes que sou cavalleira, e que um animal fogoso não me assusta. Montava a Estrella, a egua valida de meu pae, e apenas os descobri, larguei-lhe a redea, e atravessei como uma seta por meio d'elles. Saudaram-me, correspondi, e dentro em pouco já não os avistava. Foi na vespera dos tumultos das Caldas e da emboscada de Mafra. No dia seguinte, dia de terror e afflicção para os habitantes, estava achado o pretexto que havia de manchar de sangue o poder dos estrangeiros.

«O que nos reserva o futuro? Não ignoras quanto meu pae é altivo e decidido. Se a sua vida dependesse de uma palavra, de um passo, que reputasse de quebra para a honra, ou para os brios, preferiria morrer mil vezes... Sei o que elle ha de fazer como se o estivesse vendo. Ha de dizer a verdade, toda a verdade; ha de expor-se... Meu Deus! Parte-se-me o coração, e não tenho animo de cuidar!... Não! Não! A providencia não o póde permittir! Marianna!... As lagrimas que estou chorando, a dôr que padeço são tão crueis, que ha momentos, em que a razão me foge. E Manuel Coutinho?! Ainda me assusta mais!... Em sabendo a nossa prisão... com o seu genio impetuoso e aquella intrepidez de cavalleiro andante, porque é um verdadeiro paladino perdido n'estes dias de Junots e Lagardes, é capaz de entrar só em Santarem para nos arrancar dos ferros á luz do sol e deante de todos. Não rias?! Não creias que estou pintando de imaginação um heroe de novella!... Perguntas-me desde quando o amei, e se foi necessario o fulgor de Marte para vencer a isenção de Juno!? Entendo-te! Viras contra mim as palavras, que eu soltava na ingenuidade do orgulho, quando a inexperiente educanda te divertia com seus encarecimentos de desdem pelas fraquezas apaixonadas. Ouve! Amei-o logo, amei-o com extremo apenas o vi. Mal nos olhámos, sorrimos, e conhecemo-nos sem lucta, sem resistencia, sem juras, nem protestos. Elle sentiu que era meu; eu entreguei-lhe o coração com tanta confiança, como se nos tivessemos creado juntos desde a infancia. Marianna!... Se és a amiga, que eu creio, has de estimal-o tambem, e approvar a minha escolha. Asseguro-te que o merece. Aquelle rosto nobre e gentil, mas um pouco triste, é o espelho do seu caracter. Meu pae, e mais não é facil em affeições e elogios, admira-o, e não vê por outros olhos em muitas cousas. A palavra de Manuel Coutinho, que o não lisonjeia, que até o contraria em algum dos habitos e idéas mais arraigadas, vale um juramento para elle. Entre estes dois affectos, tão doces e acerbos, reparte-se-me a alma, rasga-se-me em duas, e não ouso dizer-te a ti, a mim propria, qual é maior, ou mais absoluto!...

«Accusas-me de dissimulada?! Não te encobri nada. Lês nos meus segredos como em livro aberto. Amo, como não se torna a amar, como não imaginava que podesse amar-se... Digo-te sem disfarce o que occultaria a outra, e tu ingrata (!) ainda tens animo de me arguir! ...Lembras-te d'aquellas nossas madrugadas nas Salesias, entre as rosas e jasmins do jardim, e os vôos dos passarinhos, que chalreando não nos deixavam um instante?!... Não tens saudades d'ellas e das brandas illusões, com que nos embalavamos no meio das flores d'esses dias tão curtos, ai (!) e tão depressa desvanecidos?! Com que dôr melancholica e agradavel, os estou recordando, sobre tudo agora!... Como a esperança nos fazia palpitar!... Que desejos pueris, que planos impossiveis, que doces contestações, e que amuos logo esquecidos entre dois beijos! O nosso mundo era tão pequeno, que alli principiava e acabava então!

«Meu pae, militar e arrebatado, a rogos meus ficou em casa. Por vezes o vi ir direito á sua espada, e suspender-se com os olhos arrazados de agua. O que o prendia era o receio de me deixar orphã, era a certeza de que se arriscaria sem proveito. Que dia aquelle, e sobre tudo que noite!... Os francezes em bandos pelas ruas alvoroçavam a terra com vozes, affrontas, e tiros. Duas vezes as balas das espingardas vararam as portas das nossas janellas. Sobre a madrugada appareceu Manuel Coutinho. Vinha pallido e desfigurado. Nenhum de nós se tinha tambem deitado. Chamou meu pae de parte, falaram em segredo, e minutos depois, ás escuras, e sem ruido, fugiamos pelas hortas, e montavamos a cavallo. Rompia o sol, quando entrámos em Torres Vedras, e só alli me disseram que a nossa casa estava cercada, e que Lagarde expedira de Lisboa ordem de prisão contra meu pae. Não lhe custou a implical-o na devassa, e contava provavelmente fazer de mim o penhor da sua clemencia...

«Desde então trocámos o socego domestico pela vida attribulada, que ha mezes nos não consente uma hora de repouso. Acossados, como feras, vagueando de homizio em homizio, e de solidão em solidão, por toda a parte a hospitalidade dos que nos accolhiam, não sem risco, nos foi leal e caridosa. Rodeados de espias, inculcados aos delatores como presa digna de subido premio, achámos na bondade rude, mas sincera, dos casaes, corações de ouro, que nos agazalharam com o maior carinho, e almas compadecidas, que nos ajudaram a supportar o peso da desgraça.

«Os mais pobres foram tão honrados como os ricos. Ninguem nos trahiu. Perseguidos como réos de grandes crimes, todos os braços se abriram para nos receber, todas as portas se fecharam cuidadosamente para nos guardar... Descansámos, por fim, mas á porta de uma prisão, e nas mãos de inimigos implacaveis! Meu pae dormia, e nem teve tempo de se defender... Estimei! Já que havia de ser, foi melhor assim! Chegámos a tempos em que é delicto até o valor! Um malvado, cego e venal instrumento de Lagarde, descobriu o nosso ultimo asylo, e prendeu-nos á traição...

«Com que socegada ignorancia te ouvia eu pintar a vida, que nos aguardava fóra das grades da nossa prisão dourada!... Com que vaidade infantil me compadecia das fragilidades das donzellas, cegas de amor, que tudo arriscam por seguir o eleito da sua alma!... Castigou-me Deus! Sou mais escrava, mais timida deante da minha fraqueza, do que nenhuma! A ternura, que sinto por elle é tão grande, que me quebra a vontade e o orgulho.

«Felizmente adoro um homem digno do meu coração. Mas se o não fosse! Marianna! Não me vejas córar, não me vejas cobrir o rosto de pejo! Se o não fosse... Perdôa! hei de ter animo de confessar a verdade, amava-o do mesmo modo, sei que o amava tanto, porque mais é impossivel!... E agora terás dó de mim?! Falarás ainda da soberba, que me fazia idolo indifferente a todos os cultos?!...

«Cheguei áquelle excesso, em que parece que o coração não vive senão do que é de outrem, do que o amor, que inspira e domina tudo, quer dar-lhe quasi por esmola! A minha luz, todas as minhas esperanças, todo o futuro, pendem de um olhar, de um sorriso, de uma palavra d'elle!... Vê como o préso, e como deixei de ser a mesma!... Ha cinco annos, quando iamos sentar-nos debaixo das madresilvas do caramanchão do convento, em quanto as nossas amigas passavam, correndo e saltando com os seus risos descuidados, porque suspiravas tu, e por mais que eu interrogasse a minha alma, porque a achava sempre muda e insensivel!?... O que foi que me acordou d'aquelle somno tranquillo, d'aquella apathia dos sentidos, que só despertam com o primeiro alvoroço, quando entre jubilos e sobresaltos o peito começa a agitar-se? Não sei se outras são assim. Vivo desde que principiei a amar. Até ahi dormia. Era uma estatua! O meu coração como que esperava _por elle_ para se abrir e brotar essa flor tão mimosa, que um nada queima, tão rara que uma vez só na vida a sentimos pelo perfume, pela alegria, pelo esplendor... Desejava ser formosa, ser princeza, ser rainha, ser tudo, para elle subir, e eu me saber invejada. Que loucuras! Vê! Agora mesmo estou perguntando, sem querer, ao espelho baço e empanado da minha prisão, por esta noite medonha de trovões, se me acha ainda bella?!...»

Neste ponto terminavam as confidencias. Leonor nem acabára de formar as ultimas lettras. Quando, entre o meio sorriso e as rozas avivadas, de que a travessura da revelação lhe animára o semblante, ergueu de repente os olhos para o espelho, a que alludia na carta, pasmou, estremeceu de o vêr mover-se lentamente com a moldura, e entre-abrir-se como uma porta. Outra, menos varonil, teria soltado vozes de terror; ella não. Fez-se pallida, sentiu-se fria, porém não articulou palavra, nem deixou escapar um grito. De pé, tremula, com os olhos fitos e algum tanto dilatados pelo espanto, aguardou a aventura, que esta singularidade lhe promettia. Não esperou muito. O espelho girou, rangendo um pouco, e á entrada da passagem occulta, que fechava, appareceu uma figura com um castiçal na mão, avultando á medida que se adeantava e que a luz mortiça da véla lhe batia no corpo, desfazendo a escuridade. Era um homem de carne e osso, e não um fantasma. Podia ser um salteador, um assassino, ou um indiscreto, não era de certo uma alma penada. A donzella respirou. Apezar da fortaleza do seu espirito a visão tinha-lhe paralyzado os membros, e o coração, pulando descompassado, trahia o susto, que os labios a custo disfarçavam. O desconhecido trajava de preto, vinha envolto em um capote de cabeções, e as largas abas do chapéu enchiam-lhe o rosto de sombras. Quando percebeu que Leonor o contemplava, levou o dedo á bôcca e recommendou silencio. No movimento de braço o capote descobriu os canos luzentes de duas pistolas passadas em um cinto de couro, e a bainha de uma espada larga e curta.

A filha de Paulo de Azevedo deixou-o approximar de si sem denunciar terror. Só falava com a vista, e desvanecido o primeiro sobresalto, o que o semblante exprimia era a curiosidade natural, excitada pela visita, que, por tal modo e a taes deshoras se via obrigada a receber. O hospede punha entretanto os pés no sobrado, roto e carunchoso, com tanto resguardo, e pisava com tão grande subtileza, que os passos eram surdos, como se caminhasse por cima de lã. Chegando ao pé d'ella, encarou de perto a formosura intrepida, que sem receio olhava para elle firme, e um sorriso alegrou a sua physionomia carregada, certo ar de sincera admiração inculcou que não contára encontrar tanto valor.

--Vejo que não me enganaram! murmurou ao ouvido de Leonor. Tem mais animo, do que muitos homens. É digna do que tentâmos para a salvar e a seu pae!

--Mas quem é?... D'onde vem?... Como está aqui?!... perguntou a donzella atropelladamente, mas no mesmo tom submisso.