A Casa dos Fantasmas - Volume I Episodio do Tempo dos Francezes

Chapter 4

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A manta, em que se enrolava, escorria como se fôra tirada de um tanque, e as botas atascadas de barro denunciavam a larga excursão de que se recolhia. Approximando-se de Cabrinha, tocou-lhe no hombro, e disse-lhe ao ouvido duas palavras. O digno mandarim recuou sobresaltado, e não poude conter uma exclamação em alta voz, exclamação de susto e de alegria ao mesmo tempo, que não escapou á curiosa attenção, com que o João da Ventosa espreitava e escutava com todos os sentidos vigilantes o dialogo confidencial dos dois personagens, cujas proezas conhecia de longa data.

As suspeitas, que desde o principio o tinham assaltado ácerca dos verdadeiros auctores do homicidio da azinhaga, confirmaram-se.

Estevam Cabrinha era muito capaz de encommendar a morte do fazendeiro, e Gaspar Preto muito obediente servo, em se tractando de um crime, para elle os não accusar secretamente do delicto, e não vêr as mãos de ambos tintas no sangue do seu amigo. Sabia a historia da prisão de Antonio Simões, não ignorava a promessa indiscreta que elle fizera, de varejar as costellas do sargento e do _Sapo_, e o mau conceito que formava d'elles, auctorizava-o a crer que o tiro e a espera haviam partido de um plano concertado com a deliberação e perversidade, que tanto caracterizavam o coxo, e o seu Mecenas.

Mas se o sargento era jubilado em velhacaria, e se o seu fiel Achates tinha estanhadas a alma e as faces, João da Ventosa lisongeava-se de os codilhar a ambos em esperteza, e armára uma rede, em que haviam de cair por força. Calou-se, pois, e esperou.

D'ahi a pouco o moço dos bois appareceu com o velho e cansado lampião, cuja luz mortiça só começou a avivar-se depois de pendurado. Logo atraz outro creado atirava ao chão com um grande feixe de matto secco, e arrastando para a lareira dois cepos de oliveira, petiscava lume com o fuzil, e incendiando tudo ateava uma labareda, cujos clarões, lambendo as paredes da vasta chaminé, derramaram por toda a casa viva e repentina claridade. De subito o sargento, que se achava com o _Sapo_ junto da mesa de pedra, olhou, viu o corpo, e por um gesto machinal e irresistivel extendeu a mão, e levantou o panno que lhe cobria o rosto. A vista encandeou-se-lhe, os cabellos erriçaram-se-lhe, e um grito de espanto truncou-se-lhe suffocado na garganta. As côres rubicundas amorteceram-se, e, se não se ampara com a hombreira, resvalava redondo no chão, tão fracos lhe fugiam os joelhos.

Gaspar Preto ainda revelou mais horror. Recuando até á parede com as mãos abertas como para afugentar de si a visão terrivel, parecia metter-se pelo muro dentro, com os cabellos em pé, as pupillas envidraçadas, e tal convulsão em todo o corpo, que o frio de uma sezão mortal não podéra ser maior.

Os milicianos boquiabertos contemplavam o cadaver, e a figura singular de Estevam Cabrinha e do coxo, que não eram santos da devoção de nenhum d'elles.

João da Ventosa sorria-se para dentro. Dir-se-hia que fulminava os dois cumplices com o sombrio fulgor dos olhos. Um instante depois pousou a vista, sereno e temperado, sabendo conter-se e dissimular para não se prender no mesmo laço, que tecia aos outros.

Seguiram-se as explicações. O rendeiro com a voz macia, cujo timbre era quasi feminil, e aquelle ar de rir bondoso, que encobria tanta cousa, desculpou-se da triste companhia, que era obrigado a dar aos hospedes.

Tinha encontrado, disse elle, Antonio Simões morto, apenas o conhecia de vista, mas não tivera animo de deixar o corpo de uma creatura de Deus exposto no caminho toda a noite. Não havia outra casa decente, aonde esperasse a sepultura christã, e o tempo e a hora não permittiam chamar o padre, e deposital-o na egreja. Ao passo que explicava isto, o compassivo João accendia de vagar duas vellas de cêra, amarelladas dos ocios da gavêta, e cravando-as nos castiçaes de estanho amolgados, punha uma aos pés e outra á cabeceira do morto, completando com todo o socego, e de proposito, a exposição funebre, que arripiava os circumstantes, e especialmente o sargento e seu confidente, constrangidos a associar toda a noite o banquete e o somno dos vivos ao espectaculo do cadaver ensanguentado da sua victima. Se ambos podessem ler na alma do homem, que lhes estava falando, ainda haviam de tremer mais!

Na mente d'elle tudo isto apenas era prologo!

VI

Ressurreição de Lazaro

Decorreram minutos sem que as mandibulas de Estevam Cabrinha, deslocadas pelo terror, podessem volver ao estado natural. Nem articulava, nem balbuciava. Só a pouco e pouco é que se foi restaurando do susto, e maldizendo o _Sapo_, o rendeiro, e aquella funesta casa, regougou meio desvairado uma evasiva para desculpar o pavôr, que o accommettêra, e que não era senhor de disfarçar.

Os seus nervos estavam tão delicados, que a vista do sangue e do cadaver, tirava-o de si, e tornava-o mais fraco, do que uma mulher! Entretanto fazia o possivel por ser homem; mas pedia por tudo o que havia de santo no céu e na terra, que o não obrigassem a velar a noite ao pé do morto, se em vez de um, não queriam enterrar dois cadaveres.

João da Ventosa affectou clemencia. Capitulando com os terrores do sargento prometteu dar-lhe um quarto retirado no fundo do corredor, depois da ceia. Pediu-lhe depois licença para ir cuidar dos hospedes presos, que desejava receber como pessoas nobres, e que a má reputação da casa por certo assustaria, sobre tudo na escuridão, e com o temporal que parecia arrancar as arvores e os telhados. Cabrinha suspirou, e com um aceno respondeu que sim. Sentia-se gelado, e o coração batia-lhe com tal força, que parecia querer saltar fóra do peito.

O lavrador accendeu dois candieiros de latão amarello de tres bicos, pesados e disformes, pendurou pela argola um em cada mão, e começou a subir a escada, escoltado por Cabrinha, que apezar de meio tonto, e de tartamudo de mêdo, sempre desejou certificar-se outra vez de que a gaiola, como dissera antes, era solida, e não deixaria escapar os passaros.

Um creado poz a toalha, trouxe queijos e pão, e reanimou o alento dos milicianos, collocando triumphalmente em cima da mesa um bojudo cangirão e dois canecos de estatura descommunal, destinados ás libações. Os soldados chegaram-se a principio timidos, partiram e saborearam o queijo, acharam-o excellente, provaram o vinho, que estava ainda coberto da espuma da pipa espichada de proposito, e romperam o assalto, esquecendo gradualmente o morto, o sargento, e o _Sapo_, o qual, agachado como fera medrosa a um canto da chaminé, só dava signal de vida nos estremecimentos, que lhe saccudiam os membros.

A demora de Cabrinha em cima foi grande. Quiz assistir a todos os arranjos, que a velha servente do rendeiro determinou, e que ia executando com a mão vagarosa por entre as orações resmungadas entre dentes a Santa Barbara e a S. Simeão Stelita, advogados contra os trovões.

Viu, pois, lançar nas camas os lençoes de linho fino e defumados, recheio das arcas do lavrador; viu enfiar as fronhas e os travesseiros de folhos com fitas azues; viu deitar as colchas de seda da India matizadas, e pregar as cortinas dos leitos. Immovel e calado os seus olhos vigiavam tudo, mas o seu espirito ausente estava ao pé do morto. Finalmente os moços trouxeram a ceia em bandejas largas, e a creada velha despediu o amo e o sargento, declarando que ficava e dormia perto dos presos para os servir.

Cabrinha saiu atraz do seu amphytrião, fechou a porta, e metteu a chave no bolso. Por este lado estava tranquillo. Restava a ceia com o cadaver defronte. Essa é que se lhe representava um supplicio insupportavel; e se não fosse o receio, com que o remorso ata a lingua dos criminosos, teria pedido um pedaço de pão secco, um ou dois goles de vinho, e iria para o meio da estrada esperar que nascesse o dia, mesmo em risco de uma pancada de agua o ensopar, ou de um raio o fulminar. Não se atreveu, porém. De cabeça baixa e passos incertos, sem ousar olhar, e não podendo, todavia, apartar a vista da mesa de pedra, veiu sentar-se ao brazeiro, do outro lado, defronte do _Sapo_. Ao mesmo tempo o João da Ventosa consultava o immenso relogio de prata, e, vendo apontadas no mostrador as dez horas, gritava pelos creados, que apressassem a ceia, se não queriam que elle e seus honrados amigos morressem alli todos de fraqueza.

--Vamos! exclamou. Andar! Esse cabrito não acaba de sair do lume, mandriões? Para temperar umas migas será preciso chamar o cozinheiro do patriarcha? Oh Pedro? As batatas cozam-n'as no borralho!... Ficam mais gostosas. Dêem-me d'aquellas laranjas de casca fina do pomar de cima, que eu apanhei hontem. Tirem o vinho da pipa nova! Bem basta a inferneira que logo ahi vae em sendo meia noite! E então com esta visita em casa! E apontava para o morto. É preciso que o demonio e as almas do outro mundo, quando vierem, nos achem confortados e quentes de estomago, limpos de coração, e lavados de consciencia... Que tal é esse vinhinho, camarada? Ajuntou pedindo o caneco a um dos milicianos, ao qual o seu discurso petrificára os movimentos, conservando a taça rustica a meia distancia da mesa e da bôcca sem animo de a depor, ou de a sorver. Os outros, pallidos e sobresaltados, olhavam espavoridos para as portas, para as paredes, e para a mesa de pedra, e benziam-se, suppondo ver já um espectro em cada canto.

--Vamos! ajuntou. Á nossa saude! E que Deus nos livre por muitos e bons annos de um amigo, como encontrou aquelle que alli jaz! E emboccando o caneco deixou cair do bico o vinho em fio dentro da bôcca á moda hespanhola, engorgitando-o lentamente com delicias.

O brinde funebre produzira o seu effeito. O sargento poz-se em pé e desabotoou tres botões da farda. Sentia-se a arder. O _Sapo_ agachou-se mais, e ouviam-se-lhe distinctamente bater os dentes.

--A ceia! A ceia! Rapazes! clamava o lavrador acompanhando o rebate das vozes com fortes punhadas em cima da mesa.

Os creados acossados por estas impaciencias, verdadeiras, ou fingidas, saccudiram a preguiça, e a correr acabaram de pôr a mesa, a correr trouxeram as migas e o cabrito, e a correr tambem vieram com as batatas e as laranjas. O cangirão refrescado por segunda visita á adega estava cheio até á borda.

--Vamos a ella? gritou o dono da casa. Senhor sargento, chegue-se para os bons, e será um d'elles! sente-se do meu lado. Tu, meu _Sapo_, com essa cara de alvaiade vae para alli. És curioso, e quero que me espreites o defunto a ver se bole com a alegria dos vivos! Os camaradas accommodem-se aonde poderem! Desculpem as colheres de pau e os garfos de ferro. A pratita, que tinhamos, está em Lisboa; nos tempos, em que vivemos, digam lá o que disserem, sempre é o mais seguro... Nada de tristezas! Longe vá quem mal nos quer! Senhor sargento á nossa! É bom copo, tenho ouvido, mas o João tambem não arreia. Encha-me esse caneco até cima, e despeje-m'o de um trago, senão digo que o vinho é mau, ou que debaixo de boa capa ruim bebedor!

Por um esforço heroico Estevam Cabrinha conseguiu obedecer. Não tinha sêde, nem fome, tinha medo. A ceia era para elle um martyrio, sobre tudo com as costas viradas para o cadaver, cuja sombra se lhe figurava a cada momento alevantada por cima dos hombros. O _Sapo_ não padecia menor tormento. Com o morto e a vista do sudario ensanguentado defronte enlouquecia de terror e de afflicção. Suas pupillas dilatadas não podiam despregar-se d'aquelle testemunho irrecusavel, que lhe avivava o crime pela bôcca das feridas, por onde fugira a alma. Deixou de ver o que o rodeava para vêr só a victima silenciosa, e ameaçadora. Poz-se-lhe um nó na garganta, e um véu nos olhos. A primeira colhér, que levou á bôcca, tornou-se-lhe de fel; o primeiro trago de vinho, que sorveu, soube-lhe a sangue. Sentia tentações de se atirar pela porta fóra, desatando em uma corrida louca; mas os pés estavam grudados ao chão e as pernas mal o sustinham. A cada instante entrava-lhe pelos ouvidos o som dos passos de Antonio Simões, e ouvia o grito que elle arrancára caindo ferido. O suor escorria-lhe em bagas da testa, e os beiços tremulos denunciavam a intensidade da agonia.

O lavrador observava, e dissimulava. O seu ar de riso e a sua jovialidade cresciam á proporção, que iam aggravando-se as dores moraes de ambos.

--Que é isso, _Sapo_? accudiu elle apertando os tratos ao mais culpado. Que é feito d'aquella galhofa do outro dia, meu velho? Estás com cara de enterro. Terás tu morte de homem ás costas, diabo?!!...

A esta interpellação directa, que o rendeiro disfarçou em uma risada larga e sonora, o remorso fez saltar involuntariamente dos bancos o sargento, e o seu cumplice, como se a voz do sangue chamasse por elles no tribunal de Deus. Á pergunta: Cain que fizeste de Abel, ao brado que a consciencia repetia aos dois, ambos tremeram, mas não poderam responder: não fui eu! Sentiam-se tomados de espanto até ás mais fundas cavernas do coração.

João da Ventosa, entendendo que não devia ir mais longe para não se descobrir, e vendo os dois de pé, mudos, e pasmados, tractou de os tranquillizar a seu modo, isto é, vertendo-lhes o terror nas veias por outro modo.

--Sente-se, meu sargento! disse elle mettendo o hospede no coração com o tom assucarado. Que vespa o mordeu? Os ares da casa não são bons, sei muito bem; mas o que quer? A gente toma amor ao ninho, e depois não ha quem o despegue d'elle. Não tenho mulher, nem filhos; nasceu-me aqui o dente do siso, e... É melhor não tocar em cousas más. Mas sempre lhe digo que ha noites! Ainda antes de hontem foi um reboliço lá por cima de cadêas arrastadas, de soluços e gemidos, que vinham os sobrados abaixo...

--E nunca viu nada, senhor João? atalhou um dos milicianos meio engasgado com um pedaço de cabrito, que o susto causado pelas reflexões caridosas do rendeiro lhe atravessára na garganta.

Estevam Cabrinha desabotoára todos os botões da farda, e pelas frestas da camisa aberta mostrava o peito vellôso como o de um cerdo. Tinha os cotovellos na mesa, a cabeça entre as mãos, e os olhos espantados.

Gaspar Preto recaira, sem poder reprimir-se, no tremor das primeiras horas.

Aquelles dois entes, tão fortes contra a consciencia, tão esquecidos de Deus e da justiça humana, desmaiavam como creanças deante da sombra do seu crime e dos pavores do invisivel.

--Se não vi nada?... Oh! redarguiu o dono da casa, tornando-se serio de repente, e fazendo suppor com a reticencia, que não tinha animo para dizer tudo.

--Conte-nos isso! accudiu um dos comensaes, que não era dos menos timidos, mas que era de certo dos mais curiosos.

--Para que? Para não dormirem umas poucas de noites?!... respondeu João da Ventosa. É melhor falarmos de cousas alegres.

--Não. Não! Diga!

--Depois não se queixem! Faz hoje um anno, e justamente chovia e trovejava como agora, que parecia que se acabava o mundo. Tinha uma cadella de perdizes, que era um brinco, a Pomba. Faltou-me todo o dia, e cuidei logo que ficaria fechada lá em cima. A esse tempo ainda eu não tinha mandado tapar as duas portas dos quartos, que viu o sargento, e aonde estão os presos. Peguei n'uma lanterna e subi. Atravessei tres salas. Apitei, chamei a Pomba, não me respondeu, ella, coitadinha, que em me ouvindo era toda saltos e alegria. Olhei por acaso para um canto mais escuro, e vi... a pobre da bruta morta com a cabeça torcida!... Não sei o que me passou pela vista, mas tive medo, medo deveras, juro-lhes. Peguei no corpo da Pomba, e arrastando-me, e tropeçando, vim até á porta, que hoje está entaipada. De repente um sopro forte apaga-me a luz, um clarão bate-me nos olhos, e uma figura branca apparece-me tão alta e transparente, que se via através das roupas e do corpo (se era corpo!) como através de um vidro fino. Não posso dizer-lhes o que senti, mas quiz gritar e faltou-me a voz, quiz benzer-me e caiu-me a mão, quiz fugir e fiquei parado.

«O Fantasma fitou-me dois instantes com um olhar frio, que gelava e disse-me: Desgraçado de ti se tivesses sangue nas mãos! Nenhum matador sae vivo d'esta casa! Perdi os sentidos. Quando tornei a mim era dia, e estava deitado na minha cama. Suppuz ter sido tudo sonho; mas a cadella morta jazia aos pés do leito. Enterrei-a, fiz uma parede das duas portas, e andei um mez como doudo, malucando no caso, que podia ser peior... Fóra com historias negras! exclamou mudando de tom. Estamos hoje aqui muitos, e graças a Deus nenhum de nós tem de lavar as mãos de sangue, que vertesse. Vae dar meia noite! ajuntou tirando um relogio de prata. É a hora da senzala principiar lá por cima. Não se assustem! O vinho é bom, festejemol-o, e o que for soará. Nossa Senhora, minha madrinha, não ha de desamparar-nos.»

A consolação acabou de petrificar o auditorio, que a narração já não tinha estultificado pouco. O sargento e o seu assessor, ainda mais enfiados, trocaram um olhar desvairado, e gemeram um suspiro. Era a sua sentença que o espectro annunciára pela bôcca do lavrador? Os canecos ficaram cheios sobre a mesa; o cabrito, meio escarnado, viu suspensas as hostilidades, que ameaçavam deixal-o na ossada; e só o dono da casa levou aos beiços, e exgotou a libação, que propozera. O volumoso relogio de caixas de prata posto a seu lado, attrahia a vista anciosa de todos. Era tão profundo o silencio, que se sentia a leve pancada da machina trabalhando. Finalmente o ponteiro pousou-se nas doze horas, e o lavrador, como se obedecesse a um impulso espontaneo e invencivel, poz-se de pé, e exclamou:

--Meia noite! Deus seja comnosco!

N'este momento, como se a natureza quizesse associar os seu terrores á scena alli representada, um furacão espantoso saccudiu e abalou todo o palacio com rugidos prolongados, um trovão rebentou perpendicular com o estrondo de cem canhões no meio de medonhos estalos, fazendo tremer a terra, a casa encheu-se de luz electrica por um instante, e a chuva, açoutando com o seu granizo rijo e batido os telhados e os muros, enxurrou dos tectos pelas chaminés arrombadas, e veiu quasi extinguir o lume, que esmoreceu em chispas lividas por entre ondas de fumo. Ao mesmo tempo as duas portas pregadas com travessas á entrada das escadas, que desciam para a cozinha, vieram a terra com fragor, o cadaver deitado sobre a mesa ergueu meio corpo sobre o cotovello, e arrancou o panno cruento, soltando um gemido lugubre, e uma figura de altura descommunal, envolta em sudario branco e fluctuante, assomou ao limiar. Tudo isto occorreu em menos de um segundo, acompanhado do ruido de ferros arrastados, do tropel de passos e de quedas tumultuosas, e de um verdadeiro clamor de vozes e gemidos no andar de cima.

Os milicianos apavorados hesitaram um instante immoveis. Depois correndo, como loucos, investiram pelo corredor, e como rebanho tresmalhado e perseguido por alcateas de lobos, sentiram de repente azas nos pés, e voaram pela estrada inundada por entre os relampagos e por baixo das aguas da tempestade, gritando misericordia!

O sargento ao som das portas, que desabavam, e deante da apparição inopinada, sem saber já de si, e sem ver o morto alçar-se, trepou em dois pulos a escada de pedra, metteu a chave na porta, e acoutou-se nos aposentos dos presos, tão cego e attonito que atropellou na carreira a velha servente na sua cama, e foi cair de bruços ao pé da mesa, aonde se apagava em vascas a véla consumida de um castiçal.

O _Sapo_, que observámos paralyzado momentos antes, vendo surgir o fantasma, sentiu todos os instinctos ferozes irritados, e pegando da espingarda, e apontando-a n'um abrir e fechar de olhos, só volveu em si, quando o cão bateu na pederneira, e esta faiscou, sem queimar a escorva, deixando-lhe nas mãos uma arma inutil. Então, como o tigre que rompe a jaula, arremetteu pelo corredor do dormitorio, e de lá, galgando o muro baixo do pateo, sem se deter a buscar a porta nas trevas, achou-se no campo, e precipitando-se por sebes e vallados, veiu parar sem folego, sem voz, e sem consciencia de si ao pé do moinho da Raposa.

Finalmente o proprio espectro, primeira causa de todo o alvoroço, não escapou ao contagio geral, e deu tambem parte de fraco. Vendo o morto levantar-se e saccudir os véus funebres, assaltou-o tal convulsão de mêdo, que, tapando os olhos com um grande grito, desabou no chão do alto das andas, em que estribava. Teve razão ainda d'esta vez o adagio. Virou-se o feitiço contra o feiticeiro!

Mas as peripecias d'esta dramatica noite não estavam terminadas. No momento, em que, afogado em riso, o João da Ventosa accudia a levantar o fantasma demolido pelo susto, o sargento Cabrinha despenhava-se pela escada, bradando possesso de espanto. Não era sem causa!

Seguimol-o quando subia os degraus a dois e dois para se refugiar na camara dos presos; vimol-o enrolar-se e tropeçar no corpo tolhido de rheumatismos da tia Margarida, a qual, pobre mulher (!), acordada em sobresalto pelos trovões, tiritava de joelhos em anagua de estopa, benzendo-se, e invocando todos os santos da côrte do céu, quando aquelle furacão humano se ennovellou com ella, e lhe fez das costas escabello. Os gritos da servente, a motinada do palacio, que alli soava mais proxima, desembriagaram um pouco do medo do andar de baixo o virtuoso agente de Lagarde, mas exaltando-lhe os terrores excitados pelo andar de cima. Percebeu que o asylo, que buscára, era peior do que o perigo, e tractou de apressar a retirada.

Mas apezar dos accessos de valor, que lhe notámos, era malsim na alma e nos ossos, e a curiosidade prevaleceu. Antes de fugir quiz verificar de novo se os outros podiam fugir. A tremer pegou em uma véla e abriu as cortinas da cama de Paulo de Azevedo. Recuou pasmado. Estava vasia! Correu ao quarto immediato de Leonor; achou-o deserto! O unico preso, que não se bolira, fôra a inoffensiva e tropega Margarida! O sargento sentiu estalar uma cousa dentro do peito. Se tivesse coração diria que era o coração! Não o tendo acabou de se lhe varrer o sizo, e ficou por minutos estatico a contemplar aquella solidão, obra visivel do demonio.

Por fim este ultimo golpe e uns suspiros em tremulos, exhalados do outro lado da parede, venceram esses restos de vigor, que ainda conservára. Consumou o seu destino, e despejou o campo como os seus milicianos, porém com menos felicidade. Quiz descer a escada, os pés atraiçoaram-o, e mediu-a com as costellas de cima até baixo. Quando tornou a si com a dor, e por ella conheceu que vivia ainda, os seus olhos horrorizados perderam a luz de assombro e de pavor.

No meio da casa o Manuel Simões da Aramanha, de pé, encarava-o sombrio e terrivel. Ao pé da mesa o fantasma branco, entrouxado nos lençoes, extendia o braço direito em ar de ameaça. Atraz d'elles João da Ventosa, mudo e inerte, e como gelado, apontava-lhe para o corredor, sem falar, como se o convidasse a fugir. Não poude mais. Atou as mãos na cabeça e caíu sem sentidos.

VII

Segredos em toda a parte

Os aposentos aonde Paulo de Azevedo Carvalho e sua filha foram encerrados, em um dos torreões do palacio, eram dos mais bem conservados. Os tectos não estavam arrombados; os filetes, que guarneciam as molduras das paredes, forradas de pannos de Arraz, ainda não tinham perdido de todo o ouro; e a humidade não acabára tambem de desvanecer inteiramente as tintas dos quadros de caçadas, batalhas e scenas campestres, representados na tela. Apezar de velhos e de ennegrecidos, os moveis ainda resistíam em parte aos seculos e ao caruncho.

O venerando leito de cabeceira de talha alta e columnas enroscadas occupava o centro da primeira casa, e podia quasi dizer-se um edificio, um monumento, pelo descommunal das proporções. Um pesado baldaquino de seda desbotada cobria o céu da cama, e largas cortinas do mesmo estofo desciam dos lados a arrastar pelo chão.