A Casa dos Fantasmas - Volume I Episodio do Tempo dos Francezes

Chapter 2

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A revolução franceza, representante das forças e interesses da humanidade, herdeira não só das aspirações e esperanças, mas tambem das dores e resentimentos de muitos seculos, saudada em 1789 com transportes de jubilo, em 1793 já tinha convertido a innocencia do primeiro enthusiasmo nos accessos febris de um patriotismo sombrio, dando o espectaculo, novo e incrivel, dos maiores crimes a par dos rasgos mais heroicos, e das virtudes mais sublimes.

Só e contra todos arremessou audaciosamente a luva aos adversarios de fóra e ás facções internas. Decapitou no cadafalso a realeza; repelliu os exercitos da Europa colligada; atravessou após elles as fronteiras inimigas; suffocou nas provincias insurgidas as saudades e as iras do regimen decaído; e vigorosa, mesmo ao saír do berço, sobreviveu aos delirios e excessos da anarchia. Nada a detinha, nada a assombrava! Admirada de uns, execrada do maior numero, mas invencivel, precipitou-se, demolindo tudo no seu impeto, até, esvaída do sangue vertido nos patibulos e nos campos de batalha, caír por fim, quasi sem alentos, nos braços do mais illustre de seus capitães, d'aquelle de quem Siéyés disséra com persuasão prophetica: «que seria o senhor, porque sabia, queria, e podia tudo!»

A ordem restituida por elle, a victoria inseparavel de suas armas, o esplendor de tantas acções applaudidas, os milagres de uma vontade, a que ainda obedeciam os obstaculos e o destino, compozeram essa rara epopêa, de que Napoleão I, grande como Cesar, ou maior talvez, foi ao mesmo tempo o heroe e o assumpto.

Guiada pela providencia, a sua mão, ao passo que ia lavrando nas primeiras paginas da historia d'este seculo as datas memoraveis, com que se abriu sua agitada existencia, unia, pesada como a de Attila, gloriosa como a de Carlos Magno, á queda do passado a transformação do presente.

A fortuna muitos annos constante seguiu-o de triumpho em triumpho, desde as planicies da Italia, immortalizadas pela sua mocidade, até aos gelos do norte para os quaes a sorte parecia attrahil-o, e aonde o clarão de Moscow incendiada havia de illuminar depois os funeraes do imperio.

Marengo, Eylau, Essling, Wagram, e cem estações assignaladas pelos prodigios do seu genio, viram a terra gemer abalada pelo galope dos esquadrões; viram os thronos vacillar, ou alluirem-se; viram os principios nóvos germinarem grávidos do futuro nos sulcos rotos pela inundação, quando a onda vencida recolheu ao antigo leito! Abrazada em odio, ou cortada de espanto, a Europa contemplava aquella epocha de terremotos e de transfigurações, sobresaltando-se com os decretos da voz soberana, que falava pela bôcca de bronze dos canhões, e inclinando-se serva, mas fremente, na presença das aguias, que passavam e revolviam profundamente o mundo das idéas e o mundo dos factos, desde as bases e os limites das monarchias, desde o solo e a familia, até ao estado physico e social, até á organização politica e economica.

N'esta lucta de gigantes, a França e a Inglaterra, travadas como dois athletas, combatiam sem escolher as armas. Feriam-se sempre e em toda a parte! Percebiam que o duello era mortal, e que só podia terminar pela ruina de uma d'ellas. Aboukir e Trafalgar tinham assegurado a supremacia dos mares ao leopardo britannico. A Austria impaciente, mas resignada, a Prussia rendida em Jena, a Russia desenganada em Austerlitz e Friedland proclamavam a vaidade da liga continental.

Mas Bonaparte, na maior elevação a que fôra dado subir, tocado o apogeu, não foi superior á fragilidade humana. Os deslumbramentos da grandeza trouxeram a vertigem. O abysmo chamou pelo abysmo. Esquecido de que só Deus é omnipotente quiz e ousou tudo! Gerações inteiras immoladas semearam de cadaveres o rasto de seus passos. Os povos amaldiçoavam-lhe a ambição como flagello. As coroas, voando da cabeça dos reis legitimos, arrancadas pelos furacões da guerra vinham cingir a fronte plebea dos eleitos da gloria. Retalhando o corpo exanime das nacionalidades desmembradas pela espada, edificou na areia, suppondo fundir em bronze esses reinos e dynastias ephemeras, que um aceno tirou do nada, que os seus revezes sepultaram para sempre.

Repartindo pelos irmãos e os generaes os diademas e os estados, queria ter n'elles satrapas, e não soberanos. Murat em Napoles, Joseph em Hespanha, Luiz na Hollanda, e Jeronymo na Westphalia representaram as peripecias d'esta ultima e arriscada phase de uma grandeza, que na usurpação dos sceptros e na provocação das antipathias populares encontrou o precipicio, a queda, e a lição!

Portugal, no extremo occidente, abrigado pela distancia das revoluções, que desmoronavam tudo ao meio dia e ao norte da Europa, não se eximiu afinal de participar tambem, e com largo quinhão, das infelicidades, que a nenhum paiz poupou a sorte. A iniciativa do marquez de Pombal, interrompida pela morte do soberano, que vinte e sete annos o sustentára, apezar das conspirações da nobreza, e da adversão da familia real, acabou com o monarcha tão notavel pela firmeza. O poder do ministro eclipsou-se com o ultimo suspiro do principe, e com elle expiraram as tradições viris, e os commettimentos reformadores. Um gabinete quasi todo composto de aulicos, sujeito ao veto do confessor valido, substituiu o mando odiado do marquez; e este poude vêr ainda do seu desterro a mão dos emulos alçada contra a arvore, que plantára, arvore que apenas principiava a cobrir-se de flôres, e á qual a inveja não deixou amadurecer os fructos.

A branda e devota indole da rainha atalhou em parte os bons desejos dos homens, que se prezavam de ainda respeitarem as maximas do grande reinado. José de Seabra, Martinho de Mello, e após elles D. Rodrigo de Souza Coutinho queriam continuar no caminho encetado por Sebastião José de Carvalho; porém divididos em partidos (o francez e o inglez), offuscados pelas intrigas dos hypocritas, e detidos pelos escrupulos, que assustavam a consciencia da filha de D. José I, luctavam muitas vezes em vão com a corrente, e os seus esforços a miudo naufragaram contra os artificios dos cortezãos, e contra as declamações dos beatos, senhores de todas as avenidas do paço.

As providencias uteis, que honraram o governo de D. Maria I, derivaram-se do predominio conquistado sobre o animo da rainha, sua penitente, pelo arcebispo de Thessalonica, prelado isento de preconceitos e ornado de virtudes. Mal elle desceu ao tumulo, a visão terrivel dos patibulos, erguidos por seu pae, tornou-se uma allucinação perenne, e as trevas da demencia apagaram para sempre a razão vacillante da princeza.

D. João, seu filho, empunhou as redeas do Estado, primeiro sem titulo expresso, depois com o de regente. Amigo da tranquillidade, avêsso a complicações e lances arrojados, humano e bondoso, era todavia mais sagaz e penetrante, do que supporia quem o conhecesse mal. Em suas mãos a auctoridade soberana podia enfraquecer-se e rebaixar-se, como aconteceu, mas ferir os subditos, ou irritar os alliados, não!

Comprada a preço de grandes sacrificios, a neutralidade foi a politica preferida pela timidez do principe, e ao mesmo passo o arbitrio prudente aconselhado pelas circumstancias. A republica tinha legado ao directorio esta amizade inerte, mas facil de conservar; e Napoleão, mais altivo, ou mais exigente, olhando quasi Portugal como colonia de Grã-Bretanha, não encobria já no consulado as suas repugnancias pela dynastia de Bragança.

Dictando-lhe a paz em 1801, e obrigando-a a submetter-se a condições injustas, nutriu acaso a esperança de que, não podendo executal-as, ella lhe proporcionasse um pretexto? Não hesitando em animar a cobiça e a rivalidade do gabinete de Madrid, queria costumal-o a invadir-nos as fronteiras, offerecidas como pasto áquella ambição estimulada?

Seja o que fôr, a Hespanha tendo-se valido de nossas armas no Roussillon, pagou-nos com ingratidões o soccorro, separando a sua causa da nossa, unindo-se a Bonaparte para nos humilhar, e aproveitando a sombra dos estandartes francezes para se apoderar de Olivença, que nunca mais restituiu!

Na mente de Napoleão I, a idéa de precipitar do throno os Bourbons de Hespanha, como os expulsára de Napoles e da Etruria, era idéa, que lançára raizes firmes. No seu tribunal tambem a casa de Bragança era condemnada por outras culpas. Accusava-a de seguir, como satellite, o astro da Grã-Bretanha, e queixava-se de que usasse e abusasse da neutralidade em beneficio dos interesses commerciaes dos inglezes, os quaes, por meio da oppressiva utopia do bloqueio continental, cuidava expellir dos mercados da Europa, fechando-lhes todos os portos desde Lisboa até Cronstadt!

Inspirado occultamente por mr. Canning, o governo portuguez promettia excluir o pavilhão britannico de suas praias, e não duvidava affiançar uma declaração de guerra simulada; mas prender as pessoas e sequestrar as fazendas dos subditos do rei Jorge, como exigia em nome da França o seu ministro, mr. de Rayneval, era violencia, que as relações anteriores e a ruina de grossos capitaes nacionaes e estrangeiros lhe prohibiam. Recusou-a sem ostentação, mas com vigor.

Napoleão queria tudo, ou nada! Para elle Lisboa e o Porto eram como puras feitorias britannicas, e, se não lh'as entregassem, estava resolvido a mandar os seus soldados conquistal-as. Contava com a repulsa, e no meio dos mil cuidados, que o salteavam então, acabava de pôr o ultimo remate ao seu plano. O tractado secreto de Fontainebleau assignado em 27 de outubro de 1807, affiançava-lhe pela cumplicidade da Hespanha a estrada militar, de que precisava para realizar a invasão.

Junot, acampado em Salamanca á testa de vinte cinco mil homens promptos á primeira voz, apenas aguardava as ultimas ordens. Duas divisões castelhanas, uma de dez, outra de seis mil soldados, deviam coadjuvar as operações do exercito francez, apoderando-se a primeira do Porto, do Minho, e de Entre Douro e Minho, assenhoreando-se a segunda da provincia do Alemtejo e do reino dos Algarves. O pacto ajustado entre Bonaparte e Carlos IV, desmembrava o reino em proveito de ambos. O Principe da Paz lucrava um estado independente de quatrocentas mil almas, composto das provincias do sul, e denominado o principado do Algarve. A rainha viuva do duque de Parma, filha querida do monarcha hespanhol, em compensação da Etruria cedida ao gabinete de Saint-Cloud, recebia um reino de oitocentos mil habitantes, formado de duas das provincias do norte, com a cidade do Porto por capital, denominado o reino da Lusitania Septentrional!

A marcha dos francezes correu tão rapida e atropellada, quanto era viva e ardente a impaciencia do imperador!

Bonaparte ordenára, que entrassem a tempo de salvar das mãos dos inglezes a nossa esquadra e os thesouros, que ella podia transportar para a America. A familia real não o preoccupava tanto. Eram alguns prisioneiros de menos a guardar! Nunca a obediencia foi tão fiel. Junot voou! Passando a raia em Alcantara, precipitou-se, como torrente, por meio do paiz, que o ciume da independencia e o amor aos principes naturaes podia tornar-lhe todo hostil. A cada passo mil perigos o advertiam da temeridade. Aqui eram serras alpestres, aonde um punhado de homens resolutos facilmente o sepultaria com seus companheiros de armas! Além eram solidões, aonde a falta de todos os recursos exaggerava as miserias com que luctava desde que saíra de Salamanca!

Os rigores do inverno tempestuoso, as estradas arrombadas e cobertas de agua, os campos inundados, a falta de viveres, e o odio dos moradores, dizimavam suas fileiras rareadas pela fadiga, pela fome, e pelas enfermidades. Tudo se conspirava para o punir e demorar a invasão; o clima, os habitantes, e o territorio que se via obrigado a atravessar!

A firmeza do general triumphou. No dia 27 de novembro suas avançadas batiam quasi ás portas de Arroios, e nas praias de Belem o principe regente dava o ultimo beijamão aos vassallos consternados!

No caes e na praça não se via senão lagrimas e confusão. Os parentes despediam-se, abraçados, como se não esperassem tornar a vêr-se. Os escalares e bergantins carregavam para bordo as mobilias dos fidalgos e as alfaias mais preciosas do paço e da patriarchal. Nas ruas apinhava-se o povo attonito. Cercada do cortejo doloroso do infortunio, a familia real era o alvo, em que se empregavam os olhos de todos.

No meio das damas, açafatas, camaristas, e criados, pallidos e suffocados, o principe D. João, sua esposa a princeza D. Carlota, seus filhos, e sua mãe a rainha D. Maria I, cujos gritos de demencia cortavam o coração, diziam o ultimo adeus á terra do seu berço!

A multidão soluçava e estendia os braços em vão, como se quizesse retel-os. Um decreto datado da vespera tinha declarado que os conselhos pusillanimes prevaleciam. Em vez de chamar o reino ás armas, imitando o valor de seus antepassados, D. João ia refugiar-se além do Atlantico, no Rio de Janeiro, deixando nomeada uma regencia á qual deferia a triste missão de abrir as portas da capital ás tropas inimigas.

Demorada no Tejo pelos temporaes, a esquadra portugueza só largou as velas no dia 29. Nessa mesma noite arrastavam-se desfallecidos pelos arrabaldes de Lisboa os invasores, cuja sombra sossobrára o peito de um descendente de D. João I! Quasi nús, descalços, esmorecidos, recrutas imberbes com as espingardas cobertas de ferrugem, inuteis, ou partidas, os soldados do corpo de occupação infundiam mais dó e piedade, do que temor e respeito no animo dos que os viam desfilar. Escudava-os, porém, o nome de Napoleão com o seu prestigio. A hora dos desenganos ainda não tinha batido.

Junot entrou no dia 30, hospedou-se no palacio do barão de Quintella, e poz algumas auctoridades suas. No dia 13 de dezembro, depois de uma parada no Rocio, a bandeira tricolor foi arvorada nas ameias do castello. Começava o primeiro acto do attribulado drama, cujo desenlace encerrou a capitulação de Paris, e a abdicação de Fontainebleau! As tropas hespanholas acompanhavam os movimentos dos alliados. O general Taranco apoderou-se do Porto; o marquez del Soccorro, senhor do Alemtejo, adeantou-se até Setubal. As forças dos invasores cercaram-nos por todas as partes.

Ás saudades cada vez mais vivas da dynastia desterrada, aos resentimentos provocados pelo jugo estranho, que, arrogando-se fóros de conquista em plena paz, cada dia era mais detestado, uniam-se os aggravos e violencias inseparaveis de uma occupação, que só podia sustentar-se pelo rigor.

Amanheceu finalmente o dia 13 de fevereiro de 1808, o qual, rasgando o véu de todo, revelou sem disfarce os designios de Bonaparte. Rodeado de soldados e canhões, ao som das salvas das fortalezas de mar e terra, Junot proclamou sem hesitar a usurpação insolente de todos os direitos da soberania. A casa de Bragança, disse elle no seu edital, acabou de reinar. O imperador dos francezes será de ora em deante o protector e o arbitro dos destinos da monarchia! Para consolar os portuguezes da perda da independencia, o duque de Abrantes prometteu-lhes mil beneficios, e assegurou-lhes que um dia até o Algarve e a Beira Alta haviam de ter o seu Camões!

Os habitantes preferiam a epopea viva á epopea escrita, e poucos mezes depois com a espada em punho recordavam as proezas de seus avós, repellindo os estrangeiros.

As armas nacionaes picadas e substituidas pela aguia corsa, a contribuição forçada, decretada em 7 de dezembro de 1807, e repartida pelos moradores abastados de Lisboa, que nem o pretexto da resistencia tinham offerecido á cubiça, irritando os animos excitaram tumultos na capital e rixas em varias terras.

Correu sangue de parte a parte. Nas provincias os roubos impunes, os desacatos da soldadesca nas egrejas, e as tropelias de tropas licenciosas e pouco disciplinadas, ainda cansavam mais a paciencia publica.

A sorte da capital e do Porto não era menos infeliz. Lagarde, detestado pela sua tyrannia na Italia, e Perrot assaz inventivo em oppressões, cobriam de uma rede de delatores os pontos, onde suppunham que podiam abrigar-se os seus adversarios, faziam leilão publico da clemencia, e abriam, ou cerravam as portas das prisões com chaves de ouro. Tinham pressa de enriquecer!

Adivinhariam que o seu governo não havia de durar muito? Os factos provaram mais esta vez ainda os perigos de tão errado systema. Filho da violencia, apenas o desamparou a força que era o seu unico apoio, despenhou-se nos abysmos, que elle proprio afundára.

IV

O bem soa, o mal voa

De ordinario voltam-se contra os poderes odiados os proprios meios empregados para algemar os povos. As visitas domiciliarias, as buscas, as denuncias, as multas, os encarceramentos, todos os instrumentos de tortura moral, em fim, excogitados pelo genio assolador de Lagarde, produziam effeitos contrarios aos que elle esperava colher, ulcerando o orgulho nacional, enfurecendo as populações, e predispondo-as para vingarem no primeiro ensejo todas as offensas de uma vez.

Em Mafra, aonde um conflicto casual custára a vida, ou o sangue a alguns soldados de Junot, a crueldade da repressão, confiada ao general Loison, acabou de exasperar os animos. O desditoso Jacintho Correia expiou com o supplicio a culpa, quasi geral, da aversão aos invasores.

Estes rigores, longe de as firmarem, tornaram mais frageis as bases da dominação estrangeira, que a todos os instante via desabar o edificio vacillante do seu poder. As devassas e monterias ordenadas contra as pessoas implicadas n'esta guerra surda, mas implacavel, ameaçando alguns innocentes, apenas réos do horroroso delicto de aborrecerem a usurpação, recrutou em favor da reacção patriotica numerosas e decididas adhesões.

Paulo de Azevedo Carvalho, que no «Moinho da Raposa» ouvimos citar como uma das victimas da intendencia geral da policia, salvo quasi por milagre, graças á rapidez da fuga, das garras dos emissarios de Lagarde, vagueára de asylo em asylo, acossado de perto, mas sempre protegido, desde Torres Novas até Santarem pela generosa cumplicidade, que lhe patenteava todas as portas, do palacio até á choupana, apagando logo depois com discreto silencio o menor vestigio de seus passos.

Uma imprudencia ajudou os que o perseguiam. Sua filha partiu de Torres Vedras para ir encontrar-se com elle, e os olhos de argos da policia seguiram-a na jornada até ao humilde casal, escondido nas mattas da Aramanha, onde a esperava Paulo de Azevedo, e onde lhe abria os braços a hospitalidade rude, mas sincera, do honrado fazendeiro Antonio Simões.

Disfarçados em mendigos ou em jornaleiros, os agentes de Lagarde depressa descobriram o foragido no seio da casa rustica, em que se abrigava. Assaltaram-a de noite com um cordão de milicias ás ordens de Estevan Cabrinha sargento no regimento de Rio Maior, e capaz de vender o sangue de mãe e irmãos, uma vez que o preço correspondesse. Falharam, porém, todas as precauções. Cabrinha errou o salto. Avisados a tempo o pae e a filha evadiram-se na vespera, e o sargento só colheu da ruidosa diligencia as maldições de Antonio Simões, maldições e despresos, que estava costumado a engulir, como ossos do officio, mas que registrava cuidadosamente para as descontar aos devedores na hora opportuna.

D'esta vez a divida não esperou muito. Uma busca de contrabando sobre denuncia falsa proporcionou-lhe o desejado pretexto. Antonio Simões da Aramanha deu-lhe o gosto de entrar dias depois sob seus auspicios na cadeia de Santarem, quasi arrependido da soltura de lingua, com que tinha lançado em rosto ao perseguidor as lagrimas e a ruina das familias, e os crimes contra a patria. O fazendeiro, todavia, não gemeu nos ferros de el-rei, como se dizia então, sem jurar pelas costellas ao malsim. Deante de testemunhas protestou moel-o com o cajado de zambujeiro, especie de clava, que achatava um homem como uma bolacha, e vozes chocalheiras avisaram o sargento da promessa caridosa. Cabrinha enfiou. O intendente geral da policia Lagarde servia-se do mastim e açulava-o contra o Ribatejo, não regateando ao mercenario venal as recompensas; mas era duvidoso que podesse eximir-lhe o corpo do premio, affiançado pela gratidão de muitas victimas.

Em quanto Paulo de Azevedo respirasse livre, o amor proprio e a bolsa de Cabrinha padeciam, e não era elle homem que dormisse, quando o interesse o chamava com voz activa. Suppondo o cavalleiro de Mafra ainda proximo, deixou-o socegar por dias, e valendo-se da ardileza de um subalterno sagaz, digno assessor de suas virtuosas emprezas, o coxo Gaspar Preto, conhecido pela expressiva alcunha do _Sapo_, mandou-o bater os arredores, na idéa de que a vista de lince do agente, com mais facilidade desencantaria, ainda quente, o ninho aonde se refugiava a presa.

Não se enganou. O _Sapo_, cujos brios avivára a esperança de rasoaveis lucros, entrou sem demora em campanha, e tres dias depois trouxe-lhe a agradavel nova de que o cavalheiro e sua filha se cobriam com o tecto modesto de uma casa, pouco mais do que choupana, solitaria, e situada nas abas da risonha povoação do Casal do Ouro no meio das vinhas e olivedos, que o vestem de verdura.

O sargento não perdeu tempo. Apenou seis milicianos fieis ao copo e ao cangirão, e, acompanhado por elles, prendeu de tarde e á traição a Paulo de Azevedo e a Leonor. Temendo, porém, que o povo se alvoroçasse, apezar das ameaças da trovoada metteu-se a caminho, não sem olhar a miudo para traz, receioso, sobre tudo na charneca, de que a bala perdida de uma espingarda lhe testemunhasse o reconhecimento grangeado por seus longos e valiosos serviços!

O homem põe, e Deus dispõe! A fortuna que o protegêra, detendo Manuel Coutinho no Cartaxo, sem o que teria encontrado o seu amigo e a sua noiva presos, (lance de certo fatal ao sargento), mostrou-se logo contraria a Cabrinha, não demorando uma hora, ou duas mais, tambem, o temporal, o qual, perto da Ponte da Asseca rebentou com violencia tal, que o constrangeu, á falta de melhor, e não sem grandes arrepios de medo seus, e dos soldados, a descançar aquella noite no palacio arruinado, temido na visinhança pelo significativo nome de _Casa Negra_, ou de _Casa Maldita_.

O _Sapo_, entretanto, não ficára ocioso.

Sabendo que Antonio Simões da Aramanha fôra solto da cadeia de Santarem por ordem do juiz de fóra, e que n'essa mesma tarde vinha dormir ao Casal do Ouro, doeram-lhe de repente todos os ossos, como se o cajado monumental lh'os triturasse, similhante a mangual na eira, e assentou livrar-se a si e ao sargento da promettida sova, interceptando na estrada o robusto fazendeiro com uma bala.

Esperou-o, pois, atraz de um vallado, em azinhaga escura e estreita, ao anoitecer. Escutando o ruido de passadas cheias renovou a escorva, engatilhou a espingarda, metteu-a á cara, e com a tranquillidade, com que poderia desfechar sobre uma lebre, disparou por entre as ramas sobre um vulto, que vinha dobrando a quina do caminho, e que soltando um grito agudo baqueou por terra.

--Deus seja com a sua alma! exclamou o assassino, saltando o vallado, e contemplando prostrado, e com o rosto banhado em sangue o corpo da victima, que todavia conheceu pela estatura e pelo trajo ser Antonio Simões da Aramanha.

--Está com Christo! ajuntou depois de olhar para elle instantes. Este já não morde. Falta o Antonio da Cruz!... Tambem lhe ha de chegar a sua vez!

Feito este responso, torcendo a perna, e apressando os saltos, em que despejava mais caminho do que os sãos, o coxo passou por entre as silvas, e atravessando pelas vinhas e hortas, veiu saír muito distante do logar do crime, ao alto do valle.

Soou a noticia do tiro dado em Antonio Simões. As mulheres, que se recolhiam do trabalho do campo, encontraram o corpo ensanguentado na azinhaga, e correndo e clamando, tocaram a rebate com a historia do homicidio por todas as portas. Juntou-se gente, accudiram alguns amigos, que o morto contava na terra, e em procissão encaminharam-se ao sitio aonde o desgraçado fazendeiro devia jazer, que era aonde a azinhaga cortava entre a Ponte de Asseca e a Casa Negra.