A Casa dos Fantasmas - Volume I Episodio do Tempo dos Francezes
Chapter 10
Lagarde escutára com attenção o depoimento lucido e conciso, que o _Sapo_, sem trepidar, lhe recitou, como licção aprendida de cór, admirando a prodigalidade, com que a natureza favorecêra este ente quasi disforme e rachitico, que, encarado á primeira vista, não promettia, senão fraqueza e estulticia.
Depois de tomar algumas notas, consultando um, ou dois papeis, e tornando-os a encerrar nas gavetas do bofete, o intendente conservou-se silencioso por momentos, scismando profundamente.
--A conspiração existe, dizia elle comsigo. Aqui estão as provas d'ella; mas quem ha de persuadir o duque, e vencer o seu amor proprio? A leitura d'aquelle maldito plano atrazou-nos!... Não importa. Deixal-os rir! A mim compete-me velar para que riam sem perigo.
Virando-se depois para os agentes, que aguardavam calados as suas ordens, acrescentou:
--Sargento! Estamos na pista de um trama complicado. Fique em Lisboa com este homem, e procure hoje de tarde o meu secretario Loisy. Elle lhe dirá o que ha de fazer.
Estas palavras, e o gesto do ministro avisaram os dois, de que a audiencia estava terminada. Saíram logo, mas ainda Lagarde não tinha tido tempo de percorrer com os olhos um papel, que acabavam de lhe entregar, abriu-se uma porta particular, e entrou no escriptorio um mancebo, de rosto jovial, vinte oito annos de edade, e figura esbelta, realçada pelo uniforme de official de cavallaria, trajado com garbo. Era seu sobrinho Armand de Aubry.
XIII
Dois parentes
O intendente accolheu o recem-chegado com um sorriso, e extendeu-lhe a mão com amizade. Aubry apertou-lh'a sem ceremonia, encarou-o com ar malicioso por momentos, e disparou-lhe depois na cara a mais longa e estrepitosa risada, que de certo tinham ouvido aquellas paredes, desde que a Santa Inquisição reinava dentro d'ellas.
--Ah! Ah! exclamou fazendo esforços em vão para se reprimir. Que duas figuras unicas, que duas corujas agoureiras acabo de encontrar no corredor!... Pelo que vejo a procissão de ámanhã leva anjos, demonios, serpentes, e até estafermos do mais curioso feitio. Estes dois são magnificos. Sobre tudo um... o mais baixo. É admiravel!
--Porque? atalhou Lagarde.
--Porque, meu tio? A pergunta é rara! Aquella cabeça de anão, aquella cara de papel, e os saltos de rã da perna coxa promettem á festa um palhaço soberbo. Por quanto se aluga aquelle senhor? Juro-lhe que vale quanto pesa... em cobre. Dou-lhe os parabens! Foi um achado. Posso saber o que elle custa á policia de sua magestade o imperador e rei?!...
E o official dizendo isto ria como um louco, afagando o bigode louro, e saccudindo o pó das botas de montar com a ponta do junco flexivel, que trazia na mão.
--Não custa barato, Armand! redarguiu o intendente, sorrindo-se tambem. Aquelle anão, assim mesmo contrafeito e ridiculo como te pareceu...
--Esse _pareceu_ é delicioso, meu tio! Continue. Sou todo ouvidos.
--Vale mais do que muitos homens guapos e bem postos.
--Quem tal diria! Então é um diamante bruto?...
--Talvez. Dentro em pouco vel-o-has chefe...
--Chefe? Muito bem. E de que tenciona invental-o chefe? Acaso a policia conta distraír os portuguezes de suas saudades, armando tablados ao ar, e escripturando polichinellos?
--Não! redarguiu Lagarde um pouco enfadado dos motejos do sobrinho. A policia aspira a funcções mais modestas. Lisboa, esta cidade immunda como as do Oriente, começa já a ser outra cousa... As ruas...
--Tá! Tá! Meu tio. Esse elogio dos serviços da policia, na sua bôcca é capaz de abrandar as pedras... das mesmas ruas. A proposito! Denuncio-lhe os cães vadios. Resistem ás ordens como janizaros. Hontem á meia noite estivemos em perigo de sermos devorados, eu, e o meu cavallo! Que morte para um official do exercito imperial!... Diga-me: o anão, de que tractâmos, será nomeado executor da alta justiça contra as matilhas famintas? A cara do personagem é de um verdadeiro Herodes, e não desmente o officio. Puah! O maldito sempre deixou aqui um cheiro patibular!...
--Armand! Não te cansaste ainda?!...
--Oh! Cuida meu tio, que os assumptos recreativos se encontram a cada canto n'esta boa terra? O que admiro mais é a sua longanimidade. Parece incrivel! Aturar fechado n'este gabinete dias, semanas, e mezes, entre cachos de malsins e grinaldas de larapios aposentados! Santo Deus! Que emanações asquerosas. É de engulhar até o estomago a um tubarão!...
--Ainda! Armand, o que sinto mais, do que a triste sociedade, que sou obrigado a admittir...
--Diga tristissima, meu tio, que não diz senão a verdade. Os melhores dir-se-íam desenterrados das enxovias, ou das galés...
--Então! O que deploro, mais do que isso, é essa tua leviandade incuravel. O homem, que estás escarnecendo, prestou-nos a ambos um serviço relevante...
--Não sabia. Pelo que observo o precioso aborto accumula as funcções de palhaço ás de nigromante? Faz magia branca nas ferias. Excellente!
--Ah, Aubry! Quando te verei um momento serio e preoccupado dos deveres da tua posição?
--Quando uma bala me varar o peito, ou a cabeça. Se não levasse a vida a rir e a folgar, entre dois amores, um que hoje foge para volver ámanhã, outro que arrebata e embriaga; o amor dos sentidos e o amor da gloria; cuida que valia a pena de a arrastar de desengano em desengano, de revez em revez até aos rheumatismos, e aos defluxos asthmaticos da velhice? Por alma de meu pae! Nasci e hei de acabar com esta sina. Sou assim feito. Não tem remedio! Mas apezar de rir muito, de chorar pouco, e de preferir o lado comico ao aspecto lugubre da existencia, ajuntou, tornando-se um tanto grave, creia que este coração, facil em se alvoroçar com a promessa de uns bellos olhos pretos, azues, ou verdes, a côr é indifferente uma vez que sejam formosos (!), é incapaz de trahir a honra e a amizade, ou de se aviltar por nenhum preço...
--Bem sei. Por isso te estimo. Desejava-te só menos estouvado. Não póde ser? accrescentou sorrindo-se involuntariamente do gesto negativo do sobrinho. Paciencia! Escuta-me. Aquelle homem, que saiu d'aqui ha pouco... Não rias! ao qual ignoro porque pozeram a alcunha de _Sapo_...
--Quem seria o philosopho que tão bem chrismou o reptil? Preciso abraçal-o! O _Sapo_?! Mas é verdadeiramente um sapo o seu homem, meu tio! Bom! Não se agaste. Já me calo. Passo a estar serio e aprumado como uma estatua... Diga!
--Aquelle homem... foi quem descobriu o asylo de Paulo de Azevedo, e entregou á policia a sorte do cavalheiro, do qual depende...
--Cuidei que lhe tinha escapado! interrompeu o mancebo. Pareceu-me ouvir-lhe dizer que duas vezes...
--O tivemos nas mãos, e que nos escorregou por ellas, zombando de nossas diligencias? É verdade. Não te enganaste. Mas á terceira fomos mais felizes. Estava escondido aqui mesmo em Lisboa, e mandei-o prender... O sargento Cabrinha, um dos meus agentes mais activos, e este _Sapo_, que ainda promette ser melhor...
--Ah, meu tio, fale-me de tudo menos d'esse miseravel. Deploro vêl-o convertido em Plutarco de similhante monstro...
--Pois sim. Mas attende-me. Lavemos agora um pouco a nossa roupa suja em familia. O que te resta dos bens de tua casa?...
--Dividas e credores, replicou Armand com um sorriso stoico sublime.
--Nada mais?...
--Acha pouco? Dividas desassocegadas e credores inquietos!... Tenho com que me entreter toda a minha vida.
--Um!... Pois de todas as propriedades, que herdaste, mobilias, ouro, prata... não possues absolutamente nada?!...
--Nada!... O ouro a que posso chamar meu... e assim mesmo só por uma audaciosa figura de rhetorica, porque o não paguei ainda... trago-o aos hombros... são as dragonas!
--Ah! Então o naufragio foi completo!?... E com que contas para o futuro?...
--Essa é boa! Conto com os meus vinte e oito annos, com esta figura soffrivel, com a saude á prova de todas as fadigas, que devo á minha compleição, e que tem sido o desespero dos medicos, e com o acaso de uma bala, ou de uma proeza, que me eleve em patente, ou me deixe no campo como muitas outras buxas de canhão, que valem menos do que eu.
--És louco!...
--Sou philosopho!
--Talvez! Mas dize! Eras filho unico. Teus paes deixaram-te...
--A sua benção e alguns punhados de escudos nas gavetas. Que quer, meu tio?! As Aspasias de París, as Sylphides do corpo de baile, e as Musas da opera vendem os sorrisos caros. Não imagina!... E sorriram tanto, e com tal graça para mim, que as mãos abriram-se-me sem as sentir... Quando caí na realidade... sabia de cór todas as piruetas e saltos de Vestris, todos os passeios e casas de pasto de mais fama, e podia dar licções de gosto e de ouvido a todas as platéas civilizadas... Mas nem um real no bolso para afugentar o demonio! Encolhi os hombros e fiz-me soldado.
--Bem sei. Porém a herança de tua tia?!...
--Santa e excellente velha!... Saltam-me as lagrimas dos olhos ainda quando me recordo d'ella! A herança da boa tia veiu nas poucas horas de melancholia, que tenho penado em minha vida.
--Isso não explica!... Lembro-me de ter ouvido falar em terras...
--Oh, de certo. Um bom par de geiras... Eram muito fracas. Vendi-as por economia.
--Mattas e pinhaes!?...
--Magnificos!... Eram muito sombrios. Troquei-os a dinheiro para me não entristecerem.
--Uma casa de residencia vasta com jardins?...
--A casa era humida e constipava-me. Os jardins precisavam de muito amanho, e não apparecia jardineiro. Desfiz-me da casa e dos jardins.
--Uma mobilia antiga, mas rica?!
--Custava-me muito caro o transporte, cedi-a.
--Percebo!... N'esse caso estás?...
--Como diz o livro de Job: Nú saí do ventre de minha mãe, e despido de bens da fortuna descerei á cova.
--Admiro o teu sangue frio. Não te parece já tempo de assentar, e de mudares de vida...
--Conforme a mudança! Saltar da agua fria para caír no fogo, não sei se é peior.
--Armand! É necessario cazares, e que o dote de tua mulher...
--Chegue para remendar a capa esburacada do mendigo?!
--Mais do que isso. É preciso que dê para uma capa nova.
--Não digo que não. Mudarei ainda de pelle. Estou prompto.
--Estimo. Falei-te na filha de Paulo de Azevedo...
--É moça?...
--Dezoito annos.
--Feia como uma herdeira, ou desastrada como as morgadas?...
--Não. Linda, airosa, e gentil como uma parisiense.
--Santo Deus!... E esse thesouro, essa fada, mimo de todas as perfeições, guardou até hoje o seu coração livre á espera de um perdulario, de um estouvado, que nunca viu?! Meu tio! Sabe que o unico ridiculo, de que tenho medo, é da sorriada merecida de Jorge Dandin?...
--Repito. É uma menina séria, prendada, e espirituosa...
--Não duvido. Antes isso! A ingenuidade de Agnés sempre me assustou muito! Essa menina... Mathilde?... Clara?...
--Leonor! Leonor de Azevedo...
--É verdade! Leonor!... Essa Leonor não estava justa a cazar com um cavalheiro, tambem fidalgo, official, capitão, creio eu, do segundo regimento do Porto, licenciado depois do tumulto das Caldas?... Se não erro, elle chama-se?...
--Manuel Coutinho! accudiu o intendente. Não houve nunca promessa de cazamento, enganas-te. As duas familias davam-se muito. O que poderia existir era algum namorico, alguns requebros naturaes... innocentes...
--Sim! Sim! Muito innocentes. Sabe que nunca me resolvi a calçar sapatos de defuncto, e que de sapatos de vivos gosto ainda menos?... Uma pergunta, meu tio?... Hei de ser sempre noivo por procuração? Conta cazar-me sem eu vêr nunca minha mulher... nem até no oratorio da policia?...
Lagarde piscou os olhos, assoou-se com ruido, e coçou depois ao de leve a ponta do nariz aquilino. Eram os gestos, que n'elle inculcavam hesitação e perplexidade.
--Cazares sem vêr tua mulher?! exclamou rindo constrangido. Pelo amor de Deus! Quem te metteu isso na cabeça?
--Cuidei! Como os principes cazam pelos retratos...
--Has de vêl-a, adoral-a, e agradecer-me de mãos postas a escolha.
--Estou certo, meu tio. Porém!... Como o meu voto me parece essencial desejo dal-o em consciencia. Quando me apresenta a D. Leonor?...
--Um dia cêdo! Ámanhã talvez! redarguiu o intendente, agitando-se, e estorcendo-se na cadeira, como se o assento fossem brazas.
--E porque não ha de ser hoje. Sou tão curioso!...
--Hoje! Sem a avisar! De mais tenho que despachar... Espero...
--O honrado sargento, ou o palhaço talvez?!... Vamos. Decida-se. Hoje, ou nunca! _Alea jacta_! como nós diziamos no collegio. Os bons palpites aproveitam-se. O matrimonio é um grilhão de ferro coberto de flôres... Quem sabe se ámanhã eu terei medo da felicidade conjugal, e me arrependerei? Seja docil! Deixe-me vêr hoje esse portento encoberto...
--Pois bem! Faça-se a vontade ao teimoso, contestou Lagarde, depois de alguns instantes de reflexão, tirando o relogio do bolso, e consultando-o. São dez horas. Ao meio dia aqui te espero.
--Viva o melhor dos tios! bradou Armand, rindo, e abraçando-o. Diz o rifão: em quanto venta molha a véla! Quero remar com a maré. É verdade que na Ponte da Asseca, em um casarão arruinado, apparecem aventesmas, e que um troço de milicianos debandou por uma noite de tempestade, fugindo de um fantasma?...
--Porque?
--Nunca tive a honra de conversar particularmente com nenhum espectro, e desejava certas informações sobre o paraizo e sobre o purgatorio...
--Os fantasmas da Ponte da Asseca sabes o que são? accudiu o ministro agastado. Um bando de conspiradores, que a policia vae desmascarar e punir.
--Jesus, que ares tragicos, meu tio! Pela sua vida não represente de tyranno. O papel cai-lhe mal. Dê-me essa missão a mim. Adoro as aventuras, e Cazote é o meu idolo... Quem sabe se irei lá encontrar algum diabo amoroso?
--Pois bem, irás! atalhou Lagarde sorrindo. Mas já te previno. O que lá acharás são morgados lorpas, e rebeldes endurecidos. Agora adeus. Não te esqueças. Ao meio dia em ponto!
--Ao meio dia em ponto! respondeu o sobrinho, saudando-o, e saindo.
XIV
Amor
Quando Manuel Coutinho assomou aos umbraes da porta do aposento, acabava Leonor de lêr uma carta de seu pae, escripta com a firmeza de animo, que tornava tão nobre o caracter do velho cavalheiro. Da sua prisão do castello, com a morte eminente e a vingança de poderosos inimigos suspensa sobre a cabeça, falava Paulo a sua filha com o mesmo socego, com que o faria solto e desaffrontado. Nem uma queixa! Nem um indicio de tristeza, ou desalento! Ausente em uma viagem longa, ou distraído em uma partida de caça, não tractaria com indifferença mais soberana as vigilias e amarguras do carcere.
Dizia-lhe que o seu processo, apressado a principio pelo odio, agora coxeava, retido por mão occulta. Zombava da vigilancia, com que era guardado, attribuindo-a á scena comica da sua evasão no palacio da Ponte da Asseca.
Perguntava-lhe por Manuel Coutinho, e pedia-lhe que recommendasse ao mancebo muita paciencia e conformidade, e resignação para atravessar os dias dolorosos do captiveiro. Finalmente, lembrava-lhe em estylo risonho alguns episodios de suas peregrinações pelas aldeias e casaes do Ribatejo, assegurando-a, de que o descanso do corpo e a serenidade do espirito iam obrando n'elle o prodigio de o transformarem, de seco e agil, em um ente mais obeso, mais corpulento, e mais oleoso, do que fr. Raymundo, frade notavel em Mafra pela estatura agigantada, pela estupidez, e pela voracidade.
Aonde a sua ternura extremosa se denunciava, e a alma stoica deixava perceber a ferida dos espinhos da saudade, era nos conselhos dados á donzella, e nos gracejos constrangidos, com que a motejava ácerca da alvura da tez e das rosas pallidas, tão festejadas no seu rosto, deplorando que o sol, as geadas, e a vida alpestre de uns poucos de mezes as tivessem queimado! Rogava-lhe ironicamente, que aprendesse de alguma dama franceza o segredo d'aquella frescura artificiosa, que só ellas sabiam fabricar para engano da edade, e conservação de successivas gerações de adoradores.
Apezar do tom jovial, a carta era mais triste do que se respirasse sincera melancholia. Leonor, avaliando o coração paterno pelo seu, sentiu correrem-lhe as lagrimas e empanar-se-lhe a vista á proporção que a ía lendo. Dotada, tambem, de indole varonil e soffredora adivinhava facilmente as apprehensões e os tormentos, que aquellas lettras escondiam, e quasi revia por baixo d'ellas as nodoas do pranto suffocado por uma vontade forte.
A donzella recostava-se em uma marqueza de palhinha. O braço nù do cotovello para baixo descansava em um velador entre duas jarras de porcelana cheias de rozas e madresilvas. Duas portas de vidraças abertas sobre o jardim, para onde se descia por escada de poucos degraus deixavam entrar a luz em jorros. A sala era atapetada de esteira, e estava ornada de alguns paineis de paizagem, pendentes das paredes estucadas. Nos vãos das portas duas gaiolas douradas encerravam aves africanas de vistosas plumagens. Em cima do marmore de um tremó, entre flores, jazia esquecido o livro, que tivera na mão pouco antes de rasgar anciosa o sobrescripto da carta, que viera interrompel-a. A um lado, no bastidor, sobre a tela repregada notava-se ainda a agulha picando a talagarça na petala delicada da ultima flor, cujo matiz deixára em meio. Um vidro de peixes, de cores cambiantes, enfeitava a mesa fronteira ao tremó e ao espelho.
--A filha de Paulo de Azevedo vestia de escuro sem affectação. Um corpete, dos que então se chamavam _Mimosos_, de seda preta com guarnições singelas, e cintura curtissima, desenhava mal a rara elegancia d'aquelle corpo esbelto, moldado pelas graças. Uma fita larga, com laço e pontas caidas, unia-o á saia de tafetá de cauda alta, orlada com uma barra de requifes; mas a saia, segundo a moda do tempo, não era menos desairosa do que o corpete; e n'esta nossa epocha de crinolines e balões de verga de aço a magreza da roda, e a estreiteza do córte, que a cingia aos membros quasi a ponto de accusar de mais as fórmas, faria estalar de riso um conciliabulo de modistas e petimetres. Uma singela cruz de coral, encastoada em ouro, e suspensa de um fio de aljofres debruçava-se sobre o collo de neve, que um poeta sem exageração denominaria verdadeiro collo de garça. O penteado, não menos singular para os nossos dias, que o feitio do trajo, era todo de anneis irregulares, acompanhando a testa em figura quasi de diadema, e rematando no alto da cabeça por uma flor natural cravada nas tranças. Sapatos de setim de entrada muito baixa, cobriam ou antes descobriam o pé mais breve e mais lindo, que um estatuario poderia desejar para modelo das extremidades de uma Hebé. A manga do corpete desnudava todo o braço, que na pureza e correcção das linhas não desmentia a formosura do semblante, o enlevo namorado dos olhos, e a expressão nobre, quasi altiva, e apesar d'isso ingenua e suave da physionomia.
Vendo-a assim reclinada, com os atomos dourados do sol a brincar-lhe nos cabellos, com a meiga pallidez, que um carmin fugaz e transparente apenas córava por momentos, e com aquella melancholia tão feiticeira pousada na vista, perdida com o pensamento bem longe de si e de tudo o que a cercava, um pagão, se a contemplasse de repente, hesitaria entre Juno e Diana, mas de certo não equivocaria sua belleza casta com os encantos mais faceis da lasciva deusa de Paphos.
Manuel Coutinho, que a amava, que desde a infancia a vira crescer em annos e attractivos, deteve-se suspenso de admiração, não se atrevendo a despertal-a do enlevo com o ruido de seus passos. Mas o coração tem sentidos mais subtis, que os ordinarios. Sem o vêr, sem ter percebido a sua chegada, Leonor adivinhou que era elle, e a sua alma, fugindo á dor, logo voou a encontral-o. Um suspiro á flor dos labios, um sorriso em que a magoa e o jubilo se fundiam, duas lagrimas congeladas, tremendo nas pestanas, disseram ao mancebo, que o sonho se quebrára, e que a amante, baixando das illusões do devaneio, volvia ás realidades doces, mas bem tristes, da existencia, e da paixão.
Leonor olhou para elle. N'este simples volver de olhos disse tudo, calados os labios, mas cheia de luz a vista radiosa. Um rubor, que esmorecia, e breve tornava a avivar-se, denunciou ao mesmo tempo o sobresalto da alegria e as tremulas palpitações do peito. O mancebo, não menos rendido, porém mais impetuoso, soltou a alma em um suspiro de entranhavel affecto, prostrando-se-lhe aos pés e, adorando-a, quasi como se adora a Deus. O que ambos falaram mudos n'este momento só póde concebel-o quem já gosou tambem as delicias por vezes acres das expansões do primeiro amor. Á donzella ria a esperança na bôcca e nas pupillas. Ao amante, olvidados os zelos e amarguras das confidencias, que acabára de escutar, tumultuavam no seio agitado as commoções, como vão e vem as ondas inquietas espumando sobre a areia.
Por fim a mão estreita e melindrosa extendeu-se para o obrigar a erguer-se. Um beijo ardente, seguido de mil osculos, n'essa mão que não fugiu, affrontou de novas e vivas cores as faces da filha de Paulo de Azevedo.
Desviando com um gracioso gesto de infinita brandura o amante ajoelhado, e constrangendo-o a levantar-se com o imperio só dos olhos. Leonor disse-lhe:
--Veiu tarde!... Não imagina o cuidado com que o esperava!...
--Leonor! Leonor! exclamou Manuel Coutinho incapaz de se vencer. Jure-me que não dará nunca a outro esta mão, que tenho nas minhas, como penhor da nossa ventura...
--Juramentos?! Já se não contenta com menos? Não crê em mim?!...
--Como em Deus!
--É de mais agora. Basta a fé... Teve noticias de meu pae? Será possivel ao menos demorar a sentença? que o ameaça. Quando me lembro!... Manuel! E nós aqui n'estes colloquios, quando elle.. geme desamparado, e se prepara para a morte... que será tambem a minha, porque, se o perder, sei que não posso, que não hei de sobreviver-lhe!...
--Não diga isso. Seu pae está mais perto da liberdade, do que da morte...
--Quem lh'o disse? Elle escreveu-me. Aqui está a carta; mas só confia em Deus! Ha alguma novidade? Veja que padeço ha tantos dias, chorando quasi orphã aquella vida, que é tudo para mim... Diga! Devo ter ainda esperança?...
--Deve!... O bispo, e sua irmã não lhe contaram nada?...
--Não! Mas o que ha? Ouvil-o-hei da sua bôcca... A boa nova será para mim mais risonha!
--O Porto vae acclamar o principe regente. Sepulveda sublevou as provincias do norte! O Alemtejo e o Algarve fazem e farão o mesmo!... Os francezes acossados retiram sobre Lisboa de toda a parte!...
--Seja para sempre glorificado o vosso nome, meu Deus! exclamou a bella enthusiasta, caindo de joelhos, e erguendo as mãos. Os ferros do captiveiro são asperos e pesados e a minha alma, ferida e cega de prantos, nem já a vista se atrevia a elevar ao ceu para vos pedir justiça!... O dia da liberdade começa a raiar. Manuel! O seu posto não é aqui, é ao lado de nossos irmãos que pelejam e morrem pela patria...
--Bem sei. Parto em dois dias. Vinha dizer-lh'o.
--Perdoe-me. Tenho pressa de vêr meu pae! Quero dever-lhe o seu resgate... As damas antigamente mandavam os cavalleiros correr aventuras, e não os premiavam senão coroados de louros. Quer ser meu cavalleiro?... ajuntou com um sorriso e em um tom irresistivel.
--Não o sou já? Que votos póde fazer que eu não cumpra?
--Vá! A empreza é gloriosa. Ajudará a restaurar a patria, a restituir o throno ao seu rei legitimo, e um pae extremoso aos braços da sua filha!... Porque não sou homem?! Nunca invejei tanto uma espada!...
--Quem sabe, accudiu o mancebo sorrindo, se os dias das amazonas não voltarão!...
--Porque o diz zombando?... Cuida que me faltaria o valor?... Estou louca! Desculpe! De balde quero dissimular a minha fraqueza mais do que posso. Elles são briosos; hão de combater aqui como combateram em toda a parte... Quantas victimas! Quanto sangue! Manuel! Não seja temerario! Quero tornar a vel-o!... Oh! se uma bala, se um golpe!...
--Deus será comnosco. Havemos de vencer. Anime-se!