A Casa do Saltimbanco

Chapter 8

Chapter 83,914 wordsPublic domain

De tempos a tempos queixava-se, sem se zangar, de que se fallava um pouco de mais em Adalberto, e, se sua mulher entristecia, fazia-lhe notar que uma só das suas indagações, feita a tempo e a horas, adiantaria mais os negocios que todos os discursos e todos os suspiros que se podem imaginar: a isto a boa Sidonia, não achando que responder puxava a agulha e fallava de outra coisa.

CAPITULO XIII

Adalberto tinha já passado dezoito mezes na casa do saltimbanco.

Longe do lar paterno crescia o querido exilado de Valneige. O habito, suavisando a aspereza da sua nova existencia, dava-lhe uma especie de consolação physica, mas o seu espirito e o seu coração revoltavam-se.

Não perdia, comtudo, nem a esperança nem a coragem, e não esquecia que muitas vezes seu pae tinha repetido diante d'elle, que a unica coisa que torna um homem menos forte do que a desgraça é a falta de animo.

--Eu, pensava elle, sou um homem como o papá, excepto a idade e a altura; é preciso ter coragem.

O querido pequeno, no meio de estranhos, vivia das suas recordações de familia, e o seu juizo, amadurecido pelo infortunio, fazia-lhe comprehender tudo quanto havia bom e excellente em casa de seu pae. Não achava prazer algum na companhia do bom Natchès, que só tinha a intelligencia necessaria para obedecer, e que, por este facto, era menos desgraçado do que parecia, porque não sentia o horror da sua situação.

Experimentava Adalberto um grande interesse pela pequena Tilly, tão fraca e doente. Tossindo quasi sempre, a delicadeza do seu peito teria despertado a sollicitude d'uma mãe; mas Tilly não chegava a saber o que era uma mãe. Como era bonita, geitosa e meiga quasi nunca tinham que a reprehender; comtudo a velha furia, que governava a casa, achava ainda pretextos para ralhos.

Se se preparava um espectaculo e a pobre criança estava com mau parecer ralhavam-lhe. Por isso tinha ella todo o cuidado em esconder os progressos do que ella chamava o seu _defluxo_. Esse defluxo era uma indisposição geral, acompanhado muitas vezes d'alguma febre, e muitas vezes de vontade de chorar sem saber bem porque. Era então que dizia com tristeza a Adalberto, sempre tão compadecido d'ella:

--Tudo me dóe, mas, em mim, não importa.

As duas crianças raras vezes conversavam. Desde a sua fuga, Adalberto era vigiado de perto, não só para evitar uma segunda tentativa, mas pelo receio que o seu fallar ousado trahisse a irritação que a sua indignação lhe causava. Comtudo soube que aquella interessante doente não tinha lembrança alguma da sua primeira infancia, e que a casa do saltimbanco era a unica habitação que conhecia. Ainda que nunca tivesse visto outra casa repugnava-lhe por instincto tudo quanto ali se dizia e fazia. O seu aspecto era d'uma outra origem, e ella propria o sentia tão bem que evitava quanto possivel de pedir qualquer coisa á velha Praxedes, tanto lhe custava chamar-lhe _avósinha_. Esta querida criança ficou espantada, quando viu no joven Valneige um coração doce mas energico, um espirito que sabia dobrar-se sem servilismo. Nas suas raras conversas ensinou-lhe Adalberto que ella tinha alma e que ha um Céo.

--Acreditas que eu vou para o Céo, perguntava ella ingenuamente?

--Sim, has de ir, porque a mamã diz que se vai para lá com certeza, quando a vontade é boa, quando se não faz mal de proposito, e quando se ama a Deus de todo o coração.

--Se eu o não amava, vês tu, é porque o não conhecia; mas, dize-me, acreditas que é d'aqui a muito tempo, muito tempo, que eu hei de ir para o Céo?

--Essas coisas não se sabem.

--Pois eu penso que será brevemente, por causa de meu defluxo. Quando tusso doem-me as costas; é talvez a morte que chega, e depois o Céo.

--Pode ser, não entendo d'isso.

D'este modo o pobre preso dava á doentinha as luzes que tinha recebido de seus paes, e, quando ella queria testemunhar-lhe o seu affectuoso reconhecimento, procurava um instante em que os outros estavam ausentes, e repetia baixinho, muito baixinho ao seu amiguinho o seu verdadeiro nome:

--Adalberto! Adalberto!

Para o exilado era uma grande felicidade. Quanto á brusca filha do Hercules cada dia que passava, mais ella se prendia ao seu protegido; e apezar de lhe fallar sempre em tom rude e breve, elle não podia duvidar da sua bondade, e esforçava-se por lhe testemunhar a sua gratidão, fazendo-lhe mil pequenos serviços.

Quando, de longe em longe, os trabalhos da casa do saltimbanco, ou as compras, isolavam um momento estes dois membros da companhia, Gella cessava de ser rude, e tornava-se boa. Sentia que no seu coração desabrochavam pensamentos delicados e uma sollicitude que tinha alguma coisa do amor maternal. Em troca recebia mais do que dava; crescia moralmente, e aprendia como Tilly que tinha alma e que ha um Céo.

Na ingenua criança, não havia difficuldade em aprender; mas na morena filha dos Ciganos, havia combate, e muitas vezes dizia:

--Olha, pequeno, não entendo muito de todas essas coisas; aprendi só a trabalhar para comer e beber; tenho uma cabeça rude. E, de mais, o que sou eu? nada; vivo sem saber porque nem para que. Ora! elle não gosta de mim, o teu Deus!

Adalberto respondia:

--A mamã dizia que elle ama a toda a gente. Não fazes tu parte d'essa mesma gente? Oh! Querida Gella, elle conhece-te; sabe todos os nomes e vê todas as caras.

O bom rapazinho tinha tanta sinceridade d'alma, e na voz tanta meiguice, que a pobre rapariga ficava ás vezes meia convencida, e a sua miseria moral humilhava-a diante do prisioneiro.

Havia algum tempo que Adalberto se admirava muito d'uma coisa, era do desejo que Gella mostrava de aprender a escrever certas palavras, sempre as mesmas. Estas palavras pareciam não ter entre si ligação alguma, e, comtudo, Gella prestava-lhes uma idéa seria, que tinha o cuidado de esconder.

Muitas vezes, quando se achava só com o captivo, pegava n'um pau e traçava grosseiramente no chão as letras, cujo modelo elle lhe fazia.

--Mas para que são sempre as mesmas palavras? perguntava o pequeno professor.

--Cala-te, meu mestre, respondia Gella rindo. Vejamos, faze-me escrever _o oe_, _a a_, o que é preciso para escrever _pae... vós... eu..._ etc. etc., cá tenho as minhas razões.

O pequeno, sem perceber nada, traçava com um paosinho estas palavras no chão; depois a discipula experimentava copiar; o mestre dizia que estava muito mal feito e apagava tudo com os pés. Estas lições mysteriosas eram quasi sempre um divertimento para o pobre pequeno Valneige.

Em troca, Adalberto aprendia com Gella muitas coisas; era ella quem todos os dias lhe fazia estudar o que chamava os _seus exercicios_, quer dizer movimentos a compasso, saltos, curvas, passos de dança, tudo quanto póde tornar o corpo flexivel. A criança tinha uma grande facilidade em comprehender e executar; era um rapaz que dava esperanças, dizia o mestre, deitando bem alto o fumo do seu grande cachimbo, o que n'elle era indicio de um contentamento perfeito. Estas disposições naturaes, juntas ao cuidado que elle tinha em satisfazer Gella, fizeram-no adiantar depressa no unico estudo que exigiam d'elle, e em pouco tempo poude figurar com vantagem nas representações, nas grandes feiras e nos espectaculos das cidades. Era um triste officio! Estar vestido como um dançarino de corda, dar cambalhotas, dançar a polka, saracotear-se até se estafar; e depois andar a pedir com a bandeja para ganhar alguns vintens. E, comtudo, era o que tinha que fazer o pequeno castellão; mas, quando acabava de figurar, doía-lhe o coração e tinha vontade de chorar. O seu vestuario, ainda que muito gracioso, humilhava-o, e os applausos de toda aquella gente faziam-lhe vergonha.

Tinha sido educado em idéas totalmente differentes; seus paes tinham por principio que uma criança nunca deve occupar os outros com a sua pessoa; que a boa educação consiste em responder quando se é interrogado, sem nunca ser o primeiro a dirigir a palavra; em não fazer notar nem valer as suas pequenas habilidades, senão quando positivamente lh'o authorisem. Eis o systema adoptado em Valneige, e, apezar de Adalberto ser estouvado, estes excellentes principios, tinham impresso traços indeleveis no seu espirito. Por isso lhe era tão penoso subir para o palco diante d'um publico grosseiro, cujo ludibrio elle se tornava.

Natchès, ao contrario, nunca parecia tão contente como nos dias das grandes feiras. Estava á sua vontade vestido de palhaço, e, como se sahia muito bem das suas cambalhotas e caretas, o mestre provava-lhe ordinariamente a sua satisfação por algum presente, como um boneco de bolacha, ou um grande frito de maçã; os dons da sua magnificencia nunca iam mais longe, e Natchès era-lhe muito reconhecido. Não levar pancadas parecia-lhe já uma tão feliz sorte, que o menor presente, junto a este favor, tornava-se inapreciavel. Pobre de espirito, limitado por natureza, acanhado ainda mais pela sujeição, parecia uma machina bastante aperfeiçoada; mas nada revelava n'elle a vida intellectual. A unica coisa que quebrava ás vezes a monotonia da sua escravidão, era da sua parte ataques de teima que espantavam toda a companhia, e que se terminavam, já se sabe, por pancadas. Estes ataques eram uma nova prova da sua fraca intelligencia, porque, é sabido, a teima é o defeito dos burros.

Não se póde imaginar a agitação, a actividade dos saltimbancos nos dias de grande espectaculo. O Hercules despia o velho casacão arruinado, e enfiava uma camisola côr de carne e um vestuario de phantasia, que provavelmente não se parecia nada com o de Hercules. Quando tinha desembaraçado e deitado para traz a espessa cabelleira, e que o fato justo desenhava as formas colossaes do seu corpo, o homem da mão de ferro não deixava de ter uma certa belleza selvagem. Esta belleza, comtudo, não era nada sympathica; era a dos soberbos leões que todos admiram, com a condição de uma grade de ferro os conservar a distancia.

Quanto a Karik, mascarava-se com o fato mais grotesco e não perdia com isso.

O rapazinho, uma vez que começava, obtinha do seu humor trivial uma grande quantidade de graças ordinarias, qual d'ellas mais tola, que mereciam grandes gargalhadas da multidão. O pequeno Valneige acabava ás vezes por tambem rir, não dos ditos de Karik, os quaes a sua innocencia não comprehendia, mas do espectaculo de tantas caras estupidas, que, de bocca aberta, applaudiam as enormes tolices que lhe diziam, e que, ainda em cima, pagavam um vintem.

A pequena Tilly parecia muito bonita quando figurava. A cabeça coroada de rosas, os braços ornados de braceletes, o pescoço rodeado de contas, um corpo decotado, uma saia branca e doirada, muito curta, as meias côr de carne, os sapatinhos azues claros, tal era o seu vestuario. Tinha muita distincção natural, e a delicadeza da sua figura, junta ao encanto do todo, enthusiasmava o mestre quando a via dançar a polka com Adalberto, em quanto que Karik e Natchès tocavam uma musica atroadora, que não era senão grande barulho a compasso.

O final de todas as representações, o mais lindo do programma, era a dança de Gella. Quando ella apparecia com o seu vestuario de velludo preto bordado de prata, que saudava o publico, e que os seus lindos movimentos de braços attrahiam a multidão e a juntavam de roda do theatro, Adalberto não deixava de cahir em um espanto visinho da admiração. Os cabellos pretos de Gella, entremeiados com flores de romeira, cercavam-lhe o rosto moreno e os seus animados olhos lançavam faiscas; havia o quer que fosse de imponente em toda a sua pessoa, e uma grande bondade no seu sorriso. O seu aspecto era o de uma bella hespanhola, e por isso lhe chamavam nos dias das festas populares: Gella, a _Andaluza_. Tocava muito bem castanholas, e dançava lindamente a cachucha, produzindo grande enthusiasmo nos espectadores, que a applaudiam com a voz e com o gesto, e algumas vezes mesmo lhe deitavam flores. Adalberto contemplava-a com uma affectuosa surpresa, mas um pouco envergonhado. Como lhe queria muito pela bondade que ella lhe dedicava, teria querido vêl-a sempre occupada com trabalhos de costura ou da casa, em vez de servir assim de divertimento ao populacho grosseiro, que não a respeitava.

O pequeno notava e com prazer, que, se acontecia Gella ter tido o que chamavam _um triumpho_, não parecia mais feliz por isso. Pelo contrario uma immensa fadiga lhe tolhia os membros; tornava-se semsabor, e muitas vezes, depois de tornar a vestir os seus vestidos pobres, dizia a Adalberto:

--Vês tu, meu pequeno, eu canso-me porque é o meu officio; mas se julgas que me divirto enganas-te. Estimaria muito mais ser como tantas outras mulheres, que vivem socegadamente em sua casa, sem andarem sempre d'um lado para o outro para divertir a uma chusma de patetas, mais burros que os proprios burros.

Exprimindo por esta forma nobres pensamentos na sua linguagem trivial, a filha do Hercules suspirava; Adalberto agradecia-lhe esses pensamentos e esse suspiro, e, ao affectuoso reconhecimento, que sentia por ella, juntava uma verdadeira estima.

[Ilustração pág. 181. Dançava lindamente. (Pag. 179).]

CAPITULO XIV

Adalberto teria sido o decimo quarto.

Os passarinhos continuavam cantando nas alamedas perfumadas de Valneige; só elles não estavam tristes, porque não tinham conhecido Adalberto. Valneige era um sitio encantador. A natureza tinha revestido as cores variadas da primavera. A agua corria sempre, mas sem se precipitar. Um bello sol doirava os campos, e os cordeirinhos saltavam nos prados, contentes de vêr suas mães, e de respirar uma suave frescura.

As mil occupações de uma grande exploração punham em movimento todos da quinta. Iam, vinham, lavravam e semeavam; era ainda o trabalho e a esperança da proxima colheita que preparavam de longe.

O anno devia ser bom, e por isso havia alegria; mas no palacio, que differença entre a alegria socegada de outrora e a vida anciosa e triste, que presentemente havia.

Aquelles dezoito mezes tinham mudado tudo; os rapazes estavam no collegio, e Camilla tornara-se uma senhora, fiel companheira de sua mãe. No fim das ferias da Paschoa achavam-se reunidos todos os membros da familia por alguns dias. Tinha-se feito a diligencia de tornar este tempo o mais agradavel possivel, a fim de Eugenio e Frederico gozarem á sua vontade da casa paterna e levarem d'ella uma grata recordação.

A senhora de Valneige sabia bem que as crianças não supportam a tristeza; que na sua idade o espirito é muito inconstante e o coração muito pouco formado, para não necessitarem uma grande distracção.

Tinha-se pois occupado em lhes proporcionar todos os divertimentos, que podem haver no campo, como passeios a pé e de carruagem, jantares sobre a relva etc. Tinham installado um _tiro_ no parque para se exercitarem, e era uma especie de concurso, porque havia um premio. A este premio juntava-se o encanto d'um grande mysterio.

Ninguem, excepto a senhora de Valneige, tinha visto o objecto em questão; não se sabia o nome nem a forma d'elle e passava-se o tempo a dizer:

--Mas o que será?...

O senhor de Valneige admirava a coragem de sua mulher, que fingia muitas vezes haver-se esquecido, para que os estudantes podessem gozar as ferias sem o menor cuidado. Não que elle tivesse menos boas intenções do que a meiga e paciente Adilia; mas desde a desapparição de seu filho, a sua debil saude paralysava-lhe os esforços, e bem contra a sua vontade a inquietação matava-o. Tinha escripto uma grande quantidade de cartas, feito numerosas viagens; nada o tirava d'uma duvida mortal. Cahindo n'uma especie de marasmo, fallava pouco, gostava de estar só, e nunca pronunciava o querido nome de Adalberto. Os outros, respeitando a sua dôr concentrada, evitavam tambem pronunciar este nome, excepto a velha Rosinha, que não se podia conter e que fallava quanto podia do seu muito querido pequeno. Mesmo quando estava só, a boa mulher murmurava, continuando a fazer meia, que parecia não acabar nunca:

--E pensar que se aquelle feio rapaz tivesse obedecido nada disto teria succedido! Uma criança não conhece o perigo; é a obediencia que o livra de todos os males.

Em quanto os corações dedicados ao exilado soffriam d'estes tormentos, as ferias ião andando o seu caminho. Nada as fazia parar; ainda mais dois dias e era preciso que Frederico e Eugenio entrassem para o collegio. Apezar de fallarem pouco n'isso, não deixavam de pensar muito; não porque temessem o estudo como rapazes preguiçosos, que querem passar o tempo sem fazer nada; pelo contrario, queriam ser homens e entregavam-se de boa vontade aos trabalhos intellectuaes, que a sociedade exige d'aquelles que a hão de governar um dia. Sentiam tambem quanto é vantajosa a convivencia e a sem ceremonia das relações, que estabelecem entre camaradas a semelhança das idades e a vida em commum. Emfim consolavam-se dos aborrecimentos do collegio pelas brincadeiras ás horas do recreio, cujos encantos são bem conhecidos, apezar das nodoas negras que em geral se seguem.

Só dois dias! Era preciso aproveital-os. Estavam mais vezes ao pé de sua extremosa mãe, olhavam mais para ella para levarem a sua imagem bem gravada n'essa memoria do coração, que acompanha nos estudos as crianças affectuosas.

--Vejamos, disse a senhora de Valneige ao almoço, chegou o momento de conferir ao vencedor o premio mysterioso.

--Que felicidade! exclamavam os pequenos, e Camilla tambem, por amor fraternal.

--Não quero esperar pelo ultimo dia. Ainda que saibam partir de bom humor como rapazes de juizo, conheço que o coração deve estar muito opprimido para gozar francamente de qualquer coisa.

--Tem muita razão, minha querida mamã. E Frederico e Eugenio abraçavam sua mãe, que, vendo-se assim presa, disse com o seu mais amavel sorriso:

--É ámanhã ao jantar, á sobremeza que eu hei de dar os premios.

--Como, os premios!

--Sim, os premios. Ambos luctaram admiravelmente e com igual destreza. O papá fez a conta dos tiros; um de vocês tem vantagem, mas o outro segue-o de tão perto, que, na verdade, não posso deixal-os partir sem lhes dar um testemunho honroso. Terão, pois, um primeiro premio, e um segundo premio, alguns condiscipulos, um bom jantar e vinho de Champagne!...

Ao ouvirem isto romperam em palmas e gritos de alegria. Uma festa em Valneige! Havia dezoito mezes era a primeira vez que Frederico e Eugenio viam preparar um divertimento, que se parecesse com os que havia d'antes. Divertiam-se, mas sempre uns com os outros.

D'esta vez tratava-se de convites, que queria dizer tres amigos da visinhança: Paulo, Eduardo e Christiano. Estes tres eram os mais intimos, e eram optimos rapazes! Riam muito, o que é uma grande coisa! Estes sujeitinhos só comprehendiam perfeitamente uma phrase que nos vem dos antigos: «para ámanhã os negocios sérios.»

Vinham pois á festa; e os paes tambem; haveria um grande jantar; a palavra _grande_ queria dizer n'este caso muitas pessoas amigas de roda de uma meza perfeitamente servida. Quanto á etiqueta, á frieza, e aos outros attributos dos verdadeiros jantares grandes eram coisas que não se davam em Valneige onde se conversava, como dizia Rosinha, com o coração nas mãos.

No dia seguinte passaram-se mil scenas alegres e animadas no parque. Os visinhos tinham mandado logo de manhã Paulo, Eduardo e Christiano. Cinco, eram mais do que o bastante para fazerem coisas do arco da velha. Ao principio Rosinha tentou intervir, fazendo algumas pequenas recommendações, e prevenindo as quedas e os estragos, mas era o mesmo que prégar no deserto, e Rosinha comprehendeu-o tanto que tratou de retirar-se com uma certa dignidade. Da copa fez uma especie de entrincheiramento d'onde não se via o inimigo, o que podia talvez fazel-o esquecer. Pegando na celebre e obrigada meia começou a trabalhar com furor e sem descanso. Os rapazes puzeram Filippe do seu partido para facilitar as brincadeiras, e como o amo tinha passado palavra ao cocheiro este foi de uma condescendencia a toda a prova. Deixou apparelhar o cavallo preto e permittiu que dessem a volta do parque, sendo Frederico o cocheiro, Eugenio o lacaio e indo tres _senhores_ dentro da carruagem. Seguiram-se a esta outras invenções. Filippe estava de pachorra e organisou um passeio de bote; grande divertimento! com a condição dos rapazinhos lhe darem bastante authoridade para poder impedir que fossem todos para o fundo.

[Ilustração pág. 189. Deixou apparelhar o cavallo preto. (Pag. 188.)]

Estes divertimentos, interrompidos só por um bom _luncheon_, duraram até ás cinco horas. Chegaram então de carruagem os paes dos tres condiscipulos. O senhor e a senhora de Valneige receberam-nos com affabilidade, e ás seis horas entraram na casa de jantar treze pessoas.

Serviu-se o jantar; os creados estavam contentes de tornar a vêr alguma animação no palacio, e tudo se passou alegremente. Houve, porém, um momento, em que a senhora de Valneige não poude vencer a sua emoção. Eduardo exclamou de repente:

--Olhem! é exquisito, somos treze; ha pessoas que têem agouro com jantares de treze:

--Não têem razão, porque se está muito bem, palavra! respondeu Paulo rindo.

O senhor de Valneige, que não perdia nunca occasião de esclarecer o espirito de seus filhos, disse algumas palavras sobre esta fraqueza.

--Mas, papá, perguntou Eugenio, d'onde virá uma tal superstição?

--É provavel, meu filho, que venha da cêa de quinta feira santa em que, entre treze pessoas, havia um traidor, que causou a morte do Justo por excellencia. É possivel que um duplo sentimento de respeito pela Divindade e de horror por Judas fizesse evitar no começo do Christianismo os jantares festivos de treze pessoas; mas o que ha muito tempo substitue este sentimento puro e religioso é uma crença absurda, que faz depender de um numero a vida de um homem, como se Deus não esperasse para nos chamar a si a hora que elle mesmo marcou. Em muitas pessoas, é verdade, este prejuizo não é mais do que uma imitação, uma recordação de criança, uma fraqueza inexplicavel. É preciso evitar-lhes uma idéa desagradavel como se evita ás pessoas nervosas um susto, que se sabe não ter fundamento. Demais, se nós lhe não ligamos hoje importancia alguma, é que nenhum de nós receia o famoso numero treze, que faz effectivamente mais barulho do que mal.

Um signal de approvação respondeu ás palavras do senhor de Valneige que accrescentou com meiguice.

--Quanto a minha mulher, tão docil é em crenças religiosas, como a acho superior a superstições populares. Não é assim Adilia? Confessa que nem sequer notaste o numero treze.

--Enganas-te, meu amigo, é a primeira vez que dou por elle.

--E porque, dize?

A senhora de Valneige, tão tranquilla sempre, perturbou-se; arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, e, sem olhar para seu marido, como, que lhe escapou esta resposta:

--Porque elle teria sido o decimo quarto!

Um profundo suspiro acolheu estas palavras, e o infeliz pae cahiu n'um triste silencio. Sua esposa ficou afflictissima por ter deixado perceber n'esta circumstancia o continuo pensamento de seu coração; mas não podia remediar o que tinha dito, o effeito estava produzido; e, sem as crianças, que se animaram a dizer alguma coisa alheia ao assumpto, o jantar teria sido triste até ao fim. E era sobretudo o fim que mais interessava a rapaziada; suspirava-se pela sobremeza.

Eil-a! Os prados de fructa, de dôces, de bolos servem-se de roda, e de uma bandeja guarnecida de flôres pelas mãos de Camilla a senhora de Valneige tira o primeiro premio destinado a Frederico. E uma caixa contendo um relogio de prata com cadêa e chave, é o seu primeiro relogio! Todos nos lembramos da impressão produzida pelo nosso primeiro relogio, para todos é a mesma. Examina-se por todos os lados, toca-se, abre-se, fecha-se, ouve-se. Estes cinco movimentos são inevitaveis: Frederico fel-os uns atraz dos outros, como toda a gente. O que o encantava era levar o seu relogio para o collegio e mostral-o todas as tardes. Um relogio no collegio! que dita! Ah! que felicidade que haja relojoeiros!