Chapter 7
Para simplificar chamavam-lhe a _governanta_ Seu marido, o honrado Julião, era primeiro do que tudo jardineiro, depois varredor, criado, n'uma palavra _factotum_. O pessoal da reduzia-se a isso: dois bons _casaes_ em tudo.
Quando ao resto, havia Tom, excellente no fundo, mais coração do que cabeça; prendas ordinarias, mas uma fidelidade a toda a prova, e de uma moderação!... Como debaixo d'aquellas telhas todos viviam aos pares e de acordo; Tom, não vendo nenhum outro ente semelhante a elle, tinha acabado, á falta de melhor, por gostar do gato. De mais, este era recommendavel por muitas razões, bem criado, não arranhando, tendo o roubo em horror, seguindo a sua pacata dona nas alamedas do jardim, parando por amizade tantas vezes como ella, o que causava á querida senhora um enternecimento quasi perpetuo.
Como tinham resolvido ser felizes, tirando da vida todo o partido possivel, Sophia, que gostava de aves, tinha sobre a janella da cosinha um pardal sem pretenção, mas bom _rapaz_, o qual lhe fazia cortezias. Comtudo, tendo-se notado que tomava ares de aborrecido, contra os usos da casa, tinham-lhe comprado uma gaiola maior em que metteram um segundo pardal, e ambos, desde esse dia, ficaram encantados um com o outro.
No pateo algumas gallinhas e um gallo para alegrar a habitação. Todas as manhãs ovos frescos que se comiam na casca, seguidos de uma chavena de chá. A senhora tinha adoptado este costume inglez, porque o senhor o achava bom.
Uma grande preocupação, era o cuidado no lago. O nome, é preciso convir, era pomposo, mas emfim supportava-se para não se dizer o charco... Havia n'elle um grande interesse para a senhora Deschamps. O seu querido Raymundo tinha uma paixão, a menos buliçosa de todas as paixões, mas tambem a mais perseverante.
Talvez por este lado o vento da discordia tivesse soprado, se o ousasse; não que a boa e affectuosa Sidonia pretendesse contrariar os gostos de seu marido; longe d'isso; mas elle fazia tantas imprudencias!
Era preciso vêl-o nos dias de chuva, durante quatro horas, os pés na herva molhada o braço estendido como uma taboleta de loja, com a linha de pesca dependurada e immovel, e tudo isto para pescar um pequenino peixe para frigir.
--Eu bem sei, dizia a senhora Deschamps, que elle tem o seu capote forte, que lhe puz, sem elle saber, palmilhas de cortiça nos sapatos, e que tem tamancos. Bem sei que se lhe não vêem os olhos, nem as orelhas, mas só um bocadinho do nariz; não importa; eu preferia, quando chove, saber que está em casa a ler, a escrever ou a fazer as suas caixinhas:
E necessario dizer que o senhor Deschamps, para repousar dos trabalhos sem fim da escripturação, entretinha-se com diversas obras de marceneiro; tinha feito officina de uma casa terrea, e sua mulher apressou-se a pôr-lhe cortinas verdes para que a claridade não fosse forte, e um pequeno fogão para quando a estação ia adiantada. Gostava de ouvir o seu querido Raymundo aplainar; no seu gabinete não o incommodava nem o sol, que poderia fazer-lhe mal á cabeça, nem a humidade tão perniciosa para a sua garganta! Desejava nos dias de chuva, fechal-o á chave n'este lugar agasalhado, dando sobre o jardim, e onde se podia bem fabricar, sem se ser estorvado, cincoenta caixas a fio para metter umas nas outras, e fazer a felicidade dos netos e dos sobrinhos.
Mas é lá possivel dar boas razões aos amadores da pesca? Como está decidido que os peixes, ao contrario de nós, passeiam de boa vontade quando chove, o senhor Deschamps armava-se dos pés á cabeça sempre que o ceo estava escuro. Por condescendencia com sua mulher, consentia é verdade em se abafar mais; _cache-nez_, lenço de seda, gravata grande, e chapeu baixo para coroar o edificio; mas ainda assim arranjava-se de maneira que punha o chapeu á banda, como quem dizia: «Que me importa! Não serei eu senhor de me molhar como uma sopa se quizer?»
A senhora Deschamps, no interesse da paz, não fazia mais do que um sermão respeitoso, depois do qual abandonava o marido á sua desgraçada sorte; mas, passando pela cosinha, olhava para Sophia com certo ar de intelligencia, que teem entre si os filiados na mesma corporação. Sophia, n'estes casos, não deixava de fazer uma cara de piedade, e de dizer, pensando em Julião:
--Ai! minha senhora, não me falle em homens; não ha nada peior do que elles!
Dito isto, pensava, descascando as cenouras, no que poderia dar a seu marido pelas _amendoas_ ou no dia dos seus _annos_, em quanto que a senhora Deschamps estendia sobre a cama do teimoso pescador roupa branca, bom calçado e fato de abafar, para que elle podesse mudar tudo quando voltasse. Tinha notado que aquelle querido Raymundo, como todos os Raymundos que se podem imaginar, pegava de melhor vontade na roupa que lhe punham á mão, do que n'aquella que era preciso ir buscar ao armario; portanto não se esquecia mesmo do lenço d'assoar.
Julgam talvez que esta excellente senhora amaldiçoava o lago, que fazia sombra á sua felicidade?
Não, teria sido uma d'essas opposições vulgares, que se encontram em toda a parte, e que dependem tanto d'um genio implicante como d'um coração dedicado. A senhora Deschamps mandava limpar as proximidades d'aquelle logar encantado; tinha ella mesma plantado um chorão tão alto como ella, que em poucos annos, á força de cuidados, tinha conseguido crescer, engrossar e chorar como os outros, reflectindo na agua a sua linda imagem, o que fazia um delicioso effeito na paizagem.
Todos os dias depois do jantar via-se a senhora Deschamps dirigir-se para ao pé da agua, e chamar com voz meiga os felizes habitantes d'aquellas ondas. Não porque elles lhe agradassem com o seu ar tolo e seus olhos de peixe; mas era o prazer de seu marido, a sua distracção, e bem innocente era! E por isso ella deitava invariavelmente na agua, á mesma hora as migalhinhas que trazia de cima da meza, juntando-lhes, de proposito, um bocado de pão cortado para isso. D'isto resultava que os peixes, sem saberem bem porque, fugiam do senhor que os procurava sempre, e vinham ao encontro da senhora, que não gostava d'elles.
Pode fazer-se idéa, depois d'esta pequena descripção, como a vida era doce e agradavel n'aquella modesta habitação a que chamavam a casa branca, porque effectivamente a sua brancura destacava na solidão sobre o fundo verde dos prados e sobre as diversas côres dos alamos e das faias. Na verdade havia tanto tempo que a gente do sitio lhe dava esse nome, que, se tivessem tido a lugubre idéa de lhe pintar as quatro frentes de preto, é provavel que se continuasse a chamar a _Casa branca_.
O corpo e o espirito repousavam á vontade entre essas quatro paredes, tão chegadas umas ás outras, e á sombra da pequena propriedade. Uma criança, neto ou sobrinho, vinha muitas vezes alegrar a casa. Via-se correr com Tom nas ruas do jardim, e nas do pomar, ora Francisco, ou Victor, ora Genoveva ou qualquer outro. Convidava-se só um, o bastante para dar vida e animação.
Dois ao mesmo tempo estonteariam toda aquella gente, que vivia tão socegada entre as couves e as ervilhas.
E a horta! que delicia! Ajudado por Julião, o senhor Deschamps revolvia a terra a seu gosto como os filhos do lavrador de La Fontaine; os alhos eram lindos, os espinafres soberbos; os rabanetes nasciam em toda a parte onde se semeavam, e as alfaces mesmo onde se não semeavam. Não era grande a horta; duas ruas em cruz, cem passos ao todo; os sobrinhos podiam dizer como a cantiga:
Ha quatro canteiros No jardim de minha tia...
A alegria dos dois _casaes_ era em grande parte devida á horta. O senhor dirigia e participava do trabalho de Julião, tendo cuidado, bem entendido, de deixar a maior parte ao visinho; a senhora arrancava as hervas mal sahiam da terra; e Sophia cortava tudo quanto podia para metter na panella. D'este modo todos ficavam contentes com bem pouco.
Percebe-se que os felizes proprietarios vissem cada anno reapparecer o mez de Maio com grande prazer. Este anno a senhora Deschamps tinha arrumado e acondicionado da traça o seu fato de inverno com tanto empenho, que parecia uma rapariga. É que o coração conserva-se muito tempo novo quando a tempestade o não sacode, e está solidamente amarrado a alguma margem bem tranquilla. A senhora Deschamps sabia que seu marido passava melhor no campo, e, como recebia muitas vezes a visita de suas filhas, em nada invejava a sua habitação de inverno. De mais a mais tinha elle amigos na villa proxima, e podia bastantes vezes offerecer-lhes um bom jantar ou uma pequena partida, ou ir com sua mulher distrahir-se a casa d'elles. A feliz Sidonia, em vista d'este bem estar, em que todos os annos seu marido se mergulhava, fazia com prazer os seus preparativos de jornada.
Durante o inverno não ficava a linda casa abandonada. Um jardineiro vinha de tempos a tempos arranjar os quatro canteiros, e semear tudo quanto podia ser util para o governo da casa quando chegassem.
O senhor Deschamps tinha, duas ou tres vezes, o gosto de vir elle mesmo indicar ao jardineiro o que tinha a fazer, e deitar uma vista d'olhos á propriedade toda. Visitava n'esses dias a casa com um cuidado quasi paternal, e demorava-se por condescendencia na sala de que sua mulher tanto gostava.
Quando ali chegava nunca deixava de dar corda ao relogio. Este relogio era o thesouro da senhora Deschamps; offerecido pelo marido no primeiro anno de casados, era estimado não só como objecto d'arte, mas tambem como uma lembrança. O seu timbre sonoro e puro resoava por toda a casa até á adêga. Representava a nobre mãe dos Gracchos animando seus filhos a serem intrepidos romanos cheios de audacia e de valor.
A escolha d'este bello grupo de bronze era significativa. Não se entrava em duvida que a excellente senhora tivesse bastante força moral para preparar defensores da patria como a romana Cornelia; mas, não tendo tido senão filhas, tinha feito d'ellas simplesmente tres mães de familia bem dedicadas aos seus maridos e aos seus filhos. Todas ellas juntas faziam de certo menos barulho que um heroe; mas valiam tanto como elle, e sua mãe dizia que valiam tres vezes mais.
Estava-se a vinte e dois de Março, dia escolhido n'esse anno para se mudarem para o campo; todos chegaram, como de ordinario, de muito bom humor. Mas que de coisas para fazer n'um dia de mudança! Repartia-se o trabalho, e, de commum acordo, abandonava-se a Julião as teias de aranha; havia muitas. Armado d'um vasculho partia para a expedição, e, como outr'ora Attila, prostrava tudo quanto encontrava, com a differença de que abria caminho á civilisação, representada por Sophia.
Esta, n'um vestuario proprio para a circumstancia, seguia seu marido n'uma distancia respeitosa, e, quando estava certa de que o conquistador tinha morto tudo, vinha com a sua vassoura e o seu esfregão, e só retirava depois de ter posto tudo em ordem, mas um pouco toscamente, como os fundadores dos imperios, que contam com os seus successores.
Effectivamente, vinha em terceiro logar a dona da casa, com o seu ar tranquillo e sereno, imagem de um poder bem assente, que, sem barafunda, melhora tudo em que toca. N'uma simplicidade de vestuario que o desejo de parecer bem ao esposo impedia sempre de ser desengraçada, a boa Sidonia começava a limpar as prateleiras, os vasos, as porcelanas, e a espanejar os objectos frageis, sobretudo a pendula. Na verdade, quando Julião, depois Sophia e depois a senhora tinham passado pela sala, o feliz dono da casa não podia deixar de dizer, com ar de bem-aventurança: «Como se está bem aqui!»
Julgava então sua mulher ter conquistado o bastão de marechal, porque não imaginava maior satisfação do que a alegria do seu Raymundo.
Quando se acabou n'este primeiro dia a limpeza indispensavel, Sophia começou a pensar no jantar; e para fazer depressa um bom lume na chaminé da cosinha, dirigiu-se para a adêga, com uma véla de cebo na mão para ir buscar um pouco de carvão miudo e duas ou tres achas grossas.
Desce, entra, e o que ha de vêr? Uma taboa ao pé do tonel; o pouco carvão que restava, espalhado por todos os lados, e, a dez passos de distancia, uma fita doirada atada pelas pontas...
Vendo estes signaes da passagem de um individuo n'aquella adêga tão bem fechada, Sophia experimentou uma sensação de medo, bem natural. Comtudo, como não queria que seu marido tivesse motivo para fazer escarneo d'ella, a cosinheira, vendo que não havia, no fim de contas, nem um gato na adêga, encheu-se d'uma coragem invencivel, e chamou com voz socegada Julião e seus amos para lhes mostrar a sua descoberta.
Os homens admiraram-se; quanto á senhora Deschamps, sendo uma das suas fraquezas o ter medo da sua propria sombra, aproveitou, por tanto, a occasião. Todos quatro combinaram que o caso era muito extraordinario.
Começou então o capitulo das supposições; foi comprido e interessante. Quando já não havia que dizer tornaram a subir, mesmo porque tudo isto não fazia o jantar. Voltando-se, a senhora Deschamps notou algumas palavras escritas com carvão na parede. Diz a historia, que o rei Balthazar tremeu de medo, vendo uma mão mysteriosa traçar sobre a parede da sala do festim tres palavras, que elle não podia ler. A pobre Sidonia teve, pelo menos, o espirito tão perturbado como elle, lendo esses nomes lançados no subterraneo como outras tantas exclamações de afflicção:
Papá! mamã! Camilla! Eugenio! Frederico! Rosinha! Valneige!
O proprio senhor Deschamps ficou pensativo, e Julião, que tinha sido soldado, não poude deixar de proferir dois ou tres palavrões, que lhe desculpavam nas grandes occasiões. Quanto á cosinheira, abandonada de todo pela sua philosophia, fez um enorme signal da cruz, dizendo que, sem a menor duvida o diabo, tinha passado pela adêga, e que ella nunca mais lá voltava.
--Vejamos, Sophia, disse com firmeza o dono da casa, é melhor pensar do que ter medo, que é a ultima coisa que se deve fazer. Alguem veiu aqui, não ha duvida; mas o diabo ataca as almas e não as garrafas vazias; e não escreve nas paredes nomes, que attestam innocentes recordações de familia.
Sophia respirou um pouco melhor, porque tinha pelo senhor Deschamps um verdadeiro respeito, fundado na discrição da sua opinião, quando se não tratava da pesca.
Como era ella que pegava no candieiro, levantou-o, depois abaixou-o, para acabar as descobertas, e apontou com o dedo para algumas palavras que ainda não tinham visto.
--Ainda mais coisas escritas! Oh! leia, leia, minha querida senhora!
A senhora leu com profunda emoção.
--Roubaram-me porque desobedeci, foi culpa minha!
Mais abaixo havia ainda:
--Chamo-me Adalberto de Valneige... esta noite faço nove annos... tenho fome!
É preciso ser mãe para comprehender o que sentia a boa senhora Deschamps. Uma criança tinha estado fechada n'este subterraneo, só, abandonada, tinha chorado, tinha tido fome.
Levantou a fita doirada e disse com uma profunda tristeza!
--Oh! meu Deus! quando penso que esta criança tem mãe!
E dizendo isto, a excellente senhora não poude conter o chôro. Seu marido pegou-lhe na mão:
--Vamos, vamos, socéga, minha boa amiga, não te afflijas mais. Irei, mesmo ámanhã, a casa do commissario de policia, virão lavrar o auto, e, se Deus quizer, chegaremos talvez a encontrar o rasto d'esse desgraçadinho.
--Meu querido Raymundo, eu guardo a fita, mostral-a-hei se for preciso, mas não quero desfazer-me d'ella.
--Porque?
--Porque, vês tu, quando entregarem esta criança a sua mãe, mandar-lhe-hei a fita. Pobre mulher! ha de conserval-a toda a vida como uma lembrança.
--Não muito alegre, accrescentou Sophia.
--Ah! Sophia! Você nunca teve filhos!... Dirá, como toda a gente, que esta fita é triste á vista; mas, quando estiver sósinha, ha de olhar para ella, ha de tocar-lhe. Oh! eu bem sei, o que ella ha de sentir.
Em quanto subiam todos juntos, o amor maternal despertou-se por tal forma no coração da boa Sidonia, que começou a scismar com verdadeira inquietação na sua neta Genoveva que, quando passeava, ia sempre um pouco longe de seus paes ou da sua mestra, não se lembrando senão de ir atraz do arquinho.
--É preciso que eu escreva ámanhã de manhã á sua mãe, exclamou ella! Deus meu! se furtassem aquella pequena!
D'este modo cada um se achou no vestibulo com uma idéa differente, mas as quatro idéas tinham a mesma origem. Ao senhor Deschamps, como homem pratico e escrupuloso, não se lhe tirava da idéa o commissario, uma busca, os agentes de policia, uma circular, algumas linhas nos jornaes, e por fim dois ou tres artigos do codigo.
[Ilustração pág. 159. Ainda mais coisas escritas. (Pag. 157.)]
A senhora Deschamps pensava na pena da pobre mamã de Adalberto, e agourava um desgosto igual para ella e suas filhas.
Sophia, muito consolada porque o demonio não tinha vindo á sua adêga, fazia tenção de contar o caso durante toda a estação e fazer ler as palavras mysteriosas a todos os seus conhecimentos; pensava mais que as cebolas, que queria deitar no assado, não poderiam coser-se bem, porque o acontecimento, a tinha demorado.
Julião, que sabia calcular, e que, n'outra posição social, teria sido um bom mathematico, perguntava a si mesmo como demonio tinha feito o rapazinho para sahir pela fresta. Entrar percebia-se, mas sahir! acabou por achar a necessidade d'alguem o ter ajudado. Ao mesmo tempo, como era cuidadoso, amaldiçoava o mofino rato que tinha roido a porta da adêga, e, sem nunca deixar de pensar em Adalberto, cuidava tambem em tapar aquelle buraco e vêr se quanto antes matava os ratos.
CAPITULO XII
Adalberto era o assumpto de todas as conversações.
--Ora, até que emfim chegaram!
--É como diz, e trazemos o bom tempo.
--Já tardava. Que inverno! Como choveu! Tinha as pernas encolhidas de andar sobre o molhado.
--Faço idéa.
--Que quer, senhora Juliana, quando se está no mundo é preciso aceitar o tempo como Deus o manda.
--Vendeu bastante ao menos?
--Ora, _vossemecê_ bem sabe, maçãs sempre maçãs. Em quanto as ha vive-se. As violetas não renderam quasi nada; e agora ainda as coisas vão peior.
--Então porque?
--Porque a batata temporã já tarda.
--Ai! que preguiçosa.
--É assim mesmo. Ah! mas tudo isto são pequenas miserias; ha outras no mundo muito maiores, senhora Juliana.
--Oh! se ha! senhora Tourtebonne!
Este dialogo tinha lugar diante da casa branca. As duas mulheres estavam de pé ao lado da carreta. Viam-se, como todos os annos, com grande prazer; era uma distracção encontrarem-se duas vezes por semana, sempre no mesmo lugar. D'esta vez, desde o primeiro encontro, não se separaram. Havia com certeza alguma coisa para dizer; e pode ser que fosse a mesma coisa.
Cada uma pensava em contar a sua historia; a batata temporã, não se prestando ás confidencias, foi Sophia quem começou, voltando á sua primeira idéa, á falta d'outra melhor.
--É verdade, eis-nos outra vez de volta... não me dá cuidado; eu gosto do campo. Aqui ha só uma coisa que aborrece, é a solidão.
--Não diga isso, senhora Juliana! a duzentos passos d'uma villasinha tão bonita!
--Mesmo por isso; se nós estivessemos a dez passos era melhor.
--Faz-me rir, senhora Juliana. _Vossemecê_ não era medrosa.
--Não era, mas sou agora.
--Queira desculpar, mas a razão vem com a idade. Ora diga, como quer que entrem aqui? uma casa fechada que nem uma cidadella.
--Apesar d'isso, entraram.
--Pelo buraco da chave?
--Não, pela fresta da adêga.
--O que! _vossemecê_ está a mangar; não cabe uma perna minha.
É preciso saber que a senhora Tourtebonne era gorda, mais do que o ordinario, e quasi redonda, de modo que, para lhe caber uma perna n'uma fresta, seria necessario fazel-a de proposito. Acostumada ás suas dimensões, não suppunha que alguem podesse penetrar por ali, e os medos de Sophia pareciam-lhe destituidos de fundamento; a cosinheira, vendo-a duvidar accrescentou:
--Não me acredita? Pois bem, venha vêr.
Dito isto, metteram no pateo a pequena carreta, e a tia Juliana, acendendo a sua véla, conduziu á adêga a tia Tourtebonne.
--Que felizes que são, disse a gorda creatura rindo ás gargalhadas, aquelles que cabem pela tal fresta! Eu mal passo pela escada! Como é estreita! não tem mesmo geito nenhum! E a porta? Mas em que pensava o architecto?
Indo ás apalpadellas conforme podia, porque a véla quasi que não allumiava, a tia Tourtebonne chegou á adêga. Uma vez sobre o terreno, Sophia contou, sem faltar nada, a scena do dia da chegada; o seu susto, as taboas, o diabo e a fita doirada; o que tinha dito a senhora, o que tinha dito o senhor, o que tinha dito Julião; e a vendedeira, quando o seu espirito se achou sufficientemente preparado para uma grande eommoção, foi convidada a voltar-se para a parede e a ler ella mesma as palavras escritas com carvão.
[Ilustração pág. 165. Maçãs, sempre maçãs. (Pag. 162.)]
Quando chegou a isto: «Chamo-me Adalberto...»
Parou de repente, e exclamou:
--É elle minha querida, é elle! Pobre pequeno, querido amorsinho! Ora vejam! quem havia de dizer tal ha uns poucos de mezes! Oh! Senhor! É possivel!...
A emoção foi tão repentina, que a tia Tourtebonne recuou tres passos, e por pouco não cahiu sobre as garrafas vazias.
--Tome cuidado! disse Sophia.
A estas palavras que revelavam um perigo, a boa mulher precipitou-se em sentido contrario, e poz os seus enormes pés no pó de carvão, que, não tendo nunca sido pisado por um tal peso, saltou até ao avental branco da vendedeira. Pois ella tão aceada, tão cuidadosa, não fez caso d'isso, e repetiu tantas vezes: «É elle! é elle!» que Sophia julgou que ella tinha endoidecido. Bem depressa viu que não era assim; a sua antiga conhecida tirou o lenço da algibeira, e enxugando os olhos, porque se enternecia facilmente, contou como n'aquelle inverno, em novembro, um pequenito loiro, d'uma apparencia delicada e fraca, lhe tinha escorregado dos dedos; era a sua expressão favorita.
Em dez minutos Sophia soube tudo quanto era possivel saber-se, sem faltar o olhar carregado do supposto pae, o seu horror pelo commissario de policia, as palavras arrancadas ao senhor Baptista, que tinha sido testemunha, e a declaração de ambos feita n'aquella mesma tarde.
Se o carrinho cheio de fructa não tivesse ficado lá em cima, e se um bom bocado de vitella sobre o lume não reclamasse os cuidados da cosinheira, não se sabe quanto tempo as duas mulheres teriam ficado na adêga.
As supposições da tia Tourtebonne não tinham fim; a imaginação ajudando o seu bom coração, rodeava a criança de chimeras; tinha chegado a querer-lhe tanto que, com as intimas, chamava-lhe de boa vontade: o _meu_ rapazinho.
Sophia tendo prevenido seus amos, estes interrogaram a tia Tourtebonne com o mais vivo interesse. Felicissima por vêr o negocio em boas mãos, disse tudo quanto sabia e mesmo mais. O senhor Deschamps viu nos seus discursos, ainda que só acreditasse em metade, indicios de que poderia tirar partido.
A senhora Deschamps sentiu redobrar a esperança, porque, depois da descoberta, não tinha cessado de pensar no dia que reuniria a criança a sua mãe. Ainda mais, acabou por sonhar acordada, o que era a maneira de arranjar ella mesma as circumstancias para com mais facilidade chegar ao desfecho.
É incrivel! apezar dos seus cincoenta e cinco annos e o seu glorioso titulo de avó, a boa Sidonia deixou-se assaltar por uma grande quantidade de idéas, de projectos, de _castellos no ar_, todos dedicados ao _pequeno da adêga_, como dizia Sophia. De todas estas coisas pouco dizia a seu marido, que teria feito caçoada d'ella; ora o coração tem as suas criancices, e não gosta que o juizo d'outrem lh'as faça sentir. O senhor Deschamps, tão bom marido, não percebia absolutamente nada de sonhos, de supposições e de commentarios; quando se achava n'outro sitio que não fosse á borda do seu lago em dia de chuva, era positivo até ao ultimo ponto; e por isso apreciava Julião, que tudo fazia com methodo.