A Casa do Saltimbanco

Chapter 5

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Voltando ao que nos interessa; apenas a tia Tourtebonne perdeu o rasto de Adalberto, voltou-se para o dizer a alguem, e não viu senão o gordo Baptista, personagem pesado, enfadonho e improprio para a conversação. Era o mesmo, não estava ali mais ninguem, e como elle não vendia n'aquelle momento nem harenques nem queijo, duplo perfume commercial de que elle se occupava, podia sem indiscrição fazel-o ouvir de boa ou má vontade o que lhe quizesse contar.

--Então já se viu uma coisa assim? Um homemsinho a quem eu ia ensinar o caminho, e que me escorrega dos dedos?! Que diz a isto senhor Baptista?

O casmurro Baptista, que não dizia nada, porque não se tratava de harenques, nem de queijo, fez _hum!_ com voz forte e rouca. Era uma maneira airosa de se livrar de todos os negocios que não diziam respeito ao seu duplo commercio.

O senhor Baptista não se interessava absolutamente senão pela sua venda e pelo seu cachimbo, que era para elle o symbolo d'uma immortal tranquillidade.

Dar um passo, olhar para o que se passava, procurar tirar consequencias d'um facto, tudo isto lhe parecia um inutil augmento de trabalho; por isso tambem pouca importancia lhe davam na cidade de cinco mil almas que habitava, onde as bisbilhoteiras sobretudo o consideravam como um zero. A tia Tourtebonne era capaz de dar valor a um zero se ella o precedesse, quer dizer se chegasse a adaptal-o a um assumpto escolhido por ella. Este famoso _hum_ que o bom do homem applicava a tudo não a satisfez nada, e replicou vivamente:

--Viu-o, não é assim senhor Baptista, aquelle pequeno basbaque que olhava para a direita e para a esquerda, e a quem eu fallei? viu-o? diga?

Como o _hum_ de Baptista não era um som vão, e que elle não empregasse muito a proposito, foi ainda a sua resposta, mas d'esta vez acompanhada de um signal affirmativo com a cabeça.

O que tudo junto queria dizer _sim_, tanto quanto era possivel, porque o senhor Baptista nunca dizia positivamente que sim, sendo natural de um cantão da Normandia, onde as tradições se tinham conservado intactas desde o celebre Rollon. Quando se tratava da venda, era preciso dar aos freguezes mais alguma coisa do que _huns_. Usava então de rodeios engenhosos, de interjeições expressivas, mas nunca chegava o _sim_ compromettedor.

Era inevitavelmente: ora essa!... isso depende!... porque não?... o que pensa?... vamos!...

O FREGUEZ.

Os seus arenques são frescos?

O VENDEDOR.

Ainda o pergunta!

O FREGUEZ.

São os que lhe trouxeram esta manhã?

O VENDEDOR.

Então quaes haviam de ser?

O FREGUEZ.

São os mais frescos que tem? não é assim?

O VENDEDOR.

Julga que eu era capaz de lhe mostrar má fazenda? Diga lá.

O FREGUEZ.

Está bom, dê-me seis.

O VENDEDOR.

Aqui estão e dos bons. Agora ha de querer queijo, não é verdade?

O FREGUEZ.

Não pense n'isso.

O VENDEDOR.

Pois é bom e estomacal. Quem não come queijo sente peso no estomago.

O FREGUEZ.

Parece-lhe?

O VENDEDOR.

A prova é que eu nunca tal sinto, eu que vivo entre queijos desde que me conheço; portanto...

O FREGUEZ.

Pois sim, dê-me um pouco, não muito.

O VENDEDOR.

O que quizer.

O FREGUEZ.

D'esse não; está muito duro, não está?

O VENDEDOR.

Excellente!

O FREGUEZ.

Este deve ser melhor.

O VENDEDOR.

Optimo!

O FREGUEZ.

De qual ha de ser.

O VENDEDOR.

Leve d'ambos.

O FREGUEZ.

Oh! não, basta-me um, e já é de mais.

O VENDEDOR.

Corta-se em dois, o que faz com que só se veja metade.

O FREGUEZ.

Este parece-me menos sêcco.

O VENDEDOR.

Com certeza.

O FREGUEZ.

E o outro?

O VENDEDOR.

O outro tambem.

O FREGUEZ.

Conservar-se-ha?

O VENDEDOR.

Depois me dirá.

O FREGUEZ.

Responde por isso?

O VENDEDOR.

Se o não achar bom torne a trazel-o.

D'este modo o gordo Baptista tinha resposta para tudo, e o freguez, cansando primeiro do que elle, comprava arenques e queijo, que, devemos dizel-o, tinham todas as qualidades requeridas, visto que o que se quer é que cheirem bastante.

Tal era o senhor Baptista, não fallando por sua vontade senão para os seus negocios, e silencioso para tudo mais. D'ahi vinha aquella resposta. Mas, quando a tia Tourtebonne agarrava alguem, não era facil escapar-lhe; por isso continuava com viva emoção e no interesse da moral:

--Pois é verdade, já não ha crianças! quem tal havia de imaginar? Um pequenote que não responde quando a gente lhe quer fazer um serviço? Ah! se o papá tivesse vindo por aqui tinha-lhe feito os meus comprimentos. É preciso ser bem creado e não voltar as costas quando alguem falla.

Estas palavras foram ditas justamente quando o senhor Baptista tinha dado meia volta á direita para entrar na loja; applicou o dito a si, e a polidez franceza, que os Normandos adoptaram como os outros, fêl-o parar, sem querer, no limiar da porta.

--Mas quem havia de imaginar uma coisa assim? um pequeno que não sabe o caminho devia estimar muito que eu deixasse as maçãs para lhe dar attenção. Mas qual! Emquanto se lhe mostrava a rua Verde eil-o que enfia pela rua Azul. Demais, pois que! digamos tudo, ha paes que batem nos filhos como se elles fossem de pedra e isto não os prende em casa. As crianças basta só castigal-as, não se devem espancar. Este pobre pequeno é talvez muito infeliz. Ainda agora estava á porta do carvoeiro com sua irmã mais velha e duas outras crianças, um rapaz e uma pequenita. Viu-os senhor Baptista?

Ainda que a pergunta fosse directa, o vendedor de queijo livrou-se ainda d'ella com o tal _hum!_ que preferia a tudo, e ao mesmo tempo fez tres signaes com a cabeça d'alto a baixo, o que equivalia a _sim_, _sim_, _sim_.

--Ah! _vossemecê_ viu-os? Pois bem! quer que eu lhe diga? não faço grande conceito d'aquella gente. A pequena é uma magrizela, tem cara de fuinha; o rapaz tem umas grandes bochechas, mas parece aparvalhado! é que lhe teem batido de mais. A rapariga maior parece um tambor mór; é bonita, mas faz-me o effeito d'uma dançarina de feira, com a sua saia curta, e cabello mal penteado. Este pobre pequeno, é talvez uma criança furtada? Pois não! tem-se visto. E é bonito apezar do fato ser feio. Ah! se é d'elles, não dá ares da familia. É loiro, delgado, tem uns pulsosinhos de estorninho, a pelle fina e branca, parece uma criança que teve outra criação... Olhe, olhe, senhor Baptista, acolá vae o papá, é preciso chamal-o.

--Eh! ouça cá, ó senhor! por aqui! É o seu pequeno que procura, com uma fita doirada no cabello?

O Hercules a esta voz voltou-se e deu tres passos para a vendedeira, emquanto esta continuava:

--Eu bem vi que elle procurava a sua gente, e quiz fazel-o parar; mas qual historia! é como o cão do João, quanto mais se chama, mais elle corre. Mas é preciso que _vossemecê_ o ache. Escute, se o rapaz quer fazer das suas, vou ensinar-lhe a _vossemecê_ o meio de o apanhar. Conheço este bairro, e os outros; ha, a vinte passos d'aqui, um commissario de policia que tem sempre gente para mandar para a esquerda e para a direita; eu vou conduzil-o lá, _vossemecê_ diz-lhe o seu negocio e elle lhe fará achar o pequeno.

Apenas a boa da mulher tinha acabado esta phrase, que o Hercules, até então impassivel como de costume, abriu uns grandes olhos, e, fingindo affirmar-se bem, como se avistasse o pequeno na direcção da igreja, deitou a correr para aquelle lado e desappareceu.

Não se pode descrever o espanto da tia Tourtebonne; ficou de braços cahidos em frente das suas maçãs reinetas do Canada, seguindo com olhos penetrantes o Hercules, que de certo não procurava coisa alguma, porque ella ao luar não distinguia mais do que tres crianças cujos nomes lhe eram familiares.

Teve a felicidade de achar, em falta de melhor, o senhor Baptista para lhe dizer:

--Então não vê isto? é uma criança roubada. Primeiro, este homem tem do diabo; e depois não reparou nos seus olhos quando lhe fallei no commissario de policia?

--Hum!

--Pobre pequeno! e seria bonito como um amor se estivesse penteado, e vestido como toda a gente; ai! que dó tenho d'elle! pobre cherubim! A prova de que ha alguma coisa n'isto tudo, é que quando eu lhe perguntei o seu nome respondeu-me Adalberto, e depois, depressa como se tivesse medo: Não, não, não! uma criança ordinariamente diz tudo com franqueza, e não esconde o seu nome. Que pensa d'isto, senhor Baptista, _vossemecê_ que teve um filho, o seu pobre Augusto?

Ao nome de Augusto o mercador pareceu sahir do seu lethargo, e respondeu á tia Tourtebonne;

--Penso como _vossemecê_, que é uma criança roubada.

O senhor Baptista vivia n'uma especie de somnolencia a respeito das coisas d'este mundo, salvo o seu commercio. Havia comtudo um cantinho do seu coração que não dormitava; aquelle onde se conservava, na sua graça infantil, a imagem do seu pequeno Augusto, que elle tinha visto morrer na idade pouco mais ou menos do pequeno de Valneige. Nunca se invocava em vão esta lembrança, e, em memoria de Augusto, o tranquillo Baptista sahia sempre do seu adormecimento.

--Então? vejamos, disse a vendedeira, o que se ha de fazer? Eu, primeiro do que tudo, não posso ficar assim, não dormiria quanto preciso. Pensar que a estas horas, ha uns pobres paes que procuram o seu filhinho, que lhes roubaram, e eu ficar aqui, diante das maçãs, sem dar um passo para que o achem! não, não é possivel. Olhe eu nunca tive filhos, infelizmente para mim; mas gosto das crianças, quero-lhes bem. Ah! se eu os tivesse tido, como tomaria cuidado n'elles! parece-me que os dependuraria todos ao meu pescoço com medo de os perder.

A tia Tourtebonne, dizendo isto e toda inquieta pensando em Adalberto, pôz-se a chorar, como ella fazia de tempos a tempos, pelas crianças que nunca tinha visto.

Depois, tendo tirado da algibeira um grande lenço de quadrados, enxugou os olhos e tornou a sorrir. Tudo era verdade na boa mulher, mas as impressões succediam-se rapidamente.

--Mas é tarde, são horas de nos deitarmos. Se nós fizessemos antes uma declaração ao commissario de policia? Diga, o que acha senhor Baptista? _vossemecê_ que gostava tanto do seu pequeno Augusto? hein! se lh'o tivessem roubado?

--Vamos ao commissario, respondeu o bom do homem, a quem a emoção da vendedeira, junta ás proprias recordações, acordou quasi completamente; deixe-me só fechar os postigos e estou ás suas ordens.

Os postigos fechados, o vendedor metteu por um momento o pequeno carro da tia Tourtebonne no seu pateo, cortejou, pediu desculpa e offereceu cortezmente o braço ao seu mais antigo conhecimento; era assim que lhe chamavam, porque na cidade de G... era ella com effeito o mais antigo conhecimento de quasi todos aquelles que a viam passar havia quarenta annos. O seu coração inflammavel, a vivacidade do seu fallar, as suas maneiras amaveis tinham-lhe conciliado esta especie de affeição que se basêa sobre um fundo de estima, e sobre o aturado costume de sentir alguem andar de roda de si. Quando se vê uma pessoa todos os dias, necessariamente se ha de gostar um pouco d'ella, ou tomar-lhe zanguinha; e ninguem se lembrava de antipathisar com aquella boa cara vermelha, rodeada de uma touca bem branca, e que sorria a toda a cidade como a uma amiga de infancia.

Os pobres, e sobretudo os pequenos mendigos, encontravam-na com grande gosto, porque em lugar de deixar a sua fructa estragar-se, ia dando-a pelo caminho quando não tinha podido vendel-a, e dizia:

--Toma lá, meu pequeno, péga n'esta maçã, está meia podre; se eu fosse rica dava-te das boas, mas tu tiras o mau e o resto ainda presta.

E quando a pobre criança dizia obrigado, respondia:

--Não por isso, meu canito; dá-me gosto vêr-t'a roer.

Chegaram a casa do commissario de policia. A Tourtebonne fallou muito tempo sem dizer grande coisa, e o senhor Baptista disse tres ou quatro palavras e alguns _huns_!

O senhor commisario registou a declaração e disse que estes depoimentos poderiam mais tarde ou mais cedo ajudar a infeliz criança a achar a sua familia.

O senhor Baptista e a tia Tourtebonne retiraram-se de braço dado, como tinham vindo, e para acabar esta tarde de emoções o carrinho poz-se a caminho até á habitação da excellente mulher, que morava exactamente n'uma das ultimas casas da cidade, do lado pelo qual Adalberto tinha fugido para a planicie.

Como ella não só tinha bom coração, mas tambem o espirito inventivo, não adormeceu senão muito tarde, bem decidida a não perder de vista este negocio, e a empregar toda a sua finura e toda a sua perspicacia no serviço da criança perdida. Durante este tempo, o nosso amiguinho estava, como nós vimos, em um subterraneo e contava bem tristemente as horas do seu captiveiro.

[Ilustração pág. 111. Offereceu cortezmente o braço. (Pag. 109.)]

CAPITULO IX

Adalberto tinha fome

Deixámos o filho do senhor de Valneige victima de uma grande agitação no seu tenebroso isolamento.

Esta solidão durou muitas horas. Tão depressa julgava que a ratazana estava perto d'elle, como lhe parecia sentil-a subir pelo corpo acima. A sua imaginação criava mil soffrimentos que não existiam.

Distrahiu-se d'este penoso estado por uma outra preocupação que, livrando-o do feio bicho, lhe fez novas perplexidades.

Ouvia a alguns passos a bulha de alguem que trabalhava em madeira. Assimilhava-se a um marceneiro que quizesse fazer um buraco n'uma porta. Esgravatava, furava, rapava, tudo isto depressa, depressa, como se effectivamente estivesse muito apressado; depois cessava de repente, descançando apparentemente; mas então a immobilidade era absoluta, o silencio completo, nem respirar se ouvia.

Quando Adalberto poz na idéa, que estava um homem do outro lado da porta e na escuridão, perturbou-se muito. Por um lado pensou que esse homem seria o seu salvador e o faria sahir do subterraneo; por outro lado, via-se á mercê de um estranho que podia ser outro malvado, um ladrão de crianças!

Havia momentos em que o rapazinho queria chamar; abria a bôcca para dizer: Senhor marceneiro quer acudir-me se faz favor? Mas, de todas as vezes faltava-lhe a voz como em um sonho máu. Graças a esta extraordinaria inquietação, tinha esquecido o rato, lembrando-se só do operario.

Adalberto admirava-se tanto mais d'este trabalhador mysterioso, que muitas vezes em casa de seu pae, tinha visto marceneiros fazerem differentes obras, mas sem pararem assim a todo o instante. E depois, este individuo trabalhava ás escuras mais outra coisa para admirar!

Se Adalberto fosse um rapaz medroso, o que é uma grande vergonha quando se está destinado a ser um homem, a conduzir, a governar, é provavel que adoecesse de medo; mas seu pae tinha-lhe dito muitas vezes, e tinha-lhe mesmo provado, que, as bulhas que se não podem explicar logo, são quasi sempre produzidas por uma causa muito simples. O senhor de Valneige tinha tido o cuidado de esclarecer o espirito dos seus filhos, desde que elles tinham, começado a mostrar algum discernimento.

Adalberto, ainda que muito estonteado, tinha comprehendido as lições praticas dadas todas as vezes que as circumstancias se prestavam a isso. Valia-lhe isto na sua cruel posição, porque, no meio das suas afflicções, não deixava de ser o mais razoavel que a sua idade permittia.

Quando o operario tinha trabalhado um certo tempo, parou de todo, fosse porque estivesse cansado, ou porque tivesse acabado aquella obra singular. Todo o barulho cessou, mas não se ouviram os passos de uma pessoa que se affastasse.

A criança prostrada por successivas emoções, moida pela sua propria agitação, acabou por sentir no corpo o peso que precede o somno, e no espirito a quietação a que se segue o esquecimento. Isto durou até ao momento em que o relogio deu duas horas. Depois, nada mais ouviu; tinha adormecido.

O somno é o amigo dos desgraçados, Deus concedeu-o para contrabalançar poderosamente os nossos males; é n'esta especie de banho refrigerante que os nossos pensamentos descansam, que os nossos receios se dissipam, que a nossa vontade recupera o socego e a força, que são necessarios para nos conduzirmos; mas se o somno é doce para aquelle que soffre, como é amargo o seu despertar! Tinha esquecido, e todas as sensações, penosas lhe são restituidas uma a uma. O silencio em redor d'elle, e n'elle mesmo, faz desapparecer, é verdade, os fantasmas da imaginação; mas a realidade está alli, e o coração começa de novo a soffrer.

Quando Adalberto despertou, a primeira claridade do dia chegava apenas ao subterraneo; não podia ainda distinguir o que o rodeava, mas as suas recordações voltavam dolorosamente, e lamentava-se por não poder dormir sempre.

Os seus pensamentos eram tão tristes que não sabia como escapar-lhes. Entre as imagens que lhe appareciam escolheu uma para descansar das outras; representava-a, como se a visse diante de si, a sua querida e pobre mamã, e via-a realmente com o seu coração, porque a ternura que tinha por ella não lhe deixava esquecer o menor detalhe. Parecia-lhe mesmo vêl-a até com a alliança que ella usava, e que tinha sido sempre uma das grandes alegrias de Adalberto. Esta alliança tinha de particular que, sendo mais grossa do que estes anneis costumam ser ordinariamente, havia sido do agrado da senhora de Valneige fazer gravar na parte de dentro as iniciaes dos nomes dos seus filhos por ordem de nascimento.

Quando Adalberto era pequeno, se havia sido _bonito_, obtinha da sua mamã o favor de abrir elle mesmo a alliança e de vêr a lettra A, que representava o seu nome.

Antes mesmo de saber o alphabeto correntemente, o rapazinho, quando o famoso annel se abria, nunca deixava de exclamar:

--Isto é um C, quer dizer Camilla; isto é um E, quer dizer Eugenio; isto é um F, quer dizer Frederico, e isto é um A, quer dizer Adalberto!

Quando chegava aqui, dava duas ou tres pancadinhas no peito, para se assegurar que era effectivamente elle; depois batia palmas, e a sua mamã beijava-o; acabava sempre assim.

Este annel representava um grande papel na educação maternal do pequenito, e n'um dia que tinha commettido uma falta enorme, quer dizer, que tinha dito um _não_ pensando _sim_, que tinha, n'uma palavra, _mentido_, a senhora de Valneige havia-lhe declarado, olhando muito severamente para elle, que se semelhante coisa tornasse a succeder, mandaria o seu annel ao ourives para apagar a lettra A. E o bom pequeno não tinha mentido mais desde esse dia.

Quando, n'este triste subterraneo, o prisioneiro deixava de pensar na sua mamã, não encontrava no seu espirito senão motivos de receio. O resto das trevas impedia-lhe de seguir os movimentos da ratazana. E depois, perguntava a si proprio com medo onde estaria o trabalhador mysterioso? Teria adormecido ali perto, ou, teria partido? Não, nenhuma porta, se tinha aberto, e Adalberto não podia duvidar que, excepto o balancear da pendula, tudo na casa estava immovel.

Evitava pensar no marceneiro, mas então voltava o Hercules. Oh! que medo! se tivesse de o tornar a ver, e ser apanhado pelas suas grandes mãos que o teriam esmagado se lhe tocassem! O rapazinho tremia só com esta idéa. E a velha? oh! a velha, ainda lhe fazia mais medo; a impressão que ella produzia no seu cerebro fatigado, e sobre os seus nervos doentes, era pouco mais ou menos a mesma impressão produzida pela feia ratazana que se agitava na escuridão. E Gella? ah! Gella! teria talvez sido boa! Porque não tinha elle respondido quando ella lhe disse tão devagarinho:

--Pequeno, estas tu ahi?

Tinha pena de o não ter feito, e comtudo ella tel-o-hia provavelmente levado para a casa ambulante, e então o que teria succedido? O Hercules ter-lhe-hia dado pancadas como em um pobre cão? ou antes, na sua furia, não o teria matado? Este homem, pela sua grande estatura, pelos seus olhares carregados, e pelo seu silencio quasi continuo, havia impresso no espirito do prisioneiro um temor inexplicavel.

Quando conseguia não pensar n'elle, interrogava-se a si proprio, para saber como sahiria do seu tumulo, ou se não morreria antes n'elle, sósinho, e longe dos seus bons paes?

Entretanto o dia augmentava; Adalberto pôde emfim tomar conhecimento da sua triste habitação. Como não tinha tido na infancia a cabeça transtornada por contos pavorosos e absurdos, não imaginava estar n'um sitio muito escondido, visitado de tempos a tempos por alguma fada malfazeja, ou algum monstro horroroso. Não; julgava simplesmente ter cahido n'uma adêga subterranea ou n'uma casa da lenha, como a adêga e a casa da lenha de seu pae; e assim era effectivaménte; estava n'um subterraneo que fazia as vezes de ambas as coisas. A casa isolada em que elle se achava, em consequencia da sua deploravel aventura, era uma casa de pouca importancia, assaz tafula na sua simplicidade, muito querida dos donos; via-se isto pelo cuidado com que estavam tratadas as taboinhas verdes, as paredes brancas, e até nos menores detalhes. Um unico subterraneo, grande e salubre, servia de adêga, de casa de lenha, de carvoeira e de arrecadação. Os olhos do cativo, desde que se costumaram á meia luz, encontraram achas de toda a grossura, e alguns centos de garrafas vazias, bem arrumadas sobre duas ordens de prateleiras. Por outro lado, velhos instrumentos de jardinagem, taboas, um tonel, uma gaiola quebrada. Viu tambem a especie de cama sobre que tinha passado a noite; era o pó do carvão, misturado, com alguns bocadinhos, resto da provisão que de certo, tinham o costume de pôr n'aquelle canto justamente debaixo da fresta. As mãos do rapazinho estavam todas pretas, cara e cabello deviam estar cobertos d'aquelle pó; devia parecer exactamente um limpa-chaminés.

--Tanto melhor, disse comsigo, se eu puder fugir e encontrar o mau homem, tomar-me-ha por um pretinho e deixar-me-ha passar.

N'esta idéa, imaginou mascarrar-se de preto, e apanhando ás mãos cheias o pó do carvão, esfregou a cara, tendo o cuidado de carregar mais nas sobrancelhas e de empoar desde a raiz os seus cabellos loiros, depois de ter deitado para longe de si a horrorosa fita que lhe tinham enrolado na cabeça.

Ah! se a boa velha Rosinha o tivesse visto n'aquelle miseravel estado, nunca teria podido reconhecer o seu querido loirinho; quando muito a senhora de Valneige, por instincto maternal, teria presentido n'elle o seu filho querido, o seu ultimo filho, o seu Benjamim!

Quando Adalberto acabou de mascarrar-se, teve horror de si mesmo. Ao seu vergonhoso fato, accrescentou voluntariamente uma camada de côr preta que o desfigurava; comtudo, era um bom meio de passar desapercebido.

[Ilustração pág. 121. Tomar-me-ha por um pretinho. (Pag. 120.)]

Se elle tivesse podido arrastar o tonel para debaixo da fresta e pôr-lhe em cima algumas taboas, pode ser que se tivesse podido içar com grande custo até á abertura; mas era impossivel fazer mover aquelle tonel; Adalberto era mais geitoso e mais agil do que forte e o tonel parecia agarrado ao chão. O que havia de fazer? As horas da manhã passaram-se em mil tentativas infructuosas, sem que podesse conceber a menor esperança de resultado.

Um dos supplicios da pobre criança, era o frio de Novembro, que descia pela fresta e lhe gellava sobretudo os pés, que tinham estado parados havia tanto tempo. Tinham-no felizmente habituado em Valneige a supportar os rigores do inverno. Quando se queixava de frio, em lugar de lhe dizerem «aquece-te» diziam-lhe: «Vai correr, e não te ponhas a chorar, porque homens não choram por tolices.»

O pequeno sabia pois fazer todos os exercicios proprios para restabelecer a circulação do sangue, e por consequencia para chamar o calor. Pensou que era este o caso de empregar as suas habilidades.