A Casa do Saltimbanco

Chapter 2

Chapter 23,914 wordsPublic domain

Este povo offerece um espectaculo muito singular no nosso velho mundo: desprezado, perseguido durante trezentos annos, e, apezar d'isso, sempre de pé, sempre errante, roubando por onde passa e lendo o futuro. Percebe-se que justamente pelos seus exquisitos costumes casem entre si, e assim se prepetua esta raça independente, temida não sem razão, e vivendo no meio do povo sem nunca se misturar com elle, a não ser para lhe recitar as suas loucuras e embustes, divertil-o um momento e tirar d'elle o pouco de que precisa para prover as suas mui limitadas necessidades. Comtudo, em certos paizes, os Ciganos não são errantes; os de Hespanha, os Gitanos, habitam em Cordova e Sevilha bairros separados; mas fallam em toda a parte a mesma lingua; esta lingua é doce e harmoniosa, e deriva do slavo.

É notavel o profundo respeito que estes homens independentes teem ao seu proprio chefe. A sua teima, a sua obstinação cede ante a authoridade d'aquelle que os governa, e é preciso convir que, ao menos n'isto, são melhores do que nós.

Julga-se que a sua origem remonta aos antigos Persas, que vieram estabelecer-se no Egypto, quando Cambyses, o indigno filho de Cyrus, se apoderou d'aquelle lindo paiz; sabe-se que o conseguio servindo-se de cães e gatos, que pôz na frente do seu exercito, e sobre os quaes os Egypcios não ousaram lançar frechas, porque, a seus olhos, estes animaes eram sagrados. É a favor d'essa opinião, sobre a origem d'este povo, a physionomia bella e expressiva da maior parte dos Ciganos, que faz lembrar o typo persa. Certos cantos antigos, que se teem conservado n'esta raça, fazem tambem suppôr, que o Egypto os viu antigamente; entre outros uma especie de cantiga em que celebram as bellezas do Nilo e lhe enviam saudosos queixumes.

Os ciganos são geralmente fortes e bem feitos e dotados d'uma grande flexibilidade de corpo. As mulheres teem a cintura delgada, flexivel, os movimentos graciosos, e, devemos dizel-o em seu louvor, tem persistido entre ellas, apesar de serem semi-selvagens, um respeito admiravel pela sua honra: são notaveis, sobretudo em Hespanha, pela severidade de seus costumes.

Eil-os pois na Bohemia, os nossos viajantes.

Praga encantou-os pelas suas casas todas com terraços; tanto nas planicies como nas collinas, pelo seu palacio real, torres, mirantes, campanarios, e pelas alturas que dominam as duas margens do Moldau.

Esta vista é realmente d'um effeito surprehendente, e, quando nos achamos em frente d'estas bellezas, sentimos quanto se está longe do Sena, o que sempre agrada aos francezes que viajam, apezar de regressarem ao seu paiz com verdadeira alegria.

Adalberto estava sobretudo enlevado por não perceber nada da conversa dos passeantes quando passava por elles. Mais de metade fallava bohemio e os outros allemão.

«Estou contente, dizia este homemsinho, meio a sério, meio a rir, estou contente porque viajo em paiz estrangeiro.»

Mais uma razão para andar pela mão,--respondia Camilla que, por instincto feminino, participava da constante inquietação de sua mãe a respeito do pequeno desobediente. Mas, por mais que dissesse, elle não fazia caso, e era preciso uma ordem bem positiva de seu pae ou de sua mãe para o obrigar a dar a mão; mesmo assim escapava-se muitas vezes para vêr isto ou aquillo, e estas maldades causavam uma especie de pequena guerra, na qual as armas nem sempre eram cortezes.

A vista da ponte dos dezeseis arcos lançada sobre o Moldau chamou a attenção dos nossos viajantes. Com effeito, com as suas torres antigas, suas estatuas de pedra e as suas sanguinolentas recordações, parece um velho guerreiro, que defendeu bem a sua bandeira. Como se poderia deixar de prestar homenagem á estatua de bronze d'aquelle nobre padroeiro da Bohemia, generoso martyr do segredo inviolavel da confissão? Tomou-se cuidado em indicar a todos os seculos o lugar exacto onde o padre, para não perder a alma, antes quiz perder o corpo do que faltar ao segredo do sacramento. Foi afogado no Moldau pela barbara ordem do Imperador Wencesláu. Os christãos do seu tempo admiraram-n'o e os de hoje vão ainda todos os annos aos milhares, no dia do anniversario do seu supplicio, vêr este sitio do Moldau, que recordará sempre S. João Nepomuceno.

Visitaram o bairro occupado pela nobreza bohemia, e toda a parte da cidade que limita ao norte o palacio archiepiscopal. Depois foi-se vêr a cathedral. O senhor de Valneige, que tinha visitado alguns annos antes a de Colonia, achou grande analogia entre estes dois monumentos, que datam um e outro do seculo decimo quarto. A cathedral de Praga é muito mais vasta; por isso o senhor de Valneige dizia rindo que os dois templos lhe faziam o effeito de dois gemeos, dos quaes um tivesse crescido mais do que o outro. Foi com grande devoção que a senhora de Valneige fez ajoelhar seu filho mais novo deante das reliquias de Santo Adalberto, que estão na pequena capella octogona da entrada. Pobre mulher! emquanto que o pequeno distrahido, como se é n'aquella idade, olhava para a direita e para a esquerda, ella, inclinada sobre a sua cabeça loira, orava commovida, como se presentisse a desgraça que ia ferir-la...

Na nave da cathedral, admiraram o mausoleo real, de marmore e alabastro, que data do fim do seculo dezeseis, e sob o qual teem vindo por sua vez repousar os grandes da terra.

Uma bala de artilheria suspensa por uma cadêa a um pilar e cahida n'esta Igreja durante a guerra dos sete annos, excitou a attenção de Eugenio e de Frederico, e mesmo a do seu atrevido e pequeno irmão. Camilla aproveitou a occasião para dizer mais uma vez que detestava a guerra, que era uma coisa abominavel; e o terno olhar de sua mãe encontrou o d'ella.

Em presença de taes recordações bellicosas é natural ao homem pensar na gloria, mas a mulher pensa no soffrimento; é que a sua missão não é a mesma: a um cabe-lhe defender; á outra consolar.

Desde o primeiro dia, a familia percorreu a cidade de Praga, para ter d'ella uma idea geral, fazendo comtudo tenção de se demorar ao menos uma semana, depois da qual se pensaria na volta. A estação ia adiantada, fazia já frio, os dias eram pequenos, era preciso regressar ao seu paiz e ao seu lar, thesouro do rico e do pobre.

Á noitinha, o senhor de Valneige, só com seus filhos (porque as senhoras estavam cançadissimas), fez uma excursão ao bairro de Carolinenthal, ao nordeste de Praga. Este sitio é o centro d'uma grande actividade industrial. Era a hora em que uma multidão de operarios sahia das fabricas: o espectaculo d'esta população laboriosa enchendo as ruas direitas e bem construidas era curioso d'observar; o senhor de Valneige fazia-o notar aos dois mais velhos, e Adalberto, durante este tempo, reparava, como fazem todas as crianças, para os incidentes do caminho: um cavallo que cahe, um cão em que batem. Quando sua mãe e sua irmã não estavam presentes tinha um pouco mais de liberdade; seu pae não pensava sempre em lhe fazer dar a mão, ainda que esta recommendação tivesse sido terminante desde que andavam viajando. Quanto a seus irmãos, confessavam baixinho que esta ordem, cheia de razão, devia ser muito aborrecida, e, por consequencia, eram muito desleixados sobre este artigo da lei. Adalberto, n'essa tarde, estava mais do que nunca tentado a desobedecer; cedeu á tentação e ficou de proposito para traz, emquanto seu pae estava distrahido, e mostrava a seus filhos um vasto quartel, onde cabe um regimento completo.

Havia n'este sitio um homem que vendia passaros; era muito mais divertido do que o quartel; Adalberto parou:

«Como são bonitos! oh! este encarnado! E este verde! oh! que bonitas pennas!»

Infelizmente dois lindissimos passarinhos acabavam de declarar guerra um ao outro; o nosso futuro militar, sem ter estudado a questão politica do momento, tomou o mais vivo interesse no combate. Um tinha uma pôupa, o outro não; pareciam de força, eguaes, e, como nenhuma potencia estrangeira intervinha, o negocio podia durar muito tempo e custar a vida a um dos combatentes, talvez a ambos. Não era preciso mais para encantar o nosso pequeno official; declarou-se inteiramente pelo de pôupa, e poz-se a julgar gravemente as bicadas que choviam sobre o campo da batalha. A pôupa foi por um momento victoriosa, mas, não tendo sabido conservar a defensiva, tornou-se victima d'uma retirada simulada e ficou litteralmente vencida, porque cahiu, coitadinha! sobre a areia fina da gaiola, e Adalberto, lembrando-se de repente, em vista d'esta gloria decahida, que tinha ficado sósinho, afastou-se precipitadamente do lugar da tentação.

O vendedor, porém, occupava a entrada d'uma encruzilhada; qual das ruas tomar? O pequeno seguiu pela da direita, e, não avistando logo seu pae e seus irmãos, voltou para traz e entrou n'uma rua proxima, sem comtudo ter melhor exito. Quiz então dirigir-se aos que passavam para lhes perguntar o caminho... Mas como? Chegado n'aquella manhã nada notou e não se lembrava mesmo do nome difficil, que tinha o seu hotel. N'este embaraço interrogava os operarios das fabricas que, mais felizes do que elle, voltavam para suas casas; esta boa gente não o comprehendia. Lembra-se com verdadeira inquietação, que está n'um paiz estrangeiro, perfeitamente estrangeiro! Aperta-se-lhe o coração, tem vontade de chorar e não póde; anda, anda até que emfim, morto de cansaço, encontra um homem d'uma estatura elevada, que repara muito n'elle, se aproxima e lhe falla baixo em mau francez. Este homem ouve a sua resposta, e vê-se a criança olhar para elle com confiança e dar a mão ao desconhecido, que o leva depressa, depressa, depressa.

Durante este tempo o senhor de Valneige, victima d'uma horrivel inquietação, percorria as ruas adjacentes; teria logo achado Adalberto, se este não tivesse tomado uma direcção completamente opposta. O desgraçado pae ia, vinha, procurava. Seus filhos ajudavam-no com uma anciedade facil de comprehender. O senhor de Valneige sabia pouco allemão, apenas o necessario para as necessidades previstas de qualquer viagem; mas que difficuldade para fallar doutra coisa e sobretudo para trocar com rapidez estas meias palavras, que podem fazer encontrar uma criança perdida! Á força de inquietação quiz acreditar que seu filho teria sabido fazer com que o conduzissem ao hotel, onde estaria tranquillamente sentado entre sua mãe e sua irmã. Encaminharam-se para o hotel a passos largos e em silencio.

Uma vez chegados o senhor de Valneige não ousou subir a escada; não sabia como havia de apresentar-se diante de sua mulher... Ella levantou-se quando seu marido, pallido e transtornado, abriu a porta do quarto, e, comprehendendo a pergunta antes de lhe ter sido feita, respondeu com a expressão d'um desespero subito; «Perdeu-se!»

Ha momentos na vida, que não podem descrever-se. É preciso ser pae, é preciso ser mãe, para se fazer idéa da dôr profunda, immensa, causada pela desapparição d'um filho, quando não foi Deus que o arrebatou do lar paterno. Ao menos aquelles que o vêem morrer, sabem onde devem procural-o pela lembrança; todo o desgosto é para os que ficam, mas elle não póde soffrer; seus paes sabem-no bem e as suas lagrimas não são sem consolação; mas perdido, e perdido sobre a terra! sobre a terra onde ha o mal e os malvados... oh! é horroroso.

[Ilustração pág. 37. Dá a mão ao desconhecido que o leva depressa. (pag. 35.)]

Sem se deixar succumbir um só instante, o senhor de Valneige, acompanhado de Gervasio, tornou a percorrer a cidade; apoderou-se d'elle uma especie de febre, que o impedia de sentir o cansaço, e o bom Gervasio suspirava, pensando no pobre pequeno, que vira nascer.

O senhor de Valneige apressou-se a recorrer ás authoridades.

Ah! como aquelle desgraçado pae sentia o coração afflicto, quando descrevia os signaes exteriores, que podiam fazer reconhecer seu filho; era loiro, a pelle branca e rosada, uma covinha por baixo da face esquerda, a barba um poucachinho dividida, os olhos castanhos e vivos, uma voz argentina como a de uma rapariga, o que contrastava com os movimentos d'uma bravura inteiramente masculina. A sua figura era, quando muito, d'uma criança de sete annos, apesar d'elle ter perto de oito.

Trajava um fato de panno azul escuro e um collarinho liso, que no momento de sahir tinha sujado de tinta, um pequeno borrão apenas visivel na parte de diante do lado esquerdo. Ao pescoço tinha suspensa, desde o baptismo, uma medalha de oiro, representando a Santa Virgem, com os braços abertos e a cabeça inclinada. Tinha-lh'a dado sua mãe, pedindo á Rainha do Céo que o livrasse do peccado e da morte, em quanto ella fosse viva. Pobre mulher! tinha perdido o seu filho querido, o seu filho mais novo! Pode ser, oh! pode ser que fosse levado por homens crueis, que o fariam participar d'um viver miseravel, que maltratariam o seu corpinho, e que tentariam perverter sua alma innocente com maus exemplos e blasphemias. A esta idéa, que não a deixava, a mãe sentia-se desfallecer. Teria preferido antes vel-o morrer sob as suas vistas do que entregue a gente infame, que faria da sua infancia um longo martyrio, e que talvez o encaminhasse na senda do vicio.

O Senhor de Valneige, completamente desanimado, voltou para o hotel; ninguem tinha visto a criança; nenhuns esclarecimentos se tinham obtido; continuava o mysterio mais profundo sem se saber o que se havia de dizer nem pensar a tal respeito. Iam empregar-se todos os meios possiveis para descobrir Adalberto: mas para os desgraçados paes só restava esperar. Esperar quando se ama um filho mais do que a si mesmo, esperar sem saber se elle ainda respira, se soffre, se chama, esperar n'estas condições, é morrer todos os dias! Passou-se uma semana, uma outra, ainda outra; um mez, dois mezes, tres mezes, nada... Nenhum indicio, nenhuma esperança proxima. Foi preciso voltar para França, depois de se ter estabelecido todos os meios possiveis de correspondencia com Praga; mas toda a gente estava convencida de que o pequeno tinha sido levado para longe, e que só um acaso providencial o poderia fazer achar.

A primavera voltou, Valneige readquiriu a sua belleza, frescura; os passaros cantavam, tudo se reanimára no campo, e só tres corações bem infelizes não quizeram tomar parte n'esta felicidade. Uma velha agitava-se, inquieta, perturbada, irascivel, accusando todos de negligencia, e accusando-se a si mesma de não ter sabido prever e impedir o mal; era a pobre Rosinha, que tinha emmagrecido por causa d'isto! Um homem tinha-se tornado grave e sombrio; já não tinha animação; a melancolia da doença, a que era sujeito, tinha-se tornado o seu estado habitual; os seus negocios estavam descurados, os seus planos futuros abandonados, temia-se que a sua saude, já muito melindrosa, se alterasse profundamente; era o pae. Uma mulher ia e vinha vagarosamente, tratava de seu marido, de seus filhos, da sua casa e dos pobres; mas no seu coração não entrava alegria; tudo n'ella era triste, até o bondoso sorriso com que acompanhava as suas acções para esconder a sua pena; uma energia verdadeiramente christã era o que fazia com que essa mulher não descurasse o mais pequeno dever. A sua vida era uma continua oração. Pensando, girando, andando, chamava! Chamava seu pobre filho por todas as aspirações do seu coração, pela sua coragem, pela sua dedicação, pela sua caridade para com os desgraçados, com todas as véras da sua alma. E á noite, chamava ainda mais por elle, e as suas lagrimas corriam com uma amarga esperança; e ao pé do altar, quando estava só com Deus, não podendo abafar os soluços, dizia unicamente, sabendo que o Senhor a comprehenderia:

«Meu Deus! Adalberto!»

CAPITULO IV

Adalberto estava bem longe.

Na aldeia tudo é um acontecimento, até a gallinha que canta como o gallo, e que logo é condemnada á morte porque isso se toma por agouro. Póde imaginar-se o effeito, que produziu em Valneige o desapparecimento do pequeno Adalberto.

Não se fallava d'outra coisa e não tinham fim as conjecturas, nas quaes havia uma parte maravilhosa, devida á credulidade e superstição d'aquella boa gente. Um dia veio uma mulher ter com Rosinha e disse-lhe: «Ouça, senhora Rosinha, olhe que o seu pequeno não está perdido.»

A estas palavras, a velha criada levantou os oculos até ao meio da testa, o que para ella era uma maneira de vêr melhor. Se lhe tivessem dado o conselho de os fechar n'uma gaveta não teria querido. Havia quinze annos, pelo menos, que usava oculos, e punha-os no nariz logo de manhã. Pelo dia adiante, servia-se d'elles para ir ao jardim, para subir e descer a escada; mas quando se tratava de dar attenção, de distinguir as côres ou as physionomias, bem depressa os oculos subiam para o meio da testa. A pobre mulher queria-lhes tanto como aos seus proprios olhos.

A Tia Godinette puxou uma cadeira porque o discurso promettia durar.

--Pois é verdade, senhora Rosinha, vou dizer-lhe uma coisa, que ainda não disse a ninguem.

Todos os discursos de Godinette, que fallava muito vagarosamente, começavam do mesmo modo, e sabia-se até que ponto se podia contar com a sua discrição. Quando a boa da mulher não dizia os seus negocios a toda a gente, era porque estava só.

--Ouça, senhora Rosinha, aqui tem o que me succedeu, a mim que lhe estou fallando. Sonhei a noite passada... Primeiro devo dizer-lhe que me doíam as pernas, mas doíam-me como nunca. Olhe, era exactamente nas barrigas das pernas, como uns canitos que me mordessem. Eu dava voltas na cama, como um frito na frigideira, e esfregava, esfregava... é necessario sempre esfregar quando doem as pernas; ás vezes é o sangue que para. Diga-me uma coisa, senhora Rosinha, o que faz quando lhe doem as pernas?

[Ilustração pág. 45. O seu pequeno não está perdido. (pag. 43.)]

--Ora essa! esfrego. Mas vamos, vamos á historia.

--Eil-a; emquanto eu estava ás voltas na cama, disse commigo: que horas serão? Deve ser tarde, com certeza. Estou convencida que é mais de meia noite; não sabia as horas, eu, e quem não sabe, a senhora Rosinha ha de ter ouvido dizer, é como quem não vê. N'isto ouço dar horas na freguezia. Ponho-me a contar pelos dedos, uma duas, tres, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez...

--Onze, doze, accrescentou precipitadamente Rosinha que estava sobre espinhos.

--Justamente, dez, onze, doze. Olhem como adivinhou! É fina como um coral.

--Vamos lá, dizia que o nosso pequeno...

--Espere, senhora Rosinha, isto não vai a matar.

--É que assim temos para peras.

--Então, quando eu vi que era meia noite, disse commigo: ora esta! julguei que era mais tarde. A noite foi feita para dormir, toca a dormir. Tanto peior para as minhas pernas! Custou-me a pegar outra vez no somno; muito me custou! Abria os olhos, fechava-os, tornava a abril-os, tossia, assoava-me, cuspia, esfregava-me, era um nunca acabar!

--E depois!

--Acabei por adormecer, e sonhei que passeava n'um lindo jardim, onde havia um grande tanque, mas grande, grande, como não é possivel, como ás vezes a gente sonha; a tia Rosinha sabe.

--Sim, sim, e depois tia Godinette?

--Depois? era comprido o tal tanque, mas comprido como d'aqui á cruz da estrada. Que digo eu?... Como d'aqui ao... ao...

--Ao fim do mundo. Ande lá tia Godinette.

--Justamente! sempre tem idéas! Vi então do outro lado do tanque uma raposa. É verdade, uma raposa e ao mesmo tempo o seu menino, que tinha á cabeça um cesto, _vossemecê_ bem sabe, d'estes cestos em que se põe...

--Sim, sim, estou a vêl-o.

--Está mesmo a vêl-o, não é assim? Mette-se nos taes cestos, mette-se...

--Mette-se tudo o que se quer.

--Tem _vossemecê_ rasão. Com effeito, sendo um cesto, mette-se-lhe o que se quer. De mais no fim de contas, isto não faz nada para a minha historia.

--N'esse caso saltemos isso, quer?

--Depois, elle vê a raposa, tem medo, deixa cahir o cesto, e prega comsigo no tanque de cabeça para baixo.

--Coitado do pequeno!

--Qual pequeno? Foi o cesto.

--Ah! bom! mas _vossemecê_ dizia de cabeça para baixo.

--Era a brincar. Eis que a raposa vem ter commigo com uma pata no ar. Pobre animal! Foi talvez ferida por algum caçador... ah! a proposito de caçador, _vossemecê_ sabe?

--O que?

--Dizem que ha dois caçadores, que vinham no outro dia pelo matto e encontraram um cão vadio, que mordeu os cães que os acompanharam.

--Pobres animaes!

--Que está a dizer senhora Rosinha? Dos homens é que eu fallo.

--Ah! então pobres homens!

--Mas tambem mordeu os cães.

--Pois sim, pobres homens e pobres cães. E o pequeno?

--Espere ahi. Viu-se então na escuridão uma grande bola amarella como uma pequena lua, que corria o mais que podia no céo; chamam-lhe um _metaloro_... um _metoro_... não sei bem o nome, mas isso nada faz ao caso.

--Felizmente; mas o que tem a bola com o nosso pequeno?

--O que tem? Está bem claro. Uma bola amarella que corre no céo, não é qualquer coisa. E depois, ouça mais esta, ainda não acabei: como elle andava para traz, a raposa...

--O que! ainda a raposa! Tornamos outra vez ao sonho?

--Mas com certeza; a raposa é brincadeira.

--E o cão damnado?

--Esse é sério.

--Ah! peior é essa.

--Então a raposa...

--Olhe, faça-me o favor de deixar a raposa aonde está; fallemos antes do nosso pequeno loirinho. Diga-me o que sabe d'elle.

--D'elle? Ora essa! não sei nada d'elle. Que quer _vossemecê_ que eu saiba d'elle? Não o perderam na Allemanha?! Mas é o mesmo; podem dizer que está longe; quando se vêem signaes no céo, pode-se estar certo que o pequeno não está perdido.

Estava-se n'este ponto de tão insipida conversa, quando o senhor de Valneige passou, sempre pensativo e inquieto; reparou no ar azafamado da tia Godinette, e a fiel Rosinha, notando a sua preoccupação, julgou dever repetir-lhe as palavras da boa mulher, saltando a parte da insomnia, do relogio, das pernas e da raposa. O amo respondeu com tristeza que não havia, infelizmente, relação alguma entre este meteoro e a pobre criança; que o facto de que se tratava nada tinha de prodigioso, sendo devido a um phenomeno atmospherico muito conhecido, e sobre o qual eram desarrazoadas as suas superstições. Godinette um pouco despeitada, mas nem por sombras convencida, fez a sua mesura e foi contar a outros o seu sonho e a sua bola amarella.

Quanto á boa Rosinha, vendo terminada a conversa, desceu tranquillamente os seus queridos oculos sobre o nariz e continuou a fazer meia.

CAPITULO V

Adalberto sabe emfim até onde pode levar a desobediencia.

Em quanto a familia de Valneige estava triste e consternada, em quanto se procurava por todos os lados, em Praga e nos arredores; onde estava o querido pequeno Adalberto? Ninguem o sabia, excepto a infame creatura que o tinha roubado ao amor de seus paes. Habituada a desobedecer, não podia mais tarde ou mais cedo deixar de succeder grande desgraça áquella criança. No dia em que desapparecêra, havia desobedecido oito vezes! e como ninguem tinha dado por isso, não fôra castigado. Deus vê tudo que os paes e as mães não vêem; foi Elle quem se encarregou de castigar por uma vez, com um castigo terrivel, todas as desobediencias que o rapazinho commettera, desde que sabia o que fazia; e bem cedo tinha elle tido intelligencia.

Eis aqui como as coisas se passaram: Perdemos de vista Adalberto, no momento em que um homem d'uns cincoenta annos, embrulhado num capote de lã grossa, o levou, depressa, depressa, depressa... Este homem tinha, é verdade, cara de poucos amigos, e o olhar sombrio; mas fallava um pouco francez. Na sua grande afflicção, a criança, que não suspeitava uma traição, seguiu-o em silencio. Andou muito tempo, tanto tempo que as suas perninhas fraquejaram, e que de repente, desanimado pela fadiga, pelo medo, pela fome e pelo sangue frio d'aquelle que o conduzia começou a chorar.