A Casa do Saltimbanco

Chapter 11

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«Um dos nossos amigos, magistrado residente perto d'aqui, escreveu hoje mesmo ás authoridades conforme meu pae lhe disse para pedir que não continuasse o processo que diz respeito a Gella. Queira exprimir á senhora Deschamps o que nós quizeramos dizer-lhe de viva voz, e agradecer-lhe os cuidados maternaes, que fizeram esquecer a Adalberto o que elle soffreu entre aquella má gente. Aceite os protestos de profundo respeito de

«_Camilla de Valneige._»

Dentro do mesmo sobrescripto havia um bilhete fechado para o pequeno.

«Meu queridinho.

«Abraço-te muito, muito. A mamã partiu, ha oito dias, vestida de camponeza, acompanhada pelo fiel Gervasio. Tem tenção de ir a todas as feiras indicadas por... A nossa querida mãe estava de certo alli ante-hontem; mas de longe e no meio da multidão não te viu ou não te conheceu.

«O papá está bastante doente; comtudo começa a melhorar desde hontem. Oh! se tu o visses? Pediu-me vinte vezes a carta do senhor Deschamps na qual tu escreveste uma linha e o teu nome; lia sempre esta linha e chorava, como a mamã choraria se estivesse aqui.

«Não te atormentes, tudo se ha de arranjar. Não se fará mal a ninguem, e cuidar-se-ha em fazer bem á boa da rapariga. Mando-te vinte, quarenta beijos! Vou escrever a Eugenio e Frederico que estão no collegio. A nossa velha Rosinha está doida de contente; todos te querem muito e desejam vêr-te. Oh! que felicidade! quando estiveres ao pé de mim, no nosso Valneige, no meio de todos nós.

«Tua irmã

«_Camilla_».

Adalberto ficou contentissimo ao ler esta carta; mas teve o cuidado de não o deixar perceber. Não se devia saber que sua mãe, disfarçada em camponeza o procurava nas feiras, e segundo as indicações d'alguem. Teria sido trahir o segredo de Gella e faltar á palavra d'honra pedida e dada; ora é impossivel faltar á sua palavra de honra sem se deshonrar. O pequeno deu prova d'uma grande prudencia, e aquelles que o rodeavam pensaram que um sentimento generoso, sem ser promessa alguma, fazia a familia de Valneige perdoar, por amor de Gella, tão boa rapariga e tanto para lamentar como filha d'um salteador.

Como se póde imaginar, aquelles sentimentos generosos, dos quaes não conheciam o verdadeiro motivo, causaram um certo espanto. A tia Tourtebonne esteve quasi a zangar-se. O senhor Deschamps assegurava que não teria levado tão longe as attenções, e que ao mesmo tempo que protegia Gella, como ella merecia ser protegida, teria feito perseguir seu pae até á fronteira; Julião accrescentava até ao fim do mundo.

A senhora Deschamps tomava facilmente o seu partido, e não pensava senão em divertir a criança, em pentear os cabellos de que a sua mamã tanto gostava, em fazer preparar as comidas que preferia, como bom caldo, boas costelletas, e tudo quanto podia fortifical-o. Conversava muitas vezes com elle, e fazia-lhe ler em voz alta historiasinhas, nas quaes uma moral muito pura se disfarçava sob os gracejos infantis. Emfim era uma mãe a proteger o filho de outra mãe!

Sophia só dava attenção a uma coisa; a criança estava pallida e magra e ella queria tornal-a corada e gorda; e persuadida de que a arte culinaria é para isto um grande medico, inventava uns guisadinhos muito bons para Adalberto, afim de que elle comesse com mais appetite e engordasse mais depressa. Como só havia tres ou quatro dias para esta grande empreza, fazia-o comer muito, temperava bastante os molhos e offerecia-lhe entre as refeições uma meia duzia de bons petiscos.

Adalberto, privado de tudo desde muito tempo, foi sensivel á tentação, e, seguindo as insinuações de Sophia, comeu pouco mais ou menos todo o dia, para acabar de esquecer os nojentos caldos da casa do saltimbanco.

Comtudo lembrou-se das bellas e boas tradições de Valneige; «_uma criança bem educada_, tinham-lhe dito cem vezes, não deve nunca comer fóra d'horas; é golodice, torna o homem _material_, quer dizer, favorece n'elle os instinctos do animal.»

Por isso, no terceiro dia, Adalberto disse á senhora Juliana, que lhe agradecia as suas attenções, mas que tendo comido muito bem desde que estava na casa branca, não se lembrava já das sopas da velha Praxedes, e que não queria mais do que quatro comidas ao dia como em casa da sua mamã.

--Mas a sua mamã não está cá.

--Não importa; comer sem necessidade fóra d'horas seria desobedecer-lhe, e nunca mais torno a desobedecer aos meus paes.

Sophia concordou que o querido pequeno era muito rasoavel, e mudou de systema. Comtudo viu com verdadeira alegria e alguma vaidade, que o pequeno ia engordando, que os seus olhos se animavam, e que tinha melhor côr.

O que a felicidade e a liberdade tinham feito em grande parte, attribuia-o Sophia só aos seus manjares; e d'este modo todos ficaram contentes.

Havia seis dias que Adalberto vivia debaixo d'este tecto tão affectuosamente hospitaleiro, quando uma senhora d'um aspecto grave e distincto, seguida por um criado, bateu á porta da casa branca. Julião abriu, mas antes de ter tido tempo de lhe dirigir a palavra, correu ella para a criança, que brincava no pateo com Tom, e apertou-a estreitamente nos seus braços maternaes. Toda a gente accudiu. Foi grande a commoção. O proprio senhor Deschamps perturbou-se, e Julião disse baixinho a Gervasio, que chorava d'alegria:

--Palavra, que até estou a tremer! Faz mais impressão do que o attaque de Sebastopol!

Depois d'este primeiro instante de surpreza entraram na sala, e, por um rasgo de sensibilidade, a senhora Deschamps disse a seu marido:

--Deixemol-a só com elle.

Ambos sahiram da sala e fecharam a porta.

Foi então que a senhora de Valneige comprehendeu o grau da sua felicidade.

Não fallava, mas olhava para seu filho, como se quizesse ler na sua alma. Parecia-lhe, pobre senhora! tornar a tomar posse d'este pequeno ser, que Deus lhe tinha dado. Pegava-lhe nas mãos, que apertava nas suas, como para affirmar os seus direitos, e restabelecer esta dôce cadêa, que nos impõe os affectos do coração. Oh! que de lagrimas que cahiam dos seus olhos! Seu filho estava alli e adorava-a!

A vida tornava a ter os seus encantos. A senhora de Valneige já se não sentia infeliz.

A presença de Adalberto ia curar seu marido, que só soffria pela sua auzencia. Oh! quantas alegrias juntas! Estava maravilhada, pensativa, commovida... Foi o momento que o bom coração de Sophia escolheu para offerecer uma bella _omelette_ de dois ovos frescos, ou biscoitos, ou vinho com assucar, ou qualquer coisa, emfim! Sophia só receiava uma coisa nas grandes agitações da alma; era vêr a sua gente morrer de fraqueza. A senhora de Valneige, como é facil de suppor, não tinha a menor vontade de comer uma _omelette_; recusou-a, pois, o mais graciosamente possivel, e, despertada pelo offerecimento de Sophia do seu extase maternal, perguntou onde estava a senhora Deschamps.

Esta desceu do seu quarto em quanto a cozinheira, para se consolar do que acabavam de recusar-lhe, offerecia um copo de vinho ao bom e fiel Gervasio. N'isto não fazia mais do que seguir os costumes da casa. A senhora Deschamps não podia receber qualquer pessoa sem lhe offerecer, como nossos paes, o pão e o vinho da hospitalidade. Comprehendia, porém, demasiadamente as sensações delicadas, para não as confundir com uma _omelette_ ou qualquer outra cousa. É inutil explicar o genero de relações, que se estabeleceu entre as duas mães. Parecia que se conheciam ha muito. É porque, effectivamente, as almas nobres reconhecem-se mutuamente, e acham-se ligadas umas ás outras sem embargo de distancias.

A senhora de Valneige fallava á sua nova amiga essa lingoagem do coração, que só elle comprehende, e a senhora Deschamps respondia com a suave liberdade, que nasce d'uma sympathia subita.

Para ella não era a desconhecida mais do que a mãe da criança perdida, da criança que, durante seis dias, tinha achado sob este tecto o que esta idade exige: cuidados, brinquedos e ternura.

Quando o senhor Deschamps veiu, com a maior delicadesa, juntar-se ao trio, a conversação tornou-se mais positiva. Fallou-se do passado e do futuro, porque as duas mães só tinham visto o presente. Começaram então as perguntas; tres ou quatro para uma resposta.

A castellã informou-se de todos aquelles, que tinham contribuido para salvar seu filho. Nomearam-lhe a tia Tourtebonne, Josephina e outros. Tudo se disse e tornou a dizer; a mãe estava insaciavel, fazia repetir tudo outra vez. Que de lagrimas a fizeram derramar aquellas vinte e quatro horas, passadas no subterraneo, entre a vida e a morte! Quiz descer áquelle sitio, que por pouco não tinha sido um tumulo; viram-na ler com horror as palavras escriptas na parede. Á noite mostrou desejo de lá descer outra vez, e alli, só, no subterraneo com o seu filhinho Adalberto, collocou-se, por uma d'estas ingenuidades de que o coração é capaz em todas as idades, porque nunca envelhece, de maneira que podesse vêr a linda estrella, que tinha consolado o pequeno, e a que elle chamara Adilia.

--Mamã, querida mamã, dizia o rapazinho beijando as queridas mãos de sua mãe, é preciso procural-a no céo para que o papá a conheça e tambem goste d'ella.

--Sim, meu filho, respondia gravemente a senhora de Valneige, teu pae ha de amal-a. Nem elle nem eu esquecemos nunca o que foi consolador para ti, o que te fez bem.

E, como a terna mãe olhava para seu filho com um amor inexplicavel, a criança, por uma delicada inquietação, perguntou timidamente:

--O papá já não está zangado?

--Zangado porque?

--Por eu ter desobedecido. Não me quer mal por isso?

--Quem te ha de querer mal, meu pobre filho? Não foste tu bem castigado? Teu pae espera-te para melhorar. Ama-te muito, isso sim.

Então Adalberto lançou-se nos braços que sua mamã lhe estendia, e, submisso para sempre, á força de soffrimento, fez este juramento:

--Prometto que nunca mais torno a desobedecer.

A mãe e a criança cheios de felicidade e de ternura, ficaram alli, em pé n'aquella adêga, e achavam-se bem. O silencio, a escuridão, tudo os isolava; sem darem por isso ficaram immoveis, porque ninguem queria dizer primeiro: «Partamos».

O rapasinho, commovido pela ternura da mãe, balbuciou baixinho, como se aquella solidão ainda não fosse bastante para ouvir um segredo:

--E Gella, mamã, Gella que me quiz salvar?

--Irei vel-a ao hospital.

--Oh! que felicidade!

A hora ia adiantada. Na casa branca não se recolhiam tarde. A pendula da sala deu horas; a senhora de Valneige contou nove pancadas e estremeceu, ouvindo aquella bulha, que Adalberto tinha ouvido durante a sua grande agonia. Subiram, e bem depressa cada um, com um castiçal na mão, se dirigiu para o seu quarto.

A senhora de Valneige foi conduzida, pela dona da casa, para o quarto dos hospedes, quarto pequeno, mas aceiado, commodo, agazalhado, como são os ninhos que a amisade prepara. Notou com commoção que tinham mudado para aquelle quarto o _leito-canapé_. A senhora Deschamps, delicada em tudo, quiz que a mãe visse o filho dormir.

No dia seguinte a senhora de Valneige, não sem excitar alguma curiosidade, perguntou qual era o caminho do hospital, dizendo que queria vêr aquella boa rapariga, que tantas vezes tinha consolado Adalberto. Ensinaram-lh'o e partiu só com seu filho. Vendo-a, Gella sentiu-se esmagada pela sua miseria, pela sua desgraça, pelo crime de seu pae. O seu lindo rosto, emmoldurado pelos seus cabellos pretos em desalinho, revelava assim a humilhação da sua alma inculta e como que abandonada.

A criança, cheia de confiança, abraçou-a como a unica amiga que tinha tido sobre a terra durante o seu duro exilio; e a fidalga pegou-lhe nas mãos para fazer esquecer distancias, e pagar na mesma moeda a bondade de seu coração. Depois sentou-se á cabeceira do leito, e fallou muito tempo baixinho; a rapariga respondia ainda mais baixo, e, no fim da conversa, Adalberto apenas poude ouvir estas palavras, que os soluços entrecortavam:

--Não, minha senhora, eu não sou digna de tantas bondades! Dar-me trabalho em Valneige! De vestir e de comer debaixo do vosso tecto! E vêr todos os dias Adalberto! Oh! seria muita honra para mim! Meu pae não tem outra pessoa no mundo para o tratar se estiver doente, e dar-lhe pão se lhe faltar; elle que já começa a estar velho.

Meu irmão não ficará com elle, porque só a força é que o prende; ha de então ficar sem ninguem? Deixe-me na minha miseria, minha senhora, trabalharei, não como d'antes, porque o medico diz que eu fico côxa; mas estou costumada a coser, e não me faltará boa vontade. Irei encontrar meu pae; sei onde o posso achar; tem muitas culpas, é verdade, para comvosco, para com todos e mesmo para commigo; mas emfim, que lhe hei de eu fazer, minha senhora, é meu pae!

A senhora de Valneige, admirada, dizia comsigo mais uma vez: «Nunca desprezemos pessoa alguma; por toda a parte se encontram boas almas.»

Fallou-lhe, e disse-lhe o que o pequeno Adalberto não tinha podido dizer-lhe sobre a alma e o céo. Tudo se tornava possivel n'estes dias de reclusão absoluta. Gella ficaria por muito tempo no hospital; o esmoller ia instruil-a, e alli, n'aquella caminha branca, que para ella era o berço de uma nova existencia, faria a sua primeira communhão, e unir-se-hia, pobre rapariga das ruas, ao Deus de que a criança tinha dito: «Elle conhece todos os nomes e todas as pessoas.»

Oh! como ella seria recompensada dos seus esforços, e como se sentia bem abençoada, quando a senhora de Valneige, pondo a mão sobre a testa da doente, que abrazava, lhe disse:

--Sê, pois, o anjo da guarda de teu pae; eu serei para vossês toda a minha vida a imagem da Providencia. Em toda a parte onde estiveres, minha filha, lembra-te de mim; em qualquer afflicção que te aches, dirige-te a mim.

Amo-te e abençoo-te.

Gella seguiu com a vista a mãe e o filho, quando ambos a deixaram, e quando Adalberto se voltou para a vêr ainda, disse-lhe ella, com o coração cheio de reconhecimento:

--Obrigada pelo bem que me fizeste.

[Ilustração pág. 253. Eu não sou digna de tantas bondades! (Pag. 251.)]

CAPITULO XIX

Adalberto era obediente.

Nunca se viu jantar mais alegre! Estavam quinze á meza. Todos conversavam todos riam; que animação! que contentamento! Eugenio e Frederico tinham vindo passar dois dias em Valneige, por grande favor, em consequencia do feliz acontecimento que trouxera comsigo o socego, a saude e a alegria.

A velha Rosinha dizia que o seu querido loirinho tinha levado tudo isto nas algibeiras, mas, que apenas apparecêra, havia banido todo o mal e todos os aborrecimentos.

Effectivamente, o senhor de Valneige não tinha nem febre nem insomnias; estava pallido e fraco, mas seu filho dava-lhe pouco a pouco forças e vida. Aconselhavam-lhe viajar e já tinham começado os preparativos da partida. Entretanto os amigos antigos e os jovens camaradas divertiam os espiritos e favoreciam as expansões.

Christiano e seus irmãos lembravam-se d'aquelle jantar, em que Adalberto teria sido o decimo quarto, e comparavam a alegria presente á inquietação que então pesava sobre todos.

Sim, Adalberto teria sido o decimo quarto; mas agora estavam quinze á meza.

Ao pé de Camilla estava uma criança tão bonita como abatida, cujo olhar doce e meigo dizia ainda, nos intervallos d'uma tosse fortissima:

--É talvez a morte que vem, e depois o céo.

Era Tilly, a amiguinha de Adalberto.

A senhora de Valneige tinha ouvido as confissões de Gella; o que esta rapariga não teria dito á justiça tinha-o dito á amizade. Tilly era realmente uma criança roubada, e roubada desde muito nova, n'um passeio publico. Não tinham nenhum conhecimento da sua familia, estava perdida para sempre, e este _sempre_ não podia durar muito. O peito delicado d'esta amavel criancinha tinha sido desprezado. Os medicos consultados tinham dito: «Sem esperança!»

E o senhor e a senhora de Valneige tinham respondido: «Poupemos-lhe a solidão! as agonias! a frieza!»

A paz, rostos amigos, todos os consoladores thesouros da esperança christã, eis o que queriam dar á doentinha em troca da sua compadecida affeição pelo seu irmão d'infortunio, a quem ella tinha dito no dia do seu captiveiro:

--Queres tu a minha sopa? Eu quando não como bastante não me importa.

Quanto ao bom e gordo Natchès, roubado assim como Tilly, tudo n'elle, tanto no physico como no moral, affirmava a baixa origem que lhe attribuia Gella. Tinha ficado em casa do senhor Deschamps, não se entretendo senão na cosinha, extasiando-se diante d'uma caçarola ou d'um petisco. Riam da sua toleima, que o deixava desempenhar soffrivelmente certos trabalhos puramente materiaes. A sua docilidade servil fazia d'elle um instrumento commodo entre as mãos de Julião e de Sophia; foi-lhes dado por ajudante, acarretando agua, descascando legumes, varrendo o pateo, regando, penteando o cão. Fazia geralmente as coisas mais aborrecidas, dando-se por satisfeitissimo, entremeando o trabalho com algumas cambalhotas, e narrando as historias mais tolas que começavam sempre assim:

--Quando eu era palhaço...

Achava-se feliz. Que precisava este rapaz? Uma cama, de comer e bondade; achou tudo isso na _casa branca_, e recebia mais, a luz sufficiente aos espiritos grosseiros para servirem o Senhor justo, que não pede contas ao homem, senão do pouco que lhe confiou.

Não tinham esquecido ninguem, mas era preciso um certo tempo para estudar a posição de cada um, e testemunhar o seu reconhecimento da maneira mais util.

Emfim o dia da partida chegou. Segundo o desejo de todos, encaminhando-se para o Rheno, deviam parar na _casa branca_ e descansar na companhia dos amaveis hospedeiros de Adalberto.

Esta paragem encantava toda a gente. Combinou-se que os criados, que seguiam a familia, partiriam dois dias mais tarde, e aconselharam Rosinha a poupar-se ás fadigas d'uma grande viagem no começo do inverno; fez ouvidos de mercador, e, ainda que a volta de Adalberto fosse o momento escolhido por ella para ir á sua terra, achou que não podia ir sem o seu loirinho. Annuiram aos seus desejos, e começou então a fazer os seus arranjos. Não eram muitos; uma pequena mala, e tres toucas n'uma chapeleira velha.

--Não te esqueças do meu presente, gritava-lhe Adalberto, saltando de roda d'ella.

--Não tem perigo! Quero-lhe como ás meninas dos meus olhos; por isso o dependurei ao meu pescoço.

--Ao teu pescoço? Mostra-m'o...

A criança viu uma caixinha segura por uma fita ao pescoço de Rosinha; esta caixa continha o botão e a nódoa de tinta que tinha trazido do exilio! Adalberto abraçou de todo o coração a sua velha governante.

Partiram alegremente todos cinco, porque Tilly ia tambem com os seus protectores respirar um ar benefico. Passadas algumas horas, pararam para jantar e esqueceram-se do tempo, como muitas vezes acontece.

A demora tinha sido grande; houve inquietação e incerteza; o senhor de Valneige, não achando o seu wagon, disse a seu filho:

--Subamos seja para onde for, e juntar-nos-hemos na proxima estação.

Adalberto subiu distrahido, ao acaso, e, por estonteamento, achou-se na terceira classe. Gritavam: vai partir! vai partir! Fechavam-se as portinhollas--iam partir. O pae lançou-se precipitadamente na carruagem onde seu filho estava, dizendo em voz baixa:

--Estamos aqui muito mal; mas é só por um quarto d'hora.

No fundo do wagon havia viajantes que pareciam fatigados; um, entre outros, dormitava. A sua colossal estatura, as suas feições accentuadas chamavam sobre elle a attenção.

Adalberto reparou n'elle... O senhor de Valneige viu o seu filho empallidecer.

--Que tens tu, perguntou-lhe.

--Nada.

--Sentes-te mal?

--Não, papá.

O pae inquieto, fez em voz baixa algumas perguntas, e seu filho respondeu-lhe transido de medo:

--É o homem!

Houve um momento de horror na alma do senhor de Valneige.

Estava ali diante do carrasco do seu filho. O acaso entregava-o á justa vingança d'um pae, que podia fazel-o prender, julgar, condemnar; tinha testemunhas, provas: o botão, a nódoa de tinta, a fita doirada, as palavras escritas na adêga, a deposição de Baptista e da vendedora; Julião, Sophia, Josephina tudo lhe vinha á memoria, tudo o levava a proseguir; mas havia tambem na sua carteira uma carta da pobre Gella, que se fiava na sua palavra. É verdade que as suas previsões não se tinham realisado; mas tinha dado indicações em troca D'uma promessa. O senhor de Valneige olhou para este homem, e, tremendo sob o peso d'esta promessa sagrada, eterna, disse a Adalberto:

--Ó meu filho! lembra-te sempre, que a palavra de honra é um juramento, que um homem não pode violar _debaixo de nenhum pretexto, e em nenhuma circumstancia_.

Ao mesmo tempo o senhor de Valneige ainda convalescente fechou os olhos; chegou a sua vez de empallidecer; tornaram-se-lhe os beiços brancos, e Adalberto soltou um grito. O desmaio durou só um instante; as companheiras, de viagem abriram as vidraças para dar ar ao doente. Todos olharam para elle e para seu filho.

Esta grande emoção passou. Na primeira estação o pae e o filho desceram.

O homem de ferro desceu tambem, e não tornou a subir.

Depois de se fallar detidamente d'este sombrio incidente no wagon onde ia a familia, chegaram á _casa branca_. Tudo em azafama! Faziam as camas, punham a meza etc. Não faltava movimento, nem alegria, e na cosinha mais uma fornalha acêza, porque Sophia não descansava.

Os novos amigos fizeram um conhecimento cheio de benevolencia e de amizade.

Adalberto saltou ao pescoço da senhora Deschamps, que o abraçou como a um dos seus netos.

Conversaram, passearam, descansaram, repetiram vinte vezes a mesma idéa, variando os termos; a idéa de cada um era: estou bem contente!

Chegou a hora do jantar, comeram como se fossem quinze, apezar de serem só sete; depois, Adalberto e Tilly brincaram com o bom Natchès, que longe de soffrer com a sua inferioridade, lhes dizia com um ar de perfeito contentamento:

--Quando eu era palhaço não me julgava infeliz, mas agora vejo que o era muito! Ha só uma coisa de que eu tenho saudades, é de fazer habilidades nas feiras. Lá isso era muito divertido, quando eu era palhaço!

Deitaram-se; cama aqui, cama acolá. A boa senhora Deschamps tinha achado meio de arranjar tudo; estavam pouco mais ou menos como os israelitas debaixo das tendas; mas que doce tenda que é a da amizade! Dormiram perfeitamente e acordaram bem dispostos.

No dia seguinte a senhora de Valneige quiz ir vêr Gella ao hospital, e levou comsigo Adalberto. Oh! Providencia! A pobre rapariga ia d'ali a uma hora fazer a sua primeira communhão. A fidalga teve a felicidade de estar ali, á cabeceira do leito, como uma mãe; o querido pequeno ajoelhou, e Gella, esclarecida, purificada, conheceu emfim o Deus de Adalberto, o Deus de quem está escripto que ama as suas creaturas.

A doente estava quasi em estado de emprehender viagem e de ir reunir-se a seu pae. No momento de lhe ir dizer adeus, Adalberto contou-lhe a scena do wagon. Fez-se como um clarão no espirito de Gella e olhou para a criança.

--Pequeno, disse ella baixinho, como d'antes, dirás a teu pae que acredito agora haver honra, e para lhe pagar rezarei todos os dias por ti; não posso dar-te mais nada, mas dou-te o que tenho.

Como percebeu que a senhora de Valneige a tinha ouvido, teve vergonha de tratar por tu o pequeno, e ajuntou:

[Ilustração pág. 263. O homem de ferro desceu tambem. (Pag. 261.)]

--Perdoe-me, senhor Adalberto, se ouso ainda dizer-lhe _tu_; é a ultima vez! Não nos veremos mais sobre a terra...

E Gella desatou a chorar. A senhora de Valneige respondeu:

--Não chores, minha filha, diz-me o coração que nos havemos de tornar a vêr; sê honrada, sê christã e Deus será comtigo. Não sei o que vai ser de ti; mas, visto que a tua enfermidade não te deixa d'aqui por diante seguir uma vida de saltimbanco, quero ajudar-te a trabalhar ou como costureira ou fundando-te um pequeno negocio. Acceita este dinheiro, que pagará a tua viagem e te permittirá começar qualquer coisa e esperar o ganho.

Ao mesmo tempo entregou a Gella um bilhete de quinhentos francos. A doente via este bilhete na sua mão e não podia acredital-o.