A Casa do Saltimbanco

Chapter 1

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BIBLIOTHECA ROSA ILLUSTRADA

A CASA DO SALTIMBANCO

[Ilustração pág. 2. A Casa do Saltimbanco.]

A CASA

DO

SALTIMBANCO

POR

MADAME DE STOLZ

Obra ornada com gravuras

PARIS GUILLARD, AILLAUD & C.ia Livreiros de Suas Magestades O Imperador do Brasil e El-Rei de Portugal. 47, RUA DE SAINT-ANDRÉ-DES-ARTS.

BIBLIOTHECA ROSA ILLUSTRADA

*Que amor de criança!* pela Exma Sñra CONDESSA DE SEGUR 3 fr.

*Os Desastres de Sophia*, pela Exma Sñra CONDESSA DE SEGUR 3 fr.

*As Ferias*, pela Exma Sñra CONDESSA DE SEGUR 3 fr.

*Infancias celebres*, por Mme LUIZA COLET, traducção de MANOEL PINHEIRO CHAGAS 3 fr.

*As Meninas exemplares*, continuação dos Desastres de Sophia 3 fr.

*Thesouro da mocidade portugueza*, ou a Moral em acção, escolha de factos memoraveis e anecdotas interessantes, proprias para inspirar o amor da virtude, e para formar o coração e o espirito 2 fr. 70

*Thesouro das meninas*, ou Lições d'uma mãe á sua filha ácerca dos bons costumes e da religião 3 fr.

*Thesouro de meninos*, obra dividida em tres partes: moral, virtude, civilidade! fr. 50

Paris.--Typ. GUILLARD, AILLAUD & Cia.--1886.

CAPITULO I

Adalberto era feliz.

Seria difficil imaginar uma vivenda mais linda do que aquella em que corriam os primeiros annos de Adalberto; era o campo da Normandia com seus vallados, seus arbustos, extensos prados, campos dourados, com todos os seus perfumes e flôres. D'estes thesouros participava Adalberto com todas as outras crianças do logar, porque para todos tinha Deus dado aquellas felicidades; mas, do que só aquelle rapazinho gozava, com seus irmãos e sua irmã, era d'uma bonita e grande casa, cujas janellas deitavam para um lindissimo jardim, onde se podiam admirar as mais formosas rosas.

Por todos os lados arvores verdes, alamos, sobreiros, carvalhos, ormeiros, por entre as quaes se viam ora ruas caprichosas, ora limpidas aguas onde viviam lindos peixes. No fim do parque havia um labyrintho formado por lilazes e clematites onde a gente se perdia; tantas voltas elle dava. Esse labyrintho parecia feito de proposito para jogar as escondidas; e era um dos grandes divertimentos de Adalberto andar procurando seus irmãos Eugenio e Frederico, e sua irmã Camilla.

A cincoenta passos do castello via-se n'um grande lago um barco pintado com as mais vivas côres. Este barco era o encanto de todos os pequenos. Um passeio sobre a agua, ao luar, era o mais desejado de todos os divertimentos de Valneige, talvez porque este favor só se obtinha quando se era premiado, e a troco dos _muito bem_ e _optimamente_. É que não ha maior prazer do que aquelle que alcançamos pelo cumprimento do dever.

Perto do lago havia um bonito casal pertencente aos paes de Adalberto, e alli, uma duzia de vaccas em uma grande arribana, e mais um toiro que mettia medo, apesar do seu olhar bem meigo. Mais longe, n'uma grande estrebaria, sete ou oito cavallos de lavoura, grandes e robustos. Defronte quatrocentos carneiros chegando-se uns para os outros, vivendo felizes e tranquillos. No pateo, na estrebaria, nas mangedouras, na estrumeira, sob os telheiros, por toda a parte gallinhas, frangãos, gallos, gansos, patos, uma multidão de pequenos seres esvoaçando, banhando-se, brigando e escarnecendo de todos com uma incrivel sem ceremonia.

A tia Barru era a rainha d'este pacato imperio, ou por outra era a caseira; sendo muito razoavel, só perdia o seu bom humor em duas occasiões: quando um criado se embriagava, ou quando uma gallinha ia esconder longe os ovos. N'estes casos, que ella reputava merecedores da forca, ralhava do criado e da gallinha durante muito tempo; se não tinham emenda; punha-se o criado na rua e a gallinha na panella.

Pode imaginar-se quanto eram agradaveis os primeiros annos de Adalberto passados entre brinquedos e estudos nada difficeis, sob as vistas de paes extremosos. Eugenio e Frederico, ambos mais velhos do que elle, iam entrar no collegio com grande desgosto de Adalberto, que muito gostava d'elles, apesar das suas continuadas questões. _Os grandes_, como diziam em Valneige, sabiam que se não deve abusar da força, e como teriam de certo vencido Adalberto, tão pequeno e delicado, estes bons rapazinhos consentiam, seguindo os conselhos de sua excellente mãe, em ceder nas questões de todos os dias a proposito d'uma pella ou d'um peão.

Camilla era toda doçura, e, ainda que tivesse perto de quatorze annos, entretinha-se a jogar as damas com o seu manosinho, a quem os oito annos faziam muitas vezes confundir as suas tabulas com as do adversario. Era dotada de toda a paciencia de sua mãe e da seriedade de caracter de seu pae. Os senhores de Valneige tinham-lhe dado uma grande prova de confiança, permittindo-lhe que cuidasse da primeira educação de Adalberto, que lhe chamava _mamãsinha_. A querida menina, graças aos verbos e aos themas, tratava-o ás vezes por _meu filho_, tomando um ar serio, que fazia rir immenso o senhor de Valneige.

Tudo estava regulado no campo; as horas da comida, as do estudo e as do recreio. Como a regularidade é, em tudo, uma excellente coisa, havia no palacio dois relogios; um de _dar horas_ outro _vivo_. O primeiro estava dependurado no vestibulo; o segundo subia e descia a escada trinta ou quarenta vezes por dia, entrava nos quartos, ia, vinha, girava, ralhava, sabia tudo, via tudo. Ah! que relogio! chamava-se Rosinha; tinha-lhe a madrinha posto este lindo nome julgando que a afilhada nunca envelheceria; mas como havia já setenta annos, a afilhada tinha rugas, as mãos magras, e as faces encovadas.

[Ilustração pág. 9. Meu filho! (Pag. 8.)]

Era uma boa mulhersinha, bem activa, um pouco impertigada, mas muito bondosa e inteiramente dedicada á familia, e á casa. Estava alli havia tanto tempo que ninguem fazia idea do que seria Valneige sem Rosinha, nem Rosinha sem Valneige.

A boa da velha tinha conservado as saias curtas d'outro tempo, as toucas chatas com folhos encanudados, o lenço do pescoço branco com flôres vermelhas, emfim o que ella chamava o _trajo da sua terra_. Rosinha era de uma tal exactidão que chegava a ser minuciosa; conhecia a hora pelo cantar do gallo, pela sombra das arvores, pelo grito das aves, pelas fraquesas de estomago que tinha em certos momentos, e pelas caimbras nas pernas, que sentia um pouco mais tarde: era, por consequencia, d'uma inexcedivel exactidão no cumprimento de toda a regra estabelecida. Se Rosinha governasse o mundo, os que se queixam por elle andar torto tambem se queixariam; tão direito elle andaria!

Graças a este espirito de exactidão chamavam-lhe o _relogio vivo_ de Valneige, e na realidade ter-se-hia bem dispensado o outro, que só sabia dar horas, como uma machina que era. Um olhar de Rosinha mandava para o trabalho os pequenos preguiçosos, que se entretinham na escada ás horas da lição; um gesto seu chamava do fim do parque os mais traquinas; emfim, nas circumstancias importantes, a sua voz imperiosa obrigava cada um a entrar no seu dever, fosse qual fosse a distracção presente.

Em vez de se dizer; o relogio vae dar horas; dizia-se, Rosinha vae passar, e o regimento desfilava em boa ordem sem dar palavra. Os senhores de Valneige approvavam muito esta vigilancia que tornava mais facil a sua, e as proprias crianças, temendo um pouco os ares sérios que a velha sabia tomar, gostavam comtudo d'ella porque era justa, porque fazia os dôces, e porque era sempre ella quem da melhor vontade se prestava aos seus caprichos, comtanto que esses caprichos não se lembrassem de vir uma hora mais tarde ou mais cedo do que devia ser. O relogio primeiro do que tudo.

CAPITULO II

Adalberto tinha um grande defeito.

Adalberto era um bom rapazinho, d'olhos vivos, sorriso fino, corpinho bem feito, delgado como uma gazella, habil, agil e capaz de todas as galanterias. Era dotado d'uma physionomia feliz, quer dizer, tinha, quando não era mau, aquella expressão de frescura e de amabilidade, que previne os estranhos a favor d'uma criança.

Todos eram bons com elle, todos tinham empenho em lhe dar gosto, e comtudo, quando se conhecia bem, via-se que tinha um grande defeito, um muito grande defeito... Era desobediente!

Em vez de se lembrar que todas as pessoas que o rodeavam sabiam mais do que elle, tomava ares de sabichão, e suppunha que podia sem inconveniente fazer isto ou aquillo, tendo-lhe sido prohibido. Enganava-se com certeza, porque, mesmo quando não resulte nenhum prejuiso apparente, o mal da desobediencia é real, e vale a pena evital-o por causa dos grandes desgostos a que ordinariamente dá logar.

Já se viu um rapazinho que foge das vistas de seus paes? que vae justamente para onde não deve ir? que mexe n'uma e n'outra coisa, unicamente porque lh'o prohibiram? que só parece divertir-se bem nas horas destinadas para o trabalho? Se alguem viu um rapazinho, que se pareça com este retrato, pode dizer:--Era assim Adalberto.--Pobre Adalberto! Eu vou contar as suas terriveis aventuras; terriveis, sim, porque os cabellos se me põem em pé, quando penso nos perigos, que esta criança correu por se ter habituado a desobedecer.

[Ilustração pág. 15. Havia um gymnasio. (Pag. 14)]

E comtudo, dirão, havia muitos divertimentos em Valneige? Sim, havia muitos, sem se alcançarem pela desobediencia. Podia-se correr de roda das casas, das alamedas adjacentes e no pequeno bosque. Quando as crianças se mettiam nisso andavam bem uma legua. Havia um gymnasio, onde o corpo se exercitava a ser agil e desembaraçado; subiam á escada de corda, balouçavam-se, divertiam-se; emfim Adalberto tinha um gosto particular por este genero de entretenimento.

Mas, sobretudo, aquando se lhes juntavam os seus amiguinhos, era então que os pequenos se divertiam. Todos nós conhecemos estes divertimentos: põem-se em commum o bom humor, as invenções, as espertezas; faz-se d'isto um grande lote, e cada um participa d'elle sem prejudicar ninguem. Chega-se por este meio a novos resultados.

Em Valneige gostavam d'estas reuniões de crianças, e, como a visinhança o permittia, viam-se chegar na quinta feira de tarde tres ou quatro diabretes, que só queriam divertir-se. Davam-se então mil saltos, fazia-se um barulho de ensurdecer, e toda a especie de coisas muito innocentes, mas muito aborrecidas para o publico. Á quinta feira Rosinha tinha saudades da sua terra, da sua aldeia e até do seu berço, porque passava os seus ultimos annos a lamentar a desgraça de se ter dedicado com todas as véras da sua alma a estes travessos pequenos, dizia ella, que a faziam enraivecer, e que ella não deixaria por um imperio. Rosinha experimentava, como muitas vezes nos succede, duas sensações oppostas; por um lado a necessidade de se dedicar; por outro, a de lamentar, desde pela manhã até á noite, a sua dedicação. Quando qualquer d'aquelles queridos pequenos tinha algum desgosto, se cahia, por exemplo, e esfollava o nariz, a velha chorava e curava-o o melhor que sabia, mas depois, zangava-se com aquelle mesmo nariz por se ter feito mal, porque era fazer-lhe tambem mal a ella.

«Ai! repetia ella muitas vezes, que desgraça ter eu conhecido estas crianças! Que precisão tinha eu quando morreu meu amo de ficar com o filho, para me fazer de fel e vinagre? Podia bem, com o que tinha, ir socegadamente para a minha terra, ter a minha pequena casa, o meu jardimsinho, as minhas gallinhas, o meu gato e as minhas commodidades. E em vez d'isto fico aqui! Mas para que? pergunto eu. Ah! é de mais; já é tempo de descançar; tenho parentes que me querem; a minha resolução está tomada, já o disse ao senhor, e, logo que a neve se derreta, metto-me na diligencia e vou-me embora.»

Isto dizia ella no inverno, mas quando a neve se derretia, se algum dos pequenos lhe perguntava: Então, Rosinha, quando parte? Respondia segundo as circumstancias: «Ora! o que quer? Frederico tem muitas dôres de dentes! é preciso que eu lhe ponha todas as noites no ouvido algodão com oleo de amendoas dôces. Pobre-pequeno!... ou:--Socegue, que me não faria rogar para me ir embora, se os dois mais velhos estivessem n'um collegio; mas emquanto estiverem em casa... ou:--Ah! logo que eu veja que a menina Camilla anda bem direita, farei a minha trouxa; mas tenho tanto medo que fique defeituosa... ou então:--Assim que este marotinho d'Adalberto deixar de ser desobediente, vou-me embora; mas d'aqui até lá, preciso tomar conta d'elle como se fosse leite ao lume.»

Respondia assim a pobre velha, e a neve derretia-se, as arvores rebentavam, as folhas amarelleciam, cahiam, e Rosinha ficava, presa pelo laço mais forte que ha no mundo: uma antiga e verdadeira affeição.

Na quinta feira, isto succedia cincoenta e duas vezes por anno, Rosinha julgava mesmo que já não gostava de Valneige, nada, nada. Porque? Porque as horas não eram destinadas como de costume, e estava convencionado brincar-se desde o meio dia até ao jantar. Ora as brincadeiras são uma excellente occasião para se rasgar as calças e tudo mais, para se quebrar todas as coisas, até a cabeça.

Eis a razão porque a boa mulher passava toda a quarta feira a dizer:

«Que pena que ámanhã seja quinta feira!»

Nós, que não andamos atraz das crianças, podemos achar que taes brincadeiras são muito divertidas. A senhora de Valneige punha á disposição de todos raquetas, volantes, peões, ballões, pellas, arcos, e não sei que mais ainda!

Começava-se ao meio dia este alegre regabofe, e a boa mãe apparecia de vez em quando como um poder protector, que faz todo o bem possivel e evita todo o mal, e dizia com a sua voz grave e meiga:

«Vamos, divirtam-se, façam, o que quizerem, só lhes peço uma coisa, obedeçam, meus queridos filhos.»

«Não tenha receio, querida mamã, dizia rindo o bom Eugenio, de cara esperta, faces rosadas, sorriso franco; veja, nós divertimo-nos tanto que nem tempo temos para desobedecer.»

Dito isto Eugenio tomava o freio nos dentes, se fazia de cavallo, ou dava estalos com o chicote, se fazia de cocheiro.

Apenas sua mãe tinha tempo de lhe deitar um olhar de confiança e já elle estava longe. Quanto a Frederico, a seriedade, que lhe era natural, mesmo quando brincava, socegava a senhora de Valneige. Mas havia um sujeitinho, loirinho e muito galante que nunca respondia á doce admoestação de sua mãe; chamava-se Adalberto, está entendido, e tinha por alcunha _o desobediente_. Quando uma palavra atacava o seu defeito capital, tomava um ar distrahido, tratava de apanhar uma mosca, arranjava as coisas de modo que ouvisse o menos possivel o que se dizia, e, comtudo, percebia-o muito bem.

«Obedecei, meus filhos.» Isto queria dizer; Não vão brincar para ao pé da agua, sobretudo não mexam no bote. Não quero que vão á estrebaria sem serem acompanhados por Felippe, nem que passem por detraz dos cavallos, que podem atirar algum coice; que nenhum se lembre de querer montar a cavallo, a não ser que Filippe tenha tempo e condescendencia para se prestar a essa brincadeira. Não se debrucem do poço, nem saiam fóra da grade que separa o pateo da estrada, não corram para longe durante o passeio, nem se aproximem muito do moinho de vento, etc.

Adalberto sabia de cór estas prohibições e muitas outras. Quando ouvia sua mãe resumir tudo n'estas simples palavras: «Obedecei, meus filhos», quizera tapar os ouvidos com medo de perceber mais uma vez tudo o que se não devia fazer, pois era justamente do que elle tinha vontade, e veremos bem depressa o que em consequencia d'isso lhe aconteceu.

CAPITULO III

Adalberto havia desobedecido

Quaesquer que sejam os encantos da vida quotidiana, dá sempre gosto quebrar a monotonia mesmo nos nossos prazeres. É facil imaginar os transportes de alegria, que houve na familia, quando o senhor de Valneige declarou um bello dia, ao almoço, que ia pôr em pratica um lindo projecto, formado havia muito tempo, e tão depressa aceito como combatido e adiado.

Esse plano reunia todas as condições para agradar, não só por ser encantador, mas porque era esperado com anciedade; havia um anno que os pequenos perguntavam uns aos outros em voz alta ou em segredo: quando será a grande viagem, quando veremos Paris, Strasbourgo, Vienna, Praga? lagos, montanhas?... Bastava esta idéa para fazer dar um pulo na cadeira, mesmo quando se estava acabando uma pagina de escripta, o que dava em resultado um grande borrão.

Estava, finalmente, decidido; ia-se partir para a Allemanha; ia-se viajar com socego, sem fadiga, sem outro fim mais de que a instrucção sem livros e o divertimento. É verdade que a senhora de Valneige, que desejava particularmente esta viagem, tinha uma outra razão que não dizia; dava-lhe cuidado a saude de seu marido, e os medicos julgavam que o melhor remedio seria a mudança d'ar e da maneira de viver; esperavam combater assim uma especie de melancolia nervosa, de que soffria o senhor de Valneige, e que de tempos a tempos era acompanhada de crescimentos.

Sua extremosa esposa disfarçava, cuidadosamente, para não aggravar o mal, todas as suas inquietações. Quanto ás crianças, como seu pae não estava de cama e se vestia como toda a gente, achavam-no optimamente.

Quando se soube da decisão deram-se palmas ás palavras do querido pae, e quando elle disse:

Partimos d'aqui a oito dias; saltaram-lhe ao pescoço...

Oito dias depois estava a caminho toda a familia; o fiel Gervasio, criado de confiança, acompanhava os viajantes e todos estavam contentissimos, excepto a velha Rosinha que tinha chorado boas lagrimas vendo partir os seus queridos filhos, como ella lhes chamava. Em os não vendo, julgava-os perdidos... pobre velha! se ella podesse adevinhar... mas não, não digamos nada.

Demoraram-se dez dias em Paris. As crianças admiraram sobretudo os passeios. A differença das idades e de instrucção fazia-se sentir na diversidade das apreciações. Por exemplo, em frente do palacio das Tulherias, Adalberto quasi que não olhava para o monumento historico, mas não se cansava de vêr os peixinhos encarnados que nadavam nos tanques, e os magestosos cysnes, cuja raça viu passar tantos acontecimentos, sem que por isso saiba a historia de França. Surprehendeu-o tambem muito o comprimento dos Campos Elysios, a multidão, as carruagens; mas o que sobretudo o impressionava, e d'uma maneira desagradavel, era a ordem, que lhe tinham dado, de não passear sem ir pela mão d'alguem. Isto pareceu-lhe insupportavel, e fez desmerecer consideravelmente, na sua opinião, os esplendores da capital. Pois elle tão independente em Valneige não teria vindo a Paris senão para ser tratado como uma pequenita? Que vergonha! um homem! Coitado! pobre pequeno! Se elle podesse imaginar... mas não, ainda não é tempo.

Depois de ter visto em Paris o que mais podia agradar ás crianças, o senhor de Valneige tomou o caminho de ferro de Leste, e, parando sempre nas principaes estações, chegaram a Strasbourgo, onde admiraram a cathedral, esse grandioso monumento que attesta o desenvolvimento successivo da architectura gothica, desde a sua origem derivada dos cimbres até ao acabado que se nota na nave principal.

O grande relogio astronomico, cujas horas são marcadas por figuras, que apparecem e desapparecem; espantou e maravilhou os nossos viajantes muito mais do que o cruzeiro e a fachada. Quanto ao pequeno Adalberto, a despeito dos famosos architectos, e até de Vauban e da sua cidadella em pentagono, só viu em Strasbourgo uma unica coisa, o gallo que canta sobre a torrinha lateral, no momento em que o maravilhoso relogio dá meiodia e em que todos os apostolos apparecem juntos. Um gallo fingido e que canta como se fosse verdadeiro! é incrivel!

O pequeno ficou pois espantado, não propriamente de Strasbourgo, mas do gallo que para elle era tudo em Strasbourgo. Comtudo, esta bonita e magestosa cidade tinha tambem um grande inconveniente... era preciso andar pela mão!

Partiu-se para Vienna, parou-se pelo caminho, como se tinha feito de Paris a Strasbourgo. O senhor de Valneige tendo resolvido demorar-se pelo menos oito dias na capital da Austria, houve tempo de vêr muitas coisas e de passear com vagar na grande alameda do Prater e n'outras mais. As crianças não se cansavam de admirar o que se chama o Prater selvagem, parte do qual é uma antiga floresta, onde pastam veados e cabritos montezes. Estes, lindos animaes, juntando as vantagens da vida domestica aos encantos da liberdade, ouvem, todas as noites o som da buzina, e dirigem-se para junto da casa de campo, onde os espera uma distribuição de ração.

Eugenio e Frederico achavam isto uma bella idéa, e tinham razão.

O chefe da familia levou seus filhos ao arsenal e fel-os visitar as differentes officinas, onde se fabricam armas. Passaram alli tres horas e decidiram depois seguir para S. Cyro.

A senhora de Valneige tendo mostrado desejo de conhecer os arredores de Vienna, seguindo em caminho de ferro a margem direita do Danubio, todo o rancho se pôz a caminho. Viu-se primeiro Schonbrunn, castello imperial, acabado no tempo de Maria Theresa. N'este castello nota-se o quarto onde Napoleão assignou o tratado de Schonbrunn em 1809, e onde vinte e tres annos depois, pela instabilidade das coisas humanas, morreu seu filho o duque de Reichstadt. Adalberto, pela sua pouca idade, reparou menos n'este contraste historico do que nas trinta e duas estatuas de marmore, que ornam a linda fonte, que dá o nome ao castello, e sobretudo no leão e nos outros animaes que se vêem nas jaulas.

Visitaram tambem o castello de Luxembourgo. De todas as recordações austriacas, as que mais prenderam a attenção de Adalberto, foram as velhas carpas doiradas, que viu no lago, quando voltaram do castello para a estação do caminho de ferro; deu-lhes pão, que ellas se dignaram aceitar, como tinham feito os peixinhos encarnados das Tulherias. Vê-se que Adalberto era bem recebido não só em França mas na Austria.

Passaram-se rapidamente estes oito dias e os viajantes emcaminharam-se para Praga, parando sempre nas grandes estações. Adalberto deixou Vienna sem saudade; achava que havia na capital da Austria uma coisa muito aborrecida, um verdadeiro e muito grande inconveniente--era preciso andar pela mão. Não se pode fazer idéa do espirito de independencia d'este sujeitinho. Obedecer era para elle um supplicio. Pobre, pobre Adalberto!

Estavam todos muito contentes por entrar na Bohemia. Este nome, dizia Camilla, tinha seu que de extraordinario, de interessante e mesmo um pouco de assustador; parecia-lhe que n'este paiz só devia haver gente, que lêsse a sina e deitasse _as cartas_.

O senhor de Valneige, que não perdia occasião de instruir seus filhos, contou-lhes em poucas palavras a historia d'aquelle terreno elevado, que está como fechado por uma cinta de montanhas e cortado pelas ramificações das mesmas montanhas.

Ensinou-lhes a não confundir os Ciganos com os Bohemios. Estes são os habitantes do paiz, que vivem como todos nós; os Ciganos, aos quaes tambem algumas vezes se chama Bohemios, formam um povo á parte, que conserva os traços caracteristicos de uma nação errante, que no seculo quinze se espalhou pela Europa, e principalmente na Hungria, na Italia, em França, e em Hespanha. Ha d'estas tribus nomadas em todas as nações; o nome muda, mas os costumes não. Em França chamam-lhes _Bohemios_; em Hespanha _Gitanos_; em Italia _Zingari_; em Inglaterra _Gypsies_; em Portugal _Ciganos_.