A capital federal (impressões de um sertanejo)
mim. Tudo dimana de causas naturaes, diz a philosophia, e acham os
evolucionistas que feliz é o homem que conhece todos os phenomenos da natureza, que sabe dizer, sendo preciso, por que razão a pedra deriva a gotta d’agua, para onde caminham as correntes dos rios, quantos millenios tem Syrius, porque é pallida a lua, quaes são as causas que presidem aos fluxos dos mares, a origem do homem e tudo mais que a sciencia investigou para esterilisar os productos mais delicados do espirito que, a meu ver, são--a imaginação e a esperança. Felizes são esses pobres homens que crêem nas boas fadas dos caminhos e nos genios dos campos. Felizes são esses que vêem na Via Lactea o caminho sagrado dos reis magos, attribuindo a pulverisação das nebulosas ás patas dos dromedarios que vieram do Oriente parar á entrada da lapa em que Jesus dormia. Felizes são os que podem ainda imaginar mysterios... Oh! os crentes, os religiosos! esses é que são os bemaventurados, não no céu, aqui mesmo, na terra, porque esperam, porque não duvidam. Aquelle homem que ali está desfeito em gargalhadas nunca leu um aphorismo, desconhece a syntaxe e as causas finaes, nunca atravessou uma noite acotovellado á banca do jogo, nem de certo poliu os seus beijos procreadores--é um simples. Trabalha e crê, conhece o _Ave_ e respeita a Lei, ama e quando chega á casa, estafado e moído, o seu primeiro cuidado é para o filho mais novo--toma-o nos joelhos e brinca com elle a rir. E dorme em paz, porque não tem problemas a resolver nem gazes de dyspepsia. É um animal amoroso e puro... E sinceramente, não é preferivel levar a vida assim materialmente, em ignorancia beata, abençoando as estrellas cadentes e commungando, de vez em vez, a andar pelo mundo empanturrado de pessimismo, repetindo com o «Ecclesiaste» que tudo é vaidade?
O homem não nasceu para maldizer sómente, creio eu. «A resignação é o heroismo da desgraça.» Um moralista exprimiu-se mais ou menos nestes termos, mas eu devo confessar que não tenho absolutamente o sangue heroico--sou um pusillanime. Dêem-me novidades, imprevistos, qualquer coisa que me commova: um grande amor, um grande odio. Infelizmente, porém, o amor adquiro-o como adquiro as luvas e os plastrons, por um preço, por outro, mas sempre a dinheiro... É sordido! É vil! Não foi para mealheiro que Deus, ou não sei quem, fez o coração. O amor é uma permuta de affectos e não um mercado. Mas que quer? comprar um beijo, pagar um sorriso, subornar uma meiguice... eis em que consiste a civilisação; isso é requinte, é espirito.
Duas mulheres passaram por nós discutindo em dialecto aspero, esgrimindo com os leques, frementes, terriveis. As vozes subiam, já da platéa reclamavam silencio com prolongados «psios».
Os homens, que cercavam a balaustrada, interessados no escandalo, vieram aproximando-se. Descia gente em tropel e as duas, uma em frente da outra, ameaçadoras, mirando-se roxas de furia, vociferavam com grandes gestos. Repentinamente brandiram os leques e engalfinharam-se--os chapéus rolaram para o chão, as fitas voaram e, apezar da immediata intervenção de alguns rapazes, as duas lutavam, já com os leques partidos, numa algazarra bravia. Na platéa havia gente de pé. Os actores, em scena, emmudeceram e o grande diabo, curioso, coçando o queixo agúdo, alongava os olhos procurando ver á distancia as heroinas. Os coristas, amontoados sem ordem, cochichavam. O regente voltara-se e varios musicos, de pé, olhavam curiosamente; um deixou-se estar sentado, aproveitando a balburdia para afinar o seu violino. Trilaram apitos, mas já haviam apartado as belligerantes. Appareceram praças e o povo foi descendo, em onda compacta, em direcção á porta. Ouvia-se ainda, de vez em vez, um guincho colerico. Por fim irrompeu uma assuada tremenda e gargalhadas estrepitosas abafaram as phrases violentas de uma das mulheres.
Já no palco haviam recomposto a scena, o diabo carregara de novo o sobr’olho e, quando avançou para o ponto, sustentando uma nota grave, de novo o povo reclamou silencio e, pouco a pouco, foi recahindo a tranquillidade.
--Foram presas, doutor?
--Não, fazem-n’as sahir simplesmente. Estalaram palmas estrepitosas, olhámos: o panno vinha descendo lentamente sobre uma scena flammejante.
--Falta-nos ainda um acto, suspirou o doutor. E não ha infelizmente duas outras mulheres ciumentas.
Ao fim do espectaculo, depois de uma fulgurante apotheose no reino das perolas, de grandes pylonos côr de opala, regado d’aguas lactescentes, floridas de nelumbos por onde andavam cysnes alvadios, reino administrado pela magia dos olhos de Jesuina e pelos cordeis do machinista, veiu abaixo o panno ao som abemolado do côro triumphal das nymphas, que exaltavam o poder da soberana. O diabo, corrido e humilhado, estarrecido ao fundo, entre columnas gyratorias rugia, rolando os grandes olhos chammejantes e orlados de malacachetas. O povo, em delirio, prorompeu em gritos, victoriando a boa fada pelo seu nome humano, mais doce, talvez, que o da magica:
--Á scena, Jesuina! Bravos a Jesuina! E uma voz isolada accrescentou num berro agudo:
--Jesuina na ponta!
E tudo desappareceu.
A retirada foi rumorosa e lenta. O povo escoava aos empurrões como uma grossa e pesada torrente contida muito tempo pela comporta de uma represa. As luzes minguavam e, pouco a pouco, veiu cahindo a sombra; o silencio substituiu o rumor. O panno levantou-se de novo sobre um fundo de andaimes e de sarrafos. Fóra andava um meninote assobiando baixinho, com a bengala ao hombro, passeiando ao longo da varanda.
--Vamos esperal-a á porta da caixa. E, em segredo, indicando-me o rapazito solitario, disse-me o doutor:
--Ali está um que não nos perdoará a aventura de hoje. É um terrivel amoroso. Governa o partido da Jesuina. Só em flôres gasta todas as noites para mais de cinco mil réis. Já fez tirar uma polyanthéa glorificando a actriz que, incontestavelmente, tem um lindo collo, mas que desafina soffrivelmente e no terreno da concordancia é como um louco diante de um taboleiro de xadrez: baralha tudo. Emfim, como o fim utilitario da mulher é o amor, Jesuina cumpre admiravelmente o seu destino na vida, porque, sem encomios, é um bello exemplar do sexo.
Começavam a sahir os actores; alguns com embrulhos debaixo do braço. Uma mulher, de mantilha, passou por nós ninando um pequerrucho. Um sujeito magricela, de longas pernas e farto bigode, com agudas saliencias de ossos, deu-nos boa noite em tom amigo.
--Quem é? indaguei.
--É o diabo; pois não conheceu...? é o diabo. Chama-se Silveira.
Voltei-me para ver ainda uma vez o vencido, elle lá ia, murcho e sorumbatico, mascando uma ponta de charuto, triste, desmanchado, já sem os arreganhos terriveis, sem a attitude audaciosa e ostensiva com que surgira entre os seus sequazes, bradando pelas furias do Averno e arrancando gritos ás crianças. Ia abatido e não era, de certo, o poder da vara de Jesuina que o derreava, não, deviam ser preoccupações communs. Talvez tivesse um filho doente, sogra de perfeita saude ou, quem sabe se o pobre diabo não estava ameaçado de ser lançado á rua pelo senhorio feroz...? Fosse o que fosse, achei-o mais sentido dentro do frak e nas calças de brim do que na farpella purpurina de rei dos demonios, anniquilado pela magia das pupillas de uma mulher, tres vezes mais forte com as suas nymphas do que elle com a legião de bruxos negros e diabretes.
Em seguida um casal, muito aconchegado, cochichando--a mulher, com uma indignação mal contida, elle calmo, grave, respondendo com pequenas phrases. Depois uma onda tumultuosa, com alarde, achincalhando coplas--os coristas.
--Está demorando, disse o doutor impaciente. Mas no mesmo instante a porta abriu-se e Jesuina appareceu no patamar, seguida da velhota.
--Salve a formosa apsara! saudou o doutor.
--Estão cançados de esperar? indagou sorridente.
--Nem por isso.
Jesuina pareceu-me menos formosa no seu vestido marron e com a cabeça coberta por uma capota de veludo. Confesso--e vai nisto uma ingenua franqueza--confesso que a Jesuina que meus olhos aguardavam anciosos e desinsoffridos era a outra, a que eu vira no palco, entre nymphas, na nudez artistica do maillot, afoufada em rendas, com os cabellos soltos e á fronte o diadema régio. Era assim que eu esperava vel-a, de sorte que tive uma pequena desillusão quando ella assomou á porta, em toilette vulgar, como todas as mulheres, ella, que para mim não era outra senão a propria, a verdadeira fada das perolas, que apparecera em scena, affrontando o Demonio. O doutor sussurrou-lhe:
--Aceita o braço que te offerece o meu amigo, tenho de dar um pulo á Maison para desfazer um compromisso. É um instante. Comprehendi a delicadeza do pretexto e adiantei-me pressuroso e ella, voltando para o meu rosto os olhos incomparaveis, ainda assim menores do que os que me haviam seduzido, indagou:
--Onde vamos?
--Onde quizer, disse-lhe.
--Ao Bragança, não é?
--Ao Bragança, sim, affirmou o doutor. E venham vindo porque já os encontro no Rocio. E até já. Partiu como uma frecha.
--Thereza, podes ir, disse Jesuina á velhota.
--Boa noite, meu senhor. Então até logo.
--Adeus! E a velhota partiu compondo o chale. Sahimos. Á porta havia um homem de gorro, que nos offereceu um carro.
--Sim, vamos, disse eu.
--Oh! não vale a pena. Tomar um carro para ir ao Bragança! Não, vamos andando. E já intima, maliciosa, apertando-me o braço: É preguiçoso assim?...
--Não, gosto de andar, faço leguas a pé, mas... E não me atrevi a dizer-lhe a verdade: eu não sabia onde era o Bragança. Felizmente, porém, o doutor surgiu a uma porta.
--Oh! pois ainda vêm ahi...? E adiantando-se: Os corações já se fizeram amigos? E ella, repousando no meu braço, com um languido olhar e um doce sorriso: Creio que sim.
--Creio que sim, corroborei sorrindo.
Mas o doutor deteve-se para dizer em tom sentencioso:
--Devo observar aos meus amigos que o amor é um sentimento digno, que deve ser cultivado como uma flor preciosa, mas acima do amor ha alguma coisa que é preciso não esquecer...
--Deus! disse ella com beatitude.
--Não, filha: o estomago. Temos um gabinete no Bragança á nossa espera. Depois do champagne gelado os beijos têm mais calor. É a reacção. Cá por mim, como pretendo passar a noite como Santo Antão, comerei alguma coisa solida...
--Você só!?
--Sem duvida. Quando se vai á Cythera é perigoso levar farnel.
--Pois sim... E, com um muchocho, Jesuina achegou-se a mim. Senti-lhe as carnes... Que carnes!
XII
Triste manhan.
Bocejei espreguiçando-me e estirei-me na cama, mas com que alquebramento! Sentia uma fadiga de longas jornadas, como se tivesse viajado sem repouso estiradas leguas ao sol, curtindo fome e sêde. Doíam-me as pernas, e que saburroso gosto, Deus meu! e que dormencia de idéas! Tentei, por vezes, saltar da cama, mas a energia abandonara-me. O corpo, apezar do esforço, abatia amollecidamente. Deixei-me estar deitado com os olhos no docel e, nessa attitude inerte, recapitulei as scenas da noite da vespera.
A ceia! Regalado repasto! Lembro-me que começou por uma salada de lagosta, que o doutor acolheu com uma prelecção sobre os molluscos e Jesuina com palmas e gritinhos. O que veiu em seguida não sei bem e não me seria facil recordar porque, emquanto o criado substituia pratos e talheres, emquanto o doutor recitava dythirambos exaltando a excellencia dos vinhos de França e do Rheno, eu extasiava-me nos olhos de Jesuina que, de vez em vez, abrindo sobre as nossas cabeças o leque de pennas, como a aza do amor, protectora e discreta, dava-me um beijo, mais doce do que o vinho, oh Sunamita! mais doce do que os favos deliciosos das abelhas, Aristêu!
A palestra erudita, finamente colorida e nobremente elegante do doutor, perdeuse. Era em vão que elle recapitulava as orgias primévas e os festins colossaes dos antigos. Que me importavam, a mim, as dionysiacas! Que me importavam os brodios de Roma e de Carthago se eu tinha ali, ao alcance da boca, a vinha por excellencia, que eram os labios da Jesuina. Que falasse o doutor, que não estancasse nunca a fluencia doutissima das suas palavras, Jesuina, com o seu arrulho de pomba mansa, prendia-me, absorvia-me todo e eu não tinha ouvidos senão para o que ella dizia e só aos seus beijos respondiam meus labios.
Vinhos diversos subiram da adega preciosa do Bragança e da adega á minha cabeça. Provei de todos, porque Jesuina queria que eu bebesse á nossa felicidade, ao nosso amor eterno, á estrella que nos illuminara o encontro, aos seus olhos, á sua boca... e eu, vencido, bebia sem murmurar até que, por fim, o doutor, sempre fecundo em idéas, encommendou um punch em chammas, ardente como o nosso amor.
Veiu numa grande terrina fulgurante e alumiou a mesa com um clarão tábido. O doutor, num assomo, ergueu a sua taça e pronunciou um brinde em que passaram, lembro-me vagamente, as gerações que adoravam Agni, o immortal, o lume eterno, e veiu pelos caminhos difficeis da historia, parando em todos os templos para mostrar, no mais reservado do ádyto, a chamma sempre vigilante, que é o symbolo da fé. E bebemos.
Findam ahi as minhas memorias dessa noite. Do que mais houve não sei--tenho o estomago abrasado como se houvesse emborcado a terrina, engulindo vorazmente o punch em chammas.
Meu tio, surgindo á porta do quarto, com uma physionomia grave e carregada, fulminou-me com o olhar.
--Bom dia, meu tio.
--Bom dia, disse-me elle, puxando uma cadeira para junto da cama.
Compuz as cobertas, enfiei os dedos pelos cabellos para alisal-os e esperei grandes coisas porque, certamente, iam cahir grandes coisas da boca de meu tio.
--Então, que foi isso hontem?
--Isso que, meu tio...?
--Ali! meu sobrinho, razão tem teu pai--elle é que está no caminho da verdade. Na carta que me escreveu disse-me que não te désse liberdade, que te trouxesse sempre debaixo das minhas vistas, porque és ainda uma criança, apezar dos bigodes que tens. Decididamente és ainda muito criança, concluiu meu tio, baixando a cabeça como fulminado por um pezar profundo.
--Mas que houve, meu tio?
--Que houve? ainda perguntas...! Disse e levantou-se. Foi a um canto e, tomando de cima de uma cadeira um casaco, que eu reconheci immediatamente, abriu-o diante de meus olhos. Estava enlameado e roto.
--Que é isto, Anselmo...?
Baixei os olhos e não tive uma palavra, mas confesso que eu mesmo não poderia dar o motivo daquellas nodoas nem daquelles rasgões.
--Não sabes...? foi a ceia de hontem.
--A ceia de hontem!
--Sim, ficaste enlevado nos olhos de uma actriz e foste demais ao cantaro; finalmente, esquecendo as bôas regras da educação e do cavalheirismo, desmentindo o teu caracter e manchando o nome dos Ribas, quizeste... Mas tu estavas doido? indagou meu tio, assomado, agarrando a cabeça com ambas as mãos. Tu estavas doido, rapaz!
--Não sei, meu tio.
--Que diabo, eu tambem bebo...
--Mas eu não bebo, meu tio, foi uma vez... um incidente...
--Sim, um incidente, que teria funestas consequencias se, em vez do doutor, que é um cavalheiro, fosse outro homem.
--Mas que houve?! Fale, pelo amor de Deus!
--Que houve! Pois não te lembras que esmurraste o doutor num gabinete do Bragança!?
--Eu! bradei saltando da cama. Eu...!
--Tu?!
Emmurcheci de vergonha e só levantei a voz para declarar peremptoriamente que partia á tarde, pelo nocturno.
--Hoje?
--Sim, meu tio: hoje mesmo e para o sempre!
--Pois então avia-te, porque são quatro e meia.
--Quatro e meia! Eu então estou dormindo...?
--Ha doze horas, senhor meu sobrinho; ha doze horas! E solemne, sem mais dizer, retirou-se do quarto.
Foi morrendo o rumor dos passos de meu tio e achei-me só com o meu remorso. Baixei os olhos para o pellego amarello e vi as minhas botinas manchadas como o nome immaculado e probo dos Ribas, que eu arrastara, sem escrupulo, pelos canaes do vicio, como um podengo estrafega e arrasta pelas sargetas um trapo. Tentei aturados esforços para reconstituir a scena nefanda que tanto me rebaixara aos olhos do meu digno tio, mas a embriaguez correra um denso véu sobre o passado. Sentei-me na cama como um bonzo e meditei sobre os acontecimentos dessa noite de depravação e delirio, mas só consegui lembrar-me dos olhos de Jesuina--divinas pupillas de mulher, supercilios divinos! Por fim o raciocinio foi desbastando, pouco a pouco, a densidão alcoolica e deduzi, com profunda logica que, se eu esmurrara o doutor, não fôra sem motivos, a menos que o punch illuminado me não tivesse enlouquecido por momentos. Mas do fundo do meu amor levantou-se o espectro terrivel do ciume--ah! fôra de certo o ciume o movel desse crime.
O doutor, apezar das doutrinas que expende, é azevieiro como D. Juan e Jesuina não é mulher que se despreze, principalmente depois de uma terrina de punch em chammas, e assentei que quem armara o meu braço, quem fechara o meu punho para os murros fôra esse mesmo sentimento que fez do mouro apaixonado um estrangulador e que, em nossos dias, na cidade tranquilla do meu sertão, armou uma scena de escandalo na sacristia da igreja parochial em que me lavei dos peccados e ganhei o nome de Anselmo, entre o padre Coriolano e o sapateiro Gaudencio, afinador de pianos e trombone da philarmonica.
O ciume...! Jesuina! devo-te a triste desgraça de ter molestado o meu illustre e douto cicerone. Se algum dia o domares com os teus olhos doces e crueis, arranca-lhe do fundo do odio o perdão para os murros que por teu amor lhe dei, lembrando-lhe que Jesus tambem perdoou, invocando piedosamente, com a santissima resignação de martyr, a clemencia do Pai para os legionarios: «Perdoai-lhes, meu Pai! elles não sabem o que fazem!»
Eu tambem não sei que fiz, palavra de honra, posso mesmo ajuntar que não foi por querer.
Que fazer? Correr á casa do doutor para pedir-lhe que relevasse a brutalidade do meu vinho brigão, confessar a minha fraqueza...? não. Decididamente só me restava um alvitre--voltar á minha terra e esconder entre as arvores, que me viram criança, boas arvores amigas que me carregaram tantas vezes nos seus braços verdes, a minha vergonha, o meu opprobrio. Era, de certo, a resolução mais acertada e mais digna. Saltei da cama e enfiei as calças, adiantando-me para o espelho, curioso de ver a devastação da minha physionomia e não foi sem pasmo que reconheci todos os meus traços intactos--apenas a barba, que apontava, punha-me uma orla azul pelo queixo e, em volta dos olhos radiados um halo roxo--no mais era eu mesmo, fresco e forte, com as minhas cores de serrano, com os meus cabellos negros, em bucres, como os do Apollo.
Vendo-me, esqueci por momentos a estroinice e admirei-me e pensei com vaidade que Jesuina, no silencio do seu boudoir, quando se lembrasse de mim, havia de lastimar a minha ausencia e quem sabe se aquelles olhos formosos não humedeceriam lenços por minha causa, quando eu, já em caminho, de volta ao lar, fosse revendo esses campos monotonos e essas varzeas de uma eterna verdura por onde caminham rebanhos, mugindo, á luz de ouro das manhans.
Pobre Jesuina...! suspirei commovido. Mas, de novo, appareceu-me a idéa da partida. Lancei os olhos a um canto e vi a minha maleta aberta, como se tambem quizesse demonstrar-me a necessidade imperiosa e inadiavel de seguir. Resignei-me e, mollemente, descalço, fui ao cabide buscar o jupon para retemperar-me no banheiro, lavando abundantemente o corpo, já que não podia fazer o mesmo á reputação. Desci.
Meu tio, debruçado á varanda do jardim, extasiava-se no crepusculo, já prompto para jantar. O criado taciturno arranjava a mesa. Nas gaiolas os canarios cantavam estridulamente. Passei de leve como uma sombra; o criado lançou-me um olhar malicioso e baixou a cabeça.
Refrescado e vestido vim tomar o meu lugar á mesa. O tio recebeu-me sem azedume, mais cordial e mais meigo e, quando provou o polme de ervilhas, com os beiços a escorrerem, arregalou-me os olhos como se me quizesse dizer que atacasse, porque estava delicioso! E até a hora dos badegetes não falámos. Foi justamente quando o criado poz diante de mim os peixes que descerrei os labios.
--Não, meu tio, disse repudiando o vinho que elle me servia.
--Como! peixe sem vinho...? estás doido! E, teimoso, verteu no meu calice verde as gottas de Chablis. O vinho é um reactivo, disse-me. Lá porque hontem houve aquella historia queres deixar de beber...? Historia!... O vinho é um tonico poderoso. Atiça-lhe! e piscou-me o olho. Corei e bebi umas gottas.
--Então embarcas amanhan?
--Impreterivelmente!
--Mas que diabo vais fazer a Minas?...
--Preciso. Meu pai chamou-me e meu tio bem sabe...
--Ora, teu pai! Teu pai pensa que no Rio de Janeiro não ha outra coisa senão febre amarella. Deixa-te estar, homem... Goza a mocidade emquanto é tempo.
--Não, meu tio, sigo amanhan.
--Já sei, é por causa da scena do hotel. Pensas que o doutor tomou a sério as tuas bravatas? deixa-te disso. Elle tem criterio bastante para julgar essas coisas. Queres saber, sentiu-se tanto que até te trouxe á casa ao collo.
--Como! Ao collo, meu tio!
--Ao collo, sim, porque quando aqui chegaste foi um trabalho para que te tirassem do carro. Vinhas lacrimoso, soluçando, abraçado com o doutor, lamentando a perda da mulher amada e recitando emphaticamente versos do Simão Carreira. Esmurraste o doutor, mas, que diabo! murros de bebedo... E desatou a rir espalmando a mão larga e dadivosa sobre o meu hombro. Ora, o Anselmo! onde diabo foste achar tantas lagrimas? Teus olhos eram como duas torneiras abertas... Mas deixemos o que houve: aguas passadas... Vamos ao que serve: Temos hoje, á noite, a festa do Bessa. Esperam-te...
--A mim, meu tio?
--Então? Has de ir para a roça sem uma noção do grande mundo, do que chamam high-life? Não, senhor...
E emborcou o copo de Bourgogne.
XIII
O baile do Bessa... (Commendador Saturnino Pecegueiro Bessa, 52 annos, da ordem de Christo, alguns gráus maçonicos, varios predios e duas filhas; viuvo.) O baile de 4 de Setembro, data do natal memoravel da beneficencia encarnada... como descrevel-o neste tempo curto que me resta emquanto arranjam a minha bagagem? Como descrevel-o assim asinha e de afogadilho sem retocar o estylo? Arte exige, e muita, a pintura de tão encantador e selecto convivio de damas e de cavalheiros.
Não, não descrevo, tenho tempo de sobra para commettimento que demanda esmero e argucia, esmero para fazer com que brilhem, na fórma ingrata das letras, a graça das senhoras e o sorriso das senhoritas, sorriso que affixa o reclamo de um coração disponivel, sorriso com que a garridice poz em reserva obsoleta a quadra da cantiga que começa:
Meu coração está vasio... etc.,
e argucia para penetrar o pensamento dos homens e as entrelinhas de uma certa viuva prematura, tão habil na seducção que... não é exagero dizer que essa notavel dama insinou em meu coração a mais inabalavel certeza da victoria dos meus olhos, pronunciando durante uma valsa de Strauss (o _Danubio azul_, que tem arrastado nas suas ondas harmoniosas muitos pares ao altar) duas phrases simples, mas de uma intenção clara e escandalosa que me fez corar. Simão Carreira, em uma ode immortal, explica que o pudor no homem é uma tolice... para as mulheres. Eu fui tolo durante os compassos de Strauss e a viuva acabou a noite nos braços de um estudante de pharmacia, mais lepido nas danças e mais desembaraçado em colloquios. O estudante, depois da quadrilha final, sabia o endereço da viuva e eu aqui estou amarfanhando o enxoval para a viagem de amanhan.
Dançou-se até meia noite com orchestra, dessa hora para a madrugada senhoras revesaram-se ao piano. As filhas do commendador, gentis e conversadas, entretiveram-me com algumas observações de fina e atilada analyse--falaram-me, com enthusiasmo, das pelouses lamentando apenas a falta de fiscalisação e os tribofes. Asseguro que esse termo feio e desgracioso «tribofe» não é uma invenção cerebrina, cahiu dos labios de Mlle, como uma lesma cahe das petalas de uma rosa. Os diccionarios não o inserem por escrupulo e, em verdade, «tribofe» é horrivel. Falaram-me da opera lyrica e, como eu indagasse se tinham ouvido Wagner, uma affirmou--que sim! Mlle. Alice. A irman, porém, não se lembrava e foi preciso que a outra recordasse a estréa de um vestido de faille para que a doce e angelica Delphina sorrisse achando a vaga reminiscencia dum cavalleiro e dum cysne.
Mlle. Delphina, romantica, durante uma languida habanera, falou-me, enternecida, do _Serge Panine_ e criticou a toilette exagerada da viuva que girava, com o busto em nudez, enlevada nas phrases therapeuticas do seu amoroso par.
Do que ouvi, no vão de uma janella, emquanto D. Brites, contralto, cantava ao piano um melancolico romance de Tosti, ficaram-me as palavras do Dr. Silverio Torres, deputado da opposição, socialista. Explicou-me, entre outras coisas, que a miseria é um resultado da abundancia, como a lama é o resultado do excesso da chuva. O mundo, no seu rudimento, não conhecia a miseria, disse-me---ella appareceu com a primeira moeda. E teve este pensamento, que deve ficar eterno como um dogma de economia politica: «Quereis ver um paiz de fome? entrai num paiz de millionarios», e estendeu o braço para o jardim procurando mostrar-me além, na grande noite, esse paiz de fome: Lá está, é a Inglaterra. Olhei machinalmente e vi as estrellas do céu. O Rio, disse-me mais, vive sitiado pelo varegista. Nós não temos esquinas, temos vendas, barreiras onde o pobre vai diariamente pagar o seu imposto. O taverneiro occupa os extremos da rua e, ás vezes, assalta o centro--e esse excesso de mercado é uma das causas da luta de contingencia. A luz é a vida, o excesso de luz é a chamma, é o incendio, é a morte. O taverneiro estabelecido torna-se, em pouco tempo, o senhor do quarteirão. Por intermedio do caixeiro, que vareja o mais intimo recesso da casa e espia e ouve emquanto conduz a lenha, levando para o patrão, conjuntamente com o dinheiro, o segredo da vida privada do pobre, o taverneiro torna-se uma especie de suzerano--elle fia, elle sabe. É das vendas que vêm os grandes desesperos para o proletario, é das vendas que partem as diffamações mais crueis. Dirão:--mas o pobre podia libertar-se desse jugo fugindo ao balcão do taverneiro. Infelizmente assim não é--nem sempre o mealheiro tine na casa do operario, o amanhan é tenebroso e no dia em que elle, baldo de recursos, por molestia ou por desemprego, tentasse o credito para o alimento dos filhos, o taverneiro, que não desconhece o prazer dos deuses, vingar-se-ia. A venda é o terror do pobre porque é o escoadouro do seu trabalho e, muitas vezes, a causa das suas lagrimas. Concordei. Elle ainda me fez saber o que eu, até então, ignorava--que essas casas de penhores são uma instituição do luxo. E demonstrou com sabedoria: Esses estabelecimentos de recurso prompto só recebem joias e objectos de alto valor. O pobre, quando muito, possue o collar que enfeita o pescoço do filhinho, as bixas modestas da esposa, um relogio de prata para marcar a hora do trabalho--tudo isso que vale?! Entretanto vá o senhor a um dos leilões das casas de emprestimos e ha de ver--braceletes preciosissimos, solitarios offuscantes, diademas, chuveiros, toda a joalheria fidalga e cara, porque a outra nem sequer é apreçada. O pobre vai aos belchiores e não empenha, vende: o casaco dos domingos, a cama em que lhe nasceram os filhos, o oratorio dos santos protectores. Logo: quem empenha? os remediados, os ricos, para manutenção da apparencia. E perorou iracundo: o prego é uma instituição do luxo, fomenta o vicio e a hypocrisia. Iamos entrar em outras analyses quando o commendador Bessa, a conselho de meu tio, veiu tirar-me para uma valsa com a Ex.ᵐᵃ Snr.ᵃ D. Adelaide Fogget, esposa de um importador. Dancei e suei. E chamaram-nos para a ceia.
Lauta e facunda, bons vinhos e tropos. Falaram todos, menos eu, que fujo á exhibição. D’entre os muitos discursos inspirados ficou-me o de um Bartholomeu de tal, gordo e curto, homemzinho redondo, um frasco. Louvou e bebeu com emphase; ao fim da terceira taça, rematou: que o commendador era da massa de D. João de Castro e explicou o parallelo. Perdi, infelizmente, a explicação porque Mlle. Delphina, que distribuiu os lugares, fez com que eu ficasse entre a contralto e o deputado opposicionista, de modo que, durante o transbordamento da facundia, os arroubos melomanicos da direita e as invectivas da esquerda distrahiram-me, ella que me dizia, com os olhos em alvo, que depois do _Vorrei morire_, só a morte, e elle que soprava maliciosamente aos meus ouvidos: Que áquillo só faltava o retrato a oleo.
Uma balburdia chamou a nossa attenção applicada á ironia--era entre as senhoras. Todas as damas pediam ao deputado que respondesse por ellas ao brinde do pharmaceutico, que saudara na mulher a joia mais delicada sahida das mãos do Creador. E o deputado, mastigando, ás pressas, uma febra de presunto, empunhou a taça e disse coisas lindas, agradecendo em nome do sexo feminino. Depois da ceia (dezoito brindes e duas taças quebradas para que nunca mais concorressem a elevação dos dotes de um mortal, á mesa) voltámos ás danças.
Grande coisa a vida! Já não baixo á terra fria sem o supremo gozo de ter passado uma noite em sociedade. Como é divertido um baile... Oh! simplicidade do meu campo, oh! cateretês da minha serra ingenua...! Ó noites no rancho, á beira da estrada, com a luz do luar, o bom cheiro dos bogaris abertos e a cantilena do serrano, ao som da viola, emquanto os curiangús contentes saltam piando na estrada lisa...
Recolhi-me com a noite--ella a desapparecer no céu, eu a mergulhar nos lençoes, estafado e triste. Acordei ás tres da tarde, moído. Meu tio, mal soube que eu abrira os olhos, subiu ao meu quarto para dizer-me que o doutor estivera com elle; e deu-me um cartão. Li; era laconico e generoso.
«Meu caro:
Vim trazer-lhe o abraço de despedida. Parto para Belém no comboio da tarde. O meu caseiro escreveu-me, relativamente á venda de uma porcada (é o termo). Vou á verdade da vida--o interesse. Tenho um sitio e consolo-me das durezas e dos desenganos deste mundo cultivando rosas e criando porcos: o perfume e a linguiça, a floricultura amada dos atticos e o suino repellido pelo Koran. Levo commigo um livro seu que achei sobre um dunkerque: Eschylo. É um scaphandro para garantir o espirito. Boa viagem.
Sempre affectuoso _Gomes_.»
--Então, meu tio, exclamei radiante, elle não levou a mal os murros...?
--Ora... A italiana não me atirou ao rosto _Amor e Psyché_, e eu?... Deixa-te disso. O mundo é um jogo de concessões. Deste-lhe um murro, amanhan ou depois elle t’o restituirá. Isto é assim. E, sem transição, cravou os seus olhos empapuçados no meu rosto: estava terno como uma mulher amorosa:
--Anselmo, porque não te formas? Não temos na familia um homem de sciencia...
Arrisquei o nome de meu tio padre--Cleofano Ribas...
--Cleofano... nem para missas! Temos aqui uma academia livre, estás prompto em humanidades, sabes latim, que é a palavra de honra de convicção nas tribunas; porque não te matriculas? Em dois annos podes estar formado. Ficas commigo. Que diabo! é preciso que eu faça alguma coisa pela patria--quero deixar-lhe um bacharel.
--Mas meu pai é contrario ás cartas. Desde que lhe receitaram tartaro para uma congestão hepatica tem horror aos homens formados.
--Teu pai é um misanthropo.
--Alceste, comparei sorrindo.
--Qual Alceste, nem meio Alceste. E serio: Que Alceste?
--De Molière, meu tio.
--Ah! pensei que era o das loterias, esse é um excellente homem. Mas voltou logo á questão: Se queres escrevo a teu pai?
--Tente, meu tio.
Fiquei só na varanda emquanto Serapião Ribas, no seu gabinete, tratava de converter o irmão com uma longa epistola sobre o meu futuro.
E o resto da ultima tarde foi de inenarravel tristeza. Os passaros pareciam chorar adeuses e havia no rumor vesperal dos ramos do jardim e na agua da rega, que jorrava sobre os canteiros, o suave e blandicioso timbre de uma voz conhecida que me dizia, queixosa:
--Porque partes, ingrato? E eu? e o nosso amor?...
--É impossivel, Jesuina, comprei passagem de ida e volta, disse enlevado.
--Que é isso, rapaz? estás falando só?
--Não, meu tio, falo com a minha illusão.
E a noite veiu funebre, mas rutilante de astros.
Ás quatro da manhan, cantavam os gallos pelos quintaes, quando o criado bateu á porta do meu quarto avisando-me--que o carro estava prompto.
A lua viu-me atravessar o jardim e ella que conte os adeuses que fiz, mais tristes do que os de Boabdil á Granada. E emquanto durou a corrida, só tu, Jesuina, só tu, doce amor, mereceste os meus suspiros.
XIV
Tu, imprudente moço da parabola messianica, tu, de certo, sentiste, voltando ao lar, desilludido e pobre, a mesma impressão que me feriu o espirito quando, abrindo os olhos á luz clara da manhan, reconheci o meu quarto modesto, alvo como uma cella monastica, ornado singelamente com os meus instrumentos de caça. Ao fundo, num velho armario tosco, os livros das minhas leituras ao lado da mesa ampla e pesada das minhas meditações.
Coisas minimas para as quaes raramente se voltavam meus olhos, como as mirei extasiado! E que prazer em folhear brochuras, em reler fragmentos, em passar a mão pelos couros estirados nos muros claros! E quem diria que eu, tão exigente outr’ora, achando infecto esse jornalesco patricio o _Phanal de Tamanduá_, havia de ler, desde o artigo de fundo sobre a questão do casamento do Braz Lamenha, infenso ao pretor e á lei, redigido pelo meu venerando mestre o reverendo Coriolano, até o annuncio do bazar do Pindella. Decididamente não ha nada para revigorar o amor como a saudade.
Os rumores deliciavam-me e enterneciam-me--deixei-me estar muito tempo a ouvir o chofrar das aguas do moinho, perto do meu quarto, e descobri um encanto divino no balido das ovelhas que erravam pelos caminhos.
Leve, longinquo, soava o sino da parochia, ora brando, ora forte, conforme a brisa e nasceu-me uma estranha curiosidade de saber se aquelles toques, que vinham pela manhan limpida, sonoros e festivaes, eram por algum santo ou pelo baptismo de mais um sertanejo. Mas, acalmando-me, entrei por uma duvida incoercivel recapitulando a vida fantastica desses oito dias aventurosos, que tão depressa correram. Pareceu-me que jámais passara além das montanhas levemente esfumadas no horizonte, reduzi essa viagem da minha imaginação a uma simples sortida de caça--a mesma fadiga que eu sentia era natural depois de tantas escaladas atrevidas, depois de tantos saltos temerarios, ravinas acima, penhascos abaixo.
Que trazia eu que me demonstrasse ter vivido nessa cidade de luxo e de vicio, tão celebrada entre serras pelos que, uma vez, pisaram as suas ruas e admiraram o seu fausto? Que trazia eu como documentos affirmativos? a carta de meu tio...? Sim, era uma verdade a carta, tanto que arrancara a meu pai estas profundas palavras cheias de sabedoria: «Que eu me deixasse de sonhos. Que me dedicasse á terra, que é uma fonte perenne de riqueza, porque neste paiz a lavoura é que rende, e citou a phrase do estadista--isto é «um paiz essencialmente agricola» aconselhando-me que não a perdesse de memoria. Tudo mais, vaidade das vaidades.» E ajuntou: «que mais valia ter uma junta de bois e uma charrua para sulcar o solo do que todas as cartas das congregações. E, por fim, lembrou que a terra não produz perfidias nem calumnias e que viver entre as arvores é bem melhor do que viver entre os homens.» Convenci-me e decidi ficar no campo, lavrando.
Sonha-se tanto! Já uma vez sonhei que era amante de Cleopatra. Vivi dois longos mezes felizes, de amor lascivo e de festas com a formosa rainha que me chamava: Ri-Ri.
Com ella enlaçado subi o Nilo muitas vezes, numa barca de cedro, que tinha um cysne de ouro á prôa. Charmion sempre mimosa, cuidava dos meus cabellos lavando-os em essencias que vinham da Ethiopia e, até hoje, guardo a physionomia simiesca de um retinto nubio de nome André, (coisa estranha, nome exotico na terra de Isis), que era o encarregado de encher o rython de prata por onde bebiamos, Cleopatra e eu, e descia a comprar-me cigarros quando me faltavam.
André...! é uma figura indelevel na minha memoria. Entretanto foi tudo sonho; porque, se a propria rainha, desligando-se das tiras com que os embalsamadores a prenderam, quebrando o seu sarcophago, viesse dizer-me que me pertencera um dia, eu lhe diria brutalmente na face: Mentes como uma bruxa, filha dos Pharaós! Sonho, puro sonho. Com o Rio não se teria dado o mesmo phenomeno? Porque a verdade é que todos quantos caminharam pelas ruas da cidade excelsa gabam-lhe as maravilhas e de todos ouvi narrações de aventuras que eu, nem mesmo em sonho, concebi: mulheres que desciam a entregar-se, arrulhando entre limoeiros em flor; outras, mais abrasadas, que, em furor de ciume, ameaçavam com escandalos e punhaes, e noites delirantes e mil coisas que os persas imaginosos não incluiram nos contos de Scherazada.
Eu só não vivi: atravessei o Rio como uma sombra perdendo o fio do prazer quando já o tinha seguro e vendo differentemente de todos, atravéz do meu tedio e do meu sonho.
Assim foi que achei a rua do Ouvidor infima e acanhada; assim foi que abandonei o jogo no momento em que começava a accumular; assim foi que apenas provei o beijo de Jesuina e perdi a viuva. Todos os factos experimentados, sem remate, interrompidos em meio, justamente como nos sonhos. Seria embriaguez?... Teria eu atravessado toda uma semana bebedo como Pedro _Macaco_, que confunde os dias com as noites e não tem, desde muito, a noção exacta do tempo? Não creio. Sonhei, foi sonho decididamente. É assim quando sonho, sempre ha de vir uma mulher para suppliciar-me: foi Cleopatra primeiro, amei-a muito e passou; agora Jesuina.
A vida é um sonho. Quem sabe se não sonhei? Mas lá fóra ha uma voz que indaga--se cheguei do Rio. É Simão Carreira, sempre rouco, o mavioso lyrico. Então não, não é sonho.
Não ha nada mais real do que um poeta e Simão que pergunta se cheguei é porque sabe que parti. Então os sonhadores são outros que me fizeram a descripção do Rio, sonhadores ou mentirosos, sonhadores, em summa, porque a mentira é um producto de sonho. Mas Jesuina!? Foi sonho como Cleopatra, como Charmion, como o nubio André. _Dreams! Dreams! Dreams!_
E a vida é isto: sonho ou tedio. Antes sonhar.